
E o Vento Levou

Margaret Mitchell




PRIMEIRA PARTE

SCARLETT O'HARA no seria bela, mas s muito raramente os homens davam por isso quando
seduzidos pelo seu encanto pessoal, como era o caso dos gmeos Tarletons. No seu rosto
combinavam-se em contraste flagrante as feies suaves da me, aristocrata do litoral, de origem
francesa e os traos grosseiros do pai, irlands vermelhusco. Contudo, era deveras interessante, com
a sua carinha de maxilares fortes e queixo aguado. Os olhos, de um verde-plido em que no se
vislumbrava a mais leve tonalidade castanha, brilhavam em duas molduras de pestanas negras,
sedosas, levemente arqueadas nas extremidades. A coro-los, as sobrancelhas cor de bano,
espesgas e oblquas destacavam-se de forma surpreendente sobre a tez de magnlia - o tom de ctis
que as mulheres do Sul tanto apreciam e to cuidadosamente protegem do sol ardente de Gergia,
com chapus, vus e miberies.
Formava um quadro encantador, sentada com Stuart e Brent Tarleton  sombra fresca do alpendre 
da Tara a fazenda do pai - naquela tarde radiosa de Abril de 1861. 
O vestido novo de casisa verde, florida, em cuja confeco tinham sido empregados doze metros de 
tecido, caa-lhe s mil maravilhas sobre a volumosa saia de balo e condizia perfeitamente com os 
sapatinhos rasos de marroquim, que o pai lhe tinha trazido de Atlanta, pouco tempo antes, 0 vestido 
realava-lhe a esbelteza da cintura' a mais fina das redondezas; o corpete justo revelava seios bem 
desenvolvidos para os seus dezesseis anos: Mas, no obstante a simplicidade da saia, rodada, a 
maneira modesta como usava o cabelo, enrolado sobre a nuca, e a quietude das pequeninas mos 
brancas que lhe repousavam, cruzadas, no regao, a sua verdadeira personalidade conseguia 
sobressair. Apesar da expresso calma que a fisionomia normalmente ostentava, os olhos dela eram 
irrequietos, voluntariosos, cheios de vida, o que estava em completo desacordo, com a sua atitude 
recatada, As maneiras discretas, estudadas, tinham-lhe sido impostas pelas suaves represses 
maternas e pela disciplina mais dura que a ama preta a fizera observar; mas os olhos eram dela,
muito seus, a ela obedeciam.
Os gmeos ladeavam-na, comodamente instalados em espreguiadeiras entortando os olhos para o
sol, atravs dos copos altos dos refrescos cruzando negligentemente as pernas, metidas em botas de
montar abotoadas at ao joelho, que quase estalavam sob a presso dos msculos que escondiam e
eram fruto de longa prtica na sela. Com dezenove anos de idade, um metro e noventa de altura,
ossatura alongada e msculos rijos, faces queimadas pelo sol e cabelos castanhos arruivados, olhos
sorridentes e arrogantes, e o corpo envolto em identicos casacos azuis e cales cor de mostarda,
esses irmos pareciam-se como duas gotas de gua.
Enquanto os trs riam e conversavam, o Sol ia descendo l fora, no ptio, derramando luz dourada 
sobre os noveleiros cobertos ento de massas compactas de flores brancas, que se recostavam sobre 
o fundo verde-claro da folhagem. As montadas dos dois gmeos, amarradas a duas rvores da 
majestosa alameda eram animais corpulentos de plo semelhante  cor do 6belo dos donos; entre as 
pernas dos alazes brigavam os galgos, possantes e nervosos 'que acompanhavam Stuart e Brent 
por toda a parte. Um pouco mais longe como convinha a um aristocrata, um co malhado 
descansava o focinho sobre as patas, aguardando pacientemente que os gmeos voltassem para casa, 
a fim de jantar. 
Entre os cavalos, os ces e os dois irmos havia algo de mais profundo que os laos criados por uma 
convivncia quase constante. Possuam traos comuns: eram todos eles animais juvenis e sadios, 
fortes impetuosos, guapos, que viviam despreocupadamente; e, embora os rapazes fossem to 
fogosos como os alazes que montavam, to fogosos e perigosos, isso no impedia que se 
tornassem mansos e dceis quando manobrados por mos hbeis. 
Ap@sar de a infncia dos.trs jovens que conversavam debaixo do alpendre haver decorrido no 
ambiente calmo das fazendas, sob a vigilncia permanente duma criadagem solcita que lhes 
satisfazia todos os desejos, os seus rostos no denotavam o mais leve vestgio de fraqueza ou de 
brandura. Tinham a, vivacidade e a energia caractersticas das pessoas que passam os dias ao ar 
livre e pouco se preocupam com os problemas enfadonhos de que os livros traio 
tam. A vida na comarca de Clayton, ao norte de Gergia, continuava a ser a mesma, uma vida 
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simples e, segundo o padro de Augusta, Savarinali e Charleston, um tanto rstica. Os habitantes 
das comarcas mais antigas do Sul, indivduos avisados e circunspectos, torciam o nariz aos, 
fazerideiros do Norte; mas ali, na zona setentrional de Gergia, a ausncia dos requintes de uma 
educao clssica no desprestigiava ningum, contanto que se fosse conhecedor das coisas que na 
realidade interessavam. E cultivar bom algodo, montar com destreza, atirar bem, danar com 
elegncia, mostrar-se delicado, no trato com as senhoras e aguentar o, lcool como um fidalgo, era 
de facto o que interessava. 
Ambos os gmeos manifestavam em todos estes captulos uma capacidade notria, -como notria 
era tambm a sua, incapacidade para'assimilar o contedo dos livros, fosse qual fosse o assunto 
neles versado. A famlia Tarleton tinha mais dinheiro, mais -cavalos, mais escravos do que qualquer 
outra da comarca, mas os dois rapazes eram incontestvelmente muito menos cultos do que a 
maioria dos seus vizinhos, que viviam na pobreza. 
Era precisamente por essa razo que Stuart e Brent se encontravam naquele momento sob o 
alpendre de Tara, naquela tarde de Abril. cabavam de ser expulsos da Universidade de Gergia, a 
quarta que os havia recambiado para a casa paterna no curto espao de dois anos; e os dois irmos 
mais velhos 'Tom e Boyd, tinham regressado juntamente com eles, pois que de forma alguma lhes 
agradaria prosseguir os estudos numa instituio em que os gmeos eram mal vistos, Stuart e Brent 
teciam os mais jocosos comentrios em torno da sua recente expulso e Scarlett, que de sua livre 
vontade no tornaria a abrir um livro desde que abandonara a Academia Feminina de Fayetteville 
' um ano antes, encarava o acontecimento com o mesmo bom humor dos companheiros. 
- Sei perfeitamente que vocs os dois no ligam importncia nenhuma ao caso, e que Tom tambm 
se no deve ralar muito com isso -disse ela. - Boyd  que com certeza, 
ficou furioso. Est disposto a tirar um cur@o e vocs ambos j o obrigaram a sair das 
Universidades de Virgnia, de Alabama, de Carolina do Sul.e,, agora, de Gergia. Por esse andar, 
nunca mais conseguira chegar ao fim. . . 
-Ora, ele pode muito bem e@udar Direito com o Julz 
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Parmalee, em Fayetteville -respondeu Brent.- Alis, isso verdadeiramente no importa. F~ como 
fosse, teramos de voltar para csa antes quk,- o perodo acabasse. 
- Porqu? 
- Por causa da guerra, tolinha! Est prestes a rebentar, e voc decerto no nos supe capazes de 
continuarmos tranquilamente na Faculdade com toda a gente aos tiros c por fora, pois no? 
- Sabe muito bem que no haver guerra nenhuma 
- ripostou Searlett, aborrecida. - Isso  tudo conversa, nada mais. Ainda a semana passada, Ashley 
Wilkes e o pai afirmaram c em casa, que os nossos delegados em Washington chegariam a um... a 
um acordo amigvel com o senhor LincoIn sobre a Confederao. E, alm do mais, os yankees tm 
demasiado medo de ns para se atreverem a dar-nos luta. No haver guerra nenhuma e, se querem 
que lhes diga, j estou farta de ouvir falar nisso. 
-No haver guerra nenhuma? -exclamaram os gmeos, indignados, como se algum acabasse de os 
defraudar. 
- No diga isso Scarlett - redarguiu Stuart, instantes depois. - No pode@ deixar de haver guerra.  
certo que os yankees nos temem a valer, mas depois de o general Beauregard os ter expulsado a tiro 
do Forte Suniter, anteontem, no tero outro remdio seno pegar em armas se quiserem evitar que 
toda a gente lhes chame cobardes. E a Confederao... @,a-1eU f. uma careta de impacincia. 
- Se voltam a falar em guerra mais uma vez que seja, garanto-lhes que vou para casa e que fecho a 
porta. Alm da palavra guerra s h outra que me causa to grande aborrecimento: Secesso. O meu 
pai leva o dia inteiro a falar na guerra e os homens que vm visit-lo, parecem todos exclusivamente 
preocupados em discutir a questo do Forte Suniter, os Direitos Estaduais e a poltica de Abraham 
Lincoln. Fico to saturada de os ouvir que s vezes at me d vontade de gritar. E os rapazes 
tambm no falam seno da guerra e do Regimento. J nesta Primavera ningum se divertiu, pois 
que os moos at durante as festas nos maavam com as suas teorias acerca da situao. Por isso, j 
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sabem: se repetem a palavra guerra,. nem que seja apenas mais uma vez vou-me embora. 
E estava resolvida a faz-lo porque Scarlett no podia tolerar durante muito tempo uma conversa de 
que no 
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fosse ela o foco Principal. No entanto, sorriu ao dizer aquilo, acentuando propositadamente as 
covinhas do rosto e batendo as plpebras de pestanas negras e sedosas, que mais pareciam as asa; 
frementes de urna borboleta. Os gmeos ficaram encantados -precisamente o que ela pretendia - e 
apressaram-se a pedir-lhe desculpa de estarem a enfad-la. Contudo, no ficaram mal 
impressionados em face do desinteresse demonstrado por ela. Muito pelo contrrio. A guerra, era 
um assunto que no competia s mulheres discutir, mas sim aos homens, e os dois rapazes viram na 
atitude da sua graciosa companheira uma prova da feminilidade que devia ser apangio de todas as 
rapargas.. 
Tendo conseguido desta forma desviar a conversa do tema desagradvel em perspectiva, Scarlett, 
procurou interessar-se novamente pela sorte dos dois gmeos. 
- Que lhes disse a me quando soube que vocs: tinham sido expulsos outra vez? 
Os -rapazes entreolharam-se, contrafeitos, recordando com certa inquietao a recepo que a me 
lhes dispensara trs meses antes, quando tinham voltado para casa a pedido do reitor da 
Universidade de Virgnia. 
- Ora... - respondeu Stuart - para lhe falar com f ranqueza, ela ainda no teve ocasio de nos dizer 
nada. Tom saiu de casa connosco, de manh cedo antes de a me se levantar e foi passar o dia com 
os F@ntajne. Ns viemos para aqui... 
-E quando chegaram, ontem  noite, no disse nada? 
- Ontem  noite, tivemos urna sorte dos demnios. Chegmos pouco depois de terem ido entregar l 
a casa o garanho que a me comprou em Kentucky o ms passado, e estava tudo em rebulio, 0 
animal  um colosso, Scarlett. H-de dizer ao seu pai que o v ver quanto antes. Durante o caminho 
deu urna dentada no brao do moo que o conduzia e arrancou-lhe um pedao. de carne. Alm 
disso, atropelou os dois moleques que a nossa me mandou  estao -de Jonesboro a fim de 
esperarem o comboio, e quase deitou abaixo a @@trebaria. Acertou uma parelha de coices em 
Strawberry, velho garanho da fazenda,_que por um triz o no matou. Quando ns entrmos, a mae 
estava na cavalaria com um saco de acar, tentando acalmar o bicho, de tal maneira que gostava 
que voc a visse. os moleques tinham trepado para os barrotes do tecto, apavorados, mas 
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- @__ @_-Uw 
a me falava com o cavalo corno se estivesse tratando cora uma criana mimalha e punha na palma 
da mo torres de aacar, que ele comia gulosamente, No h ningum que saiba lidar com 
cavaloscomo, a nossa me! Quando ela nos viu, perguntou apenas: "Santo Deus que fazem vocs os 
quatro outra vez em casa nesta altur'a do ano? So Piores do que as pragas do, Eg'lpto!" Mas o 
animal comeou a relinchar e a fazer marcha-atrs e a me pouco mais nos disse. "Vo-se embora, 
vo-se embora. No vem que o cavalo j est nervoso coitadinho? Amanh de manh, falaremos". 
Fomo-nos'eitar, imediatamente e hoje, mal a,ni,anheceu, levantmo-nos os trs, antes que ela fosse 
tratar-nos da sade, e deixmos Boyd incumbido de acalmar as iras maternas. 
-'Acham que a me bater em Boyd? Como sucedia com to-da a populao da comarca, tambm 
Searlett nunca lograra compreender a maneira rude como a pequenina senhora Tarleton tratava os 
filhos, homens j feitos, a ponto de os castigar com o chicote sempre que as faltas comet@das 
assumiam a seus olhos aspectos graves. 
Beatrice Tarleton era uma mulher que andava sempre atarefada com w afazeres domsticos, pois 
tinha a seu cargo no s uma extensa plantao de algodo, unia centena de escravos e oito filhos 
mas tambm a maior coudelaria de todo o Estado. De g@nio fcilmente irritvel, no 
podia. conformar-se com as frequentes expulses dos filhos, e ra a ningum permitisse vergastar 
um negro ou um c@veMaI@era de opinio de que uma chicotada de vez em 
quando no fazia mal nenhum aos rapazes. 
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-Tenho a certeza de que nem sequer lhe tocar. Ela nunca gostou de bater em Boyd, talvez por ser o 
hiais velho e tambm o mais pequeno da ninhada - afirmou Stuart, muito ufano da sua estatura. -Foi 
por isso que o incumbimos de explicar tudo  me, Corri franqueza,  tempo de 
perder a in-ania de nos chicotear! Ns j fizemos dezanove anos e Tom tem vinte e um; apesar 
disso, trata~rios como 
se ainda usssemos cales. tar o novo garanho, 
-A me de vocs tenciona mon para ir  festa em casa dos Wllkes, amanh? 
- Est com vontade disso, mas o meu pai diz que  um 
perigo. Seja como for, estou certo de que as nossas irms a dissuadiro da ideia, Ainda no 
desistiram de a conven- 
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cer a '!.r, pelo menos a uma festa, de carruagem, como compete a uma senhora. 
- Espero que no chova amanh - disse Scarlett. - 
H uma semana que chove todos os dias. No h nada pior do que uma festa ao ar livre 
transformada  ltima hora num piquenique dentro de quatro paredes, 
-Oh, amanh vai estar um dia lindo e quente, como os dias de Junho! - declarou Stuart. - lhe para o 
cu. J viu como est vermelho? Parece mesmo cor de fogo. No  difcil fazer a previso do tempo 
pelo pr-do-Sol. 
Olharam atravs da extenso imensa dos campos de algodo de Gerald O'Hara, recenternente arados 
'e contemplaram o horizonte encarniado. Agora que o Sol estava prestes a sumir-se atrs das 
colinas, para l do rio Flint, * calor tpido daquela tarde de Abril comeava a dar lugar * uma brisa 
suave e fresca. 
A Primavera. tinha chegado cedo nesse ano, apressando com as suaschuvas quentes 'de breve 
durao, -a florao Idos pessegueiros e dos noveleiros, cujos botes rosados se destacavam como 
estrelas brancas na superfcie escura do rio e nas colinas distantes. A lavra estava quase terminada e 
o esplendor sangrento do crepsculo intensificava os tons purpreos dos novos sulcos abertos no 
solo argiloso de Ge6rgia. A terra hmida, que aguardava com avidez as sementes do algodo, 
apresentava tons levemente rosados ao longo das leiras, enquanto nas trincheiras urna srie de 
tonalidades escalonadas entre o vermelho e o castanho formavam sombras intensas. A residncia 
dos O'Haras, casa de tijolo, calada de branco, fazia lembrar uma ilhota perdida em mar revolto, num 
oceano rubro em que as ondas se continuavam em espirais gigantescas e que pM-ela ter-se 
petrificado no momento em que as vagas, de cristas cor-de-rosa, se quebravam sobre a sua 
superfcie. Porque ali no se viam as leiras rasgadas em linha recta, como nos campos de argila 
amarelada de Ge6rgia Central, onde o terreno no era to acidentado, e nas vastas planuras de terra 
castanha-escura das regies costeiras. Nas comarcas de Gergia Setentrional, cujo solo se 
desdobrava em cadelas ininterruptas de colinas e outeiros, as fazendas eram lavradas segundo linhas 
curvas, para evitar que as guas das chuvas arrastassem a terra fecunda ao longo das encostas, 
deixando-a perder-se no rio. 
Era uma regio trrida e agreste, cuja terra adquiria 
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cor de sangue depois das chuvas e se cobria de poeira cor de tijolo aps as secas prolongadas; 
contudo, no havia no mundo inteiro outra como aquela para cultivar algodo. Na imensido dos 
campos, erguiam-se as minsculas casas dos fazendeiros, sucediam-se os terrenos de cultivo 
deslizavam rios preguiosos, de guas amarelentas. A palsagem, oferecia os mais diversos 
contrastes, alterando as sombras acolhedoras com os soalheiros inspitos. Os lavrados para as 
plantaes e os terrenos de cultivo sorriam para um sol abrasador, plcido e complacente. A cerclos, 
quais molduras verdejantes, erguiam-se florestas virgens, sombrias e frescas, mesmo nas tardes 
mais clidas, levemente sinis-tras, impregnadas de mistrio e pinhais sussurrantes, que pareciam 
espreitar, com um@ pacincia secular o ensejo de realizarem a ameaa que segredavam, baixinho: 
"Cuidado! Cuidado! Essa terra j foi nossa. Havemos de a recuperar um dia!" 
Aos ouvidos da rapariga e dos dois rapazes chegavam os rudos dos cascos dos animais no solo, o 
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tilintar das correntes dos arreios e o riso agudo e descuidado dos pretos,, que regressavam dos 
campos, conduzindo as parelhas de muares. No interior da casa, soou a voz suave da me de 
Scarlett, Ellen O'Hara'chamando  negrinha que trazia a cesta das chaves. Respondeu-lhe uma 
vozita infantil e estridente. "J vai, sinhora". Seguiu-se-lhe um rumor de passos que se 
encaminhavam para a porta das traseiras, em direco  despensa, onde Ellen distribuiria as raes 
aos trabal-hadores que se aproximavam. Dentro de casa elevava-se tambm o tinir da loua de 
porcelana e dos talheres de prata que o copeiro de Tara de nome Pork, punha, na mesa o@de mais 
tarde seria serv'ido o. jantar. 
Ao ouvirem estes rudos, os dois irmos compreenderam que j eram horas de regressar a casa. Mas 
estavam com receio de enfrentar a me e retardaram a partida, pensando que talvez Scarlett se 
decidissea convid-los para o jantar. 
- Escute, Scarlett - disse Brent. - 0 facto de termos estado fora, e de ignorarmos que os W11kes iam 
dar uma festa amanh, no a impede de danar connosco vrias vezes, no  verdade? Ainda no 
prometeu todas as valsas, pois no? 
- Prometi, pois! Como havia, eu de adivinhar que ch gavam ontem? No podia arriscar-me a 
servir de jarro por causa de vocs. 
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-Servir de jarro? Os rapazes riram s gargalhadas. 
- Seja como for, tem de reservar a primeira valsa para mim e a ltima para Stuart. Alm disso, 
queremos que nos faa companhia durante a, ceia. Iremos sentar-nos no pata- @nar da escada., 
como fizemos no ltimo baile, e pediremos a velha Jiney que nos leia a sina, 
-No gosto que Jincy me leia a sina. Bem sabem que ela me disse da outra vez que eu havia de casar 
com um homem de cabelo preto como azeviche e de bigodes grandes, e eu detesto os homens de 
cabelo preto. 
- Prefere os ruivos, no ? - perguntou Brent, com um sorriso feliz. - Vamos, prometa que danar 
connosco todas as valsas e que nos far companhia  ceia. 
- Se prometer, contar-lhe-emos um segredo - acrescentou Stuart. 
-Que segredo ?-inquiriu Scarlett, manifestando curiosidade infantil. 
-Referes-te ao que nos disseram ontem em Atlanta, Stuart? Se  isso, lembra-te de que prometemos 
no revelar nada a ningum. 
- Foi uma coisa que a senhora Pitty nos disse. 
- Senhora qu? 
- Pittypat, Hamilton, tia de Charles e de Melanie Hamilton, que vive em Atlanta. Conhece, no 
conhece?  prima de AshIey Wilkes... 
- Conheo muito bem e confesso que nunca encontrei uma velha assim to estpida, em toda a 
minha- vida. 
- Estivemos a conversar com ela ontem  porta da estao de Atlanta., enquanto espervamos pelo 
comboio. Ia a passar na sua carruagem quando nos avistou, e deteve-se uns minutos a falar 
connosco. Foi nessa altura que nos disse que amanh, no baile dos Wilkes, ser oficialmente 
anunciado um casamento. 
-Ora, isso j eu sei h muito tempo -declarou Scarlett'sem ocultar a sua decepo. -Deve ser o idiota 
do sobrinho dela, Charles Hamiltou com Honey Wilkes. Toda a gente sabia h sculos que 
eles'acabariam por casar, mais cedo ou mais tarde, embora no se mostrassem muito entusiasmados 
com a ideia. 
- Acha que Charles  idiota? - perguntou Brent. - No entanto, ainda o ano passado, pelo Natal, voc 
deixava-O andar atrs de si. 
2 - Vento Levou -I 
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- Que havia eu de fazer? No o podia impedir de andar atrs de mim - redarguiu Scarlett, 
encolhendo os ombros negligentemente. - Que at o acho bastante efeminado. 
-Pois est enganada. No  o casamento dele que vai ser anunciado - ripostou Stuart, em tom de 
#
triunfo - mas sim o de AshIey Wilkes com a irm de Charles, Melanie Hamilton! 
A fisionomia de Scarlett no sofreu a mais leve alterao, mas os lbios tornaram-se-lhe brancos, 
como os de uma pessoa que, sem esperar, recebe um choque tremendo, e fica paralisada de surpresa 
durante alguns momentos, incapaz de compre@nder o que lhe aconteceu. Encarou Stuart com uma 
exproso to parada que o rapaz cuja perspiccia deixava muito a desejar, julgou que @ atitude dela 
traa apenas espanto e curiosidade. 
- A senhora, Pitty disse-nos que eles s tencionavam casar-se para o ano, porque a MeIly tem 
andado adoentada; mas, com todos estes boatos que correm acerca da guerra, ambas as famlias 
concordaram que seria conveniente apressar o enlace e resolveram anunci-lo amanh  noite, num 
dos intervalos da ceia. E, agora que j lhe contmos o segredo, voc tem de prometer que cear 
connosco... 
-Prometo-disse Scarlett, maquinalmente. -...E que nos conceder todas as valsas... 
- Est bem. 
-  uma jia! Aposto que toda a rapaziada vai ficar louca de raiva. 
- Que fique! - exclamou Brent. - Ns os dois szinhos, podemos muito bem com todos eles. Escute, 
Scarlett: Venha amanh pela manh, connosco, ver assar as reses. 
-0 qu? Stuart repetiu o pedido. 
- Como quiserem. Os gmeos entreolharam-se, radiantes, mas com certa surpresa. Embora se 
considerassem pretendentes privilegiados, a verdade  que nunca at ali tinham obtido com tanta 
facilidade provas to concludentes. Geralmente obrigava-os a pedir e a suplicar, recusando-se a 
dIzer-lh@s sim ou no, lanando-lhes a confuso no esprito, rindo se os via ficarem tristes, 
mostrando-se fria e altiva, se eles se irritavani. Contudo, Scarlett acabava de prometer dedicar- 
_lhes praticamente todo o seu dia. Prometera assistir ao espectculo das espetadas, danar com eles 
todas as valsas 
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(e tratariam de arranjar as coisas de forma que s tocassem valsas) e passar na sua companhia os 
intervalos da ceia. Como recompensa de terem sido expulsos da Universidade no podiam esperar 
melhor prmio, 
Arrastados pelo entusiasmo do xito alcanado, continuaram a conversar, esquecidos das horas, 
falando acerca da festa, do baile, de Astiley Wilkes e de Melane Hamilton, interrompendo-se 
mtuamente, gracejando e rindo dos seus ditos'mostrand<> claramente o desejo de que a rapariga os 
convidasse para jantar. S mais tarde repararam que Scarlett quase no havia falado. A atmosfera 
mudara, como e porqu no sabiam os gmeos explicar. Sabiam apenas que o encanto daquela tarde 
de Abril se extinguira de repente. Scarlett pouca ateno parecia prestar quilo que eles diziam, 
embora lhes respondesse sempre acertadamente. Cnscios de ter sucedido algo que no logravam 
perceber, desconcertados e aborrecidos, os dois irmos ainda se demoraram mais algum tempo, at 
que se levantaram com manifesta relutncia, consultando o relgio com olhares significativos e 
eloquentes. 
0 Sol estava prestes a desaparecer na linha do horizonte, lanando os derradeiros clares do dia 
sobre os campos lavrados de fresco. Os bosques densos e sombrios, que se estendiam para l do rio, 
recortavam uma silhueta negra, imensa, contra o fundo alaranjado do firmamento. As andorinhas, 
que tinham os seus ninhos na chamin, cruzavam velozmente o ptio de Tara em voos baixos, 
enquanto as galinhas 'os patos e os perus regressavam s capoeiras, vindos de todas as direces, 
bamboleando-se sobre as pernas curtas. 
Stuart cliamou: "Jeeros!" e no tardou que um preto, de estatura aproximadamente igual  deles e 
que aparentava a mesma idade, surgisse das traseiras da casa, correndo rpidamente em direco ao 
local onde os gmeos tinham deixado os alazes amarrados. Jeems era o pajem dos dois irmos e, 
como acontecia com os ces, tambm ele os seguia para toda a parte, Fora-lhes oferecido para 
companheiro de folguedos, ao completarem o seu dcimo aniversrio natalcio. Ao verem-no 
aproximar-se, os galgos puseram-se de p, sacudindo a poeira avermelhada que se lhes agarrara ao 
plo enquanto aguardavam arhegada dos donas. Stuart e Bren despediram-se de Scarlett com uma 
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ligeira vnia e 
um aperto de mo, e no se retiraram sem lhe dizerem que 
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iriam cedo para casa dos Wilkes, a fim de esperarem por ela. Em seguida, encaminharam-se  
pressa ao longo da alameda orlada de cedros, montaram nos cavalos e partiram em galope 
desenfreado, acenando-lhe com o chapu e gritando-lhe palavras de adeus, 
Assim que acabaram de descrever a curva da estrada poeirenta que lhes ocultou a casa dos O'Haras, 
Brent fez estacar a sua montada sob um macio de noveleiros e Stuart imitou o irmo, enquanto o 
pajem negro se imobilizava alguns passos mais atrs. Os cavalos, sentindo as rdeas folgadas, 
curvaram o pescoo para comerem a erva tenra e os galgos, armapdo-se de toda a sua pacincia, 
tornaram a deitar-se no leito poeirento da estrada, observando com olhares vidos as andorinhas que 
evolucionavam rente s rvores, sobre as quais o crepsculo vespertino faza descer j as primeiras 
sombras, Brent tinha estampada no rosto largo e ingnuo uma expresso intrigada, em que se lia 
tambm leve indignao, 
- Ouve - disse ele para o irmo - no te parece que Scarlett devia ter-nos convidado para jantar? 
- Decerto - respondeu Stuart. - Ainda esperei que ela tivesse essa ateno, mas foi o que se viu. - 
Como interpretas a sua atitude? 
-De maneira nenhuma. No percebo. Na minha opinio, ela no foi l muito delicada para 
connosco, nesse ponto. Tanto mais que j no nos via h bastante tempo. E ns ainda tnhamos um 
ror de coisas para lhe contar. 
-Tive a impresso de que Scarlett, ficou deveras satis-feita quando nos viu aparecer. 
-Tambm eu. -E, no entanto, h questo de meia hora, como que perdeu a fala. 
-Tambm reparei nisso, mas confesso que no liguei importncia. Ter-se- ela sentido mal, de 
repente? 
-No fao deia. Ns no dissemos nada que pudesse t-la aborrecido, pois no? 
Quedaram-se ambos a ponderar esta hiptese. -Creio que no. Alis, quando Scarlett se aborrece 
com algum, v-se logo. Ela no se d ao trabalho de disfarar 
o seu enfado, como a maioria das raparigas costuma fazer. 
-Tens razo.  essa justamente uma das coisas que mais me agradam nela. Scarlett diz na cara das 
pessoas aquilo que sente - no usa de fingimentos ou de subterf- 
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gios. Contudo, suponho que foi alguma coisa que ns lhe dissemos ou fizemos que provocou aquela 
reaco. Calou-se de repente, como se estivesse com uma dor de cabea horrvel, e depois disso no 
tornou prticamente a falar. Eu era capaz de jurar que a nossa vinda lhe causou grande alegria e que 
ela tencionava na realidade convidar-nos para o jantar. 
- Quem sabe se no foi por termos sido expulsos outra vez? 
- Que ideia 'meu Deus! No sejas tolo. Lembra-te s da maneira como ela se riu quando lhe 
contmos a nossa proeza. Scarlett tem tanto amor aos livros coffio, ns. 
Brent voltou-se na sela e chamou o preto: 
- Jeems! 
- Sinh? -Ouviste a nossa conversa com a menina Scarlett, no ouviste? 
-No ouvi nada, sinh Brent. No escuto, conversa de branco. 
- Deixa-te disso, homem! Vocs sabem tudo o que se diz. Sim 'e escusas de mentir, pois que eu te 
vi, com os meus lhos, agachado atrs do canteiro de jasrnins, junto  parede do prdio, um pouco 
para l do alpendre. Ouviste-nos dizer alguma coisa que pudesse ter ofendido ou irritado, a menina 
Scarlett? 
Vendo-se desmascarado, Jeems desistiu de continuar a fingir que no tinha ficado  escuta e franziu 
a testa negra e reluzente. 
- No, sinh, no <)uvi nada para deix ela de mau 
hum. Pareceu a mim que tava com sodades de sinhs e que fic contente por os v. Vi minina 
alegue como passalnho novo t os sinhs fal de,sinh Ashley cas com minina Melly. Depois disso 
#
ela ficou muda como pomba quando topa gavio avo. 
Os gmeos entreolharam-se e assentiram com a cabea, embora estivessem cada vez mais 
intrigados. 
- Jeems tem razo. Mas no compreendo o que aConteceu - confessou Stuart. - Meu Deus! AshIey 
no deve ser para ela mais do que um amigo. Scarlett no o ama, com certeza. Est doidinha por 
ns. 
Brent inclinou a cabea, num gesto de aquiescncia. 
- Talvez ela tenha ficado aborrecida pelo facto de Ashley no lhe haver participado a sua inteno 
de anunciar 
21 
o casamento amanh  noite - alvitrou. - Tu bem sabes como as raparigas so. Gostam de ser 
sempre as primeiras a saber estas coisas e ficam furiosas quando isso no acontece. Scarlett deve ter 
ido aos arames> por ver que Ashley, seu amigo h tantos anos, a no ps ao corrente da situao. 
-  possvel, mas como poderia ele p-la ao corrente da situao se. se tratava duma surpresa? Alm 
disso, a gente tem o, direito de guardar segredo daquilo que entende, no tem? Ns mesmos ainda 
no saberamos nada se a tia de Melly no houvesse dado com a lngua nos dentes. E Scarlett no 
devia ignorar que AshIey acabaria por casar com Melanie. J  tradicional nas duas famlias os 
primos casarem com as primas. Era certo e sabido que Ashley Wilkes desposaria Melanie Hamilton 
e  certo e sabido que Charles Hamilton desposar Honey Wilkes num futuro mais ou menos 
prximo. 
-Deixemos isso. Tenho pena de que ela no nos convid se para jantarmos l em casa. No me seduz 
nada a ideias de ter a me novamente  perna por havermos sido expulsos outra vez. Ela diz sempre 
a mesma histria; no 
4j forma de se habituar. 
- Talvez Boyd j tenha conseguido acalm-la um pouco. Conheces bem as falnhas mansas daquele 
mariola. Acaba, sempre por levar a me  certa. 
-L isso  verdade, mas s vezes demora bastante tempo, Lembra-te dos rodeios que Boyd tem de 
fazer e das complicaes que precisa de imaginar para obrigar a me 
* desistir de compreender o que aconteceu. E ento, com 
* cabea feita em gua, ela diz-lhe que se cale e aconselha-o a poupar a voz para os exames de 
Direito. A estas horas ainda ele no teve tempo de comear. A me est to excitada com o cavalo 
que comprou que s quando vir Boyd sentado  mesa para jantar  que se compenetrar de que j 
estamos de volta outra vez. E ento, no queiras saber. Vai ser o bom e o bonito. Ho-de bater as 
dez horas antes que Boyd consiga explicar-lhe que no seria decente que algum de ns continuasse 
na Faculdade depois -do que o reitor nos disse, a ti e a mim. E s por volta da meia-noite ter 
logrado virar a me do avesso contra o pobre do reitor, a ponto de ela lhe perguntar por que motivo 
no ferrou um tiro no patife do homem, Nada! No me atrevo a entrar em casa antes da meia-noite. 
Os dois irmos fitaram-se mtuamente, com olhares 
22 
sombrios. No tinham medo nenhum de montar cavalos selvagens, de provocar rixas ' de excitar 
contra eles a m--vontade da vizinhana, mas quase se finavam com receio da me, das suas 
repreenses severas e do chicote de montar, com que ela no tinha o menor escrpulo de lhes 
vergastar o lombo. 
-Ento, olha-sugeriu Brent-talvez no seja i-pai pensado irmos at casa dos W11kes. As pequenas 
ficaffio radiantes e no deixaro de nos-convidar para jantar. 
Stuart no se mostrou entusiasmado com a ideia, -No, acho melhor no irmos l. Devem estar 
atrapalhado@; com os preparativos para amanh e, alm disso... 
- Oh, diabo, nem de tal coisa me lembrava! - exclamou Breht, com vivacidade. -De facto, no 
convm irmos l. 
Esporearam a montada e galoparam em silncio, durante alguns minutos. As faces morenas de 
Stuart haviam-se ruborzadp de constrangimento, Stuart tinha namorado India Wilkes at meados 
#
do Vero transacto, de pleno acordo de ambas as famlias e de toda a populao da 
4-,omarca. Era opinio geral que o temperamento calmo e reservado de India Wilkes no deixaria 
de exercer sobre <3 gnio turbulento de Stuart Tarleton uma influncia benfica. Pelo menos, era 
isso que toda a gente desejava que sucedesse, E Stuart teria talvez acabado por desposar India se 
Brent se no houvesse mostrado pouco satisfeito com a ideia, Brk,-nt gostava da rapariga, mas 
achava~a tmida e demasiadamente simples circunstncia que a seus olhos representava um 
obstculo intransponvel, que o impedia de se apaixonar por ela e'consequentemente ,de fazer com 
panhia ao irmo. Foi essa a primeira vez que os interesses dos dois homens divergiram e Brent ficou 
de certo modo ressentido por ver o irmo fazer a. corte a uma rapariga que ele no considerava nada 
de especial. 
A situao foi-se todavia arrastando at que, uma bela tarde de Vero do ano anterior, os grneos; 
repararam em Scarlett O'Hara, durante um comcio poltico realizado num souto de carvalhos em 
Jonesboro, Conheciamna havia muitos anos e desde crianas que se tinham habituado a ver nela 
uma excelente companheira de folguedos pois Scarlett montava a cavalo e trepava s rvores quase 
@o bem como eles. Mas, de repente e com grande surpresa dos gmeos, a rapariga tinha-se feito 
mulher e uma mulher bonita e elegante, simptica como poucas. 
23 
S ento notaram como eram brilhantes e travessos os ,seus olhos verdes, como eram profundas as 
covinhas que se lhe cavavam nas faces, quando ria, como era fina a cintura, como eram deliciosas 
as mos e pequenos os ps. 
As inteligentes observaes deles desencadearam na jovem uma torrente de gargalhadas cristalinas 
e ' persuadidos de que ela os considerava um dueto notvel, excederam-se a si prprios. 
Aquele dia ficou memorvel na vida dos dois gmeos. Da em diante, no podiam record-lo sem 
pensar como havia sido possvel no terem reparado mais cedo nos encantos de Se rl tt C tudo, 
nunca lhes ocorreu a ideia de que ela nessa tar@'@ tho,'esse decidido tornar-se notada por eles. 
Scarlett no podia admitir a hiptese de que um homem se apaixonasse por outra mulher que no 
fosse ela, e a viso do par formado por Stuart Tarleton e India Wilkes durante o comcio em 
Jonesboro como que desafiara os seus instintos rapaces. No se contentando apenas com seduzir 
Stuart, resolveu tambm cativar Brent e de tal forma se houve que em breve ambos tinham 
ficadosob o jugo dos seus encantos. 
E agora, que a admirao inicial se havia transformado numa Daixo avassaladora, tanto India 
Wilkes como Letty MunrGe, de Lovejov, que Brent cortejara por desfastio, tinham sido votadas ao 
esquecimento. 0 que o preterido faria, no caso de Searlett aceitar um dos irmos, era um problema 
que por enquanto os no preocupava. Apenas atravessariam essa ponte quando chegasse o momento 
prprIo. Presentemente, sentiam-se ambos satisfeitos por terem enc@ntrado uma rapariga que 
agradava simultneamente aos dois, visto os, gmeos no terem cimes um do outro. Era uma 
situao que interessava a vizinhana e que trazia a senhora Tarleton sriamente inquieta, pois que 
nunca tinha visto Searlett com bons olhos. 
-No tero mais do que merecem se aquela boa pea escolher um de vocs - costumava a me dizerlhes. 
- Ou talvez ela prefira optar pelos dois e ento,  que eu vou rir' Tero de fugir para Utah, se  
que os mrmones esto dispostos a dar-lhes asilo por l ' do que duvido... No entanto, o que mais 
me apoquenta  o receio de que vocs, um dia, comecem a ter inveja e cimes um do outro e 
desatem aos murros ou aos tiros por causa daquela serigaita fingida, de olhos de gata. Contudo, h, 
por vezes, males que vm por bem. 
24 
Desde o dia do comcio, Stuart nunca mais se sentiu  vontade na presena de India Wilkes. No 
que esta alguma vez o tivesse censurado abertamente, ou sequer dado a entender por um gesto ou 
um olhar que conhecia a razo da sbita mudana operada na atitude dele. Era muito bem educada 
para isso. Todavia, Stuart sentia-se culpado e comprometido diante dela. Tinha conscincia de que 
havia despertado o amor de India e sabia que ela continuava a am-lo e, no seu ntimo, pesava-lhe o 
remorso de no ter procedido como um cavalheiro. Ainda gostava bastante dela e admirava-a pela 
#
finura do trato, pela cultura literria, pelas boas qualidades que possua. Mas, seiscentos diabos, era 
to plida, to inspida e atraente, no havia que hesitar. Uma pessoa podia prever as reaces de 
India, mas o mesmo no sucedia com Scarlett. E se isto, por um lado, era suficiente para levar um 
homem  loucura, por outro no deixava de ter os seus encantos. 
- Nesse caso, podemos ir jantar a casa de Cade Calvert. Scarlett disse que Cathleen j regressou de 
Charleston. Talvez ela saiba acerca do que se passou no Forte Sumter alguns pormenores que ns 
ignoramos. 
- Duvido que Cathleen saiba o que quer que seja a esse respeito. Aposto contigo, dobrado contra 
singelo ' que ela no sabia que o posto era defendido por um forte e muito menos que esse forte 
estava repleto de yankees at ns corrermos com eles. Ela s sabe o que se refere aos bailes a que 
assistiu e aos namorados que arranjou. 
-Em todo o caso, Cathleen sabe contar as coisas com graa, e ns sempre teramos onde estar 
enquanto a -me no fosse para a cama. 
- At a est tudo muito bem. Cathleen  uma rapariga simptica, tem muita piada a falar, e eu 
gostaria imenso de ouvir notcias de Caroline Rhett e da rapaziada de Charleston. Mas confesso que 
s a ideia de ficar toda uma refeio junto da madrasta dela me causa arrepios. 
- Isso j  embirrao tua, Stuart. Ela no faz aquilo por mal. 
-No  embirrao nenhuma. Tenho imensa pena dela, mas no se  obrifado a gostar das criaturas 
de quem se 
tem pena. E ela preocupa-se tanto em nos rodear de atenes, em nos pr  vontade que, quase 
sempre, a sua atitude acaba por produzir em ns o efeito exactamente oposto. 
25 
Desculpa, Brent mas aquela mulher contende-me com os nervos. E, como @ yankee, pensa que 
todos os habitantes do Sul so brbaros primitivos. Foi ela prpria que o disse  nossa me. Tem um 
medo louco dos sulistas. Quando ns l vamos a casa, fica transida de pavor. D-rfle a ideia duma 
galinha choca empoleirada numa cadeira, com os olhos brilhantes, vazios e espavoridos, pronta a 
bater as asas e a bicar uma pessoa -ao primeiro gesto suspeito que faa. 
- Seja como @or, no tens o direito de a censurar por isso. Lembro-te do tiro que deste na perna de 
Cade. 
- Nessa altura eu estava de cabea perdida, pois de contrrio no o teria feito -redarguiu Stpart. -' E 
Cade no\ guardou qualquer espcie de ressentimento contra mim. E o mesmo se verificou -tanto 
com Cattileen, como com Raiford e o senhor Calvert. Foi s a madrasta que barafustou e se atreveu 
a dizerque eu era pior que um selvagem e que nenhuma pessoa decente podia viver tranquila nesta 
terra de brbaros. 
- Continuo na minha: no tens o direito de a censurar. Ela  yankee e, ainda por cima no tem boas 
maneiras. E, vistas bem as coisas, tu alvejaste Cade, que  seu enteado. 
-Ora, ora! Isso no era razo para me insultar! Tu no s enteado da nossa me e, no entanto, ela 
no barafustou quando Tony Fontaine te acertou na perna. Limitou-se a mandar chamar o velho Dr. 
Fontaine, para fazer o curat@vo' e_a observar que a pontaria de Tony andava muito por baixo, 
acrescentando que certamente era o lcool que o impedia de ser bom atirador. Tony foi aos axames, 
recordas-te? 
Os dois rapazes desataram a rir s gargalhadas. -A me  um grande ponto! -exclamou Brent, 
afectuosamente. - Sabe fazer as coisas como deve ser e nunca nos deixa mal colocados diante de 
estranhos. 
- Pois sim, mas talvez no nos deixe muito bem vistos aos olhos do pai e das pequenas esta noite, 
quando chegarmos a casa - disse Stuart em tom lgubre. - Desta vez  que ns podemos perder a 
esperana de ir  Europa, Brent. Lembra-te de que ela nos ameaou de no nos dar dinheiro para a 
viagem, caso voltssemos a ser expulsos de mais alguma Universidade. 
-Quero l saber disso' No perderemos grande coisa, acredita. Que haver na Europa digno de se 
ver, no me 
26 
#
dirs@ Tenho a certeza de que em nenhum pas de l existem coisas que ns no tenhamos aqui, em 
Gergia, Aposto que no possuem raparigas mais bonitas nem cavalos mais velozes do que os 
nossos e estou convencido de que, por muito que procurssemos, no encontraramos em parte 
alguma um whisky de centeio que se compare ao que o nosso pai faz. 
-Ashley Wilkes afirma que na Europa h paisagens maravilhosas e que a msica  esplndida. 
AshIey veio encantado. No fala noutra coisa, 
-No admira. Tu bem sabes como os Wilkes so. Adoram a msica, a leitura, as paisagens, A nossa 
me explicou-me um dia que  por causa do av deles ter nascido e vivido muitos anos em Virgnia. 
Em Virginia  que as pessoas ligam grande importncia a essas coisas, diz ela. 
-Tanto melhor para eles. Dem-me um bom cavalo para montar, uma garrafa de aguardente velha 
para beber, uma moa bonita para namorar e outra para passar uns momentos agradveis, e a 
Europa que v para o diabo. Que podemos ns perder em no fazermos a viagem? Supe que 
estvamos na Europa, com a guerra prestes a rebentar aqui. No conseguiramos chegar a tempo. E 
eu prefiro uma guerra a todas as viagens possveis e imaginveis. 
- Tambm eu... Olha, Brent! J sei onde havemos de ir jantar. Podemos atravessar o pantano e ir 
procurar Able Wynder para lhe darmos a notcia de que estamos de volta os trs e queremos 
recomear com a instruo. 
- Boa ideia! - exclamou Brent, entusiasmado. - Ficaremos a conhecer as ltimas novidades acerca 
do Regimento e saberemos enfim qual a cor que acabaram por escolher para os uniformes. 
-Se for a mesma cor da farda dos zuavos, garanto-te que no me alistarei. At nem me sentiria bem, 
com aqueles horrveis cales vermelhos enfiados nas pernas. Parecem-se com as calas de flanela 
que as mulheres usam. 
-Sinhs vo a casa de sinh Wynder? Porque si vo no contem com jant-disse Jeems.-O 
cozinheiro dele t morto e inda no compr outro. Tem preta agora a cozi~ nh e ngos todo diz 
que no h pi nas redondeza. 
- Santo Deus! E por que foi que o senhor Wynder no comprou outro cozinheiro? 
- Onde branco pobre ir arranj dinheiro p'ra compr escravo? Sinh Wynder nunca teve mais de 
quatro h90. 
27 
A voz 4e Jeems traduzia franco desprezo. A situao dele era firme, pois que os Tarletons. 
possuam uma centena de pretos, e, como todos os escravos dos fazendeiros ricos, encarava com 
certo desdm os lavradores menos abastados ' que no podiam ter ao seu servio mais do que meia 
dzia,deles. 
-Esse atrevimento vai sair-te caro-ripostou Stuart, em tom feroz. 'No permito que te refiras a Able 
Wynder dessa maneira. ]@ pobre, sem dvida, mas, isso no obsta a que seja merecedor da nossa 
admirao e estima. E eu no estou disposto a admitir que algum, seja de que raa for, lhe falte ao 
respeito. No h nesta comarca outro homem que lhe chegue aos calcanhares; de contrrio, como se 
explicaria que lhe tivessem dado o posto de alferes? 
- Nunca compreend isso muito bem - retrucou Jeems, sem se importar com a expresso 
ameaadora do amo. - 
Quanto a mim, eles no devia escolh ofici seno das famlia rica, em lug de gente do panto. 
- J te disse que Able Wynder  pessoa respeitvel. Ou querers tu compa -lo aos Slatterys? Esses 
sim,  que so ordinrios. Able t apenas contra si o, f@cto de no ser rico. P, um Iavrado ouco 
endinheirado e as suas propriedades so pobres, mas, se os rapazes o julgaram suficientemente 
digno para o nomearem alferes, nenhum preto tem o direito de o desconiderar. A tropa sabe muito 
bem o que faz. 
0 corpo de cavalaria tinha sido criado trs meses antes, no prprio dia em que Gergia se separara 
da Unio. Desde ento , todos os recrutas aguardavam impacientemente o "-",Meo das 
hostilidades. Embora no faltassem, 'sugestes, oR dirigentes do movimento ainda no tinham 
assentado numa designao a dar ao grupo de voluntrios j alistados. Todas as pessoas emitiam 
uma opinio muito prpria sobre o assunto, opinio essa que teimavam em fazer prevalecer sobre as 
#
dos outros, e o mesmo se verificava no que dizia respeito  cor e ao feitio dos uniformes. "Gatos 
Selvagens de Clayton", "Homens de Fogo", "Hussardos de Gergia do Norte", "Zuavos", 
"Fuzileiros do lnterior" (embora as tropas fossem armadas de pistolas sabres e facas de mato, mas 
no de fuzis), "Voluntrios de iayton", "Tonantes e Audazes", "Os Sempre Prontos", eram as 
designaes que tinham mais partidrios. Enquanto se aguardava a soluo do caso, toda a gente se 
referia  milcia pela designao <:1,e "0 Regi- 
28 
mento", nome por que ficou sendo conhecida, mau grado o ttulo pomposo que finalmente foi 
adoptado. 
Os oficiais eram eleitos pelos membros pois que, salvo meia dzia de antigos combatentes das 
@uerras contra o Mxico e contra os ndios semnolas, nenhum habitante da C-0marca possua a 
mais vaga experincia militar. Por outro lado, se fosse escolhido para chefe um veterano que no 
gozasse de estima e considerao geral, a populao met-lo-ia a ridculo. Toda a gente gostava dos 
quatro irmos Tarletons e dos trs Fontaines, mas ningum props a sua escolha porque os 
Tarletons bebiam demais e eram ainda muito acrianados e os Fontaines no sabiam conter os seus 
mpetos e, quando encolerizados, atiravam a matar. Ashley Wilkes foi eleito capito, pois que era 
considerado o melhor cavaleiro da comarca e todos depositavam grandes esperanas na sua calma 
para manter a ordem nas fileiras. A Raiford Calvert nomearam-no tenente, visto de&frutar da 
simpatia geral, e Able Wynder, filho de um caador do pntano e pequeno lavrador, foi escolhido 
para ocupar o posto de alferes. 
Able era uma espcie de gigante analfabeto, perspicaz e austero, de corao bondoso e maneiras 
agradveis. Sabia lidar com as senhoras, to bem ou melhor do que a maioria dos voluntrios, todos 
eles muito mais novos. 0 pretensiosismo era coisa que prticamente no existia no Regimento. Em 
grande parte, os, pais e avs dos seus componentes tinham comeado como pequenos lavradores e 
s muito mais tarde haviam -conhecido a ventura de uma vida desafogada. Alm disso, Able era o 
melhor atirador do Regimento, to certeiro na sua pontaria que lograva alvejar um esquilo nos olhos 
a setenta e cinco metros de distncia, e conhecia todos os segredos da vida ao ar livre. Sabia como 
acender uma fogueira debaixo de chuva, como seguir o rasto de um animal, como e onde encontrar 
um veio de gua, Todos os homens alistados no Regimento se curvavam ante o verdadeiro mrito e 
foi por isso que nenhum deles hesitou em dar a Able a patente de alferes. Ele aceitou a honra, com 
uma gravidade digna, como uma coisa que lhe era devida, mas no se envaideceu por isso. No 
entanto as mulheres dos fazendeiros e os escravos no esque,ci@m que Able era de origem 
humilde, embora os ho@mens livres no atribussem qualquer importncia ao facto. 
Ao princpio, o recrutamento era feito apenas entre os 
29 
filhos dos fazendeiros, os quais deviam apresentar-se devidamente equipados  sua prpria custa, 
com montada, arreios, uniforme e impedido. Mas na comarca recente de Clayton escasseavam os 
fazendeiros ricos e para formar um regimento digno desse nome, foi neces@o recorrer aos filhos 
dos pequenos lavradores, dos caadores que viviam nas florestas e nas margens dos pntanos e em 
casos excepcionais, at aos filhos de algumas famlias pobres, desde que o seu nvel fosse um pouco 
superior ao das restantes. 
Estes ltimos estavam to desejosos de combater os yonkees como os seus vizinhos ricos 'caso 
rompesse a, guerra; mas havia que atender ao delicado aspecto financeiro da questo. Eram poucos 
os pequenos lavradores que tinham cavalos, pois quase todos eles cultivavam as suas propriedades 
com o auxlio de muares. Raramente possuam mais do que quatro e, como este nmero s6 muito 
dificilmente, lhes bastava, no poderiam dispensar nenhuma, mesmo que o Regimento as aceitasse, 
-hiptese que estava completa, mente posta---de parte. Quanto aos brancos pobres, j se dariam por- 
-muito felizes se tivessem uma mula s que fosse. Os habitantes dos bosques e os caadores dos 
pntanos, esses no possuam nem cavalos nem muares. Viviam ,exclusivamente do produto das 
suas leiras e da caa nos charcos, baseando as transaces no sistema de trocas, pelo que s 
excepcionalmente chegavam a ter cinco dlares em caixa ao fim do ano. Nestas condies, tanto os 
#
cavalos como os uniformes estavam fora do seu alcance, Apesar dis@o, mostravam-se to 
orgulhosos e altivos na sua pobreza como os fazendeiros na sua opulncia, @e jamais aceitariam 
dos vizinhos ricos fosse o que fosse que pudesse cheirar- ,lhes a esipola. Foi por este motivo que, 
para dotar o Regirnento, de tudo o que precisava sem ferir susceptibilidades, o pai de Scarlett, 
juntamente com John Wilkes, Buck Munroe, Jim Tarleton e Hugh Calvert, ou seja a totalidade dos 
grandes fazendeiros da comarca, com a excepo nica de Angus Mac Intosli, contriburam com 
fundos para completar o equipamento ndividua -1 @_ colectivo. Por fim ficou assente que cada 
fazendeiro pagaria o equipamento dos filhos e de certo nmero de outros rapazes, e que seriam 
tomadas as providncias necessrias no sentido de permitir aos recrutas mais pobres aceitarem 
cavalos e equipagem, sem se sentirem feridos no seu amor-prprio. 
30 
Os recrutas reuniam-se duas vezes por semana em Jonesboro, onde recebiam instruo e suplicavam 
a Deus o rompimento das hostilidades. No obstante os esforos dos diri~ gentes, havia muitos 
homens que ainda no dispunham de montada. No entanto, aqueles a quem j tinham sido 
distribudos cavalos executavam nos terrenos atrs do tribunal movimentos confusos que a seus 
olhos constituam autnticas manobras de cavalaria, levantando nuvens de poeira, enrouquecendo 
de tanto gritar, brandindo @abres antigos, dos tempos da Revoluo, retirados das paredes dos 
sales. Os que ainda no haviam conseguido cavalos passavam as horas de instruo sentados na 
beira do passeio fronteiro aos Armazns Bullard entretendo-se a observar os seus camaradas a 
mascar t@-baco e a contar anedotas, quando no organizavam concursos de tiro ao alvo. Nao havia 
necessidade de ensinar os recrutas a atirar. A maioria dos sulistas tinha nascido com uma arma na 
mo e o gnero de vida que levavam, em caadas constantes, fazia deles belssimos atiradores, 
Dos solares dos fazendeiros e das cabanas dos caadores, os recrutas levavam para aquelas reunies 
armas de todas as espcies e feitios: velhas espingardas de caa, de cano longo, que tinham sido 
estreadas contra os Alleghenes, bacamartes antigos, de carregar pela boca, que tinham abatido mais 
de um ndio quando Gerga ensaiava ainda os primeiros passos, pistolas de aro, usadas em 1812 
nas guerras do Mxico e na luta contra os Semnolas, pistolas de duelo, com guarnies de prata, 
revlveres, caadeiras e carabinas de fabrico ingls, novinhas em folha, com a coronha reluzente, de 
madeira preciosa. 
Os exerccios militares terminavam sempre nos botequins de Jonesboro. E, ao cair da noite ' eram 
tantas as rixas entre os recrutas que os oficiais se viam em palpos de aranha para evitar que 
houvesse mortos e feridos antes que a guerra estalasse. Foi durante uma dessas contendas que Stuart 
Tarleton atingiu Calvert e Tony Fontaine feriu Brent. Os gmeos tinham sido corridos da 
Universidade de Virgnia havia pouco tempo e estavam em casa quando o Regimento foi criado. 
Alistaram-se, entusiasmados, mas, aps o incidente do tiroteio ocorrido em Jonesboro dois meses 
antes a me tinha-os expedido para a Universidade Estadual, com ordens formais para se absterem 
de proezas susceptveis de provocar nova expulso. Durante esse Pe- 
31 
rodo, os dois irmos tinham sentido profundamente o seu afastamento ao verem-se privados das 
alegrias da instruO militar. Seria de bom grado que ambos interromperiam os estudos contanto 
que os deixassem galopar, gritar e dar tiros n@ companhia dos seus camaradas do Regimento. 
- Podemos ir pelO, atalho - sugeriu Brent. - Atravessaremos o charco do senhor O'Hara e o prado 
dos Fontaineg e chegaremos a casa de Able antes de escurecer. 
- Ns no vai ach nada p'ra com, sino cueio e ligume - protestou Jeems. 
1 -Mas tu nem mesmo os legumes provars @ resmungou Stuart. -Vais voltar para casa 
imediatamente a f im de prevenir a minha me de que no jantaremos em casa. 
- No, isso no! - implorou Jeems, alarmado. - No quero i, sinh! Tambm no gost de apanh 
chicotadas nos lombo.. Sinhora vai logo pergunt como  que deixei meus amos se expulso. Depois 
h-de pergunt porque  que no levei sinh p'ra casa p'ra ela d tambm chicotadas nas 
costas. Depois, vai atir-se a mim como pata a carac... e 
ngo pag tudo, como da outra vez. Se sinh no me lev a casa de sinhora Wynder, durmo toda a 
#
noite nos mato. No quero apanh tunda de sinhora quando est de mau hum. 
Os gmeos encararam o escravo, perplexos e indignados. 
- Este parvo  muito capaz de se deixar apanhar pelas patrulhas e ento ningum poder aturar a 
me nestas semanas mais prximas. Talvez no queiras crer, mas no h nada que mais me aborrea 
do que estes selvagens. s vezes penso que os abolicionistas esto dentro da razo. 
- Seja como for, no acho justo expornios Jeems a uma sorte que ns prprios desejamos evitar. 
Temos de lev-lo connosc o, Mas ouve bem o que eu te digo, negro idiota. Se tu fores armar-te em 
fidalgo para junto dos pretos do senhor Wynder e te puseres para l com insinuaes de que ns 
ternos todos os dias, em nossa casa, galinha assada e presunto, e eles no comem outra coisa seno 
coelho e legumes, j sabes. Contarei tudo  senhora. E, para castigo, 
no te de@ixaremos ir  guerra connosco. 
- Arm em fidalgQ? Arm em fidalgo diante de ngos barato? No, sinh; sou bem educado. 
Sinhora tambm insin a mim p'ra t boas maneira. 
- Pois olha que no conseguiu grande coisa COM nenhum 
de ns os trs, - observou Stuart. - Vamos -embora. 
32 
0 rapaz obrigou o ginete a dar meia volta e aplicou-lhe as esporas nos flancos, levando-o a transpor 
sem dificuldade a cerca de madeira que o separava da'plantao de Gerald O'Hara. Brent imitou o 
irmo, seguido por Jeems, que se agarrou desesperadamente  crina e ao selim. Jeems detestava 
saltar barreiras, mas j tinha pulado outras bastante mais altas do que aquela, no querendo 
renunciar  companhia dos gmeos. 
Galoparam atravs do terreno rasgado pelos sulcos avermelhados recentemente abertos pelo arado, 
descendo a colina em direco ao rio, sobre o qual j tinham cado as primeiras sombras da noite. A 
certa altura, Brent gritou para o irmo: 
-Ouve, Stuart! No te parece que Scarlett devia ter-nos convidado para jantar? 
-Eu sempre esperei que ela o fizesse- respondeu Stuart.-Por que diabo seria que... 
2 
Assim que os gmeos se afastaram, deixando-a szinha, de p, sob a alpendre de Tara, e o tropeldos 
cavalos se desvaneceu ao longe, Scarlett voltou para a sua cadeira, como uma sonmbula. Tinha as 
feies endurecidas, como se estivesse a sentir-se mal, e doam-lhe bastante os msculos da face, 
que contrara em sorrisos forados para impedir os dois irmos de adivinharem o seu segredo. 
Deixou-se cair na cadeira com ar cansado, sentand(>-se sobre uma das pernas. 0 corao como que 
lhe inchara no peito, a tal ponto que parecia prestes a estalar de dor, palpitando desordena- damente, 
em rpidas pulsaes irregulares. As mos dela estavam frias como gelo e oprimia-a um augrio de 
catstrofe, numa angstia indizvel. 0 seu rosto denotava um misto de intenso sofrimento e doloroso 
espanto como o de uma criana mimada, que sempre tinha visto @atisfeito os seus desejos e 
caprichos e que, pela primeira vez, se via face a face com as contrariedades da vida. 
Ashley ia casar com Melanie Hamilton! Oli, no podia ser verdade! Os gmeos estavam enganados. 
Aquilo no passava de mais uma partida do gnero, que eles tanto gostavam de pregar. Asliley no 
gostava de 
3 - Vento Levou - 1 33 
Melanie. Era impossvel. Ningum poderia gostar de uma lambisgia como Melanie. Scarlett 
recordou com desdm a figura magrizela e infantil de Melanie, com o seu rosto em forma de 
corao, to destitudo de atractivos que chegava a ser quase grosseiro. E Ashley no a via h tanto 
tempo!... No tinha ido a Atlanta mais do que duas vezes, depois da festa que havia dado nos Doze 
Carvalhos no ano anterior. No, Ashley no podia estar apaixonado por Melanie, porque... porque 
estava apaixonado Dor ela. Tinha a certeza disso. Ela, Scarlett, era a nica mulher que Asliley 
amav&... sabia-o muitssimo bem. 
Scarlett ouviu os passos pesados da ama preta atravessando o vestbulo. Endireitou-se na cadeira, 
cor@igindo a posio da perna, e tentou imprimir ao rosto uma expresso mais calma, Precisava de 
evitar a todo o custo que Bab desconfiasse de alguma coisa. A pobre negra convencera-se de que 
#
os O'Haras lhe pertenciam de corpo e alma e julgava-se no direito de conhecer todos os seus 
segredos. Assim qtTe pressentia a existncia de um mistrio punha-se imediatamente em campo e 
no descansava enquanto no descobria o que, se estava passando ou o que havia acontecido. 
Scarlett sabia por experincia prpria que, se a velha ama no visse a sua curiosidade prontamente 
satisfeita, iria confiar as suspeitas a Ellen e ento ela no teria outro remdio seno contar tudo  
me ou inventar  pressa qualquer mentira plausvel para lhe dizer. 
Bab emergiu do vestbulo. Era uma preta retinta, obesa, j idosa, de tipo genuinamente africano, 
tez luzidia olhos pequeninos e maliciosos como os dum elefante. De@licada aos O'Haras at  
ltima gota do seu sangue, constItua o principal, esteio de Ellen, o desespero de Scarlett e das suas 
duas irms e o terror dos outros criados da casa. No obstante pertencer  raa negra, tinha um 
cdigo moral e uma noo de respeitabilidade que nada ficavam a dever aos dos senhores. 
Comeara como criada de quarto de Solange Robillard, me de Ellen O'Hara, francesa de nariz 
afilado, de feitio difcil e ndole reservada, que infligia ' tanto aos filhos como aos criados, o justo 
castigo por todo e qualquer atropelo  etiqueta. Mais tarde, servira de ama a, Ellen, que nunca tnais 
abandonou, nem sequer quando ela se casou e veio fixar-se na zona mais acidentada da comarca de 
Clayton. Exigia das pessoas que estimava uma perfeio absoluta e, como adorava Scarlett e tinha 
um orgulho ilimitado 
34 
nela, passava prticamente todo o seu tempo a repreend-la por isto e por aquilo. 
-Os gemes j foi emb? Porqu no fez eles fic para jant, minina Scarlett? J mandei Pork p 
mais dois tai na mesa para eles. Que maneiras s essa? 
- J estava to farta de os ouvir falar em guerra que no conseguiria atur-los durante o jantar, tanto 
mais que o pap no deixaria de fazer coro com eles e de lhes apontar outra vez todos os defeitos do 
senhor LincoIn. 
- Minina no tem mais educao que ngo dos campo e sinhora e eu trabai para nada porque 
minina no aprende. Inda por cima t aqui fora sem xale com a cacimba da noite caindo! Quantas 
vezes j ouviu a mim fal nas febre que d na gente quando se fica ao relento com os ombo 
destapados? E' mi minina vi p'ra dento, j. 
Scarlett voltou-se com uma negligncia estudada, satisfeita ao ver que a ama estava 
demasiadamente preocupada com a questo do xaile para reparar na sua fisionomia. 
-Ainda  cedo. Quero ficar aqui para ver o pr-do-Sol. 
15, to lindo! Vai buscar o meu xaile depressa, sim? 0 pap deve estar a chegar e eu esperarei por 
ele aqui. 
- Minina t com voz rouca e vai se constip - resmungou a negra, com desconfiana. 
- No digas tolices - redarguiu a rapariga impaciente. 
- Vai buscar-me o xaile, se fazes favor. 
A velha ama afastou-se, bamboleando as ancas largas, e desapareceu no vestbulo, Scarlett ouviu-a 
chamar, em voz baixa, a criada preta que se encontrav&ao cimo das escadas. 
- Rosa! D xale de minina Searlett. - E, momentos depois, acrescentou, erguendo a voz: - No serve 
para nada, esta nga. T sempre nos lug onde no precisa. Agora tenho de subi para i busc! 
Scarlett ouviu os degraus da escada gemerem sob o peso da ama e levantou-se de mansinho. 
Quando ela voltasse, decerto prosseguiria o sermo j iniciado sobre a ma falta de hospitalidade. E 
Scarlett, com o corao a estalar de dor, no se sentia em condies de suportar a arenga da velha 
preta. Hesitou por instantes perguntando a si prpria onde refugiar-i@e at que a m@goa intensa 
que a atormentava se desvanecesse um i)ouco. De sbito ' ocorreu-lhe uma ideia que fez raiar no 
seu esprito uma plida esperana. 0 pai dela tinha ida a cavalo aos Doze Carvalhos, designao por 
que era conhecida a fazenda dos Wilkes, na 
35 
@o de comprar Dilcey, a gorda mulherdo seu criado nten, Dilcey era quem. dirigia o 
servio feminino e l tamPork as de parteira; 
mais delicad , bm .MpenhaVa as funes, tinha dado desde que se casara, seis 
#
meses atrs Pork no ,o ao amo @@indo-Il:'e: que COMum momente, de descaw, 
a 
pra,sise Dilcey, para que os dois fIc@s@em a viver na rtIC5111 
nessa tarde, com a pacincia completamente plantao. E, dirigira-se a 
esgotada, Gerald O'Hara montara a cavalo e 
dc>s Wilkes, a fim de tentar adquirir a es@crava. casa Ilgum, f unda- 
(LO pap decerto saber dizer-me se tem 1 
a'absurda que grneos Ine contaram", Mento a hist6r@ do ne' 
"Ain,da que ele no tivesse ouVI pensou Scarlett. Leixaria de notar a natural nhuma 
aluso directa no 4d excitao dos rtiernbro@ da famlia ' nem lhe passaria desrada 
no ambiente Se puder percebida a modilicao opei talvez Consiga escQb-cir a Ialar-lhe a 
s,6s antes de jantar, au gosto dos 
01 tudo uma brincadeira de m verdade -que f dois Manos Tarletons)@. se queria conversar 
com 
Gerald devia estar a e---hegar 'e or que tinha 
-ret@s o Melh salvo de ouvidos 1 da e le a , encontro. 
Esper-lo-ia ao princpio fazer era ir-lhe ao a Desceu sem 
ato onde a estY ada se b!furcav@ alameda, no Po' utelosamente Por rudo os 
degraus da entrada, olhando ca .t 
ama no estaria a esprei cima do ombro paraver se a rdo-sp cado atravs 
das vidraas do , lMo andaT, Tei , certffi. a 
to negro, coroado pela densa carapinh de que o largo ros emboscado atrs das cortinas 
branca, no se encontrava janelas, Scarlett arregaou ondulantes que.guarneciam as 
a em direco  levemente a saia -verde de balo e correi os sapatinhos alameda, o mais 
depressa que lhe permitiam 
de fitas. 3,Mbos os lados do caminhO 
Os cedros que cresciam de ' s formando um. 
drI@@hs entrelaavam os ramo , ta na calado de pe k se - 
viu envol longo tnel, verde e sombrio Assim que os das rvores, que 
e-umbra projectada Pelos b@aos nodos 
Scarlettabrandou o Passo, 
of eP 
obre a sua ca  @ le casa. Estav se erguiam s -Ia @ < --- 
de que, j no podeTam "v4@ Lpertado, Mal uOdIa ta tilho to o , @@ id 
ue com o espa ) mas P gante, pois q inuou a avanar < idade re,gPirar; n? 
en6nto, cOlIlt outra extrem 
1 No tardou a, alcanar a guiu a mente possive . @ar na estrada mas prosse da alameda 
e a desenibo( interps' entre ela e a Casa 
marcha at dobrar a curva, que um denso grupo de rvores. 
36 
Corada e arquejante, sentou~se num cepo, resolvida a aguardar a chegada do pai. J passava um 
pouco da hora a que Gerald O'Hara costumava voltar paracasa, mas Scarlett deu graas a Deus pela 
demora. Assim, teria tempo para restabelecer o ritmo normal da respirao e compor a expresso 
fisionmica; precisava de evitar que o pai suspeitas-se de qualquer coisa. Esperava a cada momento 
ouvir o tropel das ferraduras de um cavalo subindo a encostada colina num galope desenfreado, e 
ver recortar-se contra o fundo azul do cu a silhueta da montada e do cavaleiro. Mas os minutos iam 
passando sem que Gerald aparecesse. Scarlett perscrutou as trevas que principiavam a descer sobre 
a estrada. De novo o seu corao comeou a sobressaltar-se, 
"Oh, no pode ser verdade!" pensava ela. "Por que no ter o pai voltado ainda?" Percorreu 
atentamente com os olhos a fita coleante da estrada, a cujo leito argiloso a chuva tinha dado uma 
tonalidade cor de sangue. Quando a perdeu de vista,, continuou a segui-Ia mentalmente, descendo a 
#
vertente do outeiro at  margem do rio Flint, que corria, preguioso, ao fundo, atravessando o 
pntano, e subindo ao topo do cerro onde morava AshIey. E, para ela, a estrada acabava ali, no 
ponto em que Astiley vivia e se elevava a majestosa residncia de colunas brancas, que dominava a 
colina como um templo grego. 
"Oh! Ashley! Ashley!" pensava Scarlett enquanto o ' frmito des@ corao se lhe agitava, dentro do 
peito, num compassado. 
Conseguira recalcar em parte a sensaao glacial de surpresa e de angstia que a oprimia desde o 
momento em que os gmeos Tarletons lhe haviam dado a terrvel nova e em seu lugar surgira a 
febre que h dois anos a vinha queimando como um fogo lento e pertinaz, cada vez mais intenso. 
Pareca-lhe estranho que AshIey nunca a houvesse impressionado tanto como agora, desde que o 
seu e-orao desabrochara para o amor. Durante longos anos, vira-o chegar e partir, no uma nem 
duas vezes 'mas centenas de vezes, e, todavia, nunca os seus olhos tinham visto nele mais do que 
um vizinho como qualquer outro. At que um 
dia, AshIey, de regresso a Clayton aps uma estadia de tr.s anos no velho continente, fora a Tara 
apresentar cumprimentos  famlia O'Hara. Scarlett, vira-o ento com Outros 
37 
olhos, e, a partir dessa altura, nunca mais deixara de pensar nele. E desta forma simples o amor 
raiara no seu corao juvenil. 
Scarlett estava debruada na varanda da frente quando o avistou, subindo a cavalo a longa alameda 
de cedros. A@shley trajava nessa tarde um fato cinzento, de fazenda fina, e uma gravata preta que 
se destacava harmoniosamente sobre o peitilho da camisa, orlado de um folho estreito. E, embora j 
tivessem decorrido dois anos sobre esse dia memorvel, Searlett ainda se recordava dos mais 
pequenos pormenores relativos ao modo de trajar, dos reflexos brilhantes que o sol arrancava das 
botas altas, cuidadosamente engraxadas, do alfinete que ostentava na gravata, um cainafeu 
representando a cabea de Medusa, do largo panam que instantneamente tirou da cabea, assim 
que a viu. Desmontou e, atirando as rdeas a um moleque, quedou-se a olhar para ela. Os seus olhos 
cinzentos, sonhadores, pareceram alargar~se num sorriso 'e o sol 'radioso, como que lhe 
transformava a cabeleira loura num capacete de oiro reluzente. "Fez-se uma senhora durante a 
minha ausncia, Scarlett", dissera-lhe ele. E, subindo os degraus da entrada, pegara-lhe na mo- e 
beijara-a. E a sua voz!... Scarlett jamais esqueceria o sobressalto que a fez estremecer quando a 
ouviu: uma voz bem tmbrada, pausada, musical. 
Desejara-o desde esse primeiro instante, com a mesma simplicidade, com a mesma naturalidade 
com que at ali desejara alimentos para saciar a fome, cavalos para montar, uma cama para dormir. 
No decurso desses dois anos, Ashley havia-a acompanhado a toda a parte, a bailes, a festas, a 
pescarias, aos julgamentos no tribunal de Atlanta. Contudo nunca a procurara com tanta insistncia 
como os gmeo@ Tarletons ou Cade Calvert, nem se mostrara to empreendedor como os dois 
filhos mais novos dos Fontaine.s. Apesar disso, no se passava uma semana sem que ele fosse 
fazer-lhe uma visita. 
Que Astiley nunca lhe tinha feito a corte, era certo. Scarlett, nunca, lhe notara nos olhos aquele 
brilho ardente que tantas vezes via dilatar as pupilas dos homens que se deixavam apaixonar por 
ela. E, no entanto... tinha a certeza de que AshIey a amava, No podia estar enganada. Seu instinto, 
mais forte do que o raciocnio, a sua experincia, fruto de uma longa prtica, dizia-lhe que ele a 
amava. Quantas vezes no o surpreendera a observ-la com 
38 
um olhar diferente do que lhe era habitual, no sonhador e distante, mas temo e trisrte, que tanto a 
intrigava? Era impossvel que Ashley a no amasse, Contudo, por que nunca lho teria dito? No 
conseguia perceber. Mas a verdade  que havia muito mais coisas acerca dele que nunca lograra 
compreender. ' 
Ashl" mostrava-se sempre de uma condescendncia respeitosa, mas permanecia distante, como se 
vivesse noutro planeta. Ningum era capaz de lhe decifrar o pensamento e Scarlett muito menos do 
que qualquer outra pessoa. Numa regio em que toda a gente se apressava a manifestar as suas 
#
ideias assim que elas lhe acudiam ao esprito a reserva de AshIey tornava-se exasperante. No 
ficava at'@s dos outros rapazes da mesma idade no que dizia respeito aos divertimentos usuais da 
comarca. Caava jogava, danava e discutia poltica com a mesma facili6je que todos eles e, em 
equitao era,lhes muitssimo superior; apenas diferia dos restantes pelo facto de no colocar 
naquele gnero de actividades o objectivo e o ideal da sua vida. Por isso, era o nico moo em toda 
a regio que se interessava pelos livros, pela msica e pela poesia, que para ele constitula uma 
verdadeira paixo. Da talvez o principal motivo por que se isolava doscompanheiros, buscando, na 
solido da floresta ou na tranquilidade do quarto, o ambiente pr6prio para dar largas ao seu 
temperamento de artista. 
Oh, por que teria ele um cabelo to lindG, dum louro to brilhante? Por que teimaria em manter 
uma itude to distante e respeitosa? Por que seria s vezes to maador com os seus discursos 
acerca, da Europa, dos livros da msica, da poesia e de tantas outras coisas que para carlett eram 
letra morta... e apesar de todos estes contras, to simptico e atraente? koite aps noite, quando -ia 
deitar-se depois de ter passado curtas horas sentada ao lado dele na penumbra da varanda, Scarlett 
ficava, s voltas na cama, durante muito, tempo buscando, lenitivo na esperana de que Astiley se 
deciarasse no dia seguinte. Mas o dia seguinte chegava e ele vinha e ia-se embora outra vez, sem 
que nada acontecesse... nada a no ser o redobramento da paixo que a devorava. 
Scarlett, amava Ashley de todo o seu corao, desejava-O ardentemente, embora no o 
compreendesse. Era to natural e simples como a brisa que soprava sobre Tara, como o rio de guas 
barrentas que serpenteava entre as colinas 
39 
.ot 
verdejantes, e, por muitos anos que vivesse jamais lograria c@0mPre'erLder uma coisa complicada. 
E ago@@, pela primeira vez na sua ainda curta existncia Searlett encontrava-se em face de uma 
natureza cornplex@. 
AshIey descendia de uma linhagem de indivduos que dedicavam os seus momentos de cio no a 
actividades insensatas, mas  reflexo e  concepo de estranhas fantas'as, em que no se 
vislumbrava o mais pequeno traO de realidade. Ashley vivia num mundo  parte, interior, mais 
belo do. que Gergia, o, qual s com multa relutncia abandonava. Encarava a vida como um 
espectador sem entusiasino nem tristeza. Observava os homeng como se eles pertencessem a urna 
espcie desconhecida, diferente da sua, sem rnanfestaLr por eles amor nem averso. Acei:tava o 
Universo e o lugar que nele lhe fora reservado na medida do seu justo valor e, encolhendo os 
ombros, procurava refgio num mundo melhor, com <>9 seus livros e a sua msica, 
Scarlett no sabia explicar como Ashley com uma maneira de ser to diferente da sua, pudera 
enieiti-la assim. 
0 mistrio que envolvia a personalidade dele espicaava a sua curiosidade, corno uma porta sem 
chave nem fechadura. Tudo aquilo que nele no lograva compreender era como que um incentivo 
para o amor que lhe votava e a sua corte, to estranha, to cheia de reticncias, no fazia mais do 
que vincar no esprito da rapariga a ideia de o conquistar s para si. Scarlett jamais duvidara de que 
AshIey acabaria por pedi-Ia em casamento. Era a@nda muito jovem e vivera sempre rodeada de 
todas as atene@s, de forma que no conhecera nunca o travo duma derrota: E eis que, de sbito, 
desabava sobre ela a maior de to-das as catstrofes. AshIcy ia casar com Melanie! No, no podia 
ser verdade. 
Ainda na semana anterior, quando regressava de Fair~ hill, a cavalo, ao entardecer, ele afirmara-. 
"Scarlett, tenho uma coisa importante para lhe dizer, mas confesso que no sei como me exprimir". 
E ela baIxara, os olhos modestamente, enquanto o corao lhe galopava no peito, louco de alegria, 
convencda de que tinha chegado o. momento pelo qual h tantos meses suspirava. Mas AshIey 
apressara-se a acrescentar- "Hoje, no. J estamos quase ao p de sua casa e no haveria tempo, Oh, 
Scarlett, corno sou cobarde!" E, aplicando as 
40 
esporas aos flancos da montada, subira  desfilada a vertente da colina. 
#
Sentada sobre o cepo, Scarlett meditou nestas palavras, que a haviam transportado ao stimo cu e, 
de repente ' viu que elas podiam ser tomadas noutro sentido muito diferente e adquirir um horrvel 
significado. Quem sabe se no seria o seu proximo casamento que Asliley pretendera anunciar-lhe? 
"Por que ser que o meu pai se demora tanto hoje?" No podia suportar por mais tempo aquela 
expectativa. De novo perscrutou a fita interminvel da estrada e de novo sofreu uma decepo. 
0 Sol tinha desaparecido na linha do horizonte e o claro avermelhado que tingira o cu na zona do 
poente comeava a diluir-se em tons rse>s. 0 firmamento ia passando gradualmente de azul 
celeste  tonalidade verde-azulado dw ovos do pintarroxo, enquanto a calma sobrenatural do 
crepsculo se espraiava furtivamente em torno de Scarlett. As trevas da noite comeavam a descer 
sobre os campos. Os sulcos rubros, abertos pelo arado, e a faixa vermelha da estrada tinham 
renunciado  magia da sua cor sangrenta e no eram mais do que simples retalhos de terra castanha. 
Nas pastagens que se estendiam para l da estrada, os cavalos, as mulas e as vacas permaneciam 
imvQ!s, com o focinho apoiado sobre a cerca. das propriedades, aguardando o momento de 
regressarem aos estbulos para comerem. As sombras projectadas pelas moitas que ladea, vam os 
prados infundiam temor aos animais que miravam Searlett com as orelhas fitas e os olhos briffiantes 
de gratido, como se os tranquilizasse a sua companhia. 
Destacando-se sobre a misteriosa tela do lusco-fusco ' as silhuetas esguias dos pinheiros que 
cresciam de um e de outro lado do rio, de um verde to quente quanto luminado pelo sol, 
assemelhavam-se agora a gigantes negros, encarregados de dissimular as guas barrentas que 
desliz&vam lentamente a seus ps. Na colina que dominava a margem oposta, as alta@ chamins 
brancas da e-asa dos Wilkes iam-se esbatendo gradualmente na noite que tombava, perdendo-se na 
escurido que j envolvia em parte os vastos soutos. Apenas as luzes vacilantes e longnquas dos 
candeeiros pousados sobre a mesa, denunciava a existncia duma habitao naquele local. Urna 
brisa morna, carregada de humidade, trazia at Scarlett o delicioso perfume 
41 
da terra lavrada de fresco e da vegetao que brotava das leiras, buscando o contacto vivificante do 
ar livre. 
0 pr-do-Sol, a Primavera, os mantos verdejantes, o renovamento'das culturas no representavam 
milagre algum aos olhos de Scarlett. Eram espectculos cujos encantos ela aceitava naturalmente, 
como o ar que respirava e a gua que bebia., pois que a beleza sbmente a impressionava quando 
revestia aspecto de coisas reais e tangveis, como um rosto feminino, um cavalo ou um vestido de 
seda. No entanto, a penumbra serena que baixara sobre os terrenos bem tratados da vaista fazenda 
de Tara trouxe certa tranquilidade ao seu esprito atormentado. Inconscientemente, Scarlett amava 
aquela terra com todas as veras da sua alma, da mesma maneira que amava o rosto materno quando 
iluminado pela luz bruxuleante do candeeiro.,  hora da prece comum. 
Continuava a no distinguir vestgios de Gerald na estrada sinuosa. A velha ama j devia andar  
procura dela, a fim de a rebocar para casa e de censurar o seu procedimento. Enquanto investigava 
com o olhar a escurido que se adensava sobre, a estrada, ouviu o tropel dis@tante dum ginete, 
algures na pradaria, e viu as vacas e os cavalos fugirem amedrontados em todas as direces. 
Cortando atravs dos campos Gerald O'Hara regressava a casa num galope desenfreado.' 
No momento em que o avistou, vinhaele j galopando a encosta da colina, montado no seu alazo, 
cavalo corpulento, de peito largo e pernas finas. Ao longe, fazia lembrar um adolescente cavalgando 
um animal em demasia grande para o seu tamanho. Com a sua longa cabeleira encanecida flutuando 
ao vento., incitava com gritos e leves chicotadas o cavalo que parecia voar com a barriga rente ao 
solo. 
Mau grado a angstia que a dominava, Searlett contemplou o pai com um orgulho terno pois que 
Gerald O'Hara era sem dvida um excelente cav'aleiro. 
"Gostaria de saber por que motivo o pap se julga na obrigao de saltar as vedaes sempre que 
bebe demais", pensou ela. "Depois da, queda que deu, justamente neste sitio, e que teve como 
consequncia a fractura de uma rtula, devia mostrar-se mais prudente. E, ainda por cima, jurou  
mama que no voltaria a saltar". 
#
Scarlett no tinha receio nenhum do pai e sentia-se muito mais prxima dele do que das irms. 
Transpor 
42 
obstculos a cavalo, s escondidas da mulher e@tar de posse dum segredo que nem mesmo Ellen 
coecia, produziam em Gerald uma satisfao pueril, uma alegria maliciosa apenas comparvel ao 
prazer que Scarlett experimentava em ludibriar a me. Levantou-se do tronco em que estava 
sentada, a fim de melhor observar o pai, 
0 fogoso cavalo aproximou-se da cerca, tomou balano e elevou-se no ar com a leveza dum pssaro. 
0 cavaleiro soltou um grito de entusiasmo e agitou o pingalim acima da cabea, com a cabeleira 
branca solta ao vento. As trevas que j reinavam sob o arvoredo impediram Gerald de avist.r a 
filha. Assim que chegou  estrada, fez estacar o ginete e ps-se a acariciar com a mo o pescoo do 
animal. 
- No h outro que te iguale, nas redondezas. Nem sequer em toda a Gergia- acrescentou, 
orgulhoso, falando para a montada, numa linguagem em que se notava o sotaque caracterstico da 
comarca de Meath, e que ainda no perdera, apesar de viver na Amrica havia trinta e nove anos. 
Comp4s apressadamente a cabeleira revolta., meteu a fralda da'camisa para dentro e endireitou a 
gravata, eufa n lhe tinha, ido parar atrs duma orelha. Scarlett sabia que o pai se entregava queles 
preparativos sumrios com o nico objectivo de aparecer diante da mulher com a aparncia 
circunspecta dum indivduo que volta tranquilamente paracasa aps a visita a um vizinho. E sabia. 
tambm ser aquela a melhor altura para entabular conversa com o pai, sem denunciar a verdadeira 
razo da, sua presena ali quela hora. 
Soltou uma gargalhada sonora que despertou ecos adormecidos. Sucedeu precisamente o que ela 
esperava, Gerald, surpreendido por aquele rudo inslito, estremeceu e, ao reconhecer a filha, 
estampou~se-lhe no rosto uma expresso meio provocante, meio comprornetida, como uma criana 
apanhada em flagrante, mas que no quer dar parte de fraca. Desmontou com certa dificuldade ' 
devido  anquilose do joelho e, passando as rdeas  volta do brao, aproximou-se de Scarlett. 
- Com que ento, minha bisbilhoteira -disse ele, belis-cando,-Ihe a face - vieste espiar-me para 
depois ires contar tudo  me, como a, tua irm Suellen fez, ainda no h uma semana? 
A voz dele, grave e levemente roufenha, exprimia ao 
43 
mesmo tempo irritao e meiguice. Para o arreliar, Searlett fez estalar a lngua contra os dentes 
enquanto lhe ajeitava a gravata, num gesto decidido, e ekielente. Sentiu no rosto o hlito quente do 
pai, impregnado dum forte cheiro a whisky, ao qual se juntava o aroma de hortel. Alm destes 
Gerald O'Hara exalava tambm certos odores caracterstie@.s dum fazendeiro de Gergia, tais 
como os do taba,co mascado, do couro ensebado e de cavalos; Scarlett, associava sempre a esses 
cheiros a figura do seu pai e, instintivamente, gostava de os encontrar tambm em certos homens. 
-No, pap. Descanse que eu no sou mexeriqueira como Suellen -afirmou recuando um passo a fim 
de exa@minar melhor o vesturio paterno. 
Gerald era, baixo. No media mais do que um metro e sessenta e cinco de altura, mas tinha o trax 
to desenvolvido e o pescoo to grosso que, quando o viam sentado, quase todas as pessoas o 
julgavam mais alto do que na realidade era. 0 corpo macio apoia,va-se sobre duas pernas curtas e 
robustas, normalmente aprisionadas em botas de montar, do mais fino couro, e levemente 
arqueadas. Quase todo os homens de baixa estatura que pretendem impor-se aos outros acabam 
por cair no ridculo; mas assim como um galito da India se faz respeitar na capoeira, tambm com 
Gerald O'Hara se verificava uma circunstncia anloga, pois que a ningum ocorreria a, ideia 
temerria de o julgar figura ridcula. 
Apesar de contar j sessenta anos e de os seus cabelos ondulados estarem completamente 
encanecidos, o rosto dele no apresentava; rugas e os olhos, pequeninos e duros, dum azul profundo 
e quase transparente, conservavam a juventude eterna dum indivduo que nunca se preocupava com 
problen-ias mais graves do que saber quantas cartas deitar fora numa partida de poker. Encamava 0. 
tipo perfeito do irlands que se topava a cada passo na ptria longnqua, abandonada havia to 
#
longos anos-cara redonda, vermelhusca, 
nariz curto, boca larga e agressiva. 
Sob a sua aparncia belicosa, Gerald O'Hara ocultava o 
mais terno dos coraes. No podia, Ver um escravo choramingar aps uma repreenso, por inais 
justa que ela tivesse sido, nem ouvir um gato miar aflitivamente ou umacriana chorar, mas 
horrorizava-o a ideia de que algum se apercebesse da sua fraqueza. ignorava que cinco minutos de 
con- 
44 
versa com ele eram mais do que suficientes para uma pessoa lhe adivinhar a natureza bondosa. 0 
seu amor-prprio sofreria rude choque se um dia viesse a descobrir o facto, pois que lhe era grato 
pensar que, quando berrava uma orem com a sua voz tontruante, toda a gente tremia e se 
apressava a obedecer. Nunca lhe passara pela cabea a ideia de que a nica voz que em Tara se 
fazia prontamente obedecer era a voz suave de Ellen. E esse segredo jamais ele a descobriria 
porque, desde a mulher ao mais humilde do@g trabalhadores, todos conspiravam tacitamente para o 
deixarem viver na iluso de que a sua palavra era lei. 
Quem menos se deixava, impressionar com os rompantes e os gritos estrondosos de Gerald era 
Scarlett, a mais velha das trs filhas. A partir do momento. em que se compenetrara de que j no 
lhe restava possibilidades de gubstituir por outros filhos vares os trs rapazes que dormiam o sono 
eterno no cemitrio da famlia Gerald tinha@se habituado a tratar Scarlett como se foss@ um 
homem, coisa que a ela agradava imenso. Scarlett, era mais parecida com o 
pai do que as irms, Carreen e Suellen. A,primeira, cujo, nome verdadeiro era Caroline Irene, 
possula constituio mdia e esprito sonhador; a segunda, baptizada com o nome de Susan Elinor, 
tinha, a mania da elegncia e das boas maneiras. 
Scarlett e o pai encontravam~se coligados por um pacto de silncio. Se Gerald surpreendia a filha a. 
saltar uma vedao a fim de evitar a volta dum quilmetro para chegar a determinado local, ou se a 
descobria a uma hora inconveniente nos degraus da entrada a namorar algum dos seus inmeros 
pretendentes ' encarregava-se ele prprio de a admoestar severamente, nunca dizendo nada nem a 
Ellen nem  velha ama. E, quando Scarlett o via transformar os terrenos de cultivo num campo de 
obstculos, aps a promessa solene que tinha feito  mulher, ou Por intermdio, das comadres da 
terra vinha a saber o montante exacto das suas perdas ao poker, impunha-se a si prpria a obrigao 
de guardar segredo, ao contrrio do que se verificava com Suellen, artista consumada no captulo 
das inconvenincias premeditadas. Tanto Scarlett como o pai partilhavam da opinio de que 
levantar estas que8tes em frente de Ellen seria mago-la profundamente e por nada deste mundo 
eles queriam causar-lhe desgokst". 
Scarlett, examinou o pai  luz frouxa -do dia que expi- 
45 
rava e, sem saber porqu, sentiu-se reconfortada. na sua presena. Havia em Gerald O'Hara algo de 
primitivo e rude -que lhe agradava. Como era desprovida de qualquer sentido crtico, estava longe 
de atribuir o facto  afinidade existente entre " respectivas naturezas, pois que, at certo ponto, 
ambos possuam as mesmas qualidades, apesar dos porfiados esforos que Ellen e a ama tinham 
feito para as abalar, no caso de Scarlett. 
- Agora j est mais apresentvel - disse ela - e, a menos que v gabar-se, ningum suspeitar da 
proeza que acaba de cometer. Mas tenho a impresso de que, depois de ter quebrado o joelho, no 
ano passado, ao saltar aquela vedao... 
-Ora a es@t! S me faltava mais esta, que a minha prpria filha viesse ensinar-me aquilo que eu 
no devo fazer!-exclamou, beliscarido-lhe a face ' outra vez. -Se eu partir a espinha, isso comigo! 
E, j agora, quero que me expliques uma coisa, minha atrevida: Que andas tu a fazer por aqui, sem 
xaile, a uma hora destas? 
Vendo naquela pergunta um pretexto para desviar o rumo da conversa, Scarlett enfiou o brao no do 
pai e respondeu: , 
-Estava  sua espera. No fazia ideia de que pudesse vir to tarde. Queria simplesmente saber se 
#
sempre comprou Dilcey, 
-Pois comprei, por um preo fabuloso, deixa-me dizer-te. E tambm comprei Prissy, a filha dela. 
John Wilkes estava disposto a oferecer-ma-s, mas eu no quero que pensem que Gerald O'Hara se 
aproveita da-s, suas amizades para explorar o prximo. Obriguei-o a aceitar trezentos dlares pelas 
duas. 
-Meu Deus! Trezentos dlares! E para mais o pap no tinha necessidade nenhuma de comprar 
Prissy. 
-Pronto! L est a iWlfiha filha outra vez a criticar as aces do pai - repontou Gerald, sem 
convico.. - Prissy  uma... 
-Eu conheo-a muito bem. P, uma criatura estpida e preguiosa -atalhou Scarlett, no se deixando 
intimidar pelo clamor paterno. -E a nica razo por que o pai a comprou foi por que Dilcey lho 
pediu, com certeza. 
Como sempre acontecia quando era apanhado em falso, dando provas da sua extrema bondade, 
Gerald ficou emba- 
46 
raado. E a filha, ao notax a sua atrapalhao, soltou uma risada alegre. 
-E depois, que mal tem isso? De que nos adiantaria comprarmos Dilcey e deixarmos l a filha? No 
nos faltariam choraminguices em casa. Mas est,% histria serviu-me de emenda. Nunca mais 
permitirei que um preto meu se " com uma escrava de outro fazendeiro. A brincadeira saiu-me cara. 
Vamos andando, filha. J so mais do que horas. 
As trevas adensavamse cada vez mais. Os ltimos reflexos esverdeados haviam desaparecido do cu 
e a brisa ,tpida, primaveril, comeava a arrefecer. Mas Scarlett ~rdava o passo, perguntando a si 
prpria como aflorar o assunto que a levara ao encontro do pai, sem que este suspeitasse das suas 
intenes. Era um problema difcil pois que Scarlett no primava pela subtileza e Gerald ' que 
conhecia a filha to bem com se conhecia a si prprio, descortinava,os pobres subterfgios a que 
ela recorria com a mesma facilidade com que a rapariga descortinava os seus, por uma razo 
recproca. E, como ambos careciam da mais elementar parcela de tacto, desmasicaravam-se 
mutuamente, com a maior sem-cerimnia. 
-Como vo todos por l, nos Doze Carvalhos? 
- Como de costume. Cade Calvert apareceu no momento em que eu acabava de efectuar a 
transaco e depois fomos sentar-nos os trs na varanda. Tommos ponche e aproveitmos a 
oportunidade para conversarmos um pouco. Cade tinha chegado de Atlanta nessa mesma tarde e 
contou-nos que a populao de l se encontra em completa eferves@ cncia com a ideia da guerra... 
Searlett suspirou. Se' por infelicidade, o pai comeasse a dissertar acerca das possibilidades dum 
conflito e do problema da Secesso, no se calaria naquelas duas horas mais prximas. Para evitar 
que tal acontecesse, ela de&viou bruscamente o rumo da conversa. 
-Falaram alguma coisa a respeito do piquenique de amanh? 
-Agora que me perguntas, creio que sim, que falaram. Aquela pequena muito simptica que esteve 
c no ano passado... no me recordo do nome dela... Mas tu sabes quem , a, prima de Ashley... 
uma Hamilton, suponho... Exactamente Melanie Hamilton. Ela e o irmo chegaram hoje, de 
Atla@ta, e... 
47 
- Ah, ela j chegou?! -Pois j. n uma rapariga muito delicada, muito metida consigo. Nunca ouvi 
aquela alma dizer uma palavra a seu respeito. Assim  que todas as mulheres deviam ser. 
Vamo,andando, filha; no te deixes ficar para trs, seno a tua me ainda vem por a  nossa 
procura. 
A notcia da chegada de Melanie abalou rudemente o 
corao de Scarlett. Alimentara a esperana absurda de que qualquer incidente inesperado retivesse 
Melan@e Ilamilton em Atlanta, onde vivia. E, ao verificar que o seu prprio pai manifestava to 
grande apreo pelo carcter afvel e tranquilo de Melanie, to @ffi1erente do seu, decidiu queimar 
os ltimos cartuchos. 
#
-E AshIey? Tambm l estava? 
- Tambm. Gerald largou o brao da filha e, voltando-se para ela, fitou-a a direito, nos olhos. 
- Se foi para saberes isso que vieste ao meu encontro, por que no mo disseste abertarn@ente, em 
vez de andares a brincar s -escondidas e~go? 
Scarlett, no encontrou resposta para lhe dar. Sentiu o sangue aflur-lhe ao rosto e um calor intenso, 
queimar-lhe as faces. 
-Vamos, desembucha, Scarlett continuava a guardar silncio. Por sua vontade, naquele momento, 
teria agredido o pai, para o obrigar a calar-se. 
- AshIey estava em casa e tanto ele corno as irms me perguntaram por ti. AshIey disse-me que 
estavam todos a contar contigo para a festa de amanh. Quanto a mim, estou convencido de que 
nada te impedir de ir-declarou o pai, com um sorriso irnico. -E agora, vejamos: Que h entre ti e 
Ashley? , 
-No h nada-respondeu Scarlett, puxando o pai pelo brao.-Venha, papa. 
- Inverteram-se os papis, plo que vejo. Agora s tu que ests com a pressa toda. Pois eu no sairei 
daqui enquanto no me disseres o que se passa. Quero saber aquilo com que posso contar. De facto, 
tu tens andado esquisita, ltimamente. Ele fez-te namoro? Falou-te em casamento? 
- No - respondeu Scarlett, secamente. 
- Nem falar - asseverou Gerald. Searlett parecia prestes a explodir, num assomo de 
48 
fria, mas o pai acalmou-a, erguendo o brao num gesto conciliatrio. 
-Poupa a saliva, filha. John Wilkes disse-me, esta tarde, confidencialmente, que AshIey desposar 
Melanie, num futuro, prximo, 0 casamento ser anunciado amanh. 
A mo de Scarlett caiu, inerte. Por consequncia, sempr,e era verdade! Sentiu o -corao dilacerado 
por uma dor aguda, como se um animal feroz nele houvesse cravado as suas garras aceradas. Gerald 
observava a filha com um olhar em que se vislumbrava uma pontinha de tristeza e, ao mesmo 
tempo, um leve aborrecimento, por se ver em face de problema que ele noestava  altura de 
solucionar. Adorava a filha, mas no lhe agradava nada que ela o colocasse em obrigao de lhe 
resolver os problemas. Ellen  que @@abia encontrar resposta para tudo. Scarlett teria feito melhor 
em confiar  me as suas preocupaes. 
- Com que ento a menina andou a dar espectculo? 
- prosseguiu, erguendo a voz, como era seu costume nos momentos deexcitao. - Deixaste que esse 
vizinho fizesse troa de ti, e de ns, No tiveste vergonha de correr atrs dum homem que no te 
amava, tu que podias e podes aspirar aos melhores partidos da regio? 
0 despeito e o amor-prprio, suavizaram um pouco o sofrimento de Scarlett. 
- Eu no corri atrs dele, pap. Apenas... apenas fiquei surpreendida. 
-Mentes-ripostou Gerald. E, inclinando-se sobre o rosto angustiado da filha, acrescentou, num 
impulso de sbita ternura: - Tenho imensa pena, minha querida. Mas kWa-te de que s ainda uma 
criana e de que no faltam rapazes por a. 
- A mam tinha s quinze anos quando casou consigo e eu j fiz dezasseis-ripostou ela, com voz 
sumida. 
-A tua me era diferente. Nunca foi to leviana como tu. Vamos, filha,  preciso ter coragem. Para a 
semana que vem, irs passar uns dias com a tua tia Eulalie, em Charleston, e com a barafunda que 
por l vai, devido aos acontecinientos ocorridos no Forte Sumter, vers que depressa esqueces 
AshIey. 
"Toma-me por uma criana", pensou Scarlett, sufocada pela mgoa e pelo furor. "Est convencido 
de que bastar oferecer-me um brinquedo para eu olvidar o golpe que acabo de receber". 
4 - Vento Levou - 1 
49 
- Escusas de fazer essa cara, minha filha -continuou Gerald.-Se tu tivesses uma centelha de juzo, h 
muito que estarias casada com Stuart ou com Brent, Tarleton. Pensa nisso, minha querida. Casa-te 
com um dos gmeos e as duas fazendas ficaro numa s famlia. Mandaremos construir, Jim 
#
Tarleton e eu, uma belssima casa para vocs viverem, no meio do pinhal que fica... 
- Por favor, no continue a tratar-me como a uma criana! - exclamou Scarlett. - No tenciono ir 
para Charleston, no desejo casar com nenhum dos gmeos, nem to,-pouco me interessa que 
mande construir uma casa no meio do pinhal, seja ela para quem for. 0 que eu quero  
Calou-se bruscamente mas j era tarde. Gerald adivinhou-lhe @ pensamento e, numa voz que de 
sbito se tornou calma, disse pausadamente, como se estivesse a ir buscar as palavras a um 
recndito do pensa, mento, de que raras vezes se utilizava: 
-.0 que tu queres  Ashley, @nas no o ters. E, mesmo que ele viesse pedir-me a tua mo, seria 
com a maior das apreenses que eu daria, o meu consentimento, pois a amizade, profunda que me 
liga a John Wilkes no me permitiria uma recusa. -E, ao reparar no olhar espantado com que 
Scarlett o fitava, concluiu: -Quero que a minha filha seja feliz e acredita que o no serias com ele. 
- Seria, sim, pap! Tenho a certeza! -No digas isso, filha. S pode haver felicidade num casamento 
quando entre o marido e a mulher existem afinidades. 
Scarlett sentiu de repente vontade de lhe gritar: "Mas o pap. e a mam foram felizes e, todavia, no 
h afinidade alguma entre os dois". Conteve-se, porm, com receio de que o pai a esbofeteasse pela 
sua impertinncia. 
-A nossa famlia  muito diferente da deles - prosseguiu Gerald lentamente, continuando a escolher 
as pala. vras. -Os WiU@es so diferentes de todos os nossos vizinhos... de todas--as famlias que 
conheo. So criaturas esquisitas. Mais vale que continuem a casar-se com os primos e com as 
primas, pois que, dessa maneira, conservaro toda a esquisitice na famlia. 
- Mas Astiley no ... 
- Caluda, menina! Eu no disse nada contra o rapaz, tanto mais que simpatizo bastante com ele. 
Esquisitice no tem nada que ver com loucura. A dele nem de longe se com- 
50 
para com as dos Calverts que so capazes de apostar toda a sua riqueza num cavaI@, nem com as 
dos Tarletons, que ficam sempre a cair de bbados quando tomam um copo de vinho a mais, nem 
com as dos Fontaines, que at pare- cem feras e no hesitam em matar um homem por qualquer 
afronta imaginria. Esse gnero de esquisitice  fcil de compreender e estou certo de que, sem a 
ajuda de Deus, Gerald O'Hara reuniria na sua humilde pessoa todos esses defeitos. Tambm no 
quero dizer que Asliley fosse pessoa para fugir com outra mulher, uma vez casado contigo, nem 
para te bater. No entanto, talvez fosses mais feliz se ele procedesse assim, pois que sempre 
compreenderias a sua atitude nesse caso. A esquisitice de Asliley  de outra espcie, de uma naturez 
ia que ningum entende. Gosto muito do rapaz, mas na minha opinio, a maior parte dascoisas que 
ele diz no tm ps nem cabea. Confessa, minha filha, que nem tu prpria consegues perceber a 
preocupao dele @ livros, com a msica, a poesia, a pintura a leo e com os eu sei l que mais. 
- Oli, pap, por amor de Deus! -exclamou Scarlett, impaciente. - Se eu casasse com ele modific-loia 
por completo. 
- Gostaria de ver isso - ripostou Gerald, lanando  filha um olhar penetrante. -Ainda conheces 
muito mal os homens. Deixa Asliley em paz. Nenhuma mulher at hoje logrou modificar o carcter 
do marido. No te esqueas disto. Quanto a essa ideia. de converter um Wilkes... nem parece tua. 
Toda a famlia l pela mesma cartilha; tm sido sempre assim e creio que continuaro a s-lo 
atravs dos sculos. Aquilo j nasce com eles. Repara s nos trabalhos em que se metem para irem a 
Nova Iorque e Boston ouvir uma pera ou ver uma exposio de quadros a leo. Mas h mais. 
Encomendam livros franceses e alemes aos yankees e ficam horas esquecidas a l-los e a pensar 
no sei em qu, em vez de passarem o tempo, a caar ou a jogar ao poker;como fazem os homens 
dignos desse nome. 
-No h ningum por aqui que monte a cavalo to bem como Asliley -protestou Scarlett, furiosa por 
ver o pai acusar o rapaz @ de ser efeminado - a no ser talvez o pai dele. Quanto ao poker, no  
verdade que Ashley ainda a semana passada lhe ganhou duzentos dlares, em Jonesboro? 
- Os Calverts andaram outra vez com mexericos - res- 
51 
#
mungou Gerald, resignado - pois, de contrrio, tu no saberias ao certo quanto perco. De facto, 
Ashley  o melhor cavaleiro, e tambm o melhor jogador de poker. Alm disso, quando ele se mete 
a beber, no h ningum que consiga acompanh lo at ao fim. Vo, rolando todos para debaixo da 
mesa at Asliley ficar szinho, sem competidores. Ele faz isso,  certo, mas f-lo sem entusiasmo. 
Por isso eu digo que se comporta de maneira esquisita. 
Scarlett no respondeu, com o corao como que estrangulado. No tentou argumentar contra as 
afirmaes do pai, pois sabia que ele tinha razo. Ashley era um cavaleiro exmio, um atirador 
emrito, mas no revelava entusiasmo pelas prticas desportivas nem pelos outros passatempos em 
que a maioria dos homens buscava distrao; tudo o que os outros rapazes da sua idade 
consideravam primordial apenas parecia despertar nele um interesse relativo. 
Interpretando correctamente o silncio da filha, Gerald afagou-lhe o brao e disse-lhe, em tom de 
triunfo: 
- Concordas, no  verdade? Que farias tu com um marido como Astiley? Os Wilkes so todos a 
mesma coisa. 
- E acrescentou, com voz mais terna: - Se h pouco me referi aos Tarletons' no julgues que foi com 
o sentido de manifestar qualquer preferncia. So ambos excelentes rapazes, mas se te sentes mais 
inclinada para Cade Calvert, deixa-me dizer-te desde j que no vejo nisso inconveniente nenhum. 
Os Calverts so belssimas criaturas, embora o velhote tenha casado com uma mulher yankee... 
E,quando eu morrer... escuta, filha... quando eu morrer, deixarei Tara para vocs os dois... 
- Eu no quero Cade para nada, nem que me aparecesse coberto de oiro - declarou Scarlett " 
completamente fora de si. - E gostaria que o pai deixasse de se preocupar por minha causa. No 
quero ficar com Tara nem com nenhuma outra fazenda. De que servem as terras quando... 
- Ia acrescentar: "Quando uma mulher no tem o homem que ama" mas--Gerald, indignado pela 
forma desdenhosa como a fiha acolhera a oferta de Tara -o que ele mais apreciava no mundo alm 
de Ellen - interrompeu-a com um rugido surdol. 
-Decerto no vais dizer-me que a terra, de Tara no representa nada para ti, Scarlett. 
A rapariga sacudiu obstinadamente a cabea. Estava to desesperada que nem sequer reparava na 
exaltao do pai. 
52 
- A terra  a nica coisa que conta na vida duma pessoa - clamava Gerald, furioso, gesticulando com 
os braos curtos -e musculosos. - i@ a nica coisa no mundo que fica para alm de ns. Nunca te 
esqueas disto. A terra  a nica coisa pela qual vale a pena trabalhar, combater... e at morrer! 
* . 
- Oli, meu Deus! - redarguiu Scarlett, num tom de enfado. -0 pai fala como um irlands! 
-Pois falo, e olha que nunca me envergonhei de tal. Pelo contrrio: tenho muito orgulho nisso. 
Lembra-te de que tu mesma ainda s metade irlandesa. E, para todos aqueles em cujas veias corre 
uma, gota de sangue irlands, a terra, em que vivem, e que lhes d o po que comem,  como a 
prpria me. Palavra que nunca esperei isso de ti, Scarlett. Ofereci-te a fazenda mais linda que 
existe em toda a Amrica ... com excepo, talvez das que h na comarca de Meath ... e como foi 
que tu me agradeceste? Recusando! 
Gerald comeava a dar l@vre curso a um dos acessos de clera explosiva em que parecia encontrar 
tanta satisfao, quando notou na fisionomia angustiada de Scarlett algo que o fez modificar a sua 
atitude. 
-Mas tu ainda s nova. 0 amor pela terra que te viu nascer vir mais tarde. E ento no resistirs ao 
seu apelo, pois que nas tuas veias corre tambm o meu sangue, o sangue de um irlands. Por 
enquanto, no passas duma rapariga enamorada e desiludida. S quando fores mais velha 
compreenders o verdadeiro significado das minhas palavras. At l, pensa no que eu te disse. 
Escolhe Cade, ou qualquer dos gmeos, ou um dos filhos de Evan Muriroe, e vers o que farei por 
ti. 
-Oh, meu pai! Por esta altura j Gerald comeava a estar farto de discutir o assunto e aborrecido por 
ver o problema recair-lhe sobre os ombros. Alm disso, sentia-se ofendido, por saber que a filha 
#
continuava desgostosa, apesar de lhe ter sugerido os melhores partidos da regio e de lhe ter 
oferecido Tara como dote de casamento. Gerald gostava que recebessem os seus presentes com 
palmas e lhos agradecessem com beijos. 
-E agora, deixa-te de fazer beicinho, minha filha. Casa-te com quem muito bem entenderes, desde 
que.se trate dum homem qu encare a vida da mesma maneira que tu, que saiba portar-se como um 
cavalheiro, que possua. 
53 
boa dose de orgulho e que seja um sulista ferrenho. Para a mulher, o amor s chegadepois 
docasamento. 
- Oli, meu pai! Hoje j ningum pensa assim. 
- Pois fazem mal, Os americanos como que foram atacados pela mania de fazerem casamentos de 
amor e agora  deix-los! Isso  bom para os criados e para os yankees. Podes ter a certeza de que 
os casamentos mais felizes so aqueles em que os pais escolhem os noivos para as filhas. Como  
que uma tontinha como tu poder diferenar um homem de bern de um patife? Repara nos Wilkes. 
Por que foi que eles se conservaram dignos e fortes atravs de tantas geraes? Porque se tm 
casado sempre com pessoas que pensam da mesma forma, respeitando as indicaes dos pais, 
baseadas na experincia da vida. 
- Oli! - gemeu Searlett, sentindo reavivar-se a, dor que lhe amarfanhava o corao, ante a inexorvel 
verdade contida nas palavras de Gerald. 
Baixou a cabea e o pai, inquieto, voltou-se para um lado e para o outro, sem saber o que fazer. 
- No ests a chorar, espero? - disse ele, tentando desajeitadamente obrigar Scarlett a erguer o 
queixo, enquanto no seu rosto se estampava uma expresso de tristeza, ante a profunda mgoa da 
filha. 
- No - respondeu ela desabridamente, desviando a cara. 
- Mentes e isso s -me d prazer. Agrada-me ver que tens brio. E amanh, na festa, quero que te 
mostres alegre, como se no fosse nada contigo. Seria aborrecido que toda a gente comeasse a 
inventar coisas e a fazer troa de ti, por te teres apaixonado por um homem que a teu respeito s 
tinha pensamentos amigveis. 
"Oh, eu sei muito bem que ele tinha outros pensamentos", pensou Scarlett, tristemente. "No me 
restam dvidas nenhumas a esse respeito. Se eu tivesse tido mais tempo, decerto que o obrigaria a 
falar... Oli, meu Deus, se no fosse aquela maldita mania de os primos casarem com as prirnas!" 
Gerald enfiou o brao dela no seu. 
- Agor-vmos direitinhos para casa e no se fala mais no assunto. A coisa ficar apenas entre ns. 
No quero aborrecer a tua me com mais problemas e estou certo de que tu, neste caso,@ s da 
mesma opinio. Assoa-te, minha filha. 
54 
Scarlett limpou o nariz no leno, que se encontrava reduzido a um trapo amarrotado. De brao dado, 
pai e filha subiram a alameda escura seguidos pelo cavalo que avanava a passo, lentamente. 
@uando estava quas a chegar a casa, Scarlett abriu a boca, para dizer qualquer coisa, mas avistou a 
me 'debruada na varanda, e nochegou a falar. Ellen tinha o chapu na cabea, os mitenes 
calados e um xaile pelos ombros. Atrs dela, distinguia-se o corpo volumoso da velha ama, com o 
rosto ensombrado por uma nuvem ameaadora, segurando nas mos o saco de couro em que Ellen 
O'Hara costumava transportar ligaduras e remdios para socorrer os escravos doentes. Bab tinha os 
beios grossos e revirados e quando por qualquer motivo se encolerizava, o lbio inf@rior parecia 
duplicar as suas dimenses. Tal era o caso naquele momento, pelo que Scarlett no teve dificuldade 
em perceber que a negra devia estar ruminando algo que lhe desagradava bastante. 
-;- Senhor O'Hara - chamou Ellen quando Gerald e Scarlett se preparavam para subir os egraus da 
entrada. Ellen pertencia a uma gerao de criaturas que, mesmo a@s dezassete anos de vida. 
conjugal e o nascimento de seis filhos, conservavam as maneiras cerimoniosas dos tempos 
anteriores ao casamento. - Os Slatterys esto atrapalhados l em casa. Eminie deu  luz um menino, 
mas a criana no deve resistir e j mandaram buscar o padre para a baptizarem. Eu vou at l com 
#
a ama, ver se posso ajudar nalguma coisa. 
Na voz dela adivinhava-se uma interrogao muda, como se Ellen, para realizar o seu projecto, 
precisasse realmente de prvia autorizao do marido. No fundo, aquilo no passava duma 
formalidade a que Gerald, no entanto, ligava grande apreo.- 
-Com seiscentos diabos! - exclamou ele. - Essa, corja de vadios no sabia escolher uma hora melhor 
para nos incomodar? Justamente na altura em que eu esperava que nos sentssemos todos  mesa 
para vos contar os boatos que correm em Atlanta, a respeito da guerra! Por amor de Deus, senhora 
O'Hara no se atrase por nossa causa. Se eu a no deixasse ir ficaria toda a noite s voltas na cama, 
sabendo que estava uma pe~a doente na vizinhana e que no podia ajud-la. V, que  melhor 
assim.. Ao menos, quando se deitar, j poder dormir descansada. 
- Ela nunca tem sossego e de noite se livanta pra cuid 
55 
' @L 4 
dos ngo e dos branco miserave qui pode,cuid deles mesmo 
- resmungou Bab, em voz baixa, enquanto descia os degraus, dirigindo-se para a carruagem 
estacionada numa lea lateral. 
- Toma o meu lugar  cabeceira da mesa - disse Ellen a Scarlett, afagando-lhe o rosto, com a mo 
calada de mitene. 
No obstante as lgrimas que s a muito custo lograva conter Scarlett estremeceu, ao sentir no rosto 
a carcia dos dedos @a me, o que sempre a comovia. Chegou-lhe s narinas o aroma delicado de 
verbena, que se emanava do saquitel que Ellen usava cosido  saia de seda. Havia em Ellen O'Hara 
algo que intrigava Scarlett, algo que tinha o condo de a impressionar, de a encantar ou acalmar, 
conforme as circunstncias. 
Gerald auxiliou a mulher a subir para a carruagem e ordenou ao c(>cheiro que conduzisse com 
prudncia. Toby, que, havia mais de vinte anos, cuidava dos cavalos do anic4 fez uma careta de 
desagrado ao ouvir o conselho, que tinha por escusado. Toby e a velha ama, que se sentara ao lado 
del na boleia ofereciam naquele instante, com a suas bei@laesdependuradas, uma perfeita imagem 
de desaprovao, segundo os mais sagrados cnones africanos. 
- Se eu no os houvesse ajudado tanto - murmurou Gerald - eles no teriam saldado as dvidas 
contradas e a estas horas j estariam longe daqui. Ter-nos-iam vendido aqueles miserveis acres de 
terreno pantanoso, no vale, e a comarca ter-se-ia visto livre para sempre desse bando de trastes. - 
Fez uma, pausa e, antegozando a perspectiva de arreliar o criado, acrescentou: -Anda, filha, vamos 
dizer a Pork que, em vez de comprarmos Dilcey, o vendemos a ele a John Wilkes. 
Entregando as rdeas do cavalo a um moleque que se encontrava perto, comeou a subir os degraus, 
esquecido da profunda mgoa que atormentava a filha, pensando apenas na partida que ia pregar a 
Pork. Scarlett seguiu-o vagarosamente, subindo com passos pesados a escadinha que levava  porta. 
Pensava que, apesar de tudo, uma unio entre ela e 
AshIey no seria mais extraordinria do que o casamento de Ellen Robillard com Gerald O'Hara e 
repetiu a si prpria a pergunta para a qual ainda no conseguira achar resposta, como tera sido 
possvel a um homem como o pai, to vulgar e rude, desposar uma mulher to carinhosa e to fina 
56 
como a suame. Porque a verdade  que nunca os sagrados laos do matrimnio haviam unido duas 
criaturas to diferentes em nascimento, educao e formao intelectual. 
ELLEN o'HARA contava apenas trinta e dois anos e, segundo o critrio daquela poca, podia 
considerar-se mulher de meia-idade, que dera  luz seis filhos dos quais j perdera trs. De estatura 
elevada a cabea erguia-se-lhe muito acima da do seu minscul@ e impetuoso marido; contudo, 
Ellen movia-se com tanta graa e leveza que a sua altura passava quase despercebida. 0 pescoo, 
bem torneado ' cor de alabastro, emergia da blusa de tafet preto, dando a impresso de se 
inclinar sempre levemente para trs, vergado sob o peso da opulenta cabeleira, que ela usava presa 
numa rede, junto  nuca. Da me, francesa, cujos pais tinham fugido para o Haiti durante a 
Revoluo de 1791, herdara os olhos escuros e oblquos, orlados de pestanas e a farta cabeleira cor 
#
de azeviche; e do pai, que servira sob as ordens de Napoleo, o nariz comprido e rectilnio e o 
queixo quadrado que a delicada curvatura das faces suavizava. Mas s a vida poderia ter concedido 
ao rosto de Ellen a expresso de orgulho em que no havia altivez, a graciosidade suave e 
melanclica e a serenidade cheia de tristeza que o caracterizavam. 
Ellen. seria surpreendentemente bela se no seu olhar houvesse um pouco de vivacidade, se o seu 
sorriso fosse comunicativo, se na sua voz, que aos ouvidos das pessoas da famlia e dos criados 
soava meiga e melodiosa, existisse uma nota de alegria. Tinha, a maneira de falar suave e modulada 
dos habitantes das zonas costeiras da regio, doce nas vogais, branda nas consoantes, com leve 
pronncia francesa. Ellen nunca levantava a voz nem para dar ordens aos criados, ne "m _para 
repreender as crianas; no entanto, era cegamente o!:;@-decida em Tara, o que no acontecia com o 
marido, a cujos gritos e fanfarronadas ningum ligava importncia. Para Scarlett, to longe quanto 
podia ir a sua memria, a me fora sempre a mesma. Exprimia-se em tom calmo e agradvel tanto 
quando elogiava como quando repreendia; jamais perdera a serenidade apesar das 
57 
complicaes que diriamente lhe trazia o governo duma casa de tanto movimento como a de 
Gerald O'Hara; conservava sempre a atitude tranquila, no se deixando ver-. gar, nem mesmo ao 
peso dos desgostos causados pela morte dos trs filhos. Scarlett nunca vira a me recostar-se numa 
cadeira, assim como jamais se lembrava de a ver sentada sem ter entre as mos um trabalho de 
costura excepto  hora das refeies, ou quando tinha doentes @ara tratar, ou fazia a contabilidade 
da fazenda. Se recebia visitas, aproveitava o tempo para bordar e,  noite, quando em famlia, 
entretinha-se a engomar as camisas amarrotadas do marido, a coser os vestidos das filhas ou a 
remendar o vesturio dos escravos. Scarlett no p@dia recordar as mos da me sem o seu dedal de 
oiro; e, quando pensava nela, via-a sempre acompanhada da pretinha, cuja funo consistia em tirar 
alinhavos e transportar a caixinha de costura de pau-rosa de quarto em quarto  medida que Ellen se 
deslocava p@la casa toda, dando o@@!ens. na cozinha, vigiando a limpeza dos aposentos e o 
trabalho das costureiras encarregadas das roupas para os trabalhadores. 
Tambm no se lembrava de ver a me perder a calma austera, nem de ter notado o mais pequeno 
desalinho no seu trajo, quer de dia, quer de noite. Quando Ellen se preparava para um baile ou para 
receber visitas, ou ainda para ir a Jonesboro <@wistir a um julgamento, gastava normalmente cerca 
de duas horas e ocupava duas criadas, alm da velha ama, para ficar ataviada a seu gosto. No 
entanto, em casos de emergncia, era assombrosa a rapidez com que se vestia. 
o quarto de Scarlett dava para o vestbulo e ficava mesmo em frente do aposento ocupado pela me. 
Desde a 
mais tenra infncia, ela habituara-se a ouvir o leve rumor dos ps descalos dos pretos arrastando-- 
se no sobrado, at altas horas da noite 'seguido do bater imperioso na porta do quarto fronteiro e das 
vozes dos escravos abafadas e cheias de medo anunciando doenas, nascime@tos e bitos, 
ocorridos na lo@ga fila, de cubatas caiadas de branco que lhes estavam reservadas. Como criana 
que era, Scarlett muitas vezes trepara pela porta e, espreitando por uma fenda estreita, vira Ellen 
surgir do quaxto imerso em trevas, aureolado pela luz vacilante da velaque erguia  altura da 
cabea, de cabelos bem penteados, blusa cuidadosamente abotoada, trazendo a caixa dos 
medicamentos debaixo do 
58 
brao, enquanto o ressonar ritmado e indiferente de Gerald se fazia ouvir no silncio da noite. 
Scarlett experimentava sempre uma sensao de conforto e segurana, quando ouvia a me 
murmurar em tom firme, mas compassivo, enquanto em bicos de ps se dirigia para a porta da rua: 
"Falem mais baixo para no acordar o senhor O'Hara. No se trata dum caso de vida ou de morte". 
Sim, era bom voltar para a cama, sabendo que Ellen sara e que tudo correria bem. 
De -manh, depois de haver passado a noite em claro,  "beceira de parturientes ou moribundos nas 
ocasies em que os dois doutores Fontaines tinham sid6 chamados para atenderem outros doentes e 
no havia possibilidade de entrar em contacto com eles, Ellen presidia ao primeiro almoo como de 
costume, com os olhos escuros cercados de olheiras profundas, no revelando cansao nem nos 
#
gestos, nem na voz. Sob a sua aparente fragilidade, possua, uma resistncia de ao, que se impunha 
a todos os que com ela viviam e ao -marido tanto como s filhas, embora preferisse mil vezes 
morrer a ter de o confessar. s vezes, quando Scarlett, de noite, se punha em bicos de ps para 
beijar o rosto da me, reparava na sua boca pequena, de lbios meigos, uma boca que a vida to 
fcilmente atormentava, e perguntava a si prpria se alguma vez ela teria rido, com gargalhadinhas 
maliciosas 'tal como as pequenas costumam fazer, ou se tambm teria confiado os seus segredos s 
amigas, durante os longos seres, no Inverno. Mas no, isso era-impossvel. A me devia ter sido 
sempre o que era, ainda hoje, um pilar de resistncia,, uma fonte de sabedoria, a nica pessoa que 
encontrava resposta para todas as perguntas. 
Mas Scarlett enganava,se. Muitos anos antes, Ellen Robillard, de Savannali, tinha rido, com 
gargalhadinhas maliciosas, como qualquer outra rapariguinha de quinze anos, nessa encantadora 
cidade do litoral. Trocara confidncias com as amigas, contara-lhes todos os seus segredos, menos 
um. Foi nessa altura que Gerald O'Hara, vinte e oito anos mais velho do que ela, entrou na sua vida; 
e tambm foi nesse ano que a alegria de viver e o seu primo Philippe Robillard a deixaram para 
sempre. Porque, quando Philippe, com os seus olhos negros e maneiras rudes, deixou Savannah 
para no voltar nunca mais, levou consigo todo o calor que existia no corao de Ellen, deixando 
para 
59 
F~1 1 
o pequeno irlands de pernas. bambas que a desposou um invlucro gentil, mas vazio. 
Mas Gerald no pedia mais, deslumbrado com a felicidade inesperada de casar com ela. E, se Ellen 
tinha sofrido alguma modificao, ele nunca deu por isso. Esperto Corno era, sabiamuito bem que 
s um milagre permitiria que ele, irlands pobre e sem famlia -que o recomendasse, conseguisse 
conquistar a filha de uma das famlias mais ricas e orgulhosas da regio. Porque Gerald tinha-se 
feito a si prprio. 
Gerald viera da Irlanda para a Amrica ao vinte e um anos de idade. Tal como muitos outros 
irlandeses, melhores ou piores do que ele, haviam feito antes e depois, Gerald deixara o seu pa@s  
pressa, e transportara consigo smente a roupa qVe tinha no corpo. Trouxera apenas dois xelins, 
alm do dinheiro para a passagem, e a cabea posta a prmio o que ele considerava um exagero, 
dada a insignificnia do crime que havia praticado. Aos olhos do Governo Britnico e aos do diabo 
prpriamente dito, no havia no mais velho continente do inferno terrqueo um nico irlands 
protestante que valesse uma centena de libras; mas, se o governo dava, tanto valor  morte do 
rendeiro de um sbdito ingls ausente, Gerald no tinha outro, remdio seno partir, e partir 
depressa, antes que fosse demasiado tarde, Na verdade, ele insultara o rendeiro chamando-lhe 
"protesta,nte patife", mas esse facto, do ponto de vista de Gerald, no dava ao homem o direito de 
lhe retribuir o insulto assobiando os primeiros compassos da -cano The Boyne Water. 
A batalha de Boyne desenrolara-se mais de cem anos 
antes, mas para os O'Haras e respectivos vizinhos era como se tivesse tido lugar na vspera, pois 
que nela haviam perdido as suas esperanas, os seus sonhos, as suas terras e riquezas, varridas na 
mesma nuvem poeirenta que envolvera a fuga dum prncipe Stuart aterrorizado, o qual permitira 
que Guilherme de Orange e os seus detestveis soldados 'de plumas alaranjadas no chapu, 
aniquilassem os seus partidrios irlandeses. 
-Por esta razo e por outras ' a famlia de Gerald no estaria disposta a ligar grande importncia 
ao desfecho trgico da -questo, se ela lhes no houvesse acarretado to graves dissabores. Hava 
muitos anos que os O'Haras no 
60 
eram bem vistos pela polcia inglesa, pois que pesavam sobre eles suspeitas de actividades contra o 
Governo; e Gerald no era o primeiro da famlia a meter ps ao caminho e a abandonar a Irlanda s 
primeiras horas do amanhecer. Os- seus dois irmos mais velhos, Jamer> e Andrew, tinham feito 
precisamente o mesmo. Recordava-se vagamente de muitas vezes os ter visto sair de casa pela 
calada da noite, para s voltarem de madrugada. Era frequente desaparecerem durante semanas 
#
inteiras, deixando a me ansiosa e inquieta. Alguns meses antes tinham-se visto na necessidade de 
partir para a Amrica, logo aps a descoberta de um pequeno depsito de espingardas numa pocilga 
existente na sua propriedade. 
E agora estavam a ponto de enriquecer como comerciantes, em Savannah, "embora s Deus saiba 
onde essa terra fica", como dizia a me sempre que lhe falavam nos seus dois filhos mais velhos, a 
cujos cuidados o jovem Gerald foi entregue. 
Gerald abandonou o lar paterno levando nas faces dois beijos apressados da me, e nos ouvidos a 
sua bno. e meia dzia de preces com que ela, catlica devota, o recomendara  proteco divina, 
bem como o conselho do pai que no momento da paxtida lhe dissera: "Lembra-te de que no deves 
apropriar-te nunca daquilo que no te pertence". Os seus cinco irmos, de estatura avanada, 
despediram-se dele, com sorrisos de admirao e com ar levemente protector, pois que Gerald, alm 
de ser o mais novo, era tambm o membro ma,is pequeno e franzino duma famlia de gigantes. 
Na verdade, tanto o pai como os outros filhos excediam um metro e noventa, de altura e eram bem 
proporcionados, ao passo que Gerald,, aos vinte e um anos, chegara  concluso de que um metro e 
sessenta e poucos centmetros era tudo o que Deus, na. Sua infinita sabedoria Se dignara concederlhe. 
Contudo, no estava no feitio @ele perder tempo com Jamentaes inteis acerca da 
exiguidade da estatura, que noconsiderava susceptvel de obstar  realizao dos seus desejos. 
Efectivamente foi a sua pequenez que em grande parte contribuiu para fazer dele o que era, porque 
bem cedo compreendeu que os homens pequenos precisavam de ser duros, para viverem entre os 
grandes. E Gerald era duro@ 
Os irmos, altos e desempenados, formavam um grupo 
61 
@@ 40 @@ 
sossegado e triste. A tradio de glrias familiares, perdidas para sempre despertava, neles um dio 
surdo e concentrado, que d@ vez em quando se manifestava em acessos de profundo mau-humor. 
Se Gerald fosse forte e bem constitudo, decerto teria seguido o exemplo de to-dos os seus 
antepassados vivendo, sem alarde, entre os rebeldes que na sombra c6spravam contra o governo. 
Mas Gerald, bem pelo contrrio, era "desembaraado e no tinha papas na lngua" como 
afectuosamente dizia a me. De temperamento impulsivo, estava sempre pronto para, a luta e no se 
dava ao trabalho de o disfarar. Pavoneara-se no meio dos O'Haras com a meama arrogncia com 
que um galito da India se pavoneia numa capoeira cheia de galos gigantes da Cochinchina. Os 
irmos estimavam-no e s vezes provocavam-no propositadamente s para o ouvirem barafustar, 
dando-lhe socos com os seus punhos grandes e possantes, sem empregarem muita fora ' mas 
apenas a suficiente para * conservarem no seu lugar de irmo mais novo. 
Se as habilitaes literrias que Gerald trouxera para * Amrica eram insuficientes ' ele nunca deu 
por isso; e, se lhe tivessem chamado a ateno para o facto, decerto se limitaria a encolher os 
ombros, sem ligar importncia. A me ensinara-o a ler e a escrever correctamente; alm disso, 
Gerald fazia contas sem dificuldade e, na verdade, a sua sapincia no ia mais longe. Do latim 
conhecia apenas os responsos que rezava na igreja e da Histria os diversos erros cometidos pela 
Irlanda. Salvo os poemas de Moore, a poesia era para ele letra morta e jamais se sentiu capaz de 
compreender qualquer msica que no fosse a das canes populares irlandesas'transmitidas de pais 
a filhos, atravs dos sculos, Embora a cultura dos outros lhe inspirasse o mais profundo respeito, 
no se sentia mal na sua ignorncia. Demais a mais, que diferena lhe poderia fazer uma dose mais 
ou menos elevada de conhecimentos, num pas em que os irlandeses mais incultos, conseguiam 
arranjar riquezas enormes, num pas onde, bastava ser-se forte e trabalhador? James e Andrew que o 
receberam nos seus armazns de Savannah, tambi no lamentavam a sua falta de instruo' A boa 
caligrafia, os nmeros que sabia desenhar to bem, a perspiccia que evidenciou nos negcios, 
depressa o impuseram ao conceito deles; ao passo que, se Gerald possusse urna grande cultura 
literria e soubesse apreciar boa msica, apenas teria ganhado o seu despreza. 
62 
No princpio do sculo, a Amrica havia acolhido os irlandeses com a mxima simpatia. James e 
#
Andrew, que tinham principiado como navegantes, trabalhando para uma empresa que assegurava o 
transporte de mercadorias entre Savarinali e as cidades do interior de Gergia, possuam agora um 
negcio que prosperava. E Gerald prosperou com eles. 
Simpatizou com o Sul, desde o primeiro momento, e depressa se tornou - na sua opinio, pelo 
menos - um verdadeiro Sulista. Contudo havia no Sul e nos sulistas muitas coisas que ele no 
vin@'a nunca a perceber; mas, com a condescendncia prpria da sua natureza simples, adoptou as 
ideias e os costumes do pas tal como os compreendia. Comeou a jogar ao poker e a'frequentar as 
corridas de cavalos; apaixonou-se pela poltica, pelo cdigo de due~ los e pelos direitos dos 
Estados; votou dio de -morte aos yankees, defendeu a manuteno da escravatura e a cultura do 
algodo em larga escala; exagerou o seu desprezo pelos brancos pobres e a sua cortesia para com as 
mulheres, Chegou ao ponto de aprender a mascar tabaco. S no precisou de que o ensinassem a 
suportar bem o wh@sky, pois nesse captulo parecia ter nascido ensinado. 
Contudo, Gerald era sempre o mesmo. Tinha modificado as ideias e o gnero de vida que levara at 
ali, mas a sua maneira de ser no a modificaria ele nunca , ainda que pudesse. Admirava a 
elegncia indolente dos opulentos cultivadores de arroz e algodo que, dos seus domnios 
verdejantes, vinham at Savannali, montando animais de puro sangue e fazendo-se acompanhar de 
carruagens que transportavam as suas mulheres, ricamente ataviadas e de .carroas a abarrotar de 
escravos. Todavia, jamais conseguiria arranjar modos finos e distintos. As vozes arrastadas e 
dolentes. agradavam-lhe ao ouvido, mas no-lograra nunca trocar o seu sotaque forte de irlands 
pela pronncia suave de Gergia. Apreciava a graa descuidada com que tratavam os negcios mais 
importantes, arriscando uma fazenda, uma riqueza ou um escravo numa simples cartada., e pagando 
os prejuzos com o despreocupado bom-humor com que atiravam moedas a um moleque. Mas 
Gerald, que conhecera a pobreza de muito perto, jamais tinha, aprendido a perder dinheiro 
despreocupadamente. 'Com as suas vozes meigas 'os seus acessos repentinos de clera e a sua 
encantadora volubilidade, os habitantes da regio torna- 
63 
w,a Jd @f1- 
vam-se simpticos e agradveis e Gerald gostava deles. Mas a actividade viva e inquieta que 
caracterizava o moo irlands recm-chegado dum pas onde o vento soprava hmido e frio e o 
nevoeiro dos pntanos no provocava . febres, impedia-o de se misturar com aquela burguesia 
indolente, duma regio onde o clima era semitropical e a malria germinava nos tremedais. 
Dos seus costumes e ensinamentos, aproveitou apnas o que lhe pareceu conveniente e desprezou o. 
resto. 
Chegou  concluso. de que o &ker assim como o uso do whisky, para aqueles que tinham a cabea 
suficientemente slida, constituam as duas melhores instituies do Sul. E foi a sua tendncia, 
natural para as cartas e para o lcool que lhe granjeou dois dos trs bens mais preciosos que possua: 
o criado e a fazenda. Quanto ao terceiro, a mulher, s podia atribuir a sua posse a uma misteriosa 
proteco de Deus. 
0 criado, Pork, negro e luzidio valorizado pelo conhecimento da arte de alfaiate, era o f@1iz 
resultado duma noite inteira de poker com um cultivador da ilha de St. Simon, cuja coragem no 
bluff igualava a de Gerald, mas cuja cabea no suportava, como a dele, o rum de Nova Orlees. 
Apesar de o antigo proprietrio de Pork se ter oferecido, -mais tarde, para o comprar pelo dobro do 
seu valor, Gerald recusou-se obstinadamente a vend~lo, porque a posse dum negro e dum negro 
unnimemente considerado como o melhor criado de toda a regio, representava o primeiro passo 
para a realizao dos seus sonhos. Na realidade, Gerald ambicionava possuir muitos escravos e 
transformar-se num grande proprietrio rural. 
Estava firmemente resolvido a no passar os dias encafuado num armazm e as noites a fazer contas 
interminveis,  luz duma vela, como acontecia a James e a Andrew. Ao contrrio do que sucedia 
com os irmos ' sentia o desprezo que a sociedade votava aos que se dedicavam ao -comrcio. 
Queria ser plantador. Com a impacincia dum irlands que j se vira na necessidade de alugar uma 
terra que outrora havia pertencido aos seus antepassados, desejava ardentemente ver alargarem-s.e 
#
diante de si enormes extenses de campos verdejantes, de que fosse ele o proprietrio. Impelido por 
esta aspirao 'ansiava por obter uma casa s para si, uma fazenda que lhe pertencesse 
exclusivamente, cavalos e escravos de que pudesse dispor  
64 
11 
sua vontade. E ali, naquele pas novo, ao abrigo do duplo perigo que o espreitava na ptria que 
acabava de deixar 
- impostos que lhe absorviam os rendimentos das colheitas e do celeiro e a ameaa constante duma 
confiscao - 
Gerald resolveu realizar o seu sonho. Mas com o correr do tempo, descobriu que entre ter ambies 
e alcanar o seu objectivo havia uma grande diferena. Gergia do lito.ral estava firmemente 
guardada nas mos duma.aristocracia por demais intransigente. Tentar romper as suas defesas seria 
rematada loucura. 
Foi nesta altura que um golpe do Destino e do poker s.e combinaram para lhe entregar a fazenda,  
qual mais tarde ps o nome de Taxa, desterrando-o das regies costeiras para o planalto ao norte de 
Gergia. 
Num botequim de Savannali, numa noite quente de Primavera, o moo irlands ouviu a conversa 
dum forasteiro que se sentara no muito longe da sua mesa, e que o ps logo de sobreaviso. 0 
desconhecido, natural de Savannah, regressara  cidade natal, aps doze anos de ausncia no 
interior. Fora um dos contemplados na lotaria que o Governo organizara para distribuio das terras 
cedidas pelos ndios no centro de Gergia, no ano anterior  chegada de Gerald  Amrica. Havia 
ido para l e conseguira arranjar uma, fazenda; mas a casa fora destruda por um incndio e agora, 
farto.do "maldito lugar", estava disposto a desfazer-se dela. 
Gerald, que no renunciara nunca  ideia de possuir uma plantao, tratou logo de arranjar forma de 
ser apresentado ao desconhecido. E o seu interesse foi subindo de ponto,  medida que ele lhe dizia 
que a regio setentrional do Estado se estava enchendo rapidamente de gente vinda de Carolinas e 
de Virgnia. Gerald tinha vivido em- Savannah o tempo suficiente para adquirir os pontos de vista, 
dos seus habitantes. Por consequncia, na opinio dele, o resto do Estado era constitudo apenas por 
florestas onde, por detrs de cada moita, espreitava um ndio. Nas viagens de negcios que fizera 
por conta da firma Irmos O'Haras, deslocara-se at Augusta, situada a umacentena de milhas * 
montante do rio Savannali e tinha percorrido igualmente * interior, visitando as velhas cidades da 
regio. Sabia que nessa zona reinava a mesma tranquilidade do litoral, mas, das descries que o 
forasteiro lhe fez, deduziu que a fazenda a que ele se referia se encontrava a mas de tre@- 
5 - Vento Levou - 1 65 
-1, " 1 @ 
zentos quilmetros a noroeste de Savannah e um pouco ao sul do rio Chattahoochee. Gerald no, 
ignorava que a regio situada a norte desse rio se encontrava ainda em poder dos Cherokees, pelo 
que ficou surpreendido ao ouvir o desconhecido troar dos boatos & complicaes com os ndios e 
descrever o progresso das cidades e plantaes daquela regio. 
Uma hora mais tarde, quando a conversa j ia perdendo o interesse, o irlands, com uma astcia que 
a inocncia dos seus olhos azuis e brilhantes contradizia, props ao companheiro uma partida de 
poker. As horas foram passando e os copos vazios foram-se acumulando ao lado dos jogadores. A 
certa altura, porm, a maioria dos parceiros pousou as cartas na mesa, deixando Gerald e o 
desconhecido frente a frente, 0 forasteiro atirou para a mesa todas as suas fichas, juntando-lhes o 
ttulo de propriedade da plantao. Com as que possua, o irlands, por seu turno, colocou-lhe em 
cima a carteira com todo o dinheiro que trazia consigo. Se o dinheiro que deps sobre a mesa 
pertencia  firma Irmos O'Haras ' a sua conscincia no o importunou a ponto de o obrigar a 
confessar a culpa, na missa do dia seguinte. Sabia muito bem o que queria e, quando pretendia 
alguma coisa, procurava, a maneira mais simples de a obter. Alm disso, a sua f no destino e nos 
dados que rolavam diante dos seus olhos era to grande, que nem por um momento se deteve a 
perguntar a si prprio onde iria desencantar a quantia necessria para pagar ao parceiro, no caso de 
#
ele possuir uma "mo" mais forte do que a sua. 
- Voc no fez um negcio por a alm, e eu sinto-me feliz por no ter que pagar mais impostos - 
suspirou o detentor de um full de ases, pedindo caneta e tinta para escrever. -A casa. ardeu h um 
ano, aproximadamente, e o terreno que a cerca est a monte, coberto de mato e de pinheiros bravos. 
Tudo isso lhe pertence, agora. 
- Poker e whisky so duas coisas que ningum deve misturar - declarou Gerald a Pork, nessa mesma 
noite - 
a no ser que se esteja habituado a, beb-lo desde o bero 
0 preto, que j nutria' pelo seu novo amo grande adrnirao, tentou responder-lhe em irlands, mas 
no conseguiu. 0 resultado foi uma estranha miscelnea em que o dialecto Geechee se misturava 
com o de Meath de tal maneira que teria, deixado estupefacto quem o ouvisse. 
0 rio Flint corria, silencioso e lamacento, por entre 
66 
muralhas de pinheiros e carvalhos cobertos de trepadeiras, envolvendo num abrao a nova 
propriedade de Gerald, que limitava por dois lados. Para ele, de p sobre o pequeno outeiro onde 
primitivamente se erguera a casa, aquela barreira alta de verdura era to majestosa e fazia-o 
experimentar uma sensao de posse to intensa, como se fosse uma cerca por ele prprio 
construda para limitar o seu domnio'. Com os ps apoiados sobre as pedras negras da casa 
incendiada, fitou o longo renque de rvores que se estendia at  estrada e praguejou com violncia, 
pois o prazer que sentia era demasiadamente intenso para se manifestar por meio de uma prece. 
Aquelas muralhas sombrias de verdura eram suas' como seu era tambm aquele relvado inculto, 
onde o galracho crescia, sob as magnlias em flor. Aqueles campos maninhos, de terra argilosa e 
superfcie ondulante, marchetados de moitas de arbustos e de pinheiros raquticos, que se estendiam 
a perder de vista, em todas as direces, pertenciam a Gerald O'Hara -um irlands de cabea rija, 
capaz de suportar os vapores do lcool e que tivera a audcia de arriscar dinheiro alheio numa 
partida de poker. 
Gerald fechou os olhos, e no silncio que o rodeava, sentiu que lograra, enfim, realizar o seu sonho. 
Ali mesmo, no stio onde poisava agora os ps, havia de construir uma casa de tijolos brancos; do 
outro lado da estrada, erguer-se-iam as cercas para as vacas gordas e cavalos de puro sangue; um 
manto de algodo, branco e resplandecente, cobriria a terra vermelha que descia, sinuosa, pela 
encosta do outeiro at s margens frteis do rio. E a famlia O'Hara alcanaria de novo a 
prosperidade. 
Munido do pouco dinheiro que ganhara ao jogo, dum pequeno emprstimo concedido sem 
entusiasmo algum, pelos irmos e duma importn@ia razovel obtida sobre hipoteca da 
propriedade, Gerald comprou os seus primeiros escravos e veio para Tara. Instalou-se, sozinho, na 
casita destinada ao feitor, enquanto esperava que a sua residncia fosse construda. 
Desbravou a terra, plantou algodo e pediu a James e 
Andrew mais dinheiro emprestado para comprar nova.POro de escravos. Os O'Haras mantinhamse 
sempre unidos, tanto nas alegrias como nas tristezas no porque nutrissem uns pelos outros 
afeio muito ace@tuada, mas porque a adversidade, contra a qual haviam lutado em tempos 
passados, lhes ensinara que, para uma famlia sobreviver tinha 
67 
que apresentar ao mundo uma frente inexpugnvel. Emprestaram a Gerald o dinheiro de que ele 
necessitou e, mais tarde, receberam-no acrescido dos juros. Gradualmente, a plantao foi-se 
@esenvolvendo,  medida que Gerald comprava os terrenos que a cercavam e, a certa altura, a casa 
de tijolos brancos deixou de ser um sonho para, se transformar em realidade. 
Os prprios escravos a haviam construdo. Era um edifcio pesado, de linhas direitas, que se erguia 
no todo do outeiro, dominando os prados verdes que se estendiam at ao rio; e um enorme prazer 
invadiu'o seu proprietrio, ao verificar que, apesar de nova, a casa parecia antiga. Os velhos 
carvalhos, sob os quais os ndios tinham passado, cercavam-na de perto com os troncos enormes e 
estendiam a folhagem sobre o telhado, envolvendo-o numa sombra espessa. 0 trevo e a grama 
#
abundavam no prado coberto de ervas 'e Gerald ordenou que os tratassem com especial cuidado. 
Desde a alameda ladeada de cedros at s cubatas reservadas aos escravos, reinava em Tara uma 
atmosfera de segurana, de estabilidade e de firmeza,; e de cada vez que Gerald, montando a cavalo, 
dava uma volta  propriedade e via, de longe, o telhado emergir da folhagem verde que o rodeava, 
estremecia de prazer como se aquele espectculo fosse sempre novo para si. 
Ele tinha feito aquilo tudo, ele, o irlands pequeno de /cabea dura e modos fanfarres. Gerald 
dava-se bem com todos os vizinhos na regio,  excepo dos Mac lntoshes, cuja propriedad@ 
limitava a su2 pela esquerda, e dos Slatterys, que possuam trs miserveis acres de terreno  direita 
da sua plantao estendendo-se ao longo dos pntanos, entre o rio e a iazenda de John Wilkes. 
Os Mac Intoshes eram meio escoceses 'meio irlandeses e orangistas ferrenhos; possuam, havia 
muitas geraes, todas as virtudes enumeradas no calendrio catlico, o que era mais do que 
suficiente para os fazer cair na antipatia de Gerald. Tinham vindo para a Gergia h mais de setenta 
anos e, antes disso, passaram toda uma, gerao no Estado de Carolina; mas ' dos seus 
antepassados, o primeiro que desembarcara na Amrica viera directamente de UIst r' e isso, aos 
olhos de Gerald, constitua uma falta na verdade imperdovel. 
Os Mac Intoshes eram reservados e altivos. No manti- 
68 
nham relaes de amizade com os vizinhos e, para casar, escolhiam sempre os parentes que 
residiam em Carolina. A antipatia que tinham inspirado a Gerald estendera~se a todos os habitantes 
da comarca, pois que, sendo de seu natural sociveis e condescendentes, os georgianos notoleravam 
quem no possusse essas qualidades. 0 boato de que os Mac Intoshes perfilhavam ideias 
abolicionistas prejudicava, em parte, -a sua popularidade. No entanto, o velho Angus no concedera 
nunca a liberdade a nenhum dos seus criados e j tinha cometido o erro, irremissvel aos olhos da 
sociedade, de vender alguns negros aos mercadores de escravos que passavam a caminho das 
plantaes de cana de acar da Louisiana. Apesar disso os boatos persistiam. 
-No h dvida de que ele  ur@ abolicionista - afirmava Gerald a John Wilkes. -Mas sempre que 
um princpio vai de encontro ao carcter obstinado dum escocs, o primeiro  que  sacrificado e 
no o segundo. 
Com os Slatterys o caso, porm, era diferente. Pertencendo ao nmero dos "brancos-pobres" no 
mereciam sequer a considerao que os vizinhos embora de m vontade, davam  independente 
altivez d@ Angus Mac Intosh. 
0 velho Slattery, que se agarrava desesperadamente quele terreno pobre que lhe pertencia sem dar 
ouvidos s repetidas propostas que tanto Gerd como John Wilkes lhe haviam feito, no tinha um 
cntimo e passava a vida a lamentar-se. A mulher, de cabeleira suja e emaranhada, apresentava 
aspecto doentio e fatigado. Era. me duma ninhada de crianas tristes e sombrias, cujos traos 
faziam lembrar focinhos de coelhos ' ninhada essa que aumentava regularmente todos os anos. Tom 
Slattery no possua um nico escravo. Ele e os dois filhos mais velhos esfalfavam-se a trabalhar os 
magros acres de algodo que lhes pertencia, enquanto a mulher, ajudada pelas crianas mais novas, 
tratava daquilo a que eles tinham combinado chamar horta. Contudo, embora no houvesse 
justificao possvel para o facto, Tom Slattery jamais conseguiu fazer vingar o seu algodo, da 
mesma maneira, que a mulher, talvez devido  circunstncia de se encontrar sempre grvida, 
raramente conseguia que a horta produzisse o suficiente para alimentar a prole. 
Slattery passava os dias a rondar as portas dos vizinhos, pedindo sementes de algodo ou um 
bocado de toucinho "para amparar o estmago". Odiava os seus conterrneos 
69 
com a pouca energia que lhe restava, adivinhando, sob os seus modos corteses, o desprezo que lhe 
votavam; mas era contra os "negros das casas ricas" que o seu rancor se voltava com mais violncia. 
Os pretos das casas ricas consideravam-se superiores aos braricos-pobres e o mal disfarado 
desprezo com que os tratavam magoava profundamente Slattery que, ao mesmo tempo lhes invejava 
a posio segura que desfrutavam. Ao pas@o que Slattery levava uma vida miservel, aqueles 
negros eram bem alimentados, bem vestidos, bem tratados quando estavam doentes ou quando 
#
chegavam  velhice. Mostravam-se orgulhosos da, boa reputao dos seus senhores e, na sua 
maioria, envadeciam-se por pertencerem s famlias que constituam o escol do pas, ao passo que 
Slattery se sentia desprezado por todos. 
Podia ter vendido a propriedade pelo triplo do seu valor a qualquer cultivador da comarca. Todos 
teriam dado por bem empregado o dinheiro que livrasse a, comunidade de gente to indesejvel 
como aquela; mas Tom Slattery preferia ficar a dever a subsistncia dos seus  caridade dos 
vizinhos e ao produto da venda do nico fardo de algodo que todos os anos conseguia produzir. 
Com o resto dos fazendeiros Gerald mantinha relaes de amizade, chegando at a co@tar -alguns 
amigos ntimos entre eles. Os Wilkes'os Calverts, os Tarletons, os Fontaines sorriam quando viam 
galopar ao longo das suas leas a figura pequena de Gerald montado num enorme cavalo branco. 
Recebiam-no sempre com alegria e mandavam servir clices de Bourbon com acar e folhas de 
hortel esmagadas. Gerald era bastante socivel e algum tempo depois de o conhecerem, os 
vizinhos desco@riani o que as crianas, os pretos e os ces adivinhavam logo  primeira vista: que 
por trs das maneiras rudes e da voz de trovo, Gerald ocultava um corao sensvel, um ouvido 
atento a todos os queixumes e uma. bolsa aberta para os que dela necessitassem. 
A sua chegada provocava sempre barulho e confuso. Aos latidos alegres dos ces juntava~se o 
alarido dos moleques que corriam ao seu encontro, disputando entre si o 
direito de segurar as rdeas docavalo empurrando-se uns aos outros e sorrindo, sob a torrente d@ 
fingidos ralhos com que Gerald os mmoseava. As crianas brancas pediam-lhe que as encavalitasse 
nos joelhos, enquanto ele explicava, s mais velhas as infmias cometidas pelos polticos yankees; 
70 
as filhas dos amigos confiavarrilhe os seus segredos amorosos; e os jovens seus vizinhos, receosos 
de confessarem aos pais as dvidas contradas no jogo encontravam nele um amigo sempre pronto a 
auxili-los. 
- Tens coragem de estar a dever isto h um ms, meu grande patife - gritava encolerizado. - Mas por 
que diabo no me vieste procurar h mais tempo? 
A sua maneira rspida de falar era bastante conhecida para que algum se ofendesse com ela. Os 
rapa@zes sorriam, embaraados, e respondiam: 
- Ora, eu no queria incomod-lo ' e o meu pai... 
- 0 teu pai  uma ptima criatura, ningum pode dizer o contrrio, mas muito austero. Toma l o 
dinheiro e no se fala mais nisto. 
As mulheres dos fazendeiros foram as ltimas a capitular. Mas uma tarde, depois de Gerald ter 
sado, a senhora Wilkes que, segundo a opinio dele, era "uma grande dama que possua o condo 
de saber guardar silncio", voltou-se para o marido e disse referindo-se ao visitante: 
- Tem uma manei@a rude de falar, mas  um autntico cavalheiro. 
Gerald O'Hara ganhara a partida. Contudo, Gerald nunca desconfiara de que lhe tinharr. sido 
necessrios dez nos para conseguir essa classificao social, pois que lhe passara completamente 
despercebido o desprezo com que, a<> principio, fora tratado pelos seus vizinhos. Estava 
convencido de que, desde que pela primeira vez pisara o cho de Tara, o haviam recebido em p de 
igualdade. 
Aos quarenta e trs anos Gerald estava transformado num indivduo alentado, de @aces rubicundas 
cuja figura parecia recortada duma antiga gravura de ca@a..Foi pouco mais ou menos nessa altura 
que ele chegou  concluso de que o amor que dedicava a Tara e a amizade dos vizinhos,. que o 
recebiam sempre de braos abertos e rosto sorridente, no bastavam para preencher a sua vida.. 
Faltava-lhe uma companhe4ra. 
Em Tara sentia-se a. necessidade imperiosa duma dona de casa. 0 cozinheiro, negro gordo que 
principiara por tratar apenas da criao e que, pela fora das circunstncias, fora elevado  categoria 
de chefe de cozinha nunca preparava as refeies a horas; quanto  criada d.@ quarto, velha escrava 
que Gerald, de incio, havia contratado para traba- 
71 
lhar no campo, deixava a poeira acumular-se nos mveis, no se dando ao trabalho de os limpar; a 
#
chegada de qualquer hspede causava sempre uma barafunda indescritvel, pois que a preta jamais 
conseguia trazer a roupa da casa em ordem. Pork era o nico servo decente da propriedade e, por 
isso, Gerald encarregara-o de dirigir o resto do pessoal; mas at mesmo ele se tornara preguioso e 
negligente, deixando,-se influenciar pelo feitio descuidado do amo. Como criado de quarto, trazia 
os aposentos de Gerald sempre em ordem;como mordomo, esmerava-se no desempenho do cargo e 
servia  mesa com estilo e dignidade; ao resto do servio, porm, no prestava a mnima ateno. 
Com o seu instinto infalvel, os negros haviam descoberto que o patro se assemelhava aos ces que 
ladram mas no mordem e ' sem o menor escrpulo, aproveitavam-se da situao. A atmosfera 
em Tara estava sempre carregada de ameaas. Gerald afirmava-lhes, em altos gritos, que ia 
vend&los aos mercadores do Sul, que havia de os fustigar sem d nem piedade; mas eles bem 
sabiam que em Tara n:> se negociavam escravos e apenas se,lembravam de ter visto aplicar o 
chicote uma vez @i um preto que, tendo sido encarregado de tratar do cavalo de Gerald, o havia 
esquecido por completo, deixando-o sem rao, depois de ele ter passado o dia inteiro numa caada. 
Com os seus penetrantes olhos azuis, Gerald notara a maneira eficiente pela qual as mulheres dos 
seus vizinhos, de cabelos lisos e saias roagantes 'dirigiam a criadagem. Ignorava que, desde o 
romper do dia at altas horas da noite, aquelas mulheres desenvolviam uma actividade constante, 
cosendo e lavando as roupas de casa, tratando da cozinha e vigiando as crianas. S conhecia o 
resultado dessa actividade e achava-o impressionante. 
Certa manh quando estava a preparar-se para ir  cidade assistir @ um julgamento ' chegou  
concluso de que precisava casar quanto antes. Pork entregara-lhe a sua camisa favorita, de folhos, 
que a criada de quarto havia passajado; contudo, to desajeitadamente se houvera que s o criado a 
poderia vest' r. 
-Sinh Gerald-observou Pork, dobrando a camisa, sem conseguir esconder a sua satisfao-o sinh 
precisa mas  de mui, de mui que sabe mand em casa chinha d9 ngo, 
Gerald repreendeu Pork pela impertinncia, mas sabia 
72 
que ele tinha razo. Era sua nteno casar e ter filhos e, se no tratasse disso quanto antes, depois 
seria tarde demais. Tambm no queria desposar a primeira que lhe aparecesse, como tinha feito 
Calvert que, ao ver-se vivo, resolvera casar com a govemanta yankee dos seus filhos. A senhora 
O'Hara deveria ser uma dama de boas famlias, que possusse a distino e a graciosidade da 
senhora Wilkes e que fosse capaz de administrar Tara to bem como ela governava os seus 
domnios. 
Mas a hiptese de se aliar a qualquer famlia da comarca apresentava duas srias dificuldades. A 
primeira residia no facto de haver poucas raparigas---em idadecasadoira por aquelas redondezas. A 
segunda, e a mais grave, devia-se  circunstncia de que, apesar de Gerald viver na regio havia 
quase dez anos, nunca, tinha deixado de ser "o forasteiro" na opini daquela gente. Ningum sabia 
nada acerca da sua famlia. Embora a sociedade do interior de Gergia fosse mais acessvel do que a 
dIo litoral, nenhum pai consentiria que uma filha sua se unisse a um homem cujo av ningum 
conhecia. 
Gerald rio ignorava que, apesar da real afeio que ingpirava aos homens da comarca com os quais 
caava, bebia e discutia poltica, difI1cilment@ encontraria um disposto a aceit4o como genro. E 
no queria que, de maneira nenhuma, os seus vizinhos e amigos comentassem o facto de este ou 
aquele indivduo se ter visto na penosa obrigao de negar a Gerald O'Hara autorizao para fazer a 
corte a sua filha. Mas nem por isso se sentia diminudo aos olhos dos outros fazendeiros. Nunca em 
toda a sua vida se considerara inferior a ningum, fosse no que fosse. Tratava-se simplesmente dum 
curioso costume da comarca, segundo o qual as raparigas s deveriam contrair matrimnio com 
descendentes de famlias que tivessem vindo estabelecer-se no Sul vinte e dois anos antes, pelo 
menos. Alm disso, tornava-se necessrio que essas famlias possussem terras e escravos e que, 
durante aquele lapso de tempo, houvessem dado provas de terem adquirido somente os vcios 
considerados de bom-tom. 
- Faz as malas - ordenou a Pork. - Vamos para Savannah. E se alguma vez te ouvir dizer "safa" ou 
#
"livra" vender-te-ei logo, porque so as expresses que eu prprio raras vezes emprego. 
Talvez James ou Andrew soubessem aconselh-lo. Tam- 
73 
bm podia dar-se o caso de entre os amigos dos irmos, h,aver algum cuja filha preenchesse os 
requisitos necessrios e, ao mesmo tempo, estivesse disposta a acet-lo, para marido. James e 
Andrew escutaram-no pacientemente, mas no o encorajaram no seu intento. No possuam em 
Savannah nenhum parente a quem pudessem pedir auxilio, visto terem casado antes de virem para a 
Amrica. Quanto s filhas dos amigos, estavam casadas havia vrios anos e consagravam todo o seu 
tempo  educao dos filhos. 
- Tu no s rico - observou James. - Nem pertences a uma -rande famlia. 
- Ja consegui enriquecer - acudiu Gerald, - Posso criar uma grande famlia. Mas no quero casar 
com qualquer rapariga. 
-Tu vo`as muito alto-observou Andrew, secamente. No entanto, esforaram-se por ajudar o irmo. 
J estavam ambos a caminho da velhice e desfrutavam da considerao geral, em Savannali. 
Tinham muitos amigos e, durante um ms, acompanharam Gerald de casa em casa, levaram-no a 
ceias, a bailes e a piqueniques. 
- De entre todas, s uma conseguiu prender-me a ateno -disse Gerald, finalmente. -E ainda no 
era nascida quando cheguei  Amrica. 
- De quem se trata? -De Ellen Robillard- respondeu Gerald, procurando falar com naturalidade, pois 
os olhos escuros e levemente oblquos de Ellen Robillard haviam-lhe prendido mais do que a 
ateno. 
Apesar do seu desprendimento, to estranho numa rapa- riga de quinze anos, Ellen enfeitiara 
Gerald. Os olhos dela tinham uma expresso de desespero, de animal perseguido, que foi direito ao 
corao do irlands e o obrigou a trat-la com uma gentileza que ainda no tinha usado com outra 
qualquer pessoa. 
-Mas tu podias ser pai dela! 
- Estou na fora da vida - gritou Gerald, ofendido. -Com franqueza, Jerry -disse James sem se 
alterar 
- de todas as raparigas de Savarinali fost@ escolher precisamente aquela com quem menos 
probabilidades tens de -casar. 0 pai  um Robillard, e estes franceses so orgulhosos como o diabo. 
E a me - Deus lhe tenha a alma em descanso - era uma verdadeira senhora. 
- Isso no me interessa - respondeu energicamente 
74 
Gerald. - No fim de contas, a me dela morreu e o velho Robillard simpatiza comigo. 
- Como, homem, no digo que no. Mas como genro, tenho c as minhas dvidas. 
- A rapariga no te aceitar, de maneira nenhuma - 
interveio Andrew.-H cerca dum ano que est apaixonada pelo estrina do primo, Philippe 
Robillard, apesar de a famlia levar os dias inteiros tentando faz-la mudar de ideias. 
- Philippe partiu para a Louisiana no princpio deste ms - explicou Gerald. 
- Como o soubeste? 
- Disseram-mo - respondeu Gerald, que no estava especialmente interessado em revelar aos irmos 
que fora Pork quem lhe fornecera a preciosa informao, nem tencionava inform-los de que 
Philippe Robillard partira por expressa determinao da famlia. -E no creio que a paixo dela seja 
to grande que no consiga esquec-lo. Uma rapariga de quinze anos no sabe o que  o amor. 
-A famlia h-de preferir mil vezes v-Ia casada com 
um primo a aceitar-te no seu selo. 
1 Por isso James e Andrew ficaram to surpreendidos como o resto da cidade, quando em Savannah 
se espalhou a notcia de que a filha de Pierre Robillard ia casar com aquele irlands do interior. 
Savannah comentava o facto  boca pequena e perdia-se em conjecturas acerca de Philippe 
Robillard, que se retirara para o Oeste. Mas, apesar de toda a bisbilhotice, ningum logrou chegar a 
qualquer concluso. A razo que levara a mais bonita filha de Robillard a desposar aquele homem 
#
pequeno, barulhento e vermelhusco, aue mal lhe dava pela orelha, conservou-se um mistrio 
indecifrvel para toda a gente. Nem sequer Gerald conseguiria explic-lo. Apenas poderia dizer que 
se havia operado um milagre. Pela primeira e nica vez na sua vida sentiu-se profundamente 
humilde quando Ellen, plida mas calma, lhe dissera pousando-lhe a mo branca e delicada no 
brao: 
-Estou disposta a casar consigo, senhor O'Hara. A deciso caiu como um raio sobre os Robillards. 
Mas Ellen e a ama conheceram todo o horror daquela noite, em que a, pequena chorou at de 
madrugada,@@omo uma criana, com o corao despedaado. Na man a seguinte, Ellen era uma 
mulher e havia tornado a sua deciso. 
Com desagradvel pressentimento, a preta levara  sua 
75 
menina um embrulho pequeno, remetido de Nova Orlees e cujo endereo havia sido escrito por 
algum, cuja caligrafia Ellen desconhecia. 
0 embrulho continha um medalho com a fotografia dela, que Ellen deixou cair no cho, soltando 
um grito de angstia, bem como quatro cartas que tempos antes escrevera a Philippe Robillard e um 
bilhete lacnico dum sacerdote de Nova Orlees, anuncando-lhe que o. primo tinha morrido numa 
rixa em que se envolvera, num botequim daquela cidade. 
-Foram eles que tiveram a culpa: o pai a tia Pauline e a tia Eulalie! Foram eles que o obrigarar@ a 
partir. Ah, se soubessem como os odeio! Se soubessem como os odeio a todos! No quero voltar a 
v-los! Quero ir-me embora daqui, para um stio onde nem sequer torne a ouvir o nome deles. No 
posso continuar a viver aqui, nesta casa! Tenho de fugir para muito longe onde no haja nada que 
me faa pensar em Philippe. 
De madrugada 'a ama, que tinha levado a noite a ch<>rar, com o rosto encostado  cabeceira negra 
da rapariga, protestou: 
- A minina no pode faz isso! -Mas fao. Gerald  simptico. Ou caso com ele ou ento entro para 
o convento de Charleston. 
Foi a ameaa do convento que acabou por vencer a resistncia de Pierre Robillard. Desnorteado e 
ofendido com a atitude de Ellen, acabou por dar o seu consentimento. Presbiteriano intransigente, 
embora o resto da famlia professasse a religio catlica, preferia mil vezes cas-la com Gerald 
O'Hara 'cujo nico defeito, no fim de contas, era o de no ter famlia, a v-Ia tomar o hbito de 
freira. 
Pondo de parte o seu nome de solteira, Ellen voltou as costas a Savannah disposta a no voltar l 
nunca mais, E, acompanhada d@sse marido de meia-idade, de sua velha ama e de vinte criados 
negros, dirigiu-se para Tara. 
No ano seguinte nasceu uma menina que recebeu o nome da av paterna, Katia Searlett. 
Gerald ficou desiludido, pois desejava um rapaz, mas 
* sua satisfao, ao acariciar a penugem negra que cobria 
* cabea da filha, foi to grande, que mandou servir uma boa dose de rum a todos os seus escravos e 
ele prprio apanhou uma bebedeira ruidosa. 
Se alguma vez Ellen lamentou a sua repentina deciso 
76 
de casar com ele, nunca ningum o soube, e muito menos Gerald, que quase estoirava de orgulho 
sempre que olhava para a mulher. No dia em que deixara Savannah, Ellen banira da memria a 
cidadezinha martima, de populao afvel e corts onde tinha decorrido a sua mocidade, bem como 
as recoraes que a ela podiam prend-la. E, desde que chegara a Clayton, a Gergia do Norte 
havia-se tornado o seu lar. 
Ao abandonar para sempre a casa paterna, Ellen deixara atrs de si um edificio de linhas belas e 
harmoniosas como as dum corpo de mulher ou dum navio que navega a todo o pano, com as velas 
enfunadas pelo vento, uma moradia de estuque cor-d@-_rosa plido, graciosa e fria, mas sombria e 
pouco acolhedora construda segundo o estilo colonial francs e cujo, perfil elegante se recortava 
contra o cu. Dava-lhe acesso uma escadaria em espiral, ladeada por balastres de ferro forjado e 
#
artsticos rendilhados. 
1 Mas Ellen no deixara atrs de si apenas uma residncia encantadora e luxuosa; abandonara 
tambm toda a civilizao que ela representava, para entrar num mundo estranho e to diferente 
daquele a, que estava habituada; chegava a ter a impresso de haver mudado de continente. 
No norte da Gergia, o solo era acidentado e o povo rude. Do planalto dominado pela vasta 
cordilheira das Montanhas Azuis, a rapariga via desenrolarem-se diante de si as colinas 
arredondadas e vermelhas, junto das quais se erguiam rochas de granito e pinheiros descarnados, de 
aparncia sombria, Tudo aquilo apresentava. aspecto grave e selvtico aos seus olhos afeitos  
beleza calma das ilhas atapetadas de musgo cinzento e envoltas no manto verde das suas florestas 
ao longo enfiamento, de praias aquecidas por um sol @emitropical, s perspectivas uniformes duma 
zona arenosa, semeada de palmeiras. 
Naquela regio, que suportava o frio do Invern<> to bem como o calor do Estio, os habitantes 
possuam energia e vigor para ela desconhecidos, Era gente amvel, corts, generosa, cheia de bons 
sentimentos mas robusta viril e facilmente irritvel. Os homens do 'litoral podiar@ orgulhar-se de 
saberem resolver todos os seus problemas, at duelos e contendas, com certo arde indiferena; no 
entanto, os ge<>rgianos do Norte preferiam recorrer  violncia. Junto ,costa a vida decorria suave 
e tranquila; ali, tudo era juventude, alegria, movimento. As pessoas que Ellen conhecia em 
77 
Savannali pareciam ter sido feitas todas segundo o mesmo molde, to parecidos eram os seus pontos 
de vista e tradies; ali porm havia uma enorme -variedade de gente. Os colonos a Gergia 
Setentrional provinham das mais variadas partes do mundo: das Carolinas, da Virgnia, da Europa, 
dos estados do Norte e at de outros pontos da prpria Gergia. Alguns, como Gerald tinham ido 
em busca de riqueza. Outros, como Ellen membros de famlias antigas achando insuportvel a 
exisncia nos seus lares, haviam @rocurado a felicidade naquelas terras distantes. Uma grande 
parte, porm, viera para ali sem nenhuma razo especial, obedecendo simplesmente ao esprito 
irrequieto herdado dos pioneiros infatigveis que haviam sido os seus pais. 
Toda esta populao, proveniente dos mais diversos pontos do globo e com antecedentes to 
diferentes emprestava  vida da comarca uma alegria nova para E116, uma vivacidade a que ela no 
estava habituada. Instintivamente, Ellen sabia como as pessoas do litoral agiriam nesta ou naquela 
circunstncia; contudo no era capaz de prever quais as reaces dos georgian@s do Norte. 
E, para estimular a actividade da comarca, uma onda de prosperidade invadia o Sul. 0 mundo inteiro 
necessitava de algodo e o solo frtil de Clayton at ento inexplorado, produzia-ocom abundncia,. 
0 algodo era para aquela zona COnIG que o corao palpitantQ, e a plantao e a colheita como 
que a distole e a, sstole da terra vermelha. Uma riqueza imensa brotou dos sulcos abertos pelo 
arado e juntamente com ela cresceu tambm a arrogncia - uma arrogncia baseada em tufos de 
verduras e flocos de algodo. E, se naquela gerao os fazendeiros tinham conseguido enriquecer na 
seguinte seriam milionrios. 
Esta ce@teza do dia de amanh dava-lhes energia e vigor e fazia com que gozassem a vida com um 
entusiasmo que Ellen no lograva compreender. Possuam dinheiro e escravos em quantidade mais 
do que suficiente para poderem passar os dias a jogar, e eles apreciavam esse divertimento. No 
pareciam nunca, to ocupados com os seus negcios que se vissem na necessidade de recusar 
convite para urna pescaria, para uma batida s raposas ou uma corrida de cavalos, e era raro passarse 
uma seinana sem piquenique ou baile. 
Ellen no quis nunca ou no pde identificar-se com eles-deixara muito de si? prpria em 
S@vannah-mas res- 
78 
peitava-<>s. E, com o tempo, aprendeu a apreciar a franqueza e a honestidade dessa gente que no 
sabia usar de subterfgios e que avaliava um homem pelo seu real mrito. 
Em pouco tempo, tornou-se a mulher mais estimada da comarca. Era uma dona de casa econmica e 
afvel, boa me e esposa dedicada. Em vez de consagrar o seu corao dilacerado  igreja, 
abdicando de si prpria, Ellen preferiu dedicar toda a sua vida aos filhos,  casa e ao homem que a 
#
havia arrancado a Savarinali e s suas recordaes sem nunca lhe fazer pergunta nenhuma. 
Segundo a opinio de Bab Scarlett, quando completou um ano, era, mais forte e saud!vel do que 
convinha a uma menina da sua idade. Foi nessa altura que Ellen deu  luz a sua segunda filha, que 
recebeu o nome de Susan Elinor, embora toda a gente a chamasse Suellen. Passado o tempo 
estritamente necessrio, surgia a terceira irm O'Hara, ins- crita na Bblia de famlia como Caroline 
Irene, mas que toda a gente passara a tratar por Carreen. A seguir vieram trs rapazes que morreram 
antes de comearem a andar, trs rapazes que jaziam  sombra dos cedros de troncos nodosos, no 
cemitrio, a cerca de cem metros de casa, dormindo o sono eterno debaixo de trs lousas, em cada 
uma das quais se lia a inscrio "Gerald O'11ara Jnior". 
A partir do dia em que Ellen chegara a Tara, a propriedade tinha sofrido uma modificao radical, 
Apesar de no ter mais de quinze anos, a senhora O'Hara estava apta a arcar com a tremenda 
responsabilidade que o casamento com um fazendeiro lhe havia acarretado. Em solteiras, as 
raparigas deviam mostrar-se meigas, gentis e decorativas; contudo, uma vez casadas, tornava-se 
necessrio que soubessem governar a sua casa, onde frequentemente tinham de dirigir uma centena, 
ou mais, de criados pretos e brancos; a educao que recebiam visava precisamente esse fim. 
Como todas as filhas de boas famlias, Ellen fora preparada para desempenhar as suas funes de 
mulher casada; alm disso, fizera-se acompanhar de Bab ' a ama preta, cuja actividade constante 
seria capaz de galvanizar qualquer negro, por muito indolente que fosse,, e levara consigo a ordem, 
a dignidade e a, graa ao lar do marido. Sob a sua orientao, Tara ganhou novo encanto. 
Gerald havia construdo a casa sem qualquer preocupao de ordem esttica, acrescentando-lhe 
dependncias onde lhe pareciam necessrias e  medida que a sua falta se 
79 
fazia sentir. Ellen conseguiu transformar aquela manso desajeitada numa residncia encantadora, e 
confortvel. A aJameda, que ia da estrada at  porta de casa -essa alameda indispensvel a todas as 
plantaes da Gergia -era fresca e sombria, e a folhagem escura dos cedros que a ladeavam fazia, 
wbressair, por contraste, o verde mais claro das outras rvores. As glicnias que revestiam as 
varandas punham uma nota colorida sobre os tijolos brancos, misturando as suas flores garridas 
com os tufos de murta cor-de~rosa, que cresciam junto da porta e co Al as magnlias floridas do 
jardim, disfarando, em parte, as linhas deselegantes do edifcio. 
Na Primavera- e no Vero, o trevo e a relva das Berinudas, que atapetavam a alameda, ganhavam 
um tom verde-esmeralda to lindo que os bandos de patos e de perus, que deveriam conservar@se 
nos terrenos situados atrs da casa, no resistiam  tentao de ir para ali debicar. Os mais atrevidos 
tentavam entrar clandestinamente no jardim, atrados pela relva fresca, e pela deliciosa promessa 
dos botes de jasmim e dos canteiros de zinias. A fim de repelir estas ihvases, Gerald tinha 
colocado, em frente do alpendre um moleque de sentinela, o qual, sentado nos degraus da escada e 
munido duma, toalha, esfarrapada, fazia parte integrante do quadro buclico de Tara. A sua misso 
era bem aborrecida, pois no podia bater nos animais, devendo limitar-se a agitar o trapo de forma a 
afugent-los sem lhes tocar. 
Ellen empregava dzias de pretinhos neste trabalho, que representava a primeira tarefa de 
responsabilidade que em Tara era exigida aos escravos do sexo masculino. Logo que os moleques 
completavam dez anos, entregava-os ao velho Daddy, sapateiro da fazenda, para que ele lhes 
ensinasse o ofcio; ou a Amos, que desempenhava as funes de carpinteiro; ou ao vaqueiro Phillip; 
ou ento ao almocreve Cuffee. Se no mostravam vocao para qualquer destes gneros de 
actividade, mandava-os trabalhar no campo. Neste caso, segundo a opinio dos companheiras, 
perdiam para sempre qualquer possibiliade de ascenso, na sua escala social. 
Ellen no tinha uma vida sossegada, nem se sentia feliz, mas a verdade  que jamais esperara viver 
tranquila e, quanto a felicidade cedo se convencera de que no fazia parte do quinho estinado. s 
mulheres. 0 mundo fora feito para os homens e, como tal, o aceitava. 0 homem 
80 
possua a propriedade, a mulher governava-a. 0 homem atribua a si prprio o mrito duma boa 
administrao, a mulher louvava-o pela sua habilidade. 0 homem urrava como um toiro se espetava 
#
um espinho num dedo, a mulher abafava os gemidos que as dores do parto lhe arrancavam, para no 
incomodar o marido. 0 homem tinha uma ma, neira rude de falar e aparecia, frequentemente, 
embriagado. A mulher no via a sua rudeza e ajudava o, marido bbado a deitar-se, sem o 
recriminar. 0 homem era grosseiro e incapaz de fiscalizar os seus sentimentos; a mulher devia 
mostrar-se sempre gentil, graciosa e indulgente. 
Ellen tinha sido educada segundo a tradio das suas aristocrticas antepassadas e ficara habilitada a 
suportar to pesado fardo sem perder a seu encanto. Naturalmente, de-sejava que as filhas lhe 
seguissem o exemplo. As duas mais novas corresponderam aos seus esforos. Suellen, sempre 
ansiosa por agradar, escutava atentamente os conselhos da me e procurava segui-los e Carreen, 
tmida por natureza, deixava-se guiar fcilmente. Scarlett, porm, digna sucessora. de Gerald, 
achava a aprendizagem em demasia dura. 
A indignao de Bab no tinha limites quando a via desprezar a companhia das irms e das 
meninas Wilkes, primorosamente educadas, e escolher para companheiros de folguedos os filhos 
dos escravos da fazenda-e os rapazes da vizinhana. A velha negra no conseguia compreender 
como uma filha de Ellen podia manifestar semelhantes tendncias e no se cansava de lhe 
recomendar: "Tenha modos di minina di fama". Contudo, Ellen julgava Scarlett com mais 
indulgncia, encarando a questo dum ponto de vista mais elevado. Sabia que os amigos de 
infncia, com o decorrer dos tempos, se transformavam em pretendentes, e que a prin<,ipal 
preocupao duma rapariga devia ser o casamento. Dizia de si para si que a filha tinha muita vida e 
que era cedo ainda para a iniciar na difcil arte de se mostrar atraente aos olhos dos homens. 
Os esforos de Ellen e de Bab visavam o mesmo ObjeCtivo. Searlett,  medida que ia crescendo, 
mostrava-se aluna aplicada, neste captuJo, se bem que pouco mais conseguisse aprender. Apesar da 
srie de professores que lhe tinham proporcionado e dos dois anos passados na Academia Feminina 
de Fayeteville, prximo de Tara, a sua educao era bastante ineompleta; contudo, no havia em 
toda a comarca 
6 - Vento Levou -1 81 
outra rapariga -capaz de danar com tanta graa, e leveza como ela. Sabia sorrir de forma a 
aprofundar as covinhas que se lhe cavavam nas faces e caminhar nos bicos dos ps, para imprimir 
s saias de balo meneios provocantes; sabia como fitar um homem em pleno rosto e como baixar 
os olhos, batendo as plpebras fingindo estar vibrando sob forte emoo. E, acima de t@do, tinha 
aprendido a, ocultar dos pretendentes -a sua inteligncia aguda, dissimulando-a sob urna expresso 
suave e inocente, como a de uma criana. 
Ellen, por meio de suaves reprimendas, e Bab, com os seus ralhos constantes acabaram por lhe 
inculcar as qualidades que deviam fazer de Scarlett urna esposa desejvel. . -Tens de ser mais 
gentil, minha querida -dizia-lhe Ellen. - Mais delicada. No deves interromper os homens a meio 
duma conversa, ainda que estejas convencida de que conheces o assunto, melhor do que eles. Os 
homens no gostam de raparigas metedias. 
- Minina que franze testa, espeta queixo e que diz: Eu qu, eu h-de, no acha marido, Mininas tm 
que baix os olho e diz: Sim, sinh. r@, mesmo assim. 
A me e a ama tentaram ensinar-lhe tudo o que uma ver4adeira senhora devia saber, mas apenas 
conseguiram que ela adquirisse uma leve camada de verniz superficial. Scarlett nunca chegou a 
penetrar o segredo da suavidade de tudo que Ellen possua nem nunca sentiu a necessidade de o 
desvendar. Bastava-lhe guardar as aparncias. 0 seu ar de grande dama havia-lhe granjeado 
popularidade; no ambicionava mais nada, Gerald dizia que a filha era a rapariga mais bonita 
daquelas cinco comarcas, e com certa razo, pois que tinha recebido pedidos de casamento de quase 
todos os moos da, vizinhana, e at de muitos outros lugares mais distantes 'como Atlanta e 
Savannah. 
Graas aos esforos conjugados de Ellen e Bab, Searlett, aos dezasseis anos, dava a impresso de 
ser meiga, encantadora e frvola quando ' na realidade, era voluntariosa, presumida e obstinada. Do 
pai ' tinha, herdado a natureza impulsiva e apaixonada, caracterstica dos rlandeses, e da me 
apenas uma pequena parcela da sua ndole generosa e indi41gente. Ellen no chegou nunca a 
#
compreender quo pequena era aquela parcela, porque Sca@-lett tinha o cuidado, de se mostrar 
sempre sob o seu melhor aspecto, quando estava junto da me. Ocultava-lhe as suas leviandades, 
dominava-se e fazia o, possvel por 
82 
parecer dcil, na presena de Ellen, que, com um s olha-r, podia faz-la chorar de vergonha,. 
Mas Bab no alimentava iluses acerca da sua menina, e conservava-se sempre de atalaia., pronta 
a corrigir a mais pequena falta que ela cometesse. Os olhos da preta eram mais perspicazes que os 
de Ellen, e Scarlett no se lembrava de jamais ter conseguido ludibri-la por muito tempo. 
No era que as duas afectuosas tutoras lamentassem a vivacidade, a inteligncia e o encanto. de 
Scarlett, Muito pelo contrrio, as mulheres do Sul orgulhavam-se destes predicados. Mas 
apoquentava-as a teimosia e a natureza impetuosa que a rapariga herdara do pai. Ellen e Bab 
receavam que ela no lograsse ocultar os seus defeitos at fazer um bom casamento, Scarlett, 
porm, tinha resolvido casar - e casar com AshIey - e fazia o possvel por parecer modesta, dcil e 
frvola, uma vez que eram estas as qualidades que atraam os homens. Por que motivo eles 
procediam assim, no poderia diz-lo. Sabia apenas que aqueles mtodo$ davam resultado. A 
questo nunca a tinha interessado ao ponto de a fazer investigar o porqu, pois que no percebia 
nada do funcionamento do, crebro humano, nem sequer do seu. Estava persuadida de que, se 
procedesse de determinada maneira, os homens reagiriam segundo uma norma pr-estabelecida, Era 
como que uma frmula matemtica, cuja aplicao se tornaria fcil para ela, visto ter sido a 
matemtica a nica disciplina do curso liceal que Scarlett. aprendera sem dificuldade. 
Se no sabia muita coisa acerca da mentalidade dos homens, a verdade  que ainda sabia menos 
acerca da das mulheres, uma vez que o interesse que sentia por elas era muito reduzido. Nunca 
tivera uma amiga, nem lhe sentia a falta. Para ela, todas as mulheres, incluindo as prprias irms, 
eram inimigas naturais, que lutavam para alcanar o mesmo prmio-o homem. 
Todas as mulheres, excepto a me. Ellen O'Hara era diferente, e Searlett considerava-a um ente 
sagrado,  parte do resto da humanidade. Em criana tnha-a confundido, muitas vezes, com a 
Virgem Maria, e mesmo agora, &pois de crescida, no via necessidade de modificar a sua opinio. 
Aos olhos da filha, Ellen representava a segurana mxima que s o cu ou a me podem oferecer, 
era como que a personificao da justia, da ver- 
83 
dade, da ternura e de profunda sabedoria -uma autntica senhora. 
Scarlett desejava ardentemente ser tal qual como Ellen. A dificuldade estava em que, sendo justa, 
leal, terna e generosa, arriscava-se no s a perder uma grande parte das alegrias que a vida 
proporciona, mas ainda a afugentar muitos dos seus provveis pretendentes. E a vida era to curta 
que no valia. a apena ela privar-se de coisas to agradveis. Mais tarde quando tivesse desposado 
AshIey e comeasse a envelh@cer, quando houvesse um bocado de tempo disponvel, ento 
procuraria imitar a me. Mas at l... 
4 
NESSA NOITE, ao jantar, Scarlett, na ausncia da me, desempenhara-se das funes de dona de 
casa, mas, perturbada pela terrvel notcia que soubera a respeito de AshIey e de Melanie, no 
logrou mostrar-se calma, como era seu desejo. Com a, alma negra como a noite, aguardou que Ellen 
regressasse de casa dos Slatterys, pois sem a presena dela sentia-se s e desamparada. Que direito 
tinhan. w,, Slatterys de, com as suas doenas e achaques, virem arrancar-lhe a me de casa, 
precisamente numa altura f:rn que tanto precisava dela? 
Dure.nte a refeio, a voz k;rossa de Gerald nem por um s momento deixou de lhe atroar aos 
ouvidos, a ponto de ela che@,ar a supor que no conseguiria suport-la mais tempo. Ele tinha 
esquecido completamente a conversa que tivera com a filha no fim da tarde e, sublinhando os seus 
pontos de vista com murros sobre a mesa e gesto:, desordenado:z;, no cessava de perorar acerca 
das ltimas novidades a respeito do Forte Surnter. Gerald aprovetava as horas das refeies para 
expor os @eus pontos de vista sobre c,@g diversos assuntos que o interessavam e, normalmente, 
Scarlett, absorta nos seus prprios pense,mentos, mal lhe prestava ateno. G)ntudo, nessa noite, 
#
no conseguia alhear-se do matraqu2ar fatigante da voz @>aterna, apesar dos esforos que fazia 
para no Me passar despercebido o barulho das rodas da carruagem,,que as,:,inalaria o regresso de 
Ellen. 
No tencionava confiar  me o desgosto que, implaca- 
84 
velmente 'continuava a amargar-lhe o corao. Ellen ficaria surpreendida e pesarosa se soubesse que 
uma filha sua queria desposar um homem que estava noivo de outra mulher. No entanto, ao ver-se a 
braos com a primeira tragdia em que representava o papel de vitima, sentia necessidade do 
conforto que a companhia da me lhe proporcionaria.. Sempre experimentara uma curiosa 
sensa<> de segurana junto de Ellen. A sua presena fsica parecia possuir o condo de mitigar os 
maiores sofrimentos. 
Scarlett levantou-se bruscamente da cadeira, ao chegar-lhe aos ouvidos o chiar das r6ds- de uma 
carruagem ' mas logo tornou a sentar-se. 0 veiculo contornara o edificio a fim de &e dirigir para o 
ptio. No era a me, com certeza, pois Ellen ter-se-ia apeado  porta principal. No ptio elevou-se 
ento um murmrio confuso. Os negros corriam dum lado para outro, soltavam exclamaes e 
gargalhadas estrdentes. Scarlett olhou atravs da janela. Viu Pork que sara momentos antes da sala 
de jantar, brandir um @r@hote de resina, enquanto dois vultos indecisos desciam da carruagem. As 
vozes, alegres e musicais as risadas e as exclamaes fundiam-se num arnlgama @e rudos 
agradveis, de rumores suaves e familiares, de sons guturais e doces, que perturbava o calmo 
silncio da noite. Nos degraus da varanda que deitava para o ptio ouviram-se os passos arrastados 
dum grupo de pessoas que avanou ao longo do corredorque estabelecia comunicao com o corpo 
principal do edifcio, at chegar ao vestbulo, onde estacou, em frente da porta que dava para a casa 
de jantar. Aps um breve concilibulo em voz baixa, Pork penetrou no aposento. Parecia ter 
renunciado  atitude circunspecta que lhe era habitual. Os olhos rolavam-lhe nas rbitas e os lbios 
entreabriram-se-lhe num sorriso largo que lhe punha  mostra duas fileiras de dentes brilhantes. 
- Sinh Gerald - anunciou ele, ofegante e deixando transparecer-lhe no rosto o orgulho dum moo 
recm-casado - a sua nova escrava j chigou. 
-A minha nova escrava? Mas eu no comprei escrava nenhuma - respondeu Gerald, fingindo no 
estar ao facto do assunto. 
- Comprou ' sim sinh - redarguiu o preto, comovidssimo rindo e esfregando as mos de 
contentamento. - 
E ela t@ li fora pra fal com sinh. 
- Est bem, a noiva que entre - disse Gerald. 
85 
E Pork, rodando sobre os calcanhares, fez sinal  mulher, que acabava de chegar de casa dos 
W11kes para ficar em Tara ao. servio da famlia O'Hara e se encontrava  esper@, no vestbulo. 
Dilcey entrou na sala trazendo agarrada as pernas 'quase escondida pela ime@sa roda da sua sala 
de chita, a filha, uma negrinha de doze anos. 
Dilcey era alta e aprumada. 0 seu rosto impassvel, cor de bronze, quase no tinha rugas, pelo que se 
podia dar-lhe qualquer idade compreendida entre os trinta e, os sessenta anos. 0 sangue ndio que 
lhe corria, nas veias contrabalanava as caractersticas negrides. 0 tom avermelhado da tez escura, 
a testa alta e estreita, as mas do rosto salientes o nariz arqueado cuja extremidade se esborrachava 
so@re os beios grossos denunciavam clara-mente o cruzamento das duas raas. Tinha porte erecto 
e mGvia-se com uma dignidade que ultrapassava mesmo a da ama de Scarlett visto que enquanto a 
desta havia sido adquirida no dec@rrer dos anos, a de Dilcey era. inata. 
Dilcey exprimia-se numa voz muito menos confusa do que a da niaioria, dos pretos e era evidente a 
sua preocupao de escolher as palavras adequadas. 
-Boa-noite, minha minina. Sinh Gerald, desculpe ncomod-lo, mas eu no podia -deix de vi 
agradec de t comprade a mim e  criana. Muitos sinh podiam t com~ prado a irim mas eles 
no queria a minha Prissy e dipois no me levavam para eu no and disgostosa. De modo que vim 
agradec ao sinh e diz que hei-de faz o possvel para agrad e nunca hei-de esquec o, sinh 
#
n,@'LC> me separ da minha filha. 
- Hum... hum... - pigarreou Gerald ' embaraado perante aquela demonstrao eloquente da 
bondade que lhe inundava o peito, 
Dilcey voltou-se para Searlett e a sombra dum =Iso enrugou-lhe os cantos dos olhos. 
- Minina Searlett, Pork contou que a minina pediu ao sinh seu pai para me compr. Por isso dou a 
minha Prissy  minina para E@ sua criada de quarto. 
E, agarrando a filha por um brao, obrigou-a a. largar-lhe a saa e empurrou-a para a frente. Prissy 
era uma garota de tez acastanhada e pernas altas e esguias, como as dum pssaro. Uma infinidade 
de trancinhas de cabelo crespo, com as pontas amarradas por pedaos de cordel, dava-lhe  cabea o 
aspecto dum porco-espinho.-Os olhos 
86 
dela, penetrantes e maliciosos' no deixavam escapar fosse o que fosse e tinham uma expresso 
alvar, que no era natural, mas fingida, 
-Obrigada, Dilcey- agradeceu Searlett-mas receio que a minha ama no esteja pelos ajustes. 
Lembra-te de que ela se encontra ao meu servio desde o dia em que eu nasci. 
- Mas j st indo para velha - argumentou Dilcey com uma calma que teria. enfurecido a velha ama. 
- ]@ r@uto boa criada, mas a minina j est uma sinhora e precisa, duma rapariga nova para faz 
as suas coisa e a minha Prissy tava como criada de quarto de minina India vai para um ano. E j 
sabe coz e faz os penteado como uma pessoa grande. 
Instigada pela me, Prissy fez uma brusca vnia e dirigiu um sorriso a Scarlett que no teve outro 
remdio seno sorrir tambm. 
"'_9,s uma boa peste" pensou a jovem. Em vez disso, porm, disse, em voz alta: 
- Obrigada, Dilcey. Veremos esse caso quando a minha me chegar. 
-Muito agradecida. Boas noites para todos-murmurou a preta, retirando-se, seguida pela filha e pelo 
marido, que no ocultava a sua satisfao., 
Assim que levantaram a mesa, Gerald retomou o fio do discurso, sem grande entusiasmo, talvez por 
notar o desinteresse com que a sua arenga era escutada pelo reduzido auditrio. As suas sombrias 
previses acerca do conflito que se avizinhava, as suas imagens de retrica tendentes a levantar 
protestos contra os insultos de que os sulistas estavam sendo vtimas por parte dos yankees no 
logravam provocar a desejada reaco nas filhas, que se limitavam a murmurar, em tom de 
manifesto enfado, "Sim, pap" e "No, pap". Sentada junto da, mesa, alheia ao que se passava em 
volta, Carreen estava absorta na leitura dum romance em que a herona, aps a morte do seu bemarfiado, 
se retirava para um convento. E, vertendo lgrimas silenciosas, a rapariga fantasiava-se j 
toda. vestida de branco, transformada em novia. Suellen ocupada a bordar aquilo que, por graa, 
chamava enxoval, dava tratos  imaginao, tentando descobrir o processo de, no dia seguinte, 
durante a festa em casa dos Wilkes, conseguir arrancar Stuart Tarleton  influncia magntica que 
Scarlett apa- 
87 
rentemente exercia sobre os dois gmeos e subjug-lo com os delicados atributos femininos que ela 
possua e que  irm totalmente escasseavam. Quanto a, Scarlett os seus pensamentos pairavam 
muito longe dali, revolut@ando tumultuosamente em torno de Asley. Parecia-lhe impossvel que o 
pai, sabendo como o seu corao estava atormentado, se mostrasse to incompreensivo, a ponto de a 
flagelar de novo com o relato dos acontecimentos ocorridos no Forte Suniter desde a expulso dos 
yankees. Como quase sempre acontece com toda a gente moa, Scarlett no se conformava com a 
ideia de que os outros pudessem ficar alheios ao seu sofrimento e o mundo continuasse a girar da 
mesma forma, quando para ela a vida tinha mudado completamente. 
Sentia-se exausta, aniquilada como se um furaco lhe houvesse assolado o esprito e est'ranhava que 
a sala de jantar se mantivesse to tranquila., to semelhante quilo que sempre tinha sido. A mesa e 
os aparadores de mogno macio, a baixela de prata, de incalculvel valor, os tapetes de cores 
garridas, que cobriam o soalho encerado, conservavam-se nos seus lugares habituais 'como se 
nada se houvesse passado. Era um aposento confortvel e acolhedor, onde Searlett normalmente 
#
gostava de ficar com a famlia, aps a ultima refeio do dia, rindo e conversando vendo as horas 
passar, numa tranquilidade amena. Ness@ noite, porm, tinha-lhe verdadeiro horror e, se no foss 
o receio de que o pai depois a fuzilasse com perguntas indiscretas, ter-se-ia levantado 
surrateiramente, e saldo da sala, para, a coberto da escurido que reinava no vestbulo, ir refugiar-se 
na saleta de Ellen, onde, estendida sobre o velho sof, daria lIvre curso s lgrimas que lhe 
marejavam os olhos. 
De entre todas as divises da casa era da saleta de Ellen que Scarlett mais gostava. Todas as 
manhs, aps o primeiro almoo, a me ia sentar-se diante da sua majestosa escrivaninha de mogno, 
a fim de proceder  escriturao da fazenda e ouvir os relatrios do capataz Jonas Wilkerson. Os 
restantes membros da famlia aproveitavam sempre a oportunidade para invadirem o gabinete, e a 
ficavam durante largos minutos, tagarelando despreocupadamente, enquanto a grossa pena de pato 
de Ellen arranhava inexorvelmente as pginas dos livros. Gerald instalava-se na cadeira de 
balouo, j decrpita, e as filhas apoderavarri-se 
88 
das velhas almofadas do sof, cuja decadncia no permitia a sua utilizao noutras salas mais 
frequentadas. Naquele momento, Scarlett ansiava por encontrar a me szinha no seu minsculo 
gabinete e poder esconder a cabea no colo, dela para chorar  vontade. Por que seria que Ellen se 
demorava tanto? 
Chegou-lhe ento aos ouvidos o crepitar da areia da alameda esmagada sob as rodas da carruagem 
e, instantes depois, a voz suave de Ellen dispensando o cocheiro. Quando ela entrou na sala Gerald 
e as filhas ergueram vivamente a cabea para @ observarem. Vinha fatigada, com as feies 
veladas por uma nuvem de tristeza. Com ela entrou tambm o discreto perfume de verbena, que no 
tardou a espalhar-se pelo aposento, o qual parecia evolar-se das pregas da saia rodada. Scarlett 
aliava sempre aquele aroma  imagem da me. A velha ama negra apareceu volvidos alguns 
momentos, de beio pendente e fronte enrugada, empunhando o saco de couro, que continha os 
medicamentos. No cessava de resmungar, mas" como de costume, tinha o cuidado de fazer as suas 
reflexes em voz bastante baixa para que ningum entendesse o que ela dizia e suficientemente alta 
para que o seu descontentamento no passasse despercebido. 
-No calculas como estou aborrecida por ter chegado to tarde -disse Ellen ao marido, tirando o 
xaile e entregando-o a Scarlett, cuja face acariciou de passagem. 
0 rosto de Gerald tinha-se iluminado como por encanto assim que ele vira entrar a mulher. 
- Ento, a, criana? Sempre a baptizaram? - inquiriu. 
- Baptizmos. Ainda bem que tinham mandado chamar o padre, pois que a pobrezinha j morreu - 
respondeu Ellen. -Cheguei a recear que Eramie no resistisse, mas agora j tenho esperanas de que 
se salve. 
Surpreendidas 'as filhas voltaram-se para ela, com a mais viva curiosidade no rosto. Gerald abanou 
a cabea, filosoficamente. 
- Talvez tenha sido melhor assim. No passaria dum ba st... 
- J  tarde. P, melhor fazermos quanto antes as nossas oraes -interrompeu Ellen com tanta doura 
que Searlett, se no a conhecesse to @em, no teria dado por nada. ,Seria interessante saber quem 
era o pai da criana que Emmie Slattery dera,  luz, mas Scarlett tinha a certeza de 
89 
que nunca o viria a saber, se estivesse  espera de que a me lho dissesse. Scarlett, desconfiava que 
fosse Jonas Wilkerson, pois o tinha visto vrias vezes, acompanhado por Emmie, a passear na 
estrada. 
Jonas era yankee, solteiro, e as suas funes de capataz haviam-lhe vedado para todo o sempre o 
ingresso na sociedade de Clayton. No podia aspirar a fazer um casamento que lhe conviesse 
porque nenhuma famlia decerto o admitiria no seu seio e no podia frequentar outras companhias 
que no fossem os Slatterys ou a gentalha da mesma espcie. Jonas possua educao bastante 
superior  dos Slatterys, pelo que no era muito de estranhar que no quisesse casar com Emmie, 
embora fosse visto frequentemente a passear com ela ao anoitecer, atravs dos campos e ao longo 
#
das estradas. 
Scarlett suspirou, espicaada pela curiosidade. Ellen era muitas vezes testemunha de 
acontecimentos interessantes aos quais, todavia, no prestava a menor ateno. Possuia o condo de 
se alhear do que pudesse brigar com o seu sentido das convenincias e debalde se esforava por 
inculcar no esprito de Scarlett os mesmos princpios. 
Ellen acercou-se da prateleira da chamin a fim de tirar o rosrio de dentro do cofrezinho onde 
habitualmente o guardava. Ao ver que ela no tencionava comer nada, a velha ama protestou 
energicamente. 
-A sinhora tem de com o jant antes de come com as reza. 
- Obrigada, mas no tenho apetite. 
- Vou arranj tudo para sinhora com - persistiu a preta, encaminhando-se atravs do vestbulo em 
direco  cozinha, com as sobrancelhas franzidas de indignao. Pork! - gritou, do corredor. - V 
diz ao cozinheiro para cend o lume; a sinhora j chegou. 
As tbuas do soalho gemeram sob o seu peso e a voz dela soava agora com mais intensidade, 
permitindo que a famlia, reunida, na sala de jantar, ouvisse o seu estranho solilquio. 
- T farta de diz, no adianta faz nada pelos branco reles. So o pesso mais ruim e mais ingrato 
do mundo inteiro. E a sinhora no devia and a se cans para ajud gente que no presta que nem 
tem ngo para servi a eles. Mas no vale de nad fal... 
A voz dela foi-se sumindo  medida que se afastava ao 
90 
longo do alpendre que conduzia  cozinha. Tinha um mtodo muito especial de dar a conhecer aos 
seus senhores a natureza exacta das suas opinies. Sabia que os brancos consideravam quebra de 
dignidade prestar ateno s palavras que uma escrava como ela resmungava entre dentes. E sabia 
tambm que, para manterem essa dignidade, os brancos faziam ouvidos de mercador, mesmo que 
ela se encontrasse no aposento contguo, gritando a plenos pulmes. Ficava assim a salvo de 
quaisquer censuras e, contudo, a ningum podiam restar dvidas quanto  maneira como encarava 
os diversos problemas da existncia. 
Pork entrou na casa de jantar, trazendo numa bandeja a loua, o talher e um guardanapo, 
imediatamente seguido por Jack, moleque de dez anos, que com uma das mos abotoava  pressa a 
jaqueta de linho branco e com a outra brandia o enxota-moscas feito de finas tiras de papel de 
jornal, amarrotadas na extremidade delgada duma cana mais alta do que ele. Ellen possua um 
enxota-moscas estupendo, de penas de pavo, mas s o utilizava em circunstncias excepcionais e 
depois duma luta pica com Pork, com a cozinheira e a ama, que eram supersticiosas e estavam 
convencidas de que as pena.s de pavo traziam desgraa. 
Ellen sentou-se na cadeira que Gerald lhe ofereceu e imediatamente se tornou alvo dum tiroteio de 
perguntas que a atacavam em quatro direces diferentes. 
- Mam, a renda do meu vestido de baile novo no cai bem e eu queria lev-lo amanh  festa, nos 
Doze Carva@ lhos.  capaz de a arranjar, por favor? 
- Mam, o vestido novo de Scarlett  muito mais bonito do que o meu e o cor-de-rosa fica-me 
horrivelmente. Searlett podia levar o meu e eu vestiria o dela, o verde. 
0 cor-de-rosa fica-lhe bem, a ela. 
- Mam, deixa-me ir ao baile amanh  noite? J tenho treze anos... 
- Talvez no queira crer, senhora O'Hara 'mas... Silncio, meninas, antes que o chicote comece a 
trabalhar. Como eu ia dizer, o Cade Calvert foi esta manh a Atlanta e trouxe as ltimas 
novidades... Calem-se, que assim ningum s entende. Segundo o que ele conta, as coisas l por 
aquelas bandas -esto cada, vez piores. A agitao aumenta dia a dia, no se ouve falar noutra coisa, 
a no ser em guerra, nas manobras da milcia e no recrutamento do 
91 
pessoal. E as notcias mais recentes vindas de Charleston parecem indicar que a populao de l 
decidiu ripostar pela fora das armas aos insultos dos yankees. 
No melo, de todo aquele tumulto de vozes, Ellen teve um sorriso de cansao e respondeu ao marido 
#
em primeiro lu-ar, como era dever duma boa esposa. 
- H muitas pessoas sensatas entre a populao de Charleston, e se eles pensam dessa forma, estou 
certa de que em breve tambm ns partilharemos dos seus pontos de vista - declarou, 
profundamente convencida de que, em nenhum outro stio do vasto continente norte-americano, 
com excepo de Savannah, se encontravam famlias de to nobre estirpe como no pequeno porto 
de Charleston, cujos habitantes, naturalmente, eram da mesma opinio. 
--- No Carreen, tens de esperar ainda mais um ano, minha qu@rida. Ento j poders ir ao baile. 
Levars vestidos lindos' como os das tuas irms, e divertir-te-s  grande. No faas essa cara triste. 
Lembra-te de que poders ir ao piquenique e assistir ao jantar. Quanto a bailes, s depois dos 
catorze anos. Vai buscar o vestido, Scarlett, que  para eu te arranjar a renda, quando tivermos 
acabado de rezar. E tu, minha querida Suellen, devias ter vergonha de dizer o que disseste. 0 teu 
vestido cor-de-rosa  encantador e fica-te muitssimo bem, to bem como o de Scarlett lhe fica a 
ela. Mas podes levar o meu colar de granadas, amanh  noite. 
Aproveitando a circunstncia de Ellen estar de costas voltadas para ela, Suellen mimoseu Scarlett 
com uma careta triunfante. A irm, que tencionava pedir o colar  me, retribuiu a ateno exibindo 
meio palmo de lngua rosada. Suellen era insuportvel com as suas choraminguices e o seu egosmo 
no conhecia limites. Se no fosse 
* represso que a me exercia sobre ela, Scarlett passaria 
* vida a esbofetear a irm. 
-Agora, senhor O'Hara-tornou Ellen-faa o favor de me contar a conversa que teve com Cade 
Calvert, acerca da situao em Charleston. 
Searlett sabia que a me no se interessava nada por questes de guerra ou de poltica, as quais, no 
seu entender, apenas diziam respeito. aos homens constituindo problemas inacessveis  inteligncia 
feminin@. Mas Gerald gostava de expor os seus pontos de vista e ela, para lhe agradar, fazia o 
possvel por lhe oferecer o maior nmero de oportunidades. 
92 
Enquanto Gerald dissertava, a velha ama ia colocando em frente de Ellen os pratos com a comida - 
biscoitos dourados, peito de galinha assada e inhame preparado em molho de manteiga, ainda 
fumegante. A certa altura, a preta deu um belisco a Jack que prontamente recomeou 
* agitar num movimento cadenciado as tir 'as de papel sobre 
* cabea de Ellen. A escrava quedou-se ento imvel, junto da ama, observando atentamente a 
trajectria do garfo que a sua senhora levava do prato  boca, como se estivesse disposta a meter-lhe 
a comida pela garganta abaixo ao menor sinal de fastio. Ellen engolia a comida rpidamente, mas 
Scarlett no teve dificuldade em perceber que a me se achava demasiadamente fatigada para notar 
sequer o que estava a comer. Apenas a expresso severa patente no rosto da ama poderia 
constrang-la a esvaziar o prato. 
Quando acabou de comer, ainda o marido no tinha terminado os seus comentrios acerca da falta 
de honestidade dos yankees que pretendiam abolir a escravatura, mas no estavam dispostos a 
gastar um cntimo para comprarem a liberdade dos negros. Ellen esperou uns momentos e em 
seguida levantou-se. 
- Vamos fazer as oraes? - inquiriu o marido, coritrariado. 
- Vamos. J  to tarde... So dez horas - acrescentou, ao ouvir as badaladas surdas que o relgio 
acabava de bater. 
- Carreen j devia estar deitada h muito tempo. Baixa-me o candeeiro, Pork, se fazes favor. E tu - 
continuou, dirigindo-se  negra -vai buscar-me o livro das oraes, sim? 
Obedecendo s instrues da velha ama, Jack pousou o enxota-moscas e comeou a levantar a mesa 
enquanto a preta vasculhava uma das gavetas do aparad6r  procura do livro de oraes de Ellen. 
Elevando-se sobre as pontas dos ps, Pork esticou o brao acima da cabea at alcanar um anel 
adaptado  corrente de suspenso e desceu lentamente o candeeiro at que o tampo da mesa ficou 
inundado de luz e o tecto se perdeu na obscuridade. Ellen ajeitou a saia, ajoelhou-se no soalho, 
pousou o livro sobre a mesa  sua frente abriu-o e juntou as mos. Gerald ajoelhou-se junto da 
#
mulher. Searlett e Suellen instalaram-se nos lugares habituais, do outro lado da mesa, e entalaram as 
suas amplas saias rodadas sob os joelhos 'a fim de os no maparem no sobrado. Carreen, que em 
virtude da sua baixa estatura no conseguia ajoelhar-se cmodamente em frente da 
93 
mesa, utilizava para o efeito uma,cadeira, cujo fundo lhe facultava um confortvel apoio para os 
cotovelos. Corno era raro ela no adormecer durante as oraes preferia ficar naquela posio, pois 
assim s muito dificilmente a me a surpreenderia. 
A criadagem, que enchia o vestbulo com o rumor dos seus passos arrastados e o ruge-ruge das saias 
rojando pelo cho, vinha ajoelhar-se  entrada da sala. A velha ama soltava gemidos surdos ao 
flectir os joelhos. Pork ficava muito direito como uma baqueta de tambor; Rosa e Teena, duas 
raparigas graciosas que desempenhavam as funes de criadas de quarto, e;palhavam em tomo de 
si, no soalho, as saias de algodo, de cores garridas, ao lado da cozinheira, velha magra, de 
carapinha branca 'enquanto Jack, a cair de sono, ia postar-se o mais longe possvel da ama, para 
evitar os seus belisces. Os olhos dos negros brilhavam de impacincia pois que rezar juntamente 
com os seus senhores era uma das praxes dirias e, embora as frases cheias de colorido da velha 
liturgia, de evocaes orientais, se lhes afigurassem vazias de sentido, nem por isso deixavam de 
lhes despertar no corao algo que os comovia. E embalados por essa sensao estranha que os 
invadia, baiouavam ocorpo, da esquerda para a direita, entoando as respostas: "Senhor, tende 
piedade de ns, Jesus, tende piedade de ns". 
Ellen fechava os olhos eprincipiava a rezar. A sua voz ganhava intensidade, para depois baixar 
gradualmente, tornando-se acariciante e meiga. No interior do crculo luminoso, as cabeas 
curvavam-se para o peito e Ellen rendia graas a Deus por ter concedido sade e felicidade ao seu 
lar,  sua famlia e aos escravos. 
Assim que terminava as preces por inteno de todos os que viviam sob o tecto de Tara, do seu pai 
e da sua me, dos trs filhos mortos e de "todas as pobres almas do purgatrio", tomava o rosrio de 
contas brancas entre os dedos afilados e comeava a desfiar as Ave-Marias. Semelhante ao sopro 
duma brisa suave, as vozes dos pretos e dos brancos respondiam-lhe em unssono: "Santa Maria, 
me de Deus, orai por ns, pecadores, agora e na hora nossa marte, dmen". 
Apesar do desgosto enorine que nela provocara a notcia do prximo casamento de Astiley e no 
obstante o sofrimento que lhe causara o esforo para conter as lgrimas, Scarlett sentiu, como 
sempre sentia quela hora, uma sere- 
94 
nidade imensa inundar-lhe o corao. A desiluso que@ tivera nessa tarde e o receio, com que 
passara, a, encarar o dia seguinte, desde o momento em que o pai lhe confirmara a terrvel 
novidade, desvaneceram-se em parte, dando lugar a uma esperana tnue, mas reconfortante. No 
fora o esteio da sua f em Deus que lhe proporcionara o benefcio daquele blsamo, porque para 
Scarlett a religio no lhe passava dos lbios. Fora ' sim, a, viso do rosto sereno da me, voltado 
para o trono de Deus, dos santos e dos anjos, enquanto suplicava ao Senhor a Sua bno para todos 
aqueles que ela amava. Quando via a me elevar aos cus as suas preces, Scarlett tinha a certeza de 
que todos os desejos seriam satisfeitos. 
Ellen acabou de rezar e Gerald, que nunca conseguiu encontrar o seu rosrio na devida altura, 
comeou a contar furtivamente as dez Ave-Marias pelos dedos. Ao som dessa voz montona, os 
pensamentos de Scarlett divagaram para muito longe dali, embora ela ainda houvesse tentado contlos. 
Sabia que era chegado o momento de fazer o seu exame de conscincia. Ellen havia-lhe 
ensinado que, ao fim de cada dia, todas as pessoas tm o dever de examinar a fundo a sua 
conscincia, de reconhecer as faltas que porventura tenham cometido e de pedir a Deus perdo e 
foras para as no repetir. Em vez da alma, porm, Scarlett examinou o corao. 
Apoiou a fronte sobre as mos erguidas  altura do seio, para que a me no lhe visse o rosto, e os 
seus pensamentos de novo se volveram para Asliley. Como poderia ele pensar em casar-se com 
Melanie se era a ela, Scarlett, que realmente amava? E, sabendo quanto era amado, como poderia 
ele despedaar-lhe assim o corao? 
#
De sbito, uma ideia fantstica lhe atravessou o crebro como um relmpago. 
"Meu Deus! E se Asliley ainda no compreendeu que eu o. amo?" 
Estava to longe de fazer esta descoberta que por pouco no deixou escapar dos lbios uma 
exclamao de surpresa. Sentiu faltar-lhe a respirao e o sangue como que se lhe paralisou nas 
veias, durante uma breve fraco de segundo. Depois, os seus pensamentos retomaram o curso 
precipitado pelo qual momentos antes haviam enveredado. 
"Como podia ele adivinhar? Eu tratei-o sempre com tal reserva, mostrei-m@p sempre to cheia de 
no-me-toques, que 
95 
ele supe que a meus olhos no passa dum simples amigo. Com certeza. Foi por isso que nunca teve 
coragem para se declarar! Julga que o seu amor no  correspondido, Assim se explica que tenha 
ficado to..." 
E a memria transportou-a prontamente, atravs do tempo, queles momentos em que o 
surpreendera a fit-la duma, maneira estranha queles instantes em que os seus olhos,que 
normalmente sabiam velar to bem os pensamentos que lhe cruzavam o esprito, pareciam dilatar-se 
e d-spojar-se de todo o mistrio, at no reflectirem mais do @@e o sofrimento e o desespero que 
lhe--atormentavam a alma. 
"Ashley tem o corao dilacerado pelo ci' -me porque pensa que eu estou apaixonada por Brent ou 
po@ Stuart, ou talvez por Cade Calvert. E, persuadido de que jamais consentiria em ser sua, decidiu 
casar com Melanie, para fazer a- vontade aos pais. Mas se soubesse quanto o amo..." 
0 seu esprito, extremamente volvel, passou num pice do mais completo abatimento  mais 
risonha das felicidades. Acabava de descobrir a explicao das reticncias sempre manifestadas por 
AshIey e do seu estranho procedimento. E ele no sabia! No sabia que o seu amor era retribudo 
com verdadeira paixo. Scarlett exultava. A sua vaidade voara em socorro do desejo de acreditar 
naquela teoria e transformara a hiptese numa certeza. Assim que Ashley soubesse que ela o amava, 
correria ao seu encontro. Bastar-lhe-ia apenas... 
"Oh, como fui tola em no ter compreendido isto mais cedo!" pensou, radiante, passando os dedos 
pela fronte enrugada. "Tenho de encontrar um processo de lhe dar a conhecer os meus sentimentos a 
seu respeito. Ele no desposar Melanie, se souber que o amo. Como poderia faz-lo?" 
Estremeceu, ao verificar que Gerald j acabara de rezar as dez Ave-Marias e que a me tinha os 
olhos cravados nela. Apressou~se a rezar por sua vez, passando automticamente as contas do 
rosrio, mas deixando transparecer na voz tal comoo que a ama. entreabriu as plpebras e 
dardejou sobre ela um olhar desconfiado. Assim que terminou as preces, deixou que o esprito de 
novo seconcentrasse no. pensamento que a electrizara, enquanto Suellen, e depois Carreen rezavam 
os mistrios. 
Mesmo agora,'ainda no era tarde! A comarca j por vrias vezes tinha sido tea-tro, de escndalos 
provocados pela fuga dum dos noivos com uma terceira peum, horas 
96 
antes de o enlace se realizar. E o casamento de AshIey ainda nem sequer tinha sido anunciado! Sim, 
ainda havia muito tempo! 
Se Asliley e Melanie no se amavam e apenas existia entre ambos uma promessa feita h muito 
tempo, constituiria isso motivo suficientemente forte para o impedir de romper o noivado a fim de 
casar com outra? Decerto que no. E seria precisamente assim que Ashley procederia logo que 
soubesse que ela o amava, Tinha a certeza. Precisava aperias de descobrir o processo mais prtico e 
eficaz de o pr ao facto dos sentimentos que por ele nutria. E ento... 
Scarlett despertou bruscamente do sonho maravilhoso em que havia mergulhado, pois que se 
distrara e deixara de recitar o responso. A me fitou-a com o olhar de reprovao e ela apressou-se 
a remediar o seu esquecimento. Passeou rapidamente a vista em torno de si. As figuras ajoelhadas 
ao redor do aposento, a luz suave do candeeiro, os vultos <:ios negros envoltos na penumbra que 
reinava no vestbulo, os prprios objectos que lhe eram to familiares e que ainda algumas horas 
antes lhe haviam causado profunda averso, adquiriram dum instante para outro um matiz anlogo 
#
ao das emoes que nesse momento estava experimentando, a. ponto de o ambiente da " de jantar 
lhe parecer de novo amigo e acolhedor. Jani?@is esqueceria aquele momento e aquela cena. 
- Virgo fidelissima -entoou a me, iniciando a ladainha da Virgem. 
Dcilmente, Searlett respondeu: -Ora pro nobis. Com a sua voz sonora, de contralto Ellen 
prosseguia na glorificao dos atributos da Me de Deus. Desde pequenina que para Scarlett era 
aquele o momento em que a sua adorao pela me ultrapassava, a que tinha pela Virgem, Embora 
pudesse incorrer em sacrilgio, Scarlett via sempre, atravs das plpebras semcerradas,  medida 
que as frases consagradas se iam sucedendo o rosto de Ellen substituir o da Virgem Maria.. Salus 
infir;norum... Refug@-um peccatorum... Sedes sapienti)ae... Rosa m-yst"... eram palavras 
magnficas que correspondiam perfeitamente aos predcados de Ellen. Mas nessa noite, devido ao 
seu estado de esprito, Scarlett, viu em todo o cerimonial, nas palavras prornunciadas a meia voz, e 
no murmrio dos ora pro nobis, 
7 -Vento Levou - 1 97 
uma beleza que excedia tudo quanto at ento conhecera. E c> seu corao enamorado elevou at 
Deus sincero tributo de gratido, por lhe ter guiado os passos at  berma do caminho que a levaria 
do seu profundo desespero ao enco-ntro da felicidade nos braos de AshIey. 
Assim que na sala ressoou o ltimo men, levanta@ ram-se to-dos, com as pernas ligeiramen@e 
entorpecidas. Pork pegou numa torcida que jazia sobre a chamin, acendeu-a no candeeiro e 
encaminhou-se para o vestbulo. Defronte da escada de caracol que conduzia ao primeiro andar, 
havia um aparador de'nogueira ' demasiadamente grande para caber na sala de jantar, sobre o qual 
se alinhavam diversos candelabros e uma srie de velas com os respectivos castiais. Pork acendeu 
um dos candelabros e trs velas e, com a pompa dum camareiro da Casa Real alumiando o caminho 
de Suas Majestades o Rei e a Rainha, tomou o comando do cortejo que se dirigia para a escada, 
elevando o candelabro bem acima da cabea. 
Ellen subiu os degraus pelo brao do marido, seguida pelas trs filhas que iam atrs, empunhando 
cada uma um castial. 
Scarlett entrou no seu quarto, pousou o castial em cima duma cmoda alta e vasculhou  pressa o 
interior do guarda-fato  procura do vestido de baile que precisava de ser arranjado. Com ele no 
brao, atravessou calmamente o corredor em direco  alcova dos pais. A porta encontra~ va-se 
entreaberta e, antes que ela tivesse tido tempo de bater, ouviu a me dizer, em voz baixa, mas 
autoritria: 
- Senhor O'Hara,  preciso despedir Jonas Wilkerson. Gerald explodiu: 
- E onde vou eu descobrir outro feitor que no me roube? 
- ]@ preciso despedi-lo quanto antes, amanh de manh o mais tardar. Big Sam  ptimo elemento 
que poder tomar conta de tudo at que se contrate novo feitor. 
- Ah! Ah! - ripostou o marido. - Agora j estou a compreender. Com que ento foi o respeitvel 
Jonas quem... 
- Tem de o despedir, seja como for. "Por consequncia  ele o pai da criana que Emmie Slattery 
deu  luz est@ noite", pensou Searlett. "Nem outra coisa seria de esperar dum yankee e duma 
rapariga de p, descalo". 
Esperou uns instantes para dar tempo a que o pai se 
98 
acalmasse, e bateu. Ellen velo  porta e a f ilha entregou-lhe o vestido. 
No curto espao de tempo que levou a despir-se e a apagar a vela, Searlett elaborou um 
pormenorizado plano de aco para o dia seguinte. Era um projecto extremamente simples, pos, 
como digna sucessora de Gerald que no desperdiava tempo em consideraes inteis, jamais 
perdia de vista o seu objectivo principal, preGcupando-se apenas em descobrir o meio mais directo 
de o atingir. 
Para comear, seguiria  risca os conselhos que o pai lhe tinha dado nessa tarde. Desde que 
chegasse aos Doze Carvalhos, mostrar-se-la sob o aspecto mais alegre e atraente. No queria que 
ningum suspeitasse do violento abalo que o seu corao sofrera com a notcia do prximo 
#
casamento de Ashley com Melanie. Deixar-se-ia cortejar por todos os homens que l estivessem. 
Asliley ficaria furioso, mas a atitude dela ainda espicaaria, mais o desejo de a conquistar. No 
desanimaria nenhum homem em idade de casar, desde o velhoFrank Kennedy o apaixonado de 
Suellen, de suas ruivas, ao tmido Char@es Hamilton, irmo de Melanie. Havia,de fazer com que 
todos andassem  volta dela como um enxame de abelhas em torno do cortio. E, mais tarde ou 
mais cedo, Asliley abandonaria Melanie para se juntar ao crculo dos seus admiradores. Manobraria 
ento de forma a poder ficar a s6s com ele alguns minutos. Searlett esperava que tudo se passasse 
desta maneira, porque, de contrrio, teria maior dificuldade em conseguir o seu intento. Em todo o 
caso, se Asliley no tornasse a iniciativa, ela imaginaria um processo de solucionar o problema. 
E, quando se encontrassem ss, Ashley teria ainda patente na memria a imagem dos outros 
homens turbilhonando  volta dela e estaria ainda impressionado pelo pensamento de que todos 
aqueles homens a cobiavam. E, ento, os seus olhos fit-la-iam de novo com aquela expresso 
triste e desesperada. Ela restituir-lhe-a a alegria perdida, dando-lhe directamente a entender que o 
preferia a todos, no obstante as promessas tentadoras que lhe tinham sido feitas. E uma vez que ela 
houvesse revelado desta forma o seu segredo, com uma graciosidade plena de modstia, a atitude de 
Asliley tornar-se-la ainda mais elo-quente. Sem dvida que se portaria como uma senhora da 
sociedade. Nem sequer lhe passava pela cabea a ideia de lhe dizer abertamente que o amava... Isso 
no daria resultado. Coil- 
99 
tudo, as palavras de que havia de servir-se constituam simples instrumento acessrio que no lhe 
causava a mnima preocupao. J se tinha visto noutras situaes idnticas e sempre se sara bem. 
Estendida no leito, envolta na claridade fria do luar, imaginou a cena. Viu a expresso de surpresa e 
de felicidade que se estamparia no rosto de Ashley, quando com@preendesse que o seu amor era 
retribudo, e chegou at a ouvir as palavras que ele pronunciaria ao, pedir-lhe que o aceitasse para 
marido. 
Nesta altura, no podia esquecer-se de lhe responder que era contra os seus princpios aceitar a corte 
dum ho~ mem que estava noivo de outra, mas Astiley insistiria e ela acabaria por se deixar 
convencer. Em seguida, planeariam 
* fuga e, nessa mesma tarde, partiriam para Jonesboro... 
No dia seguinte, quela mesma hora, j ela poderia ser 
* senhora Ashley Wilkes! 
Sentou-se no leito, enlaando os joelhot com os braos, e, durante largos momentos de felicidade, 
imaginou-se mulher de Aslile Wilkes,... a noiva de Ashley. Mas, de sbito, uma leve frUdade lhe 
trespassou o corao. E se as coisas se no passassem daquela maneira? E se Ashley no lhe 
suplica-sse que fugisse com ele? No entanto, baniu resolutamente esta ideia do esprito. 
"No quero pensar nesta possibilidade, agora", disse de si para si, com energia. "Se comeo a 
magicar no pior, sou capaz de me enervar e s teria a perder com isso. Alis, no h motivos para 
suportar que o plano no d resultado... se Asliley realmente me tem amor, E eu sei que ele gosta de 
mim".' 
Ergueu o queixo e os seus olhos verdes, de longas pestanas negras, brilharam ao luar. Ellen nunca 
lhe tinha dito que o desejo e o xito eram duas coisas bem diferentes e a experincia ainda no lhe 
ensinara que a vitria nem sem-. pre cabe aos mais arrojados. Scarlett repousava, envolta no vu 
prateado do luar, armazenando coragem e organzando planos, com a inconscincia caracterstica 
duma rapariga, de dezasseis anos para quem a vida se apresenta to bela e agradvel que 'as 
possibilida ides de derrota se afiguram nulas, e um vestido bonito e uma tez acetnada parecem 
armas capazes de vencerem o Destino. 
100 
5 
Du horas da manh. Estava um dia excessivamente quente para Abril e atravs das cortinas azuis 
que guarneciam as janelas amp@as, o sol entrava a jorros no quarto de Scarlett. A luz dourada 
reflectia,@se nas paredes de cor creme e, incidindo sobre os mveis altos de mogno macio, 
#
arrancava, -lhes fulgores rubros de viAho velho, E, salvo nos locais em que os tapetes punham as 
suas notas garridas, o soalho brilhava como um espelho. 
J se pressentia na atmosfera a proximidade do Vero, esse Vero que na Gergia tem incio no 
momento em que 
* Primavera, em todo o seu esplendor cede contra vontade 
* uma temperatura canicular. Uma brisa tpida e deliciosa, impregnada de eflvios suaves percorria 
a alcova, perfumando o ambiente com o arom@ dos pomares em flor, dos rebentos verdejantes, da 
terra vermelha e hmida. Atravs das vidraas, Scarlett conseguia ver as duas fileiras de junquilhos, 
que orlavam a lea coberta de brita mida, entregarem-se a uma orgia de cores garridas, e as massas 
douradas de jasmins que atapetavam o solo com os seus tufos floridos e graciosos, cujas formas 
lembravam crnolinas. Soltando gritos estridentes, furibundos, protestando com vozes lamentosas, 
os tordos e os gaios continuavam a disputar a posse da, magnlia que se erguia junto ao prdio. 
Nas manhs radiosas como, aquela, Scarlett costumava ficar horas esquecidas  janela, com o rosto 
repousando entre a palma da,% mos e os cotovelos apoiados sobre o parapeito largo, sorvendo a 
longos haustos os perfumes familiares de Tara, deixando-se embalar pelo canto das aves e pelos 
rumores caseiros. Nesse dia, porm o azul-cobalto do cu e o esplendor do sol primaveril a@enas 
despertara,m no seu esprito um pensamento: "Ainda bem que no chove!" Cuidadosamente 
dobrado dentro duma caixa, de papelo, o vestido de seda verde-ma,com folhos de renda crual 
jazia aos ps da cama aguardando que o levassem para os 1),oze Carvalhos, ond@ Scarlett o 
envergaria no m(>mento de comear o baile, No entanto, encolheu os ombros, alo v-lo. Se os 
acontecimentos se desenrolassem segundo 0 plano que arquitectara, no chegaria a s-lo nessa 
noite. Muito antes do baile ter incio, j ela e AshIey deveriam ir a caminho de Jonesboro, a fim de 
se casarem. Apenas um 
101 
pormenor a preocupava, ' agora: Que vestido deveria levar ao piquenique? 
Qual seria o traje capaz de a tornar irresistvel aos olhos de Ashley? Desde as oito horas da manh 
que no fazia outra coisa seno experimentar vestidos sem conseguir chegar a uma concluso. E ela 
ali estava, @inda na dvida, desanimada, furiosa, envergando umas calas de renda, um corpinho 
de tule sobre o espartilho e trs saias de linho, franzidas na cintura e com aplicaes de renda em 
toda a volta, na orla. E' espalhada pelo, cho, em cima das cadeiras e sobre a cama 'via-se uma 
profuso alegre de vestidos dos mais variados feitios, que ela havia rejeitado. 
0 de organdi cor-de-rosa, com o cinto largo, feito do mesmo tecido, ficava-lhe bem, mas j o levara 
aos Doze Carvalhos no ano anterior, numa altura em que Melanie se encontrava a passar as frias 
em casa dos Wilkes. No podia arriscar-se a que a sua rival o reconhecesse, e a criticasse por ainda 
usar, um vestido to antigo. 0 de bombazina preta, de mangas tufadas e gola de renda, realavalhe 
admirvelmente a ctis branca, mas fazia-a um pouco mais velha. Scarlett examinou ansiosamente 
ao espelho o seu rosto encantador, como se receasse descobrir nele msculos flcidos ou rugas 
prematuras. Ante a radiosa mocidade de Melanie no lucraria nada em parecer mais idosa ou 
crcunspecta. 0 vestido de cassa azul com largos entremeios de renda, junto  bainha, era 
simplesmente magnfico irias no convinha, ao seu tipo. Favoreceria extraordinariar@iente o perfil 
delicado de Carreen e emprestar-lhe-ia vida ao rosto, mas a ela dava-lhe um aspecto de colegial. E, 
ao, lado de Melanie, to senhoril, no seria prudente mostrar-se menina de escola. 0 vestido de 
talet verde, aos quadrados guarnecido de folhos estreitos debruados de veludo c!@zentoesverdeado 
assentava-lhe divinalmente. De entre todos, era mesmo o q@e ela preferia, pois lhe 
escurecia os olhos, dando-lhes uma tonalidade de esmeralda. Contudo estava praticamente 
inutilizado, visto apresentar uma larga ndoa de gordura em pleno peito. Evidentemente, Scarlett 
poderia tentar ocult-la pregando-lhe um broche em cima, mas temia que Melanie fosse to 
observadora como ela e descobrisse aquela mancha horrvel. Restavam-lhe os vestidos de algodo, 
multicolores, que no considerava suficientemente bons para levar a uma festa bem como os 
vestidos de baile e o de musselina verde, e flores, que trouxera 
102 
#
na vspera. No enta-nto, este era mais um vestido de tarde, ,pouco indicado para as circunstncias, 
pois tinha as mangas tufadas e muito curtas, e parecia mais prprio para baile, em virtude do seu 
decote exagerado. Mas Scarlett, no teve outro remdio seno optar por ele. No se importava nada 
que.no fosse adequado para a ocasio. No tinha o menor acanhamento, em mostrar o pescoo, os 
braos e o colo, aInda que a etiqueta condenasse exibies de plstica feminina a: horas to 
matinais. 
Torcendo-se em frente do espelho de maneira a ver-se de perfil, Searlett chegou  concluso de que 
nada tinha a recear quanto  perfeio das suas formas. 0 pescoo era curto, mas bem torneado, e os 
braos carnudos e tentadores. Os seios, alterados pelo espartilho, possuam um encanto muito 
especial. Aocontrrio do que se verificava com a maioria das raparigas de dezasseis anos, nunca 
tivera necessidade de coser ao forro dos corpetes pequenos chumaos de seda franzida, para dar ao 
busto as curvas desejadas. Regozijava-se com o facto de ter herdado da me as mos brancas e 
delicadas e os ps quase minsculos. Desejaria tambm ser to alta como Ellen, embora a sua 
estatura lhe no desagradasse totalmente. Pena era que no pudesse mostrar as pernas, cheias mas 
elegantes, pensou, levantando as saias e mirando com um ar pesaroso os graciosos torno,zelos que 
as calas de renda no cobriam. Como eram lindas, as suas pernas,! As suas colegas da Academia 
de Fayetteville por mais de uma vez lho tinham afirmado! Quanto  cintura... no existia outra 
assim em Fayetteville ou em Jonesboro, nem em qualquer dos trs estados circunvizinhos. 
Estas consideraes acerca da esbelteza da sua, cintura fizeram-lhe convergir os pensamentos para 
questes mais prticas. 0 vestido de musselina verde tinha apenas quarenta e trs centmetros de 
cinta e Bab havia-a, espartilhado de forma a poder levar  festa o de bombazina de seda que tinha 
quarenta e cinco centmetros. Por consequncia, precisavaque ela a apertasse ainda mais. Abriu a 
porta e, do vestbulo do rs-do-cho, chegou-lhe aos ouvidos o rumor dos passos arrastados da 
preta. Impaciente, chamou-a em altos gritos sabendo que podia faz-lo impunemente, visto que 
Ell@n estava na despensa a, entregar  cozinheira os mantimentos para, o resto do dia. 
- No posso. avo - resmungou a velha ama, enquanto 
103 
subia as escadas, arrastando as pernas. -No tenho asa no p. 
Entrou no quarto ofegante. Segurava entre as manpulas negras uma b@ndeja sobre a qual 
fumegavam dois inhames enormes, cobertos de manteiga, ao lado dunia pilha de broas de trigo 
mouro embebidas em calda de acar e uma grande fatia de presunto nadando em gordura. Ao 
avistar o pesado fardo que a ama transportava, a expresso fisionmica de Scarlett sofreu uma 
transformao radical. A leve irritao que sentia deu lugar a um sentimento mais belicoso. 
Obcecada pela preocupao de experimentar os vestidos ' Scarlett tinhase esquecido da regra 
inflexvel que Bab impunha s suas trs pupilas, sempre que elas se preparavam para ir a qualquer 
reunio, e que consistia em as obrigar a comerem tanto antes de sarem de casa que ficassem 
impossibilitadas de provar o que quer que fosse durante o resto do dia. 
- ]@ escusado. No toca-rei na comida. Podes levar essa tralha toda para a cozinha. 
A velha ama pousou a bandeja em cima da mesa e fincando as mos nas ancas, foi postar-se em 
frente de Scakett. 
-No diga isso, minina. Vai com tudo antes de sal. Pensa, que a mim esqueceu a ltima festa? Tava 
eu muito doentee no pude vi traz comida para minina e ningum se lembrou. No arredo daqui 
enquanto houv comida nos prato. 
-J te disse que no tocarei em nadal Vem apertar-me 
* espartilho um pouco mais. A carruagem j deu a volta, 
* que significa que estamos; atrasadas. 
A preta assumiu um tom conciliador. 
- Vaznos, minina. No seja mzinha e prove s um poquinho. As outra minina j comeram tudo. 
- Isso no me surpreende - replicou Scarlett, desdenhosamente. -As minhas irms so estpidas 
como uma porta. Mas, comigo, essa conversa no pega. Escusas de perder tempo, porque no 
tenciono provar nada. Ainda no me esqueci do que me aconteceu por ocasio da festa em casa dos 
#
Calverts. Obrigaste-nie a comer tanto que, quando l cheguei nem vontade tinha para sa-borear o 
sorvete de creme que'haviam encomendado especialmente a um pasteleiro de Savannah. No, desta 
vez estou resolvida a divertir-me e acomer de tudo o que me apetecer. 
Perante tamanha heresia, a velha a-ma franziu as sobran- 
104 
celhas, indignada. Segundo o seu cdigo das convenincias, entre o que uma jovem podia ou no 
fazer havia uma dife- rena to grande como do dia. para a noite. No admitia meio termo. Suellen 
e Carreen eram como pedaos de argila que as suas mos possantes modelavam a seu bel-prazer. 
Seguiam  risca os conselhos que lhes dava e obedeciam-lhe cegamente. Com Scarlett, porm 
sucedia exactamente o contrrio, Debalde se esforava po@ lhe fazer ver que as suas atitudes eram, 
de maneira geral, imprprias de uma senhora educada. As poucas vitrias que sobre ela conseguira 
tinham sido obtidas  custa de grandes sacrifcios e representavam o fruto da aplicao de 
estratagemas desconhecidos dos brancos. 
-Si minina no importa que as gente fale da famlia, a mim importa - vociferou ela. - No qu que 
vo diz p'r i que minina no sabe portasse bem. Tou farta de explic que uma sinhora educada  
passarinho a com. No vai a casa de sinh Wilkes para se p l a com  doida, como mui dos 
campo. 
-Mas a minha me  uma, senhora educada e come bastante bem - contestou Scarlett. 
- Quando a minina, se cas pode com  vontade' 
- redarguiu a ama. -Quando a sua mam tinha a idade de minina nunca comia nada fora de casa, 
nem as sua tia Pauline e Eulalie. E elas todas se casaram. Moa que come muito fica para tia porque 
no encontra marido. 
- Isso  o que tu dizes. Naquela festa a que eu fui sem comer nada, por estares doente e no poderes 
obrigar-me, AshIey Wilkes disse~me que gostava de ver uma rapariga com bom apetite. 
A negra meneou a cabea de maneira inquietante. -Os home diz uma coisa e pensa outra muito 
diferente -declarou ela. -E a prova  que sinh Ashley inda no pediu a minina em casamento. 
Scarlett sentiu subir-lhe a mostarda ao nariz e ainda chegou a abrir a boca para dar uma resposta 
spera, mas conteve-se. Em face da expresso irada patente no rosto da pupila, a preta pegou na 
bandeja e com a firmeza astucio@a caracterstica da sua raa, muou de tctica, dirigindo-se para a 
porta, com um suspiro. 
- T bem, minina - murmurou. - Inda h bocado, quando a cozinheira tava preparando os prato na 
bandeja, disse para ela: "A gente v logo se uma minina  bem 
105 
educada pela maneira como ela toca em comida. E nunca vi minina com to pouco, como minina 
Melly Hamilton, de uma vez que ela teve em casa de sinh Ashley... desculpe, em casa de minina 
India. 
Scarlett dardejou sobre ela um olhar carregado de desconfiana, mas o rosto da ama exprimia 
apenas uma candura impenetrvel e o desgosto de que Scarlett no fosse uma senhora como 
Melanie Hamilton. 
-Pousa a bandeja e vem apertar-me , ordenou Searlett com voz irritada. - Talvez eu ainda me decida 
a comer um pouco. Se comesse j, depois no poderia espartilhar-me. 
Bab tornou a colocar a bandeja sobre a mesa, sem deixar transparecer na fisionomia a sua 
satisfao pela vitria obtida. 
-Que vistido vai liv minha querida? 
- Este - respondeu Sarltt, apontando a massa vaporosa da musselina verde, estampada. 
Foi quanto bastou para que a ama voltasse  carga. 
- No, a minina no pode lev esse. No serve para de @nanh. No t gola nem manga e a, 
garganta, s pod and a mostra depois das trs hora. Minina quer ficar cheia de sarda? Depois vem 
pidi a mim para esfreg com creme de nata, como tive de faz este Inverno para tir as sarda que 
minina arranjou na praia, em Savannah. Vou mas  cont tudo  sinhora. 
-Se fores dizer  minha me uma palavra que seja antes que eu tenha acabado de me vestir, garantote 
#
que nem sequer provarei a comida -declarou Scarlett, secamente. -Quando eu estiver vestida, a 
me j no ter tempo para me obrigar a mudar de roupa. 
Vendo-se derrotada, a ama soltou um suspiro de resignao. Mais valia que Scarlett usasse pela 
manh um vestido de passeio a ir empaturrar-se como uma probretona, em casa dos vizinhos. 
- Sigure-se a qualquer coisa e prenda folgo - disse ela, em tom autoritrio. 
Scarlett obedeceu, agarrando-se a uma das colunas do leito, enquanto Bab puxava os cordes. Sob 
a presso das baleias do espartilho, a cintura da rapariga foi diminuindo gradualmente de permetro 
e um brilho de orgulho e de ternura iluminou por momentos os olhos da velha escrava. 
- No conheo ningum com cintura to fina como a da minha frzinha - murmurou a preta, 
envaidecida. - Sem- 
106 
pre que aperto sua mana Suellen para menos de cinquenta centmetros, ela perde sentido. 
-Ufa-disse Searlett, sentindo-se to apertada que at tinha dificuldade em falar.-Mas eu nunca 
desmaiei. 
- n pena porque s vez at convm as rapariga desmai-retor@uiu a ama.-Minina tem altura em que 
parece mais home que mui. No tem medo di cobra, nem di rato. nem douto bicho qualqu. 
Quando t s no faz mal, ms quando t com gente ao p... 
- Despacha-te 'anda! Fala menos e no te preocupes, que eu hei-de arranjar marido, mesmo sem 
gritinhos nem desmaios. Santo Deus, como o espartilho est apertado! Vamos, enfia-me o vestidG. 
Com todas as precaues, a ama fez deslizar os doze metros de musselina verde sobre a sala de 
crinolina e em seguida abotoou-lhe o corpete nas costas. 
- No se esquea de p o xale pelo ombo quando tiv ao sol e no tire chapu mesmo se senti cal - 
aconselhou. 
- Seno minina volt para casa escura como a Bab. Agora vem cum, minha frzinha, mas no d 
pressa a engoli. No adianta nada se a comida volta para cima outra vez. 
Scarlett sentou-se resignadamente em frente da bandeja. Perguntava a si prpria se, mesmo que 
comesse pouco, o espartilho ainda teria elasticidade suficiente para lhe permitir respirar, A velha 
ama pegou numa toalha do lavatrio e passou-lha em torno do pescoo, tendo o cuidado de a 
desdobrar de forma a cobrir-lhe todo o peito. Scarlett comeou pelo presunto, que comia sempre 
com apetite, disposta a faz-lo desaparecer do prato. 
- Oh, quem me dera j casada! - exclamou, num desa- bafo, servindo-se do inhame, ainda que 
contra vontade. - 
Estou farta, deste gnero de vida. Uma pessoa no pode ser senhora de si prpria nem fazer o que 
lhe apetece. Estou ,cansada de fingir que sou como um passarinho a comer, de caminhar a passo 
quando a minha vontade  correr, de dizer, aps uma valsa, que sinto a cabea a andar  roda 
quando poderia danar dois dias a fio sem me cansar. E quase que rebento quando me vejo na 
obrigao de dizer: "Voc  extraordinrio! " a imbecis que, em matria de inteligncia, so muito 
piores do que eu, ou de afectar ignorncia, para que os rapazes se sintam cheios de si e desatem a 
ensinar-me coisas que eu j sei de cor e salteado, enquanto... No posso comer mais. 
107 
 L.:IL- 
-Experimente broa quente-teimou a ama, implacvel. 
- Por que ser que uma mulher tem de se fazer passar por estpida para arranjar marido? 
-Porque os home no sabe o qui eles qu. Julga qui sabe mas no sabe. E, fazendo o que os home 
pensa qui qu, as minina livra-se duma carga de tabalho e no fica para tia. Eles pensa qui qu 
rapariga qu come pouco e qui no tem dois dedo de testa. Os home no gosta de cas com mui 
mais esperta qui eles. 
- No achas que os homens devem ficar bastante admirados quando chegam  concluso de que a 
*mulher  muito diferente do que supunham? 
- Pode s, mas ento j  tarde, porque esto casado. Depois os home at gosta que a mui deles 
tenha juzo. 
#
-Qualquer dia d-me na veneta e comeo a fazer tudo o que me vier  cabea. E, se pensarem mal 
de mim, que vo todos para o diabo. 
- No, minina no h-de faz nada disso - asseverou Bab, em tom lgubre. - Pelo menos enquanto 
tiv viva sua ama. V comendo as broa. Ensopa primeiro na calda, frzinha. 
- Duvido que as raparigas yankees se faam passar por tolas - diss Scarlett. -Ainda o ano passado, 
quando estivemos em Saratoga, vi dezenas delas que, mesmo diante dos homens, mostravam ser 
inteligentes. 
A preta soltou unia gargalhada depreciativa. 
- A rapariga ya?ikee! Sim, minina, elas sabe diz coisas muito bonita, mas os casamento so cada 
vez menos em Saratoga. 
- Mas os yankees tambm se casam -argumentou Searlett. -Eles no aparecem neste mundo por obra 
e graa do Esprito Santo. Se no casassem no teriam filhos. E olha que no faltam bebs em 
Saratoga. 
-Os home casam com elas p'ro interesse -retrucou a escrava. 
Scarlett molhu a broa na calda de acar e levou-a  boca. Devia haver um fundo de verdade no 
que a ama acabava de dizer, pois que j ouvira a me manifestar a mesma opinio, embora usando 
termos diferentes, mais elegantes. De facto, as mes de todas as raparigas suas amigas inculcavam 
no esprito das filhas a necessidade de parecerem criaturinhas frgeis e tmidas e incapazes de se 
valerem a si prprias. Devia ser preciso ter certa arte para cultivar e 
108 
manter to difcil atitude. Talvez ela se tivesse mostrado muito impetuosa e resoluta. Quantas vezes 
discutira com Ashley e lhe manifestara livremente as suas opinies? J lhes perdera a conta. E os 
passeios a p e as correrias a cavalo, atravs dos canipos... Quem sabe se no teria sido isso que o 
afugentara e o fizera aproximar-se mais da dbil Melanie? Se ela mudasse de tctica, talvez ainda 
estivesse a tempo de... Mas Scarlett tinha a sensao ntida de que Ashley perderia toda a sua 
considerao se se deixasse iludir por uma srie de artimanhas femininas, premeditadas. Um 
homem que se deixasse cativar por um sorriso falso, por um desmaio fingido ou por uma frase do 
gnero "Oh, voc  simplesmente extraor& 'nrio!", dita a propsito, no valia nada aos seus 
olhos. Mas a verdade  que todos pare- ciam gostar disso. 
Se tivesse usado de tctica errada para com Ashley durante aquele tempo todo... Mas o tempo vai e 
no volta e s o futuro  que conta. Nesse dia, utilizaria outro mtodo. Queria Ashley e apenas 
dispunha de algumas horas para o conquistar. Se fingir um chilique era o meio mais aconselhvel, 
no hesitaria em empreg-lo. Se fosse necessrio mostrar-se namoradeira ou tola para cativar 
Ashley, de bom grado faria o papel de IEvi@na ou afectaria uma estupidez ainda maior do que a de 
Cathleen Calvert. Nesse dia jogaria a ltima cartada! 
Ningum tinha ainda feito notar a Scarlett que a sua personalidade, efusiva e irrequieta, era 
muito mais atraente do que todos os disfarces de que pudesse revesti-Ia. E, mesmo que algum 
'lho dissesse, ela ficarla lisonjeada, mas no acreditaria. E a sociedade de que fazia parte 
tambm no ocultaria o seu cepticismo, pois em nenhuma poca anterior ou posterior queI@ 
. a naturalidade na rnuIhe@ teve to baixa cotao. 
Enquanto a carruagem descia a estrada de terra vermelha que levava  fazenda dos Wilkes, Scarlett 
deixou-se invadir por uma sensao de prazer pecaminoso, ao pensar que nem a me nem a ama 
assistiriam  festa. Poderia pr em prtica o plano que arquitectara na vspera, na certeza de que se 
alguma vez olhasse  sua volta, no veria ningum ranzir as sobrancelhas ou torcer a cara em 
advertncia, mudas e discretas. Evidentemente, Suellen no deixaria de contar tudo  me no dia 
seguinte; mas, se tudo 
109 
corresse como Scarlett esperava, a surpresa dos pais ao saberem que ela estava noiva de AshIey ou 
que este tinha fugido com ela decerto que faria mais do que compensar o seu descontentamento. Na 
verdade, sentia-se radiante por Ellen ter ficado em casa. 
Animado por um bom trago de aguardente, Gerald havia despedido Jonas Wilkerson logo pela 
#
manh, o que obrigou Ellen a permanecer em Tara, a fim de verificar a contabilidade da fazenda, 
antes da partida do feitor. Searlett tinha ido despedir-se da me ao escritrio, onde a encontrou 
sentada  secretria, @cujas gavetas transbordavam de papis. Jonas Wilkerson, conservava-se de 
p diante dela, com o chapu na mo. No seu rosto amarelento e anguloso transparecia a clera que 
fervia dentro dele ao ver-se bruscamente despedido de um emprego como @o havia outro em toda 
a comarca. E tudo isto porque se divertira um pouco com uma rapariga leviana. Ainda tentara 
atenuar a falta que o patro lhe imputara, dizendo que a paternidade do filho de Emmie Slattery 
tanto poderia ser-lhe atribuda a ele corno a uma boa dezena de outros homens a quem se haviam 
deparado idnticas facilidades -com o que Gerald estava plenamente de acordo-mas Ellen no 
transigira, visto o argumento apresentado no o isentar da culpa e apenas pr em dvida a sua 
responsabilidade. Jonas detestava os sulistas. Detestava~os pela cortesia distante com que eles o 
tratavam pelo desprezo que lhes inspirava a sua condio social, @mbora o verniz que a educao 
lhes impu- 
4ha os inibisse de o manifestarem abertamente. E ' acima de tudo, detestava Ellen O'Hara, que 
aos seus olhos reunia todos os defeitos que caracterizavam os sulistas. 
Na sua qualidade de chefe do pessoal feminino ' Bab tambm ficara em casa a fim de ajudar 
Ellen, e fora Dilcey quem tomara lugar na boleia 'ao lado, do cocheiro, transportando no regao a 
volumosa caixa de papelo que continha os vestidos de baile. Excitade-pelo clice de aguardente e 
satjsfeito por ter resolvido com tanta facilidade a desagradvel questo de Wilkerson, Gerald 
O'Hara cavalgava ao lado da carruagem, escarranchado sobre o seu ginete predilecto. Descarregara 
todas as responsabilidades sobre os ombros de Ellen e nem sequer lhe acudia  mente a ideia de que 
a mulher podia ter ficado com pena de no ir  festa, onde certamente encontraria pessoas amigas e 
conhecidas. Estava uma linda manh de Primavera, os campos 
110 
tinham aspecto magnfico, os pssaros chilreavam alegremente e Gerald sentia-se novo, em excesso 
e extraordinariamente bem disposto para se preocupar com algum que no fosse consigo prprio. 
Numa sequncia rpida, entoou uma srie de canes populares da Irlanda, comeando pela 
melodia Peg foi passear de carrinha e terminando com uma balada triste de Robert Enimet intitulada 
Ela est longe da terra onde repousa o seu heri. 
A perspectiva de passar uma tarde inteira a bramar contra os yankees, e a discutir as possibilidades 
de guerra, enchiam-no de grande prazer. As suas trs filhas, encantadoras nos vestidos de saia de 
balo que envergavam, acolhidas  sombra protectora dos guarda-sis de renda, faziam-no impar de 
orgulho. A conversa que no dia anterior tivera com Scarlett havia-se-lhe varrido por completo da 
memria. Naquele momento, Gerald pensava apenas que a filha'era bonita e elegante, que a sua 
figurinha gentil constitua uma obra de arte digna de elogio, que os seus olhos pareciam ainda mais 
verdes que as colinas da Irlanda. E esta comparao decerto despertou nele alguma evocao 
potica, porque' decidiu mimosear as filhas cantando com voz -vibrante mas um tanto ou quanto 
desafinada, a famosa cano Verde Erin. 
Scarlett, encarou-o com a indulgncia afectuosa que as mes ecstumam manifestar para com os 
filhos fanfarres e no teve dificuldade em pensar que, muito antes do pr-do-Sol, j o pai estaria 
quase a cair de bbado, E, de regresso a easa j de noite, tentaria, como era hbito saltar todas as 
vedaes que se erguiam entre os Doze Ca@valhos e Tara. Searlett esperava que, graas  
Providncia divina e ao bom senso do cavalo, o pai conseguisse chegar so e salvo. Gerald 
desdenharia a existncia da morte e atravessaria a corrente a nado com a montada, e entraria em 
Tara vociferando a plenos pulmes. Como costumava fazer em ocasies semelhantes, Pork estaria  
sua espera no vestbulo, com o candeeiro aceso, a fim de o conduzir at ao, sof do escritrio onde 
ele passaria o resto da noite, depois de mudar de roupa. 
0 fato, cinzento que acabava de estrear ficaria completamente inutilizado. E, no dia seguinte, aps 
uma srie de imprecaes violentas, Gerald, explicaria minuciosamente  mulher como, ao 
atravessar a ponte sobre o rio Flint, o cavalo cara  gua, arrastando-o a ele na queda. Graas a esta 
mentira, que no iludiria ningum, mas em que todos 
#
111 
fingiriam acreditar, GeTald ficaria com a iluso de ter dado provas de uma esperteza pouco vulgar. 
"Pobre pai", pensou Scarlett, num assomo de ternura, "que delicioso egosta tu s! No -se pode 
levar-te nada a mal" . Sentia-se to comovida, to feliz, nessa manh que neglobava o mundo inteiro 
no seu afecto, juntamente com Cerald. Era bonita e tinha conscincia disso. AshIey pertencer-lhe-ia 
antes que as trevas da noite voltassem a descer sobre a terra. 0 Sol irradiava sobre os campos uma 
luz suave e tpida, e a Primavera da Gergia exibia perante os olhos sonhadores de Scarlett todo o 
esplendor dos seus encantos. Ao longo das bermas da estrada as silvas dissimulavam sob o seu 
manto de verdura tenra os sulcos avermelhados abertos pelas chuvas hibernais, e os blocos de 
granito semeados nos barrancos de terra rubra cobriam a sua nudez com os rebentos novos das 
roseiras, enquanto  volta o solo se juncava de violetas bravas, duma delicadssima tonalidade roxa. 
Na outra margenido rio, nas colinas coroadas de densos bosques, as flores brancas das alfenas 
recortavam largas manchas cintilantes, como se a. neve ainda permanecesse entre a vegetao das 
lombadas. As macieiras em flor faziam lembrar paletas gigantescas, onde as tintas iam desde o 
branco mais difano ao cor-de-rosa mais intenso e, sobre o vasto tapete de caruma que se 
desdobrava em torno dos pinheiros, destacavam-e os tufos garridos das madressilvas, em 
magnficos cambiantes escarlates, rseos e alaranjados. Soprava uma brisa leve ' lmpr egnada da 
fragrncia discreta dos arbustos, que fazia crescer a gua na boca, como se a terra e as rvores e as 
flores fossem um manjar apetitoso. 
"Jamais esquecerei a beleza deste dia" 'pensou Scarlett. "Talvez seja o dia do meu casamento!" 
E, com o corao a palpitar num ritmo mais acelerado, viu-se acompanhada por AshIey galopando a 
toda a brida atravs duma paisagem deslumbrante, de botes recentemente desabrochados, de 
rebentos viosos e prados verder jantes, seguidos pelos ltimos raios do sol-poente ou pela fria 
claridade da Lua e das estrelas, a caminho de Jonesboro e em busca dum sacerdote que os casasse. 
Evidentemente, tornar-se-ia necessrio que o padre de Atlanta abenoasse a unio, mas isso podia 
ficar para mais tarde e era um assunto que, verdadeiramente, dizia mais respeito a Ellen e a Gerald 
do que a eles. Estremeceu, ao pensar no 
112 
desgosto que a me no deixaria de sentir quando soubesse que ela tinha fugido com um homem 
que estava noivo de outra. No entanto, tinha a certeza de que Ellen lhe perdoaria, quando visse 
como ela era feliz. 'Quanto a Gerald, apesar das inevitveis manifestaes ruidosas atravs das quais 
daria largas ao seu desagrado pelo procedimento da filha, e no obstante o que ainda na vspera lhe 
dissera acerca de AshIey, sentir-se-ia profundamente lisonjeado ao ver que aquela aliana iria 
estreitar ainda mais os laos de amizade que ligavam as duas famlias. 
"Tenho muito tempo para me preocupar com isso depois do casamento", dizia Scarlett de si para si, 
disposta a afastar da mente tudo quanto fosse susceptvel de a incomodar. 
0 calor do Sol, a beleza da Primavera, as chamins dos Doze Carvalhos que principiavam a 
despontar na colina do outro lado do rio faziam com que fosse impossvel experimentar outra 
sensao que no a de uma alegria esfuziante. 
"Hei-de moi-ar ali toda a minha vida. Verei cinquenta Primaveras como esta, ou talvez mais ' e 
descreverei aos meus filhos e aos meus netos a beleza sem par desta manh". 
Ficou to radiante com a ideia que, inconscientemente, acompanhou o pai nas ltimas estrofes da 
Verde Erin, o que lhe valeu os aplausos veementes de Gerald. 
-No sei por que razo te mostras to contente esta manh - observou Suellen, mal humorada, pois 
continuava persuadida de que o vestido verde de baile, de Searlett, lhe ficaria melhor a ela do que  
sua legtima proprietria. Por que diabo seria a irm assim to egosta, que sempre se recusava a 
emprestar-lhe os vestidos? E por que seria tambm que a ama fazia sistematicamente coro com 
Scarlett, afirmando que o verde no condizia cgm a sua cor? -Tu sabes to bem como eu que ser 
anunciado esta noite o casamento de AshIey com Melanie. 0 pai deu-nos a novidade antes de 
sairmos. E eu bem te tenho visto a fazer-lhe olhos bonitos, nestes ltimos tempos. 
- E no viste mais nada? - repontou Scarlett, deitando a lngua de fora  irm. 
#
Estava disposta a evitar discusses susceptveis de empanar a boa disposio que sentia nesse 
instante e sorriu, ao imaginar a cara que Sue faria no dia seguinte, quando fosse informada da sua 
fuga. 
-No digas disparates, Susie -protestou Carreen, in- 
8 - Vento Levou - 1 
113 
dignada. -Bem sabes que Searlett est mesmo doidinha de to-do por Brent, 
Scarlett contemplou a irm mais nova com olhar sorridente, perguntando a si prpria como podia 
uma criatura ainda to nova evidenciar to nobres sentimentos. Ningum da famlia ignorava que o 
corao juvenil de Carreen pertencia a Brent Tarleton, o qual nunca a olhara a no ser como a irma 
mais nova de Scarlett. Sempre que tinham * certeza de no serem surpreendidas pela me ' 
Suellen * Scarlett entretinham-se a arreliar Carreen com'piadas a respeito dela e de Brent, a ponto 
de a fazerem chorar. 
- Oh, m inha querida, eu no ligo importncia alguma a Brent-declarou Scarlett, to feliz que no 
teve relutncia em se mostrar generosa. - E Brent tambm no se interessa por mim. De ti, sim,  
que ele gosta, mas est  espera que tu cresas. 
Cobriu uma onda de rubor o rosto infantil de Carreen, cuja satisfao lutava por levar a melhor 
sobre a sua incredulidade. 
- Palavra, Scarlett? 
- Scarlett, tu sabes perfeitamente que a mam acha Carreen ainda muito nova para pensar nessas 
coisas, e, apesar disso no te importas e ests a meter ideias tolas na cabea 6 pequena. .-Podes miar 
 vontade que no me aqueces nem me arrefeces - ripostou Sarlett. - 0 que tu queres  que ela se 
convena de que ainda  uma garota, para te deixar o campo livre. Mas, daqui a um ano, Carreen 
ser mais bonita do que tu ' e ento... =Ou vocs se portam com juzo ou trabalha o chicote - 
advertiu Gerald. -Silncio, agora. Parece que estou a ouvir o rodar de uma carruagem. Devem ser os 
Tarletons ou os Fontaines. 
 medida que se aproximavam do local onde a estrada desembocava na que descia das Mimosas e 
de Fairhill atravs dos bosques, iam-lhes chegando aos ouvidos, com cres.cente nitidez, um chiar de 
rodas e um tropel de cavalos. Por trs da densa cortina de rvores elevavam-se vozes aWadveis, de 
mulheres. Gerald esporeou a montada e pa!9sou  frente da carruagem. Ao chegar  encruzilhada, 
imobilizou o ginete e fez sinal ao cocheiro para abrandar o trote da parelha. 
-  a carruagem dos Tarletons - gritou para as filhas, 
114 
com o rosto luzindo de satisfao, pois que, alm de Ellen, no havia em toda a comarca outra 
mulher de quem ele gostasse tanto como da me dos gmeos, com os seus cabelos cor de fogo. -E  
a senhora Tarleton que segura as rdeas. Parece impossvel que uma mulher seja capaz de dominar 
to bem os animais! No h outra com umas mos assim. So delicadas como plumas e fortes como 
o couro cru e to bonitas que  um prazer beij-las. Vocs deviam ter pena de as suas mos no 
serem assim -disse ele, lanando s filhas um olhar afectuoso, mas em que se lia censura muda. - 
Carreen tem medo de tocar num cavalo, Suellen fica sem aco nos dedos quando pega nas rdeas e 
tu, gatinha.... 
- Em todo ocaso 'eu nunca me deixei cair de um cavalo abaixo - acudiu Scarlett, abespinhada. - Ao 
passo que a senhora Tarleton acaba sempre por se espalhar ao comprido em todas as caadas s 
raposas. 
- E suporta as dores como um homem - retorquiu Gerald. - Nem desmaios, nem lgrimas, nem 
dramas. Agora, silncio, que j vm perto! 
Ergueu-se nos estribos e fez um rasgado cumprimento com o chapu ao mesmo tempo que a 
carruagem, conduzida pela senhora Tarleton em pessoa, conforme Gerald tinha anunciado, surgia 
de trs das rvores, transportando um grupo de bonitas raparigas vestidas de cores claras, envoltas 
em vus vaporosos -e ar@nadas de sombrinhas. Com as quatro filhas, a ama e a caixa dos vestidos 
de baile, no havia lugar para o cocheiro. Alis Beatrice Tarleton nunca confiava as rdeas dos seus 
#
caval@s a ningum, nem a pretos nem a brancos, salvo quando andava com algum dos braos ao 
peito. Frgil, de estatura delicada e tez duma alvura tal que dava a impresso de que toda a sua cor 
lhe tinha sido roubada pela massa exuberante da cabeleira ruiva, possua, no entanto, sade de ferro 
e energia inesgotvel. Dera  luz oito filhos, todos eles com os mesmos cabelos ruivos e a mesma 
vitalidade esfuziante. Havia quem dissesse que se ela tinha conseguido educ-los to bem, isso se 
devi@ ao facto de ter empregado para com eles mtodo idntico ao que utilizava na criao de 
potros, deixando-os crescer em liberdade, mas sujeitando-os simultneamente a uma disciplina 
severa. "Dobrar no  partir", tal era a divisa da senhora Tarleton. 
Tributava adorao@aos cavalos e todos os assuntos que 
115 
lhes diziam respeito constituam Para ela motivo do maior interesse. Compreendia os animais e no 
se conhecia ningum na regio que os soubesse criar melhor do que ela. Os potros viviam soltos 
numa vasta cerca erguida no prado fronteiro  casa onde ela morava da mesma maneira que os seus 
oito filhos gozavam de pl@na liberdade adentro da residncia, cheia de recantos e desvos, 
empoleirada no topo da colina. Sempre que ela ia dar uma volta pela propriedade, fazia-se 
acompanhar pelos potros e pelos ces, pelos filhos e pelas filhas, que se lhe precipitavam no 
encalo. A senhora Tarleton afirmava que os cavalos e sobretudo Nellie, a sua gua baia, eram to 
inteligentes como os homens. E, se os afazeres domsticos a retinham em casa  hora a que 
costumava dar o seu passeio quotidiano a cavalo, entregava um aucareiro a um moleque e 
ordenava-lhe: "D meia dzia de torres a Nellie e dize-lhe que no me demoro". 
Salvo em raras ocasies, o seu traje habitual era o de montar, pois, quer tencionasse andar a p ou 
de carruagem, precisava de estar pronta a, saltar para a sela de um instante para outro. Por isso 
achava prefervel envergar o fato de amazona, assim que se levantava. Quer chovesse, quer fizesse 
sol, Nellie era arreada logo de manhzinha e ficava passeando para trs e Para diante,-em frente da 
casa, at que a dona lhe pudesse consagrar uma hora de ateno. Fairhill era uma propriedade que 
dava imenso trabalho e por isso os momentos de cio escasseavam deveras. A maioria das vezes, 
Nellie passeava horas e horas a fio sem a dona, enquanto Beatrice Tarleton se atarefava daqui para 
ali e dali para acol com a, cauda da sala no brao e as pernas cerradas at @os joelhos nas suas 
reluzentes botas de montar. 
Nessa manh, trazia um vestido preto, de seda, que enfiara desajeitadamente sobre a saia de 
crinolina, e, na cabea, um chapu tambm preto, ornado de pluma comprida, com a aba derrubada. 
sobre os olhos irrequietos;, apesar disso dava a impresso de trajar da mesma forma o seu f@rto 
h@b!tual de amazona, pois o vestido era estreito, sem roda, talhado segundo um figurino antigo, e 
at porque o chapu constitua uma rplica exacta do que ela costumava levar  caa, 
Brandiu o chicote ao avistar Gerald e fez estacar a parelha de cavalos, que caracoleavam. As quatro 
raparigas, que 
116 
viajavam comprmidas no banco traseiro debruaram-se para fora da carruagem e saudaram Gerld 
O'Hara e as filhas com exclamaes to estridentes que os animais se empinaram, assustados. A 
avaliar pelo jbilo manifestado de parte a parte, dir-se-ia que os Tarletons e os O'Haras no se viam 
h muitos anos, ms a verdade  que ainda dois dias antes as duas famlias tinham estado reunidas. 
As filhas da senhora Tarleton eram deveras sociveis e adoravam os vizinhos, especialmente as 
duas O'Haras, Suellen e Carreen pois que, salvo a possvel excepo da desmiolada Cathleen 
'dalvert, no se encontraria em toda a comarca uma s rapariga que gostasse verdadeiramente de 
Scarlett. 
Durante o Vero era raro passar-se uma semana sem que num ponto ou o@tro daquela regio 
houvesse um piquenique seguido de baile, mas, para as quatro Tarletons, que pareciam possuir 
capacidade inesgotvel de se divertirem, cada piquenique e cada baile constituam acontecimento 
importantssimo na sua vida, como se nunca tivessem assistido a nenhum do gnero, Bonitas e 
elegantes, formavam um quarteto encantador, apertadas no banco de trs da sege, cujo interior 
quase desaparecia sob as saias franjadas, de crinolina. Por cima da cabea delas, protegida do calor 
#
do Sol por largos chapus de palha atados sb o queixo com laos de veludo preto e ornamentados 
de rosas, entrechocavam-se as sombrinhas de renda. As cabeleiras que se abrigavam sob as abas do 
chapu formavam como que um mostrurio vivo de tonalidades ruivas, em que, juntamente com os 
cabelos fulvos de Hetty, se alinhavam os de Camilla, louros com reflexos purpreos, os de Randa 
castanhos claros, com fulgncias acobreadas, e os da peq@ena Betsy, que tinha uma cor anloga  
da cenoura crua. 
- Que lindo ramalhete a leva, senhora Tarieton - disse Gerald, com galantaria, refreando o trote do 
cavalo de forma a poder acompanhar o andamento da carruagem. - No entanto, ainda lhe falta muito 
para fazerem sombra  me. 
A senhora Tarleton rolou os olhos nas rbitas e mordeu comicamente o lbio inferior, enquanto as 
filhas exclamavam, divertidas: 
- Mam, faa favor de acabar com esse namoro, se no quer que contemos tudo ao pap. 
E, voltando-se para Gerald acrescentaram a rir: --P, como v^, senhor O'H@ra. A nossa me roubanos 
117 
todas as oportunidades sempre que nos aparece  frente um homem simptico corno o senhor. 
Scarlett riu tambm, embora a chocasse a liberdade com que as filhas tratavam a me. Era corno se 
fossem todas da mesma idade e nenhuma tivesse ultrapassado ainda os dezassete anos. S a ideia de 
dizer coisas corno aquelas a Ellen se afigurava a Scarlett um autntico sacrilgio. E, no entanto... 
havia algo de enternecedor nas relaes da senhora Tarleton com as filhas, as quais, apesar de todas 
as ,crtkas, de todas as piadas e remoques com que constantemente a mimoseavam, mostravam ter 
pela, me verdadeira adorao. No que ela preferisse trocar Ellen pela senhora Tarleton, disse 
Scarlett de si para si, numa espontnea afirmao de lealdade para com a autora dos seus dias; 
contudo devia ser divertido manter com a me uma camaradagem que permitisse intimidades 
daquela natureza. Scarlett sabia que tal ideia representava, por si s, falta de respeito para com Ellen 
e envergonhou-se desse pensamento. Tinha a certeza de que semelhantes escrpulos jamais haviam 
causado preocupao s conscincias que viviam sob aquelas cabeleiras fulvas que mais pareciam 
tochas ardentes. E, como era vulgar acontecer sempre que ela se sentia diferente das outras 
raparigas, experimentou uma perplexidade irritante. 
Embora fosse dotada de raciocnio rpido, faltava-lhe o dom da anlise; no obstante, tinha a vaga 
impresso de que, apesar de as Tarletons serem indomveis como potros e selvagens como lebres na 
Primavera todas ela@ eram caracterizadas por uma ingenuidade naa, hereditria. Os seus avs, 
maternos e paternos, tinham nascido na Gergia Setentrional, e haviam pertencido  gerao que 
herdara a terra directamente dos pioneiros que a tinham desbravado. Mostravam-se senhoras de si e 
do ambiente em que decorria a sua existncia. Sabiam instintivamente aquilo que procuravam na 
vida, da mesma maneira que sucedia com os Wilkes, dos quais, no entanto divergiam em muitos 
pontos, e ignoravam os conflitos que' frequentemente se travavam em Scarlett, em cujas veias corria 
o sangue duma aristo~ crata do litoral, culta e delicada, misturado com o dum campnio irlands, 
impulsivo e rude. Scarlett queria res~ peitar a me e ador-la como a um dolo, e s vezes sentia 
desejo enorme de a degpentear ou de a arreliar, por brincadeira. Aquelas duas facetas do seu 
carcter eram incon- 
118 
ciliveis, no podiam coexistir, nem que fosse por momentos. Sempre que uma se manifestava, a 
outra como que desaparecia. Este mesmo complexo emocional to depressa a impelia a assumir 
para com os rapazes a atitude de uma donzela ingnua como a tomar os ares de menina leviana, que 
se deixa beijar facilmente. 
- A sua mulher no vem? - perguntou a senhora Tarleton. 
- No. Despedimos o nosso capataz esta manh e ela ficou em casa a fim de fazer contas com ele. E 
o seu marido e os seus filhos, que  feito deles? 
-Oh j devem estar nos Doze Carvalhos h muito tempo! I@artiram para l de manh cedo a fim de 
prova, rem o ponche, no fosse ele ter ficado fraco demais! Como se at amanh de manh no 
tivessem tempo de o fazer! Desta vez, tenciono pedir a John Wilkes que os deixe passar a noite l 
#
em casa, nem que seja na cavalaria, se no houver outro stio melhor. Cinco homens embriagados 
so demais para mim. Com trs,ainda eu me aguento, mas... 
Gerald apressou-se a mudar o rumo da conversa. Tinha a certeza de que as filhas fariam troa dele, 
ao recordar-se do lindo estado, em que voltara dos Doze Carvalhos, por ocasio da ltima festa a 
que l tinha ido, no Outono anterior. 
-Por que no veio a cavalo, senhora, Tarleton? A senhora  um verdadeiro Estento@; sem Nellie, 
nem parece a mesma pessoa. 
- Imaginem, eu, um Estentor! -exclamou a senhora Tarleton, arremedando o sotaque do seu vizinho. 
-Nunca o supus to ignorante, senhor O'Hara. Centauro ,que o senhor queria dizer. Estentor era um 
homem cuja voz soava como um gongo de bronze. 
1 -Estentor ou Centauro  a mesma coisa, -redarguiu Gerald, sem se atrapalhar. -Alis, a senhora 
podia muito bem ser um Estentor, pois que a sua voz vibra bastante quando incita perdigueiros, nas 
batidas. 
-Ora f ique-se l com essa, mam! - interveio Hetty. -Eu bem lhe dizia que a me grita como um 
comanche quando avista uma raposa... 
- P, impossvel, mas podes ter a certeza de que no grito tanto como tu quando a criada te lava as 
orelhasripostou a senhora Tarleton. - Devias envergonhar-te de fazer cenas dessas, com dezasseis 
anos. E agora, senhor 
119 
O'11ara, deixe-me explicar-lhe que, se no vim a cavalo, foi porque Nellie pariu esta madrugada. 
-Palavra? -exclamou Gerald, vivamente interessado, deixando transparecer nos seus olhos brilhantes 
a paixo que, como bom irlands, tinha pelos cavalos. 
De novo Scarlett comparou a me com a senhora Tarleton e uma vez mais sentiu a mesma estranha 
sensao de constrangimento. Para Ellen, nem as guas nem as vacas pariam, nem as galinhas 
punham ovos. Eram acontecimentos que ela parecia ignorar. A senhora Tarleton, porm, no usava 
reticncias. 
- Uma guazinha, no? 
- No, um lindo pGItro de pernas compridas, quase com dois metros de altura. No deixe de ir vlo, 
senhor O'Hara.  um verdadeiro cavalo Tarleton. Tem o plo ruivo como o cabelo de Hetty. 
- E at se parece com ela - observou Camilla, que imediatamente se submergiu gritando, num 
turbilho de saias, pantalonas e chapus de palha, enquanto Hetty, cujo ro,sto era alongado, a 
beliscava impiedosamente. 
- As minhas quatro jumentinhas esto demasiadamente excitadas esta manh - disse a senhora 
Tarleton. - No tm feito outra coisa seno bater os cascos, desde que souberam do prximo 
casamento de AshIey com a prima de Atlanta. Como se chama ela? Melanie. Que Deus a abenoe,  
uma verdadeira simpatia, Mas, no sei porqu, nunca me lembro do nome nem da cara dela. A 
gorducha da nossa cozinheira  a mulher do copeiro dos Wilkes, o qual esteve ontem em nossa casa 
e contou que o casamento seria anunciado oficialmente logo  noite. As minhas filhas ficaram muito 
admiradas, mas ainda no consegui perceber porqu. Toda a gente sabia h muito tempo que 
AshIey casaria com ela, a no ser que preferisse desposar uma das suas primas Burrs, de Macon, da 
mesma maneira que se sabe que Honey Wilkes casar com Charles, irmo de Melanie. Sempre 
go@taria que me explicasse, senhor O'Hara, a razo por que os Wilkes no casam- seno com 
primos e primas. Estaro eles proibidos de casar com outras pessoas? Porque, se esto... 
Searlett no ouviu o resto do comentrio da senhora Tarleton, a qual rematou a frase com uma 
gargalhada alegre. Por momentos, teve a impresso de que o Sol havia desaparecido atrs duma 
nuvem negra, deixando a Terra mergulhada numa semiobscuridade, roubando o colorido  
120 
paisagem. Os rebentos dos arbustos, as ramagens dos noveleirQs e as flores das macieiras, cujo 
vio, ainda poucos segundos antes se quedara a admirar, pareciam ter amarelecido de um instante 
para outro. Scarlett cravou as unhas no estofo do banco e a mo que eITIDunhava a sombrinha 
estremeceu momentneam ente. Uma coisa era saber que Astiley estava noivo de Melanie, outra 
#
coisa as observaes acidentais dos vizinhos acerca do caso 'Mas de sbito, sentiu renascer a 
coragem, e o Sol vltou a bril@ar e os campos retomaram o seu encanto. Sabia que Ashley a 
amava. Tinha 
* certeza. E aflorou-lhe um sorriso aos lbios, ao imaginar 
* surpresa da senhora Tarleton quando ouvisse anunciar, no um noivado, mas sim uma fuga que 
ningum previra. E, ento, a senhora Tarleton contaria s pessoas amigas a conversa que nessa 
manh tivera com Gerald O'Hara e como Scarlett escutara sem pestanejar as referncias que ela 
fizera a Melanie Hamilton, embora j tivesse certamente combinado com Ashley ... Os lbios 
entreabriram-se-lhe num sorriso prazenteiro e as covinhas das faces cavaram-se-lhe ainda mais 
fundas. Hetty, que a mirava atentamente, a fim de observar o efeito produzido pelas palavras da 
me sobre ela, recostou~se no banco da sege, intrigada. 
-No me iii teressa o que o senhor pensa - argumentava a senhora Tarleton, acaloradamente. -Os 
casamentos entre primos nunca do resultado, J no acho bem que Asliley-case com Melanie, mas 
pode crer que ainda ser muito pior se Honey cair na patetice de querer para marido esse desbotado 
do Charles Hamilton. 
-Honey no conseguir encontrar outro homem que esteja disposto a casar com ela-declarou Randa, 
que, segura dos seus encantos fsicos, no tinha pejo de se mostrar cruel. - Charles Hamilton foi o 
primeiro pretendente que lhe apareceu e creio que ser o ltimo. Apesar de estarem noivos h tanto 
tempo, a verdade  que Charles parece ter pouca pressa de dar o n. Lembras-te Scarlett, da maneira 
como ele andou atrs de ti, no Natal de ano passado? 
- No seja intrigante, menina - repreendeu a me. - 
Os primos no devem casar-se entre si porque isso provoca o enfraquecimento da raa, No  como 
os cavalos. Uma pessoa pode acasalar uma gua com um irmo, ou um cavalo com a filha pois que, 
se conhecermos bem a sua linhagem, sempre l@ possibilidade de obtermos bons resultados. Mas 
com a gente  muito diverso. Poderemos con- 
121 
seguir exemplares de bom aspecto, mas de constituio dbil. 0 senhor bem sabe... 
-Desculpe, mas no estou de acordo. ]@ capaz de me apresentar uma raa melhor que a dos 
Wilkes? E h sculos que se casara com os primos e com as primas. 
- Mas  tempo de pararem, pois que j comeam a aparecer certos sintomas alarmantes. No me 
refiro a AshIey, que  uma jia de rapaz, embora, enfim... Mas repare nas irms dele. Quase no 
tm fora para se aguentarem de p. So bonitinhas,  certo, mas andam sempre to plidas, 
coitadas! E olhe para Melanie Haihilton, magra que nem um arenque e to fraquinha que uma 
pessoa chega a ter medo que o vento a parta pelo meio. E sem personalidade. Parece que no tem 
ideias prprias. "No, senhora! Sim, senhora!"  tudo o que ela sabe dizer. Est a ver aonde eu 
quero chegar? A famlia precisa de sangue novo, de sangue jovem e forte como o das minhas 
cabecinhas ruivas ou o da sua Scarlett. Vejamos se nos compreendemos, senhor O'Hara. No meu 
entender, os Wilkes so riqussimas pessoas, no seu gnero e o senhor bem sabe que eu simpatizo 
bastante com todo@ eles. Mas, falando com toda a sinceridade, no os acha um tanto ou quanto 
esquisitos? So pessoas extraordiririamente cultas, que aliam aos primores da sua educao uma 
reserva sem limites, mas falta-lhes qualquer coisa. So capazes de ganhar uma corrida de cavalos, 
numa pista plana e seca, mas, se for em terreno acidentado e lamacento, duvido que consigam 
chegar entre os dez primeiros. Perdem todo o vigor e, numa emergncia, no sero capazes de 
transpor os obstculos que porventura lhes surjam pela frente. I@ uma raa que s poder vingar 
com tempo seco. Quanto a mim, prefiro os cavalos que sabem adaptar-se s circunstncias e que 
no receiam correr sejam quais forem as condies atmosfricas.  fora de se cqsarem com os 
primos acabaram por se tornar diferentes de todos os vizinhos, Passam a vida sentados ao piano, ou 
mergulhados na leitura de alfarrbios. Estou convencida de que AshIey gosta mais de ficar em casa 
a ler um livro do que tomar parte numa batida de raposas. P, como lhe digo, senhor O'Hara! E, 
seno, repare como so franzinos. Precisam de cruzamentos com animais robustos.... 
- Hum... - pigarreou Gerald, apercebendo-se de sbito que o rumo que a conversa acabava. de 
#
tomar, embora o interessasse profundamente, desagradaria a Ellen. Sabia 
122 
que a mulher ficaria desgostosa se descobrisse que as filhas haviam assistido a um dilogo to 
prosaico. 
A senhora Tarleton, porm, no lhe deu ouvidos. Ninguem lograva faz-la calar-se, uma vez que 
tivesse aflorado o seu tema predilecto - o da criao - quer se tratasse de cavalos ou de pessoas. 
- Falo com conhecimento de causa, pois tive primos que se casaram com primas e os resultados 
foram desastrosos. Os filhos nasceram todos com os olhos -salientes' como os sapos, pobres 
crianas. Houve uma altura em que os meus pais se lembraram de me casar com um primo em 
segun !o grau, mas eu barafustei, opondo-me terminantemente  ideia, Ainda me recordo de ter dito: 
"No, minha me, no pense nisso. No quero que os meus filhos tenham esparaves". A minha 
me desmaiou ao ouvir-me falar em esparaves, mas eu no cedi e a minha av ' que estava bem 
enfronhada em questes de criao de cavalos, deu-me razo e defendeu-me at  ltima. Foi ela 
que preparou a minha fuga com Tarleton. Agora, olhe para os meus filhos. So altos, robustos e 
escorreitos. Nenhum deles saiu franzino ou ano, conquanto Boyd mea apenas um metro e sessenta 
e cinco de altura. E veja os Wilkes... 
-E se mudssemos de assunto, senhora Tarleton?sugeriu Gerald bruscamente, ao surpreender o 
olhar intrigado de Carreen e a expresso de curiosidade patente na fisionomia de Suellen. 
Receava que as filhas, quando regressassem a casa, comeassem a, fazer perguntas embaraosas  
me, atravs das quais revelariam aos olhos de Ellen a incompetncia dele para lhes servir de pau de 
cabeleira. Scarlett parecia absorta noutros pensamentos, conservando uma atitude distante, senhoril, 
o que em parte o reconfortou. 
Hetty Tarleton veio inconscientemente em seu auxlio. 
- Por amor de Deus, mam, vamo,-nos embora! - exclamou com impacincia. -0 sol escalda e, se 
continuamos aqui mais tempo parados, ficarei com o pescoo coberto de sardas. 
- Um momento s, senhora Tarleton antes que nos punhamos novamente em marcha - diss@ 
Gerald. - Que resolveu sobre a venda de cavalos para o Regimento? A guerra pode rebentar de um 
momento para outro e OS rapazes gostariam de saber ao certo aquilo com que podem contar. Tratase 
dum esquadro de recrutas da comarca de 
123 
Clayton, e seria interessante que ns lhe distribussemos animais tambm criados na regio. Mas a 
senhora, obstnada como , tem-se recusado a vender-nos as suas esplndidas montadas, 
-Talvez no chegue a haver guerra-objectou a senhora Tarleton, para ganhar tempo. 
J esquecera completamente os Wilkes: e os seus estranhos hbitos matrimoniais. 
-No diga uma coisa dessas, minha senhora. Bem v que... 
- Oua ' mam- interrompeu Hetty novamente-no seria possvel tratarem desse assunto nos Doze 
Carvalhos? Sempre estariam mais  vontade do que aqui no meio da estrada, ao -sol... 
- Tem razo, menina - concordou Gerald. - No as reterei mais do que um minuto. No tarda que 
cheguemos aos Doze Carvalhos, e, assim que nos virem aparecer, todos os homens, moos e velhos, 
nos cairo em cima para saberem o que h a respeito dos cavalos. Palavra que me custa ver uma 
criatura to sensata como  a sua me mostrar-se to avarenta por causa dos animais. Que  feito do 
seu patri<:>tismo, senhora Tarleton? No acredito que a ConfederaG seja letra morta para si... 
- Mam! - protestou a pequena Betsy. - Randa sentou-se em cima do meu vestido e agora tenho a 
saia toda amarrotada. 
-Obriga a tua irm a levantar-se e cala-te! E, agora,, preste ateno, Gerald O'Hara -replicou ela, 
batendo as plpebras. - Essa histria de me lanar a Confederao em rosto  um truque indecente. 
0 senhor sabe bem o que a Confederao representa para mim tanto ou mais do que para si. 
Lembre-se de que tenho os meus quatro filhos alistados ao passo que o meu caro vizinho no tem 
nenhum. No entanto,  preciso notar que os meus. rapazes sabem tomar conta de si, o mesmo j no 
podendo eu dizer dos cavalos. D-los-ia de bom grado, se tivesse a certeza de que seriam montados 
por moos meus conhecidw, habituados a lidar com animais de raa. Nesse caso, no hesitaria um 
#
momento e, em vez de os vender, oferec-los-ia gratuitamente. Mas deix-los  merc de caadores 
furtivos ou de campnios que nunca montaram seno jumentos, isso nunca! Nem dormiria 
descansada, s de pensar que ningum saberia fazer-lhes os curativos necessrios sempre 
124 
que se ferissem. Julgava-me capaz de consentir que os meus queridos animais, de bc@ to 
sensvel, fossem distribudos a idiotas que os deixariam a sangrar e que os chicoteariam sem d nem 
piedade at eles nem atinarem com o caminho? J estou toda arrepiada, s de me lembrar disso. 
No, senhor O'Har, fico-lhe muito grata pela sua ideia, mas creia que o melhor que tem a fazer  ir 
at Atlanta comprar pilecas para os seus recrutas. Ver que eles nem sequer notaro a diferena. 
- Mam, vamo-nos embora, por favor! -disse Camilla, juntando os seus protestos impacientes aos 
das irms. - 
A me sabe muito bem que, seja de que maneira for, acabar por ceder os seus pobres animais. 
Quando o pap e os manos principiarem a dizer que o Regiment<> precisa deles, a mam debulharse- 
 em lgrimas, mas entreg-los-. 
A senhora Tarleton fez uma careta e sacudiu as rdeas. 
- Jamais farei tal coisa - assegurou ela 'aflorando o plo dos animais com a ponta do pingalim. 
A carruagem ps-se em marcha, rapidamente. -]5@, uma mulher estupenda-disse Gerald, pondo o 
chapu na cabea e retomando o seu lugar, junto  portinhola da sege.-Vamo,-nos embora Toby. 
Tanto havemos de a maar que ela acabar por @eder. No entanto, no deixa de ter certa razo. Se 
um homem no estiver habituado a montar, apenas servir para dar cabo dos cavalos e, ento seria 
melhor que o pusessem na infantaria. Mas, seguind@ esta ordem de ideias, tambm nG 
encontraremos, na comarca cavaleiros em nmero suficiente para formar um esquaro. Que achas 
` gatinha? 
-Acho que o pap devia passar para a frente da carruagem ou deixar-se ficar um pouco para trs. 
Levanta uma poeirada to grande que ns vamos aqui quase sufocadas-respondeu Scarlett, que se 
sentia incapaz de lhe prestar ateno. 
Se continuasse a tagarelar, no conseguiria concentrar os pensamentos e ela precisava de pr as suas 
ideias em ordem e de compor a fisionomia, de modo, a chegar aos Doze Carvalhos com uma 
expresso serena e atraente estampada no rosto. Gerald obedeceu. Esporeou o caval<> e afastou-se 
a galope, envolto numa nuvem de poeira vermelha, em perseguio da carruagem da senhora 
Tarleton, a fim de prosseguir a discusso interrompida. 
125 
a 
A CARRUAGEm atravessou o rio e subiu a colina. Antes de avistar a majestosa residncia dos 
Doze Carvalhos, Scarlett divisou uma nuvem de fumo que se espreguiava sobre a copa das rvores 
e aspirou os aromas inconfundveis que se exalavam dos troncos de nogueira queimados e dos 
carneiros e porcos a assarem no espeto. 
As fogueiras para a espetada tinham ficado acesas desde a noite anterior e deviam estar agora 
transformadas em largos montes de cinzas duni cor-de-rosa avermelhado, sobre as quais rodavam 
lentamente nos espetos diversas reses, cuja gordura derretida escorria em grossas gotas para o lume, 
fazendo chiar as brasas. Scarlett sabia que o cheiro trazido pela brisa leve que soprava provinha do 
denso souto de carvalhos que se erguia nas traseiras do solar, ao cimo da encosta do outeiro, a qual 
descia suavemente at a um roseiral umbroso. Era ali que John Wilkes costumava fazer os 
piqueniques, aproveitando a sombra das rvores e a beleza do stio, bastante mais agradvel do que 
o local em que os Calverts habitualmente organizavam as suas festas ao ar livre. A senhora Calvert 
detestava o odor da carne assada, que, segundo dizia, se entranhava por mveis e nos cortinados e a 
perseguia durante vrios dias. Por isso, desterrava os convidados para um descampado, a quinhentos 
metros de distncia, onde eles ficavam expostos s ardncias solares, sem um abrigo onde se 
refugiarem do calor. Mas John Wilkes, famoso em toda a regio pela sua hospitalidade, assistia a 
todos os preparativos e tomava as providncias necessrias para que os seus convivas pudessem 
desfrutar as melhores comodidades. 
#
As longas mesas armadas sobre cavaletes e recobertas de toalhas de linho, que os Wilkes: 
guardavam especialmente para aquelas ocasies, eram sempre montadas nos stios mais frescos e 
sombrios. De um lado e de outro, alinhavam-se bancos sem espaldar e, para aqueles que no se 
acomodavam nisso encontravam-se profusamente espalhados pelas clareira; tamboretes estofados, 
almofadas e cadeiras elsticas. A uma distncia suficiente para que a fumarada no incomodasse os 
convidados, estavam dispostos os espetos em que as reses eram assadas, bem como as tripeas de 
ferro que suportavam os enormes caldeires, 
126 
donde emanava o cheiro apetitoso dos guisados. Uns doze moleques, propositadamente treinados 
para aquele traba" lho, andavam numa roda-viva de um lado para outro, transportando IJratos e 
travessas para servirem os convivas. A retaguarda do celeiro preparava~se sempre outra espetada, 
que se destinava aos criados e cocheiros dos hspedes, os quais se regalavam com broas de milho, 
nhames e tripas de porco, de que os pretos so to grandes apreciadores e, quando na poca 
prpria, com suculentas melancias que lhes matavam a sede. 
Searlett aspirou, deliciada, o aroma da carne de porco ,usada que a aragem lhe trazia s narinas e fez 
votos por que j lhe tivesse voltado o apetite quando os moleques a levassem para a mesa. Naquele 
momento, tinha o estmago to cheio e o espartilho to apertado que receava arrotar, o que seria 
uma calamidade, visto que s as pessoas de idade podiam faz-lo sem incorrer na reprovao geral 
das testemunhas. 
Ao atingirem a lomba da colina, a vasta moradia de paredes brancas surgiu-lhes diante dos olhos. 
Era uma construo perfeitamente simtrica, guarnecida de altas colunas e varandas lar-as com o 
tecto plano que parecia possuir estranha belez@, a beleza duma muffier to compenetrada da sua 
formosura que pode prodigalizar a todos a sua generosa graciosidade. Scarlett gostava mais do solar 
dos Doze Carvalhos do que da sua prpria casa, pois aquele possua um encanto majestoso, uma 
dignidade suave que em Tara no encontrava. 
Ao longo da alameda,, que descrevia uma curva larga antes de chegar ao alpendre da residncia, 
aglomeravam-se carruagens e cavalos de sela. Os convidados apeavam-se rapidamente, 
cumprimentando os amigos e vizinhos. Os moleques, entusiasmados como . sempre que os senhores 
davam uma festa, conduziam, com um sorriso nos lbios, os animais para a cavalaria, a fim de os 
despojar dos arreios ou das selas. Em verdadeiros enxames, as crianas, brancas e de cor soltavam 
gritos estridentes, corriam velozmente sobre o relvado fresco, brincavam aos quatro cantinhos, 
saltavam o eixo, desafiavam-se mutuamente para ver quem comeria mais. 0 imenso vestbulo, que 
atravessava a casa em todo o seu comprimento, regurgitava de convidados. Quando a carruagem 
dos O'Haras se deteve em frente dos degraus de entrada, Scarlett pde ver dezenas 
127 
de raparigas, com as suas saias de crinolina irrequietas como borboletas, subindo ou descendo as 
esca&s que levavam ao segundo andar. Enlaadas pela cintura, paravam para se debruarem sobre o 
corrimo suportado por finos balastres, rindo ou inbrometendo-se com os rapazes que passavam no 
trio, em baixo. 
Atravs das largas janelas abertas de par em par, viu de relance alguns grupos de senhoras mais 
idosas, sentadas na sala de visitas. Muito circunspectas nos seus vestidos de seda, de cores discretas, 
abanavam-se com o leque, contavam umas s outras as mais recentes proezas dos respectivos 
rebentos, conversavam acerca de doenas, falavam a respeito de casamentos, dando todos os 
pormenores possveis e imaginveis. Equilibrando na palma da mo uma bandeja de prata, o 
mordomo dos Wilkes, Tom, circulava entre os convidados e, cumprimentando e sorrindo, distribua 
copos de refrescos aos rapazes elegantemente vestidos de camisas de linho fino e punhos de renda e 
cales cinzentos ou castanhos. 
A varanda da fachada principal tambm se encontrava repleta de convidados. "Sim", pensou 
Searlett, "devia encontrar-se ali quase toda a populao branca da comarca". Os quatro filhos da 
senhora Tarleton estavam encostados s colunas, juntamente com o pai. Inseparveis como sempre, 
os dois gmeos, Stuart e Brent 'permaneciam lado a lado, enquanto os outros dois@ irmos, Boyd e 
#
Tom, conversavam animadamente com o pai, James Tarleton 'a dois passos de distncia. 0 senhor 
Calvert no abandonava a mulher, certa y,ankee que, aps uma estadia de quinze anos na 
@Gergia, ainda dava mostras de se no sentir completamente  vontade entre os sulistas. Todos a 
tratavam com delicadeza e respeito, pois que tinham pena dela, mas o certo  que ningum se 
esquecera ainda de que a senhora Calvert, alm de ter nascido no Norte, fora inicialmente 
contratada pelo actual marido para lhe tomar conta dos filhos, o que, numa sociedade como aquela, 
constitua um bice intransponvel. Raiford e Cade Calvert estavam junto da irm, a loura Cattileen, 
troando do moceno Joe Fontaine e da sua futura noiva, Sally Munroe, rapariga deveras atraente. 
Alex e Tony Fontaine segredavam aos ouvidos de Dimity Munroe gracejos que a faziam rir at s 
lgrimas. Viam-se famlias vindas de Lovejoy, a quatro lguas de distncia, de Fayetteville e de 
Jonesboro, e algumas provenientes 
128 
at de Atlanta e de Macon, A casa parecia transbordar duma multido barulhenta, cujas vozes se 
confundiam num amlgama sonoro, acima da qual se elevavam de momento a momento risadas e 
exclamaes femininas. 
De p sobre os degraus do alpendre, John Wilkes recebia os convidados, muito aprumado, com a 
cabeleira prateada pelos anos 'irradiando em torno de si uma simpatia inefvel e prodigalizando w 
tesouros da sua hospitalidade, da mesma maneira que, no Vero, o sol da Gergia prodigalizava a 
todos a, riqueza do seu calor. Ao lado do pai, Honey Wilkes, cujo nome de baptismo fora 
substitudo por aquele diminutivo familiar, em virtude do triatamento afectuow que ela dispensava a 
todos indistintamente, desde o seu progen4tor at ao mais humilde trabalhador dos campos, 
saracoteava-se, sorridente, fazendo as honras da casa. 
Honey denunciava abertamente a preocupao doentia de agradar aos homens e a sua atitude 
contrastava vivamente com o porte sereno e digno do pai. Scarlett pensou que, vistas bem as coisas, 
talvez existissem alguns foros de verdade nas palavras da senhora Tarleton. No havia dvida de 
que, na famlia. dos Wilkes, os homens eram muito mais perfeitos do que as mulheres. As pestanas, 
louras e espessas que emolduravam os olhos cinzentos de John Wilkes, encontravam-se reduzidas a 
meia dzia de plos descorados nas suas* duas filhas Honey e India. Os olhos de Honey lembravam 
os dum c@elho e, quanto a India, o seu aspecto s poderia ser qualificado de insignificante. 
India no aparecia em pai-te nenhuma, mas Scarlett calculava que ela estivesse na cozinha, dando 
as ltimas instrues  criadagem. "Pobre India", disse Scarlett de @si para si, "vive to atarefada 
com a lida da casa, desde que lhe morreu a me, que nunca mais conseguiu arranjar outro namorado 
alm de Stuart Tarleton. E eu no tenho culpa de que Stuart me preferisse a ela". 
John Wilkes desceu os degraus para oferecer o brao -a Scarlett. No momento em que se apeava, 
Scarlett surpreendeu Suellen a fazer sinalefas na direco do vestbq1o e chegou  concluso de que 
a irm j tinha avistado Frank Kennedy no meio da multido. 
"Eu at me matava se no arranjasse outro pretendente melhor do que essa, solteirona de calasr", 
pensou Scarlett, enquanto recompensava John Wil---kes com um sorriso de agradecimento. 
9 - Vento Levou - I 
129 
Frank Kennedy adiantou-se para ajudar Suellen a descer da carruagem. A rapariga tomou um ar to 
superior que Scarlett sentiu ganas de a esbofetear. Frank Kennedy podia muito bem ser o maior 
proprietrio da comarca e possuir um belssimo corao, que isso no o impedia de ter j quarenta 
anos. Usava uma barbicha cor de gergelim que lhe dava aspecto patusco, e aliava ao seu nervosismo 
constante e  sua extrema magreza as maneiras frvolas duma solteirona, que provocavam no 
esprito das pessoas com quem ele tratava uma impresso desfavt>rvel. Contudo, Scarlett 
recordou-se do plano que havia traado na vspera e, dissimulando a sua antipatia, lanou a Frank 
Kermedy um olhar provocante que o fez estacar aturdido, ficando com o brao estendido na 
direco de Sellen. e os olhos deslumbrados fixos no rosto dela. 
Respondendo distraidamente s perguntas, que John W11kes lhe fazia acerca do motivo que 
retivera Ellen em Tara, Scarlett debalde tentou descobrir AshIey entre a multido de convidados 
#
que se acotovelavam no vestbulo. A sua passagem, os rapazes conhecidos gritavani-lhe bons dias e 
Stuart e Brent Tarleton correram ao encontro dela. As duas irms Muriroes precipitaram-se para lhe 
admirarem o vestido, soltando ruidosas exclamaes de surpresa e no tardou que Searltt se visse 
rodeada dum circulo de pessoas que se esforavam por falar mais alto do que, todas as outras, a fim 
de fazerem ouvir a voz acima do barulho enorme que enchia a sala. 
Apenas AshIey no aparecia. Nem ele, nem Charles, nem Melanie. Onde estariam metidos? 
Disfaradamente, de maneira a no trair a sbita inquieta@o que a invadira, Scarlett passeou o 
olhar em torno de si, inspeccionando as profundezas do vestbulo, onde se encontrava reunido um 
grupo de gente nova, a conversar animadamente. 
Enquanto ria e tagarelava, ia relanceando a vista pelo interior da casa e pelo ptio anexo, em busca. 
de Asliley. A certa altura, os olhos pousaram-se-lhe num desconhecido, que, isolado a um canto do 
vestbulo, a fitava com insolncia. Scarlett experimentou uma sensao estranha, misto de 
satisfao, como toda a mulher que se v alva da ateno de um homem, e de constrangimento, por 
sentir que tinha o vestido decotado demais no peito. 0 indivduo em questo j no devia ser muito 
novo; aparentava pelo menos trinta e cinco anos, mas a sua figura, slida e aprumada, desta- 
130 
Ircavar- 
se entre as dos restantes convidados. Scarlett nunca tinha visto um homem com os ombros 
assim to largos e musculosos, pelo que chegou  concluso de que o de,-:Pconhecido devia 
pertencer a uma camada social diferente da sua. Quando os seus olhares se cruzaram, os lbios dele 
entreabriram-se-lhe num sorriso que lhe descobriu duas fileiras de ,dentes, cuja alvura animal era 
realada pelo bigode negro, aparado rente, que lhe ornava o lbio superior. Possua a tez bronzeada 
dum pirata e o olhar turvo e dominador dum flibusteiro que avalia a riqueza do galeo que vai 
abordar ou a formosura da donzela que se prepara para raptar. 0 sorriso dele patenteava tal 
impudncia e na sua boca pairava uma expresso to irnica que Scarlett ficou com a respirao 
suspensa. Sabia que qualquer outra rapariga que se encontrasse no seu lugar se sentiria ofendida em 
fase de to manifesto atrevimento e irritou-se consigo prpria ao ver que no experimentava o 
menor ressentimento perante o insulto. Ignorava completamente quem ele pudesse ser, mas havia 
algo no seu rosto que traa bom nascimento, o queera confirmado pelo nariz aquilino, pelos lbios, 
vermelhos e carnudos, pela fronte larga, pelos olhos, grandes e profundos. 
Scarlett desviou o olhar sem retribuir a sorriso e ele voltou~se ao ouvir algum cham-lo. 
- Rhett! Rhett Butler! Venha c! Vou apresent-lo  rapariga de corao mais insensvel de toda a 
Gerga. 
Rhett Butler? Este nome dizia qualquer coisa a Scarlett, qualquer coisa relacionada com uma 
histria interessante e escandalosa, de que naquele momento se no lembrava. Mas, como tinha o 
pensamento obcecado pela ideia de encontrar AshIey, no prestou mais ateno ao assunto. 
-Preciso de ir l acima passar um pente no cabelo, - 
disse ela a Stuart e a Brent ' que procuravam livr-la da multido. -Esperem ambos aqui por mim e 
no experimentem ir atrs de outra rapariga, se no querem que eu lhes faa uma cena em pblico. 
J compreendera que Stuart ia ser difcil de manobrar nessa tarde, caso a surpreendesse a fazer 
olhos meigos para outro. Estava com um gro na asa e Scariett sabia que, quando ele aparecia com 
aquele aspecto arrogante e belicoso, eram enormes os riscos de surgirem graves complicaes. 
Deteve-se no vestbulo para cumprimentar diversas pessoas amigas e dar os bons dias a India, que, 
Com 0 
131 
cabelo em desordem e a testa coberta de camarinhas de suor, saa da cozinha. Pobre India! Como se 
lhe no bastas,sem os cabelos descorados 'as pestanas ralas e c> queixo proeminente, sinal 
inconfundivel de carcter voluntarioso, e ainda lhe fosse necessrio aquele aspecto de solteirona, 
no obstante contar apenas vinte anos! Ficou a cismar se India lhe quereria mal por ela lhe ter 
roubado o amor de Stuart. Havia quem afirmasse que India ainda o amava, mas a verdade  que 
ningum,sabia adivinhar ao certo os sentimentos dos Wilkes. Se ela lhe tinha guardado rancor, 
#
nunca lho dera a entender, pois sempre a tratara com a mesma reserva e a mesma afabilidade que 
anteriormente. 
Scarlett trocou algumas palavras com a sua juvenil hospedeira e, em seguida, encaminhou-se para o 
fundo da escada. Preparava-se para comear a subir os degraus quando ouviu uma, voz tmida 
cham-la pelo nome. Voltou-se e deparou-se-lhe Charles Hamilton. 0 irmo de Melanie era bonito 
rapaz, de cabelos negros, ondulados, que lhe caam para a, testa branca em madeixas fartas, e olhos 
castanho-escuros meigos e tristes como os dum co@-de-pastor. Trajava fato de fino corte, 
composto de jaqueto preto e calas cor de mostarda, bem como. uma camisa pregueada, sobre a 
qual se destacava a mais larga e bela das gravatas negras. Um leve rubor lhe tingiu as faces quando 
Scarlett se virou para lhe falar: sempre sentira estranho acanhamento com as mulheres. Como 
geralmente sucede com a maioria dos rapazes tmidos, tambm ele nutria grande admirao pelas 
raparigas resolutas e desenvoltas como Scarlett, a qual at  data no testemunhara por ele mais do 
que amvel condescendncia. Por isso, quando a viu estender-lhe ambas as mos e acolh-lo com 
um sorriso radiante, quase perdeu os sentidos. 
-Charles Hamilton! No esperava ter o prazer de o encontrar aqui! Aposto que veio de Atlanta 
propositadamente para roubar o meu pobre corao! 
Charles quase gaguejou de comoo, ao tomar nas suas as pequeninas mos tpidas.de Scarlett, 
cujos olhos verdes pareciam despedir chispas incendirias. Era assim que as raparigas costumavam 
falar aos outros moos, mas no a ele. Embora no soubesse porqu, todas elas o tratavam como 
uma espcie de irmo mais. novo e, as que eram mais reca-tadas, nem sequer perdiam tempo a 
arreli-lo. 0 seu maior desejo era encontrar raparigas que brincassem com 
132 
ele da mesma maneira que brincavam com outros rapazes muito menos cultos e menos favorecidos 
pela sorte. Mas, nais raras ocasies em que tal acontecia, Charles ficava to embaraado que 
emudecia, sem atinar com o que dizer, e o seu acanhamento causava-lhe, ento, verdadeiro suplcio. 
E  noite, na cama, sem conseguir conciliar o sono, passava horas e horas a imaginar os galanteios 
com que poderia ter respondido. Contudo, nunca chegava a ter oportunidade de recuperar o 
caminho perdido, porque as raparigas, aps uma ou duas tentativas, desistiam de o procurar. 
At com Honey Wilkes ele permanecia na defensiva e guardava um silncio de mmia, embora o 
seu casamento com esta tacitamente estivesse acordado para os meados de Outubro, altura em que 
atingiria a maioridade. s vezes, chegava a assalt-lo, a terrvel desconfiana de que os requebros 
de Honey e os seus ares protectores lhe no davam crdito nenhum a ele, uma vez que a rapariga era 
to leviana que se comportaria da mesma forma com qualquer outro homem que lhe desse ensejo 
para isso. Charles no estava muito entusiasmado com a ideia de a desposar, visto que Honey nunca 
havia logrado despertar nele nenhuma das emoes intensas que, segundo as afirmaes dos seus 
livros preferidos, constituam provas irrefutveis do amor que o homem sente pela mulher que as 
provoca. Charles sempre tinha sonhado com a paixo duma criatura magnfica, malevel e ardente. 
E, de repente, Scarlett acusava-o de ter vindo de Atlanta aos Doze Carvalhos para lhe roubar o 
corao! 
Tentou imaginar uma rplica condigna, mas no conseguiu, e, intimamente abenoou Scarlett por 
ter continuado a falar, poupand@-lhe assim a necessidade imperiosa de encontrar qualquer coisa 
que dissesse. Aquilo era bom demais para ser verdade. 
- Espere aqui por mim valeu? Quero t-lo ao meu lado durante o piquenique. E agora no v fazer 
namoro a outra porque eu sou muito ciumenta. 
Os lbios rubros de Scarlett tinham pronunciado estas palavras inacreditveis, enquanto um' sorriso 
lhe acentuava as covinhas das faces e os seus longos clios negros se uniam pudicamente, velando 
os olhos glaucos. 
- No sairei daqui - conseguiu Charles articular por fim, muito longe de imaginar que nesse mesmo 
instante 
133 
"aia~ 
#
Scarlett o estava comparando a um bezerro que fica amarrado ao poste,  espera do carniceiro. 
A raparga bateu-lhe no brao com o leque fechado, ao de leve, e dispunha-@se a subir as escadas 
quando o seu olhar de novo se cruzou com o do indivduo que dava pelo nome de Rhett Butler. 
Estava parado a poucos passos de distncia de Charles e devia ter ouvido toda a conversa, pois 
dirigiu a Scarlett um sorriso malicioso de felino, tornando a envolv-la num olhar desrespeitoso a 
que ela no estava habituada. 
"Com seiscentos diabo&!" disse Scarlett de si para si, indignada, empregando a exclamao favorita 
de Gerald. "0 homem olha para mim como se... como se j me tivesse visto em camisa". 
E, voltando a cabea num gesto desdenhoso, comeou a subir a escada. 
No quarto de cama que servia de vestirio, -encontrou Cathleen Calvert, que se mirava e remirava 
ao espelho, mordendo os lbios, a fim de parecerem mais vermelhos. As rosas frescas que trazia 
presas na cintura tinham a mesma cor das suas faces e nos olhos azuis, travessos e irrequietos, 
brilhava-lhe um claro alegre. 
-Cathleen-disse Scarlett, esforando-se por fazer subir o corpo do vestido-quem  aquele homem 
indecente, chamado Butler, que est l em baixo? 
-0 qu ' no sabes quem ? - segredou Cathleen, -com vivacidade relanceando o olhar para a quarto 
contguo onde Dilee@ e a cria 'da dos Wilkes estavam a conversar. 
- Duvido que o senhor Wilkes tencionasse convid-lo, mas, segundo ouvi dizer, o senhor Butler 
estava de visita ao, senhor Kennedy, em Jonesboro, a fim de tratar de um neg6cio de algodo, e 
naturalmente, este no teve outro remdio seno traz-l@ consigo. No podia vir para a festa e 
deix-lo szinho. 
-Mas o que h contra ele? 
- Oh, filha, ningum o quer receber! -No rffe digas! -- P, assim mesmo! Scarlett escutou em 
silncio a informao que a amiga acabava de lhe prestar e engoliu em seco, pois que nunca at 
ento se encontrara sob o mesmo tecto com um individuo que tivesse sido posto,  margem da 
sociedade. Era uma situao invulgar e excitante. 
134 
@ 'I@ '%@' 
- Que fez ele? 
- Oh, Scarlett, tem urna reputao horrvel! Chama~se Rhett Butler.  natural de CharlQston e os 
pais, pertencem ;melhor sociedade de l, mas esto de relaes cortadas .com ele..Caroline Rhett 
contou-me a histria toda no Vero, passado. 0 Butler no lhe  nada, mas isso no impede que ela 
saiba tudo o que h a seu respeito. E, ao que parece, toda, a gente est bem informada acerca da 
vida dele. Comeou por ser expulso de West Point, imagina tu, por razes to boas ou to ms que 
Caroline no conseguiu encontrar ningum que tivesse coragem de lhe contar o que se passou. E 
depois houve aquela histria com a tal rapariga... 
- Qual rapariga,? 
- Mas, ento, tu no sabes ... ? Caroline contou-me o caso no ano passado e tenho a certeza de que a 
me dela morreria de desgosto se adivinhasse que a filha sabe uma coisa destas. Pois bem, o Butler 
convidou uma pequena, de Charleston para um passeio de carruagem. Nunca, logrei averiguar o 
nome da rapariga, mas calculo quem ela . Seja quem for, porm, no, deve ser muito sensata, 
porque, de contrrio, no teria sado ao anoitecer com um homem que mal conhecia e sem mais 
ningum. S te sei dizer que passaram quase toda a noite, fora e, quando por fim chegaram a casa, 
desculparam-se pretextando, que o cavalo se tinha espantado, deixando--os perdidos no bosque. E 
v l se adivinhas o que... 
-No tenho jeito nenhum para adivinhas. Conta-me o que aconteceu -disse Searlett, vibrando de 
entusiasmo,  espera do pior. 
- No dia seguinte, o Butler recusou-se a casar com ela. 
- Oh! -exclamou Searlett, desiludida. -Afirmou que no lhe tinha feito... hum... que no lhe tinha 
feito mal nenhum e que, por consequncia, no via motivo para tomar tal compromisso.  claro, o 
irmo da rapariga pediu-lhe uma explicao da sua atitude e o Butler respondeu que preferia 
#
apanhar um- tiro nos miolos a desposar uma leviana. Bateraffi-se em duelo e o Bufler feriu o rapaz, 
que morreu pouco depois. Butler teve de sair de Charleston e agora toda a gente se recusa a receblo 
- concluiu Cathleen, em tom de triunfo, e na melhor altura, pois que Dilcey entrou nesse instante 
no aposento, a fim de ajudar Scarlett a compor o vesturio. 
135 
- E ela chegou a ter algum nen? - segredou Scarlett ao ouvido da amiga. 
Cathle@,n sacudiu violentamente a cabea. 
- Mas ficou com a reputao arruinada, da . mesma maneira - respondeu num sussurro. 
"Quem me dera que AshIey me comprometesse assim", pensou Searlett, de sbito. "Como 
cavalheiro que , no deixaria de casar comigo". 
Mas, fosse como fosse, no pde evitar que no subconsciente se lhe insinuasse um estranho 
sentimento de respeito, por Rhett, Butler, que se recusara a desposar uma rapariga leviana. 
Scarlett estava sentada numa otomana de pau-rosa, de espaldar alto,  sombra dum carvalho secular 
que se erguia nas traseiras da casa. Em torno dela desdobravam-se os doze metros de musselina do 
vestido macheado, de cuja saa emergiam os sapatinhos de marroquim verde que deixavam entrever 
um centmetro dos tornozelos o mximo que uma senhora podia mostrar se queria mant@r boa 
cotao no conceito geral. Tinha na mo um prato de carne, em que mal havia tocado, e,  sua volta, 
nem mai-s, nem imenos do que sete admiradores. 0 piquenique atingira o auge e o ar vibrava com 
os risos e com a tagarelice das raparigas, com o tinir dos talheres sobre a porcelana, com as 
emanaes pesadas dos assado,9 e dos molhos. Por vezes a brisa soprava mais forte e as longas 
baforadas de fumo proveniente das fogueiras envolviam os convivas. As mulheres recebiam~nas 
com, gritinhos de protesto e tentavam repeli-Ias agitando energicamente os leques de palmito. 
A maior parte das raparigas tinha tomado lugar nos bancos que flanqueavam as mesas. Mas 
Scarlett, compreendendo que nessas condies apenas lhe seria possvel ter um admirador de cada 
lado, procurava um Itigar isolado onde pudesse reunir em torno de si o maior nmero de homens. 
As mulheres casadas tinham-se instalado sob o caramancho e os seus vestidos de tons sombrios 
punham unia nota austera no ambiente alegre e colorido. Fosse qual fosse a sua idade, formavam 
sempre um grupo  parte, observando a distncia a animao dos novos e dos namorados, escutando 
o estrpito das gargalhadas que a brisa lhes fazia chegar aos ouvidos, pois que no Sul a garridice 
no lhes era permitida. 
136 
Desde a velha av Fontaine, que se valia da sua avanada idade para arrotar  vontade at  pequena 
Alice Munroe, que, com dezas-sete anos apenas, j lutava contra os incmodos duma primeira 
gravidez, todas tomavam parte em discusses interminveis sobre ginecologia e obstetrcia, que 
tornavam aquelas reunies agradveis e instrutivas. 
Scarlett. lanava-lhes olhares de desprezo e, intimamente, comparava-as a um bando de galinhas 
anafadas. As mulheres casadas nunca se divertiam. Ainda no lhe tinha ooorrido a ideia de que, 
desposando AshIey, seria automaticamente relegada para o grupo de matronas. E, ento, passaria a 
sentar-i3<,, debaixo dos caramanches ou nas salas de visitas, onde entabularia conversas 
fastidiosas com as suas no menos f@stidiosas companheiras. E, como sucedera com elas, teria de 
renunciar aos vestidos claros e policromos, e a todas as distraces que tanto apreciava. A ma 
imaginao, como a da maioria &s raparigas, limitava o casamento  cerimnia da igreja. Alm 
disso, senta-se demasiadamente infeliz naquele instante para se entregar a pensamentos abstractos. 
Baixou os olhos para o prato e mordiscou um biscoito, com tal elegncia e tamanha falta-de apetite 
que a ama, se ali estivesse, no teria deixado de a felicitar. Nunca se vira cercada de tantos 
admiradores, mas tambm nunca se sentira to atormentada. Sem que soubesse porqu, a plano que 
arquitectara na vspera havia falhado redondamente na parte que dizia respeito a AshIey. Cativara 
dezenas de homens, mas no conseguira atrair AshIey, e todos os receios que experimentara no dia 
anterior a assaltavam de novo agora, fazendo palpitar-lhe o corao em ritmo desordenado. As 
faces, normalmente rosadas, ora se lhe ruborizavam at ficarem vermelhas como cerejas, ora 
empalideciam a ponto de Darecerem exangues. 
#
AshIey no fizera qualquer tentativa para se aproximar do grupo que a rodeava. Alm, dos 
cumprimentos da praxe, ainda no conseguira trocar com ele uma palavra a ss. AshIey tinha vindo 
falar-lhe assim que a vira entrar no jardim situado nas traseiras da casa, mas trazia Melanie pe],> 
brao. Melanie que mal lhe chegava ao, ombro! 
Pequenina e frgil, parecia uma criana mascarada com a volumosa saia de balo da me -iluso 
que era acentuada pela expresso tmida, quase receosa, dos seus olhos castanhos, demasiadamente 
grandes. A cabeleira negra e ondulada, estava severamente comprimida numa r@de,cujas 
137 
malhas apertadas no deixavam escapar nenhuma madeixa rebelde e formava, a meio da fronte, um 
longo bico que lhe tornava mais pronunciada a semelhana do rosto com um corao. De malares 
largos e queixo pontiagudo, tinha uma figura delicada e meiga, embora no fosse bonita nem lhe 
restasse a possibilidade de recorrer a qualquer dos artifcios de que as mulheres costumam lanar 
mo para fazerem passar despercebida a sua carncia de atractivos. Parecia aquilo que na realidade 
era - simples como a terra, boa como o po, transparente como a gua duma fonte. No entanto, 
apesar da falta de beleza e da exiguidade de estatura, havia nos seus gestos uma dignidade tranquila, 
impressionante, que a fazia aparentar muito mais do que dezassete anos. 
0 vestido de organdi cinzento, com a sua faixa de cetim cor de cereja, dissimulava sob as pregas e 
franzidos um corpo ainda infantil, e o chapu amarelo, de fitas tambm cor de cereja, emprestavalhe 
brilho  alvura da ctis. Os pesados- pingentes dos brincos com franja de oiro, que emergiam 
debaixo dos bands que lhe ocultavam as orelhas, balouavam junto <Ias olhos castanhos cujos 
reflexos plcidos lembravam a superfcie dum l@go da floresta, em pleno Inverno, quando atravs 
da gua parada se vem luzir no fundo as folhas cadas, das rvores. 
Com um sorriso tmido, mas afvel, cumprimentou Scarlett e no regateou elogias ao vestido que 
ela trazia. Scarlett, porm, teve de fazer um esforo para lhe responder cortesmente, to forte era o 
seu desejo de se encontrar a ss com Asliley. A partir desse momento, Asliley, sentado num 
tamborete aos ps, de Melanie, longe dos seus convidados, quedara-se a conversar tranquilamente 
com a noiva, com os lbios entreabertos naquele sorriso indolente que Scarlett tanto apreciava. E o 
que agravava a situao era o facto de o sorri,-Qo de AshIey despertar nos olhos de Melanie um 
claro que - Scarlett no pde deixar de o reconfiecer apesar de toda a sua animosidade -lhe 
iluminava a fisianomia, tornando-a quase bela. Sempre que Melanie encarava Ashley, o seu rosto de 
feies apagadas parecia ficar resplandecente, como se dentro dele ardesse uma chama intensa. E, 
se  possvel a face de uma criatura expressar o que lhe vai no corao a de Melanie Hamilton 
denunciava claramente toda a pa'ixo que lhe queimava o peito. 
Scarlett no conseguia despregar os olhos dos dois na- 
138 
morados, por mais que se esforas-se por se alhear da presena deles. De cada vez que os fitava, de 
relance, o seu jbilo parecia recrudescer. Passeava um olhar estonteado pelos admiradores que a 
cercavam, ria com os seus grace- jos, respondia-lhes com, frases audaciosas, provocava--os com 
momices e esgares travessos, meneando a cabea de maneira a fazer abanar os brincos num gesto de 
incredulidade, quando lhe dirigiam galanteios. Chamava-lhes tolos, acusava-os de mentirosos, 
jurava-lhes que jamais acreditaria no que os homens lhe dissessem. Mas, Asliley no lhe ligava 
importncia alguma. Continuava a conversar com a noiva, e os seus olhos n(> se afastavam do 
rosto dela, enquanto Melanie o fitava com uma expresso que revelava abertamente o amor que lhe 
tinha. 
Ante aquele quadro, Scarlett no podia deixar de se sentir profundamente infeliz. 
No entanto, aos olhos de todos aqueles que baseavam os seus juzos em meras aparncias, nunca 
uma rapariga tivera to fracos motivos para se se@ir infeliz. Scarlett era sem dvida a rainha da 
festa, o centro de todas as atenes. Noutra altura, t&Ia-ia desvanecido o entusiasmo que estava 
despertando nos homens que a rodeavam, bem como o rancor que ardia nos coraes das outras 
raparigas ao verem-se suplantadas por ela. 
Charles Hamilton, estimulado pelo caloroso acolhimento que ela lhe dispensara, tinha-se postado  
#
sua direita e no arredava p, apesar dos esforos desesperados dos dois gnicos Tarletons para o 
desalojarem da sua posio. Segurava numa das mos o leque de Scarlett e na outra o prato da carne 
assada em que ela mal tocara e recusava-se obstinadamente a encarar Honey Wlkes, que parecia 
prestes a 
desfazer-se em lgrimas. Estendido graciosamente no cho,  esquerda de Cade Calvert, no 
cessava de lhe puxar o ves~ tido, a fim de lhe chamar a ateno, ao mesmo tempo que lanava 
olhares furibundos na direco de Stuart. A atmosfera entre ele e os gmeos estava carregada de 
electricidade, o que j dera origem a uma troca de palavras desagradveis. Frank Kennedy corria 
dum lado para outro, como uma 
galinha preocupada com a sustento do nico pinto que lhe restasse da ninhada, numa roda-viva 
entre as mesas e a sombra dos carvalhos, procurando guloseimas para Scarlett, como se no 
houvesse ali uma dzia de criadas para o efeito. Em consequncia disso, Suellen esquecera-se de 
139 
que uma senhora bem educada deve ocultar o seu ressentimento e dardejava olhares assassinos 
sobre a irm. A pequena Carreen a custo reprimia as lgrimas, pois, apesar das palavras com que 
Scarlett nessa manh a encorajara, Brent lmitara-se a dizer-lhe apenas "Bom dia, petiza", e a 
desatar-lhe a fita que lhe prendia os cabelos, antes de consagrar toda a sua ateno a Scarlett. 
Costumava trat-la com tanta gentileza e deferncia que Carreen ficava COM a impresso de ser j 
uma mulherzinha. E, ento, sonhava em segredo com o dia em que, levantando o penteado e 
alongando as saias, pudesse consider-lo seu namoro. No entanto, naquela altura, pareca-lhe que 
Scarlett o havia monopolizado. As irms Munroes tentavam desesperadamente dissimular o seu 
despeito pela desero dos irmos Fontaines e era com evidente desagrado que observavam os 
esforos que Tony e Alex faziam para se conservarem perto de Scarlett. 
Com um ligeiro franzir de sobrancelhas, telegrafaram a Hetty Tarleton a reprovao que lhes 
merecia o procedimento de Scarlett. "Descarada", era o nico qualificativo que lhe assentava bem. 
Com um sincronismo perfeito, as trs brandiram as suas sombrinhas de renda, disseram que j 
tinham comido o suficiente e, tocando com as pontas dos dedos nos braos dos homens que estavam 
mais prximos delas, manifestavam delicadamente o desejo de visitar o roseiral, a nascente e o 
jardim. Esta retirada estratgica, feita em boa ordem, no passou despercebida s mulheres que se 
encontravam presentes, ao contrrio do que sucedeu com os homens, que no prestaram ateno ao 
facto. 
Scarlett soltou uma risada de escrnio, ao ver a sua corte desfalcada de trs homens que eram 
arrastados quase  fora pelas raparigas, a pretexto de irem visitar locais que eles conheciam desde 
a infncia. Lanou um olhar de esguelha a Astiley, na esperana de que ele tivesse reparado na 
manobra. Mas Ashlev estava entretido a brincar com as pontas da faixa de Melanie e sorria, 
embevecido, para ela. Uma dor aguda estrangulou o corao de Scarlett, que sentiu ganas de cravar 
as unhas na pele ebrnea da rival at o sano*ue correr. E com que prazer o faria! 
Ao desviar a vista de Melanie, surpreendeu o olhar de Rhett Butler, que se mantinha  parte dos 
restantes convivas conversando com John Wilkes. Tinha estado -a observ-l,a e, quando ela o fitou, 
desatou s gargalhadas. Scarlett 
140 
experimentou uma sensao de constrangimento ao pensar que aquele homem, que toda a gente se 
recusava a receber, era o nico dos presentes, que sabia o que se passava por trs da sua alegria 
transbordante. E, vendo a satisfao sardnica com que ele se ria do seu sofrimento, sentiu vontade 
de o agatanhar tambm. 
"Se eu conseguir resistir at logo  tarde", pensou, "talvez me seja possivel falar a ss com Ashley, 
quando todas as outras raparigas se retirarem para dormir a sesta, a fim de estarem frescas para o 
baile,  noite. Deixar-me-ei ficar no rs-do-cho e, seja como for, hei-de arranjar maneira de 
conversar com ele em particular.  impossvel que Ashley no tenha reparado no meu xito". 
Deixou-se embalar por uma nova esperana. "Se formos a ver bem as coisas, ele no podia proceder 
de outra forma. No fim de contas, Melanie sempre  sua prima. Tem direito a ser tratada com toda a 
#
deferficia e Asliley bem deve saber que, se no fosse ele a distra-Ia, tambm 'nenhum outro rapaz 
se daria a esse incmo,clo". 
Este pensamento instilou-lhe coragem nova e desvaneceu o receio que de novo comeava a assaltla. 
Redobrou de atenes para com Charles, que a devorava com os seus olhos castanhos, 
melanclicos. Foi um dia extraordinrio, um dia de sonho, para o moo Hamilton, que se apaixonou 
loucamente por Scarlett sem o menor esforo. Em face daquela emoo nova, Honey Wilkes 
transformou-se numa sombra que no tardou a desaparecer por completo aos olhos dele. Honey no 
era mais do que um pardal, de voz estrdula, que o deixava deslumbrante, que o fascinava. Scarlett 
implicava com ele, favorecia-o com sorrisos e olhares incandescentes. Fazia-lhe perguntas sobre 
perguntas, a 
que ela prpria respondia, de forma a dar a entender que tinha em alto apreo a sua inteligncia, 
embora Charles no dissesse uma palavra. Os outros rapazes estavam ao mesmo tempo aborrecidos 
e intrigados perante o interesse que Scarlett manifestava por Charles, pois sabiam que ele era 
absolutamente incapaz de alinhavar uma frase com sentido. Viram~se obrigados a apelar para toda a 
sua polidez a fim de ocultarem o furor crescente que os dominava. Estavam todos apaixonados por 
ela e, se no fosse a indiferena revelada por AshIey, o triunfo de Scarlett teria sido completo- 
Quando viu os ltimos convivas levarem  boca as derradeiras garfadas de porco, carneiro e 
galinha, Scarlett jul- 
141 
gou chegado o momento de India se levantar e sugerir s senhoras uns minutos de repouso. Eram 
duas hora-9 da, tarde e o sol escaldava, mas India, ftigada pelos preparativos para a festa, que se 
tinham arrastado durante trs dias consecutivos, parecia satisfeita com aqueles breves instantes de 
descanso, ali sob o caramancho. Estava e-stendida a falar com um convidado vindo de Fayetteville 
e que no ouvia bem, pelo que se via forada a levantar a voz, a qual se elevava acima do rumor 
confuso das conversas. 
Apoderou-se,de todos os convivas uma modorra preguiosa. Sem pressas, os criados negros 
comearam a levantar as longas mesas, sobre as quais ainda se viam restos de comida. As 
gargalhadas foram rareando e as vozes principiaram a baixar de tom. Os grupos calaram-se uns aps 
outros, at o silncio ser quase completo. Os convidados aguardavam com certa ansiedade que a 
dona da casa desse por terminada aquela primeira parte da festa. As ventarolas de palmas moviamse 
mais lentamente e algumas pessoas mais idosas, sufocadas. pelocalor e com o estmag(> 
sobrecarregado de carnes e dos mais diversos acepipes, cabeceavam com sono. 0 piquenique findara 
e todos desejavam procurar outros locais mais frescos e isolados onde pudessem repousar  
vontade, enquanto o Sol no descesse iriais4 no firmamento. 
Durante as horas que medeavam entre o piquenique e o baile, os convidados pareciam formar urna 
multido pacfica e indolente. Apenas os novos conservaram a vivacidade de que, horas antes, toda 
a gente havia dado, mostras. Circulando de grupo em grui)o, exprimindo-se com vozessuaves e 
arrastadas, eram to belos como garanhes de puro- ~sangue e to perigosos como eles, 0 calor da 
tarde tinha vencido os convidados, mas, sob aquele langor aparente, vibravam temperamentos, 
assoniadios, que, uma vez excitados, podiam dum instante para outro lev-los a todos os excessos. 
Mulheres e homens eram garbosos e selvagens, de uma selvajaria primitiva que dissimulavam sob 
as, suas maneiras gentis, sob a fina camada superficial de verniz de que a civilizao os revestira. 
0 sol escaldava -cada vez mais e tanto Searlett como os restantes convivas olharam de novo para 
India Wilkes. 
0 rumor das conversas tinha esmorecido quase completamente quando, no meio do silncio, se 
elevou de sbito a voz de Gerald, vibrando de indignao. 0 proprietrio de 
142 
Tara estava de D a alguma distncia das mesas, discutindo vivamede com John Wilkes. 
- Com seiscentos diabos, homem! Pensar num entendimento pacfico com os yankees depois de os 
termos expulsado a tiro do Forte Sumter? Entendimento pacfico! 0 Sul h-de provar, com armas 
nas mos que no se deixa insultar impunemente! E que, se se desligou da Unio, no foi por 
#
condescendncia desta, mas sim porque tem plena conscincia da sua fora. 
"Deus, do cu!" pensou Scarlett. "S me faltava mais esta! Deram-lhe corda e agora no acaba antes 
da meia-noite!" 
Numa fraco de segundo, a multido sonolenta despertou da pesada modorra que momentos antes 
se apoderara de todos e o ambiente como que se galvanizou de sbito. Estabeleceu-se um tumulto, 
Os homens levantaram-se bruscamente abandonando o conforto das cadeiras, bancos e tamboretes. 
Queriam falar todos ao mesmo tempo e gesticulavam violentamente. Cada qual tentava fazer ouvir 
a sua voz acima das restantes, do que resultou que dai a pouco j ningum conseguia entender-se no 
meio daquele barulho infernal. Durante a manh, ningum se atrevera a fazer nenhuma aluso  
guerra em perspectiva nem a aflorar questes polticas, pois John Wilkes pedira a todos os 
convidados que se abstivessem de tocar nesses assuntos, to desagradveis para as senhoras. Mas 
Gerald acabava de se referir ao Forte Sumter e foi quanto bastou para que todos se esquecessem da 
recomendao que o dono da casa lhes fizera. 
"Pois com certeza que nos bateremos"-"Os yankees so uma corja de ladres" - "Daremos cabo 
deles em menos dum ms" - "Um sulista vale por vinte yankees" - 
"Ho-de aprender  sua prpria custa" - "Pacficos? Pois eles nunca nos deixaram em paz!" - 
"Viram como LincoIn insultou os nossos emissrios?" - " verdade! Andou a entret-los durante 
semanas inteiras com promessas de mandar evacuar o Forte Suniter e afinal foi o que se viu!"- 
"Querem guerra? Pois ho-de t-la!" 
E, dominando todas as vozes, ouvia-se a de Gerald, clamando sem cessar: 
-Direitos dos Estados! Valha-me Deus! Direitos dos Estados! 
143 
Gerald estava satisfeitssimo, mas o mesmo j no sucedia com a filha. 
A Secesso, a guerra... Havia muito tempo j que estas palavras exasperavam Scarlett,  fora de 
tanto as ter ouvido. Naquele momento, porni, sentiu invadi-Ia um dio mortal por elas, Os homens 
ficariam ali a discutir a situao durante horas a fio e ela no teria oportunidade de falar a ss com 
Asliley. Evidentemente, toda a gente sabia que a guerra nunca ultrapassaria o domnio das 
hipteses, mas os homens pareciam encontrar prazer especial em pintr o futuro com as mais 
sombrias cores, preconizando o incio das hostilidades para breve e delirando com essa 
possibilidade. 
Charles, Hamilton no se levantara como os demais e, vendo~se prticamente szinho ao lado de 
Searlett, aproximou-se mais dela e decidiu aproveitar o ensejo para se lhe declarar, com a audcia 
dum moo que, pela primeira vez, sente o corao pulsar ao ritmo do verdadeiro amor. 
- Menina O'Hara... eu... eu estive a pensar e resolvi ir alistar-me na Carolina do Sul, no caso de 
haver guerra. Constou-me que Wade Hamplon est a organizar um corpo de cavalaria e eu gostaria 
bastante de lutar sob as ordens dele. Era o melhor amigo do meu pai e considero-o ptima criatura. 
"Que diabo espera ele que eu faa?" pensou Scarlett. "Que bata palmas?" Porque a fisionomia de 
Charles dizia-lhe que o pobre moo lhe estava revelando o mais ntinio segredo do seu corao. 
Sem saber que resposta dar, limitou-se a encar-lo pensando como os homens por vezes eram tolos 
a pont@ de julgarem que as mulheres se interessavam pela guerra e pela poltica. Tomando 
a.atitude dela como uma aprovao tcica, Charles prosseguiu ;vivamente, com uma ousadia de que 
nunca se julgara capaz: 
- Se eu for... sentir a minha falta, menina O'Hara? -Passarei as noites inteiras a chorar- respondeu 
Scarlett, de brincadeira, mas Charles interpretou as palavras dela como sendo sinceras e corou de 
prazer. 
Scarlett tinha a mo oculta no colo sob as pregas do vestido, e Charles surpreendido perante a sua 
prpria ousadia e a aquies@ncia da rapariga, apoderou-se cautelosamente dela e apertou-a entre os 
dedos, com meiguice, a medo. 
-Rezar por mim.? 
144 
"Que, idiota!" pensou Scarlett, com azedume ' lanando um olhar ansioso  sua volta, na 
#
esperana de que algum viesse interromper a conversa. 
- Rezar? 
- Pois com certeza, senhor Hamilton. Trs rosrios ao 
deitar, nada menos. 
Charles olhou rapidamente em redor e inspirou fundo, contraindo os msculois do estmago. 
Encontravam-se praticamente szinhos e talvez que nunca mais se lhe deparasse uma oportunidade 
semelhante quela. No bastaria que Deus lhe concedesse a graa de lhe proporcionar novo 
ensejo; seria preciso tambm que a coragem lhe no faltasse na altura prpria. 
- Menina O'Hara... quero dizer-lhe uma coisa... Eu... eu amo-a! 
- Hum? - murmurou Scarlett, distrada, tentando descortinar, atravs da multido de homens 
aglomerados em 
torno de Gerald, o local onde Asliley e Melanie continuavam sentados, conversando animadamente. 
- Amo-a! - repetiu Charles, numa voz sussurrante, admirado por ver que Scarlett no rira nem 
gritara, nem sequer perdera os sentidos, como sempre julgava-que acontecia 
naquelas circunstncias. - Adoro-a! Voc  a rapariga mais... mais... - Pela primeira vez na sua 
vida parecia ter encontrado a lngua. -...A rapariga mais bonita que eu 
at hoje conheci, a mais delicada e gentil. Amo-a com toda a minha alma. Sei que Dara um homem 
como eu seria muita felicidade junta ver o seu amor correspondido por urna rapariga to bela. Mas 
garanto-lhe que, se me animar com uma s palavra que seja, farei o impossvel por conquistar o seu 
corao. Farei... 
Charles calou-se bruscamente, sem conseguir imaginar nada que se lhe afigurasse suficientemente 
difcil de fazer para demonstrar a Scarlett quo profundos eram os sentimentos que ela lhe 
inspirava. Pensou durante alguns momentos e disse, com simplicidade: 
- Quero casar consigo. Scarlett como que despertou dum sonho, ao ouvir falar em casar. Acabava 
nesse instante de pensar em Asliley, na fuga que planeaxa, no casamento em Jonesboro, e encarou 
Charles com um olhar glacial, em que deixou transparecer toda a sua irritao. Por que diabo teria 
aquele idiota, de olhos de carneiro mal morto, escolhido precisamente um 
10 - Vento Levou - 1 145 
dia em que ela estava to atormentada quase louca de desespero, para a importunar com uma 
dearao de amor? .Fitou demo@adamente os olhos castanhos que a miravam, suplicantes, mas 
no viu neles nem o encanto da primeira paixo dum rapaz tmido, nem a adorao dum ideal que 
finalmente se corporizava, nem a maravilhosa felicidade e ternura que devoravam o corao de 
Charles como uma chama, Scarlett estava acostumada a ser pedida em casar mento por homens 
muito mais atraentes que Charleg Hamilton e suficientemente astutos para evitarem fazer 
declaraes de amor no fim dum piquenique e justamente numa altura em que o pensamento dela se 
encontrava to preocupado com outros problemas.  sua frente viu apenas um rapaz de vinte anos, 
vermelho que nem um pimento e de ar atoleimado, Teve pena de no lhe poder dizer o que na 
realidade pensava a respeito dele. Maquinalmente, aflura-lhe aos lbios as palavras que Ellen lhe 
havia ensinado para ocasies como aquela. 
Senhor Hamilton - murmurou baixando os olhos pudicamente, pela fora do hbito - stou-lhe 
muito grata pela honra com que acaba'de me distinguir, desejando fazer de mim sua esposa, mas 
confesso que fiquei to surpreendida que nem sei G que responder. 
Era aquele o melhor processo de deixar o homem na dvida, sem todavia ferir o seu amor-prprio. 
Charles caiu imediatamente na esparrela, como se a armadilha fosse nova e ele o primeiro a deixarse 
apanhar. 
-Esperarei a vida inteira, se for preciso! Alis, nunca casaria consigo sem que estivesse seguro dos 
seus sentimentos. Por favor, menina O'Hara, acha que posso ter uma esperana? 
Hum! - murmurou Scarlett, cujos olhos de lince aca, bavam de notar que AshIey, agora de p para 
tomar prte na discusso, sorria nesse instante para Melanie. 
Se ao menos aquele idiota que lhe apertava a mo com uns dedos que mais pareciam tenazes se 
calasse por alguns momentos apenas, talvez ela conseguisse ouvir um fragmento da conversa dos 
#
dois namorados. Estava com curiosidade de saber o que Melanie dizia a AshIey para o interessar a 
tal ponto. 
Mas Charles continuava a falar, abafando a voz deles, impossibilitando-a de perceber as palavras. 
146 
- Chiu! -ordenou, em tom autoritrio beliscando-lhe a mo, sem mesmo se dar ao trabalho de'olhar 
para ele. 
Surpreendido, Charles perdeu a linha e enrubesceu, mas, vendo os olhos de Scarlett cravados em 
Melanie, sorriu compreensivamente. Scarlett estava com receio de que algum ouvisse o que nesse 
momento lhe dizia. Naturalmente, sentiu~se constrangida e intimidada. Charles impou de orgulho, 
pois que nunca at ali tinha conseguido intimidar uma rapariga. Sentia que estava a operar-se em si 
uma estranha metamorfose cuja evoluo o transformaria num homem novo, dife@ente, intrpido e 
viril. Tentou imprimir  fisonomia uma expresso serena e, por seu turno, beliscou tambm a mo 
de Scarlett, a fim de lhe mostrar que possua bastante experincia da vida para compreender e 
aceitar a sua advertncia. 
Scarlett, porm, nem sequer sentiu o belisco pois que nesse instante ouvia distintamente a voz doce 
d@ Melanie: 
-Tenho muita pena, mas no concordo consigo, no que se refere s obras de Thackeray. P, um 
cnico e estou persuadida de que o seu cavalheirismo fica muito aqum do de Dickens. 
"Que tolice! Discutir literatura com um homem!" pensou Scarlett, com um sorriso de alvio e 
fazendo um esforo sobre si mesma para no soltar uma gargalhada. "Melanie tem a mania dos 
livros e toda a gente sabe o que os rapazes pensam acerca das mulheres assim... Para despertar e 
manter bem vivo o interesse dum homem no h nada como falar-lhe a seu respeito e ir desviando a 
pouco e pouco o rumo ao assunto at nos tornarmos ns o fulcro da conversa". 
Se Melanie houvesse dito: "Voc  extraordinrio! " ou: "Como, pode pensar em todas essas coisas? 
A minha cabea rebentaria, certamente, se alguma vez tentasse compreend-las!", Scarlett ter-se-ia 
alarmado. Em vez disso porm, Melanie, com um homem sentado a seus pes, falva com ele como 
se estivesse numa igreja, discutindo temas srios e profundos. Foi tal a sua satisfao, o futuro 
afigurou-se-lhe to risonho que volveu para Charles um olhar radioso, encarando-o com um sorriso 
alegre. Deslumbrado com aquela manifestao de afecto ' o rapaz tomou-lhe o leque das mos e 
ps-se a aban-la com tanto frenesi que os 
cabelos de Scarlett comearam a esvoaar. 
- Ashley, voc ainda no nos deu a sua opinio - disse 
147 
a IJim 
Tarleton, destacando-se do grupo de homens aglomerados em torno de Gerald O'11ara. AshIey 
pediu desculpa a Melanie e, levantando-se, encaminhou-se na direco dos convidados. Scarlett 
observou a graa da sua atitude desprendida, a maneira encantadora como o sol lhe acariciava o 
bigode e os cabelos dourados, e pensou que, de todos os presentes, era ele sem dvida o rapaz mais 
simptico e atraente. At os prprios velhos se calaram para o escutar. 
- Evidentemente que meus senhores, se a Gergia entrar em luta, eu me baterei por ela -declarou 
com voz calma. -Foi por isso mesmo que me alistei. 
Os seus olhos cinzentos dilataram-se e o brilho lnguido que normalmente ostentavam deu lugar a 
um claro metlico que Scarlett nunca lhes tinha visto. 
-No entanto, tal qual sucede com o meu pai, tambm eu espero que os yankees nos deixem 
tranquilos e que no haja guerra... - Levantou. a mo num gesto conciliatrio e sorriu, ao ouvir os 
protestos dos irmos Tarletons e dos Fontaines. -Sim, sim, eu sei muito bem que nos insultaram, 
que nos mentiram... Mas imaginemos por momentos que nos encontrvamos no lugar dos yankees e 
que eles de repente resolviam abandonar a Unio. Que teramos ns feito? 0 mesmo ou pior do que 
eles. No ficaramos nada satisfeitos com a graa. 
"L est ele outra vez! Parece que sente prazer especial em se meter nos chinelos dos outros", 
pensou Scarlett. Para ela, em.qualquer disputa s uma opinio contava. Por isso no compreendia a 
#
atitude de AshIey. 
- No nos precipitemos e faamos o possvel por evitar um conflito. A maioria das desgraas da 
humanidade so provocadas pelas guerras. E o mais curioso  que, findas as hostilidades, ningum 
sabe ao certo o que as motivoV. 
Scarlett fez uma careta. Felizmente que AshIey tina a sua reputao de homem corajoso a salvo de 
qualquer ataque, pois de contrrio arriscar-se-ia a passar um bocado desagradvel. Ainda Scarlett 
na tinha acabado de formular este pensamento, quando um coro de vozes indignadas, furiosas, se 
fez ouvir em protestos violentos contra o arrazoado de AshIey. 
Sob o caramancho, o velhote surdo, que se deixara ficar sentado ao lado de India, chamou a, 
ateno desta com meia dzia de cotoveladas imperiosas. 
-Que aconteceu? Que esto eles a dizer? 
148 
- Esto a falar em guerra - berrou-lhe India ao ouvido. - Querem bater-se contra os yankees. 
-Com que ento eles querem guerra? -exclamou o ancio, olhando em torno de si,  procura da 
bengala. Em seguida, ergueu-se da cadeira, demonstrando uma energia de que ningum o supunha 
capaz. -Eu  que lhes vou dizer o que a guerra . J estive em duas e sei muitssimo bem o que isso 
representa. 
Era muito raro o senhor MeRae ter oportunidade de falar nas suas campanhas, pois as senhoras da 
sua famlia detestavam ouvir referncias a tais banalidades. Coxeando, brandindo a bengala, 
gritando a plenos pulmes, o velhote aproximou-se rapidamente do grupo e como no ouvia os 
comentrios que lhe faziam, em brev@ ficou senhor absoluto da situao. 
- Escutem, rapazes,! Deixem-se de fanfarronices e tenham juzo! No pensem mais na guerra. Eu j 
combati em duas e sei o que isso . Tomei parte na luta contra os ndios seminolas e fui 
suficientemente tolo para tambm me alistar nas tropas que se bateram no Mxico. Vocs ignoram 
todos o que uma guerra . Julgam que se trata duma aventura interessante, que consiste em montar 
um lindo cavalo e voltar para casa como heris, cobertos de flores atiradas pelas raparigas. Pois 
acreditem que no  nada disso! No, meus senhores! ]@ uma coisa completamente diferente. Uma 
pessoa farta-se de passar fome, arrisca-se a apanhar uma carga de sarampo ou uma pneu=nia,  
fora de dormir ao relento. E, quando no se apanha nem sarampo nem pneumonia, so as tripas 
que se revoltam. Sim, meus caros senhores, gostaria que fizessem ideia do estado em que uma 
guerra deixa os intestinos dum homem... com a disenteria e outras doenas do gnero. 
As senhoras coraram at  raiz dos cabelos. Como a av dos Fontaines, com as suas eructaes 
estrondosas, o senhor MeRae fazia acudirem ao esprito da maioria dosconvivas recordaes duma 
poca quase apagada nas 'coisas do passado, duma poca que todos desejariam ter esquecido. 
-V depressa buscar o av -segredou uma das filhas do ancio a uma garota que se encontrava 
perto. E acrescentou, dirigindo-se s matronas que a cercavam: - 0 meu pai est cada, vez pior. 
Imaginem que ainda esta manh ele disse a Mary, que tem apenas dezasseis anos: "Ouve, minha 
filha ... " 
149 
E a voz dela perdeu-se num murmrio enquanto a neta de MeRae se esgueirava entre os 
convidados, a fim de dar a entender ao, av que seria mais conveniente retomar o seu lugar  
sombra. 
Entre to-da aquela gente que, fugindo do calor do Sol, buscara a frescura, do arvoredo, apenas uma 
pessoa parecia conservar a calma.' Scarlett passou a vista  sua volta, observando a multido que a 
rodeava, composta na sua grande maioria por raparigas, que sorriam, enervadas, e por homens que 
discutiam acaloradamente, e o seu olhar pousou sobre a figura de Rhett Butler. Encostado a uma 
rvore, com as mos enfiadas nas algibeiras, ali se deixara ficar, szinho, desde o momento em que 
John Wilkes o abandonara, a fim de atender os restailtes convidados. At quele momento, tinha 
assistido aos debates sem pronunciar uma palavra. Sob o bigode aparado rente, os lbios 
entreabriam-se-lhe num sorriso irnico e nos olhos brilhava-lhe um claro sarcstico, como se 
estivesse presenciando uma controvrsia de garotos que falavam sem conhecimento de causa. "Um 
#
sorriso deveras, impertinente", pensou Scarlett. Butler escutou em silncio os argumentos 
apresentados de parte a parte, at que Stuart Tarleton, com a cabeleira ruiva desgrenhada e os olhos 
coruscantes 'exclamou: 
- P, como lhes digo! Derrot-los-emos em menos dum ms! Os nobres sempre lutaram melhor da 
que a ral. Um ms... nem tanto ser preciso talvez. n possvel que a questo fique resolvida a nosso 
favor logo na primeira batalha... 
- Senhores - interveio Rliett Bufler, com a pronncia arrastada, caracterstica dos naturais de 
Charleston e sem mudar de posio nem tirar as mos dos bolsos - do-me licena que diga @ma 
palavra? 
A sua atitude, a prpria maneira como ele encarava as pessoas que o cercavam, denunciavam o mais 
profundo desdm, um desdm velado por um ar corts que, fosse porque fosse, parecia meter a 
ridculo toda a assistncia. 
0 grupo voltou-se para ele e dispensou ao seu pedido o acolhimento devido a um estranho. , 
-os senhores j pensaram no facto de que no existem fbricas de armamento para c da linha 
Mason-Dixon? J repararam no reduzido nmero de fundies de ao que existem no sul? E na falta 
de fbricas de curtumes e de tecelagem de l e de algodo? J se lembraram de que no possumo@ 
um nico vaso de guerra e que a Armada yankee 
150 
poderia bloquear-nos nos portos em menos de uma semana, impossibilitando-nos de exportar o 
algodG? Tenho a certeza de que todos os senhores j meditaram nestes pequenos pormenores, no 
 verdade? 
"P, preciso ter coragem!" pensou Searlett, corando de indignao. "Fala como se os rapazes fossem 
todos asnos chapados!" 
No foi ela a nica pessoa a quem ocorreu essa, ideia, pois que uma grande parte dos rapazes 
espetou o 'q'ueixo e empertigou o peito. John Wilkes retomou o seu lugar ao lado do orador, como 
para fazer notar a todos os presentes que aquele homem era seu convidado e que, alm disso, se 
encontravam senhorasa assistir  cena. 
-0 nosso mal-prosseguiu Rhett Butler- que, ou viajamos muito pouco, ou no tiramos proveito 
nenhum das viagens que fazemos. Evidentemente, os senhores so pessoas b@istante viajadas e, 
por conseguinte as minhas palavras no podem ser-lhes aplicadas. No ei@tanto, que viram os 
senhores durante essas viagens? Foram  Europa, visitaram Nova lorque, estiveram em Filadlfia? 
As senhoras, naturalmente, conhecem todas Saratoga. - Fez uma ligeira vnia na direco do grupo 
de matronas reunido sob o caramancho. - Pernoitaram nos melhores hotis, percorreram os 
museus, danaram nos clubes, jogaram nos casinos e voltaram para casa mais convencidos do que 
nunca de que no h nada que se compare com o Sul! Eu nasci em Charles@ ton, mas tenho vivido 
estes ltimos anos no Norte. - Um sorriso largo descobriu-lhe duas fileiras de dentes brancos, como 
se estivesse persuadido de que ningum ignorava o motivo por que tivera de abandonar Charleston 
e o facto lhe fosse completamente indiferente. - Tenho visto muita coisa que nenhum dos senhores 
viu. Vi mulheres de emigrantes que no hesitaro em pegar em armas contra os exrcitos do Sul a 
troco de um bocado de po e de meia dzia de dlares, para no falar nas fbricas, nas fundies, 
nos estaleiros de construo naval, nas minas de ferro e de carvo... e em muitas outras coisas que 
ns no possumos. Porque a verdade  que, alm do algodo, dos escravos e duma tremenda dose 
de arrogncia, ns no temos mais nada. Se houver guerra, eles  que nos destruiro em menos de 
um ms. 
Calou-se e, durante longos momentos, um silncio opressivo reinou sob o arvoredo. Rhett Butler 
tirou do bolso um 
151 
leno de linho fino e sacudiu negligentemente d-a manga do casaco um gro de poeira. Depois, 
elevou-se da multido um murmrio surdo, enquanto do caramancho lhe chegava aos ouvidos um 
rumor que lembrava o zumbido duma colmeia de abelhas enfurecidas. Embora sentisse ainda as 
faces a arder de clera, Scarlett no pde deixar de reconhecer que havia grande fundo de verdade 
#
nas palavras de Rhett Butler. Pela boca dele acabava de falar o bom-senso. De facto, Scarlett nunca 
vira uma fbrica nem sabia de ningum que as tivesse visto, no Sul. Mesmo assim, porm, um 
cavalheiro nunca faria afirmaes daquela ordem no decurso duma festa onde as pessoas tinham ido 
em busca de distraco. 
De sobrancelhas franzidas, Stuart Tarleton avanou um passo, seguido de Brent. Ambos os grneos 
eram suficientemente bem educados para se absterem de armar zaragatas num piquenique, por 
muito que fossem provocados. Apesar disso, as senhoras experimentaram uma emoo agradvel, 
pois que s muito raramente lhes era dado assi"tir a cenas de pugilato, das quais s costumavam ter 
conhecimento por intermdio de terceiras pessoas. . - Que pretende insinuar com isso, cavalheiro? - 
inquiriu Stuart em tom glacial. 
Rhett fitou-o com olhar corts, mas irnico, e respondeu: 
- 0 mesmo que Napoleo... espero que o nome no lhe seja estranho... ao afirmar certo dia: "Deus 
est sempre ao lado do exrcito mais forte!" - E, voltando-se para John Wilkes numa atitude 
sinceramente respeitosa, acrescentou: 
- Permita-me, senhor, que lhe recorde o seu prometimento. Seria abusar da sua pacincia pedir-lhe 
agora que me mostrasse a sua biblioteca*@ Deixei uns negcios pendentes em Jonesboro, de forma 
que terei de regressar mais cedo. 
Virou-se para fazer face  multido bateu os calcanhares e curvou-se numa mesura, rpida ' @omo 
um mestre de dana, agradecendo, no palco, os aplausos dos espectadores. Foi um gesto gracioso, 
dada a sua corpulncia, mas to insolente como uma bofetada em pleno rosto. Em seguida, 
atravessou o relvado na companhia de John Wilkes, de fronte erguida e busto empertigado num 
aprumo rilarcial. Os ecos do seu riso desagradvel chegaram at aos ouvidos daqueles que tinham 
ficado junto das mesas. 
Ao silncio profundo da sui;presa seguiu-se novamente o murmrio das conversas. Com ar fatigado 
India abandonou a cadeira em que estivera sentada, sob o caramancho, 
152 
e acercou-se de Stuart Tarleton, que escumava de raiva. Scarlett no conseguiu ouvir o que India lhe 
disse mas a maneira como ela o fitou causou-lhe uma espci@ de remorso. Era o mesmo olhar de 
eterna dedicaao com que Melanie costumava encarar Asliley. Stuart, porm parecia no dar por 
isso. India continuava a am-lo. Scarlett pensou por instantes que se no ano anterior no tivesse 
animado as atenes de St@art, h muito que ele teria casado com India. Mas os remorsos depressa 
se dissiparam, ante o raciocnio tranquilizador que lhe dizia no ter ela culpa de que as outras 
raparigas no soubessem reter os homens que haviam escolhido. 
Stuart acabou por sorrir para a sua antiga namorada e sacudiu a cabea afirmativamente, num gesto 
de concordncia. Possivelmente, India tinha ido pedir-lhe que deixasse o senhor Bufler em paz e 
no provocasse conflitos. De entre o arvoredo elevou-se o rumor confuso dos convivas que se 
levantavam, sacudindo as migalhas do colo. As senhoras casadas chamavam as criadas e as 
crianas, a fim de as reunirem antes de partir. Rindo e conversando, as raparigas encaminharam-se 
para casa, aos grupinhos, em direco aos dormitrios, onde aproveitariam as horas da sesta para 
fazerem comentrios e trocarem confidncias. 
As mulheres casadas, com excepo da senhora Tarleton, retiraram-se tambm, deixando os 
homens em liberdade  sombra dos carvalhos e do caramancho. Gerald O,Ha,ra, Jim Calvert e 
outros retiveram junto de si a me dos gmeos, na esperana de conseguirem unia resposta 
favorvel acerca da venda de cavalos para o Regimento. 
Com um sorriso pensativo e ao mesmo tempo divertido a bailar-lhe nos lbios Asliley aproximou-se 
lentamente do local onde Scarlett @ Charles se encontravam sentados. 
-Que arrogncia a daquele sujeito - observou, seguindo com a vista a figura de Rhett Butler, que se 
afastava. - At faz lembrar um dos Brgias, no faz? 
Scarlett, passou rapidamente em revista os nomes das pessoas conhecidas e no logrou recordar-se 
de nenhuma famlia da comarca nem de Atlanta ou de Savannali, que usasse aquele apel16. 
- No conheo ningum com esse nome. So parentes dele? Onde vivem? 
#
Uma expresso estranha anuviou o rosto de Charles, em que a incredulidade e a desiluso lutavam 
com o amor. Con- 
153 
@'I" 
tudo, o amor triunfou. Charles compreendeu que uma rapariga no precisava ser culta; bastava-lhe 
ser meiga ' gentil e formosa. E apressou-se a explicar, em tom desprendido: 
- Os Brgias eram italianos... 
- Ah! - exclamou Searlett, desinteressando,-se. - Estrangeiros... 
Dirigiu a AshIey um sorriso provocante mas por qualquer razo que no descortinou no mome@to, 
ele desviou a vista e fitou Charles, com olhos que traam um sentimento misto de compreenso e 
pesar. 
,Scarlett saiu para o patamar e debruou-se cautelosa mente sobre o corrimo a fim de ver o 
vestbulo do pavimento inferior. Estava vazio. Dos quartos de cama situados no ltimo andar 
chegava-lhe aos ouvidos o murmrio incessante de vozes femininas, em surdina, entrecortadas por 
gritinhos e risos abafados e perguntas como estas: "Palavra que fizeste isso?" ou "E que disse ele?" 
As raparigas repousavam nas seis vastas alcovas transformadas em dormitrios colectivos, com os 
cabelos soltos, depois de terem despido os vestidos e afrouxado os espartilhos. A sesta era costume 
da regio, que se tornava necessidade durante festas como aquela, que principiavam de manh cedo 
e terminavam j de noite, com um baile, Durante cerca de meia hora, as raparigas iam tagarelar a 
respeito disto ou daquilo ' entremeando as frases com bocejos cuja frequncia aumentaria 
gradualmente at que as criadas baixassem as persianas. E ento, na semiobscuridade tpida que 
envolveria as salas e as suas ocupantes, o rumor das conversas esmoreceria a pouco e pouco, 
transformando-se em sussurro que acabaria por se desvanecer totalmente, dando lugar a um silncio 
apenas interrompido pelo ritmo da respirao calma e regular. 
Antes de se aventurar no corredor e de comear a descer a escada, Scarlett tratou de se certificar de 
que Melanie se encontrava deitada numa das camas, em companhia de Honey Wilkes, e de Hetty 
Tarleton. 
Atravs da janela do patamar avistou o grupo masculino sob o caramancho. Os homens 
continuavam a discutir, a julgar pela maneira como gesticulavam e, sufocados pelo calor, 
esvaziavam copos sobre copos das mais variadas bebidas, Procurou Ashley entre eles, mas no 
conseguiu descobri-lo. Em seguida, apurou o ouvido e reconheceu-lhe a 
154 
voz, que chegava at ela, muito sumida. Como calculara, Asliley encontrava-se ainda na alameda, 
despedindo-se das senhoras e das crianas que se retiravam para as suas casas. 
Com o corao na garganta, Scarlett precipitou-se pela escada abaixo. E se topasse com o senhor 
Wilkes? Que desculpa invocaria ela para o facto de andar a vaguear pela casa numa altura em que 
todas as outras raparigas dormiam a sesta? Era um risco que -tinha, de correr, j que o no podia 
evitar. 
No momento em que chegou ao fundo dos degraus, ouviu o barulho que fazia a criadagem, na sala 
de jantar, removendo, sob as ordens do mordomo, a mesa e as cadeiras, a,fim de prepararem o 
aposento para o baile. A porta da biblioteca, que se rasgava na parede oposta do vestbulo, estava 
aberta.. Drigiu-se para l, com passos rpidos e silenciosos. Esperaria ali que Ashley acabasse de 
receber os cumprimentos de despedida e cham-lo-ia quando ele se preparasse para entrar em casa. 
A biblioteca estava quase s escuras, pois o mordomo tinha mandado descer as persianas, por causa 
do sol. 0 aspecto sombrio do vasto aposento, cujas paredes quase desa pareciam atrs das estantes 
que as forravam impressionou-a imenso. Aquele estava muito longe de ser o local que sempre 
idealizara para ouvir uma declarao de amor dos lbios do homem que amava. A viso de grande 
nmero de livros deprimia-a, produzindo nela o mesmo efeito que lhe causavam todas as pessoas 
que tinham a paixo da leitura - todas  excepo de Ashley. Os mveis de mogno macio, 
pareciam erguer-se contra ela, amea@do-res, na 
penumbra que reinava na sala. A moblia compunha-se de cadeiras de espaldar, de assento profundo 
#
e braos largos, feitas especialmente para homens da estatura dos Wilkes, e duma srie de poltronas 
baixas, de veludo, confortavelmente estofadas, que se destinavam s raparigas. Ao fundo da 
biblioteca, na parede oposta  lareira, via-se um enorme sof, cujo encosto se assemelhava ao dorso 
arqueado dum corpulento animal adormecido. Era aqu ele o refgio predilecto de Ashley. 
Deixando apenas uma fresta aberta, Scarlett cerrou a Dorta e tentou acalmar o corao, que parecia 
galopar-lhe @entro do peito. Tentou recordar-se do que na vspera,  noite, projectara dizer a 
AshIey, mas j no se lembrava de nada. Teria ela pensado nalguma coisa especial de que 
155 
se houvesse esquecido ou seria Asliley que, segundo o plano arquitectado, deveria tocar-lhe no 
assunto? Assaltou-a um terror mortal, ao verificar que no lograva chegar a concluso nenhuma. Se 
ao menos o corao deixasse de bater daquela maneira, talvez ela conseguisse reconstituir o plano 
que formara na noite anterior. Mas o ritmo surdo e precipitado das pulsaes ainda se acelerou mais 
quando ouviu Ashley dizer um derradeiro adeus e penetr@r no vestbulo. 
Apenas um pensamento lhe acudia ao crebro, o pensamento obcecante de que o seu amor por 
AshIey ultrapassava todos os limites. Amava tudo nele, desde o porte altivo da cabea loura s 
botas que calava, Adorava as suas gargalhadas mesmo quando troava dela, assim como as crises 
de silciosa abstraco em que to frequentemente incorria. Oh, se ele entrasse na biblioteca e a 
tomasse nos braos! Evitar-lhe-ia a necessidade de falar. AshIey amava~a, com certeza. Quem sabe 
se, rezando... Fechou os olhos e ps-se a murmurar,  pressa: 
-Ave Maria, cheia de graa... -Que surpresa to agradvel, Scarlett! A voz de Asliley abafou o 
zumbido que lhe soava aos ouvidos, lanando-a na mais inquietante confuso. Pela porta 
entreaberta, Asliley encarava-a com um sorriso r6nico nos lbios. 
- De quem veio esconder-se aqui9 De Charles ou dos gmeos Tarletons;? 
Sentiu cortar-se-lhe a respirao. Afinal, no passara despercebido a Asliley o xito que ela nessa 
manh obtivera junto dos homens. Encarou-o abertamente e estremeceu ao ver como ele era belo, 
com os seus olhos brilhantes que pareciam ignorar a profunda emoo que a dominava. ln@capaz 
de dizer uma palavra, estendeu a mo e puxou Ashley para dentro da biblioteca. Surpreendido e 
intrigado, o rapaz acedeu ao desejo da s@ia encantadora companheira e entrou. No se lembrava de 
ter visto Searlett to excitada como 
naquele momento, nem se recordava de alguma vez lhe ter notado nos olhos um brilho to intenso. 
Apesar da obscuridade que reinava na sala, pde distinguir a vermelhido que afogueava as faces 
dela. Num gesto maquinal, fechou a porta e tomou as mos de Scarlett. 
-Que aconteceu? - perguntou em voz baixa. Ao sentir nas mos o contacto dos dedos de AshIey, 
Scarlett estremeceu. Tinha chegado o inomento por que 
156 
tanto ansiara. Tudo iria passar-se como ela previra. Cruzavam-se-lhe no esprito mil pensamentos 
incoerentes e, no entanto, no conseguia articular uma s frase. Limitava-se a tremer e a contemplar 
Asbley com um olhar apaixonado. Por que razo no lhe diria ele nada? 
- Que mistrio  este? - inquiriu. - Quer contar-me algum segredo? 
De sbito Scarlett recobrou a fala e, nesse mesmo instante, todas @s lies que durante to longos 
anos a me lhe tinha dado se perderam na bruma do esquecimento. A alma irlandesa, o esprito 
impetuoso, objectivo, de Gerald, falou pela boca dela. 
- S4m, quero contar-te um segredo... Amo-te. Durante longo momento reinou na sala um silncio 
to profundo que se diria que tanto ele como ela tinham cessado de respirar. Scarlett parou de 
tremer. Inundou-lhe o corao uma sensao mista de alegri 'a e de orgulho. Por que no teria ela 
mais cedo recorrido quele processo? Era to simples,  vista dos complicados estratagemas que lhe 
haviam ensinado... Ergueu a cabea lentamente, para fitar AshIey. Os olhos dele exprimiam naquele 
instante incredulidade, consternao e qualquer coisa mais que Scarlett no lograva definir. Que 
seria? J tinha visto uma expresso assim nos olhos de Gerald, num dia em que o seu cavalo 
preferido partira uma perna e ele fora obrigado a mat-lo. Por que teria ela ido buscar uma ideia to 
estpida? E por que seria que AshIey a encarava com ar to estranho, sem dizer nada? Como que 
#
em resposta  sua pergunta muda, AshIey esboou um sorriso afvel, imprimindo  fisionomia uma 
expresso cuidadosamente estudada. 
-Pelo que vejo, ainda no est contente com a sua obra. No lhe basta o elevado nmero de coraes 
que j hoje coleccionou - disse ele, com a sua voz acariciante, mas irnica. - Pretende completar a 
coleco com o meu, no  verdade? Mas bem sabe que o meu corao sempre lhe pertenceu. Foi 
nele at que afiou as unhas. 
As coisas no estavam a correr-lhe bem... No tinha sido aquela reaco que Scarlett previra. Entre 
todas as ideias que lhe tumultuavam no crebro, houve uma que principiou a tomar forma. Fosse 
porque fosse Ashley estava a comportar-se como se julgasse que ela @o fazia mais do que 
procurar divertir-se  sua custa. E, no entanto... AshIey devia saber que no era esse o caso. 
157 
- AshIey... AshIey... dize-me... Tens de me dizer... Por amor de Deus, AshIey, no faas troa de 
mim, agora. P, verdade que o teu corao me pertence? Oh, meu querido, eu... 
AshIey pousou-lhe vivamente a mo nos lbios, deixando cair a mscara. 
- Por favor, Scarlett, abstenha-se de dizer essas coisas. No v que no deve diz-las? No est a 
falar a srio, certamente. Ficar aborrecida consigo prpria por ter falado assim e comigo por lhe 
haver dado ouvidos! 
A rapariga atirou a cabea para trs. Sentiu percorrer-lhe Q corpo um frmito escaldante. 
- Eu jamais poderia ficar aborrecida contigo. AshIey. Amo-te, no receio dizer-to e sei que tu 
retribuis o meu amor, porque... - Calou-seSruscamente. Nunca em toda a sua vida vira uma 
expresso de to profundo embarao. 
- AshIey, tu... tu gostas de mim, no gostas? 
- Sim - respondeu, com voz apagada. - Gosto de ti. Se ele lhe houvesse dito que a odiava, Scarlett 
nem por isso teria ficado mais estarrecida. Avassalada por um receio enorme, agarrou-se ao brao 
de AshIey, incapaz de pronunciar um som. 
-Esqueamos as palavras que dissemos, sim? - sugeriu ele. - Vamo-nos embora 'Scarlett. 
- No - murmurou ela. - No sairei daqui sem que me expliques o que se passa. No queres... no 
queres casar comigo? 
Ele respondeu apenas: -Estou noivo de Melanie. Inconscientemente, Scarlett deixou-se cair numa 
das poltronas 4e veludo. Sentado num tamborete aos ps dela, AshIey conservava-lhe as mos 
prisioneiras entre os seus dedos. No cessava de lhe dizer coisas... coisas que no faziam sentido, 
que ela no lograva compreender. Scarlett tinha a cabea completamente vazia. Os pensamentos 
que ainda momentos antes lhe tumultuavam no esprito haviam desaparecido como por encanto 
deixando no seu lugar o vcuo absoluto, e as palavras @e AshIey no produziam nela mais efeito 
do que a chuva sobre um vidro. Caam em ouvidos surdos. Eram palavras ternas, plenas de 
compaixo, como as que um pai diz a um filho desgostoso, mas Scarlett no as escutava. 
Apenas o nome de Melanie conseguiu cham-la de novo a si. Ao ouvi-lo, ergueu a cabea para 
encarar AshIey e 
158 
surpreendeu nos olhos dele aquela expresso distante que sempre a desconcertava -e uma expresso 
de dio por si prprio. 
-0 meu pai tenciona anunciar o noivado esta noite. Devemos casar-nos brevemente. No lhe disse 
nada porque supus que j soubesse. Pensei que ningum ignorasse... tanto mais que toda a gente 
falava nisso de h alguns anos para c. Nunca imaginei que a Scarlett ... Tem tantos apaixonados... 
Sempre julguei que Stuart ... 
A vida, a sensibilidade, a compreenso comeavam a iluminar de novo o esprito de Scarlett. 
- Mas tu ainda h pguco disseste que gostas de mim... As mos ardentes de AshIey escaldaram as 
dela. 
- Quer obrigar-me a dizer-lhe coisas que a magoaro? 
0 silncio de Scarlett forou-o a prosseguir: -Como hei-de eu faz-la compreender certas realidades 
da vida? n to nova, to irreflectida... Ainda no sabe o que o casamento significa. 
#
- Sei que te amo e  quanto basta. 
- A  que est o seu engano, Scarlett. 0 amor no basta para garantir a felicidade de um casamento, 
quando se trata de duas criaturas to diferentes como ns. Voc exigiria tudo dum homem - o 
corp@ o corao a alma, os pensamentos -e, se os no possuss , considerar-se-ia inf eliz. E eu 
nunca poderia pertencer-lhe inteiramente, Scarlett. Nem a si, nem a qualquer outra mulher. Quanto 
a mim, cntentar-me-ia com o seu amor, com um pouco do seu esprito e da sua alma. No 
reclamaria tudo e a Scarlett acabaria por detestar-me, por votar-me o mais profundo rancor. Odiaria 
todos os livros que leio e a msica, que adoro pois que tanto os livros como a msica me afastariam 
e si, embora por curtos momentos, apenas. E eu... eu... 
-Gosta de Melanie? 
- Melanie possui um temperamento semelhante ao meu. Corre-nos, em parte, o mesmo sangue nas 
veios e compreendemo-nos perfeitamente. Oh, Scarlett! Como eu gostaria de conseguir faz-la 
compreender que s pode haver harmonia e paz num casamento quando entre marido e mulher 
existem certas afinidades! 
J outra pessoa lhe dissera a mesma coisa ainda que por palavras diferentes. Quem teria sido? 
Scariett tinha a impresso de haver ouvido aquela frase um milho de anos antes, mas continuava 
sem lhe apreender o sentido. 
159 
- Mas disse que gostava de mim - insistiu. -No o devia ter dito. Algures no esprito de Scarlett 
brotou urna chama plida que alastrou rpidamente transformando-lhe o crebro numa fornalha de 
dio que a cegava. 
-Contudo, se levou a sua grossaria a ponto de confessar... 
Ele empalideceu. 
- De facto, fui bastante grosseiro. No devia ter dito que gostava de si, estando noivo de Melanie. 
Procedi muito mal consigo, mas creia que ainda procedi muito pior para com el. Devia ter-me 
calado. Ser-me-ia impossvel no, gostar de si, Scarlett. Tem uma vivacidade que eu prprio 
desej.aria possuir, pode vibrar de amor e de dio com uma violncia de que no sou capaz. Aos 
meus olhos,  simples como o fogo e o vento, ao passo que eu... 
Scarlett pensou em Melanie e viu de sbito os seus olhos castanhos e tranquilos, de expresso 
distante, as suas mos pequeninas e delicadas, dentro dos mitenes de renda preta, e imaginou-a 
mergulhada num daqueles transes de abstraco em que era vulgar encontr-la. E ento, explodiu, 
incapaz de conter por mais tempo a clera que a devorava, uma clera semelhante quela que levara 
Gerald a matar um homem e os seus antepassados irlandeses a cometerem actos desonestos que 
haviam expiado na forca. 0 temperamento impetuoso dos O'Haras suplantou a calma dignidade dos 
Robillards, cuja educao esmerada lhes permitia suportarem em silncio as contrariedades da vida 
e os reveses da sorte. 
- Nesse caso, por que nc> diz a verdade9 Nunca pensei que fosse to cobarde! Afinal o que tem  
medo de casar comigo! Prefere unir o seu destino a uma parva que s sabe abrir a boca para dizer 
sim ou no e que lhe dar uma ninhada de crianas to idiotas como ela. Ainda- 
-No consinto que fale assim a respeito de Melanie! -V para o inferno! Quem julga que , para me 
dizer que no consente? Cobarde! Canalha!... Andou a iludir-me, dando-me a entender que casaria 
comigo, que... 
- Seja franca - suplicou AshIey. - Eu alguma vez... Mas Scarlett no queria nada com a franqueza, 
nesse instante, embora reconhecesse a justia das palavras dele. Nem uma s vez Astiley havia 
transposto os limites da amizade, E este pensamento, longe de a acalmar, ainda ati- 
160 
ou mais o seu rancor, o rancor de uma rapariga que se v ferida no seu amor-prprio. Correra atrs 
de um homem que a no amava, que preferia desposar uma enfezada como Melanie! Oh, como 
estava arrependida de no ter seguido os conselhos que a me e a ama tantas vezes lhe haviam dado, 
recomendando-lhe que nunca revelasse a um homem os seus sentimentos a respeito dele nem que se 
tratasse apenas de simpatia. Tudo teria sido prefervel  pesada humilhao porque estava passando 
#
agora! 
Levantou-se dum pulo, com os punhos cerrados. Asliley ps-se de p tambm, dominando-a com a 
sua estatur& 
0 seu rosto exprimia o sofrimento mudo de uma pessoa que se v forada a fazer face s realidades 
da vida, quando essas realidades so tristes e angustiosas. 
- Odi-lo-ei at  hora da morte! Cobarde... infame... infame... 
Desejaria empregar um termo mais violento ainda, mas desistiu de o procurar, pois no lhe ocorria 
nenhum. 
- Scarlett... por favor... - murmurou ele, estendendo-lhe a mo. 
Num acesso de raiva, ela esbofeteou-o com toda a sua fora. No silncio que reinava na sala o rudo 
do bofeto 
ffibito @ rancor de Scarlett soou como uma chicotada. De s dissipou-se e uma dor pungente 
invdiu-lhe o coraG. 
No rosto plido e fatigado de AshIey notavam-se distintamente as marcas avermelhadas dos dedos 
dela. Sem dizer nada, AshIey tomou a mo de Scarlett, levou-a aos lbios e beijou-a. E, antes que 
ela tivesse tempo de falar, saiu da biblioteca, fechando a porta mansamente, atrs de si. 
Scarlett deixou-se cair na poltrona. Os joelhos recusavam-se-lhe a suportar o peso do corpo, tal o 
abalo que sofrera. Asliley tinha-se ido embora e a recordao dos verges que ela lhe deixara no 
rosto persegui-la-ia toda a vida. 
Escutou atentamente o rumor dos seus passos, que se afastavam no vestbulo, at deixar de o ouvir 
por completo e s ento compreendeu a monstruosidade do que fizera. Tinha perdido Astiley para 
sempre. A partir daquele.instante, ele teria razo para a odiar e, sempre que a visse, recordar-se-ia 
certamente da bofetada que apanhara, embora nunca houvesse feito nada que justificasse to veemente 
castigo. 
11 - Vento Levou - 1 
161 
k, - 
"Afinal eu valho tanto como Honey Wilkes", pensou de sbito, lembrando-se da maneira como toda 
a gente, e ela mais do que ningum troava do procedimento de Honey. Viu-a agarrada aos b@aos 
dos rapazes, ouviu as suas risadinhas provocantes, num esforo para chamar sobre si a ateno dos 
homens e sentiu-se igualmente desprezvel. As censuras que a conscincia movia ao. seu 
procedimento ainda a enfureceram mais e um novo acesso de raiva se apoderou dela, de raiva 
contra, si prpria, contra. Ashley, contra o mundo inteiro. 0 dio que sentiu por si mesma estendiase 
agora a todos os outros com a violncia caracterstica duma rapariga imperiosal'de dezasseis 
anos, que v o seu amor desprezado. Na paixo que a avassalava existia apenas uma pequena. 
parcela de ternura; o resto era um amlgama de vaidade e de confiana extraordinria no valor dos 
seus encantos. Agora, que tinha perdido a partida, acima do travo amargo da derrota pairava o 
receio de haver dado espectculo. Ter-se-ia ela tornado to ridcula como Honey W11kes? Quem 
sabe -se naquele momento no estariam todos a critic-la... a rir e a troar da cena que fizera? Esse 
pensamento revoltou-a. 
Pousou a mo numa mesita, ao seu lado sobre a qual repousava uma jarra de porcelana fina, 
amp@rada por dois querubins sorridentes. Contemplou o vaso, absorta. Reinava no aposento um 
silncio to profundo que teve vontade de gritar. Precisava de fazer qualquer coisa se no queria 
enlouquecer. Pegou na jarra e arremessou-@ furiosamente atravs da sala. 0 projctil fez tabela no 
espaldar do sof e foi esmigalhar-se contra o mrmore da lareira. 
-Com franqueza isto agora j  demais! -exclamou uma voz, vinda das @rofundezas do sof. 
Nunca Scarlett tinha experimentado to profundo espanto nem to enorme receio como os que a 
aturdiam naquele instante. A boca secou-se-lhe a ponto de no poder pronunciar uma palavra. 
Segurou-se ao espaldar da poltrona, tremendocomo varas verdes, enquanto Rhett Bufler se erguia 
do sof onde estivera descansando e a cumprimentava com exagerada delicadeza. 
-Alm de ter interrompido a minha sesta com a cena de que fui testemunha involuntria, ainda 
#
pretende atentar contra a minha vida! 
Era bem ele, no havia dvida; no se tratava dum fantasma. Mas, santo Deus, aquele homem tinha 
ouvido tudo! 
162 
Apelando para os resqucios de energia que lhe restavam, Scarlett tentou assumir uma atitude digna. 
- 0 senhor devia ter denunciado a sua presena. -Acha que sim? -Arreganhou os lbios num sorriso 
que deixou entrever os dentes brilhantes e lanou-lhe um olhar sarcstico. -No entanto, no fui eu o 
intruso. Vi-me forado a esperar pelo senhor Kennedy e, persuadido de que talvez no fosse persow 
grata no jardim, tive a feliz ideia de dissimular a minha presena indesejvel num local onde 
contava no ser incomodado. Mas, afinal, foi o que se viu! 
Encolheu os ombros e sorriu novamente. Scarlett sentiu reacender-se dentro de si a clera que 
pouco antes a havia subjugado 'ao pensar que aquele indivduo, grosseiro e impertinente, tinha 
escutado todo o dilogo que travara com AshIey, tinha surpreendido palavras de que ela prpria se 
sentia j to envergonhada que preferia a morte a t4as pronunciado. 
-Espio... -vociferou Scarlett, furibunda. -Os espies ouvem por vezes coisas bastante curiosas e 
instrutivas - disse ele, a rir. - A minha experincia no captulo da espionagem tem-me valido... 
-0 senhor no  um cavalheiro! -Opinio absolutamente justificvel -redarguiu Rhett jocosamente. - 
Quanto a si, deixe-me dizer-lhe que tambm no a considero uma senhora. - 0 aspecto de Scarlett 
devia parecer-lhe cmico, pois que desatou a rir novamente ' em gargalhadas quase silenciosas. - 
Nenhuma mulher pode atribuir-se a classificao de verdadeira senhora quando faz e diz coisas 
como aquelas a que eu acabo de assistir. No entanto, devo confessar que s muito raramente as 
senhoras conseguem impressionar-me. Adivinho-lhes facilmente os pensamentos e verifico que, na 
maioria das vezes, ou lhes falta a coragem, ou a sua educao as inibe de exteriorizarem os 
pensamentos. E isso acaba por se tornar enfadonho. Consigo, porm, o caso  diferente, menina 
O'Hara. Considero-a dotada de carcter quase excepcional, admirvel, perante o qual me curvo e 
tiro o chapu. No consigo compreender os encantos que o elegante senhor Wilkes pode ter para 
uma criatura de temperamento to imPetuoso como o seu. 0 senhor Wilkes devia agradecer a Deus, 
de joelhos, a graa de lhe ter enviado uma rapariga com 
163 
tanta... como foi que ele disse?... com tanta vivacidade. Todavia, como  um pobre de esprito... 
-Tomara o senhor chegar-lhe aos calcanhares! - bradou ela, enraivecida. 
-E eu que julguei t-la ouvido dizer que o odiaria at  morte! - ripostou Rhett Butler, recostando-se 
no sof, a rir. 
Scarlett t-lo-ia morto ali mesffi- se pudesse. Mas como no podia, saiu da biblioteca com toda a 
dignidade e'bateu a porta atrs de si. 
Subiu as escadas to depressa que quando chegou ao ltimo lano de degraus julgou que iria 
desmaiar. Parou e agarrou-se ao corrimo. 0 corao pulsava-lhe com tal violncia, sob os efeitos da 
clera, do despeito e do sentimento de revolta que a dominava, que parecia querer saltar-lhe do 
peito. Procurou respirar fundo, mas a ama tinha-lhe apertado demais o espartilho. Se desmaiasse e a 
encontrassem ali cada, ao cimo dos degraus 'que pensariam dela? Pensariam o pior, certamente, 
no s Ashley e aquele ignbil Rhett Butler, mas tambm as outras raparigas, que a invejavam 
tanto. Pela primeira vez na sua vida desejou trazer consigo o frasquinho de sais que nunca 
abandonava a maioria das mulheres. Contudo ela nunca usara nenhum, pois que sempre se 
orgulhava e jamais ter sentido vertigens ou receado perder os sentidos. Naquele momento, porm, 
tinha de evitar desmaiar, custasse o que custasse. 
A pouco e pouco, o seu mal-estar foi-se desvanecendo. Assim que se sentisse completamente refeita 
das emoes por que acabava de passar, deslizaria silenciosamente para 
* gabinete contguo ao quarto de India, a fim de desapertar 
* espartilho. Em seguida iria, p ante p, deitar-se junto das outras raparigas que dormiam nas 
camas e nos sofs. Tentou dominar as pulsaes do seu corao  dar  fisionomia uma expresso 
mais tranquila. Tinha a certeza de que, naquele instante, o seu aspecto fazia lembrar o de uma 
#
demente. Se alguma das que repousavam na alcova de India se encontrasse acordada e a visse 
aparecer com o rosto to transtornado, decerto desconfiaria de que qualquer coisa de grave ou de 
escandaloso se teria passado. E era preciso que ningum suspeitasse de nada. 
Atravs da janela do patamar podia ver os homens ainda recostados nas cadeiras, sob o arvoredo e  
sombra 
L 
do caramancho. Como os invejava! Desejaria ser homem, pois que se o fosse, jamais conheceria os 
desgostos que acabava de sofrer e que continuavam a tortur-la. Quedou-se a contempl-los com os 
olhos a arder e as fontes latejantes. De sbito, ouvi@ o galope veloz dum cavalo que se aproximava 
ao longo da alameda. fazendo estalar sob as patas a areia que juncava o solo. Chegou at ela uma 
voz inquieta, perguntando qualquer coisa a um dos escravos e de novo se elevou no silncio da 
tarde o tropel das ferraduras sobre o leito da alameda. A certa altura, Scarlett viu surgir no 
rectngulo da janela um cavaleiro, que atravessou o relvado vicejante, em direco aos carvalhos. 
"Um convidado que chega tarde", pensou Scarlett. Mas, se assim fosse, como se atreveria ele a pisar 
a relva fresca, de que India tanto se orgulhava? No conseguiu reconhec-lo, porm, quando o viu 
desmontar e agarrar-se freneticamente ao brao de John Wilkes, compreendeu que o homem tremia 
de comoo. Largando os copos e as ventarolas sobre a mesa, os convivas aproximaram-se do 
recm -vindo, cercando-o por todos os lados. Apesar da distncia a que estavam, Searlett pde ouvir 
o rumor confuso das exclamaes e pressentiu o frmito de emoo que se apoderou de todos 
aqueles homens. Dominando o tumulto que de sbito se estabelecera, Stuart Tarleton soltou um 
brado que atroou os ares, como se estivesse numa caada. 
- Iii-in-pi! Scarlett acabava de ouvir nesse momento, sem que o soubesse, o grito dos rebeldes. 
Seguido pelos Fontaines, os quatro Tarletons destacaram-se do grupo e precipitaram-se na direco 
das cavalarias, chamando: 
- Jeems! * Eli, Jeems! Sela os cavalos! "Deve haver fogo em casa de algum", pensou Searlett. 
Fosse como fosse, porm, i)recisava de voltar para o quarto antes que a sua ausncia se tornasse 
notada. 
0 corao j no lhe pulsava com tanta violncia. Nos bicos dos ps, acabou de subir a escada e - 
avanou pelo corredor silencioso. Um torpor pesado e tpido reinava por toda a parte, como se a 
prpria casa tambm estivesse a repousar, aguardando que a noite tombasse, para viver algumas 
horas de mgico esplendor, ao som da msica e  luz das velas. Scarlett abriu cautelosamente a 
porta do quarto de vestir e entrou. Ainda no tinha largado a maa- 
165 
neta, quando, pela porta entreaberta que dava acesso  alcova lhe chegou aos ouvidos a voz abafada 
de Honey Wilke@. 
- Scarlett tem-se portado hoje duma maneira indecente 
- segredava ela. 
0 corao de Scarlett retomou o galope desordenado que ainda momentos antes abandonara. 
Maquinalmente, ela levou a mo ao peito, como se, com aquele gesto, pudesse abrandar o ritmo das 
pulsaes. "(>s espies ouvem por vezes coisas bastante curiosas e instrutivas", dissera-lhe Rhett 
Butler, alguns minutos apenas. Mas a memria dela parecia ter olvidado j estas palavras. Quedouse 
atrs da porta, na dvida. Que deveria fazer? Tornar a sair ou revelar a sua presena, a fim de 
humilhar Honey, como ela merecia? Pensou por instantes e decidiu escutar o que viria a seguir. E 
quando ouviu a voz de Melanie nem uma parelha de mulas conseguiria arranc-la do focal em que 
se encontrava. 
- Oh, Honey, por amor de Deus! No sejas maldosa. Scarlett  uma rapariga alegre, cheia de vida. 
Eu acho-a encantadora -declarou a noiva de AshIey. 
"Oh!" exclamou Searlett, de si para si, cravando as unhas no espartilho. "Era o que faltava, ouvir 
aquela papa-aorda tomar a minha defesa. 
As palavras de Melanie mortificaram-na mais do que a maledicncia de Honey. Scarlett nunca 
depositara confiana nas mulheres, e,  excepo da me, no reconhecia nelas intuitos que no 
#
fossem ditados pelo egosmo. Melanie sabia perfeitamente que AshIey estava enamorado dela e por 
isso no tinha relutncia alguma em se mostrar indulgente e compreensiva: Searlett viu na atitude 
da rival apenas uma maneira de alardear a sua conquista e de apregoar bondade. Scarlett j por mais 
duma vez tinha recorrido quele processo, quando ' em presena dos seus admirado---res, se vira na 
obrigao de falar a respeito de outras raparigas. E os homens, pobres tolos, deixavam-se cair na 
esparrela, ficando muito convencidos de que ela era duma generosidade sem limites e possua um 
corao de pomba. 
-  preciso que sejas cega para dizeres uma coisa dessas -retrucou Honey elevando a voz. 
- Fala mais baixo, @4oney - recomendou Sally Munroe -se no queres que toda a gente te oua. 
Honey Wilkes baixou a voz e prosseguiu: 
166 
- Vocs no viram o descaramento com que ela se atirava a todos os homens que lhe passavam ao 
alcance? Imaginem que nem sequer deixou escapar o senhor Kennedy, que  o namorado da irm. 
Nunca vi uma coisa assim! E, no contente com isso, tambm comeou a fazer olhos brilhantes a 
Charles -declarou Honey, exasperada.-Ora vocs sabem muito bem que Charles e eu... .-Afinal, 
sempre  verdade? -indagaram, em coro, vrias vozes. 
-- n' mas, por favor, no espalhem a notcia... por enquanto ainda no convm. 
ouviram-se risadinhas abafadas e as molas da cama gemeram, como se as outras raparigas se 
tivessem lanado sobre Honey. Melanie apre,,@sou-se a manifestar o prazer que teria em ver 
Honeycasada com o irmo. 
-Pois eu no terei o mnimo prazer em que Scarlett. venha a ser minha cunhada-disse Hetty 
Tarleton, em tom agressivo. - P, a rapariga mais desavergonhada que eu conheo. Est praticamente 
noiva do meu irmo Stuart. Brent afirma que ela no lhe liga. muita importncia, mas eu creio que  
por ter cimes. 
- Se querem que lhes diga a minha opinio - murmurou 
Honey, com ar misterioso e importante - s h um homem por quem ela realmente se interessa. 
 por Ashley! 
Enquanto no quarto contguo as trs amigas - Melanie Hamilton Sally Munroe e Honey Wilkes - 
prosseguiam 
na sua tr@ca de confidncias e se alvejavam mutuamente com um sem-nmero de perguntas, 
Scarlett ficou imvel, atrs da porta, paralisada de terror e de humilhao. Honey era disparatada e 
tola, metia-se  cara dos homens, mas, em relao s mulheres possua uma intuio a que Scarlett 
nunca at ento t1@ha dado o justo valor. o profundo golpe que tanto Asliley como Rliett. Butler 
haviam vibrado no seu orgulho era como que uma simples alfinetada comparado 
com o que estava agora a sofrer. De maneira geral, podia-se confiar na discrio dos 
homens, ainda que fossem da qualidade de Rhett Butler, mas Honey Wilkes era MUlher e a lngua 
dela assemelhava-se por vezes ao badalo dum sino, Se comeasse a falar antes de anoitecer j toda a 
regio estaria a par da hist@ia! E Gerald que ainda na vspera lhe dissera que no estava disposto 
@ permitir que fizessem troa da filha! Conio toda a. gente iria met-la a 
ridculo e zombar dela, assim que a novidade se espalhasse. 
167 
As gotas de suor frio comearam a escorrer-lhe dos sovacos, ao longo do corpo. 
Tranquila e comedida, a, voz de Melanie elevou-se acima das restantes. 
-Honey, tu sabes que isso no  verdade. Por favor, no sejas maledicente -murmurou em tom 
levemente recriminativo. 
- Po, eu di 
Is go-te que  verdade, MeIly, e se tu no vivesses to preocupada em descobrir boas qualidades 
nas pessoas que nunca as possuram, partilharias tambm da minha opinio. E  muito bem feito 
para Scarlett. Ela gosta de armar intrigas e de roubar os namorados s outras, mas desta vez saramlhe 
as contas furadas, Roubou Stuart a India e agora nem sequer faz caso dele. E ainda hoje tentou 
repetir a graa com o senhor Kennedy, com Asliley e com Charles... 
#
"Tenho de voltar para e-asa quanto a-ntes!" pensou Scarlett. "No posso continuar aqui nem mais 
um minuto!" 
Se houvesse um meio qualquer, nem que fosse por magia, de se fazer transportar a Tara naquele 
momento, Scarlett no teria hesitado. Queria encontrar-se de novo junto da me, para a ver, para a 
sentir ao p de si,- para lhe abraar as pernas e chorar no seu regao, para lhe confessar as 
humilhaes que sofrera. Mais uma palavra s e Searlett atirar-se-ia sobre Honey, para lhe arrancar 
s mos-cheias os cabelos desbotados, e cuspiria em pleno rosto de Melanie para lhe mostrar o 
aPreo em que linha a sua falsa caridade. Mas j fizera bastantes figuras tristes nesse dia e a  que 
estava o mal. Portara-se como uma rapariga sem educao e merecera amplamente o castigo, que 
acabava de receber. 
Apanhou a, roda da saia. para que nao roasse, e saiu do quarto de vestir, recuando furtivamente, 
como um-animal selvagem. "S me resta regressar a casa" -dizia consigo, avanndo rapidamente 
ao longo do corredor, deixando atrs de si as portas fechadas dos quartos silenciosos, "S me resta 
regressar a casa". 
Desceu a es@cada a correr e ia atravessar o vestbulo deserto quando um pensamento a deteve. No 
podia ir para casa, assim sem mais nem menos! Seria como que confessar Publicamente a sua 
derrota! No, a fuga no remediaria nada, Pelo contrrio: agravaria a situao. Tinha de suportar 
tudo at ao fim, com estoicismo: a male- 
168 
dicncia das outras raparigas, a sua prpria humilhao, o duro fardo da mgoa que a atormentava! 
Fugir serviria apenas para dar novas armas s suas inimigas. 
Martelou. com os punhos cerrados as altas colunas brancas desejando possuir a fora de Sanso 
para provocar a derrocada dos Doze Carvalhos e a morte de todos os que a moradia abrigava. Faria 
pagar bem caro a taa de fel que a tinham obrigado a beber. Havia de lhes mostrar aquilo de que ela 
era capaz quando lhe desafiavam a ira. Igndrava ainda o processo de lograr os seus intentos, mas 
acabaria por descobrir um. Retribuiria- cam juros o mal que lhe tinham feito, 
Naquele momento, AshIey j no era Ashley... Deixava de ser.o homem estranho que amava, para 
ser apenas um dos membros da famlia Wilkes, um dos moradores dos Doze Carvalhos, um dos 
habitantes da comarca. A todos ela detestava, por terem rido  sua custa, por terem vibrado to rude 
golpe no seu orgulho. Aos dezasses anos,-a vaidade  rnais forte do que o amor e no corao 
incandescente de 9carlett apenas havia lugar agora para um dio implacvel. 
"No vou para casa", decidiu por fim. "Ficarei aqui at que a festa acabe, para me ving@r de todos. 
Nem direi nada  minha me. Nem a ela, nem a ningum". 
Reconfortada pela perspectiva das suas represlias, dispunha-se a voltar para dentro e subir 
novamente a escada a fim de se ir deitar noutro quarto, quando se lhe deparo@u Charles Hamilton, 
que entrara no vestbulo pela parte das traseiras. Ao avist-la o rapaz correu ao Seu encontro. Tinha 
os olhos arregal@dos e o rosto vermelho que nem um pimento. 
- Sabe o, que aconteceu? - gritou, excitadssimo, antes de chegar junto dela. - No ouviu a ltima 
novidade? Paul Wilson acaba de nos trazer a notcia. de que... 
Estacou, sem flego, em frente de Scarlett, que o fitoU sem dizer palavra. 
- 0 senhor LincoIn convocou homens para servirem nas fileiras, isto , soldados... setenta e cinco 
mil voluntrios.  quanto ele pede! 
Abrham LincoIn que no voltasse  balha. Por que seria que os homens se no interessavam 
realmente por coisas srias? Teria aquele idiota a pretenso de a impressionar com a narrativa das 
proezas do senhor LincoIn, jus- 
169 
tamente numa altura em que o corao dela estalava de dor e a sua reputao estava quase perdida? 
Charles observou-a atentamente. Scarlett estava branca como a cal da parede. Os seus olhos verdes 
fulgiam como esmeraldas. Nunca vira unia expresso daquelas no rosto duma rapariga e assustouse. 
- Desculpe, Searlett. Sou um bruto - dizia ele. - Devia ter-lhe dado a noticia com mais cautela, mas 
a verdade  que me esqueo sempre de que as senhoras so duma delicadeza extrema e no podem 
#
sofrer emoes fortes assim de chofre. Perdoe-me, sim? Est a sentir~se mal? Quer que lhe v 
buscar um copo de gua? 
- No - respondeu Searlett esboando um sorriso. 
- Vamos sentar-nos num banco? - sugeriu ele, tomando-lhe o brao. 
Ela aquiesceu, inclinando a cabea afirmativamente. Cbarles ajudou-a a descer os degraus e 
amparando-a carinhosamente, conduziu-a atravs do relvado at ao banco de ferro existente sob um 
carvalho frondoso que se erguia defronte da casa. " fantstico! Como as mulheres so frgeis e 
delicadas", pensou Charles. "Basta uma simples referncia  guerra para desmaiarem!" Esta ideia 
despertou nele uma fora protectora e redobrou de atenes para com Scarlett: tinha uma expresso 
to esquisita, o seu rosto plido possua beleza to deslumbrante que Charles sentiu o corao 
comear-lhe aos saltos dentro do peito. T-la-ia abalado a tal ponto o receio de ele ir para a guerra? 
No. Seria pura presuno imaginar uma coisa dessas. Mas por que o fitaria ela assim, com um 
olhar to brilhante? Por que lhe tremiam tanto as mos, entre as quais amarfanhava o fino leno de 
renda? E os seus clios sedosos, palpitantes de amor e de timidez, como os das heronas de tantos 
romances que lera, por que estremeceriam? 
Pigarreou trs vezes para falar e das trs vezes nem um som lhe saiu da garganta. Baixou os olhos 
para no ver os de Searlett que o fitavam como se ele no estivesse ali. 
De sbito, Searlett concebeu um plano ousado. "Charles  muito rico", pensou. "No tem ' parentes 
que me macem e reside em Atlanta. Se eu me casar com ele quanto antes, Asliley ser forado a 
crer que eu apenas pretendia divertir-me  sua custa... que foi tudo brincadeira da minha parte. 
E,Honey ter um desgosto terrvel. Nunca mais arranjar.outro namorado e todas as raparigas 
zombaro 
170 
dela. Melanie tambm deve fica'r pesarosa, visto adorar o irmo, e Stuart e Brent Tarleton esses 
ficaro piores do que baratas assopradas... Scarle no sabia explicar por que motivo gostaria de 
ferir tambm os dois gmeos a no ser talvez para se vingar directamente da maledicn@ia de 
Hetty. Ficaro todos desiludidos e mortos de inveja, quando me virem aqui de visita, com uma 
carruagem luxuosa, vestidos riqussimos e uma casa minha, s minha. Ningum mais se atrever a 
fazer troa de mim". 
- Evidentemente que haver luta - conseguiu Charles articular por fim, aps urna srie de tentativas 
infrutferas. 
- Mas tenha pacincia, menina Scarlett. Obrigaremos os yankees a deporem as armas dentro dum 
ms, acredite. Derrot-los-emos em toda a linha. Por nada deste mundo eu perderia uma ocasio 
destas. Receio bem que o baile resulte num fracasso. 0 Regimento foi convocado para uma reunio 
em Jonesboro logo  noite e os Tarletons j partiram a espalhar a not'lcia. Calculo @ decepo que 
as raparigas vo sofrer... 
- Oh! - murmurou ela,  falta de melhor; mas no foi preciso mais. 
Ia recobrando a calma a pouco e pouco e principiava a ordenar as ideias, tentando raciocionar com 
clareza. Sentia as emoes embotadas por um manto glido, que a inibia de reagir, e pensou que 
nunca mais voltaria a experimentar na vida uma sensao de calor. Por que no havia de aceitar 
para marido aquele rapaz tmido, mas simptico? Valia tanto como qualquer outro; alis, isso 
verdadeiramente no lhe interessava, Nem que vivesse cem anos, -jaipais voltaria a gostar dum 
homem. 
-@@_Ainda no sei por qual optar, se pela Legio da Cavalaria do Sul, comandada pelo senhor 
Wade Hampton, se pela Guarda de Atlanta. 
- Oh! - murmurou novamente Scarlett. Os olhog dela cruzaram-se com os de Charles e desta vez foi 
o rapaz que baixou os seus. 
- Quer esperar por mim, menina Scarlett? Partiria radiante se soubesse que a encontraria  minha 
espera, quando voltasse da guerra! 
Charles ficou com a respirao cortada, aguardando a 
resposta dela, observando a maneira como os seus lbios se comprimiam numa linha suave. S 
#
ento eparou nas sombras que se lhe formavam aos cantos da boca e estre- 
171 
meceu, ao pensar no prazer que decerto sentiria se a beijasse. Scarlett aconchegou uma das mos 
hmidas de transpirao, entre os dedos tpidos de Chrles. 
-Eu preferiria no esperar- respondeu, curvando a cabea, pudicamente. 
Charles encarou-a boquiaberto, conservando a mo dela apertada na sua, enquanto Scarlett o 
observava entre as plpebras semicerradas, comparando-o mentalmente a um sapo gigante. 0 rapaz 
balbuciou mei;a.dzia de sons incompreensveis, abriu e fechou a boca vrias vezes, e de novo as 
faces se lhe tingiram duma vermelhido intensa. 
-Ser possvel que me ame, menina Scarlett?-perguntou finalmente. 
Ela no respondeu, limitando-se a deixar pender a cabea para o peito. De novo Charles mergulhou 
num transe esttico e na mais intensa perplexidade. Talvez um homem no devesse fazer daquelas 
perguntas a uma rapariga, E talvez uma rapariga no devesse responder naquelas circunstncias. 
Como nunca at ali conseguira reunir coragem para criar situaes anlogas, Charles no sabia que 
partido tomar. 0 seu desejo era gritar, cantar, beijar Searlett, fazer piruetas sobre o relvado, dizer a 
toda a gente, a brancos e a pretos, que ela o amava. Mas contentou-se em lhe apertar a mo a ponto 
de lhe cravar os anis na carne. 
Quer casar comigo j, menina Scarlett? Hum! - respondeu ela, evasivamente, alisando as pregas da 
saia. 
- Casar-nos-emos ao mesmo tempo que Melan... -No, isso no -atalhou ela vivamente, lanandolhe 
um olhar ameaador. 
Charles compreendeu que tinha cometido outro erro. Naturalmente, as raparigas preferiam uma 
cerimnia s para elas... no queriam partilhar com ningum, salvo com os respectivos noivos, a 
glria desse dia. Como Searlett era gentil a ponto de o ajudar a vencer o seu acanhamento! Se ao 
menos j fosse noite, a escurido dar-lhe-ia coragem e ento talvez se atrevesse a beijar-lhe a mo e 
a murmurar as palavras de amor que ansiava por lhe dizer. 
-Quando poderei falar ao seu pai? -Quando auiser -respondeu Scarlett, na esperana de que Charles 
lhe largasse a mo, antes que a dor a obrigasse a pedir-lhe esse favor. - Mas quanto mais cedo for, 
melhor. 
Charles levantou-se dum pulo. Scarlett chegou a recear 
172 
que ele fosse dar uma cambalhota, para exteriorizar o seu entusiasmo. 0 rapaz contemplou-a com 
um olhar radiante, em que transparecia toda a pureza e simplicidade da sua alma. Nunca ningum a 
tinha fitado daquela maneira nem nenhum outro homem deveria ter ocasio de a mirar assim. 
Scarlett, porm, ficou indiferente notando apenas a estranha semelhana de Charles com @m 
bezerro. 
- Vou procurar o seu pai imediatamente - disse ele, com o rosto iluminado por um sorriso. - No 
quero esperar. nem mais um minuto. Desculpe-me, sim... minha querida? 
Custou-lhe a pronunciar a ltima palavra, mas assim que ela lhe soou aos ouvidos, repetiu-a, com 
manifesta satisfao. 
- Est bem - respondeu Scarlett. - Eu aguardarei aqui o seu regresso. Esta sombra  to agradvel! 
Charles afastou-se, atravessou o relvado e desapareceu atrs da casa. Scarlett ficou szinha sob o 
carvalho rumorejante. Das cavalarias saa um fluxo ininterrupto de cavaleiros seguidos pelos seus 
criados pretos, que galopavam veloz@nente para no perderem contacto com os seus senhores. Os 
irmos Munroes passaram como flechas, montando g*netes, que pareciam voar com o ventre a rasar 
o solo, e acenando com os chapus. Os Fontaines e os Calverts desf,laram uns atrs dos outros em 
direco  estrada, soltando gritos estridentes. Os quatro Tarletons atravessaram o relvado a trote 
largo e, quando iam a passar em frente de Searlett, Stuart gritou-lhe: 
-A me vai vender-nos os cavalos! li-aii-hi! -Nuvens de poeira levantavam-se sob os cascos dos 
animais. Os Tarletons sumiram-se ao longe. Scarlett ficou de novo s. 
Diante dela a morada branca, com as suas colunas, parecia distanciar-se numa reserva plena de 
#
dignidade. Ao contrrio do que planeara, aquela casa nunca chegaria a ser sua. No seria ela que 
atravessaria o limiar nos braos de AshIey. Oh, Ashley, AshIey! Que mal fiz eu? Vencendo as 
barreiras do amor-prprio ultrajado e duma ndole calculista, algo vibrou dentro dela, causando-lhe 
mgoa pr(yfunda. Experimentou uma comoo intensa, mais forte do que o seu egosmo atroz 'do 
que a sua vaidade incomensurvel, marejando-lhe os olhos de lgrimas. Amava AshIey, sabia que o 
amava, e s quando viu Charles sumir-se na curva da alameda pde avaliar bem a intensidade da 
paixo que a dominava. 
173 
7 
No breve espao de duas semanas, Scarlett desposou Charles liamilton que, dois meses depois a 
deixou viva. Depressa a rapariga se viu livre dos la@os que havia contrado com to pouca 
prudncia e tanta precipitao; contudo, jamais voltaria a conhecer a despreocupada liberdade dos 
tempos de solteira. A viuvez seguiu de perto o matrimnio, mas Scarlett no tardou a verificar, com 
horror, que a maternidade tambm no se faria esperar. 
Quando, mais tarde, tentava evocar os ltimos dias de Abril daquele ano de 1861, deparava-se-lhe 
sempre a impossibilidade de recordar pormenores. A poca e os acontecimentos pareciam esbatidos 
numa bruma distante, como que fazendo parte dum pesadelo horrvel, em que no se vislumbrava 
um fundo de verdade nem sequncia lgica. Iamais conseguiria preencher as iacunas da sua 
memria, ao relembrar aquele perodo. Especialmente vagas eram as suas recordaes do tempo 
decorrido entre o momento em que aceitara Charles e o dia em que casara. Duas semanas, apenas! 
Um Poivado to curto seria impossvel em tempo de paz. Normalmente, o decoro exigia o intervalo 
dum ano ou, pelo menos ' de seis meses. Mas a guerra devastava o Sul. Os acontecimentos 
desenrolavam-se vertiginosamente, como que acelerados por um vento de tempestade. A cadncia 
suave dos,dias de outrora havia desaparecido. Ellen torcera as mos, desesperada, e pedira  filha 
que no tivesse pressa, que reflectisse bem, antes de decidir. Mas Scarlett no prestara ateno s 
splicas da me. Tinha de casar, quanto antes. Dentro de duas semanas. 
Sabia que o casamento de AshIey, marcado para o Outono, tinha sido antecipado para o primeiro 
dia de Maio, a fim de que ele pudesse partircom o Regimento, logo que fosse chamado a prestar 
servio, e resolveu o seu para o dia anterior. Ellen protestou, mas Charles, impaciente por se juntar 
s tropas de Wede Hampton, na Carolina do Sul, defendeu a causa com um ardorque lhe era pouco 
habitual e Gerald fez coro com eles. Estava excitado com a ideia da guerra e encantava-o a escolha 
que a filha tinha feito. Alm disso, quem era ele para obstar  realizao dos desejos de dois jovens 
que se amavam, numa altura em que j se tra- 
174 
vavam as primeiras escaramuas? Perplexa com o rumo que os acontecimentos estavam a tomar, 
Ellen acabou por ceder, como cederam multas outras mes. 0 mundo tranquilo, no qual at ento 
tinham vivido sofrera uma reviravolta completa' e as suas splicas, `preces e conselhos nada podiam 
contra as foras aue as arrastavam. 
0 Sul vibrava de entusiasmo e de exaltao. Era do conhecimento de todos que bastaria uma batalha 
para pr termo s hostilidades. Os mancebos corriam a alistar-se no Regimento, receosos de no 
chegarem a tempo e apressavam-se a desposar as namoradas, antes de embarcarem Dara a Virgnia, 
a fim de combaterem os yankees. Celebravam-se dezenas de casamentos de guerra. No havia 
tempo para chorar os que partiam. Os sulistas viviam horas de terrvel ansiedade, atarefados com os 
preparativos para a luta, numa efervescncia incessante, que lhes no dava oportunidade para se 
preocuparem com as ideias tristes, ou pensamentos profundos. As mulheres confeccionavam 
uniformes, faziam meias de l e enrolavam ligaduras, enquanto os homens recebiam instruo 
militar e se exercitavam em tiro ao alvo. Comboios cheios de soldados atravessavam diariamente 
Jonesboro, a caminho de Atlanta e da Virginia, Alguns destacamentos trajavam os garridos 
uniformes das seces especiais da milcia social, em que predominavam o vermelho, o verde e o 
azul-claro; outros grupos, mais pequenos, envergavam camisolas grosseiras e gorros de peles; alm 
destes, havia ainda vrios esquadres cujos componentes no usavam fardamentos, apresentando-se 
#
vestidos com fatos de boa qualidade e camisas de linho fino. Apesar de se encontrarem mal 
treinados e de possurem equipamento mais do que deficiente, todos eles deliravam de entusiasmo, 
como se fossem para um piquenique. A passagem daqueles homens, a caminho da frente de batalha, 
semeou o pnico entre os rapazes da comarca, os quais recearam que a guerra acabasse antes de 
poderem chegar  Virgnia e envidaram todos os esforos no sentido de activar a partida do 
Regimento. 
Foi no meio desta agitao que decorreram os preparativos: para as bodas de Scarlett.'E, sem quase 
dar por isso, ela encontrou-se vestida com o traje nupeial de Ellen, descendo pelo brao do pai a 
larga escadaria de Tara para defrontar a multido de convidados que enchia a cas@. Mais tarde, 
Searlett relembrava como num sonho as centenas de 
175 
velas que brilhavam nas paredes, o rosto terno, levemente inquieto, de Ellen, cujos lbios se 
moviam numa prece silenciosa pela felicidade da filha, a face rubicunda de Gerald, transbordante de 
lcool e de orgulho, por ver Scarlett casar com um homem que, alm de ser rico pertencia a uma das 
melhores familias de Atlanta e, ao'fundo dos degraus, a figura aprumada de Ashley, que dava o 
brao a Melanie. 
Ao reparar na expresso que ele tinha estampada no rosto, Scarlett pensou: "Nada disto se est a 
passar, realmente. 1@ tudo um sonho, um pesadelo que s terminar quando eu acordar. Tenho de 
pensar noutra coisa senao ainda desato aos gritos em frente desta gente toda. @las eu no pQsso 
pensar agora. No. Pensarei mais tarde, quando me sentir melhor, quando os olhos dele estiverem 
bem longe dos meus". 
De facto, parecia um sonho, o trajecto entre as duas alas de convidados sorridentes, o rosto escarlate 
de Charles, as suas palavras balbuciadas, e as respostas dela, to incisivas to frias. Depois, foram 
as felicitaes, os abraos, os dis@ursos o baile... tudo, tudo como num sonho. At o beijo qu@ 
Asliley lhe deps na face e as palavras que Melane lhe segredou ao ouvido: "Agora, sim, somos 
realmente irms". At a comoo causada pelo desmaio da volumosa e ultra-sensvel Pittypat 
Hamilton, tia de Charles, se lhe afigurou irreal. 
Contudo, quando os brindes findaram e o baile terminou, quando os primeiros alvores da 
madrugada surgiram no horizonte, quando todos os convidados de Atlanta, que Ellen conseguira 
acomodar em Tara e no barraco do capataz, foram deitar-se nas camas, sofs e colches 
espalhados pelo cho, e os vizinhos se retiraram para as suas casas, a fim de repousarem um pouco 
antes de tomarem o caminho dos Doze Carvalhos onde iriam assistir ao casamento de Asliley com 
Melanie o sonho desfez-se como uma bola de sabo para dar lug@r  realidade crua e simples. E 
essa realidade era nem mais nem menos do que Charles; vermelho que nem um pimento 
emergindo do quarto de vestir em camisa de noite 'te@tando evitar o olhar estupefacto que 
Scarlett lhe lanou por cima do lenol aconchegado ao. pescoo. 
Evidentemente, Scarlett sabia que era costume marido e mulher partilharem do mesmo leito; 
contudo, nunca esse 
176 
pensamento a apoquentara. Achava natural que o pai e a me dormissem juntos 'mas jamais se 
imaginara na mesma situao.. S ento pde avaliar ao certo aquilo a que o seu procedimento 
irreflectido a havia exposto. Horrorizava-a a ideia de que aquele homem, que mal conhecia e que na 
realidade nunca desejara desposar ia deitar-se na sua cama, quando ela comeava j a arr@penderse 
do seu acto precipitado e a sentir a angstia de haver perdido Asliley para sempre. E, quando 
Charles se aproximou, hesitante, ela murmurou, com voz surda: 
- Se te aproximares de mim, gritarei com quanta fora tiver. Vai-te embora. No te atrevas a tocarme, 
nem que seja s com um dedo! 
Charles Hamilton passou a sua noite de npcias sentado 
numa cadeira de braos, a um canto do aposento. No se considerou infeliz por isso, pois que 
compreendeu, ou 
julgou compreender, a reaco da noiva, que supunha natural numa rapariga pudica e recatada. No 
#
se importaria de esperar at que aquela crise de terror se dissipasse. Contudo... - Suspirou, 
procurando uma posio mais confortvel -...tinha to pouco tempo, antes de partir para a guerra... 
Por muito que a houvesse atormentado o pesadelo das suas npcias, o do casamento de Asliley no 
a atormentou menos. Trajando o vestido verde-ma "do dia seguinte", Scarlett encontrou-se no 
vestbulo dos Doze Carvalhos, profusamente iluminado i)or centenas de velas, perante a mesma 
multido amiga da noite anterior. Como uma sonmbula, assistiu  transfigurao do rosto sem 
artifcio de Melanie Hamilton, o qual se inundou de alegria a ponto de parece r quase belo no 
momento em que a cerimnia atingiu o ponto culminante. AshIey estava perdido para sempre. 0 seu 
Asliley. 0 seu, no. Agora j no era seu. E t-lo-ia sido, alguma vez? Tudo aquilo lhe fazia uma 
confuso tremenda. Tinha o crebro to exausto to desnorteado, que j mal conseguia pensar. 
Asliley rifessara-lhe que a amava, mas preferia casar com outra. Porqu? Debalde Scarlett se 
esforou por descobrir o motivo. Despo@sando Charles, fizera calar as ms lnguas. Mas que 
lucrara com isso? 0 facto, que a certa altura se lhe afigurara de to vital importncia, 
apresentava@se-lhe agora completamente destitudo de interesse. S Ashley contava na sua 
vida. Contudo, Ashley abandonara-a e, se .m sabercomo, ela 
12 - Vento Levou - I 
177 
encontrava-se casada com um homem que, longe de lhe despertar amor, s lhe inspirava desprezo. 
Oh, como estava arrependida do que tinha feito! Ouvira dizer muitas vezes que h pessoas que 
provocam a sua prpria desgraa, mas sempre julgara ver nesta frase uma simples figura de retrica. 
S agora compreendia bem o significado daquelas palavras. Embora se tivesse apoderado dela um 
desejo frentico de se livrar de Charles de regressar a Tara e retomar a sua vida de solteira, no 
@odia deixar de reconhecer que era ela a nica culpada da situao em que s encontrava. Ellen 
fizera o possvel por dissuadi-Ia de casar com Charles, mas no quisera dar-lhe ouvidos. 
Mergulhada numa espcie de hebetismo, Searlett danou toda a noite, no baile do casamento de 
AshIey, falando e sorrindo maquinalmente, pasmada com a estupidez dos convidados que teimavam 
em ver nela uma noiva feliz, longe de imaginarem o drama que lhe enlutara o corao. Graas a 
Deus, ningum parecia suspeitar a verdade, da terrvel verdade que ela tentava a todo o custo 
ocultar. 
Nessa noite, quando a velha ama acabou de a ajudar a despir-se e se retirou e Charles surgiu 
timidamente no limiar da porta que dava para o quarto de vestir, perguntando a si prprio se iria 
novamente dormir na cadeira de braos, Scarlett rompeu em pranto. Aflito, o marido sentou-se na 
cama ao lado dela, procurando confort-la. Scarlett chorou, chorou, sem pronunciar uma nica 
palavra, at que as lgrimas se lhe esgotaram e ela acabou por adormecer, com a cabea deitada no 
ombro de Charles. 
Em tempo de paz, os dois casais passariam a semana seguinte aos respectivos matrimnios fazendo 
as visitas exigidas pela etiqueta, a todas as famlias conhecidas, residentes na regio. Em sua honra, 
realizar-se-iam bailes e piqueniques, at que os noivos partissem para Saratog ou White Sulphur, 
em viagem de npcias. Se no fosse a guerra, Scarlett teria de usar os diversos vestidos, 
correspondentes ao terceiro, quarto e quinto dia de casada para assistir s festas que os Fontaines, os 
Calverts e os'Tarletons organizariam por ocasio da visita que a pragmtica a obrigaria a fazer-lhes. 
Mas a ocasio no era para festas, nem para viagens de npcias. Oito dias aps o seu casamento, 
Charles abandonou Tara, a fim de se juntar s tropas do cor(>nel Wade Hampton e, duas semanas 
mais tarde, AshIey 
178 
partiu tambm encorporado nas foras do Regimento. A comarca fico@ prticamente deserta. 
Durante esses quinze dias, Scarlett nunca viu Ashley szinho nem teve oportunidade de conversar 
com ele em particular. Nem sequer no terrvel momento da despedida, quando AshIey passou por 
Tara a caminho da estao, para apanhar o comboio que o levaria a Jonesboro, logrou falar-lhe sem 
testemunhas. Com a cabea protegida por um chapu de palha e os ombros cobertos por um xaile de 
cambraia, Melanie no largava o brao do marido, muito ufana do seu novo estado. Todo o pessoal 
#
de Tara, incluindo os escravos, foi assistir  partida de Ashley. 
-Deves beijar Scarlett, Ashiey -observou Melanie, no instante em que os dois trocavam o aperto de 
mo convencional. - Lembra-te de que ela agora  minha irm. 
Impassvel, com as feies rligidamente contradas, o marido curvou-se e pousou, durante uma 
fraco de segundo, os lbios glidos na face aveludada de Scarlett, a qual no tirou prazer nenhum 
daquele beijo, no s por se tratar de um gesto quase protocolar, mas por ter sido a mulher quem lhe 
sugerira a ideia, Melanie quase que a sufocou com um abrao, ao despedir-se. 
-Vem at Atlanta passar uns dias comigo e com a tia Pittypat, sim? - disse-lhe ela. - No calculas a 
alegria que nos dar a tua visita. Queremos conhecer melhor a mulherzinha de Charles. 
Durante as cinco primeiras semanas, Scarlett recebeu notcias do marido com certa regularidade. Da 
Carolina do Sul, Charles escrevia-lhe cartas tmidas, extticas, apaixonadas, em que lhe falava dos 
projectos que tencionava pr em prtica assim que a guerra acabasse, do seu desejo de se bater 
como um heri, para que ela pudesse orgulhar-se do marido, da venerao que tinha pelo 
comandante do esquadro, o coronel Wade Hampton. Na ltima semana, Scarlett recebeu um 
telegrama assinado pelo prprio coronel, bem como uma carta de psames, redigida em termos 
dignos e carinhosos. Charles tinha morrido. o coronel desejara telegrafar mais cedo, mas Charles 
opusera-se  ideia, pois que, julgando o mal sem gravidade, no quisera alarmar a famlia, 0 pobre 
rapaz morrera iludido no s no que dizia respeito ao amor que supunha ter conquistado, mas 
tambm no que se referia  glria de que sonhara cobrir-se nos campos de batalha. Falecera 
ignominiosa- 
179 
mente em virtude duma pneumonia que lhe tinha sobrevindo a um ataque de sarampo, sem sequer 
ter avistado os destacamentos yankees, pois no chegara a sair dos acampamentos da Cavalaria do 
Sul. 
0 filho de Charles nasceu no fim do tempo previsto e, segundo a moda dessa poca 'recebeu na pia 
baptismal os dois nomes do comandante do pai, Wade Hampton. Scarlett tinha chorado lgrimas de 
desespero ao descobrir que estava grvida e chegara a desejar a morte. Contudo, a gestao no lhe 
acarretou incmodos e o parto foi to, fcil e o restabelecimento to rpido que Bab aproveitou a 
primeira altura em que ficou a ss com ela para a censurar, acusando-a de se haver portado como 
uma mulher ordinria, visto que as senhoras costumavam sofrer mais. Scarlett no sentia grande 
afeio pelo filho e no se dava ao trabalho de ocultar o facto. Nunca desejara a sua vinda, a qual s 
lhe causara aborrecimento e, agora que o tinha ao p de si, parecia-lhe impossvel que ele lhe 
pertencesse, que fosse carne da sua carne, sangue do seu sangue. 
Se bem que fisicamente se houvesse restabelecido do parto num espao de tempo vergonhosamente 
curto, a verdad  que, moralmente, no podia sentir-se mais deprimida. No obstante os esforos 
de todos aqueles que viviam em Tara no sentido de a fazerem retomar o gosto pela vida, Scarlett 
definhava a -olhos vistos. Ellen andava dum lado para outro, inquieta, com a testa franzida sob o 
peso da preocupao que lhe inspirava o estado da filha. Gerald praguejava mais do que 
habitualmente e cumulava a primogn;ta de presentes que trazia de Jonesboro. At o velho Dr. 
Fontaine se mostrou embaraado ao verificar que o seu tnico, feito com base de enxofre, melao e 
ervas medicinais, no surtia o efeito desejado. Chamando Ellen de parte, explicou-lhe ento que o 
abatimento e a irritabilidade que a sua paciente manifestava eram devidos ao profundo d'esgosto 
que ela acabava de sofrer. No entanto, se Scarlett quisesse falar, poderia muito bem dizer-lhes que o 
seu mal era muito mais complexo do que julgavam. Mas preferiu calar-se e no revelar a ningum 
que na verdade o que a tinha conduzido quele extremo fora o tdio, a surpresa de se ver com um 
filho nos braos e, sobretudo, a ausncia de AshIey. 
Vivia num aborrecimento mortal. Aps a partida do Regimento, a vida elegante na comarca cessara 
por completo. Todos os rapazes com quem simpatizava se tinham 
180 
alistado: <>s quatro Tarletons, os dois Calverts, os Fontaines, os Muriroes. Em Jonesboro, 
Fayetteville e Lovejoy no se encontrava um nico rapaz atraente. Estavam todos encorporados nas 
#
foras empenhadas em combater os yankees. Em qualquer daquelas cidades tinham ficado apenas 
os velhos, os aleijados e as mulheres, as quais passavam os dias ocupadas com os seus trabalhos de 
costura, e de malha, ou com a criao de porcos, vacas e carneiros para o Exrcito, ou com a 
intensificao das culturas de algodo e trigo.. No se via na regio um nico homem realmente 
digno desse nome, a no ser uma vez por ms, quando as tropas da administrao militar, chefiadas 
por Frank Kennedy, o apaixonado de Suellen, vinham abastecer-se de mantimentos. Contudo, os 
homens que as compunham nada tinham de simpticos e a corte tmida que Frank fazia a Suellen. 
exasperava Scarlett, a ponto de lhe ser quase impossvel trat-lo, como devia, Se ao menos eles 
resolvessem o caso duma vez para sempre! 
Mesmo que os oficiais daquela arma fossem dos mais interessantes, isso em nada poderia afectar a 
situao, de Scarlett, a qual no passava duma viva e cujo corao, portanto, devia encontrar-se 
sepultado junto ao corpo do marido. Todos os vizinhos estavam convencidos de que era isso o, que 
se verificava no caso dela, pelo que esperavam v-Ia proceder segundo os costumes da regio. Tal 
ideia irritava Scarlett, pois que, apesar de todos os seus esforos, o mais que Charles conseguia 
recordar era o olhar de carneiro mal morto que lhe surpreendera no instante em que aceitara casar 
com ele. E at essa recordao se ia desvanecendo a powo, e pouco. Fosse como fosse, tinha enviu 
vado e, por consequncia, precisava de agir em conformidade com o seu novo estado. Os 
divertimentos das raparigas solteiras estavam-lhe vedados para sempre. A sua atitude, agora, devia 
ser grave e recatada. Ellen, tinha-lhe explicado isso pormenorizadamente no dia em que a 
surpreendera no jardim, sentada no baloio que um dos subalternos de Frank empurrava, fazend(>-a 
rir s gargalhadas. Profundamente consternada, Elleri dissera-lhe que o comportamento de uma 
viva se podia prestar fcilmente  maledicncia, pelo que a sua atitude devia ser duas vezes mais 
severa do que a de uma mulher casada. 
"E s Deus sabe como as mulheres casadas levam vida enfadonha", pensou Searlett escutando 
d@cilmente a voz 
181 
k. 
suave da me. "Quanto s vivas, mais valia que morressem". 
As vivas viam-se obrigadas a trajar vestidos pretos, hediondos, sem qualquer enfeite que lhes 
desse vida; no podiam usar flores, nem fitas, nem cordes, nem jias, a no ser broches de nix ou 
colares feitos com os cabelos do defunt<>. E o vu de crei)e que envolvia o chapu devia chegarlhe 
aos joelhos. S trs anos aps a morte do marido poderia cort-lo  altura dos ombros. A uma 
viva no assistia o direito de conversar animadamente nem de rir alto. Mesmo quando sorria, era 
preciso que o seu sorriso fosse triste, quase trgico. Mas o pior de tudo  que no podia, de maneira 
nenhuma, mostrar-se empenhada em arranjar companhias masculinas. E, se houvesse algum homem 
to mal educado que se atrevesse a manifestar o mais leve interesse por ela, o seu dever seria metlo 
na ordem, sem se esquecer de fazer uma referncia digna e adequada ao marido morto. "Simpensou 
Scarlett tristemente-h vivas que casam segunda vez, mas s quando j esto velhas e 
quase reduzidas ao esqueleto. E sabe Deus com que dificuldades lutam para o conseguir, vigiadas 
como so pelos vizinhos? Em geral, acabam por casar com vivos horrveis, j caducos tambm, 
que vivem atrapalhados com os negcios da fazenda e com uma dzia de filhos para, criar". 
0 casamento, em si, j no era grande coisa, mas ficar viva equivalia a morrer para a vida. E ainda 
havia pessoas to estpidas que tinham o, desplante de lhe falar na consolao que o pequeno Wade 
Hampton devia ser para ela, agora que Charles a deixara para sempre! Que tolice, tentarem 
convenc-la de que o filho constituiria, dali para o futuro, a sua razo de existir! Todos lhe diziam 
que devia considerar-se muito feliz por possuir aquela prenda pstuma do seu amor e Searlett no 
os contradizia, embora fosse de opinio muito diferente. Sentia um interesse mito reduzido pelo 
filho e, por vezes, nem se lembrava de que ele lhe pertencia. 
Todas as manhs, ao acordar, ficava mergulhada durante breves momentos numa espcie de torpor 
e voltava a ser Scarlett O'Hara. 0 sol acariciava a magnlia que crescia junto  sua janela, os melros 
cantavam no jardim e o cheiro agradvel do toucinho frito enchia-lhe o quarto. Uma sensao de 
#
juventude e de liberdade a empolgava de novo, como nos tempos de solteira. Mas, de sbito, 
chegavam-lhe 
182 
aos ouvidos os protestos dum nen esfomeado. E, ento, Scarlett experimentava sempre, sempre a 
mesma surpresa. "De quem ser aquela criana?" perguntava a si prpria. E s nessa altura se 
lembrava. de que a criana era dela. Como isso lhe fazia confuso!... 
E Ashley?! Oli, principalmente AshIey! Pela primeira vez na sua vida Scarlett odiou Tara, bem 
como a longa fita da estrada de terra vermelha, que descia da colina at ao rio, e os campos rubros 
onde brotava o algodo. Cada palmo de terra, cada rvore, cada regato, cada azinhaga, cada atalho 
lhe recordava Asliley. Asliley pertencia a outra mulher e partira para a guerra, mas, ao cair da noite, 
o seu esprito vagueava pelos caminhos, sorria-lhe, com os seus olhos cinzentos e sonhadores a 
brilharem na penumbra do alpendre. Sempre que, ao longo da estrada que conduzia aos Doze 
Carvalhos, Scarlett ouvia aproximar-se o tropel de um cavalo, um nome querido lhe acudia aos 
lbios - 
o de Asliley. 
Detestava tambm essa quinta, que tanto amara. Detestava@a, mas ao mesmo tempo sentia-se 
atrada para ela, pois que era l que ouvia John Wilkes e as filhas falarem a respeito, de Ashley... 
Ouvia-os lerem as cartas que ele escrevia da Virgnia e que tanto a magoavam mas sem as quais no 
podia viver. Scarlett detestava Inia, pelo seu orgulho, e Honey, pela sua tagarelice, e sabia que as 
duas irms lhe pagavam na mesma moeda, mas tudo isso ela esquecia para saber notcias do homem 
que amava. E, de cada vez que, vinda dali, regressava a Tara, Scarlett metia- 
se directamente na cama e recusava-se a comer. 
Era justamente esta recusa dos alimentos que, acima de tudo, alarmava a me e a velha ama. Bab 
levava-lhe bandejas repletas de iguarias e debalde lhe insinuava que uma viva podia comer  
vontade tudo o que quisesse, mas Searlett no tinha apetite. 
Quando o Dr. Fontaine, com uma expresso grave estampada no rosto, disse a Ellen que os 
desgostos levavam fre- quentemente as mulheres  sepultura, a pobre me empalideceu. Aquele 
receio j ela o trazia h muito no fundo do seu corao. 
-E no haver nada a fazer, doutor? 
- Uma mudana. de ambiente seria o melhor remdio 
- respondeu o mdico, ansioso por se libertar de uma doente difcil. 
183 
Scarlett resolveu acatar o conselho do mdico,. Acompanhada pelo filho'partiu para Savannah a fim 
de visitar os parentes O'Hara, e Robillard e, da, seguiu para Charleston, onde viviam as irms de 
Ellen, Pauline e Eulalie, Tinha abandonado Tara sem entusiasmo algum e voltou um ms antes da 
data prevista para o seu regresso, recusando@-se a dar qualquer explicao, 
Da recepo que lhe fora dispensada em Savannah trazia recordaes agradveis. Contudo, James e 
Andrew O'Hara, bem como as respectivas mulheres ' estavam j muito velhos e passavam os 
seres  lareira, evocando um passado que em nada a interessava. 0 mesmo se verificava no caso 
das tias maternas, com a agravante de que Charleston era uma cidade insuportvel, na opinio de 
Scarlett. 
A tia Pauline e a marido, velhote cerimonioso, cujo olhar tinha a expresso vaga duma pessoa que 
vive fora da sua poca, moravam numa fazenda que se estendia ao longo da margem dum rio e que 
ficava ainda mais isolada do que Tara, Para se chegar  plantao mais prxima, aituada a cerca de 
vinte milhas de distncia, tornava-se necessrio percorrer caminhos sombrios atravs de matas de 
ciprestes e carvalhos, cujas franjas de musgo cinzento infundiam um i)avor tremendo a Scarlett, 
trazendo-lhe  memria as lenas que Gerald costumava contar, dos fantasmas que na Irlanda 
erravam pelos bosques nos dias de nevoeiro. Como nica distraco, levavam os dias inteiros a 
fazer malha, e  noite entretinham-se a ouvir o tio Carey lendo em voz alta as obras edificantes de 
Bulwer-Lytton. 
Eulalie vivia em Battery, na comarca de Charleston. Habitava um casaro enorme que os muros 
#
altssimos do jardim resguardavam dos olhares indiscretos e era a monotonia em pessoa. Habituada 
aos vastos horizontes das colinas ondulantes de Tara, Searlett sentia-se ali como que prisioneira. 
Eulalie mantinha convvio mundano mais intenso do que a sua irm Pauline, mas Scarlett no 
gostava nada das pessoas qe visitavam a tia, com os seus ares enfatuados, com a intransigncia das 
suas tradies, com o orgulho das suas nobres linhagens. Sabia perfeitamente que to-das elas a 
consideravam fruto dum casamento desigual e que perguntavam umas s outras como teria sido 
possvel uma Robillard haver casado com um irlands que, prticamente, era desconhecido na 
regio. Scarlett no teve dificuldade em perceber que, mal voltava costas, a tia pedia 
184 
desculpa s visitas de as ter importunado com a sua presena. Isto irritava-a formidavelmente pois 
que, tal como sucedia com Gerald, &arlett no ligva importncia nenhuma  linha aristocrtica da 
sua ascendncia materna, Orgulhava-se do pai e de tudo o que ele tinha conseguido fazer sem 
qualquer espcie de auxilio, a no ser o que lhe havia prestado o seu crebro arguto de irlands. 
E os habitantes de Charleston mostravam-se to superiores depois do que se passara no Forte 
Suinter que era quase impossvel atur-los! Santo Dus-,-eustar-lhes-la assim tanto a perceber que 
se no tivessem sido eles, outros idio@ tas quaisquer se haveriam encarregado de disparar o tiro que 
deu incio  guerra? Acostumada como estava  pronncia vibrante do interior da Gergia, a 
maneira de falar dolente  arrastada de Charleston contendia-lhe com os nervos. Sentia que, se 
tornasse a ouvir dizer as palavras daquela forma to aborrecida, acabaria por se revoltar,,a valer e 
gritaria de raiva. Certo dia, a sua irritao subiu a tal ponto que, em conversa com umas visitas de 
cerimnia, tratou de imprimir  voz o sotaque irlands que aprendera com o pai. A tia ficou sem 
saber onde meter-se, e Scarlett resolveu regressar a Tara no dia seguinte. Preferia mil vezes ver-se 
atormentada pelas saudades de Ashley a sujeitar-se  tortura da dico afectada da populao de 
Charleston. 
Ellen, que vivia mais atarefada do que nunca, trabalhando de dia e de noite para. aumentar a 
produo de Tara, a fim de auxiliar a Confederao, ficou aterrada ao ver a filha regressar a casa 
magra, plida e mais irritvel do que quando tinha partido. Sabia por experincia prpria o que eram 
desgostos de amor e, noite aps noite, deitada ao lado de Gerald que ressonava como uma 
locomotiva, tentava descobrir um remdio para o mal de Searlett. A tia de Charles, Pittypat 
Hamilton, j em diversas ocasies lhe escrevera a pedir que autorizasse Scarlett a ir passar uns 
meses a Atlanta em casa dela. Pela primeira vez, Ellen considerou a hiptese de consentir. 
Melanie e a tia, viviam szinhas num imenso casaro e sem qualquer proteco masculina desde 
que Charles fale-cera, confessava a tia Pittypat numa das suas epstolas"]@ certo que o meu irmo 
Henry reside em Atlanta, mas no mora connosco. Scarlett j deve ter-lhe falado a respeito de meu 
irmo e, por conseguinte, abstenho-me de 
185 
comentrios, tanto mais que no seria delicado confi-los ao papel. Melly e eu sentir-nos-amos 
mais tranquilas, muito mais tranquilas se Scarlett viesse fazer-nos companhia. Trs mulheres 
sempre valem mais do que duas. E talvez Scarlett encontrasse aqui um lenitivo para o seu desgosto, 
como sucedeu com Melly, que para matar o tempo e distrair o esprito ` trabalha no h@spital, 
ajudandG a tratar dos nossos feridos... Alis, escusado ser dizer que estamos ambas ansiosas por 
conhecer o filho de Charles ... " 
Ellen emalou uma vez mais os vestidos de Scarlett que, acompanhada pelo filho e respectiva ama, 
de nome Prissy, partiu para Atlanta com a cabea a transbordar de recomendaes que a me e Bab 
lhe tinham feito e a bolsa recheada com cem dlares em notas da Confederao, que Gerald lhe 
oferecera. No tinha interesse especial em ir at Atlanta. Na sua opinio, a tia Pitty era a mais 
estpida das velhas e a ideia de habitar sob o mesmo tecto que a mulher de Asliley estava muito 
longe de lhe agradar. No entanto a vida em Tara, com as suas tristes recordaes, tornara-se-lhe 
insuportvel, e uma mudana de ambiente s lhe faria bem.
186

SEGUNDA PARTE

8

 MEDIDA que o comboio a levava para o norte, naquela manh de Maio de 1862, Scarlett
 pensava que Atlanta no podia, de maneira nenhuma, ser mais enfadonha do que Savannah ou
Charleston. Mau grado a antipatia que a tia Pittypat e Melanie lhe inspiravam, sentia certa
curiosidade em verificar as transformaes por que a cidade teria passado, desde que a visitara pela
ltima vez, no Inverno anterior  guerra. 
Atlanta sempre a interessava mais do que qualquer outro burgo, pois desde os seus tempos de 
criana ouvia o pai dJzer-lhe que tinham ambas a mesma idade. No entanto, Scarlett havia chegado 
 concluso de que Gerald forara um pouco a nota, como costumava fazer quando pretendia dar 
realce s suas histrias. Atlanta era nove anos mais velha do que ela, mas, em relao s outras 
cidades que Scarlett conhecia'pelo menos de nome, estava ainda na infncia. Savannah e Charleston 
tinham j uma idade respeitvel; a primeira atravessava o seu segundo sculo de existncia e @a 
outra preparava-se para entrar no terceiro. Ambas davam a Scarlett a ideia de duas avs, quase 
caquticas, abanando-se placidamente com os seus leques, ao sol. Atlanta, porm, pertencia  sua 
gerao. Possua a sem-cerimnia da mocidade e, tal como Scarlett, era obstinada e impulsiva. 
A histria que Gerald lhe contara baseava-se no facto de Atla-nta e Scarlett terem sido baptizadas 
no mesmo ano. Durante o novnio anterior ao nascimento de Scarlett, a cidade fora sucessivamente 
conhecida pelos nomes de Terminus e Marthasville e s no ano em que ela vira pela primeira vez a 
luz do dia passara a chamar-se Atlanta. 
Quando Gerald chegou  Gergia, Atlanta ainda no, existia, nem sequer sob a forma dum simples 
povoado. No local onde mais tarde deveria erguer-se a cidade crescia apenas a vegetao selvagem 
das zonas inexplaradas. Contudo, no ano seguinte, ou seja em 1836, o Estado autorizou 
187 
a construo duma linha de caminho de ferro que atravessaria o territrio recentemente cedido pelos 
ndios Cherokees, na direco Noroeste. Ficou inicialmente estabelecido que o ramal se estenderia 
at Tennessee e s regies do Oeste, mas o seu ponto de partida s foi conhecido quando, em 
meados de 1837, um engenheiro cravou na terra rubra e fofa uma estaca que ficou assinalando o 
extremo sul da via. Nesse dia, Atlanta principiou a sua carreira, sob a designao de Termnus. 
Naquele tempo, as redes de explorao ferroviria eram ainda muito limitadas, e a Gergia do Norte 
no dispunha de nenhuma linha frrea que a servisse. No decurso dos anos que medearam entre a 
chegada de Gerald  Gergia e o seu casamento com Ellen, a pequena estao Terminus 
transformara-se gradualmente numa vila, enquanto o assentamento dos carris prosseguira, em 
direco ao Norte. Comeara a fase da construo dos caminhos de ferro. Um segundo troo, 
partindo da velha cidade de Augusta e estendendo-se para Oeste ' cruzava o Estado e ia entroncar 
com o ramal de Tennessee. De Savannali sala uma terceira via frrea que ligava esta cidade com 
Macon, em pleno corao da Gergia, e que mais tarde foi prolongada para o Norte, at Atlanta, 
atravs da comarca de Clayton para se unir aos outros dois ramais e dar ao T)orto de Savannali 
uma linha de penetrao para Oeste. E, a partir do inciplente burgo de Atlanta, transformada 
em importante entroncamento de caminho de ferro, foi construda uma quarta linha que, cortando 
para o Sul, servia Montgomery e Mobile. 
Nascida duma linha frrea, Atlanta crescia a olhos vistos,  medida que a rede ferroviria se 
alargava, facilitnd<>-lhe as crmunicaes com o Sul, com o Oeste e com o litoral e, atravs de 
Augusta, com o Norte e Leste. Graas ao enorme incremento de trafego que atravs dela circulava 
diariamente, devido  sua localizao privilegiada, a pequena vila progrediu com surpreendente 
rapidez. 
Scarlett contava dezasseis anos apenas e Atlanta no precisara de mais tempo. para, duma simples 
estaca cravada na terra, se tornar prspero centro populacional de dez mil habitantes, que atraa 
sobre si as atenes gerais. As cidades mais antigas e pacatas encaravam-na com espanto 
absolutamente anlogo ao que uma galinha manifesta quando v surgir, entre a ninhada de pintos 
que acaba de chocar, um marreco solitrio. Por que seria 
188 
#
Atlanta to diferente dos restantes burgos da Gergia? Por ia desenvolvido to depressa? Porque, no 
fim de contas, Atlanta no possua nada de especial, a no ser as suas vias frreas e um punhado de 
homens resolutos e empreendedores. 
De facto, a gente que edificara a. cidade e que sucessivamente a denominara Terminus, 
Marthasville e Atlanta, tinha demonstrado excelentes qualidades de trabalho. Constituda por um 
grupo de indivduos enrgicos e infatigveis, provenientes das comarcas mais antigas da Gergia e 
de outros Estados da Unio, fora atrada por aquela vila que se expandia em torno do ncleo 
ferrovirio e nela se tinha estabelecido animada de vibrante entusiasmo. E assim se edificaram os 
primeiros armazns, nas proximidades da estao e ao longo das cinco estradas lamacentas, de 
barro vermelho, que lhe davam acesso, bem como as belas moradias que orlavam Whitehall Street e 
Washington Street. Em breve os prdios cobriram a elevao de terreno sobre a qual inmeras 
geraes de ndios, calados de mocassins, tinham aberto uma estrada aue ficara sendo conhecida 
pela curiosa designao de Pea6tree Trail. Os habitantes do novo burgo orgulhavam-se da sua obra, 
da rapidez com que a viam progredir, do esforo com que tinham contribudo para o seu 
desenvolvimento. As outras cidades que dissessem a respeito de Atlanta o que muito bem lhes 
aprouvesse. Atlanta no lhes ligava importncia. 
E era justamente pelas mesmas razes por que Savannali, Augusta e Macon a detestavam que 
Scarlett gostava de Atlanta. Possuam ambas um estranho amlgama das velhas tradies e dos 
modernos hbitos da Gergia, que se entrechocavam num conflito permanente. E no era raro que 
as velhas tradies se vissem relegadas para segundo plano na luta constante que lhes moviam os 
seus adversrios, mais novos e vigorosos. Alm disso, aos olhos de Scarlett havia algo de 
apaixonante numa cidade que nascera, ou que pelo menos havia sido baptizada no mesmo ano em 
que ela o fora. 
Durante a noite desencadeara-se forte temporal e chovera torrencialmente, mas, quando Searlett 
chegou ao seu destino, brilhava no firmamento um Sol radioso ' que parecia empenhado em secar 
as ruas, transformadas em rios de lama avermelhada. No largo que circundava o edifcio da 
189 
AMffi 
estao a argila do solo tinha sido to bem amassada e trabalhada pelo vaivm incessante do trfego 
que o seu aspecto lembrava o duma enorme pocilga. Aqui e ali, viam-se carruagens e carroas 
atoladas at aos eixos das rodas. Uma fila interminvel de ambulncias e viaturas militares 
ocupava-se na descarga dos feridos que os comboios traziam da frente da batalha e no transporte de 
mantimentos e mercadorias que se destinavam s foras em luta, revolvendo o lodaal e tornando a 
confuso ainda maior. Os condutores dos veculos insultavam-se mutuamente, praguejavam, 
barafustavam contra tudo e contra todos, enquanto as mulas se esfalfavam para atravessar o atoleiro, 
salpicando lama em todas as direces. 
Scarlett imobilizou-se sobre o ltimo degrau da carruagem, com a sua figurinha gentil envolta num 
elegante traje de viva e o rosto plido oculto sob o vu de crepe que lhe cala quase at aos ps. 
Hesitou, pois que lhe repugnava a ideia de enlamear os sapatos e a barra do vestido e olhou  sua 
volta tentando descobrir o vulto gorducho e rubicundo da s61teirona sobre a plataforma da estao. 
No conseguiu avist-la ' porm, e dispunha-se a procur-la entre o barulhento aglomerado de 
carruagens e ambulncias quando se lhe deparou um negro j idoso, magro, de cabelos grisalhos e 
ar austero e digno, que se aproximava dela, com o chapu na mo. 
- Minina Searlett, no ? Sou Peter, cocheiro de sinhora Pitty. No v desc p'r lama - ordenou em 
tom severo, ao ver Scarlett juntar as saias, preparando-se para abandonar o degrau do vago. -A 
minina  to tonta como sinhora Pitty que gosta de mulh os p na lama como, as criana. Eu 
carrego minina, num istantinho. 
Apesar da sua aparente fragilidade, o velho pegou em Scarlett ao colo com toda a facilidade e, 
lanando uma olhadela a Prissy, que se deixara ficar na plataforma da carruagem com o pequeno 
Wade Hampton nos braos, estacou e disse: 
- Aquela garota  que s a e 'riada? n muito nova ainda para carreg o filho nico de sinh Charles. 
#
Mas depois a gente trata disso. Eli, pequena, vem atrs de ns e tem cautela, no vs deix o nen 
cal! 
Scarlett deixou-se transportar dcilmente para a carruagem que a aguardava  entrada do edifcio da 
estao e nem sequer protestou contra a maneira peremptria como 
190 
o preto ousava critic-la, a ela e a Prssy. 0 grupo ps-se em marcha, atravs da lama. Prissy 
caminhava atrs do cocheiro, resmungando entre dentes. Antes de chegarem junto da viatura 
Scarlett teve tempo de recordar as palavras que Charles' lhe dissera a respeito do Peter. 
- Fez toda a guerra do Mxico, sempre ao lado do meu pai, e foi ele quem praticamente lhe salvou a 
vida, tratando-o com o mximo desvelo, quando foi ferido. Foi ele tambm quem nos educou, a 
Melanie e a mim, pois que ramos ambos ainda crianas quando os nossos pais faleceram. Pouco 
tempo depois, a tia Pitty zangou-se com o irmo o tio Henry, e veio viver connosco, a pretexto de 
tomar co@ta de ns. n a criatura mais indolente que conheo. No passa duma criana grande e o 
Peter trata-a como tal. Nem que a sua vida corresse perigo ela seria capaz de erguer um dedo para se 
salvar. 0 Peter  quem toma todas as resolues l em casa. Foi ele que decidiu exigir que a minha 
iresada fosse aumentada e que me obrigou a tirar a licenciatura em Harvard, embora o tio Henry 
quisesse que eu apenas acabasse o curso, Foi ele que um belo dia determinou que Melanie j tinha 
idade para levantar os cabelos e frequentar as festas para que era convidada. E ainda hoje  ele 
quem diz  Pittypat que est excessivo frio para sair de casa, ou que precisa de pr o xaile por causa 
da humidade... n o escravo mais inteligente que eu at hoje encontrei, e tambm o mais dedicado. 0 
pior  que s vezes abusa, como sabe que nos  indispensvel e tem conscincia do ascendente que 
possui sobre ns. 
Inconscientemente, Peter confirmou as palavras de Charles, mal subiu para a boleia e pegou no 
chicote. 
- Sinhora Pitty est toda nervosa porque no pde vim lhe arreceb. Ficou com medo que minina 
Scarlett no percebesse as razo 'mas eu disse a ela que ia suj o vestido novo de lama e minina 
Melly tambm. Foi por isso que elas no vieram, mas eu prometi esplic tudo  minina. Minina 
Searlett,  m peg nessa criana. A rapariga vai deix ela ca. 
Scarlett olhou para Prissy e suspirou. De facto, Prissy estava longe de ser uma ama-seca modelo. A 
sua recente promoo, dera-lhe volta ao miolo, Impava de satisfao e orgulho por haver trocado as 
saias curtas pelo comprido vestido de chita que apra usava; e a touca branca, enfeitada, que lhe 
coroava a carapinha negra, dava-lhe a sen- 
191 
sao de ter adquirido uma categoria  Parte. S6 as emergncias da guerra e as exigncias, cada vez 
maiores, do oficial destacado para a regio de Tara, impossibilitando Ellen de dispensar Bab, ou 
Dilcey ou Rosa, ou mesmo Teena, haviam forado a me de Sc@rlett a confiar a uma criana 
inexperente to grande responsabilidade. Prissy nunca se afastara dos Doze Carvalhos ou de Tara 
mais de dois quilmetros. A viagem d"omboio, aliada  sua nomeao para ocargo de ama-seca do 
pequeno Wade Hampton, hav'am-lhe transtornado o juzo. As vinte milhas de trajecto entre 
Jonesboro e Atlanta tinham"na excitado a tal ponto que Scarlett se vira obrigada a transportar o 
filho :ao colo durante quase todo. o tempo. E, agora, a viso de to numerosos edifcios e de tanta 
gente nas ruas completara o desvairamento. da moa. Virava a cabea dum lado para o outro, 
apontava em todas as direces, torcia-se para olhar @ara trs, enfim, tanto sacudiu o nen que ele 
acabou por romper num pranto lamentoso. 
Scarlett sentiu nesse instante a falta. dos braos rolios da sua velha ama. Bastava que ela pegasse 
numa criana para que esta se acalmasse e deixasse de chorar. Mas Bab tinha ficado em Tara 'e 
Scarlett nada podia fazer. Nada lucraria em tirar o filho das mos de Prissy, pois tinha a certeza de 
que ele gritaria da mesma forma nas suas. E, alm disso, puxar-lhe-ia as fitas docha-pu e 
amarrotar---lhe-ia, o vestido, o que era, ainda pior. Fingiu no ter ouvido a sugesto de Peter e 
continuou a observar. distraidamente, os transeuntes que se acotovelavam nas ruas. 
"n possvel que com o tempo eu me ajeite com crianas", pensou, irritada, enquanto a carruagem 
#
balouava, e estremecia num esforo desesperado para sair do atoleiro, "mas duvido que venha 
alguma vez a gostar de brincar com elas". 
E, ao ver as faces do filho, j escarlate de tanto chorar, ordenou com maus modos: . - D-lhe a 
boneca de acar que tens no bolso, Prissy. D-lhe qualquer coisa, contanto que ele se cale. Sei que 
est com fome, mas agora no posso valer-lhe. 
Prissy extraiu da algibeira a chucha com acar que Bab lhe entregara nessa manh e o menino 
calou-se imediatamente mal comeou a chupar. Restabelecida a calma no interio@ da carruagem, 
Scarlett sentiu-se mais reanimada, ante o espectculo novo que tinha diante dos olhos. 
192 
.w 
Quando Peter logrou por fim arrancar o veculo do lodaal e meter o animal a trote ao longo de 
Peachtree Street, Searlett experimentou pela primeira vez naqueles ltimos meses uma onda de 
interesse pelo que a rodeava, pelas pessoas e Delas coisas. Como a cidade se tinha desenvolvido! 
Ainda no havia um ano que estivera ali e parecia-lhe impossvel que a pequenina Atlanta, que 
ento conhecera, tivesse mudado assim. 
Searlett passara esses curtos meses to exasperada pelas notcias da guerra, to absorta nas suas 
prprias mgoas, que ainda ignorava que, desde o comeo das hostilidades, Atlanta sofrera uma 
transformao radical. As mesmas vias frreas que haviam feito da cidade um centro de trfego 
comercial, em tempo de paz, tinham-na tornado ponto estratgico de importncia vital em tempo de 
guerra. Afastada do teatro de operaes, Atlanta e as suas linhas serviam de trao de unio entre os 
dois exrcitos da Confederao, um dos quais defendia Virgnia eo outro Tennessee, bem como os 
Estados situados mais a Oeste, Pela mesma razo, Atlanta constitua ainda o ponto de contacto entre 
esses dois exrcitos e o Sul, donde provinham todos os abastecimentos necessrios s tropas -em 
campanha. Alm disso, para fazer face s necessidades impostas p@lo, conflito, Atlanta 
transforinara-se num centro fabril, numa base hospitalar e num dos principais entrepostos de 
armazenamento e expedio de mantimentos e material destinados s foras combatentes. 
Scarlett debalde procurou com os olhos a cidadezinha de que se recordava to bem. A velha Atlanta 
desaparecera como por magia. 0 burgo que se estendia agora  sua frente dava a impresso duma 
criana que no breve espao duma noite se houvesse metamorfoseado numa espcie de gigante, 
cheio de vitalidade. 
Atlanta vivia horas de intensa actividade, como, unia colmeia em plena laborao. Consciente e 
orgulhosa do importante papel que desempenhava na vasta mquina blica da Confederao, 
trabalhava dia e noite para converter unia regio agrcola em zona industrial. Anteriormente  
guerra, poucas eram as fbricas de tecelagem de algodo e l, e raros os arsenais e centros 
metalrgicos e de construo mecnica ao sul de Maryland, facto de que todos os sulistas se 
mostravam ufanos. 0 Sul criava homens de Estado e 
13 - Vento Levou - I 
193 
cabos de guerra, fazendeiros e doutores, advogados e poetas, tudo menos engenheiros e mecnicos. 
Os yankees que abraassem essas obscuras profisses! Mas agora. todos os portos martimos da 
Confederao estavam bloqueados pelas canhoneiras yankees. A quantidade de produtos 
importados da Europa, que conseguia passar atravs do bloqueio, era nfima e o Sul tentava a todo o 
custo fabricar o material de guerra, de que necessitava, pelos seus prprios meios. 0 Norte tinha  
sua disposio, os recursos e os soldados do mundo inteiro. Milhares de irlandeses e de alemes 
engrossavam as fileiras dos exrcitos da Unio, atrados pelas generosas ofertas dos abolicionistas. 
0 Sul no podia contar seno consigo. 
As fbricas de maquinaria montadas em Atlanta desde o incio das hostilidades produziam 
lentamente os engenhos necessrios ao fabrico de material de guerra -lentamente porque no Sul 
existiam muito poucas mquinas que pudessem servir de modelo e quase todas as rodas e 
engrenagens tinham de ser feitas segundo desenhos vindos de Inglaterra, atravs do bloqueio,. Nas 
ruas de Atlanta viam-se agora casas muito estranhas; os cidados que, ainda no ano anterior, teriam 
#
apurado o ouvido ao escutarem meia dzia de palavras pronunciadas com o sotaque caracterstico 
dos habitantes do Oeste, no ligavam j a menor ateno aos diversos idiomas dos europeus que 
haviam enfrentado o bloqueio da esquadra yankee a fim de construrem mquinas e produzirem 
munies para as tropas sulistas. Sem essas centenas de peritos 'a Confederao teria visto 
esgotarem-se rpidamente as fracas reservas de plvora, revlveres e canhes de que dispunha ao 
comear a guerra. 
Quase que se podiam escutar as vigorosas pulsaes do corao da cidade, que prosseguia sem 
desfalecimento na absorvente tarefa de expedir armamento para as duas frentes de batalha. Dezenas 
de comboios militares, puxados por locomotivas resfolegantes, cruzavam Atlanta de dia e de noite, 
num vaivm incessante. As novas fbri6s faziam chover, sobre as moradias brancas, torrentes de 
fuligem negra. As fornalhas continuavam acesas mesmo depois de o Sol ter transposto a linha do 
horizonte e os cidados adormeciam ao som estridente e obcecante dos martelos nas forjas, que os 
perseguia em sonhos e os acordava na manh seguinte, mais forte do que nunca. Onde outrora se 
desdobravam terrenos baldios erguiam-se presentemente vastos 
194 
edifcios em que se i>rocedia  manufactura de selas, arreios e botas, arsenais improvisados donde 
saam carabinas e canhes, instalaes de laminagem e fundies que produziam carris e furges 
para substituir os que eram destrudos pelos yankees, enfim, toda a espcie de indstrias 
indispensveis para o fabrico de esporas, brides, fivelas botes, pistolas e espadas. As fundies 
comeavam j a'ressentir-se da falta de matria-prima, pois era difcil, quase impossvel, faz-la 
atravessar o bloqueio e, alm disso, as minas de Alabama estavam a produzir cada vez menos, em 
virtude de uma grande parte dos mineiros ter sido chamada para as fileiras. Em Atlanta j no 
existiam gradeamentos nem portes, nem varandas nem estatuetas ou qualquer armao de ferro. 
Tudo isso tinha sido tragado pela insacivel voragem dos cadinhos das fundies e dos rolos dos 
Iam!nadores. 
Os servios auxiliares dos exrcitos em luta haviam estabelecido os seus quartis-generais ao longo 
de Peachtree Street e das artrias adjacentes. As diversas reparties encontravam-se perfeitamente 
pejadas de homens uniformizados, pertencentes s foras da manuteno, ao servio de 
transmisses, ao corpo de estafetas ' -brigada de transportes por via frrea,  seco de justia. 
Nos arrabaldes da cidade, tinham sido instalados os depsitos de remonta, onde cavalos e muares se 
aglomeravam em cercas enormes. Por fim, havia ainda os hospitais disseminados pelas ruas de 
menos concorrncia. Pelo que @>eter lhe contou, Scarlett ficou com a impresso de que Atlanta 
devia estar transformada numa estncia para feridos e doentes, pois j no tinham conta os hospitais 
gerais, os de molstias contag,o,qas e os de convalescena. E todos os dias, num ponto situado 
levemente ao sul da bifurcao, os comboios despejavam mais feridos e mais doentes. 
0 pequeno burgo deixara de existir e a cidade que surgira no seu lugar e rai)idamente crescera em 
todas as direces vibrava com uma intensidade que no conhecia trguas. Arrancada  vida calma 
e descuidada dos campos, Searlett quase perdeu o flego,  vista de tal efervescncia. Mas nem por 
isso ficou menos satisfeita. A atmosfera do local estimulou-a e o seu corao comeou a palpitar 
num sincronismo perfeito com o de Atlanta. 
A carruagem avanava lentamente ao longo da pista lamacenta em que estava convertida a principal 
artria da 
195 
cidade. Scarlett teve assim tempo para observar em pormenor os novos edifcios e rostos com que ia 
topando no caminho. Nos passeios, acotovelaram-se indivduos uniformizados, exibindo as 
insgnias relativas s diversas patentes e a todos os servios. A rua estreita encontrava-se 
atravancada de veculos -carruagens, carroas, ambulncias, viaturas militares, fechadas cujos 
condutores pareciam querer suprir a sua falta de hbilidade no manejo das rdeas com as mais 
obscenas injrias, atiradas das boleias aos pobres animais que chapinhavam no lodaal. Estafetas 
fardados de cinzento transportavam a galope ordens e mensa~ gens dum quartel-general para outro, 
fazendo voar a lama sob os cascos das montadas. Convalescentes, geralmente ladeados por senhoras 
#
caridosas, passeavam nas proximidades dos hospitais respectivos, com o auxlio de muletR@Dos 
campos de treino, onde os recrutas recebiam instruo, subiam os toques de clarim, o rufar dos 
tambores, as vozes de comando, gritadas a plenos pulmes. Scarlett sentiu o corao subir-lhe  
garganta ao ver pela primeira vez o uniforme dos yankees, quando Peter apontou com o chicote na 
direco dum grupo de soldados ' que trajavam fardamento azul-marinho, e era conduzido sob a 
escolta duma patrulha sulista, armada de carabinas com as baionetas caladas, para o depsito de 
prisioneiros, donde mais tarde transitaria para o campo de concentrao. 
"Oh!" pensou Scarlett que, pela primeira vez, desde o dia do piquenique, experimentava uma alegria 
verdadeira, "vou gostar disto aqui! n to animado, to estimulante!" 
Contudo, a cidade era ainda muito mais divertida do que ela imaginava visto existirem por toda a 
parte botequins em abundn@ia. Sempre no encalo das foras combatentes, uma horda de 
prostitutas tinha invadido Atlanta e os bordis transbordavam de mulheres, facto que 
profundamente consternava a populao religiosa. Os hotis, penses e algumas residncias 
1)articulares regurgtavam de hspedes, vindo de todos os pontos, a fim de se encontrarem mais 
perto dos parentes hospitalizados. No se passava uma semana sem que houvesse um baile, uma 
iesta, ou um bazar, especialmente organizados com o objectivo de recolher fundos para obras de 
assistncia s vtimas e respectivas famlias. Os casamentos de guerra sucediam-se num ritmo 
impressionante e os noivos, em gozo de licena, envergando a farda cinzento-clara com alamares 
dourados, 
196 
passavam sob filas de espadas, conduzindo orgulhosamente pelo brao as raparigas a quem 
acabavam de unir os seus destinos e as quais desfilavam, radiantes muito aprumadas nos seus 
vestidos finos importados da uropa atravs do bloqueio. Durante as fe'stas bebia-se champanhe e, 
quando chegava a altura das despedidas, vertiam-se algumas lgrimas de sincero pesar.  noite, nas 
ruas sombrias ladeadas de rvores rumorejantes, ressoavam os passos arrastados dos pares que 
danavam nos sales, as notas melanclicas arrancadas aos pianos e as vozesde soprano entoando 
em coro com os soldados canes embaladoras, como Os clarim tocavam a cessar fogo ou A tua 
carta chegou, mas jd no veio a tempo, baladas sentimentais que faziamchorar muitos olhos 
sonhadores, que nunca haviam vertido uma lgrima de verdadeira dor. 
A carruagem continuava a descer a rua lamacenta e Scarlett no cessava de bombardear Peter com 
perguntas a que ele, ufano dos seus conhecimentos, ia respondend<> sempre, apontando com o 
chicote ora para a direita, ora para a esquerda. 
- Ali  o arsen. Sim, minina onde eles guarda os canho e outra arma. No minina: aquilo no  
loja nenhuma. P, o esquitrio do l@Ioqueio. 0 qu, minina Scarlett, ento inda no sabe o que  o 
esquitrio do bloqueio? n o lug onde os estrangeiro compra algodo p'ra embarc em Char'ton. e 
Wilmin'ton. e onde eles vende  gente a plvora p'rs canho. No, minina, no sei donde eles vem. 
Sinhora Pitty diz que so quase todos ingls, mas a gente no intende patavina da fala dele. Tem 
razo, minina,  um fumo terrvel que suja as cortinas de seda de sinhora Pitty e que vem das 
fundio e dos laminad. Faz uma barulheira de noite que ns nem pode dormir. No, minina 
Scarlett no vou par por m da minina v mi porque prometi a sinhora Pitty de a lev direitinha 
p'ra casa. Minina Scarlett, faz uma vnia, por fav, As sinhora Merriwether e Elsing to a 
cumpriment a minina. 
Scarlett recordou-se vagamente de duas senhoras com esses nomes que tinham ido de Atlanta 
assistir ao seu casamento e, ao mesmo tempo, lembrou-se de que eram elas as duas melhores amigas 
da tia Pittypat. Voltou-se vivamente na direco que Peter lhe indicava e inclinou a cabea. As duas 
mulheres estavam sentadas numa carruagem estacio,nada  porta duma loja de tecidos. Com os 
braos ajoujados 
197 
de peas de algodo, o proprietrio do estabelecimento e dois empregados atendiam os clientes, no 
passeio. A senhora Merriwether era uma dama alta e corpulenta, to eficientemente comprimida no 
espartilho que G busto se lhe projectava para a frente como a proa dum navio. A sua cabeleira 
#
grisalha era completada por uma franja postia, de caracis, que parecia vangloriar-se da sua cor 
castanha e desprezar a circunstncia de no se harmonizar com o resto do cabelo. 0 rosto redondo, 
de faces coradas, exprimia simultneamente argcia, bonomia e uma ndole autoritria. A senhora 
Elsing aparentava menos idade. Era uma criatura- delgada e frgil, que outrora devia ter possudo 
grande beleza, da qual lhe restavam ainda certos vestgios, aliados a um ar imperioso e distinto. 
Juntamente com outra amiga, a senhora Whiting, estas duas mulheres eram os pilares da vida social 
de Atlanta. Cada uma delas assumira a administrao da parquia'a que pertencia, dirigindo os 
clrigos, os fiis e at os meninos do coro. 0 triunvirato assim constitudo promovia a realizao de 
bazares presidia  formao de crculos de costura, patrocinavam' bailes e piqueniques, e, alm 
destas, desenvolvia outras actividades de no menor importncia. Qualquer das trs amigas poderia 
fornecer de um instante para outro uma lista completa dos casais que viviam felizes ou daqueles que 
se davam mal, oli revelar os*nomes de pessoas que se embriagavam secretamente, ou indicar de 
cor, sem uma falha as mulheres que estavam  espera de nen e as datas previstas para os partos. 
Todas elas eram consideradas autoridade em matria de genealogia; conheciam a origem de todas as 
famlias de Gergia, Virgnia e Carolina do Sul, e se no abrangiam nas suas investigaes os 
restantes Estados da Confederao era por estarem convencidas de que no havia ningum 
importante fora daquelas trs. Sabiam os usos e costumes inerentes s pessoas bem-nascidas e todas 
as normas de etiqueta 'no se eximindo a manifestarem publicamente as suas opinies sobre o 
assunto. A senhora Merriwether exprimia os seus pontos de vista com voz retumbante, a senhora 
Elsing preferia expor o que pensava a esse respeito em tom displicente mas corts ' e a senhora 
Whiting assumia uma atitude de profundo constrangimento, como que para mostrar at que ponto 
detestava aflorar tais problemas. As trs mulheres abominavam-se mutuamente e desconfiavam 
umas das 
198 
Gutras como os componentes do primeiro triunvirato romano, E talvez a estreita aliana que existia 
entre elas tivesse uma explicao anloga  que ditara a coligao dos antigos senhores de Lcio. 
-J disse a Pitty que preciso de si no meu hospital - 
gritou a Merriwether, sorridente. -Agora veja l se vai comprometer-se com a senhora Meade ou 
com a senhora Whiting. 
-Fique descansada que no o, farei-assevQrou Scarlett sem ter a minima ideia do que a Merriwether 
pretendia. No entanto, no pde deixar de experimentar uma sensao deveras agradvel ante o 
caloroso acolhimento, que lhe estava sendo dispensado e o empenho com que desde j a sua 
presena era disputada. -Espero tornar a v-Ia brevemente. 
A carruagem continuou a avanar laboriosamente ao longo da rua. A certa altura deteve-se por 
instantes, a fim de dar passagem a duas sei@horas que, segurando nos braos cestos repletos de 
ligaduras, procuravam atravessar o lodaal, servindo-se das pedras escorregadias quase submersas 
na lama. Durante essa curta pausa o ohar de Scarlett deteve-se na figura curiosa duma inulher 
parada no 
passeio, a qual envergava um vestido de cores vivas, demasiadamente garridas para ser usado fora 
de casa tendo pelos ombros um xaile de Paisley cujas franjas qu@se lhe chegavam aos tornozelos. 
Voltando-se na direco oposta, deparou-se-lhe outra mulher, alta e atraente, de feies um pouco 
duras e farta cabeleira ruiva, muito ruiva para ser verdadeira, na cor pelo menos. Era a primeira vez 
que Scarlett via uma mulher que com certeza tinha feito qualquer coisa ao cabelo e quedou-se a 
mir-la fascinada. 
- Peter, quem  aquela? - perguntou, em voz baixa. -No sei, minina. -Sabes, sim. Tenho a certeza 
de que sabes. Quem 9 
- Chama-se Belle Watling - respondeu Peter, esticando o lbio inferior. 
Searlett no deixou passar despercebido o facto de que Peter no fizera preceder o nome nem de 
senhora nem de menina. 
-Quem  ela? -Minina Scarlett -redarguiu Peter, em tom Soturno, chicoteando o cavalo, que quase 
pulou de surpresa -a tia de minina com certeza que no vai gost de a v faz per- 
#
199 
gunta de coisa que no  prpria. Agora na cidade h uma poro de gente que no presta e de mui 
que nem  bom fal. 
"Deus do Cu!" pensou Scarlett, remetendo-se ao silncio. "Deve ser uma mulher de m vida!" 
Nunca at ento tinha visto uma Drostituta e foi-se voltando no banco para a seguir com a vista, at 
que ela se sumiu entre a multido. 
Os armazns e os edifcios construdos para fins militares comeavam a rarear. Entre eles 
estendiam~se agora lotes de terreno baldio e em breve a carruagem deixou para trs a zona 
comercial. Diante dos olhos de Scarlett principiaram a desfilar os prdios residenciais. A rapariga 
identificava-os como velhos amigos: a casa dos Leydens, majestosa e digna; a moradia dos 
Bonnells, com as suas colunas brancas e persianas verdes; a vivenda da famlia McLure, de tijolos 
vermelhos, construda segundo o estilo caracterstico de Gergia e parcialmente oculta pela cerca 
baixa. A viatura abrandara o andamento atendendo aos pedidos das senhoras que, dos passeios, 
al@endres e varandas, chamavam Scarlett, Esta conhecia algumas apenas de vista e de outras 
guardava smente uma vaga recordao; a maioria, porm, era-lhe completamente estranha. Pittypat 
Hamilton tinha espalhado a notcia da sua chegada, com certeza. Viu-se obrigada a pegar no filho 
ao colo vezes sem conta e a ergu-lo nos braos para que as senhoras que se aventuravam na lama 
at junto da carruagem pudessem extasiar-se a contempl-lo. Todas elas lhe pediram que aderisse 
aos seus crculos de costura ou clubes de malha e s comisses hospitalares a que pertenciam, e 
Scarlett fazia promessas temerrias a torto e a direito. 
No momento em que a carruagem passava defronte duma casa verde de madeira, recoberta de 
trepadeiras, uma negrinha, p@stada nos degraus do alpendre, gritou: 
- L vem ela! Seguido pela mulher e pelo filho, um rapaz de treze anos que dava pelo nome de Phil, 
o doutor Meade correu ao encontro de Scarlett, a fim de lhe apresentar cumprimentos de boasvindas. 
Scarlett lembrava-se de os ter visto tambm no seu casamento, A senhora Meade saltou para 
o estribo da carruagem e esticou o pescoo para ver a criana, enquanto o mariao, sem fazer caso da 
lama, se postava ao lado dela. o Dr. Meade era homem alto e magro, 
200 
de barba grisalha, talhada em bico. As roupas danavam-lhe no corpo, esqueltico como que 
aoitadas por um vendaval. Toda a gente em Atlanta o considerava a fonte da fora e da sabedoria 
humanas e, por consequncia, no era de estranhar que ele prprio partilhasse at certo ponto da 
opinio dos seus concidados. No obstante a sua mania de fazer previses fantsticas, como um 
orculo, e as maneiras afectadas que por vezes assumia, era indubitavelmente a criatura mais 
bondosa e simptica da cidade. 
Depois de ter apertado a mo de Scarlett e de haver espetado um dedo no estmago do nen,  guisa 
de cumprimento, o mdico anunciou que a tia Pittypat lhe havia prometido, sob juramento, que 
Scarlett no--- daria o seu concurso a nenhuma comisso hospitalar, salvo quela que era presidida 
pela senhora Made. 
- Oh, meu Deus! - exclamou Searlett. - Mas eu j me comprometi com centenas de senhoras! 
-Aposto que encontrou a senhora Merriwether! - repontou 
a Meade, indignada. - Apre! Aquela mulher parece que vai esperar todos os comboios! 
- Convidaram-me e eu aceitei, embora no faa a menor ideia do que se trata -confessou Scarlett. - 
Que vm a ser alinal as comisses hospitalares? 
Tanto o Dr. Meade como a mulher pareceram ficar escandalizados ante aquela confisso de 
ignorncia. 
-Evidentemente uma pessoa que vive isolada no meio do campo no pode saber o que se passa c 
por fora - 
declarou a senhora Meade, procurando desculp-la. -Para fazermos face s necessidades impostas 
pela guerra, lembrmo-nos de organizar turnos de enfermeiras que trabalham nos diferentes 
hospitais, revezando-se sucessivamente. Tratamos dos feridos e doentes, auxiliamos os mdicos, 
enrolamos ligaduras preparamos as roupas e, quando os homens tm alta pa@a convalescer, 
#
levamo-los para nossas 
casas at que eles se sintam em condies de regressar para a frente. Alm disso, olhamos pelas 
mulheres e pelas famlias dos feridos que no possuem meios, ou se mostram em eirunstncias 
ainda piores. 0 Dr. Meade trabalha no 
InsU7tuto Hospitalar onde funcionam os meus turnos. Todos o acham um mdico, exemplar... 
ectuosamente. 
- Basta, basta - interrompeu o doutor, af -No vs que te fica mal elogiar-me  frente de outras 
201 
pessoas? Eu pouco fao. Uma vez que tu no me deixaste alistar no Exrcito... 
- Eu no deixei? - exclamou a mulher, indignada. - 
Eu? Foi a cidade em peso que se ops e tu bem o sabes. imagine, Scarlett, que mal se espalhou a 
notcia de que o meu marido tencionava partir para Virgnia como cirurgio militar, todas as 
senhoras de Atlanta se apressaram a assinar uma,petio para que ele ficasse. Que seria da cidade 
sem ti. no me dirs? 
- Pronto, no insistas - atalhou o marido, sensibilizado pelo elogio. - ]' , possvel que a presena 
dum filho na frente de batalha seja suficiente como contribuio para o nosso esforo blico. 
-E, para o ano, vou eu!-afirmou o jovem Phil, pulando de entusiasmo. -Alistar-me-ei como tambor. 
J ando a treinar-me. Quer ouvir? n s um momento, enquanto vou buscar... 
No, agora no - opos-se a me, puxando o filho para si, com as feies sbitamente crispadas. - 
No quero que tu vs j no prximo ano. Talvez no outro... 
-Mas nessa altura, j a guerra ter acabado! - protestou Phil. furtando-se ao abrao materno. - Alm 
disso, tinham-me prometido... 
Por cima da cabea do moo, marido e mulher trocaram um olhar que surpreendeu Scarlett. Darey 
Meade estava em Virgnia e aos pobres pais repugnava a ideia de verem * filho mais novo partir 
tambm. 
Peter apurou a garganta. 
- Snhora Pitty tava to nervosa quando eu sa que se * gente no volta depressa vai desmai com 
certeza. 
- Adeus, adeus - disse a Meade, que acrescentou ainda: -Logo  tarde,~darei um p41o at l. E 
previna a sua tia de que, se eu no puder contar consigo, no haver nada que a salve das minhas 
unhas. 
A carruagem ps~se de novo em movimento, prosseguindo ao longo da rua lamacenta. Scarlett 
recostou-se no banco, sorridente. Havia muitos meses j que no experimenta,va uma sensao to 
intensa. Com as suas multides, a sua agitao, a sua atmosfera galvanizante, Atlanta era bem mais 
agradvel do que a fazenda solitria dos arredores de Charleston, onde os gritos dos agitadores 
quebravam o silncio da noit; bem mais divertida do que a prpria cidade, com os seus jardins 
adormecidos, cercados de 
202 
muros altos; bem mais atraente do que Savannah, com as suas ruas largas, ornadas de palmeiras e a 
ma ribeira de guas barrentas. Sim, naquele momento, Atlanta era mesmo prefervel a Tara, fosse 
qual fosse o lugar que Tara ocupava no corao de Scarlett. 
Havia algo de cativante naquela cidade de ruas estreitas, circundada por colinas avermelhadas, algo 
de primitivo * rude, que coadunava com o feitio impulsivo de Scarlett, * qual Ellen e Bab debalde 
tinham tentado sepultar sob uma camada de verniz. Scarlett compreendeu de sbito que era a esta 
que ela pertencia e no a qualquer das outras cidades antigas, plcidamente espraiadas ao longo das 
margens dos rios que as banhavam. 
As moradias eram agora cada vez mais espaadas. Scarlett debruou-se sobre a portinhola da 
carruagem e avistou a casa da tia Pittypat, com as suas paredes de tijolos vermelhos e telhado de 
ardsia. Era quase o ltimo prdio na zona setentrional da cidade. Naquele ponto, Peachtree Road 
transformava-se num caminho estreito, que continuava para o norte, serpenteando entre rvores 
frondosas, at se perder na floresta silenciosa. A cerca, de madeira cuidadosamente aparada, tinha 
#
sido recentemente pintada de branco e o jardim por ela delimitado emoldurava a, casa num friso de 
verdura, marchetado pelos ltimos junquilhos da estao. Sobre os degraus do alpendre, viam-se 
duas mulheres vestidas de preto e, atrs delas uma, terceira, de pele amarelenta, com as mos 
ocultas s@b o avental e os dentes brancos descobertos por um sorriso largo. A gorducha Pittypat, 
tomada de forte comoo balouava-se dum lado para outro, sobre os ps minsculos, enquanto 
com as mos comprimia o peito, como que para acalmar as palpitaes do corao. Searlett 
reconheceu Melanie de p ao lado da tia, e pensou, desgostosa, que s a 'presen@a daquela criatura 
franzina, de luto, que to bem soubera alisar os seus caracis rebeldes para ficar com um aspecto 
mais senhoril e que nesse instante avanava ao seu encontro, com um sorriso a iluminar-lhe o rosto 
em forma de corao, poderia ofuscar o prazer que estava disposta a tirar da visita que viera fazer a 
Atlanta. 
Quando um meridional se dava ao trabalho de preparar as malas e de cobrir um percurso de vinte 
milhas para visitar um amigo ou pessoa de famlia, era raro que a sua 
203 
visita durasse menos que um ms -geralmente prolongava-se por muito mais tempo. Os sulistas 
faziam visitas com o mesmo entusiasmo com que as recebiam e, s vezes, parentes convidados para 
as festas do Natal iam-se deixando ficar at Julho do ano seguinte. Tambm sucedia com frequncia 
casais em lua-de-mel demorarem-se em casa dum amigo mais hospitaleiro at ao nascimento do 
segundo filho e nada havia de extra-ordinrio no facto dum tio ou uma tia de idade j avanada, que 
aparecera em casa dos sobrinhos para o jantar de domingo, s de l sair alguns anos m-ais tarde, a 
caminho do cemitrio. As. visitas no incomodavam, pois que todas as moradias dispunham de 
quartos com fartura e os escravos eram em nmero mais que suficiente para enfrentar o acrscimo 
de trabalho. Alis, uma boca a mais ou a, menos no chegava a constituir um problema, em regio 
to rica como aquela. Toda a gente fazia visitas: casais em viagens de npcias, mes juvenis 
desejosas de apresentar s pessoas conhecidas os seus ltimos rebentos,- convalescentes de longa 
enfermidade, raparigas a quem os pais pretendiam afastar de namorados indesejveis ou que tinham 
atingido a idade crtica dos vinte anos sem casar e alimentavam a esperana de encontrar marido 
sob a gide de parentes estabelecidos noutras regies. Para os meridionais, as visitas eram sempre 
motivo de satisfao, visto quebrarem a monotonia dos seus dias sempre iguais. 
Scarlett chegou a Atlanta sem fazer a mnima ideia do tempo que iria demorar-se. Se visse que a sua 
estadia ali prometia tornar~se enfadonha como acontecera em Charleston e Savannali, regressaria a 
Tara no fim do primeiro ms. Caso contrrio, prolong-la-ia indefinidamente. Contudo, Pittypat e 
Melanie trataram logo de inicio de conjugar os seus esforos para a convencerem a instalar-se 
definitivamente em Atlanta. Recorreram a todos os argumentos possveis e imaginveis para 
lograrem o seu intento. Queriam t-la junto delas, porque a estimavam imensamente. Sentiam-se to 
ss naquele casaro enorme e s vezes tinham tanto medo de noite, que a sua presena lhes daria 
coragem. A su@ companhia, graciosa e gentil, decerto contribuiria para minorar o desgosto que as 
minava. Agora que Charles morrera, o lugar dela e do, filho era junto da famlia do marido. Alm 
disso, Charles deixara-lhe em testamento a metade da casa que herdara dos 
204 
pais, E, por ltimo, a Confederao necessitava de todas as mos disponveis para trabalhos de 
costura e de malha, bem como para o tratamento dos feridos e preparao de ligaduras, 
0 tio de Charles, Henry Hamilton, celibatrio inveterado que vivia no Hotel Atlanta, prximo da 
estao, tambm tomou o -assunto a peito e tentou persuadir Scarlett a fixar residncia na cidade. 
Henry Hamilton era um homenzinho baixo, barrigudo, de face vermelhusca e longos cabe- los 
brancos, Tinha um feitio irascvel e no tolerava mulheres tmidas ou atreitas a desmaios. Fora por 
esta ltima razo que ele prticamente, cortara relaes com a irm, a gorducha Pittypat, Desde 
criana que os seus temperamentos se tinham revelado incompatveis, mas as primeiras 
desinteligncias srias s se verificaram quando Henry se lembrou de censurar a irm pela forma 
como estava educando Charles. "Por esse andar - dissera ela - ainda acabas Dor fazer do filho dum 
soldado um autntico mariquinhas". Alguns anos atrs ' Henry Hamilton ofendera gravemente a 
#
irm e a partir de ento, sempre que Pitty- ' baixava tanto a voz e empregava pat se referia a ele, 
@:> tantas reticncias que, quem no conhecesse o honesto advogado, julg-lo,-ia um assassino, 
pelo menos. 0 -incidente que motivou o rompimento ocorreu no dia em que Pitty decidiu desfalcar 
em quinhentos dlares, o seu patrimnio, de que Henry era o fiel depositrio, para os aplicar numa 
mina de oiro que nunca existira. Henry Hamilton ops-se tenazmente  ideia e, no auge da sua 
exaltao, acusou a irm de ter ainda menos juzo do que uma criana, acrescentando que at sentia 
formigueiros nas pernas, quando estava mais de cinco minutos a conversar com ela. Desde ento, 
Pittypat passara a visit~lo apenas no ltimo dia de cada ms, quando Peter a levava ao escritrio, a 
fim de ela receber o dinheiro necessrio para o governo da casa, Sempre que voltava dessas rpidas 
visitas Pittypat, metia-se na cama e passava o resto do dia de@ulhada em lgrimas, sem largar o 
frasquinho dos sais. Melane e Charles, que mantinham boas relaes com o tio, por vrias vezes se 
tinham oferecido para ir receber a mesada no seu lugar, mas Pittypat fazia beicinho como 
uma criana, punha os ps  parede e teimava em ir ela pessoalmente, Henry era a sua cruz e 
portanto, havia de a arrastar at ao fim. Charles: e Mela@je tinham acabado 
205 
por chegar  concluso de que a tia gostava, de passar por quelas comoes, as nicas que lhe 
consentia a vida mon&tona que levava. 
Henry Hamilton simpatizou imediatamente com Scarlett porque, segundo ele mais tarde confessou 
a rapariga possua, sob a tola afectao das suas atitudes,1uma razovel dose de bom-senso. Henry 
era o fiel depositrio no s dos bens de Pitty e de Melanie, como tambm do que Charles deixara a 
Searlett, a qual experimentou agradvel surpresa ao saber que ' alm de'metade da casa em que se 
encontrava instalada, Charles'lhe legara igualmente diversas propriedades no campo e na cidade. 
Scarlett era agora uma viva rica. Os armazns e depsitos que alinhavam ao longo da linha frrea 
at junto da estao e faziam parte da sua herana haviam triplicado de valor desde que a guerra se 
desencadeara. Foi precisamente na altura em que estava a prestar contas do legado de Charles que o 
tio Henry aflorou a questo da mudana definitiva de Scarlett para Atlanta, 
-Quando Wade Hampton atingir a maioridade ter ao seu dispor uma riqueza considervel -disse ele 
-e, com o incremento que a-cidade est a tomar, tenho a certeza de que dentro de vinte anos, o seu 
patrimnio valer dez vezes r@ais. n necessrio que o rapaz cresa e seja, educado aqui em Atlanta, 
para que aprenda a administrar os bens que lhe pertencem, assim como os de Pitty e de Melanie. 
Dentro de pouco tempo, ser ele o nico homem da famlia, visto que eu no possuo o dom da 
eternidade. 
Peter, esse j se tinha compenetrado da ideia de que Scarlett ficaria a residir definitivamente com 
Pittypat e Melanie. Alis, no podia admitir a hiptese de que o filho nico de Charles fosse criado 
longe de Atlanta 'onde no tivesse oportunidade de vigiar a, sua educao. Scarlett escutava todos 
estes argumentos com um sorriso nos lbios e guardava silncio. No queria assumir qualquer 
compromisso sem saber se a vida em Atlanta e a convivncia permanente com a famlia do seu 
defundo marido lhe agradava ou no. Alm disso, havia de consultar prViamente Gerald e Ellen, 
os quais, por certo, se oporiam a uma separao definitiva, Acima de tudo, porm, preocupava-a 
uma descoberta que s recentemente fizera. Tinha saudades de Tara. Agora que se encontrava longe 
da- casa paterna, comeava a sentir uma estranha nostalgia. As colinas de 
206 
terra vermelha 'os tufos verdes dos algodoeiros e, sobretudo, o silncio doce dos crepsculos, tudo 
isso lhe fazia falta. E s ento compreendeu o verdadeiro significado das palavras do pai, quando 
lhe afirmava que ela tinha com certeza o amor pela terra entranhado nas veias, 
Searlett evitou habilmente dar resposta categrica s perguntas que lhe dirigiam quanto  durao 
da sua estadia e foi-se deixando arrastar pela existncia agradvel que levava na grande casa de 
tijolos vermelhos que se elevava quase ao fim de Peachtree Road, longe do bulcio do cen- 
ZD tro da cidade. 
A vida em comum com os parentes de Charles proporcionou-lhe ensejo de ficar com uma ideia mais 
precisa acerca do homem que, em to curto espao de tempo, havia feito dela esposa, viva e me. 
#
Sabia agora por que razo ele era to tmido, to simples, to sonhador. Se Cqiarles herdara 
algumas das qualidades do soldado austero intrpido e impulsivo que fora o seu pai, a atmosfera de 
@equIntada feminilidade em que decorrera a sua infncia destrura-a por completo, Devotara-se de 
corpo e alma  pueril Pittypat e a sua afeio por Melanie era muito superior  que vulgarmente se 
encontra num irmo. 
A tia de Charles fora baptizada sessenta anos atrs com o nome de Sarah Jane Hamilton, mas desde 
o dia j longpquo em que o pai, que a adorava, se lembrara de lhe chamar Pittypat, por ela ter os 
ps minsculos e no ser capaz de os conservar imveis por um momento, ningum mais a tratara 
de outra maneira. No decurso dos anos que se seguiram a esse segundo baptismo o sobrenome 
acabou por se tornar ridculo em face das tra@sformaes operadas no aspecto fsico de Sarah Jane, 
Com efeito ' da criana irrequieta que ela fora no restava mais do que os ps minsculos, 
desproporcionados em relao ao peso do corpo e aquela forte propenso para tagarelar e rir por 
tudo @ por nada. Gorducha, de faces rubicundas e cabelos grisalhos, usava o espartilho to 
apertado que at tinha dificuldade em respirar. Era, incapaz de andar distncias superiores a cem 
metros, pois trazia os ps sempre comprimidos dentro de sapatos de medida inferior  que devia 
calar.  menor contrariedade, o corao, de uma sensibilidade extrema, entrava a palpitar 
desord@nadamente, e ela abusava dessa circunstncia com o maior desplante, desmaiando com 
frequncia e a propsito de qualquer coisa. 
207 
Todos sabiam que, duma, maneira geral, os seus delquios eram fingidos, mas queriam-lhe tanto 
bem que lho no davam a perceber. Toda a gente gostava dela e a estragava com mimo, tratando-a, 
como a uma criana. Por isso mesmo, ningum a tomava a srio-ningum a no ser o irmo, Henry 
Hamilton. 
No havia nada que lhe agradasse mais dc> que conversar, nem sequer os prazeres de uma boa 
mesa. Costumava passar horas a. fio, a tagarelar acerca da vida dos outros, no por esprito de 
maledicncia, mas como passatempo. A sua memria no retinha nomes nem datas, nem locais, e 
era frequente confundir os intrpretes de um drama ocorrido erri Atlanta com as personagens duma 
tragdia que se desenrolara noutra cidade qualquer. No entanto, ningum coinetia a imprudncia de 
lhe dar crdito, pelo que os equvocos em que incorria no eram susceptveis e causar 
aborrecimentos a quem quer que fosse. Todos evItavam contar-lhe episdios impressionantes ou 
histrias escandalosas, pois que se tornava necessrio respeitar o seu estado de velha solteirona, no 
obstante os sessenta anos que lhe pesavam sobre os ombros, e todas as pessoas amigas conspiravam 
gentilmente para a preservarem do mal e a conservarem mimada como uma criana de colo. 
Melanie era bastante parecida com a tia ' sob muitos aspectos. Parecia ter herdado dela a mesma 
timidez, os m =os rubores sbitos a mesma modstia embora fosse dotada de bom-senso... '"De um 
gnero muito especial,  preciso que se note", pensava Scarlett, mau grado seu. Tal qual sucedia 
com Pittypat, tambm Melane tinha no rosto a expresso inocente e confiante de quem sempre 
encontrara  sua volta singeleza e candura, lealdade e amor, de quem ignorava o mal e no o 
reconhecia se um dia viesse a topar com ele no seu caminho. Vivera sempre feliz, e o seu desejo 
era, que todos partilhassem da mesma felicidade ou que, pelo menos, se sentissem satisfeitos 
consigo prprios. A sua bondade induzia-a a ver apenas o, lado bom das pessoas e a exaltar as 
virtudes que nelas porventura lograva descobrir. No havia, servo, por mais estpido que fosse, em 
que ela no encontrasse vestgios redentores de fidelidade e nobreza de sentimentos, nem rapariga 
feia ou 
antiptica que no achasse elegante e ntegra, nem homem indigno ou maador, cujos defeitos, aos 
olhos dela, sobrepujas-sem as suas imaginrias qualidades. 
208 
'Tais predicados, nascidos espontneamente dum corao sincero e generoso, hava-lhe granjeado a 
estirria de todo& De facto, quem  capaz de resistir ao encanto durna criatura que descobre nas 
outras pessoas virtudes admirveis, que elas prprias nunca tinham suposto possurem? Melanie 
contava mais amigos do que qualquer outra rapariga de Atlanta, tanto entre a populao feminina 
#
como entre a masculina. E, se no vivia rodeada de admiradores era porque lhe faltavam a malcia e 
o egosmo to teis para colher na armadilha os coraes dos homens. 
Melanie limitava-se a pr em prtica as lies que as raparigas meridionais recebiam des-de 
pequennas e que tinham como principal objectivo conseguir que todas as pessoas se sentissem 
despreocupadas e -satisfeitas na sua companhia. Era esta simptica conspirao feminina que 
tornava a sociedade do Sul to, agradvel. As mulheres sabiam por experincia prpria que numa 
terra onde os homens no fossem contrariados nem feridos na sua vaidade a sua vida decorreria 
numa atmosfera tranquila e aprazvel. Por isso, desde o bero at  sepultura ' elas se empenhavam 
em lhes proporcionar uma existncia feliz ateno que os homens retribuam prodigamente com 
galantaria e estima, cumulando-as de gentilezas, 'reconhecendo espontneamente todas as suas 
virtudes e qualidades, salvo. a da inteligncia. Scarlett conseguia exercer sobre as pessoas com 
quem lidava o mesmo fascnio que Melanie, suprindo a natural simplicidade da cunhada por 
pro,cessos estudados que punha em prtica com a percia duma artista consumada.  diferena entre 
as duas residia no facto de que, no caso de Melanie, as palavras gentis e lisonjeiras eram ditadas 
exclusivamente Delo desejo de criar  sua volta uma atmosfera de felicidade ' ainda que 
passageira, ao passo que Scarlett s as pronunciava quando podia tirar delas algum prove@to 
pessoal. 
Criado sob a influncia de duas criaturas a quem devotara ilimitado afecto, num lar que ambas se 
esforavam por tornar suave corno um ninho> Charles fez-se homem sem praticamente tomar 
ontacto com a dura realidade da vida, o que teve como consequncia que o seu carcter se forjasse 
em moldes pouco msculos. Na opinio. de Searlett, aquela caisa, to antiga, to tranquila e 
modesta em relao a Tara, precisava de ser impregnada dos odores masculinos de tabaco, do lcool 
e de leo de Macaar. Sentia-se ali a 
14 - Vento Levou - 1 209 
falta de armas de fogo, de suas, de selas e de arreios, dunia voz rude praguejando de vez em 
quando, de ces a ladrarem no ptio, de rumores de discusses que to frequentemente se ouviam 
em Tara quando Ellen no estava prximo para intervir -de Bab questionando com Pork, de Rosa 
implicando com Teena, de Gerald ameaando este mundo e o outro da prpria Scarlett repontando 
com Suellen, No era d@ admirar que Charles se houvesse transformado no rapaz tmido que 
Scarlett desposara, vivendo num ambiente daqueles, onde os dias se passavam numa monotonia 
exa-sperante, onde todos se curvavam delicadamente perante os pontos de vista alheios e seguiam 
as directrizes impostas pelo dspota negro, de cabelos grisalhos, quesoubera colocar sob a sua 
superintendncia, inicialmente circunscrita  cozinha, o resto da habitao, bem como os 
respectivos ocupantes. Scarlett que, ao escapar  estreita vigilncia da ama, imaginara ter dado um 
passo firme no caminho da libertao ' verificou com pesar que Peter tinha ideias mais estritas que 
as de Bab acerca da maneira como devia conduzir-se uma senhora em geral, e a viva do senhor 
Charles em particular. 
Sob aquele tecto, Searlett recobrou o seu equilbrio emocional quase sem dar por isso. Tinha apenas 
dezassete anos, gozava de excelente sade, transbordava de energia e a famlia de Charles no se 
poupava a esforos para que ela -se sentisse feliz na sua companhia. Se no lograram inteiramente o 
propsito que os niovJa, a culpa no era deles, pois que ningum podia arrancar do corao de 
Scarlett a dor pungente que a assaltava sempre que se pronunciava o nome de AshIey. E Melanie 
pronunciava-o to amide! Contudo, tanto ela como a tia manifestavam a preocupao constante de 
encontrarem forma de suavizar o desgosto que julgavam tortur-la. Chegavam ao ponto de recalcar 
as suas tristezas para tentarem distra-Ia. Rodeavam-na de atenes, cozinhando os pratos de que ela 
mais gostava, conven 1- 
cendo-a a repousar aps as refeies, persuadindo-a a dar curtos passeios de carruagem, para 
espairecer as mgoas. No s deliravam de admirao por ela, pela sua vivacidade, pela sua cintura 
fina, pelos seus ps to pequeninos, pelas suas mos to delicadas, pela sua ctis to branca e 
aveludada, como tambm lho diziam sem rebuo, pontuando os elogios que lhe faziam com beijos e 
carcias. 
#
Scarlett ligava pouca, importncia s demonstraes afec- 
210 
tivas da tia e da cunhada, mas experimentava uma satisfao imensa, ao ouvir os cumprimentos que 
no cessavam de lhe dirigir. Nunca em Tara lhe tinham dito coisas agradveis, Pelo contrrio. Bab 
no se cansava de lutar contra a sua presuno: 0 pequeno Wade Hampton j no constitua um 
empecilho, pois que toda a famlia, bem como vizinhos-e escravos, o adorava, disputando 
acalora"clamente o prazer de lhe pegarem. Melanie tinha uma verdadeira loucura pelo sobrinho, At 
no auge das suas piores crises de choro, ela o achava encantador e exclamava, embevecida: 
-Que amor de nen! Como eu gostaria que ele fosse meu! 
Por vezes,, Scarlett tinha dificuldade em dissimular os -seus sentimentos. Para, ela, a tia Pittypat 
continuava a ser a mais estpida das solteironas e a sua inconstncia bem corno as vertigens a que 
era to atreita, irritavam-@a ao mais alto ponto. Quanto a Melanie, sentia por ela uma averso 
ciumenta que ia aumentando de intensidade  medida que os meses corriam, No era raro ter de 
abandonar a sala bruscamente, quando a cunhada, com o rosto ilumnado por uma expresso de 
orgulho e amor, comeava a falar de AshIey ou decidia ler as cartas dele em voz alta. Apesar de 
tudo, a vida decorria o mais agradavelmente possvel. Atlanta era muito mais divertida do que 
Savannah, Charleston ou Tara, e a guerra proporcionava passatempos to imprevistos que Scarlett 
no tinha vagar para reflectir nem para se preocupar com ideias tristes. No entanto, quando  noite, 
depois de ter apagado a vela, escondia a cabea no travesseiro, assaltavam~na pensamentos 
sombrios. E ento, sem conseguir conciliar o sono, ela suspirava e dizia de si para si: "Oh, se ao 
menos AshIey no estivesse casado! Se ao menos eu no tivesse de trabalhar naquele maldito 
hospital! Se ao menos pudesse ter alguns namorados!" 
Scarlett detestara o servio de enfermeira desde o priineiro instante, mas no podia esquivar-se ao 
compromisso tomado, tanto, mais que fazia parte de duas cGmisses, prepelas 
senhoras Meade e Merriwether. isso repre sentava ao fim de cada semana quatro manhs 
perdidas no hospital, abafado e pestilento, com os cabelos metidos  fora numa toalha e o corpo 
envolto num avental quentssimo que a cobria do pescoo aos ps. Velhas ou novas, todas as 
mulheres casadas de Atlanta praticavam a enfer- 
211 
magem nos servios de assistncia hospitalar s vitimas de guerra, desempenhand(>-se da sua, 
misso com um entusiasmoque roava pelo fanatismo. Todas elas estavam conidas 
de que Scarlett se encontrava imbuda do mesmo fer or patritico que as movia e ficariam 
profundamente consternadas se pudessem adivinhar o interesse quase nulo que  sua juvenil colega 
mereciam todos os problemas relacionados com a guerra. A marcha do conflito e o destino da 
Confederao apenas a preocupavam na medida em que pudessem afectar a segurana de AshIey, 
por cuja vida receava num tormento constante. E, se continuava a tratar dos feridos, era porque no 
via maneira de se furtar a essa horrvel tarefa. 
A profisso de enfermeira no tinha nada de romanesco. Para ela, significava apenas gemidos, 
delrios, mortes e cheiros ftidos. Os hospitais estavam a abarrotar de homens imundos, barbudos, 
cobertos de parasitas, que tresandavam terrivelmente e apresentavam ferimentos horriveis, cujo 
aspecto provocava nuseas. 0 fedor agridoce da gangrena assaltava as narinas de Scarlett, antes que 
ela transpusesse a porta do hospital, e entranhava-se-lhe na pele e nos cabelos, perseguindo-a de 
noite, em sonhos. Densos enxames de moscas, melgas e mosquitos revoluteavam no ar, zumbindo 
sobre os catres, cujos ocupantes, atormentados pelas dores e pelas picadelas dos insectos, 
praguejavam impotentes, ou soluavam, exaustos. Para minorar o sofrimento deles, Scarlett passava 
parte das manhs a agitar pesados leques de palmito  cabeceirai das camas, at as costas lhe 
doerem e lhe faltarem as foras para coar os braos e as mos, onde os mosquitos a picavam. 
Havia ocasies em que, desesperada, chegava a desejar que todos aqueles homens morressem para a 
deixarem em paz. 
Melanie, porm, parecia no se impressionar, nem com as emanaes ptridas dos membros 
gangrenados, nem com o aspecto repelente das chagas ' nem -sequer com a nudez dos feridos, 
#
facto que Scarlett estranhava numa criatura recatada e tmida como era a, cunhada. s vezes, 
Melanie ficava lvida, quando o Dr. Meade achamava para o ajudar nas operaes e a, obrigava, a 
segurar em bacias e instrumentos cirrgicos, enquanto ele retalhava carnes putrefactas. Certo dia. 
aps uma interveno deste gnero, Scarlett foi encontr-la fechada na rouparia, a vomitar 
tranquilamente para uma toalha. Mas, enquanto permaneciasob os 
212 
olhares dos feridos e doentes, Melanie mostrava-se sempre to meiga, to compreensiva e animosa, 
que bem merecia o epiteto de "Anjo de Caridade", como era conhecida em todos os hospitais. 
Scarlett gostaria de receber ttulo idntico, mas isso implicaria tocar em homens cobertos de 
piolhos, meter os dedos nas gargantas dos feridos inconscientes no fossem eles estar sufocados por 
pontas de cigarro, edaixar com ligaduras cotos de membros amputados e retirar bichos de carnes 
apo-drecidas. No, a vida de enfermeira estava muito longe de a seduzir! 
Se ao menos lhe fosse permitido exercer a magia dos seus encantos sobre os convalescentes, entre 
os quais havia alguns bastante simpticos, descendentes de boas famlias, talvez ela tivesse 
encontrado em to espinhosa actividade uma espcie de compensao. Mas enviuvara muito 
recentemente e era preciso guardar as aparncias... Os convalescentes estavam entregues aos 
cuidados das raparigas solteiras's quais no era permitida a prtica de enfermageina, medida 
tendente a evitar que elas vissem espectculos inconvenientes para os seus olhos pudicos de 
donzelas. No sendo nem casadas nem vivas, gozavam de plena liberdade e faziam autnticas 
razias entre os seus protegidos. Scarlett observou, no sem certa melancolia, que at as raparigas 
menos atraentes conseguiam arranjar noivo com a maior facilidade. 
Exceptuando as manhs que perdia no hospital  cabeceira dos moribundos e dos feridos de maior 
gravidade, Scarlett passava o tempo rodeada de mulheres, o que lhe era duplamente desagradvel, 
no s pela desconfiana que lhe inspiravam as representantes do seu sexo, mas tambm pelo 
aborrecimento que sempre experimentava na companhia delas. No obstante a sua repugnncia 
pelos ambientes em que predominasse o elemento feminino Scarlett tinha de participar trs vezes 
por semana nas r@unies dos crculos de costura e de empacotamento de ligaduras, dirigidos pelas 
amigas de Melanie. As jovens que constituam esses grupos e que, sem uma nica excepo, tinham 
conhecido Charles, mostravam-se muito delicadas e atenciosas para com ela, especialmente Fanny 
Elsing e Maybelle Merriwether, filhas das duas vivas mais clebres de Atlanta. Contudo, Scarlett 
notava na gentileza com que elas a tratavam a deferncia devida a uma velha, cuja vida se aproxima 
do seu termo. E, ao ouvi-Ias falar a respeito de bailes e de 
213 
namorados 'numa tagarelice incessante e despreocupada,, Scarlett acabava por invejar a sorte delas, 
com saudades dos folguedos dos seus tempos de solteira. No, entanto, tinha a certeza de que era, 
trs vezes mais atraente do que Fanny ou Maybelle! Oli, como a vida se mostrava injusta! Como 
podia haver pessoas que supunham o seu corao sepultado, com o corpo do marido, quando ele 
lutava na Virgnia, ao lado de Ashley! 
Apesar de todos estes inconvenientes, Atlanta agradava-lhe bastante e as semanas iam correndo sem 
que lhe acudisse a ideia de regressar a Tara. 
9 
DEBRUADA na janela do seu quarto, Scarlett seguia com um olhar desconfiado as carruagens 
pejadas de soldados e de raparigas, acompanhadas pelas respectivas vigilantes, que nessa manh de 
Vero rodavam alegremente ao longo de Peachtree Road, em busca de galhos floridos ' para 
ornamentao da sala em que,  noite, se realizaria a festa de beneficncia a favor dos hospitais. As 
rvores, que ladeavam o caminho, entrelaavam os ramos, formando um tnel de verdura, enquanto 
a sombra da folhagem desenhava sobre a terra avermelhada complicados arabescos. Levantavam-se 
nuvens de Doeira rubra sob as patas dos cavalos, que trotavam livremente como se j conhecessem 
o destino que levavam. Abria c, cortejo uma carruagem que transportava quatro negros enormes, 
munidos de machados para afastarem as trepadeiras e deceparem os galhos. Empilhados na 
retaguarda do veculo, viam-se diversos cestos cobertos por guardanapos de linho e canastras de 
#
vime ' contendo provises para a merenda, bem como uma dzia de melancias, Um dos pretos 
levava um banjo e outro uma harm6nica bocal, com os quais estropiavam a cano "Se Queres 
Divertir-te, Alista-te na Cavalaria". Atrs deles seguiam os restantes carros da alegre caravana 'nos 
quais viajavam dezenas de raparigas que trajavam vestidos leves, de cassa florida, xailes de 
algodo, chapus e mitenes com que preservavam a ctis do ardor do Sol, e empunhando guarda- 
~sis pequenos de renda, erguidos acima da, cabea; e senhoras idosas, que sorriam plcidamente 
perante a alegria 
214 
ruidosa das suas juvenis companheiras, as quais riam s gargalhadas e trocavam ditos e gracejos 
duma carruagem para outra; e soldados convalescentes, apertados entre corpulentas damas, que 
serviam de vigias, e donzelas elegantes a demonstrarem uma solicitude sem limites para com os 
homens entregues aos seus cuidados. A par das viaturas cavalgavam oficiais das diversas armas do 
exrcito da Confederao, muito aprumados na sela. 0 cortejo avanava lentamente numa sinfonia 
colorida em que, ao ranger das rodas, ao tilintar das esporas e ao cntico plangente dos negros, se 
aliavam as fulgncias douradas do s meta@s dos arreios, a brancura das sombrinhas rendadas e as 
cores garridas dos vestidos das moas. Toda a gente conver,-ia para a estrada, a fim de colher ramos 
floridos, simples pretexto para um piquenique  sombra das rvores. "Toda a gente menos eu", 
pensava Scarlett tristf=ente. 
Ao passarem sob a sua janela, os ocupantes das carruagejus; acenavam-lhe cordialmente, dando-lhe 
os bons dias. Searlett esforava-se por corresponder graciosamente aos cumprimentos que lhe 
dirigiam, mas encontrava certa dificuldade em o fazer. Sentiu uma dorzita aguda estrangular-lhe o 
corao, uma dor que foi- subindo, subindo, at lhe chegar  garganta, onde se transformou num n 
que no tardaria a desfazer-se em lgrimas. Toda a gente ia ao piquenique, excepto ela. E toda a 
gente iria tambm ao baile, nessa noite. Toda a gente, excepto ela. Excepto ela e a tia Pittypat e 
Melanie e todas as outras infelizes que estavam de luto e no podiam sair de casa para se.distrarem 
um pouco. No entanto, a cunhada e a tia pareciam no se importar com isso. Aparentemente nem 
sequer tinham pensado ainda na possibilidade de ir@m  festa. Mas Searlett tinha pensado. E sentia 
um desejo louco de danar e 
de se divertir. 
Com franqueza, aquilo no era justo! Trabalhar duas vezes mais do que qualquer outra rapariga a 
fim de arranjar artigos para a quermesse. Fizera gorros e pegas de malha para crianas, bem como 
regalos e mantas e diversos metros de renda; pintara toda urna srie de o@jectos de porcelana; 
bordara meia dzia de almofadas com a bandeira da Confederao (nalgumas, as estrelas tinham 
ficado ligeiramente  banda e havia casos em que lhes acrescentara uma ou duas pontas s cinco 
que elas deviam ter, mas o efeito era excelente). Na vspera esfalfara-se at mais no 
215 
poder no velho celeiro poeirento do antigo Arsenal, guarnecendo as barracas, que se alinhavam ao 
longo das paredes, com tiras de pano amarelas, verdes e cor-de-rosa, tarefa j de si bastante 
desagradvel, quanto mais com as trs presidentes das comisses hospitalares a vigiarem o servio. 
Porque a verdade  que no havia possibilidade alguma de distraco num local onde se 
encontrassem reunidas ao mesmo tempo as senhoras Merriwether, Elsing e Whiting, as quais no 
hesitavam em mandar o pessoal de um lado para outro, como se estivessem dando ordens aos 
escravos, e ainda por-cima o maavam com historietas absurdas, tendentes a demonstrar a 
popularidade de que as filhas gozavam. Para cmulo de infelicidade, Scarlett arranjara duas bolhas 
nos dedos ao ajudar a tia Pittypat e a cozinheira a fazerem bolos para o sorteio final. 
E agora, depois de haver trabalhado como uma criada, tinha de retirar-se da cena justamente quando 
ia comear a @esta. Sim, no era justo que, pelo facto de ter enviuvado recentemente e de haver 
dado  luz a criana que chorava, aos gritos, no aposento contguo, ela se visse obrigada a ficar em 
casa, afastada para sempre de tudo o que tornav-&a existncia agradvel e digna de ser vvida. 
Havia pouco mais dum ano, ainda ela usava vestidos de cores berrantes em lugar daquela 
vestimenta negra e era assediada pela, corte assdua que lhe faziam trs do@ melhores partidos da 
#
comarca. Tinha apenas dezassete anos e os seus ps morriam de desejo por danar. No 'no era 
justo. A vida desfilava-lhe ante os olhos ao longo daquela estrada umbrosa impregnada de calor 
estival, num espectculo deslumbrante de uniformes cinzentos, esporas cintilantes, vestidos de 
organdi e banjos a tocarem. Fez um esforo desesperado para no sorrir, para no acenar com 
excessivo entusiasmo, aos homens que conhecia melhor, queles a quem tinha tratado no hospital, 
masera-lhe difcil, prticamente impossvel, disfarar as covinhas que se lhe cavavam nas faces e 
manter a atitude austera de uma viva cujo corao estivesse na tumba, junt@o do -cadver do 
marido-quando afinal no estava. 
Scarlett cessou bruscamente de corresponder s saudaes que lhe eram dirigidas. Esbaforida por 
ter subido a 
escada, a tia Pitty irrompeu no aposento e arrancou-a da janela,,com a maior sem-cerimnia. 
- Perdeste o juzo, minha querida? Que ideia foi essa 
216 
de vires para a janela do teu quarto de cama acenar aos homens? Com franqueza, Scarlett, nunca 
esperei que fosses capaz de fazer uma coisa dessas! Que diria a tua me? 
- Oli, tia! Eles no sabem que o meu quarto de cama  aqui! 
- No sabem mas podem calcular, o que vem a dar no mesmo. No, minha querida, no deves 
proceder assim. Isso  o bastante para que toda a gente comece a censurar-te, a dizer que s uma 
leviana... Alis a senhora Merriwether sabe perfeitamente onde fica o teu quarto. 
- E no deixar de ir contar o que eu fiz a quem quiser dar-lhe ouvidos. Diabos a levem! 
-Oh, Scarlett, por amor de Deus! Dolly Merriwether  a minha melhor amiga. 
-0 que no impede que seja uma intriguista formidvel. Oli, tia, desculpe! No chore, por favor! 
Esqueci-me que se tratava da janela do meu quart<>. Descanse que no voltarei a faz-lo... Eu... eu 
queria v-los passar. Gostaria de ir tambm. 
- Scarlett! 
- Palavra, tia. Estou farta de ficar em casa, sentada, enquanto os outros se divertem. 
- Scarlett, promete que no tornas a dizer barbaridades dessas. As ms lngu. as nunca mais se 
calariam. Comeariam logo a dizer que tu no mostras o devido respeito pela memria do pobre 
Charles... 
-Oh, tia, no chore! -Pronto! Agora fui eu que tambm te fiz Jiorar! - 
exclamou Pittypat, entre dois soluos, procurando o, leno nas algibeiras da saia. 
0 n que se formara na garganta de Scarlett acabarw finalmente por se desfazer em lgrimas, 
lgrimas que nO eram de saudade pelo desditoso Charles, como Pittypat, supunha, mas sim de 
desgosto por no poder incorporar-se na alegre caravana, por no poder juntar-se quele ruidoso 
grupo de jovens, cujas gargalhadas estrepitosas lhe chegavam aos ouvidos cada vez mais sumidas 
na distncia. Melanie surgiu no limiar da porta que estabelecia comunicao com o quarto contguo. 
Segurava na mo uma escova do fato e uma ruga apreensiva aproximava-lhe as sobrancelhas. Os 
cabelos, que trazia sempre cuidadosamente penteados, sob a rede, flutuavam agora, em liberdade, 
envolvendo-lhe o rosto numa moldura de caracis e anis. 
217 
'.@ 
-Que aconteceu? 
- Charles!... - soluou Pittypat, entregando-se completamente ao prazer da sua mgoa e escondendo 
a cabea no ombro de Melanie. 
- Oli! - murmurou Melly, cujo lbio inferior se ps a tremer, ao ouvir o nome do irmo. - Coragem, 
minha tia! No chore. Oli, Scarlett! 
Scarlett tinha-se atirado para cima da cama e dava livre curso ao pranto, carpindo a -sua mocidade 
perdida e as alegrias que lhe eram negadas, chorando de indignao e de desespero, como uma 
criana que conseguiu sempre o que quis -com meia dzia de lgrimas vertidas na altura prpria e 
que de sbito verifica que as lgrimas de nada lhe valem j. Ocultando a cabea sob a almofada, 
soluou e esperneou sobre a colcha que revestia o leito. 
#
- Qui me dera morrer! -dizia ela no auge do desespero. 
Perante to veemente demonstrao de pesar, o pranto fcil de Pittypat cessou como por encanto e 
Melanie foi sentar-se  cabeceira da cama, tentando reconfortar a cunhada. 
- No te aflijas assim, minha querida! Pensa na paixo que Charles tinha por ti e que isso te sirva de 
consolao. Lembra-te do filho que ele te deixou. 
Furiosa por ver a sua reaco to mal compreendida, e irritada por saber que jamais poderia voltar a 
divertir-se como as outras raparigas dasua idade, Scarlett foi incapaz de proferir um som, 
circunstncia q@ie redundou em benefcio prprio, pois que'se houvesse chegado a falar, teria dito 
tudo aquilo que sentia, sem medir as palavras,  maneira impulsiva de Gerald. Melanie afagou-lhe 
os ombros, enquanto Pittypat atravessava a alcova nos bicos dos ps, a fim de cerrar as persianas. 
- No faa isso! - gritou Scarlett, erguendo do travesseiro o rosto inchado e vermelho. -Eu ainda no 
morri, para que me ponha o quarto s escuras... E dai talvez fosse melhor ter morrido! Vo-se 
embora, por fav@r! Deixem-me ficar szinha. 
Enterrou novamente a cabea na almofada e, aps breve concilibulo, a tia e a cunhadasarani do 
quarto, sem fazer rudo. Scarlett ainda ouviu Melanie murmurar, no momento em que principiavam 
a descer as escadas: 
-Acho conveniente abstermo-nos de falar de Charles  
218 
frente dela. No h dvida que- isso a aflige imenso. Coitada, s vezes faz uma cara muito triste e 
esfora-se por no chorar, mas eu bem vejo. 
Num assomo de raiva impotente, Searlett deu um pontap no colcho, enquanto procurava 
expresso suficientemente grosseira para dar largas  sua ira. 
- Com seiscentos diabos! - exclamou por fim, e foi quanto bastou para se sentir um pouco mais 
aliviada. Conio, podia Melanie viver satisfeita, sempre ali metida em casa, sem nunca se divertir, 
muito resignada no seu vestido de luto pelo irmo, como se no tivesse apenas dezoito anos, mas 
sim quarenta ou cinquenta? Fosse como fosse, Melanie parecia alhear-se da vida que desfilava sob a 
sua janela numa cavalgada florida e musical. 
"No admira", pensou Scarlett, vibrando os punhos cerrados sobre o travesseiro. "Melanie  to 
sorumbtica! Nunca se tornou popular e, por consequncia, no sente a falta que eu sinto, de ir a um 
baile ou a uma festa, de vez em quando. Alm disso... alm disso, ela tem Asley e eu... e eu no 
tenho ningum!" 
E este pensamento teve o condo de lhe reavivar a dor e de novo as lgrimas lhe jorraram dos olhos 
em torrentes caudalosas. 
Deixou-se ficar no quarto at quase ao entardecer. Assistiu  passagem das seges que regressavam 
do piquenique carregadas de ramos de pinheiro, de trepadeiras, de avencas e polipdios, e de novo a 
assaltou uma tristeza infinda. Rapazes e raparigas pareciam todos vergados ao peso duma fadiga 
agradvel, ao dizerem-lhe adeus, acenando com as mos. Scarlett correspondeu maquinalmente s 
saudaes que lhe dirigiam. A vida para ela transformara-se numa tal sensaboria que no valia a 
pena ser vivida... 
A sua libertao surgiu quando menos o esperava. As senhoras Merriwether e Elsing apareceram 
inesperadamente pouco depois do jantar. Alvoroadas com aquela visita a hora to insJita, 
Melanie, Scarlett e Pittypat levantaram-se  pressa das camas onde costumavam descansar aps as 
refeies, abotoaram o vestido, alisaram os cabelos e desceram  saleta. 
- Os filhos da senhora Bonnell adoeceram com sarampo 
- anunciou a senhora Merriwether sem qualquer prembulo, dando a entender claramente que, na 
sua opinio, a 
219 
nica pessoa responsvel pelo ocorrido era a prpria Bonneli. _E as filhas da senhora McLure 
partiram inesperadamente para a Virgnia - informou a senhora Elsing, com a sua voz sumida, 
abanando-se lnguidamente com o leque, como se nem um nem outro facto tivessem importncia 
alguma. - Dallas McLure foi ferido, 
#
- Que horror! - exclamou Pittypat, fazendo coro com as sobrinhas, -0 ferimento  de... 
- No. Foi uma arranhadura no ombro nada mais respondeu a Merriwether, em tom rspido.-'No 
entanto, o acidente no podia ter acontecido em pior ocasio. As irms partiram para o Norte, a fim 
de o trazerem para casa. Santo Deus, no temos tempo a perder! Precisamos de voltar para o 
Arsenal quanto antes, se queremos que a ornamentao fique pronta a horas. Pitty,  necessrio que 
tu e Melly nos ajudeis esta noite, visto no haver mais ningum que possa substituir a senhora 
Bonnell e as duas McLures. 
-Oh, DoIly! Sabes muito bem que no podemos ir... -No me digas uma coisa dessas a mim, 
Pittypat Hamilton! - atalhou a Merriwether b@uscamente. - Precisamos de ti para vigiar os 
moleques no bufete. E voc, MeIly, ficar na barraca das McLures, para vender as prendas... 
- Mas no  possvel... 0 pobre Charles morreu h to pouco tempo ainda... 
- Compreendo perfeitamente o que sentem, mas todos ns devemos sacrificar-nos pela causa - 
atalhou a senhora Elsing em voz suave, que no admitia rplica. 
- Gostaramos imenso de ser prestveis, mas... Por que no arranjam duas pequenas engraadas para 
as auxiliarem no bufete e na barraca? 
A senhora Merriwether soltou uma risada que reproduziu fielmente um som roufenho dum 
trombone desafinado. 
-Ignoro o que acontece s raparigas modernas ' mas a verdade  que elas no tm a menor noo 
das responsabilidades. Convidmos uma poro delas, de entre as que ainda no tinham tarefa 
distribuda, e no houve uma s que no apresentasse mil e um pretextos para se esquivar. Mas a 
mim  que elas no enganam. Querem ter plena liberdade para poderem namorar os oficiais. E, 
alm disso, receiam que os seus vestidos novos no dem nas vistas, 
220 
por ficarem ocultas em parte atrs dos balces. Pena  que esse homem que passa as coisas atravs 
do bloqueio... como -se chama ele? 
-Capito Butler-lembrou a senhora Elsing, -Pena  que ele no traga mais material hospitalar e 
menos rendas e crinolinas. No foi um apenas, mas vinte, vinte vestidos que eu hoje vi e que lhe 
foram comprados. Capito Butler... j nem posso ouvir-lhe o nome.  escusado Pitty, no temos 
tempo a perder com discusses inteis' Precisamos de vocs duas. Toda a gente compreender. E 
ningum te ver nas traseiras do bufete. Quanto a Melly, a barraca fica situada ao fundo da sala, 
num local pouco concorrido, e a ornamentao  pobre, de forma que a sua presena quase se no 
tornar notada. 
- Eu acho que devamos ir - declarou Scarlett, tentando disfarar o interesse que sentia e imprimir 
ao rosto uma expresso natural e simples. -  o menos que podemos fazer em benefcio do hospital. 
Nenhuma das visitantes tinha pronunciado o nome dela. Ambas se voltaram para a encarar, 
lanando-lhes olhares penetrantes. Apesar de estarem decididas a tudo para preencher as faltas 
originadas pelo impedimento da senhora Bonnell e das duas McLures, ainda lhes no tinha ocorrido 
a ideia de convidarem urna viva de to frescadata a apresentar-se na reunio embora se tratasse 
apenas duma festa de beneficncia. S6rlett suportou o exame a que as senhoras Merriwether e 
Elsing a submeteram, com o ar mais ingnuo deste mundo, 
-Na minha opinio devemos ir as trs, se com isso pudermos contribuir de alguma forma para o 
xito, da festa -acrescentou ela. -Eu ficaria na barraca com Melly porque... Estou convencida de que 
no pareceria to mal serem duas, em vez duma. Que dizes MeIly? 
-Sim... -murmurou a cunhada,' mngua de argu@mentos. 
A ideia de aparecer em pblico, estando ainda de luto pela morte do irmo, afiguravw-se-lhe to 
absurda que no sabia que dizer, 
- Scarlett tem razo - afirmou a Merriwether, vendo Melanie prestes a ceder. Levantou-se e arranjou 
as pregas do vestido, dando ao corpo uma sacudidela brusca. - Portanto, conto com as duas, isto , 
com as trs. Por amor de Deus, Pitty, no comeces novamente a procurar desculpas- 
221 
Pensa apenas no dinheiro que  preciso para comprarmos mais camas e medicamentos para o 
#
hospital. Alm disso, tenho a certeza de que Charles gostaria que vocs auxiliassem a causa pela 
qual ele morreu. 
1 Pois sim... -disse Pittypat, dando-se por vencida, -como sucedia sempre que tinha de lutar com 
uma personalidade mais forte do que a sua. -Se vocs acham que as pessoas compreendero... 
"Isto  bom de mais para ser verdade!  bom de mais para ser verdade!" cantava o corao 
maravilhoso de Scarlett, enquanto Melanie e ela se esgueiravam discretamente para dentro da 
barraca, enfeitada com tiras de tecido amarelo e cor-de-rosa, que devia ter ficado a cargo das 
McLures. At que enfim voltava a um baile! Aps um ano de recluso, de crepes e de vozes 
abafadas, durante o qual chegara a recear enlouquecer de tdio, ia de novo assistir a uma festa, a 
uma verdadeira festa, como ainda no se realizara outra em Atlanta. Poderia ver gente, contemplar a 
iluminao da sala, ouvir msica, admirar por si prpria os vestidos, as rendas e as camisas de 
folhos. que o famoso capito Butler conseguira trazer para Atlanta apesar do bloqueio, na sua 
ltima viagem. 
Deixou-se cair sobre um dos tamboretes colocados do lado de dentro do balco e passou o olhar 
deslumbrado duma ponta a outra do vasto salo que, ainda na vspera, no era mais do que um 
simples armazm nu e glido. Quanto trabalho no fora necessr@o para operar aquela 
transformao! 0 aspecto da sala era magnfico. Scarlett teve a impresso de que deviam encontrarse 
ali todos os candeeiros e candelabros existentes na cidade. Do tecto pendiam lustres de prata, 
alguns deles com uma dzia de braos, bem como lampadrios de porcelana finssima, decorados na 
base com figurinhas deliciosas, enquanto sobre os cavaletes das espingardas alinhadas ao longo das 
paredes, nas mesas cobertas de flores, nos balces das barracas e at sobre os peitoris das janelas 
rasgadas atravs das quais penetrava no--salo a brisa quente dessa noite de Estio, jaziam altos 
castiais de bronze, erectos e dignos, nos quais ardiam velas dos mais diversos feitios, tamanhos e 
cores, que exalavam um cheiro agradvel, de resina. 
Suspensa do tecto por uma corrente ferrugenta, a meio da sala, havia outro candeeiro, que fazia 
parte do mobili- 
222 
rio do antigo arsenal e cujo aspecto fantasmagrico desaparecera quase totalmente sob os ramos de 
hera e de vinha virgem em que tinha sido envolvido para o efeito e os quais j principiavam a 
murchar devido ao calor. Um odor acre emanava dos galhos de pinheiro que guarnecia as paredes e 
formavam aos cantos lindos nichos onde mais tarde se refugiariam as senhoras idosas e as damas de 
companhia. Por toda a parte se viam grinaldas e festes de folhagem natural, enquadrando as portas 
e as janelas, destacando-se sobre as tarlatanas garridas das brracas. Dezenas de flmulas e de 
galhardetes ornavam a sala, com as estrelas da Confederao fulgindo sobre o fundo vermelho e 
azul do pavilho sulista. 
0 estrado onde ficariam os msicos tinha sido decorado com supremo gosto artstico. Um friso de 
verdura e de bandeiras dissimulava a plataforma, deixando ver apenas os degraus de acesso. Scarlett 
sabia que todos os vasos de plantas que existiam na cidade tinham sido levados para ali a fim de 
COMpGr aquela moldura viosa, em que figuravam begnias, oleandros, e at os quatro preciosos 
exem~ plares da rvore-de-borracha pertencente  senhora Elsing, os quais ocupavam lugares de 
honra, nas quinas do estrado. 
As snhoras tinham-se eclipsado atravs duma porta fronteira  plataforma ' porta essa que se 
rasgava numa parede da qual pendiam dois enormes retratos do Presidente Davis e do "pequeno 
Alec" Stephens, natural de Gergia, que ocupava o cargo de Vice-Presidente da Confederao. A 
encimar os quadros, drapejava suavemente uma bandeira imensa e, por baixo, sobre compridas 
mesas, acumulavam-se as ofertas dos jardins de Atlanta: avencas e polipdios, nastreios 
multicolores ramos de rosas vermelhas, amarelas e brancas palmas'de gladolo dourados e heliantos 
esguios, cujas fl@res cremes e castanho-escuras se debruavam sobre as outras plantas, Entre os 
vasos, ardiam serenamente as velas, como num altar. Das suas molduras, os dois chefes 
contemplavam a cena sem pestanejar. No podia ser mais surpreendente o con@raste oferecido 
pelas expresses fisionmicas dos homens que, naquele momento crtico, presidiam aos destinos da 
#
Confederao. Davis possua o aspecto macilento e o olhar frio de asceta, e os seus lbios 
permaneciam obstinadamente cerrados numa linha firme; Stehpens tinha olhos negros ' 
brilhantes, profundamente engastados nas rbitas, e o seu rosto deno- 
223 
tava os sintomas inconfundveis duma longa luta contra a doena e a dor, da qual lograra triunfar 
graas  sua vontade frrea e  indomvel energia de que era dotado. Duas figuras quase 
antagnicas, mas que toda a gente aprendera a estimar. 
As organizadoras da festa, sobre as quais recaam as responsabilidades inerentes a to ousada 
iniciativa, percorriam o salo duma ponta a outra, imponentes nos seus vestidos roagantes, como 
veleiros navegando a todo o pano. Nas suas rondas, iam empurrando para dentro das barracas as 
raparigas que chegavam atrasadas, bem como as que, tendo embora comparecido  hora marcada, 
riam e.cochichavam pelos cantos. Em seguida, retiravam-se por uma das portas laterais, a fim de 
inspeccionarem a dependncia onde se encontrava instalado o servio de refrescos, levando no 
encalo a ofegante Pittypat. 
Os msicos tomavam os seus lugares no tablado. A orquestra era composta exclusivamente por 
negros, cujos rostos sorridentes reluziam j de transpirao. Compenetrados da importncia do seu 
papel na festa, demoravam-se alguns minutos a afinar os instrumentos at pegar na batuta e impor 
silnco o velho Levi, cocheiro da senhora Merriwether, o qual dirigira todos os agrupamentos 
musicais chamados a abrilhantar os bailes, casamentos e quermesses efectuados em Atlanta desde o 
tempo em que a cidade ainda era conhecida pelo nome de Marthasville. 
No obstante a assistncia estar ainda prticamente reduzida s senhoras que desempenhavam 
qualquer papel na festa, todos os olhares emergiram para o maestro. 0 rudo das conversas cessou 
por momentos e ento os violes, os violoncelos, os banjos e os harmnios atacaram a valsa Lo,rena 
com ritmo lento, demasiadamente lento para danar. Mas o baile s comearia muito mais tarde, 
quando j no houvesse nada para vender nas barracas, Scarlett sentiu o corao pulsar-lhe mais 
depressa, no peito, ao recordar-se dos versos daquela valsa melanclica. 
Os anos passam devagar, Larena! * neve cai de novo sobre o cho * o Sol j se no v no cu, 
Lorena. 
Um-dois-trs, um-dois-trs, roda agora... trs, roda novamente... dois-trs! Que linda valsa! Seatlett 
estendeu os 
224 
w 
braos, cerrou as plpebras e balanou o corpo, ao ritmo embalador e nostlgico da msica, Havia 
algo de estranho naquela melodia trgica, nos versos que contavam a histria triste dos amores de 
Lorena, que a perturbou a ponto de sentir um n na garganta e de subirem as lgrimas aos olhos. 
Como que atrados pela msica ouviam-se agora sons que se elevavam das ruas, banha6s, pelo luar. 
Ao tropel dos cavalos juntava-se o ranger das rodas das carruagens, o estrpito das gargalhadas que 
ecoavam nG silncio da noite e o rumor das discusses dos cocheiros, que disputavam entre si os 
melhores stios para prenderem os animais. Na escada que dava acesso  sala estabelecera-se um 
alegre tumulto. As vozes frescas das raparigas misturavam-se com as dos seus. companheiros, mais 
graves mas bem moduladas, num amlgama sonoro, agradvel ao ouvido, As pessoas conversavam 
jovialmente, soltando exclamaes de prazer ao reconhecerem amigos com quem ainda nessa tarde 
tinham estado a falar. 
De sbito, uma onda de animao invadiu a sala, que de um momento para outro ficou cheia duma 
multido de raparigas, que pareciam flutuar no espao, envoltas em vestidos polcromos, tufados 
por amplas saias de crinolina, sob as quais se vislumbravam fugazmente pantalonas com aplicaes 
de renda, e ostentando decotes guarnecidos de fGltios rendilhados, que deixavam a descoberto 
ombrers nveos e rolios e leves esboos de seios pequeninos e macios. Todas elas traziam, 
negligentemente dobrados no brao finos xailes de cambraia e, presos ao pulso por estreitas fitas de 
veludo, leques floridos e enfeitados de arminho, lantejoulas ou penas de pavo, Lado a lado com 
meninas de cabelos pretos pentea@os em grossos carrapitos cujo peso as fazia inclinar levemente a 
#
cabea para trs, numa atitude altiva, passeavam moas de fartas cabeleiras fulvas, que lhes caam 
sobre os ombros em cascatas de caracis e anis, entre os quais cintilavam os pingentes que lhes 
pendiam das orelhas. No curto espao de alguns minutos o vasto salo ficara convertido num mar 
ondulante d@ rendas, folhos e alamares, que tinham sido passados atravs do bloqueio e que por 
isso mesmo eram usados com maior orgulho, visto constiturem nova afronta aos yankees. 
No eram todas as flores da cidade as que engalanavam a sala, em homenagem aos chefes da 
Confederao. 
15 -Vento Levou - 1 225 
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As raparigas tinham reservado para si as mais pequenas e perfumadas: rosas abertas que 
espreitavam por trs das orelhas delicadas, minsculas grinaldas de jasmim-d(>-Cabo que se 
balouavam ao sabor dos movimentos ondulantes de madeixas aneladas, botes de rosa que 
emergiam tImidamente das faixa@ de cetim, flores que, ao terminar a festa, seriam oferecidas como 
recordao e desapareceriam no bolso dum uniforme cinzento. 
Viam-se dezenas e dezenas de homens fardados entre a multido, muitos dos quais Scarlett 
conhecia, por os ter encontrado nos catres do hospital, nas ruas de Atlanta, nos campos de instruo. 
0 aspecto dos uniformes era magnfico, com os seus botes cintilantes, as suas duplas fileiras de 
gales nos punhos e na gola, as listas vermelhas, azuis e amarelas que, consoante as armas em que 
eles serviam, lhes guarneciam os cales, realando a cor cinzenta da fazenda. Aqui e acol, 
distinguiam-se reflexos de sabres refulgentes espelhando-se nas botas luzidias ' ouvia-se o tilintar 
intermitente das esporas, vislumbravam-se faixas rubras e douradas. 
"Que homens to simpticos!" pensou Scarlett, sentindo um frmito de orgulho percorrer-lhe o 
corpo, ao v-los trocarem cumprimentos, acenarem aos amigos, curvarem-se sobre as mos das 
senhoras de idade. Tinham todos uma aparncia ainda to juvenil, apesar dos seus bigodes louros e 
agressivos, das suas barbas pretas e castanhas! Eram todos to atraentes, to elegantes ' to 
senhores de si! Alguns traziam a cabea envolvida por ligaduras brancas que contrastavam com a 
cor da pele, bronzeada pelo sol, outros um brao ao peito, e muitos caminhavam com o auxlio de 
muletas! Como as raparigas se motravam orgu- lho'sas ao lado deles! Com que solicitude 
abrandavam o passo de forma a acompanharem a sua marcha, lenta e saltitante! Entre os homens 
uniformizados que s encontravam na sala, havia um cuja farda parecia ter sido arrancada de uma 
aguarela garrida e fazia empalidecer os tons vivos das belas vestes femininas - um zuavo, da 
Louisiana, moreno, baixo, sorridente que passeava dum lado para outro, todo empertigadQ n6 
dlman vermelho, muito justo, e nos cales largos, de listas azuis e brancas. Andava com @m dos 
braos apoiado numa atadura de seda negra que lhe passava em torno do pescoo e a sua figura 
extica destacava-se no meio da multido corno a duma ave tro- 
226 
pical. Era Ren Picard, o pretendente mais favorecido de Maybelle Merriwether. 0 salo estava 
repleto de gente. Os hospitais deviam ter ficado vazios, pois todos os homens que podiam aguentarse 
de p haviam acorrido ali. Juntamente com os soldados convalescentes ou dispensados at ao dia 
seguinte, aglomeravam-se praas, sargentos e oficiais dos servios de transportes ferrovirios, de 
misses, de abastecimento e sade, dos diversos aquartelamentos disseminados pela rea que 
circundava Atlanta at Macon. Como as organizadoras da festa deviam estar satisfeitas! 
0 hospital ia arrecadar um dinheiro naquela noite! 
Ouvia-se rufar os tambores, na rua, logo seguidos pelo rumor de passos marciais e coro de gritos de 
admirao, soltados pelos cocheiros. Momentos depois 'soou o toque de clarim e uma voz grave 
deu ordem de destroar. Um destacamento da Guarda Nacional e da Milcia, precipitou-se ento 
para a entrada do antigo Arsenal, subiu a escada estreita a correr, fazendo estremecer a madeira dos 
degraus, e invadiu o salo, cumprimentando, saudando, trocando apertos de mo. A Guarda contava 
nas suas fileiras um grande nmero de adolescentes que no escondiam o seu orgulho pelo papel, 
embora inactivo, que estavam desempenhando, e que juravam a todos os seus deuses que no ano 
seguinte abalariam para Virgnia, se a guerra durasse at l, bem como uma srie de velhotes de 
#
barbas brancas, que desejariam voltar algumas dcadas atrs e que, ao vestirem o uniforme, sentiam 
reflectir-se em si a glria dos filhos que combatiam na frente. A Milcia compunha-se 
principalmente de indivduos de meia-idade, mas tambm englobava nos seus quadros algumas 
centenas de homens que se encontravam em muito boas condies para pegarem em armas contra 
os yankees; esses, todavia, no manifestavam o esprito patritico e guerreiro demonstrado pela 
totalidade dos novos e pela maioria dos ancies. Havia muita gente j que murmurava, perguntando 
a si prpria e s pessoas amigas por que no iriam eles unir-se s tropas do general Lee. 
Como conseguiriam caber todos ali dentro do salo? 
0 velho Arsenal, que poucos minutos antes parecia ainda deserto, encontrava-se pejado duma 
multido que se ia COMprimindo ca 'da vez mais, a fim de arranjar espao para os que chegavam. 
As emanaes da noite estival, unidas  fragrncia dos saquitis de perfume, das guasde-colnia, 
das 
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~-.*d- ---0~001 
brilhantinas e pomadas para o cabelo, ao aroma que exalavam as velas acesas e as flores, 
impregnavam a atmosfera dum odor agradvel que se infiltrava nas narinas. A noite estava quente, 
do soalho vetusto elevava-se uma nuvem de poeira fina. 0 rumor das conversas era quase 
ensurdecedor. Contagiado pela alegre excitao que reinava na sala, o velho Levi fez calar a 
orquestra a meiG dum compasso da valsa Lo@ena e, ao sinal da batuta os msicos atacaram com 
entusiasmo vibrante A Bela -andeira. Azul. 
Duas centenas de vozes entoaram os versos em unssono, cantando-o a plenos pulmes gritando-os 
como uma aclamao. 0 corneteiro da Guarda @ubiu ao estrado e comeou a acompanhar a 
orquestra no momento preciso em que a multido principiava o estribilho. As notas do clarim 
soaram em estridncias metlicas acima do coro das vozes, causando arrepios na pele dos braos 
nus e provocando frmitos de genuna comoo ao longo da espinha: 
Hurra! Hurra! Petos direitos do Sul! Pela nossa bela Bandebia azul Que tem srnente uma estrela! 
A segunda estrofe foi entoada ainda com mais calor do que a primeira e Scarlett, que cantava 
juntamente com os outros, ouviu atrs de si uma voz suave de soprano, cintilante e lmpida como o 
som argentino do clarim. Voltou-se e deparou~se-lhe Melanie, de p, com as mos a comprimirem 
o seio e de plpebras cerradas, vertendo lgrimas silenciosas pelos cantos dos olhos. Quando a 
msica cessou e ela viu a expresso de surpresa patente na fisionomia da cunhada, que a fitava 
como se nunca a tivesse visto antes, esboou um sorriso constrangido e encolheu os ombros, como 
que a pedir desculpa, ao mesmo tempo que amarfa,nhava o leno entre as mos. 
- Sinto-me to feliz - murmurou ela - e orgulhosa dos nossos soldados, que quando penso neles at 
me d vontade de chorar. 
Nos olhos brilhava-lhe um claro ardente, apaixonado, que por momentos iluminou o seu rosto 
banal, tornando-o magnfico. 
Todas as mulheres se voltaram para os homens que amavam, no instante em que os ecos dos 
ltimos acordes se extinguiram. As rapa--igas voltaram-se para os seus 
228 
namorados ou pretendentes, as mes para os filhos, as esposas para os maridos; todas elas tinham a 
mesma expresso radiosa no rosto, as mesmas lgrimas de orgulho nas faces lisas ou enrugadas, o 
mesmo brilho intenso no olhar, o mesmo sorriso nos lbios. Todas elas pareciam possuir naquela 
ocasio a beleza ofuscante que transfigura at a mulher mais desprovida de encantos, quando se 
sente protegida, quando se sabe amada e retribui esse amor com uma paixo infinita. 
Elas adoravam os seus homens, nos quais depositavam confiana ilimitada, uma f que as 
acompanharia para alm da morte. Que desastre poderia jamais atingir aquelas mulheres, quando 
entre elas e os yankees se erguia a muralha intransponvel dos uniformes cinzentos? Teriam alguma 
vez existido soldados mais valorosos, mais intrpidos, mais nobres, mais ternos, desde que o mundo 
era mundo? Que se poderia augurar a uma causa justa e legitima como a que esses homens 
defendiam seno uma vitria retumbante? Porque s uma vitria total, esmagadora poderia coroar a 
#
luta por uma causa cuja defesa at as @nulheres haviam tomado, colocando ao servio dela, no s 
as suas mos, mas tambm os seus coraes. Todas elas devotavam  Causa um amor intenso, como 
o que nutriam pelos seus homens. A Causa era o motivo predominante, das conversas, dos 
pensamentos e sonhos era algo por que no hesitariam em sacrificar maridos, lhos e parentes cuja 
perda suportariam com o mesmo aprumo com que el@s empunhavam os estandartes nos campos de 
batalha. 
A populao de Atlanta vivia em mar cheia de fervor e 
de orgulho e a estrela da Confederao brilhava no znite, pois que a vitria final estava j prxima, 
Os triunfos alcanados por "Stonewall" Jackson e a derrota infligida aos yankees na batalha dos 
Sete Dias, travada nos arrabaldes de Richmond, assim o davam a entender claramente. Nem outra 
coisa seria de esperar de um exrcito que tinha como chefes homens da tmpera de Lee e de 
iackson. Mais uma vitria apenas, e os yankees ficariam prostrados por terra, suplicando a paz. E, 
ento os -soldados regressariam aos seus lares e as mulheres r@ceb-los-iam com beijos e 
com risos de alegria. Mais uma vitria apenas e acabaria a guerra! 
Evidentemente, havia muitas cadeiras que ficariam vagas para sempre, centenas de crianas que 
nunca che- 
229 
.i- @, 
gariam a conhecer os pais, milhares de tmulos que permaneceriam ignorados ao longo dos regatos 
tranquilos da Virgnia e das montanhas, escarpadas do Tennessee. Contudo, tal preo no poderia 
considerar-se exagerado, quando estavam em jogo os destinos da Confederao. Tornava-se cada 
vez mais difcil encontrar seda para um vestido, o ch e o acar escasseavam no mercado, mas no 
era isso o 
que realmente importava. Tanto mais que o capito Butler e uma srie de aventureiros igualmente 
arrojados continuavam a romper o bloqueio, com grande desespero dos yankees, com carregamento 
de tecidos e de outrors gneros de primeira necessidade, cuja posse era disputada a peso de oiro e 
constitua, por isso, motivo de prazer imenso. Em breve Raphael Senimes e a Armada da 
Confederao escorraariam as canhoneiras yankees e abririam as portas do Sul ao comrcio com o 
estrangeiro. E a Inglaterra no tardaria a fornecer aos exrcitos sulistas o auxlio que mais 
rpidamente os conduziria  vitria, pois que as suas fbricas de tecelagem estavam inactivas por 
falta de algodo. Alis, a aristocracia britnica manif@stava natural simpatia pela populao dos 
estados confederados ' apoiando a sua atitudecontra uma raa que tinha a paixo do dinheiro, como 
era o. caso dos yankees. 
Por isso as mulheres, encantadoras nos seus vestidos de seda, se mostravam to satisfeitas. Sabiam 
que em face do perigo o amor se toma mais vibrante e doce e contemplavam os seus homens com o 
peito a transbordar de orgulho. 
0 prazer de se encontrar de novo no ambiente festivo de uma reunio mundana fizera palpitar de 
incio o cora,o de Scarlett em ritmo acelerado. Contudo, a sua alegria como que se desvaneceu 
quando reparou na expresso patente no rosto de todos os que a cercavam e cujo verdadeiro 
significado no logrou compreender logo  primeira vista, Todas as mulheres denotavam uma 
comoo que ela estava longe de sentir. Ficou surpreendida e ao mesmo tempo consternada. No 
saberia explicar porqu, mas a verdade  que a sala j no lhe parecia to linda nem as raparigas to 
sedutoras como alguns minutos antes. E aquele entusiasmo pela Causa que iluminava todos os 
rostos afigurou-se-lhe... sim, afigurou~se-lhe estpido! 
De sbito, e com grande espanto seu, Scarlett verificou que no compartilhava do orgulho feroz 
daquelas mulheres nem do seu esprito de sacrifcio. Antes mesmo que a sua 
230 
conscincia tivesse tempo para lhe dizer, horrorizada: "No, no! No deves pensar assim. Fazes 
mal...  um pecado!", Scarlett compreendeu que a Causa nada significava para ela. Era com 
verdadeiro enfado que ouvia toda aquela gente falar no assunto com um brilho fantico no olhar. A 
seu ver, a Causa nada tinha de sagrado. E a guerra contra os yankees no chegava a ser uma cruzada 
#
santa, como pretendiam fazer crer, mas uma calamidade que se "rvia apenas para causar a morte de 
milhares de homens, para gastar rios de dinheiro e tornar quase impossvel a compra de objectos de 
luxo, de vestidos de seda e de gneros alimentcios. Reconheceu que estava farta de passar tardes 
inteiras a fazer malha, a enrolar ligaduras, a preparar parches de linho, para aplicar nas chagas, 
trabalho que lhe arruinava as unhas. E estava to saturada de hospital! Saturada do cheiro 
nauseabundo da gangrena, dos gemidos incessantes, do espectculo horrorizante que lhe oferecia a 
viso da morte prxima nos rostos exangues dos feridos. 
Olhou furtivamente  sua volta receando que algum lhe lesse na face os pensamentos ab@urdos: e 
traioeiros que nesse instante lhe cruzavam o crebro. Gostaria de vibrar como as outras mulheres, 
de experimentar o mesmo fervor, o mesmo entusiasmo. Todas elas se tinham dedicado de corpo e 
alma  Causa. Todas as suas palavras e actos dencitavam a sinceridade que as movia. E se algum 
suspeitasse de que... Mas isso no podia acontecer. Tinha de evitar a todo o custo que viessem a 
desconfiar do que se passava no seu ntimo. Precisava de se fingir imbuda de exaltao e. de 
orgulho por uma causa que lhe era indiferente; precisava de representar de forma convincente o 
papel de viva de um oficial dos exrcitos confederados, que suportava estoicamente o seu 
desgosto, cujo corao ficara sepultado juntamente com o cadver do defunto e para quem a niorte 
do marido em defesa da nobre Causa, longe deconstituir motivo de desespero, representava uma 
glria eterna. 
Oli, por que seria ela to diferente das restantes mulheres, por que viveria n-um mundo to  parte?! 
Scarlett no compreendia que se pudesse amar algum ou alguma coisa to desinteressadamente. 
Experimentava uma terrvel sensao de isolamento, ela que nunca se tinha sentido s, nem fsica 
nem espiritualmente. Ainda tentou sufocar estes pensamentos, mas no lho permitiu a franqueza 
rude latente no seu esprito. E, enquanto nas barracas se procedia  
231 
venda dos artigos, enquanto ela e Melanie atendiam os clientes ao balco o seu crebro trabalhava 
febrilmente, procurando justifi@ar~se a si prpria, tarefa que raras vezes achava difcil. 
As outras mulheres pareciam-lhe,simplesmente ridculas e histricas com as suas histrias de 
patriotismo e amor da Causa, e os homens no lhe ficavam muito atrs, com as suas axengas acerca 
de questes vitais e dos; direitos dos Estados. Entre toda a gente que se encontrava ali reunida era 
ela, Searlett O'Hara Hamilton, a nica pessoa que conservava um pouco de bom-senso caracterstico 
dos indivduos de ascendncia irlandesa. No estava disposta a fazer o papel de tola, pondo a Causa 
a@cima de todos os seus interesses pessoais, mas tambm no tencionava sujeitar-se a crticas e a 
censuras, confessando os seus sentimentos ntimos. Era suficientemente esperta para saber encarar a 
situao atravs do prisma mais prtico. Procederia de maneira que ningum sequer suspeitasse da 
sua opinio a respeito da guerra e de tudo o que com ela estava relacionado. Como no ficaria 
surpreendida, toda aquela multido se de sbito a ouvisse divulgar os seus pontos de vista! Que 
escndalo no seria se ela inesperadamente subisse ao estrado da orquestra e declarasse que o 
melhor que havia a fazer era pr termo  guerra para que os homens que combatiam na frente 
pudessem regressar aos seus lares e dedicar-se de novo  cultura, do algodo, para que pudesse 
tornar a haver bailes e piqueniques, namoros e idlios, e vestidos de seda em abundncia. 
Convencida da justia das suas ideias, sentiu-se reanimada por momentos, embora lhe persistisse no 
esprito a sensao de enfado que a assaltara minutos antes. Como afirmara a senhora Merriwether, 
a barraca das McLures estava de facto situada num local muito pouco concorrido e passavam-se 
longos perodos sem que nenhum presumivel comprador se acercasse do balco. Scarlett no tinha 
mais que fazer seno observar com inveja a multido alegre que enchia a sala. Melanie reparou na 
expresso melan,clica patente no rosto da cunhada, mas. supondo-a motivada pelo desgosto de no 
ter o marido junto de si, absteve-se de comentrios e nem sequer tentou entabular conversa. 
Entreteve-se a arrumar os objectos sobre o balco da barraca de forma a atrarem mais a ateno, 
enquanto Scarlett continuava sentada, olhando a sala com visvel 
232 
mau-humor. At os tufos de flores colocados sobre os retratos de Davis e de Steph(-ns lhe 
#
desagradavam j. 
"Aquilo at parece um altar", disse ela de si para si. "E aqueles dois so tratados com tanto respeito 
que bem podiam ser o Pai e o Filho". Mas logo se arrependeu de tal pensamento, e, aterrorizada 
pela sua irreverncia, levou o polegar  fronte a fim de se persignar. Contudo, ainda se dominou a 
tempo. 
"Mas  assim mesmo" 'argumentou com a conscincia. "Toda a qente fala deles como se fossem 
santos, quando a verdade e que so homens como quaisquer outros, e bastante feios por sinal". 
Bem entendido, Stephens no tinha culpa nenhuma, pois que havia,sido toda a vida um doente, mas 
Davis... Searlett, examinou esse rosto altivo, de traos bem marcados, como os dum camafeu. A 
barba aparada em bico era de tudo o que mais lhe desagradava. Os homens deviam usar a cara 
rapada, um bigode decente ou ento a barba completa, por inteiro. 
"De cada vez que olho para. o retrato, fico com a impresso de que aquela barbicha foi o mximo 
que o infeliz conseguiu arranjar", pensou Se ;arlett, sem reparar no ar inteligente, austero e resoluto 
do homem que -suport@ava naquele momento o peso da chefia duma nao nova.. 
No, Searlett j se no sentia alegre, embora, a princpio a tivesse deleitado a ideia de se encontrar 
no meio daquela multido buliosa e entusistica. J lhe no bastava estar presente. Queria tomar 
parte activa na quermesse. Ningum lhe prestava ateno e de todas as raparigas livres era ela a 
nica que no tinha namorado, ela que se habituara a ver concentradas sobre a sua pessoa as 
atenes gerais. No era justo! Contava apenas dezassete anos e os seus ps acariciavam o soalho, 
num desejo louco de danarem, de deslizarem no sobrado ao som da msica que a orquestra no 
cessava de tocar. Contava apenas dezassete anos, mas tinha um marido sepultado no cemitrio de 
Oak-land e um filho a choramingar no bero, em casa. Apesar disso, tanto Pittypat como todas as 
pessoas que Scarlett conhecia pensavam que ela devia dar-se por felizeom a sua sorte. No havia ali 
na sala nenhuma raparigaque tivesse o colo mais nveo, a cintura mais fina ou os ps mais delicados 
do que os seus, mas isso em nada podia alterar. a 
situao. Para todos os efeitos, era como se ela estivesse 
233 
enterrada sob a mesma lousa, que cobria a campa de Charles, a cujo epitfio faltaria acrescentar 
somente: "E a sua bem-amada espos", ou qualquer outra frase semelhante. 
No era solteira para ter a liberdade de danar e namorar, nem casada para ao menos lhe restar a 
consolao de se juntar ao grupo das matronas e com elas criticar as outras raparigas nem 
suficientemente idosa para j estar viva. As viva@ deviam sempre ser velhas - to velhas que 
nunca sentJssem desejo de danar ou de namorar ou de se verem cercadas por uma corte de 
admiradores. No, no era justo que ela fosse obrigada a ficar ali tranquilamente sentada, 
personificando a viva. modelo, digna e circunspecta, com dezassete anos apenas! No era justo 
que tivesse de reduzir a voz a um murmrio e de baixar os olhos modestamente quando os homens, 
alguns deles bem simpticos, por sinal, se aproximavam da sua barraca! 
Todas as jovens de Atlanta se encontravam rodeadas de pretendentes. At as que menos deviam  
beleza se comportavam como autnticas beldades. E os seus vestidos, como eram lindos! 
Scarlett quase chorou de raiva ao verificar o contraste que o seu traje sombrio faria ao p daqueles 
trajes luxusos e garridos. Mirou-se de alto a baixo e teve -a impresso de que parecia um corvo, 
no seu vestido de tafet preto, abotoado at ao pescoo e apertado nos pulsos, sem qualquer feitio 
nem adorno, a no, ser o alfinete de peito, de gata, que lhe oferecera a me. Quedou-se a 
observar as rapa igas esgalgadas que passavam diante do balco, de brao dado com moos 
atraentes. Estava condenada a no sair dali at que a festa acabasse, e tudo porque Charles Hamilton 
se lembrara de adoecer com um ataque de sarampo!... Nem ao menos morrera como um heri, em 
combate, para que ela, na sua viuvez, pudesse vangloriar-se da valentia do marido. 
Revoltada, fincou os cotovelos no balco da barraca e passeou um olhar turvo pela multido, 
desprezando as repetidas advertncias de Bab, que sempre a aconselhara a no se apoiar sobre os 
cotovelos para evitar que eles ficassem speros e enrugados. Mas, agora, que poderia ela perder 
com isso? Provvelmente, nunca mais teria oportunidade de voltar a n>strar os cotovelos. Admirou 
#
maravilha-da, os vestidos que via desfilar pela sua frente,' vestidos de seda amarela, enfeitados com 
grinaldas de flores ainda 
2,34 
em boto, de cetim cor-de-rosa, com dezoito folhos debruados a veludo negro, de tafet azul-claro 
com dez metros de roda na sala e cascatas de rendas vaporosas. E contemplou com inveja os culos 
descobertos e os ramalhetes de flores que as raparigas exibiam. Maybelle Merriwether dirigiu-se 
para a barraca contgua, pelo brao do zuavo. Trazia um vestido de tarlatana verde-ma, to rodado 
que a sua cintura parecia reduzida a nada , o qual ostentava enorme profuso de aplicaes de 
renda de Chantilly, vinda de Charleston pelo ltimo navio que atravessara o bloqueio. Todavia, 
Maybelle saracoteava-se to orgulhosamente que dir-se-ia ter sido ela e no o capito Butler quem 
afrontara o perigo. 
"Como aquele vestido me ficaria bem!" pensou Scarlett, louca de inveja. "Maybelle tem a cintura 
mais grossa do que uma vaca. Aquele tom de verde  precisamente a, cor de que eu mais gosto e 
faria com que os meus olhos parecessem... Por que ser que as loiras tm a mania de usar aquela 
cor? Ficam com a pele esverdeada como queijo velho. E pensar que nunca mais hei-de usar uma cor 
to linda, nem sequer quando despir o luto! Ainda que venha a casar outra vez terei de usar sempre 
tons neutros, como cinzento, castanho e lils!" 
Durante alguns momentos 'Scarlett meditou na injus- *tia de tudo aquilo. Como passava fugaz a 
idade dos divertimentos, dos belos trajes, dos bailes e dos namorados! Meia dzia de anos apenas, 
meia dzia de anos breves como relmpagos! Depois, vinha o casamento e urna rapariga via-se 
obrigada a substituir os vestidos @legres e vistosos por outros, simples e tristonhos; e apareciam os 
primeiros filhos, que arruinavam a elegncia das formas, Durante os bailes, a recm-casada ficava 
sentada a um canto, juntamente com as restantes matronas, e s esporadicamente danava, com o 
marido ou com cavalheiros idosos que lhe martirizavam os ps com sucessivas pisadelas. E se ela se 
no conformasse com estes costumes as outras mulheres no a poupariam a crticas nem a censuras; 
e em breve a sua reputao estaria perdida e a famlia posta  margem da vida social. Parecia-lhe 
contrrio s leis da lgica que uma pessoa levasse tantos anos a aprender a arte de ser bela e de 
seduzir os homens para depois dispor de to pouco tempo para aplicar os seus conhecimentos. 
Recordou a,s lies que a me e a velha ama lhe tinham dado e com- 
235 
OhL4i@_ 
preendeu que a sua educao naquele captulo fora completa e eficaz, visto ter colhido ptimos 
resultados sempre que pusera em prtica os ensinamentos. Havia certo nmero de regras fixas que 
convinha seguir fielmente se uma rapariga queria ver os seus esforos coroados de xito. 
Com as senhoras de idade precisava mostrar-se sincera, delicada e de uma ingenuidade sem limites, 
pois que elas esta,vam sempre de olho  espreita como gatas prontas a saltarem sobre a sua vtima, 
ao menor atropelo  etiqueta, quer na linguagem, quer no procedimento; com os velhos verificavase 
justamente o caso oposto: convinha, ser ousada, tagarela, um nadinha provocante, a fim de lhes 
espicaar a vaidade. Eles sentiam-se rejuvenescer, imaginavam-se de novo possudos do vigor duma 
mocidade j longnqua e beliscavam-lhe a face, acompanhando o gesto de eptetos adequados s 
circunstncias. Evidentemente ' nessas ocasies era foroso e-orar, pois de contrrio os tolos 
belisc- 
4a-iam com maior prazer ainda e, em casa, conversando com os filhos, acus-la-iam de ser uma 
doidivanas. 
Com as outras mulheres novas, solteiras ou casadas, devia usar de uma meiguice extrema, devia 
beij-las sempre que as encontrasse, nem que tivesse de o fazer dez vezes por dia, enla-las pela 
cintura e permitir que elas lhe pagassem na mesma moeda, embora detestasse que a, abraassem, 
admirar-lhes os vestidos ou os filhos, indiscriminadamente, elogiar-lhes os namorados e gabar-lhes 
os maridos, sorrir discretamente e declarar-se ofuscada pelo fulgor dos seus encantos, e acima de 
tudo no manifestar jamais qualquer opinio iosse a que re@peito fosse, da mesma forma que 
nenhuma delas se atrevia a dizer o que realmente pensava, 
#
Quanto aos maridos das outras, a etiqueta exigia que os deixasse em paz, ignorando totalmente a 
sua existncia, nem mesmo que os houvesse namorado antes de eles terem contrado matrimnio ou 
simDatizasse com eles a, valer. Se uma rapariga se mostrasse @lemasiadamente gentil para com um 
homem casado, a mulher dele trataria imediatamente de lhe dar fama de leviana e a sua reputao 
ficaria perdida para sempre a ponto de nunca mais haver rapaz algum que pensasse em namor-la. 
Mas com os rapazes solteiros... ah, com esses o caso era muito diferente! Podia sorrir-lhes 
abertamente e, quando eles, pressurosos, a abordassem a fim de pergintar qual o 
236 
k%,, -_@. 
motivo do sorriso, recusar-se a dar-lhe qualquer explicao e sorrir de novo, deixando-os meios 
tontos de curiosidade, sem desistirem de obter uma resposta elucidativa. Podia prometer-lhes com 
os olhos toda uma infinidade de coisas, encorajando-os a manobrar no sentido de conseguirem 
encontrar-se a ss com ela. E ento, quando@ um deles lograsse o seu intento e resolvesse 
aproveitar-se do facto de estarem longe de vistas indiscretas, para lhe roubar um beijo, devia 
mostrar-se muito, muito ofendida, ou muito, muito triste, perante o atrevimento, e obrig-lo, a pedir 
desculpa da sua vil ousadia, acabando por lhe perdoar com doura, de maneira que o rapaz no 
desistisse completamente do seu intu`to e fizesse segunda tentativa. s vezes, mas s muito 
raramente, podia at deixar-se beijar. (Nem a me nem a ama lhe tinham aconselhado este processo; 
contudo, ela j conhecia a sua; eficcia). Todavia, sempre que tal sucedesse, no podia esquecer-se 
de verter umas lgrimas de arrependimento e de dizer que no compreendia c, que lhe tinha 
acontecido, manifestando o receio de que, ele, depois duma cena daquelas, nunca mais a 
respeitasse, 0 moo aijud-la-ia ento a enxugar os olhos e normalmente acabaria por lhe propor 
casamento, a fim de lhe mostrar de modo insofismvel a considerao que por ela tinha. E alm 
disso, havia... Oli, santo Deus, havia tantos estratagemas de que uma rapariga podia lanar mo para 
cativar um rapaz solteiro! Scarlett sabia-os todos: os olhares de soslaio, os sorrisos provocantes por 
trs do leque, o meneio de ancas para obrigar a saia de balo a agitar-se como um sino, as lgrimas, 
o riso, a lisonja, a meiguice ' a compreenso, enfim, uma srie quase interminvel de ardis que 
nunca deixavam de produzir efeito... a no ser no caso de Ashley. 
No, decididamente no era justo que uma rapariga aprendesse tantos artifcios para os -aplicar 
durante to breve espao de tempo e os esquecer em seguida. Que bom seria no casar nunca para 
continuar a usar lindos vestidos#@ de seda verde-ma e poder aceitar livremente a, corte dos seus 
admiradores! No entanto havia que ter cautela e no prolongar demais os devaneio's, para no correr 
o risco de ficax solteira como India Wilkes de quem toda a gente dizia "pobre pequena" com ar d@ 
falsa comiserao. No, vistas bem as coisas, o melhor ainda era, casar e manter inclume a sua 
dignidade, ainda, que para isso tivegsre, de renunciar para sempre a todos os divertimentos. 
237 
, .A 
Oli, como a vida era complicada! Por que teria ela cometido a suprema tolice de desposar Charles e 
retirar-se da vida com dezasseis anos apenas, justamente na altura em que principiava a goz-la? 
Enquanto no crebro de Scarlett se cruzavam estes pensamentos de revolta e de desespero contra a 
iniquidade do Destino, a multido tinha aberto uma clareira a meio da sala, comprimindo-se ao 
longo das paredes. As mulheres protegiam cuidadosamente a, armao das saias, temendo que um 
contacto imprevisto as deformasse e lhes descobrisse as pernas,das pantalonas para alm dos limites 
tidos por convenientes. Erguendo@se nas pontas dos ps, Scarlett viu o comandante da Milcia 
subir ao estrado da orquestra e gritar algumas ordens breves. Metade da companhia formou em 
linha e durante alguns minutos os soldados exibiram-se num rpido exerccio que os deixou -a 
transpirar e lhes granjeou fortes aplausos da assistncia. Scarlett bateu palmas com o ar de quem 
cumpre uma obrigao a que no pode eximir-se e, assim que os soldados se encaminharam para a 
barraca do ponche e dos refrescos aps terem destroado, voltou-se- para Melanie, convencida de 
que j era tempo de fingir um pouco de entusiasmo pela Causa. 
- D gosto v-los, no d? - disse ela. M ela nie continuava a pr em ordem os artigos de malha que 
#
jaziam empilhados em cima do balco. 
- Nem por isso. Preferia v-los com o uniforme cinzento, de abalada para Virgnia - respondeu, sem 
baixar a voz. 
Perto da barraca, encontravam-se diversas mulheres que se orgulhavam de ter os filhos na Milcia e 
que ouviram a censura de Melanie. A senhora Guinan fez-se escarlate e depois lvida ' porque o seu 
primognito, Wilhe, que contava vinte e cinco anos, pertencia quela organizao. 
Scarlett ficou muda de espanto. Jamais esperara ouvir da boca da cunhada semelhante observao. 
0 qu, MeIly? P, assim mesmo, Scarlett. No me refiro aos mocinhos nem aos velhos, 
evidentemente, mas no h dvida de que grande parte dos homens que se alistaram na, Milcia 
esto em muito boa idade de pegar numa espingarda e de marchar para a frente, e era isso o que eles 
j deviam ter feito... 
-Mas tu... tu no vs que... - tartamudeou Searlett, que nunca at ali tinha meditado no assunto. - n 
preciso que algum fique nas linhas da retaguarda para... para... 
238 
-Qual fora o pretexto que Willie Guinan lhe apresentara a fim de justificar a sua presena em 
Atlanta? -...para proteger o Estado duma possvel invaso. 
- Mas quem  que fala em invaso? - ripostou Melanie, num tom glacial, lanando um olhar 
desprezvel na direco de um grupo de milicianos. -Alm disso, a melhor maneira de evitar uma 
invaso seria combater os yankees em Virgnia. Quanto a essa histria de a Milcia ficar para 
impedir a revolta dos escravos,  das tais que nem lembra ao diabo. Confesso que nunca ouvi 
tamanha parvoce. Por que razo haviam os escravos de se revoltar? 2 uma desculpa prpria de 
cobardes! Tenho a certeza de que derrubaramos os yankees em menos dum ms, se as Milcias de 
todos os Estados se juntassem s tropas que lutam em Virgn@a e no Tennessee. r,, como te digo! 
-Oh, MelIv!- exclamou Scarlett, estupefacta. Os meigos ilhos escuros de Melanie brilhavam de 
indignao . 
-Nem o meu marido nem o teu tiveram medo de partir. E eu preferia sab-los ambos mortos a v-los 
aqui em Atlanta... Oh' querida, perdoa-me! Que crueldade a minha! 
Tocou afectuosamente no brao de Scarlett que a fitava, estarrecida. Mas no era no falecido 
Charles que ela estava a pensar. Era em AshIey. E se ele morresse tambm? Voltou-se rapidamente 
e esboou um sorriso maquinal para receber o Dr. Meade que se encaminhava na direco da 
barraca. 
- Boa noite, meninas - disse ele, cumprimenta ndo-as. 
- Foram ambas muito gentis em terem vindo. Compreendo perfeitamente o sacrifcio que representa 
a sua presena aqui esta noite, mas, de facto 'os interesses supremos da Causa devern ser postos 
acima de tudo. Vou desvendar-lhes um segredo. Imaginei um novo processo de arranjar mais 
dinheiro para o hospital, e tenciono p-lo em prtica esta noite. No entanto, receio que as senhoras 
presentes fiquem escandalizadas com a ideia... 
Calou-se e soltou uma risadinha, gutural, enquanto cofiava a barba pontiaguda. . 
- Oh! 0 que , Dr. Meade? Diga-nos! 
- Pensando melhor, acho prefervel deix-las tambm na dvida. Tentem adivinhar. Mas, j sabem, 
conto com o seu apoio, no caso de os paroquianos se revoltarem e pretenderem expulsar-me da 
comunidade. Eu apenas tenho em 
239 
mente angariar mais fundos para o hospital. Vero, daqui a pouco. Nunca se fez coisa parecida at 
hoje! 
E afastou-se pomposamente na direco dum grupo de damas j idosas que se encontrava a um 
canto da sala. As duas senhoras entreolharam-se e dispunham-,se a trocar impresses acerca da 
conversa que acabavam de ter om o mdico, quando se acercaram do balco dois velhtes que, 
numa voz tonitruante, pediram dez metros de renda. "Mais valem dois homens de idd&-do que 
nenhum", pensou Scarlett, procedendo  medio, enquanto um dos compradores lhe afagava o 
queixo num gesto levemente paternal. Os velhos conquistadores dirigiram-se ento para um local 
#
onde eram servidas as limonadas e foram substitudos por outros. A barraca de Melanie e de 
Scarlett no tinha metade da clientela que se aglomerava em t,orno daquelas onde ressoavam a voz 
fresca de Maybelle Merriwether ais risadas galhofeiras de Fanny Elsing e as respostas e 'iri- 
SP tuosas das manas Whitings. Compenetrada do seu papel como compete a urna caixeira 
conscienciosa, Melly ia vendendo os artigos a homens que no faziam a menor ideia de como os 
utilizar. Scarlett pautava o seu procedimento pelo da cunhada. 
Era cada vez maior a afluncia de compradores s outras barracas, junto das quais se viam grupos 
de raparigas tagarelando despreocupadamente. Quase todos os clientes Que Melanie atend@a 
t@nham nara ela palavras amveis a respeito de AshIey, evocando o seu alto esprito de 
camaradagem, de que guardavam gratas recordaes desde os tempos da Universidade, ou 
elogiando-lhe a brailitar; 
e manifestavam-lhe, o pesar com que vura corno ml haviam tomado conhecimento da morte 
de Charles, que para Atlanta representava uma perda irreparvel. 
A certa altura, a orquestra atacou os compassos alegres e vibrantes da cano "Johnny Booker 'vai 
ajud os neguinho" e Scarlett at sentiu vontade de gritar. Apoderou-se dela um desejo louco de 
danar. Queria danar a. todo o custo. Olhou atravs da sala, marcando com os ps o compasso, da 
msica. Os olhos dela, que pareciam faiscar, cruzaram-se durante uma fraco, de segundo com os 
dum indivduo alto, que acabava de chegar e se quedava no limiar da porta de entrada. 0 homem 
estremeceu, ao reconhec-la, e observou atentamente os olhos cintilantes de Scarlett, que se 
assemelhavam a dois carves acesos num rosto sombrio 
940 
e revoltado ' sorrindo, ante o convite mudo que neles viu e que qualquer representante do sexo 
masculino saberia interpretar. 
Tinha ombrQs largos, cintura estreita e Ds extraordinariamente pequenos em relao  sua elevaaa, 
estatura que excedia a de todos os oficiais; que assistiam  festa. E@vergava um fato preto, de feitio 
sbrio ' camisa de folhos e calas justm no tornozelo, que lhe ocultavam o canto curto das botas 
envernizadas. 0 requintado vesturio do recm-vindo formava estranho contraste com o seu 
asr)ecto, fsico e at com a sua expresso fisionmica, pois que, embora ele trajasse como um 
janota, a sua figura era a de autntico atleta, cuja fora jazia latente sob uma indolncia graciosa. 
Tinha os cabelos negros como azeviche e usava um bigodinho aparado rente aos lbios o qual, 
comparadocom as bigodeiras faanhudas dos ofi@iais de cavalaria, parecia deveras esquisito. Ao 
v-lo, ficava-se com a impresso de estar na presena dum homem sensual, vido dos prazeres da 
carne, o que correspondia em absoluto  realidade. Tinha ar de tremenda arrogncia, de 
desagradvel -insolncia e havia um brilho malicioso nos seus olhos, que conservou cravados em 
Scarlett at que esta ' sentindo que estava algum a observ-la, se voltou de novo na sua direco. 
Scarlett, ouviu badalar num dos arcanos da sua memria o sino distante duma vaga recordao, mas 
no logrou reconhecer o indivduo logo de incio. Contudo, era aquele o primeiro homem que, 
desde o dia em que ela casara, lhe manifestava abertamente um interesse inconfundvel. Sorriu-lhe, 
ele fez-lhe uma vnia, Scarlett correspondeu com uma leve cortesia. No entanto, assim que o viu 
endireitar-se e dirigir-se para ela, caminhando com a flexblidade caracterstica <]os ndios levou a 
mo  boca, horrorizada, pois acabava de o iden@ficar. 
Scarlett, quedou imvel, como que fulminada por um raio, enquanto ele se aproximava, abrindo 
caminho atravs da multido. Desesperada, voltou-se e tentou fugir para a barraca dos refre-,cos, 
mas a saia Drendeu-se-lhe num prego. Debateu-se furiosamente para se libertar, rasgou 
* tecido e, antes que tivesse tempo de efectuar a retirada, 
* homem chegou junto dela. 
- D-me licena - disse ele, baxando-se, e desprendendo o folho do prego que o rompera. - Nunca 
esperei que me reconhecesse, menina O'Hara. 
16 - Vento 1^ou - 1 241 
A voz quente e bem timbrada, de perfeito cavalheiro, e o sotaque lento e arrastado, comum a todos 
os naturais de Charleston, soaram agradvelmente aos ouvidos de Scarlett. 
#
Ela corou de vergonha ao lembrar-se da cena passada na biblioteca dos Doze Carvalhos, no dia em 
que tinha sido anunciado o enlace de AshIey com Melanie. Ergueu para ele um rosto suplicante e 
depararam-se-lhe os olhos mais negros que at ento tinha visto, nos quais parecia brilhar um claro 
trocista, implacvel. Por que seria que, de entre tantos homens que existiam  superfcie da terra, 
logo havia de encontrar ali aquela criatura horrvel, que surpreendera o dilogo que ela travara com 
AshIey, e cuja memria ainda lhe causava pesadelos, aquele ser abjecto que no hesitava em 
comprometer a reputao das raparigas e que as pessoas de bem se recusavam a receber, aquele 
indivduo desprezvel que ousara acus-la, embora com justo motivo, de no saber portar-se como 
convinha a uma senhora? 
Ao ouvir-lhe a voz, Melanie voltou-se e, pela primeira vez na sua vida, Scarlett deu graas a Deus 
pela existncia da cunhada. 
- n...  o senhor Rhett Butlr, se no estou em erro? -disse Melanie, estendendo-lhe a mo, com um 
sorriso afvel. -Creio que fomos apresentados... 
- No dia particularmente feliz em que foi anunciado o seu noivado com o senhor AshIey Wilkes - 
concluiu ele, pousando-lhe os lbios ao de leve nos dedos. - n muita gentileza sua recordar-se de 
mim ainda, senhora W11kes. 
- Que faz por aqui, to longe de Charleston, senhor Butler? 
- Vim tratar de uma enfadonha questo de negcios. E espero que, doravante as minhas visitas a 
Atlanta se tornem mais frequentes. 'Acabo de chegar  concluso de que no s devo desembarcar 
as mercadorias nesta ci, como tambm proceder  sua distribuio, 
- Desembarcar as mercadorias?... - repetiu Melly, franzindo a testa intrigada. Mas logo um sorriso 
alegre lhe iluminou o semblante. - Nesse caso... o senhor deve ser o famoso capito Butler, que 
tanto tem dado que falar, ltimamente... o homem que desafia o bloqueio das conhoneiras yankees. 
Duvido que se encontre aqui esta noite uma rapariga cujo vestido no tenha sido importado por seu 
intermdio. Scarlett, no achas interessante... Que tens tu, 
242 
minha querida! No te sentes bem? Experimenta descansar um pouco. 
Scarlett deixou-se cair sobre um tamborete, respirando com dificuldade, a ponto de recear que 
rebentassem os cordes do espartilho. Que surpresa to horrvel lhe estava reservada! Nunca 
pensara sequer na possibilidade de tornar a ver aquele homem e eis que desbito o encontrava de 
novo na sua frente! Com solcitude n@anifestamente exagerada, Butler pegou no leque preto que 
ela largara sobre o balco da barraca e ps-se a aban-la, tendo no rosto uma expresso suave, mas 
conservando nos olhos um brilho irnico. 
-Est muito quente aqui dentro-observou ele.-No me causa admirao que a senhora O'Hara se 
tenha sentido indisposta com todo este calor. Posso conduzi-la at  janela? 
- No - respondeu Scarlett, numa voz to spera que Melly ficou boquiaberta, a olhar para ela, 
intrigada. 
-Ela casou, senhor Butler-explicou Melanie, julgando ter compreendido o motivo da irritao 
patente na atitude da cunhada. -Passou a chamar-se Hamilton.  minha cunhada, agora - 
acrescentou, lanando um olhar carinhoso a Scarlett, a qual sentiu faltar-lhe o ar em face da 
expresso sarcstica que se estampou no rosto do capito Butler. 
- Estou certo de que esse casamento constituiu duplo prazer para ambas - murmurou ele, curvando 
a cabea levemente. 
Era um cumprimento banal, ciue todos costumavam fazer, mas que, nos lbios de Rhett Butler, 
parecia ter significado completamente oposto. 
-Os vossos maridos tambm vieram  festa, presumo? Teria muito gosto em renovar conhecimento 
com eles. 
-0 meu marido est em Virgnia- respondeu Melanie, erguendo a cabea, orgulhosamente. - Quanto 
ao meu irmo Charles... 
A voz morreu-lhe na garganta. -Faleceu no acampamento -declarou Scarlett, em 
tom brusco, quase martelando as palavras. 
#
Quando  que aquele indivduo resolveria ir-se embora e deix-la em paz? Melanie fitou a cunhada 
surpreendida, enquanto o capito Butler esboava um gest@ de auto-recriminao... 
243 
- Minhas caras senhoras... estava muito longe de imaginar... Queiram perdoar-me. Ao mesmo 
tempo, permitam que um estranho lhes- oferea c> conforto de dizer que morrer ao servio da 
Ptria  viver para sempre. 
Melanie sorriu-lhe atravs das lgrimas que lhe marejavam os olhos, mas Scarlett sentiu-se invadir 
por uma clera e um dio impotentes que lhe devoravam as entranhas. De novo ele tivera um.Tfrase 
amvel, um cumprimento anlogo ao que qualquer indivduo bem educado faria em 
semelhantes circunstncias, mas sem a menor sinceridade. Bufler pretendia apenas troar dela, com 
aquelas palavras de falso d, pois sabia, melhor do que ningum, que Charles lhe fora indiferente. E 
Melanie era uma ingnua, que no percebia o seu jogo. "E oxal ningum perceba!" pensou 
Scarlett, aterrada. Seria ele capaz de levar o seu atrevimento ao ponto de contar o que sabia? 
Evidentemente, aquele homem no era um cavalheiro e, nessas condies, tornava-se impossvel 
prever at onde iria a sua discrio. No havia bitola que permitisse adivinhar as provveis reaces 
duma criatura que no recebera a educao devida. Ergueu a cabea para o encarar e viu-lhe os 
cantos da boca descadGs num trejeito de compassiva ironia, enquanto com uma das mos 
continuava a abanar o leque. Havia na sua expresso algo que desafiou o esprito. rebelde de 
Searlett, restaurando-lhe as foras num acesso de rancor. Num gesto brusco, arrancou-lhe o leque 
das mos. 
- J estou bem - disse, com azedume. - Escusa de me despentear. 
- Oli, Scarlett, parece impossvel! Perdoe-lhe ' capito Butler. Ela fica sempre assim quando lhe 
falam no marido. J estou arrependida de termos vindo. Ainda nos encontramos de luto, como v, e 
o sacrifcio de aparecer numa reunio mundana. to cedo ans a morte de Charles, abalou-a 
profundamente. Alm disso, a msica, a agitao, a alegria, tambm devem ter contribudo bastante 
para provocar esta crise, 
-Compreendo perfeitamente - murmurou ele, com gravidade forada. Voltou-se e lanou a Melanie 
um olhar perscrutador que pareceu chegar-lhe ao ltimo recndito da alma. Depois, compenetrado 
da sinceridade que lhe transparecia no rosto, cuja doura uma sombra de inquietao toldava, a sua 
fisionomia transfigurou-se por com- 
244 
pleto, passando a exprimir um respeito receoso, primeiro, e finalmente o mais profundo apreo.- 
Admiro a sua coragem, senhora Wilkes. 
"E nem uma palavra a meu respeito!" pensou Scarlett, indignada, enquanto Melanie, sorrindo 
confundida, respondia: 
-No sei porqu, capito Butler! A comisso hospi~ talar precisou de ns  ltima da hora em 
virtude de... Uma fronha para almofada? Aqui tem esta, bem linda, com a nossa bandeira bordada. 
Virou-se a fim de atender trs soldados de cavalaria que estavam ao balco. Pensou, com agrado, na 
gentileza do capito Butler e, em seguida, atravessou-lhe a mente o desejo de que alguma coisa 
mais slida do que a tarlatata separasse a sua saia do escarrador colocado da parte de fora da 
barraca, pois que os longos jactos de saliva amarelecida 
pelo tabaco que os trs cavaleiros mascavam eram muito menos certeiros que o fogo das suas 
pistolas. Com a chegada de novos clientes, Melanie esqueceu temporariamente os problemas de 
Scarlett e da situao do escarrador. 
Entretanto, Scarlett continuava sentada no tamborete, abana.ndo-se tranquilamente com a leque, 
sem se atrever a 
levantar os olhos, e pedindo a Deus que o capito Butler voltasse quanto antes para bordo do barco 
que comandava. 
- 0 seu marido morreu h muito tempo? -Sim, h j bastante. Vai fazer um ano. 
- Uma eternidade. E quanto tempo esteve casada? Perdoe a minha curiosidade, mas como sabe, 
tenho vivido completamente afastado da sociedade... 
#
-Dois meses -respondeu Sca-rlett, contrafeita. -De qualquer maneira, foi uma tragdia- tornou ele, 
no mesmo tom despreocupado. 
"Diabos o levem!" pensou a rapariga, louca de raiva. "Se se tratasse de qualquer outra pessoa, 
facilmente me livraria dela. Tomaria um ar glacial e no lhe daria conversa. Mas este maldito ouviu 
o que se passou com Ashley e sabe que eu no amava Charles. Tenho as mos atadag". 
Cravou os olhos no leque e guardou silncio. 
- P, esta a primeira reunio a que assiste aps a morte do seu marido? 
- Sei que no parece bem - explicou ela, rapidamente 
- mas as raparigas 'que deviam tomar conta da barraca 
245 
no puderam vir e, como no havia mais ningum disponvel, Melanie e eu... 
-A Causa merece todos os sacrifcios. A senhora Elsing havia empregado esta mesma frase e, no 
entanto, Scarlett tinha a impresso de que ela no dissera a mesma coisa. Conteve a custo as 
palavras irritadas que lhe acudiram aos lbios. No fim de contas, se ela se encontrava ali no era por 
amor  Causa, mas por estar farta de ficar metida em casa. 
-Sempre pensei - declarou o capito com ar meditativo -que o hbito de pr luto, de envol@er a 
mulher em crepes para o resto da vida e de impedir que ela se distraia  quase to brbaro como a 
pira crematria dos hindus. 
-Como a qu? Ele riu e Scarlett corou, envergonhada da sua ignorncia. Detestava as pessoas que 
usavam palavras cujo significado desconhecia. 
- Na India, quando um homem morre, o corpo no  sepultado. Queimam-no numa enorme pilha de 
madeira, juntamente com a mulher. 
- Que horror! Por que  que eles fazem isso? E a polcia no intervm? 
- Evidentemente que no. Uma viva hindu que se no deixasse incinerar juntamente com o cadver 
do marido ficaria posta  margem da sociedade. Todas as outras mulheres casadas a censurariam, 
acusando-a de no proceder como uma senhora bem educada, precisamente o que fariam as 
respeitveis matronas que alm esto sentadas ao canto, se a vissem aparecer a si vestida de 
encarnado ou marear uma quadrilha. Na minha opinio 'a pira funerria  muito menos cruel do 
que o nosso extraordinrio costume meridional que obriga as vivas a sepultarem-se em vida. 
Como se atreve a dizer-me uma coisa dessas? ]@ curioso como as mulheres se apegam s correntes 
que as prendem! Acha brbaro o costume hindu, mas... diga~me com franqueza, teria coragem 
de,aparecer aq@I esta noite, se a causa da Confederao no houvesse exigido a sua presena? 
Scarlett tinha verdadeiro horror a este gnero de discusses. Os argumentos apresentados pelo 
capito Butler, esses horrorizavam-na mais do que quaisquer outros, pois que, embora no lograsse 
compreend-los inteiramente, no 
246 
podia deixar de reconhecer neles certo fundamento. Desta vez, porm, ia reduzi-los a nada. 
- ]@ claro que no. Seria, alm de falta de respeito para com a memria de Charles, como que uma 
prova de que eu no o havia a... 
Ele parecia espreitar-lhe as palavras nos lbios com um olhar em que se lia prazer cnico. Searlett 
no ousou prosseguir. Rhett Butler sabia que ela nunca sentira pelo marido mais do que fria 
indiferena e recusar-se-ia a atribuir-lhe os nobres sentimentos que se propunha expressar. Como 
era desagradvel ter de lidar com indivduos mal educados! Os cavalheiros tinham o dever de 
aceitar como verdadeiras as mentiras femininas. Assini o estipulava a pragmtica sulista. Um 
homem de sociedade respeitava todos os preceitos@ da etiqueta, exprimia-se sempre com a devida 
correco, facilitava ao mximo a vida das mulheres. Mas quele homem, pouco se lhe davam as 
regras e era com m@nifesto prazer que ele se atrevia a falar de assuntos a que no deveria aludir 
sequer. 
-Estou suspenso dos seus lbios! -P, simplesmente insuportvel- redarguiu ela, desconcertada 
baixando os,olhos. 
Butler ebruou-se sobre o balco, at quase tocar com a boca no ouvido de Searlett, e segredoulhe, 
#
numa fiel imitao dos viles das peas que, de ano a ano, eram representadas no palco de 
Athenaeum Hall: 
-Nada receie, formosa dama. Saberei guardar o seu segredo. 
-Oh!-murmurou Searlett, febrilmente.-Como se atreve a dizer-me semelhante coisa? 
- Quis apenas tranquilizar-lhe o esprito. Ou preferia talvez que lhe dissesse: "Seja minha, linda 
criatura, ou revelarei tudo?" 
lnvoluntriamente, Scarlett, ergueu os olhos, que se cruzaram com os dele 'nos quais bailava um 
brilho travesso, de garoto. De sbito, soltou uma risada. A situao no deixava de ter o seu lado 
cmico. Rhett riu tambm e as suas gargalhadas retumbaram no interior da barraca. Algumas 
senhoras idosas, que estavam reunidas no canto da sala, voltaram a cabea na sua direco. E, ao 
verem que a viva de Charles Hamilton se divertia com um estranhc> aproximaram mais as 
cadeiras umas das outras e tratar@m de comentar o escndalo. 
247 
Os tambores rufaram. Vrias vozes gritaram "chiu!", enquanto o Dr. Meade trepava ao estrado e 
abria os braos, pedindo silncio. 
-Todos ns somos devedores dos mais sinceros agradecimentos s nobres senhoras de Atlanta que, 
numa bela afirmao de fervor patritico e de infatigvel energia, conjugaram os seus esforos no 
sentido no s de organizar esta festa de beneficncia, que est sendo um xito pecunirio, mas 
tambm no de transformar este armazm arruinado num recanto adorvel, verdadeiro canteiro onde 
flarescem os lindos botes que aqui veio. 
Ressoaram palmas em todo o salo. -As senhoras deram-nos um belo exemplo de quanto pode a sua 
vontade, no poupando esforos, nem tempo, fazendo com as prprias mos os delicados artigos 
que embelezam as barracas. 
Redobraram os aplausos e Rhett Butler, que se deixara ficar encostado ao balco de Scarlett, em 
atitude negligente, sussurrou ao ouvida da rapariga: 
-Que bode to vaidoso, no acha? Horrorizada a princpio por este crime de lesa-majestade contra o 
cidado mais venerado de Atlanta, Scarlett estremeceu e fixou o capito, com um olhar de censura. 
Mas o facto era que o doutor lembrava realmente um bode, com a sua barbicha grisalha, aparada em 
ponta, subindo, e baixando  medida que ele pronunciava as palavras. E foi -com grande dificuldade 
que ela logrou dominar o riso. 
- Isso, porm, no basta. As bondosas senhoras que nos hospitais tm acariciado com mos suaves 
tantas frontes atormentadas pelo sofrimento, e arrancado das garras da morte inmeros soldados 
feridos em defesa da mais sagrada das causas, conhecem perfeitamente as nossas necessidades. No 
vou enumer-las aqui. Limitar-me-ei a dizer que precisamos de mais dinheiro para mandar vir de 
Inglaterra os mediamentos que j escasseiam. Por uma feliz coincidncia, encontra-se esta noite 
entre ns o intrpido capito que de h um ano para c vem rompendo o bloqueio com o maior xito 
e que continuar a trazer-nos carregamentos das especialidades farmacuticas que nos faltam. 
Refiro-me, como j devem ter calculada, ao capito Rhett Butler. 
Embora apanhado de surpresa, o capito curvou-se numa vnia graciosa - graciosa em demasia, 
@ensou Scar- 
248 
lett, tentando analis-la mentalmente. Teve a impresso de que ele exagerara de propsito a sua 
reverencia numa demonstrao velada do desprezo que toda aquela gente lhe inspirava. De novo se 
ouviram palmas, enquanto as senhoras agrupadas ao canto espetavam o pescoo, para verem 
melhor. Com que ento era com ele que a viva do pobre Charles Hamilton estava a conversar! E 
pensar qu<i havia um ano apenas que o marido falecera! 
-Precisamos de dinheirer - prosseguiu o doutor -e  isso justamente que eu pretendo obter. Vou 
pedr-vos um sacrifcio to insignificante comparado com o que os nossos bravos soldados esto 
fazendo na frente de batalha que sereis vs os primeiros a rir. Minhas senhoras, eu quero as vossas 
jias. Eu? Eu, no, a Confederao. A Confederao quer as vossas jias'exige-as, e estou certo de 
que nenhuma de vs lhe recusar o seu auxlio. Como cintilam as pedrarias nos vossos pulsos 
#
delicados! Como refulgem os broches de oro nios vossos colos magnficos! Mas o sacrifcio  mais 
belo do que to-das as gemas da ndia. 0 oiro ser fundido, as pedras sero vendidas  todo o 
dinheiro que se apurar ser aplicado na compra de medicamentos e de material sanitrio. Minhas 
senhoras: dois dos nossos feridos atravessaro, a sala, transportando cada um o seu cesto e... 
Uma tempestade de palmas e vivas abafou o resto do discurso. 
0 primeiro pensamento que <>correu a Scarlett foi o de profunda gratido pelo luto que a impedia 
de usar as grossas arrecadas e a valiosa corrente de oiro que tinham-pertencido  sua av ' Solange 
Robillard, bem como as pulseiras de esmalte preto e de Q@ro e o broche de granadas. Viu o zuavo 
(que percorrera a sala em vrias direces trazendo no brao vlido uma cesta onde recolhia os 
preciosos donativos) avanar na sua direco, enquanto as mulheres, novas e velhas, se apressavam 
a tirar os braceletes 'a despojar-se dos brincos a abrir os fechos renitentes dos colares, a desprender 
o@ alfinetes do peito, ajudan<lc>-se umas s outras, sorridentes, fingindo machucar as orelhas ou 
picar s dedos. 0 tinir dos metais e pedrariag era ocasionalmente abafado por exclamaes joviais. 
"Espere... espere um mornento? Pronto, j est. Aqui temf" Maybelle Merriwether desfez-se 
alegremente de dois adorveis braceletes que usava acima e abaixo do cotovelo. Fanny Elsing 
gritou: "Marn, d licena?" e arrancou o diaderna de 
249 
wk, @ @ '.1L. 
prolas e oiro macio que estava na posse da famlia h muitas geraes. Cada oferta era 
acompanhada por uma salva de palmas e um coro de aplausos. 
0 zuavo continuou a aproximar-se da barraca de Scarlett. Trazia um sorriso nos lbios e a cesta 
cheia de jias. No momento em que passava perto de Rliett Buttler, este lanou sobre a enorme 
pilha de preciosidades uma elegante cigarreira de oiro, com a mesma naturalidade com que deitaria 
fora uni objecto intil, sem valor. Quando o simptico oficial chegou junto de Scarlett e pousou a 
pesada cesta em cima do balco, a rapariga abanou a cabea e estendeu as mos, abertas, a fim de 
mostrar que no tinha nada para oferecer. Experimentou uma sensao deveras desagradvel ao 
verificar que, de entre todas as raparigas presentes, havia sido ela a nica que at ali no contribura 
com qualquer donativo. Baixou a cabea, envergonhada, e nesse instante os seus olhos viram reluzir 
no anelar da mo esquerda a grossa aliana de oiro. 
Durante uma fraco de segundo, Scarlett tentou lembrar-se do rosto de Charles, da sua expresso 
fisionmica no momento em que ele lhe enfira no dedo o anel simblico. Mas no conseguiu; a 
memria toldou-se-lhe sob o imprio da clera que sempre a assaltava quando procurava evocar as 
recordaes desse dia fatdico. Charles... fora ele que lhe arruinara a vida, que com a sua morte 
prematura a deixara automticamente englobada no rol das velhas. 
Num gesto rpido e decidido quis tirar o anel, que resistiu. 0 zuavo j se encaminhava na direco 
de Melanie. 
- Espere! - gritou Searlett. - Tenho aqui uma coisa para si. 1 
Acabou por tirar a aliana e ia a deit-la na cesta, que transbordava de cordes, relgios anis, 
broches, braceletes e pulseiras, quando os seus offios se cruzaram com os de Rhett Butler, cujos 
lbios se arquearam num leve sorriso. Com ar de desafio, lanou o anel sobre a pilha das jias. 
- Oh, minha querida! - exclamou Melanie em voz baixa, agarrando-lhe o brao, com os olhos 
brilhantes de amor e de orgulho. -Como tu s corajosa! Espere... por favor, tnente Picard, espere 
um instante. Tambm tenho uma coisa para si. 
E esforava-se por tirar a aliana, a qual, segundo ela prpria confessara,  cunhada, jamais lhe sara 
do dedo 
250 
desde o momento em que Ashley nele a colocara; Scarlett no teve dificuldade em imaginar o 
sacrifcio que para Melanie devia representar aquela ddiva. Por fim, conseguiu retirar o anel 
e'durante um breve momento, apertou-o na palma da mo; em seguida, dep-lo cuidadosamente 
sobre o monto das jias que pejavam a cesta. 
As duas raparigas quedaram-se a ver o zuavo afastar-se na direco do canto onde se encontravam 
#
reunidas as damas de idade, Scarlett com um ar altivo, Melanie com uma expresso mais 
comovedora do que as lgrimas. Rhett ButIer observava-as a ambas, atentamente. 
- Se tu no houvesses tomado a iniciativa, eu nunca me teria atrevido a fazer o que fiz -murmurou 
Melanie, enlaando a cunhada pela cintura e apertando-a afectuosamente. 
0 primeiro impulso de Scarlett foi o de a empurrar e exclamar "Valha-me Deus!" a plenos pulmes, 
como Gerald costumava fazer quando estava irritado. Contudo, notou que Rliett Bufler continuava a 
fit-la e esboou um sorriso contrafeito. Como sempre, Melanie dera uma interpretao errada aoseu 
rasgo. A ingenuidade da cunhada principiava a contender-lhe com os nervos. Mas talvez fosse 
melhor assim. Talvez fosse prefervel deix-la viver na iluso acerca das suas intenes a dar ensejo 
a que ela suspeitasse da verdade. 
-Que magnif ica atitude -comentou Rhett Butler, com 
voz suave. - So sacrifcios como os vossos que incutem coragem aos bravos rapazes dos uniformes 
cinzentos.. . 
Foi com sria dificuldade que Searlett logrou reprimir as palavras desagradveis que lhe acudiram 
aos lbios. Aquele homem tinha o condo de a irritar,. Em todas as suas frases, Scarlett vislumbrava 
uma sombra de escrnio. Por que no se iria ele embora? Por que continuava ali, encostado ao 
balco da barraca, com aquele ar de soberba indiferena que Searlett tanto detestava? Contudo, no 
podia deixar de reconhecer que havia nele algo de estimulante e de atraente como se da sua figura 
atltica se desprendesse um eflvio magntico, electrizante. Os olhos negros pareciam lanar-lhe 
uma estranha provocao, desafiando o ardor impulsivo do sangue irlands que lhe corria nas veias. 
Decidiu rebater a prospia do indivduo na primeira oportunidade. Rhett Butler conhecia o seu 
segredo e isso dava-lhe um ascendente perante c> qual ela ficava em 
251 
manifesta desvantagem. Tinha que descobrir uma forma de inverter os papis. Conteve-se para no 
lhe dizer exactamente o que pensava a seu respeito, Lembrou-se do ditado que tantas vezes ouvira 
da boca da sua velha ama: "No  com vinagre que se apanham moscas" e resolveu lanar mo dum 
processo melfluo que lhe permitisse subjugar aquela mosca impertinente e libertar-se dela para 
sempre. 
- Muito obriga-da - agradeceu com voz meiga, fingindo no reparar no sarcasmo. - Um 
cumprimento desses, feito por um homem clebre como o capito Butler, tem incontestvel valor. 
Ele deitou a cabea para trs e soltou duas gargalhadas retumbantes. "Parece um molosso a ladrar", 
pensou Scarlett, furiosa, corando at  raiz dos cabelos. 
-Por que no tem a franqueza de dizer o que realmente pensa? -inquiriu Rhett Butler, baixando a 
voz para que s ela ouvisse as suas palavras. -Por que no diz, por exemplo, que eu sou um patife 
da pior espcie, e nao me iiitima a sair daqui, sob a ameaa de chamar um daqueles mancebos 
uniformizados para me expulsar destas proximidades? 
Ela teve uma resposta torta na ponta da lngua, mas, num esforo que roou pela heroicidade, 
conseguiu engoli-Ia no ltimo instante. 
-Por amor de Deus, capito! Que ideia a sua! Como se algum ignorasse a sua valentia, a sua 
gentileza, a sua... 
a sua... 
-Estou desiludido consigo -declarou ele. 
- Desiludido? 
- Sim. Quando nos encontrmos pela primeira vez, disse de mim para mim: "Aqui est uma rapariga 
que, alm de bonita,  corajosa". E, agora, acabo de verificar que  apenas bonita. 
- Quer dizer com isso que sou cobarde? - ripostou ela, arrepiando-se como uma galinha no choco. 
- Exactamente. No tem coragem para dizer o que realmente pensa. Quando tive o prazer de travar 
conhecimento consigo, pensei: "At que enfim encontro uma rapariga com ideias prprias. Estou 
certo de que no h outra assim num milho, No  como essas idiotas que acreditam em tudo o que 
as mams lhes ensinam e seguem  risca os seus conselhos sejam quais forem os problemas que as 
apoquentem, @ue ocultam os seus sentimentos, os seus 
#
252 
desejos, as suas desiluses atrs duma barragem de pala-' vras doces e agradveis".  disse para 
Mra os meus botes: "Esta O'Hara  uma rapariga dotada de raro bom-senso. Sabe muitssimo bem 
aquilo que quer e no tem papas na lngua. A sua pontaria a atirar jarras  que deixa um pouco a 
desejar, mas isso ... " 
- Oh! - exclamou Scarlett vermelha de raiva. - Pois j que se mostra to interessado em saber o que 
penso a seu respeito, aqui vai. Se houvesse bebido em pequeno umas gotinhas de ch, nunca se teria 
aproximado desta barraca nem me dirigiria a palavra onde quer que me encontrasse. Teria 
compreendido que seria. uma humilhao para mim tomar a pr-lhe a vista em cima. Mas o senhor 
no  um cavalheiro. No passa dum indivduo mal-educado, que pelo facto de romper o bloqueio 
dos yankees com os seus malditos navios se julga com o direito de vir para aqui fazer troa dos 
homens que arriscam a vida e de mulheres que tudo sacrificam pela Causa... 
-Um momento, um momento -suplicou ele, com um sorriso divertido. - No podia ter comeado 
melhor e tenho a certeza de que as palavras que lhe ouvi traduzem fielmente a opinio que forma 
acerca da minha mo-desta pessoa. Mas, por favor, no me venha agora falar na Causa. Estou farto 
de aturar essas patranhas, e a senhora tambm, aposto... 
-Como foi que adi... -ia Scarlett a dizer, mas logo se conteve, reprimindo a custo o resto das slabas, 
furiosa por se ter deixado cair na armadilha. 
- Quando me viu alm  entrada da sala, j eu l estava havia alguns minutos, a observ-la -disse 
ele. -Comparei a sua atitude com a das outras raparigas aqui presentes. Todas elas tinham 
estampada no rosto a mesma expresso, uma expresso muito diferente da que notei no seu. A 
senhora deixa transparecer na, face tudo o que lhe vai no pensamento. No foi amor  Causa, nem 
interesse pelo hospital que li na sua fisionomia, mas sim o desejo de danar, a necessidade de se 
divertir e o desespero de no poder sair daqui. Vamos, seja sincera e confee que tenho razo. 
-No lhe direi nem mais uma palavra, capito Butler 
- ripostou ela, o mais cerimoniosamente que pde, tentando envolver-se nos farrapos de dignidade 
que ainda lhe restavam. -A sua fama de "heri do blo-queio" no lhe d direito a insultar senhoras. 
253 
-Heri do bloqueio, eu? Boa anedota, essa. Por favor, conceda-me mais um instante do seu precioso 
tempo antes de me votar ao esquecimento. No quero deixar to encantadora patriota equivocada 
quanto ao real valor da minha contribuio para a Causa dos Confederados. 
-No me interessam as suas proezas, -Para mim, o bloqueio  um negcio, do qual tiro certas 
vantagens financeiras e que porei de parte quando deixar de render dinheiro. Que diz agora? 
-Digo que o senhor  um mercenrio sem escrpulos, como os yankees. 
- Tem toda a razo - respondeu a rir. - So precisamente os yankees que me ajudam a enriquecer. 
Ainda no ms passado estive com o meu navio no porto de Nova Iorque, a fim de meter carga. 
-0 qu? -exclamou Scarlett, interessada a contragosto. - E no o atacaram? 
-Que ingenuidade a sua! Claro que no. Em Nova Iorque existe uma boa.poro de ferrenhos 
patriotas da Unio que no vem inconveniente em vender mercadorias  Confederao, desde que 
lhas paguem por bom preo. Entro com o meu navio no porto, desembarco, vou discretamente 
procurar uns comerciantes de esprito desempoeirado compro os artigos que pretendo e depois 
venho-me e@@bora. Quando a coisa comea a tornar-se arriscada, vou a Nassau onde tenho  
minha espera um carregamento completo que os referidos patriotas ali mandaram pr  minha 
disposio, incluindo plvora, balas e vestidos de senhrra. Sempre  mais vantajoso do que 
atravessar o oceano para ir a Inglaterra. s vezes, corre-se algum perigo para chegar at Charleston 
ou Wilmington... mas cairia das nuvens se soubesse o que se consegue com um pouco de dinheiro. 
- Eu tinha a certeza de que os yankees eram uma raa de miserveis, mas nunca supus... 
- Por que havemos ns de censurar os yankees que nos vendem as suas mercadorias? Eles apenas 
procu----ganhar a vida. Daqui a cem anos j ningum se lembrar do que fizeram e o resultado ser 
o mesmo. Sabem perfeitamente que a Confederao ser vencida mais tarde ou mais cedo 'e por 
consequncia, s se fos@em tolos  que no se aproveitariam da ocasio. 
#
- Vencida... a Confederao? -Sem dvida. 
254 
Faame o favor de se ir embora... ou ser preciso que mande chamar a minha carruagem e regresse 
j a casa, a fim de me ver livre da sua presena? 
-Prefiro deix-la em Daz, minha pequena rebelde - 
respondeu ele com um sorriso. 
Fez-4lhe uma vnia e afastou-se lentamente, deixando-a a vibrar de indignao e de raiva 
impotente, Scarlett quedou-se imvel, atormentada por uma horrvel sensao de logro, como uma, 
criana que, de sbito ' v desfeitas as suas iluses. Com que direito tinha ele roubado todo o sabor 
de aventura  epopeia dos heris que formavam o bloqueio? Como se atrevia a afirmar que a 
Confederao seria vencida? S por isso merecia ser fuzilado... fuzilado como traidor. Passou um 
olhar penetrante pelos rostos familiares que enchiam o salo, nos qua-is leu a mesma expresso de 
confiana e de bravura. E, no entanto, sentiu um calafrio arrefecer-lhe o peito. Vencida, a 
Confederao, quando em sua defesa se batiam homens como aqueles? Impossvel! Era uma 
hiptese absurda, desleal. 
-De que estiveram a falar? - inquiriu Melanie, assim que os compradores se retiraram. -A senhora, 
Merriwether no tirava os olhos de vocs dois e tu bem sabes como ela  amiga de censurar. 
- Oli, aquele homem  simplesmente insuportvel!... Nunca vi criatura to mal-educada -declarou 
Scarlett. - 
Quanto  senhora Merriwether, que fale  vontade. Estou farta de fazer papel de parva por causa 
dela. 
- Oli, Scarlett! -exclamou Melanie, escandalizada. 
- Ateno! - disse Scarlett. - 0 Dr. Meade vai falar outra vez. 
Fez-se profundo silncio entre a assistncia. 0 doutor comeou por agradecer a todas as senhoras 
presentes a generosa ddiva das suas jias. 
- E agora,, senhoras e senhores ---@ prosseguiu o orador vou propor uma surpresa... uma inovao 
que poder impressionar mal alguns de vs, mas que  ditada somente pelo desejo de angariar 
novos fundos para beneficiar o hospital e os rapazes que nele se encontram internados. 
Todos se acercaram cheios de curiosidade tentando adivinhar o que (> sensato doutor poderia 
ter imaginado de impressionante. 
-0 baile vai principiar dentro de momentos e o primeiro nmero ser, evidentemente, uma 
quadrilha,  qual 
255 
se seguir uma valsa. As polcas, mazurcas e danas escoce ss sero igualmente precedidas de 
quadrilhas. Recordo~me bem das rivalidades que surgem quando se trata, de marcar uma 
quadrilha... - continuou o doutor, eni@jgando o suor que lhe humedecia a fronte e lanando um 
olhar interrogativo na direco do,_canto onde a mulher estava sentada, juntamente com as outras 
senhoras de idade - _e resolvi aproveitar-me desse facto. Cavalheiros! Se quiserem entrar na 
quadrilha@ com uma dama da sua escolha, tero de concorrer a um leilo, do qual serei o pregoeiro 
e cujo lucro rever-ter para o hospital. 
Os leques imobilizaram-se de sbito e elevou-se da assistncia um murmrio de excitao. 
Estabeleceu-se tumulto no grupo das damas venerandas e a senhora Meade, ansiosa por Apoiar a 
iniciativa do marido, com a qual, todavia, no concordava, sentiu-se numa posio falsa. As 
senhoras Elsing, Merriwether e Whiting coraram de indignao. Mas, de sbito, os homens 
da'Guarda Civil romperam em aplausos, no. que foram logo seguidos por todos os outros indivduos 
uniformizados. As raparigas bateram palmas e pularam, entusiasmadas, 
- No achas que ... que ... que  quase- um leilo de escravos? -segredou Melanie ao ouvido da 
cunhada, fitando com olhar indeciso o doutor, que at ali sempre considerara perfeito. 
Scarlett no respondeu. Sentiu um aperto no corao e nos olhos raiou-lhe um brilho estranho. Se 
no estivesse viva!... Se pudesse voltar aos seus tem" de solteira!... Se pudesse usar de novo um 
vestido verde, guarnec'do de fitas, de veludo da mesma cor, com as pontas a balouarem-lhe do 
#
seio, e uma grinalda de tuberogas a enfe-itarlhe a cabeleira negra... seria, ela quem marcaria a 
quadrilha. Disso no tinha Scarlett a mais pequena dvida. Seria disputada a peso de oiro Dor uma 
dzia de homens e o Dr. Meade obteria um dinheiro. Mas tudo isso era um sonho, um desejo 
irrealizvel. Contra, a sua vontade, teria de ficar ali sentada, qual jarro e ver Fanny Elsing ou 
Maybelle Merriwether marear a @ririleira quadrilha, como a rapariga mais formosa de Atlanta! 
Acima da vozearia que reinava no salo elevou-se a voz do zuavo, que disse na sua pronncia 
crioula: 
-Se me do licena... vinte dlares para a menina Maybelle Merriwether. 
256 
Ruborizada, Maybelle escondeu o rosto no ombro de F.anny e as duas procuraram evitar os olhares 
que convergiam na sua direco, ocultando as faces incendiadas no colo uma da outra, enquanto o 
leilo prosseguia e as ofertas aumentavam. 0 Dr. Meade j sorria outra vez, sem fazer caso dos 
sussurros indignados que se ouviam no canto onde se encontravam reunidas as senhoras da 
comisso hospitalar. 
A senhora Merriwether comeara por afirmar, em voz alta' e num tom que no deixava lugar a 
dvidas, que a filha dela no tomaria parte em to aviltante almoeda; porm, ao verificar que o 
nome de Maybelle era citado cada vez com mais frequncia e que o maior lano j atingira a cifra 
dos setenta e cinco dlares'calou-se e no protestou mais. Scarlett fincou os cotovelos no balco e 
observou com um olhar turvo a multido sorridente que cercava o estrado da orquestra, vibrando de 
entusiasmo, com as inaos cheias de notas da Confederao. 
Da a pouco iriam todos danar... todos menos ela e as pessoas de idade. Todos se divertiriam, 
excepto a infeliz viva do desditoso Charles Hamilton. Avistou Rhett Butler de p, junto do doutor, 
e, antes que tivesse tido tempo de imprimir  fisionomia uma expresso mais xIiscreta e 
conveniente, viu-o olhar para ela e erguer uma sobrancelha, numa pergunta muda. Scarlett, fitou--o 
desdenhosamente e dispunha-se a voltar a cara quando ouviu o seu nome pronunciado por aquela 
voz inconfundvel ' de sotaque charlestoniano, que soou distintamente acima de todas as outras. 
- Para a senhora Charles Hamilton, cento e cinquenta dlares... em oiro! 
Ao ouvir-se o nome e a importncia, fez-se sbito siln-4 cio na sala. Scarlett ficou to estupefacta 
que nem sequer se moveu. Como estava, assim continuou, com o queixo apoiado nas mos e os 
cotovelos cravados sobre o balco, Mas os olhos arregalaram-se-lhe de espanto, como se ela no 
pudesse acreditar no que acabava de ouvir. Toda a assistncia se voltou na sua direco. Scarlett viu 
o doutor descer do estrado e murmurar qualquer coisa ao -ouvido de Rhett Butler, explicando-lhe 
provavelmente, que a senhora em questo se enconIra@a de luto pelo marido, e que, por 
consequncia, no poderia danar. Em resposta, Rliett Butler limitou-se a encolher os ombros 
num gesto de soberba indiferena. 
17 -- Vento Levou - 1 257 
- Talvez outra das nossas beldades? -.sugeriu o mdico. 
- No - respondeu Rhett, em tom categrico, passeando um olhar frio pela multido que enchia a 
sala. - 
Mantenho a minha oferta. 
-Mas j lhe disse que  impossvel -insistiu o doutor. -A senhora Hamilton no pode... 
Scarlett ouviu uma voz, que a princpio no reconheceu como sendo a sua, dizer: 
-Posso, sim. Endireitou-se dum pulo. 0 corao batia-lhe to apressado dentro do peito que chegou a 
recear no conseguir manter-se de p, to abalada ficou pela comoo de ser de novo alvo de todos 
os olhares, pelo orgulho de ter vencido as restantes competidoras e, acima de tudo, pela perspectiva 
de poder danar outra vez. 
"Oh, no me importo! No me interessa que digam mal de mim!" pensou, enquanto um frenesi 
delicioso se apoderava dela. E, erguendo a cabea em ar de desafio, saiu da barraca, fazendo soar os 
saltos dos sapatos como castanholas, abrindo inteiramente o leque de seda preta. Viu de relance a 
expresso de incredulidade estampada no rosto de Melanie, os olhares de censura que as velhas lhe 
lanavam, o espanto das outras raparigas, a aprovao unnime dos militares. 
#
Quando chegou ao meio da sala, notou na fisionomia de Rhett Butler, que se dirigia para ela atravs 
da multido, o sorriso escarninho que lhe era habitual. Mas no fez caso. No lhe importava o que 
ele pudesse pensar a seu respeito. Ia danar novamente e por nada deste mundo deixaria de o fazer, 
nem que tivesse como par o prprio Abraham Lincoln. Ia marcar a primeira quadrilha do baile e, 
para ela, nad 'a mais contava. Fez uma rpida. vnia na direco de Rhett Butler e dirigiu-lhe um 
sorriso fascinante, a que ele correspondeu com profunda cortesia, levando a mo ao peito. 
Horrorizado o velho Lievi conseguiu recompor-se a tempo e salvar a @it*ao, gritando: 
- Escolham os seus pares para a quadrilha! E a orquestra atacou os compassos da mais linda das 
msicas que Scarlett conhecia: Dixie. 
- Como teve coragem de me tornar alvo das atenes gerais, capitc> Butler? 
258 
-Mas no era justamente esse o seu desejo, senhora Hamilton? Tive a impresso de que sim. 
-Como ousou gritar o meu nome em pblico, sabendo que eu estou de luto? 
-A senhora poderia ter recusado... 
- Seria trair a Causa... Nem... nem sequer pensei em mim quando o ouvi oferecer uma quantia to 
elevada, em oiro, No ria assim to alto, por favor. Esto todos a olhar para ns. 
-E continuaro a olhar, de qualquer maneira. No tente impingir-me essa, da sua dedicao pela 
Causa, a mim, pois que perde o seu tempo. Estava ansiosa por danar e eu ofereci-lhe a 
oportunidade que tanto ambicionava. Esta marcha  a ltima figura da quadrilha, no ? 
- P,, sim. Logo que ela acabar, terei de voltar para a barraca. 
-Porqu? Pisei-a muita vez? .-No... mas, se continuar a danar, toda a gente dir mal de mim. 
-E isso apoquenta-a... realmente? 
- Hum... -No est a fazer mal nenhum, no  verdade? Por que no dana a valsa comigo? 
-Se a minha me alguma vez sonhasse... -Logo vi. Continua agarrada s saias da mam... -Oh! Tem 
uma maneira to aborrecida de meter as virtudes a ridculo... 
-Todas as virtudes so ridculas. Importa-se de que digam mal de si? 
- No mas... n melhor mudarmos de assunto. Ainda bem que 'a valsa j comeou. As quadrilhas 
deixam-me sempre ofegante. 
-No iluda as minhas perguntas. J alguma vez se preocupou com o que as outras mulheres possam 
pensar a seu respeito? 
-J que quer saber deixe-me dizer-lhe que no. Mas todas as raparigas devem preocupar-se com a 
opinio em que so tidas. Esta noite, porm nada disso me interessa. 
- Bravo! No deixe aos outr_@s o trabalho de pensarem por si. Pense. n esse o princpio da 
sabedoria. 
- Pois sim, mas... -Quando a. sua reputao tiver sido atacada to violentamente como a minha, 
compreender ento quo pouco 
259 
importa a opinio dos outros. Imagine s: No existe uma nica casa em Charleston onde eu seja 
recebido. Nem sequer a minha contribuio em prol da nossa justa e santa Causa conseguiu levantar 
a interdio que pesa sobre mim. 
- Que horror! 
- No diga isso. No calcula como se fica aliviado quando se chega  concluso de que a nossa 
reputao no pode ser pior. 
-As suas teorias so simplesmente escandalosas!... 
- Escandalosas, mas verdadeiras! Quando um indivduo tem muita coragem... ou dinheiro de sobra... 
pode perfeitamente alhear-se do conceito que os outros formam de si. 
-0 dinheiro no compra tudo. -Essa ideia no  sua. Algum lha meteu na cabea. 
0 que  o que o dinheiro no compra, j pensou? 
- No... Mas no deve comprar a felicidade... nem o amor. 
- Engana-se. Geralmente, compra. E nos restantes casos assegura-nos a posse de ptimos 
substitutos. 
#
- Tem assim tanto dinheiro, capito Butler? -Que pergunta to indiscreta, senhora Hamilton! Estou 
pasmado consigo. Sim,  verdade que tenho. A um indivduo que foi posto fora de casa dos pais 
quando ainda usava cales, sem um cntimG no bolso, acho que no se poderia exigir mais. E, se a 
guerra durar ainda um ano ou dois, tenho a certeza de que chegarei a milionrio com esta histria do 
bloqueio. 
-No me diga! -Digo, sim! As pessoas  que no querem acreditar que a derrocada dum imprio  
susceptvel de dar tanto dinheiro a ganhar como a sua reconstruo. 
-Que quer dizer com isso? 
- Os seus pais, os meus, assim como todos os indivduos que se encontram aqui presentes, 
enriqueceram  custa dos esforos feitos para transformarem um deserto num centro de civilizao. 
Construram um imprio e 'amealharam riquezas fabulosas. Mas  provvel que eu venha a lucrar 
ainda mais do que eles com a sua destruio. 
-A que imprio se refere? 
- A este em que vivemos... o Sul... a Confederao... o Emprio do Algodo... que est ruindo 
rpidamente sob os nossos ps. S os doidos varridos teimam em no com- 
60 
preender a situao e se recusam a tirar proveito do colapso. Mas eu hei-de enriquecer  custa do 
naufrgio. 
-Est realmente convencido de que perderemos a guerra? 
-Sem dvida. Por que havemos ns de esconder a cabea como o avestruz? 
-Meu Deus! No calcula como me aborrece discutir assuntos to srios! No sabe falar de coisas 
mais agradveis, capito Butler? 
-Sentir-se-ia mais feliz se lhe dissesse que os seus olhos so dois enormes lagos de gua verde e 
transparente e que, quando as estrelas se reflectem neles, como sucede agora com as luzes desta 
sala, a senhora fica diabolicamente sedutora? 
- No. Esse gnero de conversa tambm no me agrada muito. Oh, como esta valsa  linda! No me 
importaria ficar aqui a danar toda a noite. Nunca supus que um baile pudesse fazer tanta falta. 
- 2, a mais bela mulher com quem dancei at hoje. -Capito Butler, no me aperte tanto. Est toda a 
gente a olhar para ns. 
-E que esteja? Importa-se? -Por favor, capito Butler, no perca a cabea. -Pede o impossvel. 
Quem no perderia a cabea consigo nos braos? Que msica  esta? n recente, presumo? 
-. No a acha deliciosa? Roubmo-la aos yankees. -Como se chama? -Qu.ando a guerra acabar... - 
Como  a letra? Cante-a para eu ouvir. Scarlett trauteou os versos: 
Lembras-te quando nos vimos Pela vez derradeira? De joelhos, confessaste 
0 teu amor por miim. 
Oh, como estavas belo Na farda cor de cinza, Quando foste da ptria Para onde nem sei,' 
261 
Eu triste e s fiquei A -suspirar em vo! Quando a guer71a acabar Hs-de voltar ento. 
- Evidentemente, a letra yankee fala numa farda azul, mas ns fizemos a correco que se impunha. 
Como valsa bem, capito Butler! A maioria dos homens altos e fortes no sabe valsar... E pensar 
que vo passar-se meses e meses antes que eu volte a danar!... 
- Ser apenas uma questo de minutos. Arremat-la-ei novamente no leilo seguinte, e no outro e 
assim por diante. 
- Oh, no! No faa isso! No quero! Ficarei com a minha reputao completamente arruinada. 
-Mais do que ela j est, no  possvel. Por consequncia, por que no h-de danar comigo outra 
vez? Talvez eu me resolva a dar uma oportunidade aos outros homens, aps as cinco ou seis 
primeiras sries, Mas a ltima h-de ser minha. 
-Seja assim. Sei que perdi o juzo, mas no me importo. No me interessa o que possam dizer a meu 
respeito. Estou farta de ficar em casa. Quero danar, danar... 
- Por que no despe o luto? Detesto ver as mulheres vestidas de crepes... 
- Oh, isso  que eu no poderei fazer to depressa! Capito Butler, no me aperte tanto, Olhe que 
#
me zango! 
-Fica encantadora quando se zanga. At sou capaz de a apertar outra vez... assim... s para ter o 
prazer de a ver zangada. No calcula como estava fascinadora naquela tarde em que nos 
encontrmos na biblioteca dos Doze Carvalhos, qundo se irritou e comeou a atirar com coisas. 
-Oh, por favor!..@ No  capaz de esquecer essa triste cena? 
-No.  uma das minhas mais preciosas recordaes. Uma beldade do Sul demonstrando o atavismo 
impulsivo do seu sangue irlands. Porque a senhora  bem irlandesa! 
- Oh, que pena! A msica cessou e a minha tia acabade sair do bufete e vem quase a correr na nossa 
direco. Tenho a certeza de que a senhora Merriwether a foi avisar. Por amor de Deus vamos at 
ali  janela. No quero cair-lhes nas unhas, aora. Os olhos dela parecem dois carves acesos. 
262 
10 
QUANDo na manh seguinte se sentaram  mesa para tomar o primeiro almoo, Pittypat tinha os 
olhos vermelhos de ch@rar, Melanie conservava-se silenciosa e Searlett mirava ambas com 
expresso de desafio estampado no rosto. 
- No me interessa o que possam dizer a meu respeito -declarou ela. -Aposto o que quiserem em 
como consegui arranjar mais dinheiro para o hospital do que qualquer das outras raparigas que se 
encontravam na festa. Tenho a certeza de que nem a venda daquelas bugigangas todas rendeu tanto 
como o meu auxlio. 
- Mas oh meu Deus! - gemeu Pittypat, torcendo as mos, des@sperada. - Que me importa a mim o 
dinheiro? Eu a princpio nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Pensar que ainda no h 
um ano que o nosso pobre Charles morreu... e aquele horrvel capito Butler a expor-te  
maledicncia de toda a gente. Oh, Scarlett, esse homem  simplesmente insuportvel! A prima da 
senhora Whiting, a senhora Coleman, cujo marido nasceu em Charleston, esteve a falar-me acerca 
dele, Rhett Butler  a ovelha ranhosa duma famlia distinta. No percebo como um Butler conseguiu 
degenerar a tal ponto. Em Charleston ningum o recebe. Ficou com uma reputao tremenda depois 
do que se passou entre ele e certa rapariga... um escndalo de tal ordem que nem a senhora Coleman 
conhece os pormenores... 
-Eu no acredito que o capito Butler seja to mau como o pintam-atalhou Melly, com voz suave.- 
Tenho at a impresso de que  um perfeito cavalheiro e, quando penso no patriotismo de que tem 
dado provas, arriscando a vida para atravessar o bloqueio... 
-No  por patriotismo que Rhett Butler atravessa o bloqueio - interrompeu Scarlett, deitando uma 
chvena de calda de acar sobre as filh6s de que se servira -mas sim por interesse pessoal. Foi isso 
o que ele me disse, pelo menos. Os destinos da Confederao no o preocupam. Alm disso, no 
hesita em afirmar que seremos vencidos dentro de pouco tempo. Mas dana admiravelmente. 
Pitty e Melanie guardaram silncio, horrorizadas. -Estou farta de ficar em casa, metida entre estas 
quatro paredes - prosseguiu Scarlett. - Vou acabar com esta 
263 
vida. Se toda a gente me censura por causa do que aconteceu ontem  noite, a minha reputao est 
perdida e, por conseguinte, no lucrarei nada em modificar a minha atitude. 
A ideia de que fora aquela a teoria que Rhett Bufler lhe expusera na vspera no ocorreu a Scarlett, 
to bem ela se coadunava com o seu pensamento naquele instante. 
-Oh! Que dir a tua me, quando souber? Que ficar ela a pensar de mim? 
Scarlett sentiu-se assaltar pelos remorsos ao imaginar a consternao da me quando tivesse 
conhecimento do seu procedimento escandaloso. Contudo, as vinte e cinco milhas que separavam 
Atlanta de Tara tranquilizaram-na um pouco. A tia Pitty decerto no se atreveria a contar a Ellen o 
sucedido, pois que, se o fizesse, colocar-se-ia nunia posio muito pouco favorvel como pau de 
cabeleira. E, desd-e que Pittypat no desse com a lngua nos dentes, a situao estava salva. 
- Eu acho - comeou Pitty - sim, eu acho que talvez fosse melhor escrevermos uma carta a Henry... 
conquanto deteste faz-lo... Mas ele  o nico homem da famlia e, portanto, compete-lhe ir 
procurar o capito Bufler a fim de lhe pedir uma explicao. Oh, meu Deus! Se ao menos Charles 
#
ainda fosse vivo!... Scarlett, nunca mais deves tornar a falar com esse homem... nunca mais. 
Melanie, conservava-se calada, com as mos pousadas no regao, enquanto as filhs arrefeciam no 
prato que tinha  sua frente. De sbito, porm, levantou-se e, passando por trs da cunhada, 
abraou-a carinhosamente. 
-No te apoquentes, minha querida-disse ela.Compreendo perfeitamente quanto deve ter-te custado 
o sacrifcio que fizeste e no h dvida de que o auxilio que prestaste ao hospital foi incalculvel. 
Se algum se atrever a criticar-te na minha presena... ter de se haver comigo. Por favor, tia Ptty, 
no chore mais. Tem sido muito duro para Searlett viver aqui fechada em casa, sem distraco 
nenhuma. Bem v, ela  ainda uma criana - replicou, acariciando os cabelos negros de Scarlett. - E, 
vendo bem as coisas talvez no fosse mau assistirmos de vez em quando a uma ou outra reunio. 
No podemos entregar-nos por completo ao nosso desgosto. A guerra modificou tudo, j se no 
repara nessas coisas. Quando penso naqueles pobres soldados, to longe dos seus lares, sem uma 
264 
pessoa amiga com quem se possam entreter  noite... e nos que se encontram hospitalizados, 
suficientemente fortes para andarem a p, mas ainda impossibilitados de pegarem em armas... Na 
verdade, temos sido muito egostas. Devamos hospedar em nossa casa trs convalescentes, pelo 
menos, e convidar alguns para jantarem cQnnosco, aos domingos, como toda a gente faz. No te 
aflijas, Scarlett. A nossa atitude acabar por servir de exemplo e ningum mais dir mal de ns. 
Sabemos muito bem que tu eras amiga de Charles. . Scarlett estava muito longe de se afligir. 
Contudo, irritavam-na as carcias de Melanie, que continuava a afagar- 'lhe os cabelos. Tinha 
vontade de sacudir a cabea e gritar "Vo para o diabo e deixem-me em paz!" pois que a lembrana 
do baile da vspera e da forma por que os guardas civis, milicianos e soldados haviam disputado o 
prazer de dana@ com ela, a enchia de felicidade. A ideia de ser defendida por Melanie, a pessoa 
que mais detestava, desagradava-lhe profundamente. Podia defender-se muito bem szinha, no 
precisava de ajuda. E, s---e as velhas harpias da comisso hospitalar estavam dispostas a hostilizla, 
tanto melhor... Alis ' no tencionava ligar importncia nenhuma s crticas... Havia por esse 
mundo fora muitos oficiais simpticos e gentis. No valia a pena incomodar-se com a opinio de 
gente caduca. 
Pittypat acabava de enxugar os olhos ' reconfortada pelas palavras tranquilizadoras de Melanie, 
quando PrL,,@,s_y entrou na sala oe jantar, trazendo nas mos um sobrescrito volumoso. 
-Para sinhora MeIly-disse ela.-Muleque qui trouxe. -Para miro?-perguntou Melanie admirada, 
rasgando o sobrescrito. 
Entretida com as filhs, Searlett s prestou ateno ao que se estava passando quando uma exploso 
de lgrimas de Melanie a fez levantar os olhos do prato. Pittypat levou as mos ao corao. 
- AshIey morreu! - gritou, lanando a cabea para trs e deixando cair os braos 
- Santo Deus! - exclamou @karlett, sentindo o sangue gelar~se-lhe nas veias. 
- No, no! - bradou Melanie. - Depressa! 0 frasco dos sais, Scarlett! Ento, ento sente-se melhor? 
Respire fundo. No, no se trata de A@hley. Estou desolada por 
265 
lhes ter pregado este susto. Eu chorei mas foi de alegria. 
- E, abrindo a mo na qual aperta@a um objecto que levou aos lbios, murmurou: - Sinto-me to 
feliz... 
E rompeu em pranto novamente. De relance, Scarlett surpreendeu o brilho fugaz duma grossa 
aliana de oiro. 
- Leiam - disse Melanie 'apontando a carta que deixara cair para o cho. - 0h1 como ele  delicado 
e generoso! 
Intrigada, Scarlett pegou na folha de papel onde urna mo firme tinha escrito a tinta preta as 
seguintes palavras: 
A Confederao pode reclanVar o sangue dos seus homens at  ltima gota, mas no exigiu ainda 
o corao das suas mulheres. Queira aceitar, minha senhora, esta prova da admirao que me 
despertou a coragem que ontem a vi manifestar, e no pense que se sacrifkou em vo, pois que este 
#
anel foi resgatado por um preo dez vezes maior do que o seu real valor. 
Capito Rhett Butler. 
Melanie enfiou a aliana no dedo e mirou-a, embevecida. 
- Eu no disse que ele era um cavalheiro? - observou, voltando-se para Pittypat e sorrindo por entre 
as lgrimas que lhe deslizavam pelo rosto. -S um homem de sentimentos nobres -seria capaz de 
compreender quanto me custou ter que... Enviar-lhe-ei o meu cordo de oiro, em substituio do 
anel. Tia Pitty, tem de escrever ao capito Butler, convidando-o para jantar connosco no prximo 
domingo, a fim de eu lhe agradecer a sua gentileza. 
No meio daquela agitao toda, nem ela, nem a tia pareciam ter notado que Rhett Butler no 
resgatara a aliana de Scarlett. No entanto, o facto no passou despercebido  juvenil viva, em e 
'ujo rosto se estampou uma expresso de profundo aborrecimento. Sabia muito bem que no fora 
por cavalheirismo que o capito Butler procedera daquela forma. Queria ser recebido em casa da tia 
Pittypat e resolvera lanar mo dum processo que reputava infalvel. 
Fiquei desolada ao saber do teu recente procedimento -assim comeava a carta que Ellen escreveu  
filha. Scarlett, que estava sentada  mesa, franziu a testa. As ms notcias propagavam~se depressa. 
Ouvira muitas vezes a 
266 
habitantes de Charleston e de Savarinali dizerem que -no havia em todo o Sul gente mais 
mexeriqueira e amiga de se meter na vida dos outros do que a de Atlanta e agora tinha ali na sua 
frente a confirmao desse fact@. A festa realizara-se na noite d-e segunda-feira e trs dias depois 
j ela recebia uma carta da me a censur-la pelo seu audacioso procedimento, Qual das velhas 
harpias teria escrito a Ellen? Ainda chegou a suspeitar de Pittypat, mas no tardou a pr a ideia de 
parte. A pobre Pitty tremia como varas verdes com receio de que a censurassem pela atitude da 
sobrinha mais nova e seria a ltima pessoa a confessar a Ellen o seu fracasso como mentora de 
Scarlett. Provavelmente fora a senhora M-erriwether. 
Custa-me a crer que tenhas esquecido a ta ponto o respeito que deves a ti prpria e bem assim a 
educao que recebeste em casa dos teus pais - continuava Ellen. - J no falo na triste ideia de 
apareceres em pblico estando de luto, po@s compreendo o teu deseja de auxiliar o hospital. 0 que 
me surpreende  que tenhas levado a tua ousadia ao extremo de danar sobretudo com um homem 
como o capito Butler! Tenho'ouvido falar muito a respeito dele, como toda a gente. Na carta que 
me escreveu a semana passada, Pauline diz que Rhett Butler possui uma reputao pssima e que 
ningum o recebe, a no ser, claro, a 
sua pobre me.  um homem de mau carcter, que se aproveitou da tua ingenuidiade e 
inexperincia para te comprometer pblicamente e encher de oprbrio a tua famlia. Como pde a 
senhora Pittypat negligenciar a esse ponto os seus deveres para contigo? 
Scarlett lanou  tia um olhar de esguelha, A velhota reconhecera a letra de Ellen e tinha a boca, 
pequena e de lbios carnudos, contrada num trejeito pueril, corno uma criana que cometeu uma 
falta e recorre s lgrimas para escapar ao castigo. 
Foi com verdadeira mgoa que tomei con(hecimento do que se passou. Faltam-me palavras para te 
exprimir a 
minh.a consternao -ao saber o desprezo a que votaste os princpios em que foste edm,ada. Resolvi 
cham4%r-te iMediatamente para Tara ' mas depois pensei que talvez fosse 
elhor deixar isso -ao critrio do teu pai, que partir para 
267 
a na prxima sexta-feira, a fim de falar com o c-apUo Butler e de te acompanhar a casa. Receio 
bem que, no obstante os pedidos que lhe fiz, ele se mostre severo para contigo. Espero e peo a 
Deus que tenham sido apenas a fraca experincia da vida e a falta de reflexo caractersticas da 
juventude os'ffictores que ditaram o teu estranho procedimento. Ningum pode arrogar-se maior 
desejo que o meu de servir a Causa, pela qual gostaria de ver as minhas filhas manifestarem igual 
entusiasmo, mas da ao ponto de enuergonharem... 
A carta prosseguia no mesmo teor, mas Scarlett interrompeu a leitura. Pela primeira vez na sua 
#
vida, estava realwente aterrorizada. Perdera toda a arrogncia e audcia que manifestara na manh 
seguinte ao baile. Experimentava a mesma sensao de culpa que no dia em que atirara  cara de 
Suellen uma bolacha barrada de manteiga, havia mais de dez anos. A me, que sempre se mostrara 
to gentil e meiga para com ela, censurava-a amargamente e o pai decidira pedir uma satisfao ao 
capito Butler. S agora comeava a vislumbrar a gravidade da situao que a sua leviandade criara. 
Gerald puni-la-ia severamente. Scarlett sabia que, desta feita, nada lucraria em tentar amansar-lhe as 
iras com sorrisos e artimanhas. No conseguiria evitar o castigo ' nem mesmo sentando-se-lhe nos 
joelhos e afagando~lhe o rosto, como costumava fazer, em semelhantes circunstncias. 
- No... no so ms notcias? - indagou Pittypat, com voz trmula. 
-0 pai deve chegar amanh e tenciona atirar-se a mim que nem gato a bofe-respondeu Scarlett, 
sucumbida. 
- Prissy, d-me os sais! - berrou Pittypat afastando a cadeira da mesa onde c> prato dela ficou quase 
intacto. - 
Eu... sinto que @ou desmaiar. 
-Esto no bolso da saia -informou Prissy que passarinhava em torno da ama, radiante com o drama 
em perspectiva. 
Quando estava de mau humor, Gerald proporcionava sempre um espectculo divertidssimo, desde 
que a sua clera no recasse sobre a cabea encarapinhada da negrinha. Pittypat rebuscou nos 
bolsos e levou o frasco ao nariz. 
-No me abandonem durante todo o dia, amanh - 
implorou Scarlett. - No me d-eixem szinha com o pai 
268 
nem que seja s por um minuto! Ele gosta tanto de ambas que no ter coragem para me repreender 
na sua presena. 
- No contes comigo, Scarlett. Eu no posso - respondeu Pittypat, com voz dbil, pondo-se de p. - 
Eu... estou doente. Tenho de ir para a cama. Duvido que amanh consiga levantar-me. No se 
esqueam de lhe apresentar as minhas desculpas. 
"Cobarde!" pensou Scarlett,lanando-lhe um olhar feroz. Melly prontificou-se a defender a 
cunhada, embora a ideia de enfrentar o pai de Scarlett, cujas crises de mau-humor se tinham tornado 
clebres em toda a regio, a assustasse deveras, a ponto de ficar branca como a cal da parede. 
- Eu... ajudar-te-ei a explicar-lhe tudo. Dir-lhe--ei que tu apenas pretendeste auxiliar o hospital. 
Estou certa de que ele acabar por compreender. 
- Duvido bastante - redarguiu Scarlett. - Oh, meu Deus, morro de vergonha se ele me leva de 
castigo para Tara, como a, minha me diz na carta, 
-Mas tu no podes voltar para casa! -exclamou Pittypat, desatando a chorar. - Se te fores embora.... 
sim, se te fores embora, ver-me-ei na necessidade de pedir ao meu irmo que venha morar connosco 
e toda a gente sabe que Henry -e eu somos como o co e o gato. Desde que a cidade foi invadida 
por esta multido de estranhos ' tenho um medo horrvel de ficar aqui szinha de noite, com 
Melly. Mas tu s to corajosa que no me assusta a ideia de no ter nenhum homem em casa, - 
enquanto c estiveres. 
-0 teu pai no pode obrigar-te a voltar para Tara! - 
interps Melly, que parecia prestes a romper em pranto. 
- A tua casa agora  esta. Que havamos ns de fazer sem ti? 
"Como vocs desejariam ver-se livres de mim, se soubessem o que penso a respeito de ambas!" 
disse Scarlett de si para si, com azedume. Intimamente, lamentou o facto de no poder contar com 
outra pessoa qualquer para a proteger do embate com a clera de Gerald. Irritava-a a perspectiva de 
ser defendida por uma criatura que tanto detestava. 
-Talvez seja melhor anularmos o convite que mandmos ao capito Butler-sugeriu Pittypat. 
- Isso nunca! Seria o cmulo da grossara! - exclamou Melanie, aflita. 
269 
kb" ---k @ 
#
- Ajudem-me a ir para a cama. Estou a sentir-me muito mal. Oli, Scarlett! 0 sarilho em que tu me 
foste meter! 
Pittypat encontrava-se de cama doente, quando Gerald chegou, na tarde do dia seguinte. travs da 
porta do seu quarto, pediu-lhe que a descu~ de no o receber pessoalmente e descarregou sobre os 
ombros das duas apavoradas @aparigas a responsabilidade de fazerem ao visitante as honras da 
casa. Pittypat nem sequer desceu para jantar. No decurso -da refeio, Gerald manteve um silncio 
pleno de ameaas, embora  chegada tivesse beijado Scarlett e beliscado a face delicada de Melanie, 
tratando-a por "prima. MeIly". Scarlett teria preferido mil vezes que o pai a houvesse acusado logo 
de entrada, gritando e blasfemando como ra seu hbito. Fiel  sua promessa, Melanie no se 
afastou de Scarlett nem por uma fraco de segundo, seguindo-a por toda a parte, colando-se-lhe s 
salas, como se fosse a sua prpria sombra e Gerald, com o seu cavalheirismo, absteve-se de fazer 
@ma cena  filha na presena da irm de Charles. Scarlett no teve outro remdio seno reconhecer 
que a cunhada se estava a mostrar  altura das circunstncias, agindo como se no tivesse 
acontecido nada de anormal e sustentando calmamente a conversa com Gerald durante todo o 
jantar. 
-Quero saber tudo o que se tem passado em Clayton r@estes ltimos tempos -disse ela, com o 
melhor dos sorrisos. - India e Honey so pssimas correspondentes, mas o senhor com certeza que 
est ao corrente dos acontecimentos. Descreva-nos, por exemplo, o casamento de Joe Fontaine. 
Lisonjeado, Gerald contou que a cerimnia se realizara na maior intimidade, "ao contrrio do que 
sucedeu quando vocs casaram", pois que Joe tivera apenas trs dias de licena. Sally, a azougada 
filha dos Munroes, estava muito bonita. No, no se lembrava do vestido que ela levara. Apenas se 
recordava de ter ouvido dizer que Sally no tivera "vestdo do dia seguinte", 
-No teve?! -exclamaram as duas raparigas, escandalizadas. 
- Evidentemente que no - confirmou Gerald - e pela simples razo de que para ela no chegou a 
haver "segundo dia". 
Gerald desatou s gargalhadas, mas de repente lembrou-se de que talvez aquele gnero de gracejos 
no fosse 
270 
prprio para senhoras e tentou conter o riso. Scarlett criou nimo ao ver o pai bem disposto e 
abenoou o ta--to de Melanie. 
- Joe teve que voltar para Virgnia na manh seguinte 
- apressou-se Gerald a explicar. - Por -isso no fez visitas nem pde assistir aos bailes do costume. 
Os dois gmeos Tarletons esto em casa. 
- J sabamos. Ainda correm perigo? 
- No. Os ferimentos deles eram leves. Stuart foi atingido num joelho e Brent tinha um estilhao de 
granada alojado num ombro. Naturalmente tambm j sabem que foram ambos louvados por feitos 
de bravura em combate? 
-No. Isso, para ns,  novidade. Conte-nos tudo, por favor. 
- So malucos, tanto um como outro. Estou em crer que lhes correm nas veias umas gotas de sangue 
irlands - prosseguiu Gerald, em tom complacente. - No me recordo da faanha que eles 
cometeram, mas o facto  que Brent foi promovido a tenente. 
Scarlett experimentou uma sensao de prazer ao ouvir to agradveis notcias dos seus antigos 
namorados, como se as proezas dos dois gmeos ainda pudessem interessar-lhe realmente. De facto, 
estava convencida de que todos os rapazes que lhe tinham feito a corte haviam ficado a pertencerlhe 
para sempre e de que o brilho de glria de que porventura se cobrissem vinha a reflectir-se na 
sita prpria pessoa. 
-Mas trago outras novidades muito mais palpitantes -continuou Gerald.-Constou-me que Stuart anda 
a rondar outra vez os Doze Carvalhos. 
-Qual delas? Honey ou India? ---inquiriu Melanie, -excitada, enquanto Scarlett fitava o pai com ar 
indignado. 
- Oh, India, pois quem havia de ser? No era ela que Stuart namorava, quando esta prenda da minha 
#
filha resolveu deitar-lhe a fateixa? 
-Oh!-dsse MeIly, um tanto ou quanto embaraada ante a franqueza rude de Gerald. 
-E ainda h mais. Brent Tarleton passa os dias em minha casa. E esta? 
Scarlett estava engasgada. A desero dos seus antigos pretendentes era quase um insulto para ela. 
Recordou-se da reaco que ambos tinham manifestado quando lhes dera a notcia de que decidira 
desposar Charles Hamilton 
271 
kbd'.A@, 
e sentiu o sangue ferver-lhe nas veias. Stuart at ameaara matar Charlescom um tiro, ou mat-la a 
ela, ou suicidar-se, ou matar os dois primeiro e suicidar-se em seguida. Fora uma coisa louca. E, no 
entanto, agora... 
- Suellen? - perguntou MeIly, entreabrindo os lbios num sorriso prazenteiro. - Mas pensei que o 
senhor Kennedy... 
- Oli, esse?! - redarguiu Gerald. - Frank Kennedy no ata nem desata. Parece que tem- medo at da 
prpria sombra. Se ele no tomar uma deciso nestas semanas mais prximas, irei eu prprio 
perguntar-lhe quais so as suas intenes, afinal. No' desta vez  a minha pequerrucha que est na 
berlinda. 
- Carreen? -Mas Carreen no passa duma criana -objectou Scarlett com, voz spera, recuperando o 
uso da fala, 
- Tem um ano menos do que tu quando casaste, minha querida. Ou dar-se- o caso de estares com 
cimes do teu antigo namorado? 
MeIly, que no estava habituada.a. ouvir as pessoas falarem com franqueza to objectiva, corou at 
 raiz dos cabelos. Fez sinal a Peter para trazer o pudim de batata doce e deu tratos  imaginao, 
em busca de assunto que conduzisse a conversa para um campo impessoal e distrasse Gerald do 
objectivo principal da sua viagem. No conseguiu descobrir nenhum, mas tambm no era preciso, 
Uma vez aflorado um tema qualquer, Gerald no necessitava de outro estmulo alm do que sempre 
lhe proporcionava um auditrio complacente. Falou na roubalheira da brigada de abastecimento, 
que todos os meses aumentava o volume das requisies, na malandrice e estupidez de Jefferson 
Davis, na patifaria dos irlandeses que combatiam ao lado dos yankees, a troco de grossas 
remuneraes. 
Quando o mordomo serviu o vinho e as duas raparigas se levantaram, dispostas a deix-lo szinho, 
Gerald franziu as sobrancelhas e, encarando a filha com expresso severa, reclamou a sua presena, 
a ss, durante alguns minutos. Scarlett lanou um olhar desesperado a Melanie que tor- ceu o 
lencinho de renda nas mos, sem -saber o 4ue fazer, e acabou por sair da sala, fechando suavemente 
a porta atrs de si, 
- E agora vamos ajustar contas 'minha menina -disse Gerald, na sua voz retumbante, servindo-se 
dum clice de 
272 
vinho do Porto. -Lindo procedimento, o teu,  de outro marido que andas  caa? No tens 
vergonha, tu que enterraste o primeiro h to pouco tempo ainda? 
-No fale to alto, meu pai, Os criados... 
- Tenho a certeza de que eles esto to bem informados como eu acerca do que se passou - atalhou 
Gerald. - Toda a gente sabe da nossa vergonha. A tua pobre me adoeceu com o desgosto e eu no 
me atrevo a olhar de frente para quem quer que seja. Que desgraa, meu Deus! No, minha linda! 
Escusas de te aproximar de mim com esses olhos tristes e lacrimosos. Desta vez o caso no fica 
assim - 
acrescentou apressadamente, deixando transparecer na voz certa inquietao ao ver Se-arlett bater 
as pestanas e fazer beicinho, como quem vai chorar, -Eu conheo-te de ginjeira. Tu serias capaz de 
arranjar namoro at no enterro do teu marido. No chores 'que no vale a pena. Descansa, que eu 
j no digo mais nada esta noite mesmo porque tenho de sair. Quero ir falar com esse tal capito 
Butler, que to pouca importncia ligou  reputao duma filha de Gerald O'Hara. Mas amanh de 
#
manh... Vamos,-deixa--te de lgrimas. No lu<_,rars nada com isso. J tomei uma resoluo. Irs 
comigo para Tara antes que nos desgraces a todos. No chores, meu amor. V o presente que te 
trouxe.  bonito, no achas? Repara bem. No gostas? Meteste-me num sarilho to grande que me 
vi na obrigao de abandonar os meus afazeres em Tara e vir at c eu que nem sei para onde me 
voltar com a carga de t@abalhos que desabou sobre mim, Limpa esse nariz, anda. 
Melanie e Pittypat j dormiam havia muito tempo, mas Scarlett continuava acordada, contemplando 
as trevas que a envolviam. Tinha o corao pesado que nem chumbo e sentia no peito uma angstia 
indizvel. Deixar Atlanta precisamente na altura em que a vida principiava a sorrir-lhe de novo, 
voltar para Tara e encarar a me era superior s suas foras. Preferia mil vezes morrer a enfrentar 
Ellen. E talvez mais lhe valesse estar morta, porque, naquele momento pelo menos todos 
lamentariam a severidade com que a haviam julgao. Voltou-se e tornou-se a voltar na cama, 
procurando ar-omodar melhor a cabea sobre a almofada quente, at que um rumor longnquo, 
vindo da rua, lhe chegou aos ouvidos. Apesar de a principio no conseguir dstingu-lo bem, aquele 
rudo era-lhe familiar. Saltou 
18 -Vento Levou -1 273 
da cama e chegou  janela. Sob um cu pontilhado de estrelas, a estrada desdobrava-se-lhe diante 
dos olhos, sombria e deserta ladeada de rvores frondosas, que mais adensavam a e@curido. 0 
ruido soava cada vez mais prximo. Scarlett ouviu um ranger de rodas, o tropel das patas de um 
cavalo e vozes de homens que se elevavam ainda longe, na quietude da noite. De sbito, ela sorriu, 
pois acabava de reconhecer a voz pastosa e avinhada que entoava a cano Peg in a low-backed car, 
No fora dia de julgamento em Jonesboro,mas isso no impedia que Gerald regressasse a casa 
completamente embriagado, como normalmente sucedia nessas ocasies, 
Scarlett viu a silhueta negra de uma carruagem imobilizar-se em frente da casa e dois vultos 
apearem-se dela. Gerald no vinha s. Os dois homens estacaram junto ao porto. Da rua, subiu o 
estalido da lingueta da fechadura ao correr seguida pela voz de Gerald, agora mais clara: 
_Che@gou a altura de lhe proporcionar o prazer de escutar o Lamento de Robert Em?rbet. ]@ uma 
cano que j devia conhecr, meu rapaz. Vou ensinar-lha, 
- Terei muito gosto em aprend-la - redarguiu o companhero, deixando transparecer na voz 
arrastada a mais profunda ironia.-Mas noutra ocasio talvez, senhor O'Hara. 
"Oh, meu Deus! 0 capito Butler, outra vez!" pensou Scarlett, aborrecida. Mas logo criou nimo, Se 
estavam ambos ali era porque no se tinham atirado um ao outro, pelo menos. E at deviam 
encontrar-se em termos bastante amistosos 'pois que, de contrrio, no regressariam a casa quela 
hora e em semelhantes condies. 
-  melhor agora - insistiu Gerald. - Preste ateno, se no quer levar um tiro, seu orangista de uma 
figa. 
Orangista, no. Charlestoniano. Ainda pior. Tenho duas cunhadas em,Charleston e sei muito bem de 
que fora elas so. 
"Ir ele acordar toda a vizinhana?" perguntou Scarlett a si prpria, tomada de pnico e enfiando o 
roupo  pressa. Que havia de fazer? No podia sair de casa quela hora da noite, nem que fosse 
para obrigar o pai a iecolher-se a penates. 
Sem outro aviso, Gerald, que se tinha apoiado no porto do jardim, lanou a cabea para trs e 
comeou a cantar o Lamento, com a sua voz estentrica de bartono. Scarlett debruou-se no 
peitoril da janela e escutou o pai, sorrindo 
274 
involuntriamente. Era uma cano lindssima uma das ha ouvido que ela mais apreciava mas 
Gerald no tini nenhum para a msica e atraioava a melodia sem d nem piedade. A letra da 
balada comeava com os versos: 
Ela  longe da terra em que repousa o heri E j,  sua volt, os namorado&... 
Gerald continuou a cantar. A certa altura, Scarlett surpreendeu um ligeiro rumor nos quartos de 
Pittypat e de Melanie. Coitadas como deviam sentir-se inquietas e apoquentadas! Nenhuma delas 
estava habituada a lidar com homens dotados de temoeramento impulsivo e ardente corno o de 
#
Gerald. A cano terminou e as duas silhuetas fundiram-se numa s6. Gerald e o companheiro 
avanaram ao longo da lea e subiram os degraus do alpendre. Na porta de entrada soaram ento 
duas pancadas discretas. 
"Tenho de ir l abaixo", pensou Scarlett. "No fim de contas,  o meu pai que est l fora e a pobre 
Pitty morreria de medo antes de conseguir abrir a porta". Scarlett no queria que os criados vissem 
Gerald naquele estado. E se Peter tentasse met-lo na cama, poderia verificar-se algum incidente 
desagradvel. Em ocasies como aquela, a nica pessoa capaz de manobrar o irascvel irlands era 
Pork, velho mordorno de Tara. 
Scarlett apertou cuidadosamente o roupo, ajustando-o ao pescoo com um broche, acendeu a vela 
do castial que jazia sobre a mesa de cabeceira e desceu apressadamente as escadas em direco ao 
vestbulo. Pousou o castial sobre @ma consola e abriu a porta.  luz vacilante que a vela irradiava 
 sua volta, Scarlett viu Rhett Butler, impecavelmente vestido, amparando o corpo atarracado e 
macio de Gerald. 0 Lamento fora, sem sombra de dvida, o canto do cisne d(, O'Hara que se 
abandonava por completo nos braos do companh@iro. No trazia chapu e as- suas longas 
melenas crespas lembravam uma crina branca. A gravata tinha ido. parar debaixo de uma orelha e o 
peitilho da camisa apresentava ndoas de aguardente. 
- ]@ o seu pai, creio eu? -disse o capito Butler, corri 
uma expresso divertida a iluminar-lhe o rosto moreno. 
ReDarou no vesturio leve da sua interiocutora e lanou-lhe um olhar que parecia traspassar o 
tecido do roupo. 
- Traga-o para dentro -sugeriu secamente. 
275 
Sentia-se pouco  vontade naquele traje diante de Rhett; Bufler' e estava furiosa com o pai, por ter 
dado, ensejo a que o capito pudesse troar dela uma vez mais. 
Rhett arrastou Gerald para o centro do vestbulo. -Quer que a ajude a lev-lo l para, cima? No, 
pense em carregar com ele szinha.  pesado demais para as suas foras. 
Searlett encarou o capito, boquiaberta. A audcia da proposta deixara-a simplesmente horrorizada. 
Imagine-se o que Pttypat e Melanie no pensariam quando ouvissem Rliett Butler subir as escadas 
quela hora da noite! 
- Por amor de Deus, no! - respondeu. - Dete-o naquele sof, perto da porta. 
-Do lado de dentro ou do lado de fora? 
- Seja mais delicado, se faz favor-ripostou Scarlett friamente. -Aqui. Agora levante-o levemente 
para lhe meter a almofada debaixo da cabea. 
-Deseja que lhe tire as botas? -No vale a pena. J tem dorinide@ corri elas muitas vezes. 
Teve ganas de morder a lngua, mal as palavras acabaram de lhe sair dos lbios, Rhett Butler riu 
baixinho, enquanto ajeitava as pernas de Gerald, cruzando-as uma sobre a outra. 
-E agora retire-se por favor. Rhett encaminhou,s@ para a porta e apanhou o chapu que deixara cair 
ao entrar. 
-Voltaremos a ver-nos no domingo  noite, ao jantar -disse ele, saindo e fechando cuidadosamente a 
porta atrs de si. 
Scarlett levantou-se s cinco e meia da manh, antes que os criados abandonassem as dependncias 
que lhes estavam reservadas no ptio das traseiras, a fim de iniciarem a labuta diria, e desceu as 
escadas p ante p. Cerald j estava acordado, A filha encontrou-o no sof, apertando a cabea 
desgrenhada entre as mos, corno se quisesse esmag-la. Quando ouviu Searlett entrar no vestbulo 
lanou-lhe um olhar de esguelha, mas a dor que esse simples gesto lhe causou foi to forte que no 
logrou conter um gemido. 
-Maldito dia! 
- Bonito procedimento o seu, no haja dvida, meu pai 
- segredou-lhe Scarlett, enfurecida. - No contente com 
276 
voltar para casa a uma hora daquelas e no estado em que vinha, ainda resolveu acordar a vizinhana 
#
com as sua,s cantorias. 
- Mas eu cantei alguma coisa? -Ainda pergunta? Evidentemente que cantou. Alarmou meio mundo 
a, entoar o Lamento. 
-No me lembro de nada. -Mas a vizinhana- ainda no deve ter-se esquecido. Duvido mesmo que 
algum se esquea at  hora da sua morte. E o que sucedeu com os vizinhos verificou-se 
igualmente com a tia PlItypat e Melanie. 
- Nossa Senhora, das Dores! - gemeu Gerald, passando a lngua ressequida pelos lbios gretados. - 
As minhas recordaes so muito vagas a partir do momento em que principiou o jogo. 
- Que jogo? 
- Esse bonifrate do Rhett Bufler comeou a gabar-se de no haver quem o batesse ao poker em toda 
a... 
- Quanto Perdeu meu pai? 
- Perder, eu? Quanto ganhei, queres tu dizer. Porque no h dvida de que fui eu que ganhei, o que, 
alis, j era de esperar. Um gole ou dois de whisky ajudam-me sempre, bem sabes. 
- Mostre-me a carteira. Como se cada movimento lhe provocasse um sofrimento atroz, Gerald 
retirou a carteira do bolso do casaco e abriu-a. Estava completamente vazia e ele virou-a, 
estupefact<>. 
-Quinhentos dlares- murmurou. -E eu que tinha tanta coisa que comprar para a tua me! Nem 
sequer me resta dinheiro para a viagem de regressG. 
Enquanto fixava, indignada, a carteira vazia, uma ideia luminosa surgiu e tomou forma no esprito 
de Searlett. 
- Nunca mais me atreverei a levantar os olhos do cho aqui em Atlanta - comeou ela.. - 0 pai 
cobriu-nos de vergonha, a todos ns. 
- No digas tolices, querida. A cabea di-me tanto que at parece que vai rebentar de um instante 
para outro. 
- Nunca pensei! Chegar a casa embriagado e na companhia de um indivduoi como o capito Butler 
cantando a plenos pulmes, como se quisesse acordar t@da a cidade e, inda por cima, perder tanto 
dinheiro ao poker! 
-0 capito Butler joga, bem demais para ser um cavalheiro. Tenho a certeza de que ele... 
277 
- Que dir a me, quando souber? Gerald ergueu para a filha um olhar angustiado. -Tu no vais 
dizer nada  tua me, no  verdade? Aborrec-la-ias sem preciso. 
1 Scarlett cerrou os lbios numa linha firme e no respondeu. 
-Pensa no desgosto que lhe darias, a ela que  to boa, to carinhosa... 
- E o pai pense no que me disse ainda ontem  noite, acusando-me de ter desgraado a famlia 
inteira, s porque dancei uma quadrilha numa festa de beneficncia para os soldados! - atalhou 
Searlett. - Cada vez que me lembro at sinto vontade de chorar! 
- No chores, por favor! -implorou Gerald.-A minha cabea j no aguenta mais. Est prestes a 
estoirar. 
- Alm disso o pai afirmou que eu... -Vamos mi@ha, filha querida vamos! Espero que as palavras 
do'teu velho pai te n@ hajam ofendido. Bem sabes que no era essa a minha inteno. Estou certo 
de que tu procedeste de boa-f, o que constitu uma enorme atenuante... 
- E queria levarme para Tara, de castigo. 
- Oli, cus! Eu seria l capaz de cometer tamanha barbaridade! Quis arreliar-te um pouco e nada 
mais. Suponho que no tencionas realmente falar  tua me naquele dinhe@ro, justamente agora 
que ela anda to preocupada com as despesas, pois no minha filha? 
- No - respondeu Sc@rlett francamente. - No direi absolutamente nada se o pai -me deixar ficar 
em Atlanta e convencer a me de que tudo o que lhe mandaram dizer foram coisas inventadas, por 
duas velhas alcoviteiras que no merecem crdito. 
Gerald lanou  filha um olhar nublado. -Isso  chantagem da, autntica. -Tambm o que o @ai fez 
ontem  noite foi um escndalo, dos autnticos-ripostou Scarlett. 
#
- Est bem - condescendeu Gerald. - No falemos mais no caso. Achas que uma senhora to fina 
como a Pittypat  capaz de ter por a algures uma garrafinha de aguardente? Com o plo do mesmo 
co... 
Searlett voltou-se e atravessou silenciosamente o vestbulo, que continuava mergulhado no mais 
profundo silncio, em direco  sala de jantar, onde foi buscar o frasco 
278 
de aguardente a, que Melanie e ela costumavam chamar "o remdio dos chiliques", em virtude de 
Pittypat beber sempre um -ou dois tragos quando desmaiava ou fingia desmaiar. Uma expresso de 
triunfo iluminava o rosto de Scarlett, no qual se no vislumbrava o mais leve vestgio de remorsos 
pela maneira to pouco respeitosa. por que trai tara o pai. Se mais alguma alma caridosa se 
lembrasse de escrever a Ellen a comentar a atitude da filha, Gerald encarregar-se-ia de tranquilizar a 
mulher com urna srie de mentiras. Scarlett continuaria em Atlanta e poderia fazer o que 
entendesse, pois que Pittypat, fraca como ora, no conseguiria opor-se  sua vontade. Abriu a 
frasqueira e retirou de l a garrafa de aguardente e um copo, que apertou contra o peito, quedandose 
de p, junto do mvel, a imaginar o futuro. 
Diante dela abria-se uma srie interminve,1 de piqueniques nas margens do rio Peachtree e nas 
Montanhas Rochosas, de bailes e recepes de chs danante-s, de corridas de cavalos e ceatas nas 
Aoltes de domingo. Assistria a todas as reunies onde voltaria a ver-se rodeada de admiradores, 
alvo das a@enes gerais. E os homens apalxonavam-se com tanta facilidade pelas enfermeiras que 
os tratavam! 0 servio no hospital j lhe no repugnava tanto. Tinha chegado  concluso de que os 
soldados eram muito mais sensveis aos encantos femininos enquanto doentes do que depois de 
restabelecidos, E ento, durante' a sua Can~ valescena, caam nas teias das raparigas com a, 
mesma simplicidade com que os pssegos maduros tombavam no cho, quando Scarlett abanava, os 
pessegueilros em Tara. 
Voltou para junto do pai levando nas mos a garrafa e o copo, enquanto mentahnente dava graas a 
Deus por Gerald 'no obstante a sua extraordinria resistncia aos vapores do lcool, ter apanhado a 
tremeInda bebedeira da vspera, e perguntava a si prpria se em tudo, aqulo no teria andado o 
dedo mgico de Rhett Butler. 
11 
NumA bela tarde da semana seguinte, Searlett voltou de hospital extremamente fatigada e 
aborrecida. Passara a manh inteira de p, a andar de um. lado para outro e, 
279 
como se tal no bastasse, a senhora Merriweter ainda, se julgara no direito de a repreender 
severamente por ela se ter sentado na cama de um doente enquanto lhe ligava o brao ferido. 
Vestidas de ponto em branco, Pittypat e M'elanie esperavam-na debaixo do alpendre, na companhia 
de Wade Hampton e de Prissy, para a habitual ronda, de visitas semanais. Scarlett pediu-lhes 
desculpa de no poder acompanh-las e meteu-se no quarto. 
Logo 4ue deixou de ouvir o rudo da carruagem e teve a certeza de se encontrar ao abrigo dos 
olhares indiscretos da famlia, esgueirou-Go para a alcova de Melanie, fechando a porta  chave. 
Era, um aposento singelo, virginal, que se encontrava meticulosamente arrumado e que os raios 
oblquos do sol das quatro horas iluminavam e aqueciam. Reinava ali uma calma absoluta,. No cho, 
que brilhava de asseio, viam-se apenas algung tapetes pequenos, de cores vivas. As paredes, 
brancas e nuas, no ostentavam, nenhum ornamento. Contudo, a um dos cantos da sala, Melanie 
tinha arranjado uma espcie de relicrio. 
Sob a bandeira da Confederao, pregada na parede, dependurara o sabre com punho de oiro que o 
pai usarana guerra do Mxico e que Charles tinha levado consigo quando partira de Atlanta. No se 
esquecera do cinturo do rmo, nem da pistola, que tambm ali figurava, com o respectivo coldre. 
Entre o sabre e a pistola via-se um da,guerretipo, de Charles, aprumado e orguli;oso no seu, 
uniforme cinzento, com uma expresso luminosa e sonhadora nos olhos grandes e castanhos e um 
sorriso tmido a entreabrir-lhe os lbios, 
Scarlett no se deteve a olhar para o retrato do marido. Sem a mais leve hesitao, atravessou o 
#
quarto e parou em frente da cama estreita, junto da mesinha de cabeceira, sobre a qual Melanie 
havia arrumado a papeleira quadrada de pau~rosa onde costumava guardar a correspondncia. 
Abriu e retirou de l um mao de cartas escritas por Ashley, atado com uma fita de seda. azul. A 
encimlo, encontrava-se a que* havia chegado nessa manh. Foi sobre ela, que recaiu a ateno de 
Scarlett. 
Quando principiara a ler secretamente a correspondncia de Melanie, Scarlett sentira remorsos to 
graiidffi e tal receio de ser descoberta que o tremor das mos quase a impossibilitava de retirar as 
cartas de dentro dos sobrescritos. Contudo, a sua conscincia pouco escrupulosa fora 
280 
emudecendo gradualmente  medida que ela ia renovando a falta. Por vezes, o corao cerrava--,selhe 
de, angstia e perguntava, a si mesma: "Que diria a nunha me se adivLnhasse o que eu estou a 
fazer!" Tinha a certeza de que Ellen preferiria mil vezes v-la morta a sab-la culpada de to feia 
aco e isto a principio afligira-a deveras, pois que desejava ardentemente seguir o exemplo da me. 
Mas a tentao de ler as cartas de Ashley era superior s suas foras e afastava resolutamente Ellen 
do pensamento. Ultimamente, Scarlett esforava-se por afugentar do esprito todas as ideias 
susceptveis de a abGrrecerem. Habituara-se a dizer com os seus botes: "Ainda  cedo para me 
preocupar com o assunto. Amanh se ver o que posso fazer". E duma maneira geral, no dia 
seguinte j se no, lembrava do caso ou, se ele ainda lhe ocorria  mente, a importncia, que na 
vspera lhe atribura parecia-lhe exagerada e acabava por esquec-la. E, assim ' tinha chegado ao, 
extremo de achar natural o abusa de confiana que cometia violando as cartasi de AshIey. 
Melanie mostrava-se sempre generosa, lendo em voz alta alguns passos daL9 missivas que recebia 
do marido, para que Scarlett e a tia ouvissem. Mas era precisamente a parte que ela guardava para si 
que excitava, a curlosidade de Scarlett e a levava a ler s escondidas a correspondncia da cunhada. 
Queria saber se AshIey se apaixonara por Melanie depois de a ter desposado. Perguntava a si 
mesma se ele se daria, ao trabalho de fingir que a amava, e quais as frases de carinho que 
empregava para a tratar. Que sentimentos deixaria AshIey transparecer nas suas missivas e com que 
intensidade? 
Scarlett extraiu cuidadosamente do sobrescrito a folha de papel. ;Soltou um suspiro de alivio ao ver 
a primeira frase. "Minha querida mulher" escrevera AshIey na sua caligrafia miudinha e uniform@. 
Ainda no a tratava por "meu amor" ou "minha bem-amada", o que, por um lado, constitua indcio 
tranquilizador. 
Minha querida mulher: 
Na tua ltima carta queixas-te de eu te ocultiar-os meus verdadeiros pensarmentos e perguntas-me, 
G@armada, o que me est preocupando... 
281 
"Santo Deus!" pensou Searlett, assustada, com uma sensao de culpa a pesar-lhe na conscincia. 
"Melanie queixa-se de o marido lhe ocultar os seus verdadeiros pensamentos! Ter ela adivinhado o 
que tem Ashley? Ou o que eu tenho? Suspeitar de que Asliley e eu ... " 
Com mos trmulas, aproximou a carta dos olhos para ver melhor. 0 perodo seguinte, Dorm, 
tranquilizou-a: 
e, 
Querida Melanie se por alcaso te ocultei' algumas das minhas preocupas, fi-ta movido apenas 
pelo desejo de no acresdentar  tua per7Manente inquietao acerca do meu estado de sade uma 
nova ansiedade pela minha disposio de esprito. Mas j vejo que no posso ter segredos piara ti, 
porque tu ds logo por isso. Todavia, no deves al,armar-te. No fui ferido, nem me sinto doente. 
Do-me a comida de que necessito e. quando calha, uma cama para dormir. Um soldado no pode 
exigir mais. Contudo, Melanie trago o coraco pesado como chumbo e preciso de des@bafar 
contigo '- 
Nestas noites de Vero em que o sono me abandona e quando todo o acampamento se encontra hd 
muito j adormecido, levanto os olhos para as estrelas que brilham no cu e pergunto a mim 
mesmo, no uma vez, nem duas, mas tnuitas vezes: "Que fazes aqui, A-shley Wilkes? Que Causa e 
#
essa por que.te ests batendo? Para que te ali@stla-,zte no Exrcito?" 
No foi para obter honras nem glrias.. com certeza. A guerra  uma coisa repugnante e eu tenho 
horror a tudo o que  menos limpo. No sou militar e no me sorri a ideia de alcanar louvores sob 
o troar dos canhes. Con~ tudo, a verdade  que me encontro num campo de batalha -eu cuja 
misso na terra seria ewtudar e gerir os negocios @um-a plantao. Porque,. minha auerdIa 
Melanie ' o som dos clarins no me entusiasma e o rufar dos tambores de&v@a-me indiferente. 
S agora vejo que fomos trados. 
0 nosso sangue ardente de sulistas in@uzi-nos em e-rro, fazendo-nos crer que cada um de vs 
chegaria para uma dzia de yankees e que o algodo nos daria poder para governarmos o mundo. 
Sim, Melanie todos ns fomos trados, no s pela nossa arrogncia de @neridionais, mas ffimbm 
pelas palavras empoladas e ocas com que'nos trituravam os 'ouvidos tais como Rei Algodo, 
Escravatura, Direitos dos Esta&s, Malditos Yankees, pelos dios e pre- 
282 
conceitos dos homens que, em virtude dos cargos elevados que ocupam, se impuseram ao nosso 
respeito. 
E quando  noite, embrulhado no meu cobertor, admTo o cu crivado de estrelas, pergunto a mim 
prprio: "Por que razo ests combatendo?" Penso nos direitos dos Estados, no algodo, nos pretos 
e nos yankees que os nossos pais nos ensinaram a detestar desde pequenos, e chego  concluso de 
que no foi nada di@sso que me levou a pegar em armas. Mas, se me deixo assaltar pelas 
recordaes, revejo os Doze Carvalhos nimbados pelo lunr, cujos ratos oblquos se alongam entre as 
colunas brancas, relembro o aspecto irreal das magn61i'as desabrochando no crepsculo, contemplo 
uma.vez mi@s a varanda cheia de sombra. onde me parece ver ainIdaa minha me sentada a 
costurar.'Mmo nos meus tempos de criana. Ouo novamente o vozear dos escravos que regressam 
do campo ao entardIecer, fatigados mas a cantar, prontos pura a ceia, e o chiar do cabrestante 
quando faz mergulhar o balde na gua frila do poo. A paisagem que conheo desde que nasci 
desenrola-se-me diante dos olhos da memria, com a sua estrada vermelha e poeirenta que desce at 
ao rio, atravs das plantaes,. envolta na tnue neblina que se ergue do vale ao anoitecer. Foi essa a 
razo que me trouxe at aqui -a mim. que detesto 
* morte e a dor, a misria e a glria.. e que no tenho dio 
* ningum. Talvez haja algum que chame a isto patrotismo, amor pela terra natal e pelo lar. 
Crei!o, pbrm, que se trata dum sentimento mais profundo, pois que tudo equilo -a que me referi 
simboliza o gnero de existncia que amo e pelo qual arrisco a vda. Luto pelos dias p<zssados, 
pelos costumes de outros tempos, que adoro e receio ver per idos para sempre, seja qual for o 
desfecho do conflito, sabido como, vencidos ou vencedores, ns ficaremos a perder. 
Se ganharmos a guerra e conquistarmos o reino do algodo com aue son-Itamos, nem por isso a 
nossa vitria ser completa, visto que todos ns teremos sofrido uma metamorfose total. Nunca 
mais volta@re~s a gozar os velhos dias de outrora, cheios de paz e de tranquilidade. 0 mundo 
inteiro vir bater-nos  porta, clamando por algodo, que venderemos a pes-o de oirh. Se assim 
acontecer, o poder e a riqueza acabaro por nos subir  cabea e passaremos -a 
r os mesmos defeitos que hoje apontamios aos yankees. 
283 
E, se perdermos a guerra.--- Ai de ns, Melanie, se formos derrotados! 
No receio o perigo nem me apoquenta a ideia de ser ferido ou morto, se tiver de morrer. A certeza, 
porm, de que nunca mais voltaremos a desfrutar a descuikMcta felicidade dos tenivos idos mesmo 
deoois de terminada a guerra, assusAa-me bastan'te.  que eu perteno ao passado, calmo e 
saudoso, e -no ao agitado presente.. cuja preocupaao parece exclusivament-e a de matar. Tenho 
medo de no oonseguir adap@ar-7ne ao futuro que nos espera,. mau grado todos os esforos que 
fizer nesse sentido, E outro tanto suceder contigo, minha querida, Dois que nos corre nas veias o - 
mesmo sangue. Ignoro o que a vida nos reserva; sei apenas que no voltar a oferecer-n'os a beleza 
feliz dos dias que se foram e nunca mais voltaro. 
Estendido no meu catre, lano um olhar dos rapazes adormecdos que me rodeiam, perguntando a 
#
mim prprio se estes pensamentos j ocorreram a-os gmeos Tarletons, ou a Cade Calvert ou a Alex 
Fontaine. "starid de saber se eles j repararam que esto a bater-se Dor uma causa perdida desde o 
primeiro momento de lu@,a. Porque na verdade, o que se encontra em jogo  a nossa maneira de 
viver e essa nunca mais tornar a ser o que era. Mas no creio que eles se preocupem com estes 
problemas. 
No vrevi esta catstrofe quando te pedi qu-e casasses comigo. Pensei, que a vida nos Doze 
Carvalhos decorreria sempre fcil, cheia de paz, imutvel. Ns parecemo-nos muiko um com o 
outro, Melanie. Gostamos de tudo o ~  calmo, tranquilo. Imaginei que se estendia  nossa frente 
uma longa srie de anos sempre iguais, que passaramos a ler, a ouvir msica ea sonhar. Imaginei 
tudo, menos isto! Nunca me atravessou a cabea a hiptese de vir a assistir um dia ao naufrgio de 
um passado inteiro ' a uma carnificna assim, a uma explos)o de dio to violenta como a que 
originou este conflito. No. h nada que desculpe esta guerra, Melanie. Nem os direitos dos 
Estados. nem os escravo- nem o algodo. Nada poder justificar 'o que nos est aco@tecendo agora, 
nem o que poder vir a acontecer, porque, se os yankees vencerem, o nosso futuro Ter desastroso. 
E, minha querida MeMnie,  muito provvel 'que a vit6ria se incline para o lado deles. 
Eu no devia escrever estas cisas nem sequer pens-las, mas tu pediste-me que usasse de'franqueza 
e o meu 
284 
corao alberga o receio da derrota. Lembras-te dum indivduo chamado Butler, de sotaque 
caracterstico dos habitantes de Charleston, que no dia do piquenique em que foi anunciado o nosso 
cmamento ila armando sarilho com as observaes que fez a respeito da ignorncia dos sulistas? Os 
gmeos Tarletons at quiseram pregar-lhe dois tiros por ele afirmar que no possuamos officinas de 
fundio, nem laminadores, nem navios. nemarsenais, nem fbricas de maquinaria em quantidade 
suficiente vara suDrir as niossas necessidIades, e dizer Que a esquadra yankee poderie imvoss@ 
bilitar~nos de exnortar o algodo ' bloqueando os nossos portos. Butler tinha 71azo@ 
Melanie. Estamos a enfrentar as carabinas modernas dos yankees oom arcabuzes do temno de 
Revoluo e podes crer que dentro de bem voucos meses nem mesmo os medicamentos 
indispensves conseguiro atravessar o bloqueiv. Pena foi que no nos tivssemos orifntado pela 
opinio de cnicos como esse tal Butler. pois que falavam com conhecimento de causa, em vez de 
darmos crdito a estadistas sentimentais Que ignoravam, e continuam a ignorar, o sentido das 
realidades. Butler declarou que, para fazerem frente aos yankees, os sulistas no dispunham seno 
de algodo e de arrogncia. 0 algodo ' agora no vale nada; resta-nos, portanto, aquilo a que ele 
c"mou arrogncia. A isso, porm, chamo eu ooragem e se... 
Aborrecida, Scarlett dobrou cuidadosamente a carta, sem acabar de a ler, e meteu-a de novo no 
sobrescrito donde a tirara. 0 tom em que estava, escrita, deprimia-a, com 0 seu tolo pessimismo. No 
fim de contas, ela no devassava a correspondncia de Melanhe- para se preocupar com as ideias de 
Asliley, que se lhe a-figuravam enigm~ ticas e absolutamente falhas de interesse. Para isso 
bastavam as que ele lhe havia impingido no tempo em que conversavam juntos, sentados sob o 
alpendre de Tara. . 
Sca,rlett apenas pretendia saber se Asliley escrevia cartas de amor  mulher. At quela data, ainda 
lhe no enviara nenhuma. Scarlett lera toda a correspondncia da Ipapeleira de pau-rosa e no 
encontrara uma nica frase que no pudesse ser dirigiu-a, por qualquer homem a uma irm sua. 
AshIey escrevia cartas espirituais, ternas atravs das quais revelava os devaneios do seu esprito 
@onhador, mas no deixava transparecer a mais leve paixo. 
285 
0 elevado nmero de epstolas amorosas que Scarlett recebera antes de casar permitira-lhe 
familiarizar-se com o estilo de um homem verdadeiramente enamorado e o de A.shley, desse ponto 
de vista, no convencia ningum. Como sempre que acabava de violar a correspondncia da 
cunhada, Scarlett sentiu-se invadir por uma onda de satisfao, pois adquirira, uma vez mais, a 
certeza de que Asliley continuava a am-la. Perguntava a si prpria, desdenhosamente 'como seria 
possvel que Melanie ainda no tivesse descoberto que o marido no nutria por ela mais do que 
#
sincera amizade. Evidentemente ela no notava falta nenhuma nas missivas de Ashl@y porque 
nunca recebera cartas de amor de outros homens, que pudessem servir-lhe de termos de 
comparao. 
"Ashley  um idiota a escrever", pensou Scarlett. "Se um marido meu se atrevesse a impingir-me 
patacoadas deste gnero, teria de me ouvir! Imaginem, at Charles conseguia alinhavar frases mais 
bonitas do que estas!" 
Scarlett examinou as datas dos sobrescritos, recordando o que cada carta dizia. No havia em 
nenhuma delas descries interessantes dos acampamentos, nem dos assaltos da infantaria, como 
nas que Darey Meade enviava aos pais, ou nas que a Faith e a, Hope haviam recebido do irmo, o 
pobre Dallas McLure. Tanto os Meade como as duas solteironas mostravam orgulhosamente as 
cartas -que o filho e o irmo lhes remetiam, e Scarlett por vrias vezes ficara envergonhada por 
AshIey no versar os mesmos temas, para que Melane pudesse ler a sua correspondncia em voz 
alta nos crculos de costura. 
Scarlett tinha a impresso de que, quando escrevia a Melanie, AshIey procurava esquecer 
completamente a .guerra e fazia o possvel por criar  volta de ambos uma ,atmosfera mgica, em 
que o tempo no contasse e em que permanecesse nas trevas a memria dos acontecimentos 
posteriores ao trgico incidente do Forte Suniter. Era quase como se AshIey tentasse a todo o custo 
convencer-se de que no estavam em guerra. Falava nos livros que ele e Melanie haviam lido juntos 
nas canes que preferiam. nos amigos que conheciam 'desde -crianaG, nos lugares que visitara 
durante a sua digresso pela Europa. Das cartas dele desprendia-se uma saudade imensa da sua 
quinta,Enchia pginas e pginas com descries de caadas e de longos passeios a cavalo, ao 
comprido das sendas tortuosas 
286 
da floresta, sob o cu estrelado e frio do Outono, de piqueniques a que tinha assistido, e aludia  
quietude das noites enluaradas, ao encanto suave do seu velho solar. 
Searlett recordou as palavras que lera momentos antes: "Imaginei tudo, menos isto" e, de repente, 
julgou ouvir o grito angustiado de uma alma atormentada, que se v na necessidade de enfrentar 
uma catstrofe inevitvel e sente faltarem-lhe as foras. AshIey era um homem estranho que ela no 
conseguia compreender. Se no tinh& medo de ser ferido, nem de morrer, como se explicavam 
nesse caso os seus temores? Dotada de poder de anlise bastante reduzido, Searlett debatia-se ante a 
complexidade do problema. 
"A guerra perturba-o", pensou "e ele no gosta de coisas que o perturbem... como eu, por exemplo... 
AshIey amava-me, mas no se atreveu a casar comigo por recear que eu alterasse a sua maneira de 
pensar e de viver. E, da, talvez no... talvez o seu receio fosse outro, porque AshIey no  cobarde. 
De contrrio, no teria sido louvado nem o coronel Sloan se teria dado, ao trabalho de escrever a 
Melanie, relatando a bravura com que ele dirigira a ltima carga de cavalaria. Quando AshIey se 
resolve a fazer qualquer coisa, no h nada que o demova do seu propsito e ningum o excede em 
energia e coragem. Contudo, no  como as outras pessoas; vive num mundo interior, muito s-eu, e 
detest que o arrastem para fora dele... No sei expLicar o que se passa no seu ntimo. Se me tivesse 
sido possvel compreend-lo, tenho a certeza, de que j estaramos casados h muito tempo". 
Scarlett conservou-se imvel, pornstantes, com o mao de cartas apertado contra o peito. Pensava 
em AshIey. Os seus sentimentos no tinham sofrido qualquer alterao desde o momento em que 
por ele se apaixonara,, trs anos antes. Eram precisamente os mesmos que a haviam deixado, muda 
de surpresa no dia em que, de p sob o alpendre de Tara, vira surgir AshIey a cavalo, ao fundo da 
alameda orlada de cedros, avanando na sua direco, sorridente, com o cabelo a brilhar como um 
capacete de oro, sob o sol da manh. 0 seu amor por AshIey no era mais do que a fantica 
admirao duma criana por um homem que no compreendia e que julgava dotado de todas as 
qualidades que ela prpria no possua, mas admiravaAshIey continuava a encarnar o prncipe 
encantador dos seus sonhos. No ambicionava mais do que obter acerteza 
287 
L 
#
do amor dele e no pedia mais do que um beijo dos seus lbios. 
Depois de ler as cartas de AshIey, Scarlett ficava per, suadida de que ele a, amava, muito embora 
tivesse desposado Melanie, e, na sua juventude e inocncia, no exigia mais nada. Se Charles, com 
as suas carcias tmidas e desajeitadas, tivesse feito, vibrar as cordas do prazer e do desejo que nela 
permaneciam adormecidas ' talvez o seu sonho no terminasse apenas por um beijo. Mas 
naquelas poucas noites de luar que passara na companhia do marido, Searlett no experimentara 
qualquer comoo profunda, nem to~pouco havia atingido a maturidade. A sua intimidade com 
Charles no a fizera entrever os prazeres da carne, nem despertara nela nenhum sentimento, de 
ternura, nem sequer a habilitara a compreender a verdadeira comunho dos corpos e dos espritos. 
Para &a.rlett, a paixo no significava mais do que brutal servido a uma inexplicvel loucura do 
homem,  qual a mulher tinha de se submeter e que, mais cedo ou mais tarde, conduzia fatalmente  
dolorosa experincia da maternidade. Que o casamento se resumia a isso, j ela sabia h muito 
tempo. Durante o seu noivado, ouvira a, me insinuar que, para suportar o matrimnio, a mulher 
precisava de se mostrar corajosa e digna, e os comentrios que as outras matronas lhe haviam feito, 
depois de ela enviuvar tinham confirmado aquela opinio. Sentia-se feliz por se @er visto livre de 
Charles e do grilho do casamento, embora no se houvesse libertado do amor, pois a sua 
ado@rao por AshIey nada tinha de comum com os sentimentos que experimentara, durante a vida 
conjugal. Era um sentimento, diferente, belo e sagrado, uma comoo deliciosa que a fazia vibrar de 
felcidade nos seus longos dias de silncio forcado e qtie se alimentava de recordaes e de 
esperanas. @carlett soltou um longo suspiro e tornou a atar o mao de cartas com a fita de seda, 
perguntando a si prpria, pela rnilsima vez, o, que haveria de estranho em Aghley que escapava  
sua compreenso. Por alguns momentos a-inda tentou descobrir uma resposta satisfatria mas como 
sempre, o crQbro recusou-se-lhe a pensar. Voltou a colocar as cartas, na papeleira, e fechou-a. De 
sbito, franziu as sobrancelhas. Acudiram-lhe  memria algumas das frases da carta que acabava 
de ler e em que AshIey se referia ao, capito Butler. Parecia impossvel que AshIey se tivesse 
288 
deixado impressionar pelo que aquele patife dissera um ano antes. Sim, porque o capito Butler era 
um patife, embora danasse admirvelmente. S6 um tratante, e da pior espcie, ousaria referir-se  
Confederao nos termos em que Butler o fizera no dia do piquenique. 
Scarlett atravessou o quarto em direco ao espelho, diante do qual parou, alisando os cabelos com 
ar de aprovao. Invadiu-a uma onda de alegria, como geralmente sucedia quando contemplava a 
suia pele branca e os olhos verdes. Sorriu para acentuar as covinhas das faces, recordando o encanto 
que AshIey nelas encontrava. Esquecera por completo a existncia do capito Butler. Os remorsos 
de gostar de um homem casado e de devassar a correspondncia que ele dirigia  mulher no 
conseguiam empanar -a satisfao que lhe proporcionavam a conscincia da sua juventude e 
formosura e a certeza de ser amada por Ashley. 
Abriu a porta e principiou a descer a escada de caracol, mergulhada numa discreta penumbra. A 
meio do caminho, comeou a trautear os versos da, cano Quando a GuerrA Aoabar. 
As operaes militares prosseguiram quase sempre com xito para as tropas do Sul, mas as pessoas 
j no diziam: "Mais uma vitria e acabar a guerra", nem proclamavam, como a princpio, a 
cobardia dos yankees. Todos verificavam agora que os abolicionistas estavam muito longe de 
justificarem a fama de poltres e que seria, preciso mais de uma derrota para eles se darem por 
vencidos. No entanto, as vitrias dos exrcitos confederados obtidas pelos generais Morgan e 
Forrest em Tennessee e o triunfo da segunda batalha, de Bull Run constituam resultados notveis, 
visveis COMO escalpos de yankees, diante dosquais os 
sulistas poderiam danar de alegria. Mas esses escalpos tinham custado Caro. Os hospitais e as casas 
particulares de Atlanta regurgitavam de feridos e doentes e era cada vez maior o nmero de 
mulheres vestidas de luto. Iam-se alongando dia a dia no cemitrio de Oakland as montonas filas 
de sepulcros de soldados. 0 dinheiro confederado baixara de modo alarmante e o preo dos 
mantimentos e do vesturio aumentara na mesma proporo. 0 intendente dos abastecimentos 
lanava impostos to pesdw sobre os gneros 
#
19 - Vento Levou - 1 289 
alimentcios que todas as mesas de Atlanta comeavam a ressentir-se j desse facto. A farinha de 
trigo escasseava no mercado e a pouca que se encontrava  venda, era to cara que a broa acabara 
por substituir os pezinhos e as bolachas. Quase no havia carne de vaca nos talhos e a, de carneiro 
estava pela hora da morte, a ponto de s a gente rica poder dar-se ao luxo de a comprar. Noentanto, 
ainda havia abundncia de carne de porco, de galinceos e de legumes. . 0 bloqueio das canhoneiras 
yankees aos portos da Confederao era cada vez mais apertado e os artigos considerados de luxo, 
tais como ch, caf, sedas, barbas de I@alea, perfumes, figurinos e livros, rareavam muito o que 
aumentava considervelmente o seu custo, At o@ tecidos de algodo de mais fraca qualidade 
tinham atingido preos fabulosos, circunstncia que forava as mulheres a usarem, pesarosas, 
vestidos que j haviam servido uma estao. Certos teares, que durante muitos anos haviam 
acumulado poeira, nas profundezas do sto, voltaram a ser utilizados no fabrico de tecidos 
rsticos, que serviam outrora '@ara a ornamentao das salas e que passavam a ser indistintamente 
usados por militares civis crianas, mulheres e escravos. A cor cinzenta dos @niforries foi 
substituda a pouco e pouco pelo tom pardacento do pano feito em casa. 
Os mdicos dos hospitais j comeavam a inquietar-se com a falta de quinino, calomelanos, pio, 
clorofrmio e lodo. As ligaduras de linho e de algodo tinham adquirido valor incalculvel, pelo 
que j no eram destrudas aps a sua primeira aplicao. Todas a,,; mulheres que desempenhavam 
as funes de enfermeiras levavam diriamente para casa cestos cheios de tiras de pano 
ensanguentado, que mandavam lavar e passar a ferro, a fim de as poderem usar novamente. 
Contudo, aos olhos de Searlett, que acabara de romper a crislida da sua viuvez, a guerra servia 
apenas para marear uma poca de alegria e de excitao. Sentia-se to feliz por ver de novo abertas 
 sua frente as portas da vida de sociedade que aceitava de bom grado as pequenas privaes que 
lhe eram impostas no. domnio do vesturio e da alimentao. . - - 
Quando pensava na existncia montona que levara no ano anterior, parecia-lhe que o tempo agora 
voava com incrvel rapidez. Os dias sucediam-se num ritmo alucinante, facultando-lhe novas 
distraces, proporcionando-lhe 
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inmeras oportunidades de travar conhecimento com rapazes simpticos que lhe pediam 
autorizao para a visitarem, que lhe -exaltavam a beleza e lhe afirmavam que seria uma honra lutar 
e morrer por ela. Scarlett amava AshIey com todo o, seu corao, mas isso no a impedia de induzir 
os outros homens a pedirem-na em casamento. 
A preocupao da guerra, latente em todos os espritos, dava s relaes mundanas uma semcerimnia 
agradvel, que alarmava as pessoas de idade. As mes viam as filhas cortejadas por 
indivduos que no conheciam, que ousavam bater-lhes  porta sem carta de apresentao e cujos 
antecedentes elas ignoravam por completo. Horrorizadas, chegavam a surpreender as filhas de mos 
dadas com esses homens. A senhora Merriwethier, que s havia beijado o marido depois da 
cerimnia nupeial, nem queria acreditar nos seus olhos quando apanhou Maybelle aos beijos com o 
tenente Ren Picard, e a sua consternao subiu de ponto ao verificar que a filha se recusava 
terminantemente a confessar-se arrependida do seu procedimento. Ren apressou-se a pedir a 
rapariga em casamento, mas isso no remediou a situao, A Merriwether s ento verificou que o 
Sul estava a caminho da desmoralizao total e no teve relutncia em o afirmar diante das outras 
mes, que concordaram plenamente com ela e atriburam as culpas  guerra em curso. 
Mas a verdade  que os homens que se arriscavam a morrer de um momento para outro no podiam 
estar um ano  espera de autorizao para tratarem a namorada pelo nome prprio nem to~pouco 
estavam dispostos a perder tempo com n@ivados longos e discretos, como a etiqueta exigia antes 
da guerra. Propunham casamento ao fim de trs ou quatro meses de namoro e as raparigas, embora 
soubessem perfeitamente que uma menina bem educada s  quarta tentativa deveria ceder, 
apressavam-se a aceitar logo  primeira. 
Este relaxamento de costumes transformara a guerra num divertido passatempo para Scarlett. Se 
no fosse a tarefa exaustiva de tratar dos doentes e a fastidiosa obrigao de enrolar ligaduras, no 
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se importaria de que a guerra durasse uma eternidade. J no lhe custava tanto suportar o ambiente 
do hospital, que para ela constitua, ptimo terreno de capa. Tanto os feridos como os doentes lhe 
sucumbiam sem resistncia ao jugo dos encantos. Bas- 
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tava, mudar-lhes os pensos, lavar-lhes a cara, arranjar-lhes o travesseiro ou enxotar-lhes as moscas 
para os infelizes ficarem completamente perdidos de amor por ela. Era como que viver num cu 
aberto, depois de ter passado um a-no no inferno. ,Scarlett regressara, enfim, ao mundo que havia 
frequentado antes de desposar Charles. Sentia-se como se nunca tivesse passado pela desagradvel 
aventura do matrimnio, nem sofrido o dissabor de enviuvar, nem conhecido o sacrifcio de dar  
luz. A guerra, o casamento e a maternidade no tinham despertado nela qualquer comoo mais 
profunda: continuava a ser a mesma rapariga alegre e despreocupada dos seus tempos de solteira. 
Tinha um filho, mas quase esquecia a sua existncia, pois tanto a cunhada como a tia disputavam 
entre si o prazer de cuidarem da criana. Para ela tudo se passava como se houvesse voltado a ser 
Scarleti O'Hara, a moa. mais bonita da comarca. Os seus pensamentos e actividades continuavam a 
ser os mesmos que nos velhos dias de outrora, mas era muito mais vasto o campo de aco que se 
estendia agora diante dela. Ignorava as crticas das amigas de Pittypat, e fazia tudo o que lhe 
apetecia, como se o facto de ser viva no tivesse importncia nenhuma. Assistia a todas as festas, 
namorava este e aquele, conduzia-se como uma rapariga completamente livre, mas ainda no 
deixara o luto, convencida de que Pitty e Melanie no resistiriam ao desgosto de a verem trajar de 
novo vestidos de cores garridas. Conservava intacto o seu esprito jovial, mostrava-se agradvel, 
quando no a contradiziam, gostava de fazer favores que lhe no acarretassem grandes incmodos e 
orgulhava-se da sua beleza e popularidade. 
0 futuro, que ainda poucas semanas antes se lhe afigurava sombrio, aparecia-lhe agora cheio, de 
promessas. Vivia feliz, rodeada por uma corte de admiradores que lhe no regateavam lisonjas nem 
galanteios, to feliz quanto poderia viver sabendo AshIey casado com Melanie e e m. perigo na, 
linha de fogo. Fosse porque fosse, o pensamento de que AshIey desposara outra mulher parecia-lhe 
mais fcil de suportar, agora que ele se encontrava ausente. As centenas de milhas que separavam 
Atlanta dos campos de batalha de Virginia permitiam-lhe por vezes acalentar a iluso de que 
AshIey pertencia a ambas. 
Passou vertiginoisamente para Searlett o Outono de 1862 
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e ela, atarefada com o, servio no hospital, com a desinfeco e enrolamento, de ligaduras, com 
bailes e passeios, quase no deu pela aproximao do Inverno. As curtas visitas que fazia a. Tara 
causavam-lhe sempre terrvel decepo, pois s raramente encontrava oportunidade de travar com a 
me as longas palestrascom que sonhava ao partir de Atlanta, ou de estar sentada a seu lado a v-Ia 
costurar, aspirando a suave fragrncia de lcia-lima que se evolava dos seus vestidos ao mais ligeiro 
movimento, sentindo nas faces a carcia das suas mos delicadas. 
Ellen emagrecera. Vivia numa preocupao constante e levantava-se antes de o Sol nascer, para s 
recolher ao leito quando toda a gente na plantao j dormia. As exigncias do intendente dos 
abastecimentos dw exrcitos confederados tornavam-se cada vez maiores e era a ela que competia 
aumentar a produo de Tara. At Gerald andava numa roda-viva, pela primeira vez em muitos 
anos, visto no ter conseguido ainda preencher o lugar que Jonas Wilkerson deixara vago. Passava 
os dias inteiros a cavalo, fiscalizando o trabalho dos escravos. Privada da companhia do pai que s 
vinha a casa para tomar as refeies e da me, q@e mal tinha tempo para lhe desejar as boas noites, 
Scarlett aborrecia-se em Tara. At as irms se mostravam absortas nos seus prprios problemas. 
Suellen que lograra finalmente chegar a um entendimento com Fra@nk Kennedy levava os dias a 
cantarolar Quando esta guerra acabar, com uns modos provocantes que exasperavam Scarlett, e 
Carreen, mergulhada nos seus sonhos de amor com Brent Tarleton quase no conversava com 
ningum. 
Conq@ant. Scarlett, ao iniciar as viagens para Tara, se 
sentisse sempre radiante com a ideia de voltar a ver a famlia e a casa onde nascera, nem por isso 
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deixara de receber com satisfao as cartas que Pittypat e Melanie invarivelmente lhe enviavam, 
pedindo-lhe que regressasse quanto antes. Ellen suspirava sempre no momento da des~ pedida, com 
pena de ver a filha mais velha e o seu nico' neto partirem urna vez mais, sem que houvesse tido 
tempo de lhes dispensar umas horas de ateno. 
-Mas no quero ser egosta retendo-te aqui em Tara quando precisam de ti em Atlanta -dizia ela. -0 
que me custa  deixar-te ir embora sem ter tido ocasio de conversar 
contigo, para ficar com a certeza de que tu ainda s a minha filha. 
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- Serei sempre a sua filha - respondia Searlett, escondendo a cabea no colo de Ellen, enquanto a 
conscincia lhe lanava em rosto a sua culpa. 
No ousava confessar  me que no era o amor  Causa que a chamava a Atlanta, mas sim o desejo 
de danar e de se ver cercada pelos seus inmeros admiradores, Havia muitas coisas que Scarlett 
ocultava a Ellen. As visitas que Rhett Butler fazia, cada vez com mais frequncia, a casa de Pittypat 
Hamilton constituam um dos segredos que ela guardava mais cuidadosamente, 
Durante os meses que se seguiram  festa de beneficncia realizada no antigo arsenal, Rhett ia 
visit-la sempre, assim que chegava a Atlanta. Levava-a a passear na, sua carruagem, 
acompanhava-a a festas e a quermesses e esperava,a  sada do hospital, a fim de a conduzir a casa. 
Scarlett perdera o receio de que ele divulgasse a conversa que surpreendera na biblioteca dos Doze 
Carvalhos, embora conservasse sempre presente no esprito a recordao inquietante de que ele a 
tinha visto sob o seu pior aspecto e conhecia a verdade acerca de AshIey. Era esse pensamentc> que 
fazia com que se dominasse quando Rhett a aborrecia, o que se verificava frequentemente. 
Rhett Butler contava cerca de trinta e cinco anos. Scarlett, que nunca conhecera admiradores ou 
pretendentes de idade to avanada, debalde lanava mo dos recursos de que habitualmente se 
servia, para o vexar. 
Tinha Rhett o aspecto dum homem que nunca tomara a vida a srio nem manifestara espanto pelo 
que quer que fosse. Scarlett estava convencida de que ele se divertia imenso quando a, via sufocada 
pela ira. Irritava-se com muita facilidade, no s porque Rhett parecia possuir o condo de 
enfurecer as pessoas, mas tambm porque, sob a enganadora doura da sua expresso fisionmica, 
vibrava nela o temperamento irascvel que herdara do pai. At ali nunca se dera ao trabalho de 
reprimir os acessos de clera, salvo na presena da me. Por isso lhe custava tanto agora engolir as 
palavras que lhe acudiam aos lbios, com receio de -ver despertar nos de Rhett aquele sorriso 
trocista que a enraivecia ainda mais. Se ao menos ele tambm se irritasse uma vez por outra, j 
Scarlett se no sentiria. to humilhada. 
Aps as discusses que travava com Rhett e das quais 
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ela raramente saa vitoriosa, Scarlett jurara aos seus deuses que nunca mais tornaria a falar-lhe, 
acusando-o de insuportvel e de malcriado, de no saber portar-se como um cavalheiro. No entanto, 
quando, mais tarde ou mais cedo, Rhett voltava a Atlanta e ia l a casa, a pretexto de visitar 
Pittypat, Scarlett no tinha coragem de recusar a caixa de bombons que ele comprara em Nassau 
para lhe oferecer, o que fazia sempre com inexcedvel galantaria, ou o bilhete para o concerto dessa 
tarde, ou o convite para ir ao prximo baile. Achava tanta graa  sua ilimitada impudncia que 
sorria e olvidava todas as razes de queixa qe tinha dele, at ao momento em que surgia novo 
atrito e ela reiterava a jura de nunca mais lhe falar. 
No obstante todos os aparentes defeitos que encontrava em Rhett Butler, Scarlett aguardava, as 
suas visitas com manifesta ansiedade. Havia nele algo de atraente que no conseguia analisar, algo 
que o diferenava dos homens que ela conhecia. A sua figura atltica possua graciosidade 
insinuante e, quando ele entrava numa sala, todas as pessoas presentes experimentavam como que 
um choque brusco. Nos seus olhos negros bailava permanentemente um claro trocista que 
desafiava. o esprito rebelde de Scarlett, a qual debalde procurava uma forma de humilhar aquele 
indivduo presunoso, e arrogante. 
"At parece que estou apaixonada por ele" ' pensava Scarlett, intrigada. "Mas a verdade  que 
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no estou. Palavra que no percebo". 
Embora no estivesse apaixonada, a sensao estranha que experimentava na presena dele persistia 
no seu esprito durante muito tempo. Sempre que Rhett, aps uma ausncia mais ou menos 
prolongada, lhe ia fazer uma visita, a velha manso senhoril e austera, da tia Pittypat, parecia, 
exgua para, albergar a sua figura mscula; dava 
* impresso de ser ftil e bolorenta. Das trs mulheres que 
* habitavam, no era Scarlett a nica que passava por uma srie de estranhaE; reaces quando ele 
aparecia, pois a pobre Pittypat, de cada vez que ouvia o mordomo anunci-lo, ficava aflita e 
confusa. 
Se bem que soubesse perfeitamente que Ellen jamais concordaria com as visitas de Butler  filha, e 
conhecesse a atitude que os habitantes de Charleston havia adoptado para com o capito, facto que 
ningum menosprezara, PittY no lograra, resistir aos seus delicados cumprimentos e 
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beija-mos, da mesma maneira que a mosca no resiste ao boio de mel. Alm dsso Rhett 
costumava levar-lhe qualquer lembrana comprad@ em Nassau, assegurando-lhe que a adquirira, 
exclusivamente para ela e passara atravs do bloqueio com risco da prpria vida -cartas de alfinetes 
e de agulhas, botes carrinhos de linha de seda e ganchos para o cabelo, ninha@ias quase 
impossves de obter, devido  guerra. As mulheres usavam ganchos de madeira e empregavam 
bolotas de pau recobertas de pano em lugar de botes. Pitty sentia faltar-lhe coragem para recusar 
tais presentes e'como a curiosidade que a assaltava -ao ver um embrulho era superior s suas foras, 
no descansava enquanto o no abria e, depois de o ter aberto, considerava-se na obrigao de o 
aceitar. E, naturalmente, tendo aceitado as suas gentis ofertas, no se atrevia, a dizer-lhe que a 
pssima reputao que ele granjeara tornava pouco recomendveis as suas visitas a uma casa em 
que viviam szinhas trs mulheres, sem qualquer proteco masculina. Porque a tia Pitty tinha a 
sensao ntida de necesisitar de proteco masculina, sempre que Rhett Bufler se encontrava na 
sua frente. 
-No sei explicar o que acho nele -suspirava, perplexa, a pobre solteirona - mas, enfim... tenho a 
impresso de que seria muito mais simptico se... se se mostrasse um pouco respeitador... 
Desde que Rhett lhe resgatara a aliana,, Melanie convencera-se de que era um ind ,ivduo de 
sentimentos realmente delicados e melindrava-se com os comentrios que a tia fazia acerca da sua 
pessoa. 0 cai)ito usava sempre a mxima deferncia para com ela, mas intimidava-a, o que era 
largamente devido  natural timidez da rapariga, que no conseguia sentir-se  vontade na presena 
de homens que no conhecesse desde a infncia. Intimamente, Melanie sentia pena de Rhett, o qual, 
por certo, ficaria bastante divertido com a ideia, se alguma vez chegasse a descobrir a mgoa, que a 
sua sorte nela despertara. Melly tinha a certeza de que fora uma paixo infeliz que lhe destroara a 
vida e o tornara duro e insensvel, e estava persuadida de que bastaria o amor de uma mulher 
honesta e recatada para o redimir. Passara toda a sua vida enclausurada em casa,- pelo que no 
tivera oportunidade de tomar contacto com a maldade dos homens, a qual punha -constantemente 
em dvida. Negava-se a dar crdito aos boatos que lhe 
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chegavam aos ouvidos acerca do que se passara entre Rhett Butler e a tal rapariga de Charleston, 
boatos que lhe causavam a mais profunda indignao. Em vez de lhe voltar as costas, ainda se 
mostrava mais afvel para com ele visto considerar ultrajante a injustia que a sociedade @stava a 
corpeter. 
Scarlett concordava, em silncio, com a tia Pittypat. Tambm ela se convencera j de que Rhett 
Butler no tinha a mais leve sombra de respeito pelas mulheres, a no ser talvez por Melanie. 
Quando os olhos dele lhe percorriam o corpo de alto a baixo, como que a despiam. No que alguma 
vez se tivesse atrevido a dizer-lhe alguma coisa, pois que, nesse caso'o chamaria  ordem, em 
termos mais ou menos violentos. Era, sim, a maneira por que os seus olho-s a fitavam, com uma 
insolncia desagradvel, coino se ela lhe pertencesse e fosse escrava da sua vontade. Melanie devia 
ser a nica mulher, para quem Rhett olhava de forma diferente. Scarlett nunca lhe vira nos olhos 
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aquele claro trocista, aquela expresso apreciativa, quando ele falava com a cunhada. Nessas 
ocasies, at a sua voz parecia adquirir inflexes suaves e respeitosas, como se ansiasse por lhe ser 
prestvel. 
-No compreendo por que  que o senhor se mostra mais delicado para com,ela do que para mim - 
comentou Scarlett com petulncia, certa tarde, depois de Melanie e Pittypat se terem retirado para 
os seus quartos a fim de dormirem a sesta, deixando-a a s6s com ele. 
Durante uma hora tinha observado a pacincia com que Rhett segurara a meada de l que Melanie 
estivera a dobar, bem como a impenetrvel mscara afivelada no rosto enquanto a rapariga 
descrevia orgulhosa e pormenorizadamente os feitos de Asliley e a sua recente promoo. Scarlett 
sabia que Rhett no formava opinio muito favorvel a respeito de Astiley, nem estava interessado 
no facto de ele ter sido elevado ao posto de maior. E, no entanto, sempre que se lhe oferecia ensejo 
para tal, ele no deixava de murmurar uma palavra de simpatia, ou de tecer um elogio discreto,  
bravura de Ashley. 
"E, todavia, basta eu mencionar o nome de Asliley para ele levantar uma sobrancelha e arvorar 
aquele sorriso irritante", pensou Scarlett, 
Sou muito mais bonita do que Melanie - prosseguiu 
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aquela - e confesso que no vejo motivo para o senhor se mostrar mais atencioso para com ela do 
que para comigo. 
- Dar-se- o caso de estar com cimes? 
- No seja tonto! 
- Mais uma iluso desfeita. Pois fique sabendo que sou -mais atencioso para com a senhora Wilkes 
porque ela o -merece. A sua cunhada  uma das raras criaturas absolutamente sinceras e 
desinteressadas que tenho conhecido. Mas no me custa a crer que no tenha reparado nestas 
qualidades, Alm disso, e no obstante ser ainda to nova, considero@-a uma das poucas senhoras 
realmente dignas desse nom 1e, com quem at hoje tive a'honra de falar. 
- Quer dizer com isso que eu no. sou uma senhora a valer, no  verdade? 
- Suponho que j tnhamos chegado a um acordo sobre esse ponto, por ocasio do nosso primeiro 
encontro... 
-E o senhor- que no trouxesse o assunto de novo  balha! Como pode ser to desagradvel? Por 
que teima em humilhar-me constantemente, com a recordao duma cena pueril? Foi uma coisa 
passada h tanto tempo... Desde ento para c mdei milito. Fiz-me mulher e, se ainda no esqueci 
o que aconteceu,  porque o senhor anda sempre com insinuaes... 
- A cena que eu presenciei no teve nada de pueril e duvido que a protagonista haja mudado. 
Continuo a sup-la capaz de a-tirar uma jarra  cabea de qualquer indivduo, sempre que ele se 
oponha,  realizao dos seus desejos. No entanto, ltimamente 'tem conseguido levar a sua avante 
e, por isso, no se v na necessidade de recorrer a meios to violentos. 
-,Oh! 0 senhor ... Que pena eu tenho de no ser homem! Desafi-lo-ia para um duelo e... 
- E iria desta para melhor num abrir e fechar de olhos. Acerto fcilmente em qualquer moeda  
distncia de quarenta e cinco metros. Aconselho-a a servir-se das suas armas: sorrisos, jarras e 
coisas semelhantes. ], um patife! 
-Julga que me irrita com isso? Lamento desgost-la, mas eu nunca me zango quando me chamam 
nonies que mereo. Se era isso que pretendia, acredite que perdeu o seu tempo, Pois claro que sou 
um patife. Por que no havia de' ser? Nascemos num pas em que cada um tem a liberdade de 
escolher o gnero de vida que mais lhe agrada. S 
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as pessoas hipcritas, que tentam ocultar a sua verdadeira maneira de ser por trs de aparncias 
inofensivas  que ficam furiosas quando algum as mimoseia com os @ptetos que melhor lhes 
assentam. 
Com o seu sorriso imperturbvel e as suas observaes impertinentes, feitas na voz arrastada que 
caracterizava os habitantes de Charleston, Rhett Butler acabava sempre por reduzir Scarlett  
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impotncia. Esta nunca tinha encontrado um homem to invulnervel. 0 desprezo, a indiferena, o 
insulto nada podiam contra -ele. Sabia por experincia prpria que eram precisamente os mentirosos 
aqueles que mais encarniadamente defendiam a sua sinceridade, os poltres os que mais alto 
proclamavam a sua coragem, os labregos os que mais falavam da sua delicadeza, e os biltres os que 
mais alardeavam a sua honestidade; com Rhett, porm, sucedia precisamente o contrrio. Era o 
primeiro a reconhecer a justia das crticas que lhe faziam e ao' ouvir as censuras de Scarlett, ria 
descaradamente e'incitava-a a prosseguir. 
Durante vrios meses, Rhett fez diversas visitas a Atlanta, Chegava sem, prevenir ningum e partia 
sem se despedir. Scarlett nunca logrou descobrir que espcie de negcios o traziam quela cidade, 
pois eram raros os heris do bloqueio cujos interesses comerciais os faziam afastar-se a to grande 
distncia da costa. Desembarcavam os seus carregamentos em Wilmingtori ou em Charleston, onde 
eram acolhidos por verdadeiros enxames de negociantes e especuladores vindos de todas as 
provncias do Sul e que ali se reuniam a fim de comprarem as, mercadorias nos leiles em que 
costumavam ser vendidas. Scarlett sentir-se-ia imensamente lisonjeada se pudesse acreditar que ele 
fazia aquelas longas viagens com c> nico propsito de a 
ver, mas at a sua incomensurvel vaidade se recusava a crer em tal. Se Rhett alguma vez lhe 
tivesse dado a entender que a amava ou demonstrado. cimes dos outros homens que 
permanentemente a rodeavam, se alguma vez lhe houvesse pegado na mo, ou pedido um retrato ou 
um leno como lembrana, Scarlett no teria hesitado em cantar vitria, pensando, triunfante, que 
ele sucumbira finalmente ao jugo dos seus encantos. No entanto, Rhett Butler no se conduzia como 
homem verdadeiramente apaixonado e, o que era pior, parecia adivinhar as manobras 
que ela fazia para o seduzir. 
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As mulheres ficavam excitadas assim que sabiam da sua chegada, Rhett Butler no s s@ 
encontrava aureolado da glria romntica que toda a gente atribua aos intrpidos heris do 
bloqueio, como tambm trazia consigo o perfume capitoso do fruto proibido. Tinha to m 
reputao! Contudo, de cada vez que as matronas de Atlanta se reuniam para tecer malvolos 
comentrios ao arrojado capito, o seu prestgio aumentava aos olhos das raparigas solteiras e como 
quase todas conservavam a ingenuidade dos tempos de criana, sabiam.apenas que Rhett Bufler se 
mostrava "bastante atrevido com as mulheres". Todavia, o que elas ignoravam e, por consequncia, 
o que mais as intrigava, era a maneira como um homem devia proceder para se mostrar assim to 
atrevido. Tambm tinham ouvido dizer que nenhuma rapariga podia considerar-se em segurana na 
sua companhia. Com uma reputao de tal ordem, tornava~se bastante estranho o facto de ele nem 
sequer ter beijado a mo de nenhuma solteira, desde que chegara a Atlanta. Mas isso apenas servia 
para o tornar mais misterioso e atraente. 0 seu nome andava de boca em boca, juntamente com os 
dos soldados que mais se tinham distinguido por feitos em combate. Toda a gente sabia que fora 
expulso da Academia Militar de West Point por embriaguez e por urna "questo de saias". Era do 
domnio pblico o escndalo terrvel referente  rapariga de Charleston que ele comprometera e 
cujo irmo matara em duelo. Sabia-se de fonte limpa que o pai, ancio encantador, de carcter 
indomvel e vontade de ferro, o pusera na rua aos vinte anos, sem um cntimo na algibeira, e que 
fora mesmo ao ponto de riscar o nome dele da Bblia da famlia. Pouco tempo depois, em 1849, 
Rhett emigrara para a Califrnia em busca de oiro, e da seguira para a Amrica do Sul e para Cuba, 
onde as suas actividades no foram das mais recomendveis. Segundo o que constou em Atlanta, a 
sua carreira englobava uma srie de casos com mulheres, diversas cenas de tiro, contrabando de 
armas para os rev(>luconrios da Amrica Central e, pior do que tudo isso, vrios feitos como 
jogador profissional. 
Quase todas as famlias de Gergia contavam pelo menos um membro que, para desgosto dos 
restantes, tinha a paixo do jogo e perdia  banca dinheiro, casas, terras e escravos, Mas isso era 
diferente. Podia um homem fie-ar sem um cntimo ao jogo e continuar a ser um cavalheiro, 
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mas um jogador profissional ficava para sempre desclassificado aos olhos de toda a gente. 
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Sem as condies anormais impostas pela guerra e os servios por ele prestados ao governo da 
Confederao, Rhett Butler nunca teria sido recebido pela sociedade de Atlanta. Mas at os 
indivduos que tinham mais arreigados no esprito os velhos preconceitos reconheciam que numa 
crise como a que estavam atrvssando havia que sacrificar certas exigncias aos interesses da 
Ptria. Os mais sentimentais mostravam-se inclinados a crer que a ovelha ranhosa da famlia Butler 
se arrependera do que at ento tinha feito e se esforava por remir os seus pecados com risco d 
prpria vida. As mulheres julgavam-se no dever de fechar os olhos s proezas anteriores do 
intrpido capito, que forava o bloqueio dos yankees com to notvel sangue-frio. Todos sabiam 
sem a mais leve sombra de dvida que os destinos da Confederao dependiam tanto da pericia dos 
seus marinheiro@; como da coragem dos homens que lutavam em Virgnia e Tennessee. 
Corria em Atlanta o boato de que o capito Butler era um dos melhores pilotos de todo o Sul, 
navegador experimentado, e senhor absoluto dos seus nervos. Criado em Charleston, conhecia todas 
as angras, enseadas baixios e reei es da costa de Carolina nas imediaes do @orto bem como nas 
proximidades de Wilmington. Nunca perde@a um navio, nem se vira na necessidade de alijar a 
carga como ltimo recurso para salvar a embarcao sob o seu comando. Quando estalara a guerra, 
surgira da obscuridade com dinheiro suficiente para comprar um barco, pequeno mas veloz e, agora 
que as mercadorias passadas atravs do bloqueio davam lucrog de dois mil por cento, j possua 
uma frota de quatro navios. Tinha ao seu servio ptimos pilotos, que recebiam soldos principescos 
e que, a coberto da escurido da noite, iludiam a vigilncia das (-,anhoneras -ynnkees, com as suas 
embarcaes carregadas de algodo, rumo a Nassau, a Inglaterra ou ao Canad. As fbricas inglesas 
de fiao estavam paradas por falta de matria-prima e os operrios quase morriam de fome. 
Qualquer lobo do mar que lograsse vencer o bloqueio enriqueceria numa s viagem, vendendo o 
algodo em Liverpool pelo preo que entendesse. A frota de Rhett Butler parecia singrar sob uma 
estrela benfazeja, no s transportando o algodo confederado, como trazendo remessas de material 
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de guerra, cuja falta assumia propores gravssmas no Sul, Sim, as mulheres juln-avam~se na 
obrigao de perdoarem muitas coisas a um homem que demonstrava possuir tal bravura. 
Rhett Butler tinha figura imponente, que no passava despercebida onde quer que ele se 
encontrasse. Gastava dinheiro, a rodos, montava um cavalo preto, puro-sangue, e vestia com o 
maior apuro e elegncia. Bastaria este pormenor para atrair as atenes gerais, pois c>s militares 
trajavam uniformes sujos e esfiapados e os civis j no tinham fatos que no apresentassem 
cerziduras e remendos hbilmente aplicados, Scarlett dizia de si para si que nunca vira calas to 
bem talhadas como as que Rhett usava, castanhas, de padro escocs, ou de xadrez preto e branco, 
miudinho. Os seus coletes, esses ento eram um verdadeiro encanto, especialmente os de seda 
branca, bordados com minsculos botes de rosa. Mas o que, acima de tudo, tornava o seu aspecto 
ainda mais distinto era o facto de ele se mostrar alheio ao espavento dos trajes que envergava. 
Poucas mulheres conseguiam resistir-lhe aos atractivos, principalmente quando ele decidia apliclos, 
e por fim, at a senhora Merriwether desceu do pedestal @m que se empoleirava, convidando-o 
para jantar em sua casa, num domingo,  noite. 
Maybelle Merriwether resolvera casar com o zuavinho assim que o noivo obtivesse licena. 
Contudo, rompia num pranto convulsivo quando pensava no seu prximo enlace, pois sempre 
arquitectara o sonho de levar  cerimnia um vestido de cetim branco e no havia cetim  venda em 
nenhum estabeleci m ento da Confederaco. Tambm no podia acalentar a esperana de encontrar 
algum que lhe emprestasse um vestido feito desse tecido, visto todos os artigos de vesturio 
confeccionados com cetim haverem sido transformados em bandeiras. Debalde a patritica 
Merriwether tentou convencer a filha de que o tecido caseiro seria o mais aconselhvel para o traje 
nupeial de uma rapariga que compreendia o verdadeiro significado da Causa. Maybelle queria 
cetim. No se importaria, pelo contrrio at se sentiria orgulhosa de no, levar ganchos no cabel@ 
nem botes, nem sapatos a rigor, nem teria pena de passar sem bombons, ch e guloseimas. Mas o 
vestido de cetim branco, l isso  que ela no dispensava. 
Rhett, que teve conhecimento do facto por intermdio 
#
302 
de Melanie, trouxe de Inglaterra metros e metros de cetim fulgurante, bem como um vu de renda, 
que ofereceu a Maybelle como presente de npcias, em termos tais que nem ela nem a me 
poderiam pensar em lhe pagar. Maybelle ficou to contente que por pouco no o beijou. A senhora 
Merriwether sabia que a oferta dum presente to caro, e muito especialmente dum vestido, era 
considerada imprpria, mas no logrou descobrir forma a4rosa de recusar, depois de Rhett lhe ter 
dito, em linguagem recheada de primores de retrica, que "nada era ' demais para vestir a noiva 
de um dos nossos heris". A senhora Merriwether no teve outro remdio seno convid-lo para 
jantar em sua casa no domingo seguinte, plenamente convencida de que a sua concesso era mais 
do que suficiente para lhe pagar o presente que ele oferecera  filha. 
Contudo, Rhett no s trouxe a'Maybelle o tecido, como lhe deu excelentes indicaes quanto ao 
feitio do vestido de casamento. Em Paris a moda exigia nesse ano saias mais curtas e crinolinas 
@nais tufadas. Os folhos j no se usavam franzidos, mas sim recortados em festes, de forma a 
deixarem aparecer os bordados das salas interiores. Informou-a tambm de que j no via nas ruas 
da capital francesa as rendas das pantalonas despontando sob as crinolinas, pelo que supunha que 
tinham sido rele,,adas para segundo plano. Num desabafo, a senhora Merriwether confessou  
senhora Elsing ter chegado a recear que, se Maybelle houvesse continuado a permitir o seu relato, 
ele se atrevesse a descrever o feitio das calcinhas das parisienses. 
A facilidade em recordar pormenores do vesturio feminino que via nas cidades que visitava, e bem 
assim os pormenores dos penteados mais em voga ' ter-lhe~iam sem dvida -ranjeado fama de 
efeminado, se ele no possusse figura to mscula. Embora constrangidas, as senhoras no 
dixavam de o interrogar acerca das ltimas novidades 
ZI, em matria de elegncia feminina que lhe fora dado observar. Estavam isoladas do mundo das 
modas como nufragos numa ilha deserta, pois eram raros os figurinos que lhes che-avam s mos, 
em virtude do bloqueio. As francesas podiam muito bem ter decretado, a moda da cabea rapada  
navalha, e dos gorros de pele de rato que elas continuariam a usar os mesmos penteados echap@us. 
Nesta conformidade, a memria de Rhett constitua excelente substituto dos figurinos e revistas 
similares. Anotava men- 
303 
talmente os pormenores que reputava mais dignos de interesse, do ponto de vista feminino e, mal 
regressava de mais uma viagem ao estrangeiro, e@a imediatamente assaltado por grupos de 
raparigas solteiras e de mulheres casadas, que o bombardeavam com perguntas a que ele 
pacientemente respondia. Estavam em moda os chapus peq4enos, colocados no alto da cabea-e 
enfeitados de plumas, que tinham substitudo as flores; a Imperatriz de Frana desistira da cuia para 
a noite e penteava a cabelo quase' no cocuruto da cabea, ficando as orelhas completamente  
mostra. E os decotes tinham atingido novamente propores assustadoras. 
Rhett Butler foi durante alguns meses a figura mais popular da cidade apesar da pssima reputao 
que a'sua vida aventuro;sa Ige havia acarretado e dos vagos rumores que corriam a seu respeito, 
segundo os quais, alm de estar empenhado em forar o bloqueio ' tambm se encontrava, 
envolvido numa vasta especulao com gneros alimentcios. As pessoas que no simpatizavam 
com ele diziam que, aps cada visita que fazia a Atlanta, os preos aumentavan, cinco dlares, pelo 
menos. No obstante os boatos que circulavam acerca dele, Rhett poderia ter conservado a 
popularidade de que gozava se se tivesse dado ao trabalho de a cultivar. Em vez disso ' porm, a 
atitude que adoptou depois de haver travado relaes com os patriotas mais conceituados de Atlanta 
e aps ter -conquistado o seu res@peito e simpatia, parecia ditada por uma inteno perversa que o 
forava a modificar o procedimento e a afrontar as pessoas, dando-lhes claramente a entender que a 
forma como at ali se conduzira fora apenas uma farsa que j nem sequer o divertia. 
Era como se nutrisse o mais profundo desprezo por tudo * que se relacionava com o Sul, -e em 
eSDecial pela Causa, * no tivesse a preocupao de o dissimular. Foram as suas observaes 
acerca da Confederao que fizeram com que Atlanta o encarasse a princpio com espanto, mais 
tarde com frieza e, por fim, com verdadeiro rancor. Antes mesmo que o ano de 1862 se houvesse 
#
transformado no de 1863, j os homens o cumprimentavam com estudada indiferena e as mulheres 
chamavam as filhas para junto de si, logo que o viam aparecer nalgunia reunio. 
Parecia que Rhett sentia prazer no s em ridicularizar 
304 
o alto esprito de lealdade dos habitantes de Atlanta mas tambm em se apresentar sob o pior 
aspecto possvel.'Sempre que indivduos bem-intencionados elogiavam a bravura de que dava 
mostras rompendo o bloqueio 'ele explicava invariavelmente que os perigos que corria lhe 
causavam um medo semelhante quele que decerto sentiam os valentes soldados que se batiam nas 
linhas de fogo. Toda a gente sabia que nas fileiras dos exrcitos confederados no havia um nico 
cobarde, pelo que achavam aquela comparao particularmente irritante. Referia-se aos militares, 
empregando sempre as expresses "os nossos bravos rapazes" ou "os nossos heris de cinzento"' 
mas dando s palavras uma entoao insultuosa. Quando as raparigas mais empreendedoras, na 
mira dum namoro, exaltavam a coragem com que lutava por elas, Rhett agradecia-lhes com uma 
reverncia e declarava que no era bem esse o caso, pois no hesitaria em fazer o mesmo pelas 
mulheres yankees, desde que auferis-se iguais lucros. 
Logo no primeiro encontro que tivera com Scarlett em Atlanta, Rhett falara-lhe nesses termos; 
agora, porm, levava a sua impudncia ao ponto de expor as mesmas ideias a toda a gente, deixando 
transparecer ns suas palavras uma leve nota de escrnio. Quando o felicitavam pelos servios 
prestados  Confederao, respondia que o bloqueio representava paxa ele apenas um meio de 
ganhar a vida. "Se eu pudesse tirar os mesmos proventos de contratos com o governo", dizia ele, 
olhando significativamente para os que se encontravam nessas condies, "renunciaria 
imediatamente aos riscos do bloqueio e passaria a vender s autoridades da Confederao roupas de 
m qualidade, acar com areia, farinhas imprprias para consumo e couros apodrecidos". 
A maioria das suas afirmaes no poderia sofrer contestao, o que tornava a situao ainda pior. 
J tinha havido diversos escndalos com os ^indivduos que mantinham contratos desse gnero 
com o governo. Os soldados que estavam na frente no cessavam de se queixar nas cartas que 
escreviam  famlia. Eram os sapatos que no duravam mais do que uma semana, a plvora que no 
detonava, a,s rdeas que rebentavam ao mais leve estico, a carne que cheirava a podre e a farinha 
cheia de bichos. A populao de Atlanta debalde procurava convencer-se de que os homens que 
tinham a audcia de iudibriar to ostensivamente 
20 - Vento Levou - 1 305 
o governo deviam ser adjudicatrios de Alabama, de Virgnia ou de Tennessee, mas nunca de 
Gergia. Os fornecedores de Gergia pertenciam s melhores famlias e eram os prime;ros a 
contribuir com importantes donativos para o fundo de assistncia hospitalar e a socorrer os filhos 
dos militares mortos em combate. Eram eles tambm os que mais vibrantemente aclamavam a 
Confederao e os que, pelo menos atravs das suas frases inflamadas, se mostravam mais sedentos 
de sangue , 
b yankee. A clera dos habitantes da cidade contra os vis especuladores ainda no atingira o 
paroxismo e as insinuaes de Rliett Butler eram tomadas como a prova cabal da sua falta de 
educao. 
Rhett no s afrontava toda a populao com as aluses veladas  venalidade dos homens que 
ocupavam os mais altos cargos da administrao pblica e  cobardia dos soldados sulistas, como se 
comprazia em meter a ridculo o patriotismo manifestado por todos os cidados. No lograva 
resistir  tentao de espicaar a vaidade, a hipocrisia e o patriotismo, feroz dos que o cercavam, da 
mesma forma que um garoto no consegue vencer o desejo de furar um balo com o primeiro 
alfinete que apanha a jeito. Parecia sentir prazer malvolo em desmascarar os ignorpntes e os 
tartufos e em ferir o amor prprio dos vaidosos mas fazia-o com to grande habilidade usava de tal 
art@ para atrair as suas vtimas s ciladas'que lhes preparava' que elas nunca sabiam onde o seu 
interlocutor queria chegar, a no ser quando se viam expostas atravs dum prisma que as mostrava 
como pessoas afectadas, levianas e um tanto ou quanto estpidas. 
Contudo, nem sequer durante os meses em que a cidade suportou as impertinncias de Rhett Butler 
#
Scarlett se deixou iludir por ele. Tinha a certeza de que o@ seus galanteios, os seus discursos 
empolados lhe saam apenas da boca e no do corao. Ele prprio lhe afirmara que no era por 
patriotismo que se arriscava a forar o bloqueio, mas smente com a ganncia do lucro e para 
satisfazer o seu esprito de aventura. Por vezes, tinha a impresso de que Rhett se assemelhava aos 
rapazes com quem fora criada-aos endiabrados gmeos Tarletons, com a mania das partidas que no 
cessavam de pregar, aos Fontaines, implicantes e maldosos, aos Calverts capazes de passarem 
noites inteiras a imaginar mistifi@aes colossais. Mas havia uma diferena, pois que, por trs da 
aparente sim- 
306 
plicidade de Rhett, parecia espreitar uma sombra de malcia que chegava a ser sinistra na sua suave 
brutalidade. 
Embora no tivesse dvida@ quanto aos propsitos que o moviam, Scarlett preferia imaginar Rhett 
Butler no p1apel romntico do aventureiro audacioso, o que, por um lado tornava as relaes que 
mantinha com ele bastante mais fceis do que a princpio, Era principalmente por esse motivo que 
ela se irritava sempre que Rhett desafivelava a mscara e se propunha iniciar uma campanha 
deliberada no sentido de fomentar a inimizade da populao de Atlanta. E isto aborrecia-a 
especialmente por que uma parte das crticas recaa sobre ela. 
Foi por ocasio do concerto organizado pela senhora Elsing em benefcio dos convalescentes, que 
Rhett Butler assinou o decreto que o votou, finalmente, ao ostracismo. Nesa tarde, acasa da 
senhora Elsing encontrava-se repleta de soldados em gozo de licena, de homens que estavam 
hospitalizados mas tinham obtido autorizao para assistirem ao concerto, de membros da Guarda 
Civil e da Milcia, de matronas, vivas e raparigas solteiras. No havia nem uma cadeira vaga e at 
a escada de caracol que conduzia ao andar superior estava pejada de convidados. A enorme taa de 
cristal em que o mordomo recebia os donativos dos retardatrios j tinha sido aliviada duas vezes da 
sua pesada carga de moedas de prata, o que, por si s, bastava para assegurar o xito do concerto, 
visto que, nos tempos que corriam, um dlar de prata valia sessenta dos de papel. 
Todas as meninas que se julgavam com talento, quer no domnio da msica, quer no do canto, 
haviam tocado piano ou feito ouvir as suas vozes. Os quadros vivos obtiveram fartos aplausos. 
Scarlett estava deveras satisfeita consigo prpria, pois no s Melanie e ela tinham representado a 
contento o comovente dueto Quando o orvalho cai sobre a flor e bem assim uma verso alegre do 
Por am de Deus, sinhora. deixa o Stephen em paz, como fora escolhida para encarnr o esprito da 
Confederao no ltimo quadro. 
Envolta numa espcie de peplo branco, com cinto vermelho e azul, entusiasmara a assistncia 
segurando numa das mos a bandeira da Confederao e brandindo com a outra, na direco do 
capito Carey Ashburn, de Alabama, ajoelhado aos seus ps, o sabre com punho de oiro que 
pertencera a Charles e ao pai. 
Assim que Scarlett abandonou o palco improvisado, o 
307 
seu cuidado foi o de procurar os olhos de Rhett, a fim de averiguar se ele tinha apreciado a beleza 
do quadro a que acabava de dar vida. Verificou, porm, exasperada, que Rhett estava a discutir com 
um grupo de convidados e que, naturalmente, no prestara ateno ao que se passara no palco. Pelas 
expresses patentes no rosto dos indivduos que o rodeavam, no teve dificuldade em compreender 
que os argumentos apresentados por ele os tinham enfurecido. 
Acercou-se do grupo e, de sbito, quebrando o silncio que inesperadamente se fizera na sala, ouviu 
a voz de Willie Guinan, da Milcia, que dizia: 
-Querer o senhor insinuar com isso que a Causa pela qual os nossos heris morreram no  
sagrada? 
- Se o meu amigo for trucidado por um comboio, a sua morte no santifica a companhia, pois no? - 
redarguiu Rliett, num tom de voz humilde, que parecia solicitar apenas um esclarecimento. 
-Senhor-comeou Willie, branco de raiva-se no estivssemos sob este tecto... 
- At j estou a tremer, com medo do que poderia acontecer-me - ripostou Rliett. - A sua bravura  
#
por demais conhecida... 
Willie fez-se escarlate. Desceu sobre a sala um silncio glacial. Os convidados entreolharam-se com 
visvel embarao. Willie era um moceto forte e saudvel, que tinha muito boa idade de prestar 
servio nas fileiras, mas que no se alistara no Exrcito. Evidentemente que a me se opusera a isso, 
com receio de perder o seu nico filho; alis, sempre era preciso algum para defender a retaguarda. 
No entanto, quando Rliett aludiu  sua pretensa bravura, ecoaram na sala os risos abafados de 
alguns oficiais convalescentes. 
"Oh, meu Deus, que mania a dele!" pensou Scarlett, indignada. "J est a falar demais e, daqui a 
pouco, acaba por estragar a festa toda!" 
0 Dr. Meade franziu ameaadoramente a testa. -Para si no h nada sagrado meu rapaz-disse no 
mesmo tom em que costumava fa@er os seus discursosmas felizmente que os patriotas do Sul no 
pensam da mesma maneira. Para eles ainda existem muitas coisas sagradas. Expulsar da nossa terra 
o usurpador, eis uma. Os direitos dos Estados, outra. A... 
Rhett encarou o mdico, numa atitude que parecia deno- 
308 
tar suprema indiferena, deixando transparecer na voz, misteriosamente aveludada, uma nota de 
aborrecimento. 
- Todas as guerras so sagradas - declarou - para aqueles que se vem obrigados a bater-se, claro 
*Se os indivduos que as provocam lhes no dessem esse carcter, haveria algum suficientemente 
louco para se meter nelas? Duvido, Contudo, sejam quais forem os incentivos que os oradores 
apresentem aos idiotas que lutam, sejam quais forem os nobres propsitos que atribuam s guerras, 
a verdadeira causa dos grandes conflitos armados que apoquentam a nossa civilizao  sempre a 
mesma: c> dinheiro. Todas as guerras so ditadas por motivos de ordem financeira ou econmica. 
Mas podem contar-se pelos dedos as pessoas que se apercebem deste facto. Toda a gente traz os 
ouvidos cheios dos toques dos clarins, do rufar dos tambores e dos patriticos discursos dos 
oradores que no tm idade ou coragem para se alistarem. Umas vezes o grito de guerra  "Salvem 
o tmulo de Cristo das garras dos Infiis"; outras, "Abaixo o Papa" ou "Queremos Liberdade" ou 
ainda, "Algodo, Ecravatu@a e Direitos dos Estados!" 
"Que ter o tmulo de Cristo a ver com a guerra?" pensou Scarlett. "E para que diabo trouxe ele o 
Papa  balha?" 
Continuou a avanar na direco do grupo, mas, n(> momento em que estava prestes a chegar junto 
dele, viu Rhett inclinar-se numa curta vnia e dirigir-se para a porta, atravs da multido. 
Preparava-se para lhe seguir no encalo, quando sentiu a mo da senhora Elsing agarr-la pela saia, 
imobilizando-a. 
-Deixe-o ir -disse a envinagrada viva, numa voz clara que ressoou no silncio sepulcral em que 
ainda pareciam ecoar as ltimas palavras de Rhett Butler. - Ele  um traidor  Causa, um reles 
especulador!  twna vbora que acalentamos no nosso seio! 
Rhett, que nesse instante se encontrava j a meio do vestbulo, com o chapu na mo ouviu o que a 
senhora Elsing dissera deliberadamente @ara ele ouvir e, voltando-se, passeou o olhar irnico pelo 
mar de gente que enchia a sala. Em seguida, olhou fixamente para o peito completamente liso da 
senhora Elsing, arreganhou os lbios num sorriso sarcstico e, fazendo nova reverncia, saiu. 
A senhora Merriwether regressou a casa na carruagem de Pittypat. 
309 
- Que me dizes ao que se passou, Pittypat Hamlton? 
- explodiu, assim que se deixou cair no assento. - Deves estar radiante! 
- Radiante porqu? - indagou Pittypat, apreensiva. 
- Pelo procedimento desse cretino que recebes em tua casa, 
Pittypat corou at  raiz dos cabelos. A acusao da amiga desconcertou~a de tal forma que nem 
sequer se lembrou de que a Merriwether tambm havia convidado Rhett Butler a jantar em casa dela 
por vrias vezes. Scarlett e Melanie tiveram a resposta na ponta da lngua mas, educadas no respeito 
devido s pessoas mais velhas: refrearam o mpeto de protestar, cravando os olhos nas mos 
#
protegidas pelos mitenes de renda. 
- Ele insultou-nos a todos e  Confederao tambm 
- volveu a senhora Merriwether, cujo seio avantajado arfava violentamente sob os passamanes 
reluzentes que lhe guarneciam o espartilho. -Atrever-se a dizer que ns fomos para a guerra por 
dinheiro e que os nossos chefes nos mentiram! Deviam p-lo a ferros! No tenham dvidas. Hei-de 
falar a este respeito com o Dr. Meade, amanh. Se o Merriwether ainda fosse vivo ele prprio se 
encarregaria de o castigar. E, agora, Pitty amilton, espero que o incidente desta tarde te haja aberto 
os olhos e no admitas que esse canalha volte a bater-te  porta. 
- Oh! - murmurou Pitty, sucumbida, como se preferisse estar morta a passar por uma coisa daquelas. 
Lanou um olhar suplicante s duas raparigas, que continuavam a examinar as unhas atentamente e 
em seguida, fitou durante alguns momentos as costas erectas de Peter. Sabia que o mordomo, 
escutara a conversa, como era seu hbito, e pediu a Deus que ele interviesse, o que tambm 
costumava fazer com certa frequncia. Desejaria que ele dissesse: "Por fav, sinhora DoIly, no 
aborrece sinhora Pitty", mas a verdade  que o velho negro nem sequer se moveu. Peter detestava 
Rhett Butler e a pobre Pitty no o ignorava. 
- Enfim - murmurou ela, com um suspiro - se tu pensas que... 
- Pois claro que penso - retorquiu a senhora Merriwether 'em tom categrico. -Confesso que ainda 
no percebi como caste na patetice de receber um homem daquela espcie em tua casa. Depois do 
que se passou esta tarde, 
310 
tenho a certeza de que ningum lhe abrir novamente a porta. Trata de arranjar um pouco de 
coragem para fazeres o mesmo. 
Virou-se no banco e assestou um olhar severo sobre as duas raparigas. 
-Espero que vocs tenham prestado ateno-prosseguiu - porque, em parte, foi por se mostrarem to 
agradveis para com ele que isto sucedeu. Faam~lhe notar, em termos correctos, mas enrgicos 
que a sua presena e as suas teorias so indesejveis l em casa. 
Por esta altura, j Scarlett fervia de raiva, pronta a espinotear, como uma gua ao sentir as rdeas 
empunhadas por mos brutais, Alas no se atreveu a falar. No, queria arriscar-se a que a senhora 
Merriwether escrevesse outra carta a Ellen. 
"Bruxa duma figa!" disse de si para si, corada de indigriao a custo reprimida. "Quanto no daria 
eu para te lanar em rosto tudo o que penso de ti e dos teus modos autoritrios!" 
- Nunca julguei que houvesse algum capaz de falar assim duma Causa sagrada como a nossa - 
continuou a senhora Merriwether, furibunda. - Todos os homens que pensam como ele mereciam 
ser enforcados! Agora, vejam l se ainda lhe do conversa depois da maneira indecente como ele 
nos ofendeu. Virge@n Santa, que mosca lhe mordeu, MeIly? 
Melly estava lvida e os olhos dela brilhavam como dois holofotes. 
-Falar-lhe-ei sempre que o encontrar -declarou, em voz baixa.-No serei mal-educada para com ele. 
Nem sequer tenciono proibi-lo de nos visitar. 
A senhora Merriwether perdeu o flego, como se tivesse recebido um soco violento em pleno peito. 
Pittypat deixou cair o queixo, escancarando a boca, e Peter voltou-se na boleia para observar Melly. 
"Por que foi que eu no tive coragem, de lhe responder assim?" pensou Scarlett, lutando entre a 
inveja e a admirao. "Como  que esta lambisgia conseguiu arranjar nimc> para desafiar as iras 
da Merriwether?" 
Melanie tinha as mos trmulas, mas prosseguiu, apressadamente, como se temesse que uma pausa 
maior lhe arrefecesse o ardor inicial: 
- No serei grosseira para com Rhett Butler, por ter 
311 
feito as afirmaes que fez, visto que... Bem sei que ele no devia ter dito aquilo e que foi muito 
rude... muito imprudente... mas os pontos de vista que exps so precisamente os mesmos... os 
mesmos de AshIey, E eu no posso recusar hospitalidade a um homem que pensa como o meu 
marido. Seria injusto. 
#
Tendo recobrado o flego, a senhora Merriwether voltou  carga. 
- Melly, essa  a maior mentira que ouvi at hoje. Que eu saiba, na famlia dos Wilkes nunca houve 
nenhum cobarde... 
- Eu no disse que AshIey fosse cobarde- retorquiu MeIly, de olhos coruscantes. -0 que disse foi 
que ele pensava exactamente como o capito Butler, com a diferena de que no exprime as suas 
ideias em termos to desagradveis, nem as proclama publicamente no decurso de concertos. No 
entanto, j mas exps numa carta que tenho l em casa. 
Scarlett estremeceu, assaltada por uma sensao de culpa, sem todavia se lembrar de ter visto nas 
epstolas de AshIey qualquer passo que permitisse a Melanie fazer to melindrosa afirmao. Tinha 
a memria muito fraca e esquecia fcilmente aquilo que lia. A explicao mais plausvel que 
encontrou para a atitude da cunhada foi a de ela haver perdido o juzo. 
-Ashley diz que no devamos ter entrado em guerra com os yankees e que fomos arrastados para a 
luta pelas palavras enganosas de estadistas e oradores que falavam sem conhecimento de causa - 
prosseguiu Melly rpidamente. -Alm disso,  de opinio de que nada poder compensar o mal que 
esta bravata nos est causando. Para ele no h glria na guerra, h apenas misria e lama. 
"Oh, j sei que carta foi!" pensou Scarlett. "Mas seria isto mesmo que ele queria dizer?" 
-No acredito -declarou a senhora Merriwether, em tom firme. - Com certeza que no percebeu 
bem. 
- Percebo perfeitamente o que Ashley escreve - redarguiu Melanie ' sem perder a calma embora os 
lbios lhe tremessem. - Nunca interpretei ma as suas palavras; seria esta a primeira vez. Posso 
garantir-lhe que, neste caso, AshIey v as coisas da mesma maneira que o capito Bufler, conquanto 
no se expresse de forma to rude. 
-Devia envergonhar-se de comparar um homem to 
312 
digno, como  o seu marido, a esse patife do capito Butler! Mas  possvel que tambm ache a 
Causa indigna dos sacrifcios que estamos fazendo! - 
- Eu... eu j no sei o que penso -respondeu Melanie titubeando. 0 ardor com que de incio ripostara 
 senhora Merriwether comeava j a abandon-la, cedendo lugar ao receio de se haver excedido. - 
Estou pronta a morrer pela Causa, como Ashley. Mas... a meu ver... acho que devemos deixar aos 
homens o trabalho de pensar. Eles so muito mais inteligentes do que ns... 
- Nunca ouvi tamanho disparate - resmungou a senhora Merriwether. - Pare, Peter! J passou a 
minha casa! 
Preocupado com a conversa que se desenrolava atrs de si, o, velho mordomo ultrapassara a 
moradia da senhora Merriwether que se apeou da carruagem com as fitas do chapu a lh@ 
ondularem agressivamente em torno do pescoo, como velas numa tempestade. 
- Talvez se arrependa - disse com voz ameaadora. Peter chicoteou o cavalo. 
- As minina devia t vergonha de p sinhora. Pitty nesse estado - observou ele, em tom de censura. 
- No te preocupes por minha causa - interveio Pitty, com firmeza, o que surpreendeu as duas 
raparigas, visto que normalmente nem tanto era preciso para ela desmaiar. - 
MeIly, minha querida, sei muito bem que disseste aquilo para me defenderes e confesso que fiquei 
deveras satisfeita por ver Dolly levar no nariz. Tem a mania de mandar e  bem feito que apanhe 
uma liozinha de vez em quando. Onde foste tu arranjar coragem para tanto? Contudo, acho que 
no devias ter falado assim a respeito de Asliley. 
-Limitei-me a dizer a verdade -redarguiu Melanie, que desatou a chorar silenciosamente. - E fique a 
tia sabendo que no me envergonho de eme Asliley pense dessa maneira. Ele est convencido de 
que a guerra  uma estupidez, mas no se recusou a lutar. E para isso  preciso muito mais coragem 
do que quando se combate por uma causa que se julga justa. 
- Por am de Deus, minina, no chore no meio da rua 
- murmurou Peter fiazendo estalar o chicote para apressar o andamento do cavalo. -As pessoa h"e 
pens o 
pi. Espere para cheg a casa. 
#
Searlett guardou silncio. Nem sequer apertou a mo, 
que Melanie enfiara na sua, em busca de conforto. Lera as 
313 
cartas de AshIey apenas com um objectivo o de se certificar de que ele ainda a amava. Contudo, a 
cunhada acabava de dar a certos passos das missivas que recebera do marido uma interpretao com 
que ela nem sequer sonhara. Ficou perplexa, perguntando a si prpria como seria possvel que um 
homem to perfeito e inteligente como AshIey tivesse algo de comum com um indivduo da estirpe 
de Rhett Butler. Pensou: "Ambos compreendem o verdadeiro significado dsta guerra, mas, ao 
passo que AshIey se arrisca a perder a vida por uma causa que no sente, Rhett apenas procura 
enriquecer, o que prova o seu bom-senso". Fez uma pausa, horrorizada por ter deixado AshIey sair 
diminudo da comparao co@n Rhett Butler. "Ambos vem as coisas como elas so, mas enquanto 
Rhett as encara abertamente e as lana no rosto de toda a gente, s pelo prazer de irritar as pessoas, 
AshIey prefere sofrer em silncio". 
Era uma ideia desconcertante. 
13 
INSTIGADO pela senhora Merriwether, o Dr. Meade endereou ao dirio de Atlanta uma carta em 
que, embora no mencionasse o nome de Rhett Butler, o atacava violentamente iniciando assim a 
campanha contra ele. 0 director, preve@do o escndalo que aquela missiva no deixaria de 
provocar, publicou-a na segunda pgina do peridico, o que representava uma inovao 
sensacional, visto as duas primeiras pginas serem reservadas a anncios de escravos, de machos, 
charruas e caixes e de remdios para doenas de carcter especial, drogas abortivas e 
reconstituintes de virilidade perdida. 
A carta do mdico mareou o preldio de um coro de imprecaes que no tardou a erguer-se em 
todo o Sul, contra os especuladores e todos aqueles que negociavam com o governo. Em 
Wilmington ponto sulista de maior actividade, agora que o de Cha@leston estava bloqueado pelas 
canhoneiras yankees o caso tomou as propores de um verdadeiro escndal@. A cidade estava 
infestada de escroques que, dispondo de dinheiro a rodos, aambarcavam os carregamentos de 
gneros alimentcios durante perodos mais ou menos longos, para que a sua escassez no mercado 
justificasse aumento de preos. E esse aumento 
314 
acabava sempre por se verificar, agravando cada vez mais a situao econmica. A populao civil, 
se no queria passar sem eles, via-se na necessidade de se sujeitar s exigncias dos negociantes. As 
condies de vida das famlias pobres e remediadas tornaram-se insustentveis.  medida que a 
carestia aumentava, o dinheiro da Confederao ia-se desvalorizando e comeou a grassar entre os 
sulistas a paixo desenfreada da opulncia. Inicialmente, os proprietrios dos barcos que foravam o 
bloqueio haviam sido encarregados dos transportes de mantimentos destinados ao consumo pblico, 
embora tambm lhes fosse permitido negociar em objectos de luxo. No tardou, porm, que 
passassem a encher os navios de coisas suprfluas, que lhes davam lucros maiores, deixando 
completamente de parte mercadorias de que a Confederao tinha necessidade vital. Com receio de 
que ' mais tarde, lhes pedissem por essas futilidades o dobro do que elas custavam agora, e que o 
dinheiro dos confederados sofresse nova quebra, todos se apressavam a adquiri-Ias. 
0 facto de a cidade de Wilmington estar ligada  de Richmond apenas por uma linha de caminho de 
ferro contribua, em grande parte, para piorar a situao. E, enquanto milhares de barricas de farinha 
de trigo e de caixas de presunto se deterioravam nas estaes intermdias, por falta de meios de 
transporte, os traficantes pareciam no ter dificuldade nenhuma em fazer chegar a Richmond 
carregamentos completos de vinho, sedas e caf, dois dias depois de os terem desembarcado em 
Wilmington. 
Foi pouco mais ou menos nessa altura que toda a gente comeou a discutir abertamente um boato 
que a princpio no passara de simples murmrio e, segundo o qual, Rhett Butler no s vendia a 
carga dos seus quatro navios por preos fabulosos, como ainda comprava a que os outros 
comerciantes traziam at Richmond, esperando que a subida de preos se verificasse, para proceder 
#
 sua revenda. Constava, tambm, que ele se encontrava  frente duma empresa cujo capital excedia 
um milho de dlares; empresa que escolhera Wilmington para centro de operaes e se dispunha a 
comprar nas docas mercadorias passadas atravs do bloqueio. Era tambm voz corrente que essa 
sociedade possua em Wilmington e Richmond dzias de armazns que abarrotavam de tecidos e de 
gneros alimentcios, que ali aguardavam ocasio propcia para serem 
315 
lanados no mercado. Tanto os militares como os civis comeavam j a clamar contra esse estado, 
de coisas, juntando o coro dos seus protestos aos comentrios implacveis que choviam sobre Rhett 
Butler e os seus sequazes. 
"Existem muitos patriotas entre os marinheiros a quem a Confederao confiou a espinhosa tarefa 
de romper o bloqueio yan@kee -afirmava o Dr. Meade nos ltimos perodos da carta - homens 
desinteressados que arriscam a sua vida e a riqueza para que ns possamos sobreviver. Os. seus 
nomes esto indelvelmente gravados nos coraes de todos os sulistas. Ningum inveja os magros 
lucros que porventura lhes rendem as suas arriscadas viagens. So indivduos que do provas de 
abnegao iliinitada, pelo que se tornam credores da nossa considerao e estima. Mas no  a esses 
que me refiro. 
"H outros, verdadeiramente mercenrios, que se ocultam sob a capa de hericos capites, movidos 
pela ambio de enriquecerem  custa da misria alheia.  sobre esses que deve recair o justo 
desprezo de um povo que, de armas nas mos, luta pela mais santa das Causas. So verdadeiros 
abutres humanos que trazem a bordo cetins e rendas, enquanto os nossos soldados morrem por falta 
de quinino, que carregam as suas embarcaes de chs e vinhos, quando os nossos heris se torcem 
com dores nos leitos dos hospitais por no haver morfina que lhes suavize o sofrimento. @Como 
mdico e como, patriota, nutro o mais profundo asco por esses que esto sugando o sangue dos 
homens que militam nas fileiras de Robert Lee, ess-es monstros que transformaram uma misso 
nobre num vil processo de satisfazer a sua ganncia desmedida. Como poderemos tolerar entre ns 
tais corvos, com as suas botas altas de verniz, quando os nossos soldados combatem descalw? 
Como poderemos ns tolerar a afronta de os vermos deliciarem-se com chami)anhe e fgado deganso, 
enquanto os nossos bravos defensores tremem de frio, em torno das fogueiras nos 
acampamentos, roendo, nacos de presunto bolorento? Apelo para todos os sulistas leais, na 
esperana de que os expulsem duma vez para sempre". 
Toda a populao de Atlanta leu a carta do, Dr. Meade e, como se tivessem escutado a voz dum 
orculo, apressou-se a banir Rhett Butler do seu convvio. 
De todas as pessoas que no Outono de 1862 o recebiam, era talvez Pitty Hamilton a nica que em 
1863 ainda o 
316 
admitia em sua casa. E, se no fosse Melanie, nem mesmo essa lhe abriria a porta. A pobre Pitty 
ficava completamente transtornada quando tinha conhecimento da sua chegada  cidade. Sabia 
perfeitamente que as amigas a censuravam por ela continuar a receber Rhett Butler, mas no 
conseguia arranjar nimo para lhe dizer que, dadas as circunstncias, as suas visitas eram 
indesejveis. Sempre que a informavam da presena dele em Atlanta, Pitty cerrava os lbios numa 
linha firme e garantia s sobrinhas que iria em pessoa, abrir-lhe a porta, a fim de lhe proibir a 
ent@ada. Mas, quando o via  sua frente, com um embrulhinho na mo e um galanteio nos, lbio-s, 
perdia a coragem e calava-se. 
-No sei o que hei-de fazer- lamentava-se ela, logo que Rhett se retirava.-O capito Butler olha para 
mim, sorri e... e eu fico com um medo de morte, s de pensar no que me aconteceria se o impedisse 
de entrar. Ele tem to m reputao! Vocs acham que seria capaz de me bater... ou... ou... Oli, meu 
Deus, se ao menos o pobre Charles ainda fosse vivo! Scarlett, tu  que podias dizer-lhe que no 
voltasse c, em termos correctos e delicados. Valha-me Nossa Senhora! Estou convencida de que, 
longe de o desanimares, ainda o incitas a procurar-nos sempre que vem a Atlanta. Toda a cidade nos 
censura e 'se a tua me vem a descobrir o que se passa, deve ficar com muito boa impresso a meu 
respeito, no haja dvida! E tu, MeIly, por que no tentas mostrar-te menos amvel? Se adoptares 
#
uma atitude fria e distante, ele acabar por compreender, decerto. Oli'Melly no ser melhor eu 
escrever a Henry a pedir-lhe que fae com o capito Butler? 
- N@, tia, no, pense nisso - respondeu MeIly. - E, o que  mais, no tenciono maltrat-lo. A meu 
ver esto todos a proceder estupidamente para com o capito 3utler. Tenho a certeza de que ele no 
 to maucomo o Dr. Meade e a senhora Merriwether o pintam. CGnsidero-o incapaz de reter os 
gneros nos armazns, na mira de maiores lucros, sabendo que h gente a morrer de fome. 
Pois se ainda h bem pouco tempo ele me entregou cem dlares para distribuir pelos rfos! Na 
minha opinio ' o capito Butler  to leal como qualquer de ns. Se no se defende das acusaes 
que lhe fazem, deve ser apenas por uma questo de orgulho. Bem sabe como os homens so 
obstinados quando se lhes mete uma idpia na cabea. 
317 
A tia Pitty no conhecia os homens suficientemente bem para se atrever a discutir a opinio da 
sobrinha e limitava-se a torcer as mos sapudas, desesperada. Quanto a Scarlett, h muito que se 
resignara a ouvir a cunhada tomar sistemticamente a defesa dos outros. Melanie era uma tola, que 
teimava em ver apenas o lado bom das pessoas, e ningum conseguiria modific-la. 
Scarlett sabia que Ilhett no estava agindo em prol da Confederao, mas sim em defesa dos seus 
interesses e, embora preferisse morrer a confess-lo, ela pouco ou nada se importava com isso. 0 
que principalmente lhe interessava eram os presentes que Rhett lhe trazia de Nassau, bugigangas 
que uma senhora podia aceitar, sem quebra da sua dignidade. Com a vida to cara como estava e 
com a escassez de artigos de toda a espcie que se verificava no mercado 'onde diabo poderia ela 
obter agulhas bombons e ganchos para o cabelo, se o proibisse de l ir a @asa? No, preferia, 
descarregar essa responsabilidade sobre os ombros da tia, Pittypat, que afinal era a dona da casa, o 
pau de cabeleira e a mentora, tanto de Melanie como dela. Scarlett tinha a certeza de que toda a 
cidade criticava as visitas que Rhett Butler fazia a Pittypat e de que nem mesmo o seu prprio 
procedimento se encontrava ao abrigo de censuras, mas sabia igualmente que aos olhos de Atlanta, 
Melanie Wilkes era incapaz de proc@der mal; por consequncia, enquanto ela defendesse o capito 
Butler, a presena dele na, casa de tijolos vermelhos no provocaria as ms lnguas. 
Contudo, a vida seria muito mais agradvel se Rh@@tt tivesse tido o bom-senso de no dizer to 
graves heresias. Isso ter-lhe-ia poupado o aborrecimento de ver as pessoas voltarem delicadamente 
a cara ao seu companheiro, quando sala com ele para dar um passeio a<:> longo da Peachtree 
Street. 
- Que necessidade tem o senhor de dizer aquilo que pensa? - censurava ela. - Se no falasse tanto, a 
situao seria muito mais agradvel para ns ambos j reparou? 
-Com que ento,  essa a sua poltica, @ela hipcrita de olhos verdes? Ai, Scarlett_Scarlett! Nunca 
esperei que assumisse atitude to pouco corajosa. Julguei que os irlandeses nunca se coibiam de 
dizer o que lhes vem  mente. Ora, confesse: No h ocasies em que quase estoira de raiva, por ter 
de se calar? 
-Sim,  certo que h -confessou Scarlett, com relu- 
318 
11 tncia. - No calcula, por exemplo, como me aborrece ouvir os enfadonhos sermes a respeito da 
Causa, desde que me levanto at  hora de me deitar. Mas, meu Deus! Se me atrevesse a dizer isto, 
ningum mais falaria comigo, nem haveria um nico rapaz que viesse buscar-me para danar. 
- E, claro, a gente precisa de danar, sejam quais forem os sacrifcios que isso implique. Minha 
querida amiga, admiro imenso o seu autodomnio, mas creia que no estou empenhado em seguir o 
conselho que acaba de me dar. Sinto-me incapaz de me dissimular sob o manto romanesco de 
patriota quaisquer que sejam os benefcios que da me possam ad@ir. J  grande o nmero de 
imbecis que arriscam o ltimo cntimo no bloqueio e que ficaro arruinados para to-da a vida 
quando a guerra terminar. No me interessa ver o meu nome figurar no mesmo rol, nem para avivar 
a fogueira do patriotismo, nem para aumentar a lista dos mendigos. Eles que fiquem com a glria. 
Merecem-na (acredite que estou a falar a srio, neste momento) e, alm do mais, ser a glria a 
nica coisa que lhes restar, 
#
daqui a um ano ou dois. 
- No acho bem que faa to desagradveis insinuaes, sabendo como sabe, que no tardar que a 
Frana e a Inglaterr@' venham em nosso auxlio e... 
-Com franqueza, Scarlett! Tem lido o jornal, sem sombra de dvida! Estou surpreendido consigo. 
No torne a fazer esse disparate. A leitura dos peridicos serve apenas para lanar a confuso no 
esprito das mulheres. Para seu governo, deixe-me lembrar-lhe de que estive em Inglaterra ainda 
no h um ms. 0 que vi e ouvi foi mais do que suficiente para me convencer de que os ingleses 
jamais viro ajudar-nos. A Inglaterra nunca aposta num cavalo moribundo. P, justamente por esse 
motivo que ela ainda no pereceu. Alm disso, a gorducha holandesa que actualmente ocupa o trono 
 uma alma temente a Deus, que no concorda com a escravatura. Podem os operrios das fbricas 
morrer de fome por no haver algodo para alimentar os 
teares que ela no dar um passo a favor dos sulistas. Quant@  Frana, nem sequer se dignar 
responder ao nosso apelo. 0 fraco imitador de Napoleo que a governa est excessivamente 
preocupado em estabelecer os seus no Mxico para se preocupar connosco. Pelo contrrio at deve 
ter sentido enorme alvio quando soube desta @gu@rra, certo de que ficaramos temporriamente 
impossibilitados de ZL 
319 
correr com eles do Mxico... No, Scarlett, essa ideia de recebermos auxlio do estrangeiro no 
passa duma inveno jornalstica para, levantar o moral dos sulistas. A Confederao est 
condenada. Vai vivendo das reservas que ainda tem arrnazenadas, mas at essas j se encontram 
quase no fim. Continuarei a forar o bloqueio durante maig seis meses, e basta. A partir dessa 
altura'ser demasiadamente arriscado, Venderei os meus barcos a algum ingls idiota que ainda veja 
possibilidades de explorar o negcio. Seja como for, no tenciono apoquentar-me por causa disso. 
J ganhei bastante dinheiro, que depositei em bancos ingleses e converti em oiro. Dinheiroem papel 
nada vale para mim. 
Rhett Butler parecia ter o condo de imprimir s suas palavras um cunho de veracidade que 
impressionava Scarlett. Podia toda a gente considerar subversivas as suas teorias, mas o facto  que 
se lhe afiguravam sensatas e plausveis. Estremeceu, horrorizada, ao verificar que tambm ela 
concordava com os seus pontos de vista, quando de@ia sentir-se ofendida, como qualquer patriota 
leal. 
- Estou cada vez mais persuadida de que o Dr. Meade teve razo naquilo que escreveu a seu 
respeito, capito Butler. S vejo uma forma de resgatar os seus pecados: alistando-se no Exrcito, 
assim que tiver vendido os barcos. No fim de contas, frequentou a Academia de West Point e... 
- Por amor de Deus, 'Scarlett! Faz-me lembrar um pastor baptista pregando um sermo para angariar 
novos adeptos. E se eu no quiser resgatar os meus pecados? Alm disso, por que cargas de gua 
havia de pegar em armas para apoiar um sistema, que me renegou? Creia que at ficarei satisfeito 
quando o vir por terra, esmagado. 
-Nunca ouvi falar em nenhum sistema-disse ela, aborrecida por ter de alardear de novo a sua 
ignorncia. 
-No? No entanto, est integrada num, como eu j estive, e aposto que no gosta mais dele do que 
eu gostava ento. Sabe por que  que me chamam a ovelha ranhosa da famlia Butler? Por esta 
razo muito simples: porque no me conformei com a sociedade de Charleston. Mesmo que tivesse 
tentado, nunca o conseguiria. E Charlestori como que encarna todas as qualidades e defeitos do Sul, 
numa mistura mais do que concentrada. J pensou na estopada que isso representa? Uma srie de 
coisas que somos obrigados a fazer porque toda a gente as faz. Um rol enorme de distraces 
inofensivas que nos so vedadas pelo mesmo 
1 o 
32 
motivo. Milhares de preconceitos que tornam a vida insuportvel. 0 facto de no ter casado com 
aquela rapariga de quem j deve ter ouvido falar, foi a gota queez trans@ordar a taa. Entenderam 
que eu devia casar com a idiota da moa, s porque um acidente inesperado nos impediu de 
#
regressarmos a casa antes de anoitecer. E por que diabo havia de me deixar matar pelo irmo 
alucinado, se sabia atirar muito melhor do que ele? Se eu fosse um fidalgo que pusesse a honra do 
nome acima da alegria de viver, ter-me-ia exposto s balas do meu adversrio, a fim de apagar a 
macula do braso dos Butlers. Mas eu... gosto desta vida. Defendi-me como pude e ainda c estou. 
Tenho gozado . minha maneira. De cada vez que me lembro do meu irmo, que vegeta no meio 
das vacas sagradas de Charleston, e penso na mulher dele, uma autntica barrica de seis arrobas, nos 
seus infindveis arrozais, nos inspidos bailes de Santa Ceclia...  que vejo bem quanto ganhei em 
romper com o sistema. A nossa maneira de viver , pelo menos, to antiquada como o sistema 
feudal da Idade Mdia. S me surpreende que tenha durado tantos anos, Contudo, estava condenado 
a desaparecer e comeou a afundar-se agora. Como ousou acalentar a esperana de que eu desse 
ouvidos a oradores como o Dr. Meade que s sabem maar as pessoas com essa estafada treta de 
que a nossa Causa  justa e sacrossanta? Queria que eu me deixasse arrebatar pelo rufar dos 
tambores, a ponto de agarrar num bacamarte e marchar para Virgnia, a fim de verter o meu rico 
sangue por Robert? Por quem me toma, Scarlett? Por um imbecil qualquer? No, essa histria de 
beijar a mo que nos ofendeu, tambm no pega comigo. 0 Sul e eu estarnos quites, agora. 0 Sul 
renegou-me um dia, sem se importar com a, possibilidade de eu morrer de fome. Graas a Deus, 
consegui resistir  adversidade e hoje sou eu que estou a assistir s vascas da sua agonia. 0 dinheiro 
que j ganhei e que ainda hei-de ganhar servir-me- de compensao pela herana paterna que 
perdi. 
- Voc  um mercenrio sem escrpulos - observ<:>u Scarlett, maquinalmente. 
A maior parte do que Rhett lhe dissera entrara-lhe por um ouvido e salra-lhe pelo outro, como 
normalmente acontecia com todas as conversas que no tinham a sua pessoa como tema principal. 
No entanto, a opinio dele acerca da vida em Charleston havia-lhe prendido a ateno, De facto, 
-Vento Levou - 1 
321 
a sociedade elegante vivia acorrentada a uma srie de preconceitos absurdos. 0 seu caso bem podia 
ser tomado Como exemplo caracterstico. Via-se obrigada a chorar o marido, embora a sua morte a 
houvesse regozijado. Deixara toda a gente horrorizada pelo simples facto de ter danado na 
quermesse. Tinha que arrostar com as censuras das amigas de Pittypat, sempre que ousava 
manifestar uma opinio que contrariava a das outras raparigas ou o seu procedimento se no 
coadunava com o estabelecido. Apesar disso, toda ela se abespinhava ao ouvi-lo atacar essas 
tradies, que tanto a revoltavam. Fora criada entre pessoas que dominavam completamente a arte 
da dissimulao e ficava perturbadssima quando ouvia os seus prprios pensamentos expostos em 
palavras to claras. 
- Mercenrio eu? No, minha querida Scarlett. Limito-me a ser prudente. Talvez estas duas palavras 
tenham o mesmo significado. Pelo menos  essa a designao que devem dar-me os indivduos que 
no foram to previdentes conio eu. Qualquer patriota, que em 1861 tivesse mil dlares no cofre, 
poderia ter feito o que eu fiz. Contudo, bem poucos foram suficientemente mercenrios para se 
aproveitarem da situao. Por exemplo, o primeiro cuidado que tive assim que o Forte Suniter caiu 
em nosso poder foi o de comprar alguns milhares de fardos de algodo por um preo irrisrio e 
export-lo para Inglaterra antes que wc yankees viessem bloquear-nos os portos. Ainda tenho i 
algodo depositado em diversos armazns de Liverpool. S o venderei quando as fbricas de fiao 
no tiverem mais nenhum para alimentarem os teares e aceitarem o preo que eu ento lhes 
impuser. No me surpreenderei se vier a ganhar dois dlares em cada quilo, .- 2 muito possvel, no 
dia em que as galinhas tiverem dentes! 
-Ainda no perdi a esperana, Em Inglaterra, j est a dlar e meio o quilo. Tudo me leva a crerque 
fique milionrio antes de acabar a guerra. E porqu? Porque fui um homem de viso larga... 
perdo, um mercenrio. J lhe disse uma vez que h duas grandes oportunidades para se ganhar 
dinheirG: a primeira, durante a fundao dum imprio, a segunda,-no -decurso da sua derrocada. 
Aquela 
4roporciona meios lentos e, por vezes, incertos; esta faculta processos rpidos e infalveis. No se 
#
esquea das minhas palavras. Talvez lhe sejam teis, no futuro. 
322 
- No h nada que eu mais aprecie do que um bom conselho - redarguiu Scarlett, com todo o 
sarcasmo de que foi capaz. -Mas a verdade  que no preciso dos seus. Julga que o meu pai  um 
pobreto? 0 dinheiro que ele tem  mais do que suficiente para suprir todas as minhas necessidades 
e, alm disso, lembre-se de que tambm herdei de Charles. 
-Os aristocratas franceses tambm pensaram assim at ao dia em que a misria lhes bateu  porta. 
Rhett chamava frequentemente a ateno de Scarlett para a inconsistncia do seu procedimento 
teimando em usar luto, no obstante participar j de toda@ as actividades mundanas. Gostava de 
cores garridas e os vestidos fnebres de Scarlett, bem como o vu de crepe que lhe descia do chapu 
at quase aos calcanhares, divertiam-no e irritavam-no ao mesmo tempo. Mas a rapariga recusavase 
terminantemente a abandon-los, certa de que, se os trocasse por trajes coloridos sem esperar 
mais alguns anos, a cidade em peso critic-la-i@ com muito mais acrimnia do que j o fazia. E que 
explicao daria ela  me? 
Rhett dizia-lhe a todo o momento que o vu de crepe lhe dava o aspecto dum corvo e que o vestido 
a envelhecia dez anos. Sempre que ele lhe fazia to assustadora afirma, o, Scarlett corria para o 
espelho, a fim de averiguar se 
na realidade apresentava vinte e oito anos e no dezoito. 
- Julguei que tivesse um pouco de amor-prprio e detestasse toda e qualquer semelhana com a 
senhora Merriwether-observava, escarninho. -Alm disso, nunca supus que o seu mau-gostG 
chegasse ao ponto de a fazer usar esse vu s para alardear um desgosto que certamente nunca 
sentiu. Quer apostar que dentro de dois meses subs- tituir esse chapu horrvel por um modelo de 
Paris? 
- No pense nisso - respondeu Scarlett, aborrecida com a aluso a Charles. - Mudemos de assunto 
' sim? 
Rhett 'que nessa mesma tarde devia partir para Wilmington, onde j tinha o seu navio aparelhado 
para nova viagem  Europa, despediu-se com um sorriso enigmtico a bailar-lhe nos lbios. 
Semanas depois, por uma bela manh de Estio, reapareceu, trazendo na mo uma caixa de, chapus, 
lindamente enfeitada, e uma expresso radiante estampada no rosto. Depois de se-certificar de que 
Scarlett se encontrava szi- 
323 
nha em casa, abriu a caixa. Envolto em diversas folhas de papel de seda repousava um chapu, 
criao da mais afamada modista parisiense, que arrancou a Searlett uma exclamao de alegria: 
"Que maravilha!" Privada havia tempos no s de usar como de ver novidades em matria de 
vesturio feminino, mirou, extasiada, o chapu que tinha diante de si, pensando que nunca at ento 
lhe fora dado contemplar outro to bonito. Era de tafet verde-escuro, debruado a seda verde-jade, 
duma tonalidade suave. As fitas que o guarneciam ' e que se destinavam a_ser atadas sob o queixo, 
tinham a largura da sua mo e eram tambm verdes. E, enrolada  volta da copa, destacava-se uma 
vistosa pluma de avestruz esverdeada. 
-Ponha-o-disse Rhett, sorrindo. Scarlett precipitou-se na direco do espelho ' colocou * chapu na 
cabea, puxou o cabelo para trs, de maneira * mostrar os brincos e deu um lao junto ao pescoo. 
- Que tal me fica? - inquiriu rodando sobre os calcanhares e meneando a cabea para fazer oscilar a 
pluma. 
Tinha a certeza de que o chapu lhe ficava s mil maravilhas, mas nem por isso se sentiu menos 
feliz quando leu nos olhos de Rhett a confirmao do seu prprio pensamento, 0 chapu realavalhe 
a beleza provocante. 0 debrum verde-claro como que lhe escurecia os olhos cor de esmeralda, 
transformando-os em dois fachos cintilantes. 
- Oli, Rliett, de quem  este chapu? Quero compr-lo. Darei por ele todo o dinheiro que possuo. 
-0 chapu pertence-lhe -respondeu ele. -Quem mais poderia usar essa tonalidade de verde? No lhe 
parece que guardei bem na memria a cor dos seus olhos? 
- Mandou faz-lo propositadamente para mim? 
#
- Mandei. Foi confeccionado na Rue de La Paix, como pode ver pelo rtulo da caixa, Espero que 
saiba o que isso quer dizer... 
Scarlett ignorava o significado desse pormenor, mas nem sequer tentou interpret-lo. Toda a sua 
ateno convergia agora sobre a imagem deslumbrante que o espelho reflectia. Naquele instante 
nada mais lhe interessava alm do facto de que estava realmente encantadora, com o primeiro 
chapu bonito que punha na cabea aps dois anos de luto. 0 que ela no faria com aquela 
maravilha! De sbito, porm, o sorriso apagou-se-lhe dos lbios. 
- Gosta? 
324 
-Oh! ir, um verdadeiro encanto! No calcula o que me vai custar esconder este verde to lindo sob o 
vu de crepe e tingir a pluma de preto. 
Rhett acercou-se dela rapidamente e, com movimentos destros e precisos, desfez o lao das fitas. 
Antes que Scarlett pudesse compreender o que se passava, j o chapu jazia no fundo da caixa. 
- Que est a fazer? Voc disse que era para mim. 
- Mas no para o transformar em chapu de luto. Hei-de descobrir outra rapariga de olhos verdes 
que saiba apreciar devidamente o meu gosto. 
-Isso  que no! Eu morro se mo tirar! Por favor, Rliett, no seja mau. D-mo! 
-Para fabricar com ele outra monstruosidade igual s que lhe tenho visto'usar? Nunca! 
Scarlett cravou as unhas na caixa. Jamais consentiria que aquele lindo chapu, que a tornava to 
jovem e sedutora, fosse parar s mos de outra rapariga. Pensou no desgosto que Pitty e Melanie 
no deixariam de sentir. Pensou na mgoa que causaria  me, e estremeceu. Mas * vaidade levou a 
melhor. 
- No o modificarei, prometo. Por favor, Rliett, d-me * chapu. Ele entregou-lhe a caixa com um 
sorriso sardnico, * observou-a atentamente, enquanto ela o punha mais uma vez na cabea e se 
mirava ao. espelho, fascinada. 
- Quanto custa? - perguntou, de repente ao mesmo tempo que uma nuvem de tristeza lhe toldava @ 
semblante. 
- De momento, disponho apenas de cinquenta dlares, mas para o mes que vem ja poderei... 
- Custa quase dois mil dlares na moeda da Confederao - informou Rhett, e riu, ao ver a 
expresso de desnimo que se lhe estampou na face. 
- Meu Deus... 0 mais que posso fazer  pagar-lhe agora os cinquenta dlares e dar-lhe o resto 
quando. receber. 
- No quero dinheiro nenhum - esclareceu ele. - Esse chapu  oferta minha. 
Scarlett ficou boquiaberta. A pragmtica da sociedade era particularmente severa no que se referia 
aos presentes oferecidos por um homem a uma senhora. 
"Doces e flores e talvez um livro de poesias, ou um lbum, ou um fra@co de gua da Florida ' 
so as nicas coisas que uma senhora pode aceitar de um ca-valheiro", 
325 
dissera-lhe Ellen, centenas de vezes. "Nunca. um presente de valor real, mesmo que seja oferecid<> 
por um namorado, nem jias ou artigos de vesturio ainda que seja apenas um par de luvas ou um 
simples le@o. Quando uma mulher aceita presentes deste gnero, o homem fica convencido de 
que ela no  uma senhora e aproveita-se da primeira ocasio para tomar liberdades". 
"Valha-me Deus!" disse Scarlett de si para si, contempiando-se no espelho e erguendo os olhos para 
o rosto indecifrvel de Rhett. "Onde hei-de eu arranjar coragem para recusar este chapu? P, to 
bonito que... nem sei... quase prefiro que ele tome uma liberdade qualquer... desde que no seja 
muito grande ... " 
De sbito, enrubesceu, ao tomar conscincia do que acabava de pensar. 
- Deixe-me... deixe-me dar-lhe os cinquenta dlares... 
- Se mos der, atir-los-ei  primeira sarjeta que encontrar! Melhor ainda, mandarei rezar meia dzia 
de missas por inteno da sua, alma. Tenho a certeza de que bem precisa delas. 
Scarlett riu, contrafeita, e a imagem que viu no espelho dissipou-lhe as ltimas dvidas. 
#
-Que quer fazer de mim? 
- Por enquanto., limito-me a tent-la com belos presentes at que os seus ideais pueris se 
transformem em fumo e fique inteiramente  minha merc - respondeu ele. - "Apenas deves 
aceitar guloseimas e flores, minha filha" - acrescentou, com voz de falsete. 
Scarlett soltou uma gargalhada. 
- P, matreiro como uma raposa velha. Sabe muito bem que um chapeu destes no se pode recusar. 
Os <>lhos dele miraram-na apreciativamente com um brilho irnico. 
- Evidentemente nada impede que diga  sua tia que me deu uma amostr@ do tafet e da seda, bem 
como um desenho do chapu e que eu lhe extorqui cinquenta dlares por ele. 
- No. Dir-lhe-ei que paguei cem dlares e ela ir contar a toda a gente. As outras raparigas vo 
ficar verdes' de in eja e ho-de censurar a minha extravagncia. Mas, por favor, Rhett, no torne a 
trazer-me presentes to dispendiosos. P, muito gentil da sua parte, mas acredite que no poderei 
aceitar mais nada. 
326 
-Ali, sim?! Pois fique sabendo, que continuarei a ofe- ,recer-lhe presentes enquanto me apetecer e 
sempre que encontrar qualquer adorno susceptvel de realar os seus encantos. Trar-lhe-ei um corte 
de seda verde para vestido. No entanto, desde j a previno de que no sou to gentil como pensa. 
Hei-de tent-la com chapus e vestidos at conseguir o meu intento. Lembre-se de que tudo o que 
fao visa um fim determinado. Nunca dou ponto sem n. E, at aqui, todas as mulheres a quem 
ofereci presentes pagaram-mos duma maneira ou de outra. 
Os olhos dele fitaram-na abertamente e c'ravarairi-se-lhe nos lbios. Scarlett baixou a cabea, 
sentindo-se invadir .por uma estranha perturbao, persuadida de que Rhett se preparava para tomar 
alguma liberdade como Ellen previra. Beij-la-ia, com certeza, ou, pelo m' enos, faria qualquer 
tentativa para o conseguir. Scarlett no sabia que atitude tomar. Se recusasse, era muito possvel que 
lhe arrancasse o chapu da cabea e fosse oferec&1o a outra rapariga. Por outro lado, se ela 
permitisse um leve sculo, talvez Rhett a presenteasse com o corte de seda a que aludira, na 
esperana de a poder beijar novamente. Os homens davam imenso valor a um beijo, ela no 
compreendia bem porqu. No era raro apaixonarem-se por uma rapariga aps o primeiro beijo e 
chegaram ao ponto !e fazer papis to cmicos, quando ela sabia manob,,,ar e resistir s investidas 
seguintes. Devia ser estimulEnte ver Rhett Butler apaixonado por ela, ouvir-lhe declarar o seu amor 
e suplicar a esmola de um beijo ou de um sorriso. Sim, estava resolvida a deixar-se beijar. 
No entanto, Rhett nem sequer esboqu um gesto para o fazer. Scarlett lanou-lhe um olhar de 
esguelha, por entre s plpebras cemicerradas e murmurou animadamente: 
-Com que ento, faz-s@ pagar sempre, no ? E que gnero de pagamento espera, de mim. 
- Isso  o que resta ver. 
- Se espera que eu case consigo por me ter oferecido o chapu, pode tirar da o sentido - ripostou 
com ar provocante, meneando a cabea, de forma a fazer oscilar a pluma. 
Os dentes alvos de Rhett brilharam sob o, bigodinho. 
- No tenha iluses a esse respeito, minha senhora. No casarei consigo nem com nenhuma outra 
mulher. Sou um adepto fervoroso do celibato. 
- Palavra? - redarguiu Scarlett, desiludida e ao mesmo 
327 
tempo resolvida a provoc-lo at ao ponto de ele perder a cabea e tomar uma liberdade qualquer. - 
Antes isso porque a verdade  que no tenciono dar-lhe nem um beijo, sequer. 
- Ento por que  que est a fazer boquinhas para mim? 
- Oli! - exclamou ela, ao ver no espelho os seus lbios vermelhos contraidos na expectativa de um 
beijo. - Oli! - 
exclamou novamente, perdendo a calma e batendo o p. - 
ir, a criatura mais detestvel que at hoje conheci! No calcula como ficaria satisfeita se nunca mais 
o tornasse a ver  minha frente! _ Se isso fosse verdade, calcaria o chapu ao6 ps. Est furiosa. e 
eu gosto imenso de a ver assim. Por que hesita, Scarlett? Vamos, pise o chapu, para me mostrar o 
#
que pensa de mim e dos meus presentes. 
- No se atreva a tocar no chapu - preveniu ela, levando a mo  aba e recuando. 
Rhett seguiu-a at  outra extremidade da sala e pegou-lhe na mo. 
- Oli, Scarlett - disse ele rindo suavemente -  to infantil que at me causa d! final, @empre 
estou disposto a beij-la, s para a no deixar desiludida a meu respeito. 
- E, inclinando-se negligentemente, roou o bigc>de--pe-la face aveludada da rapariga. - Ento, 
nem sequer me esbofeteia para salvar as aparncias? 
Com os lbios cerrados numa linha rebelde, Searlett ergueu os olhos e viu nos de hett uma 
expresso to gaiata que no logrou conter-se @. 
e rompeu s gargalhadas. Como ele era irritante e arrelador! Se no queria despos-la, nem mesmo 
beij-la, qual seria a sua inteno? E, se no estava apaixonado, por que a visitava com tanta 
frequncia e lhe levava to ricos presentes? 
-Assim  melhor- murmurou Rhett.-Searlett, j reparou na influncia perniciosa que estou a exercer 
sobre si? Se tivesse um pouco, de bom-senso, mandar-me-ia passear quanto antes... embora eu 
talvez no fosse. S muito dificilmente uma rapariga bonita consegue livrar-se de mim. No entanto, 
creia que a minha companhia s a prejudica. 
- Acha que sim? 
- Ento no v? Desde que nos encontrmos no bazar, a sua reputao tem descido aos poucos, pelo 
que me sinto, em parte, responsvel. Quem foi que a animou a danar? Quem a forou a reconhecer 
que, para si, a Causa no era 
328 
justa e muito menos santa? Quem a levou a confessar que considerava loucura um homem deixar-se 
matar em defesa de princpios to altissonantes? Quem a ajudou a fornecer s amiguinhas da sua tia 
pasto para a maledicncia? Quem acaba de a convencer a despir o luto mais cedo do que seria 
aconselhvel? E, para findar o rol, quem a persuadiu a aceitar um presente que nenhuma senhora, 
que se prezasse de o ser, aceitaria? 
-No seja pretensioso, capito Butler! At  data, o meu procedimento nada teve de escandaloso e 
acredite que, com a sua ajuda ou sem ela, eu teria feito tudo isso a que acaba de aludir. 
- Tenho c as minhas dvidas-disse ele 'e o seu rosto assumiu, de sbito, uina expresso calma e 
soturna. - Continuaria a ser a inconsolvel viva de Charles Hamlton e teria conquistado a 
admirao e a estima de toda a populao pela maneira desvelada como trata os feridos... Contudo... 
Mas Scarlett, j no o estava a ouvir. Com um sorriso prazenteiro, contemplava-se no espelho, sob 
todos os ngulos, pensando nas invejas que iria atiar junto das outras raparigas e nos galanteios 
que os moos no deixariam de lhe dirigir quando sasse com o chapu. E decidiu estre-lo nessa 
mesma tarde, quando fosse ao hospital levar aos oficiais convalescentes os ramos de flores que lhes 
prometera. 
Que havia um certo fundo de verdade nas ltimas palavras de Rhett foi coisa que lhe passou 
completamente despercebida. Rhett abrira-lhe as portas da priso da sua viuvez, restituindo-a  
liberdade, para competir de novo com as moas solteiras, quando o seu tempo j devia ter passado 
h muito, No entanto, ela no deu por isso, corno tambm no notou que, influenciada pelas suas 
teorias quase esquecera j os ensinamentos da me. A metamorf@se por que estava passando 
operava-se to gradualmente que a quebra de um preconceito parecia no ter relao nenhuma com 
o atropelo dos anteriores, nem ser devido ao ascendente que Rhett'ia tomando sobre ela. Scarlett no 
compreendera ainda que, animada por ele, desprezara os consejhos maternos quanto ao respeito 
pelas convenincias e olvidara as duras regras de proceder que uma senhora devia observar. 
Naquele momento, s via que nunca possura um chapu to bonito como aquele. No lhe custara 
um cntimo e Rhett com certeza estava apaixonado por ela para lhe 
329 
oferecer um presente to caro, embora fosse suficientemente orgulhoso para no confessar o facto. 
No entanto, havia de descobrir forma de o obrigar a declarar-se. 
No dia seguinte, Scarlett encontrava-se diante do espelho, com o pente numa das mos e a boca 
#
cheia de ganchos, quando chegou at ela, vindo do andar inferior um leve rudo de passos, 
atravessando o vestbulo. Devi@ ser Melanie, que regressava do hospital, findo o seu turno de 
servio. Ouviu-a subir as escadas a correr e deteve-se com um gancho a meio caminho da cabea, 
convencida de que acontecera algo de anormal, para que MeIly, que geralmente se deslocava dum 
lado para outro com a calma dignidade durna viva, se mostrasse to excitada. Correu para a porta e 
abriu-a, deixando em meio o novo penteado que Maybelle, recentemente chegada de Richmond, 
onde fora visitar o marido, lhe dissera estar fazendo furor na capital. Intitulava-se "Gatos, Rates e 
Ratinhos", e apresentava muitas dificuldades. 0 cabelo, dividido por uma risca ao meio, devia ser 
penteado em trs rolos de tamanho diferente, de cada lado da cabea. 0 primeiro, e maior, era o 
"Gato". Esse e o "Rato", armavam-se bem 'mas o "Ratinho" prendia-se constantemente nos 
ganchos. Era uma coisa irritante. Todavia, Scarlett estava resolvida a arranjar o cabelo daquela 
forma, pois Rhett deveria ir jantar a casa dela e nunca deixava de comentar as inovaes da moda, 
tanto em matria de vestidos, como de penteados. 
Aps meia hora de luta com as suas madeixas rebeldes, Scarlett ainda no conseguira terminar 
metade do toucado. Limpou com as costas das mos as camarinhas de suor que lhe aljofravam a 
testa e aguardou que a cunhada chegasse ao cimo das escadas. 
Melanie precipitou-se para dentro do quarto. Vinha corada, com uma expresso de terror estampada 
no rosto, como uma criana oprimida sob o peso de tremenda culpa. 
Trazia patentes nas faces enrubescidas os sulcos de grossas lgrimas e c> chapu pendia-lhe do 
pescoo, preso pelas fitas. Os anis do cabelo estremeciam,  medida que os soluos lhe sacudiam o 
corpo. Apertava frenticamente na mo um objecto do qual se exalava um perfume activo que no 
tardou a encher o quarto. 
- Oli, Scarlett! -exclamou, fechando a porta e atirando-se sobre o leito..-, A tia j chegou? Ainda 
bem, meu 
330 
Deus! Scarlett, no sei como no morri de vergonha! Imagina que por pouco no desmaiei e agora o 
Peter diz que vai contar tudo  tia Pitty. 
-Mas contar o qu? -Que estive a falar com... isto  com a... - Melanie limpou com o leno as faces 
afogueaas. - ...Com aquela mulher dos cabelos ruivos, a Belle Watling! 
- No me digas! - exclamou Scarlett, arregalando os olhos, surpreendida. 
Belle Watling era a ruiva que ela tinha visto na rua, poucos momentos aps ter desembarcado em 
Atlanta, pela primeira vez depois da morte do marido, e que no tardara a granjear fama em toda a 
cidade. No tinham conta as prostitutas que haviam afludo a Atlanta, atrs da soldadesc, mas 
Belle destacava-se das restantes, em virtude da cor do cabelo e dos vestidos, elegantes e vistosos, 
que usava. Raramente passava pela Peachtree Street ou por qualquer das outras ruas onde viviam as 
famlias mais respeitveis. No entanto, sempre que isso acontecia, todas as pessoas se apressavam a 
atravessar para o passeio oposto, a fim de a evitarem. E Uelanie atrevera-se a falar com ela! Razo 
tinha Peter para estar revoltado. 
-Eu morro se a tia Pitty vier a descobrir! Bem sabes como ela , Desata a chorar, a chorar, e depois 
vai contar tudo s amigas. E eu ficarei com a minha reputao arruinada para sempre - soluou 
Melanie. - Mas no tive culpa nenhuma, acredita. No... no havia de fugir dela no te parece? Seria 
uma crueldade. Eu... eu tive pena dela, Scarlett. Achas que procedi muito mal? 
Todavia, a Scarlett pouco se lhe dava a tica do procedimento da cunhada. Como sucedia com 
grande parte das raparigas ingnuas e educadas, tambm Scarlett sentia curiosi ade sem limites por 
tudo quanto se referia s prostitutas. 
-Que te queria a mulher? Como  que ela fala? 
- Oli, farta-se de atropelar a gramtica, mas, coitada! No imaginas o esforo que faz para se 
exprimir em termos correctos e elegantes, Quando sa do hospital, Peter ainda no tinha chegado 
com a carruagem e eu decidi voltar a p para casa. Ia a passar em frente do jardim dos Emersons, 
quando ela me surgiu pela frente. Tinha-se escondido atrs da cerca de arbustos que circundavam a 
moradia. Ainda bem que os Emersons esto em Macon! Depois, aproxi- 
#
331 
4r 
mou-se de mim e disse: "Por favor, senhora Wilkes, pode dar-me um minuto de ateno?" Ignoro 
como conseguiu descobrir o meu nome; s sei que deveria ter deitado a fugir, mas... ela estava to 
triste e... e encarou-me com ,olhar to suplicante que no tive coragem para o fazer. Trazia vestido e 
chapu preto e no estava pintada, de modo que pareceria uma mulher decente se no fosse o 
cabelo. Antes que eu tivesse tido tempo de responder, acrescentou: "Bem sei que no deveria 
dirigir-me  senhora mas j experimentei ir ao hospital para falar com essa @elha galinha choca da 
senhora Elsing, que se recusou a atender-me ... " 
- Ela chamou galinha choca  senhora Elsing? - indagou Scarlett, rindo de satisfao. 
0 caso no  para rir, Scarlett! No lhe acho graa ne huma. Pelo que depreendi ' a... essa mulher 
queria trabalhar no hospital. J alguma vez te passou pela cabea semelhante ideia? Ofereceu-se 
para servir de enfermeira todas as manhs e, evidentemente, a senhora Elsing ficou de tal modo 
horrorizada com essa possibilidade que a mandou imediatamente embora. "Eu tambm quero fazer 
alguma coisa", disse-me ela depois de ter contado a conversa que teve com a senh@ra Elsing. "Ou 
no serei uma confederada to boa como a senhora?" E a verdade  que fiquei comovida Searlett, ao 
ver que ela desejava auxiliar a Causa. Se se n@ostra disposta a colaborar connosco  porque no  
assim to m como a pintam, no te parece? Julgas que seja um crime pensar como eu penso, 
Scarlett? 
- Por amor de Deus, Melly, que importncia tem isso? Ela disse-te mais alguma coisa? 
- Disse que estivera,,,,a ver passar as senhoras que iam para o hospital e que achou que eu... que eu 
tinha cara de boa pessoa. Foi por isso que resolveu abordar-me. Possua algumas economias e 
queria entregar-mas para serem empregadas em benefcio do hospital. Meteu-me o dinheiro na mo, 
embrulhado num leno, e suplicou-me que no dissesse a ningum quem mo entregara. Explicou 
que a senhora Elsing no o aceitaria se soubesse de que espcie de dinheiro se tratava. Foi ao ouvir 
isto que eu estive quase, quase a desmaiar. Fiquei to aflita que respondi: <Obrigada. A senhora  
muito amvel", ou qualquer coisa do gnero. Ela sorriu e disse: "Os seus sentimentos so 
332 
os duma verdadeira alma crist". Uf! J reparaste no perfume que isto tem? 
Melanie estendeu a Scarlett um leno de homem, enxovalhado, que continha uma poro de moedas 
amarradas com um n. 
-Estava ela a agradecer-me e a prometer que todas as semanas me entregaria mais dinheiro, quando 
c> Peter passou e me viu.-Melanie rompeu em lgrimas novamente e afundou a cabea na 
almofada.-E, quando reconheceu a mulher com quem eu estava a falar, ralhou comigo, Searlettralhou 
comigo! Nunca ningum me tinha g@itado assim, em toda a minha vida. E ordenou: "Entre 
j na carruage, minina!" Obedeci imediatamente e durante todo o trajecto ele no fez seno 
censurar-me, sem me dar tempo para lhe explicar o que tinha acontecido, e ameaando contar tudo  
tia Pitty. Scarlett, s capaz de me fazer um favor? Vai l abaixo e pede-lhe que no diga nada  tia. 
Talvez te d ouvidos. A tia morrer de desgosto se souber que eu estive a conversar com uma 
mulher daquelas em plena rua. Vais? 
-Vou, sim. Mas antes deixa-me ver quanto te deu ela. 
0 leno est pesadssimo. 
Desfez o n e rolou para cima da cama uma mancheia de moedas de oiro. 
- So cinquenta dlares, Scarlett! Cinquenta dlares em oiro! - exclamou Melanie, deslumbrada, 
quando acabou de contar as moedas refulgentes. - Dize-me uma coisa: achas que devemos usar este 
dinheiro, ganho por um processo to pouco... to pouco honesto, em benefcio dos rapazes? Achas 
que Deus compreenda que ela apenas pretende ajudar a Causa e no leve a mal que estes dlares 
estejam poludos por um pecado to grave? Cada vez que penso nas coisas que so precisas no 
hospital... 
Mas Scarlett j no a ouvia. Os olhos dela estavam cravados no leno enxovalhado que conservava 
entre as mos. A um canto do quadrado de cambraia via-se bordado um monograma composto pelas 
#
iniciais "R. K. B,". Na primeira gaveta da cmoda do seu quarto encontrava-se um leno 
absolutamente igual quele. Rhett Butler, na vspera, emprestara-lho para envolver os ps das flores 
que tinham ido apanhar ao campo, e ela pensava devolver~lho nessa noite, quando viesse jantar. 
Pelos vistos, Rhett tinha relaes com essa tal Belle 
333 
Watling e dava-lhe dinheiro. Era dele afinal que provinha aquela contribuio para o fundo 
hospitalar, Dinheiro ganho  custa do bloqueio. E pensar que Rhett se atrevia a encarar uma mulher 
decente depois de ter estado com to vil criatura! Pensar que chegara a acalentar a iluso de que 
Rliett se havia apaixonado por ela, Scarlett! Tinha ali diante dos olhos a prova irrefutvel de que as 
suas esperanas no possuam o menor fundamento. 
As mulheres de mau porte e tudo aquilo que as rodeava pertenciam a um domnio misterioso, cuja 
existncia revoltava Searlett. Sabia que os homens procuravam o convvio dessas criaturas por 
motivos a que nenhuma senhora jamais deveria aludir ou melhor a que apenas poderia referir-se em 
voz baix@ e por meias palavras, Sempre julgara que s os indivduos de baixa condio visitavam 
tais mulheres. At quele instante nunca lhe ocorrera a ideia de que homens finos, isto , homens 
que conhecera em casa de pessoas decentes e com quem chegou a danar, pudessem fazer 
semelhante coisa. A descoberta que tinha feito vinha abrir novos horizontes  sua imaginao, 
horizontes esses que a horrorizavam. Era mesmo muito possvel que todos os homens tivessem 
ligaes daquelas! No lhes bastava forarem as consorte a submeter-se a prticas que ela 
considerava indignas, mas ainda tinham o desplante de procurar mulheres dessa ordem! Os homens 
eram uma corja de miserveis, a que presidia Rhett Butler, o pior de todos. 
Guardaria aquele leno para lho atirar  cara e intim-lo-ia a sair e a nunca mais ter a ousadia de lhe 
dirigir a palavra. Mas reconsiderou. No, no podia agir assim. Precisava evitar que Rliett 
descobrisse que ela tinha conhecimento da existncia de tal espcie de mulheres e, muito menos, 
que estava ao corrente das visitas que lhes fazia. No era prprio de uma senhora encontrar-se ao 
facto de tais pormenores. 
"Oh!", pensou, furiosa, "Se no fosse bem educada, que -coisas eu no diria a esse monstro!" 
E, amarfanhando o leno nas mos desceu as escadas e dirigiu-se para a cozinha em busca e Peter. 
Ao passar junto do fogo, lanou o leno sobre as chamas e, dominada por uma raiva impotente 
'ali se deixou ficar at que o pequeno quadrado de tecido se transformou num minsculo monte de 
cinzas. 
334 
14 
DE novo os coraes de todos os sulistas palpitaram de esperana com a aproximao do Estio de 
1863. No obstante as privaes e dificuldades que estavam a passar, no obstante a especulao 
com os gneros alimentcios e outros flagelos do mesmo gnero, no obstante a morte, a doena e o 
sofrimento que haviam deixado a sua marca indelvel na grande maioria das famlias, a populao 
do Sul j repetia o estribilho do Vero anterior, talvez com maior convico at: "Mais uma vitria 
s e ganharemos a guerra". os yankees tinham-se mostrado um osso duro de roer, mas j 
comeavam a fraquejar. 
0 Natal de 1862 decorrera de feio no s para Atlanta, como para todo o Sul. A Confederao 
obtivera retumbante vitria em Fredericksburgo, onde os yankees haviam deixado milhares de 
mortos e feridos. Toda a gente aproveitara aquele curto perodo de frias para se divertir e felicitar 
pela reviravolta operada na marcha das operaes. As hostes confederadas tinham ganhado 
conscincia do seu valor, os generais que as comandavam haviam posto  prova os seus dotes de 
chefia e j ningum duvidava de que o inimigo seria definitivamente derrotado na Primavera, 
quando se reacendesse a luta. 
Veio a Primavera e recomeou a batalha. Em Maio, os exrcitos confederados alcanaram outro 
triunfo estrondos<> em Chancellorsville. 0 Sul vibrou de entusiasmo, 
Uma incurso da cavalaria da Unio no territrio de Gergia redundou em mais uma vitria para os 
heris de cinzento. Os sulistas continuavam a rir e a dar palmadinhas nas costas dos amigos, 
#
dizendo, maravilhados: "P, assim mesmo! Quando o velho Nathan Bedford Forrest lhes aparece 
pela frente o melhor que eles tm a fazer  fugir!" Nos fins de Abri, o coronel Streight,  testa 
duma fora de cavalaria composta por oitocentos homens, atacara de surpresa e invadira Gergia, 
tendo como objectivo a cidade de Rome, situada a pouco mais de sessenta milhas ao norte de 
Atlanta. 0 plano dos yankees consistia em cortar as comunicaes ferrovirias entre Atlanta e o 
Termessee, de importncia vital para o Sul, e, posterior mente, em avanar para a zona meridional 
de Gergia, 
335 
a fim de destruir as fbricas e centros de abastecimentos de material de guerra concentrados na rea 
de Atlanta, cidade-chave de toda a Confederao. 
Fora um golpe audacioso e que poderia ter tido consequncias nefastas para o Sul, se aos invasores 
no se houvessem deparado as tropas de Forrest. Dispondo apenas de cerca de trezentos homens 
este lanara-se em perseguio dos yankees, conseguir@ alcan-los antes de chegarem a Rome, 
dera-lhes luta sem trguas e acabara por captur-los a todos. Que soldados -e que cavaleiros! 
A notcia do feito chegou a Atlanta quase ao mesmo tempo que a da vitria de Chancellorsville, e a 
cidade exultou. 0 triunfo conseguido em Chancellorsville poderia ter mais valor do ponto de vista 
estratgico, mas o aprisionamento dos cavaleiros de Streight deixou os yankees cobertos de 
ridculo. 
"Era melhor@que no viessem provocar o velho Forrest", gritou Atlanta, em peso, quando soube do 
ocorrido, e a narrativa da perseguiao aw invasores correu de boca em boca. 
A sorte das armas favorecia agora a Confederao, incutindo novo alento no nimo dos soldados e 
de toda a populao. Era certo que o exrcito yankee, sob o comando do general Grant, cercava 
Vicksburgo desde meados de Maio e que o Sul sofrera uma perda irreparvel com a norte de 
Stonewall Jackson, ferido na batalha de Chan cellorsville; tambm no era menos verdade que 
Gergia ficara sem um dos seus mais bravos e dilectos filhos, no momento em que o general T. R. 
R. Cobb cara em Fredericksburgo, vitimado por uma bala inimiga. Mas os yankees no 
suportariam outras derrotas como as de Frederiksbrgo e Chancellorsville. Teriam de pedir a paz e, 
ento, a guerra cruel passaria  histria. 
Vieram os primeiros dias de Julho e com eles o boato, mais tarde confirmado pelos comunicados 
oficiais, de que Lee atravessara a fronteira de Pennsylvnia. Lee no terr 'itrio inimigo! Lee a 
forar a batalha decisiva! Sem dvida, a campanha aprc>ximava-se do seu termo! 
Atlanta vivia horas de intensa exaltao patritica. Os seus habitantes deliravam de satisfao, 
acalentando no ntimo um pertinaz desejo de vingana. Agora, sim,  que os yankPes iam saber o 
que custava ver as suas terras assoladas pela guerra, as suas colheitas devastadas, o seu gado 
roubado, as suas casas incendiadas, os velhos e os rapazes 
336 
impiedosamente encarcerados, e as mulheres e as crianas vagueando pelas. ruas a morrerem de 
fome. 
Toda a gente sabi@ o que os yankees tinham feito noa Estados de Missouri, Kentucky, Tennessee e 
Virginia. At as crianas descreviam, com as suas vozinhas infantis a vibrarem de pavor e dio os 
horrores que as tropas da Unio haviam infligido s'populaes dos territrios por elas ocupados. 
Atlanta regurgtava de refugiados do leste de Tennessee, pelos quais tomara conhecimento das 
atrocidades cometidas pelos invasores. Nessa regio, os simpatizantes da Causa confederada 
encontravam-se em minoria e fora sobre eles que o peso da guerra mais se fizera sentir, como alis 
sucedeu na maioria dos Estados que confinavam com a Unio, onde os vizinhos se denunciavam 
mutuamente e os irmos se matavam uns aos outros sem o menor constrangimento. Esses 
refugiados desejavam ver Pennsylvnia transformada num lenol de chamas. At as velhinhas mais 
meigas e serenas sorriam de prazer, ante-gozando as represlias. 
Quando chegou a notcia de que Lee dera aos seus homens ordens terminantes no sentido de 
evitarem destruir as propriedades particulares, em Pennsylvnia, e decretara que seriam punidos 
com a morte os autores de pilhagem e que as suas tropas pagariam uma indemnizao por tudo o 
#
que porventura requisitassem, s o respeito que toda a gente lhe tributava salvou a sua 
popularidade. Por que no havia o general de deixar os soldados despejarem  vontade os ricos 
depsitos e armazns daquele Estado to prspero? Qual seria a ideia dele? Estaria assim to cego 
que no visse a necessidade dos seus homens, esfomeados, rotos e descalos? 
Uma carta rabiscada  pressa por Darey Meade a seu pai foi a primeira informao de fonte 
fidedigna que chegou a Atlanta naqueles princpios de Julho. 0 mdico f-la circular pelo vasto 
grupo de pessoas suas amigas, que a leram indignadas. 
E agora quero pedir-lhe uni favor, meu pai. H duas semanjas que ando descala e, como no vejo 
possibili&de de conseguzr um par de botas nestes meses mais prximos, muito agradecia que me 
enviasse um. Se eu no tivesse os ps to grandes o problema no me apoquentaria. Os campos 
esto semeados de cadveres de yankees, cu@as botas 
22 -Vento Levou -I 
337 
poderia aproveitar para mim, como os outros rapazes fazem, mas a verdade  que ainda no 
encontrei nenhum que calasse a mesma medida que eu. Se o pai mas puder arranjar, no as mande 
pelo correio. Roubd-1as-iam, pelo caminho e no seria eu a censurar o ladro. Phil que se meta no 
comboio e venha entregar-mas pessoalmente, pois s assim chegaro at mim.Voltarei a escreverlhe 
em breve, no sei donde. Ignoro para onde vamos. S passo dizer que estamos em Maryland e 
que continuamos a avanar para o Norte. H quem afirme que o general Lee tenciona invadir 
Pennsylvnia... 
Sempre supus que nos fosse permitido aplicaraos yankees o mesmo tratamento a que eles nos 
submeteTam, mas o general proibiu-nos de exercer represlias. Pelo que me diz respeito, no me 
assusta a perspectiva de ser fuzilado @ no ser por isso que deixarei de me dar ao prazer de 
mcendiar meia dzia de casas yankees. Atravessmos esta tarde uma das maiores searas que eu at 
hoje vi. 0 nosso milha no cresce tanto como o daqui. Confesso que todos ns roubmos umas 
maarocas s escandidas porque estvamos esfomeados. 0 general ia muito dista@ciado de ns e 
decidimos aproveitar a oportunidkde. No entanto, o milho verde no nos fez bem. A rapaziada, que 
j estava com d@senteria, ainda ficou pior.  mais fcil uma pessoa caminhar com a perna ferida do 
que com ataque de disenteria. Por favor, meu pai, faa o possvel por me arranjar as botas que lhe 
pedi. Fui promovido a capito e um capito deve apresentar-se calado, ainda que no tenha 
uniforme novo, nem dragonas. 
Contudo, o que interessava saber era que o exrcito do general Lee invadira Pennsylvnia. Mais 
uma batalha apenas e terminaria a guerra! E Darey Meade teria ento quantos pares de botas 
quisesse. Os rapazes seriam des, mobilizados e a alegria voltaria a reinar em todo o Sul. Os olhos da 
senhora Meade encheram-se de lgrimas ao imaginar o filho de regresso ao lar. 
Na manh de 3 de Julho, emudeceram bruscamente os cabos areos que asseguravam as 
comunicaes telegrficas com o Norte, guardando um silncio opressivo. que durou at ao 
princpio da tarde do dia seguinte. S ento come~ aram a chegar ao quartel-general, instalado em 
Atlanta, notcias fragmentadas. Travara-se rija peleja perto duma 
338 
localidade conhecida pelo nome de Gettysburgo, em Pennsylvnia, e na qual tomara parte o exrcito 
de Lee. As notcias eram incoerentes e vinham com considervel atraso, em virtude de a batalha se 
ter desenrolado em territrio inimigo e os relatos serem transmitidos por intermdio dos postos de 
Maryland e de Richmond. 
A incerteza quanto ao desfecho da luta foi aumentando gradualmente  medida que as horas 
decorriam e no tardou que uma angstia indizvel se apoderasse de todos os habitantes. No podia 
haver tortura pior do que viver na 
ignorancia do que se estava a passar. Famlias que tinham parentes no Exrcito pediam 
fervorosamente a Deus que os seus rapazes no houvessem tomado parte na batalha, enquanto 
aqueles que sabiam que os filhos, sobrinhos primos ou simples amigos pertenciam ao regimento de 
Ijarey Meade cerravam os dentes e diziam que era para eles uma honra ajudarem o general Lee a 
#
vibrar o golpe de misericrdia nos yankees. 
Em casa da tia Pittypat, as trs mulheres entreolhavam-se. Asliley pertencia ao regimento de Darey. 
No dia 5, chegaram as primeiras notcias desanimadoras, vindas do Oeste e no do Norte. 
Vicksburgo cara em 
poder do inimigo, aps um cerco brutal, que suportara durante longos meses. Prtcamente, todo o 
rio Mississippi, desde Saint Louis e Nova Orlees, estava agora nas mos dos yankees. A 
Confederao fora dividida ao meio. Em qualquer outra altura, a notcia deste desastre teria 
alarmado toda a populao de Atlanta e provocaria srias apreenses. Naquele momento, porm, 
ningum deu mostras 
de compreender o real significado da queda de Vicksburgo. As atenes gerais volviam-se para 
a presena de Lee na Pennsylvnia, procurando enfrentar as hostes adversrias no seu prprio 
campo. A perda de Vicksburgo no constituiria uma catstrofe se Lee vencesse no Leste, abrindo 
caminho at Filadlfia. Nova Iorque e Washngton. A conquista destas cidades paralisaria todo o 
Norte e compensaria de sobra o desaire sofrido nas margens do Mississippi. 
As horas passavam e a sombra negra da tragdia pairava sobre Atlanta. Por toda a parte, sob os 
alpendres, nos passeios, e at em plena rua, as mulheres se reuniam em grupos mais ou menos 
numerosos, dizendo umas s outras 
339 
que a falta de notcias era bom sinal, tentando tranquilizar-se mtuamente, procurando assumir uma 
atitude corajosa. Pelas ruas silenciosas corriam boatos terrveis, como morcegos voando s cegas. 0 
general Lee morrera em combate, os sulistas tinham perdido a batalha e as listas das baixas, que 
pareciam interminveis, deviam estar a chegar de um instante para outro. Conquanto no quisessem 
dar crdito a esses rumores, os habitantes das povoaes mais prximas de Atlanta acorreram  
cidade, avassalados pelo pnico, e assediaram as redacD"_dos jornais e o quartel-general, pedindo 
notcias, quaisquer noticias, nem que fossem ms. 
A multido comprimia-se em torno da estao do caminho de ferro., aguardando a chegada dos 
comboios vindos de Leste, na esperana de saberem alguma coisa de concreto, junto do posto de 
telgrafo, em frente do edifcio onde estava instalado o quartel-general, diante daqueles onde eram 
impressos os dirios de Atlanta, e cujas portas se encontravam cuidadosamente fechadas e 
trancadas. Era uma multido estranha, que se mantinha imvel e silenciosa, e que cada vez 
engrossava mais. Ningum falava. S de tempos a tempos a voz trmula dum velho rompia o 
silncio a fim de pedir notcias. Contudo, longe de despertar reaco violenta da parte dos 
circunstantes, esses gritos espordicos pareciam exercer precisamente o efeito contrrio, pois o 
silncio que se erguia tornava-se ainda mais profundo e opressivo. E, quando a resposta habitual 
surgia: "Continua a no haver notcias do Norte, salvo a, de que se travou uma batalha, cujos 
resultados so por enquanto desconhecidos", era como se todos os parentes ficassem derreados sob 
um peso descomunal. 0 friso de mulheres que aguardavam o comunicado oficial, a p firme ou nas 
suas carruagens ' continuava a adensar-se e o calor provocado por aquela enorme aglomerao de 
corpos humanos, bem como a poeira levantada por milhares de ps impacientes, tornavam a 
atmosfe "ra quase irrespirvel. As mulheres no falavam, mas os seus rostos, plidos e 
desfigurados, ostentavam expresses suplicantes que eram muito mais eloquentes do que quaisquer 
lamentaes. 
Devam ser raras as mulheres que no tinham um irmo, um filho, o pai, o marido ou o noivo na 
frente de batalha. Todas elas tremiam s de pensar na possibilidade de a Morte lhes ter batido  
porta. Estavam ali  espera duma notcia 
340 
que confirmasse os seus temores e no arredariam p do local onde se encontravam enquanto no 
soubessem o que de facto acontecera. Aguardavam noticias da Morte, mas no admitiam sequer a 
possibilidade da derrota. Que as tropas do general Lee tivessem sido desbaratadas era um 
pensamento que se apressavam a banir do. esprito. Podiam os homens que elas amavam estar nesse 
momento agonizando sobre a erva verdejante dos prados de Pennsylvnia, podiam os regimentos 
#
sulistas estar sofrendo a mais rude punio e os soldados tombando aos milhares, vitimados pelas 
balas do inimigo, que no pereceria a Causa por que eles to galhardamente haviam lutado. Para 
tornar o lugar dos que tinham sucumbido surgiriam novos efectivos, com 
o grito de revolta nos lbios e o corao a transbordar de amor-ptrio. Donde esses homens sairiam, 
ningum o sabia dizer. Sabiam apenas, e isso constitua para eles uma coisa to certa como a 
existncia dum Deus zeloso e justo no cu, que o general Lee era um cabo de guerra pro-digioso e o 
Exrcito de Virginia uma fora indestrutvel. 
Com as sombrinhas abertas, Scarlett, Melanie e Pittypat estavam sentadas na sua carruagem, cuja 
capota se encontrava descida, em frente do edifcio do Daily Examiner. As mos de Scarlett 
tremiam tanto que o guarda-sol lhe danava sobre a cabea; Pitty estava to inquieta que o nariz se 
lhe franzia num trejeito frentico como o do coelho; e Melanie conservava-se imvel, como que 
petrificada, com os olhos iluminados por um claro de angstia que se acentuava  medida que o 
tempo ia passando. Naquelas ltimas duas horas, apenas tinha aberto a boca uma vez, no momento 
em que estendera  tia o frasquinho dos sais que retirara da bolsa, para lhe dizer, num tom em que 
pela primeira vez no pusera a habitual no-ta de ternura: 
-Tome, minha tia, e sirva-se dele, caso venha a sentir-se mal. Previnc@-a de que, se desmaiar, ser 
o Peter que a levar para casa, pois no sairei daqui enquanto no tiver notcias de... enquanto no 
tiver notcias. E no pense que vou permitir que Scarlett me deixe aqui szinha... 
Scarlett no tencionava abandonar o local, pois estava ansiosa por saber noticias de AshIey. No 
sairia dali nem 
que Pittypat corresse o risco de morrer de calor ou COMOo. AshIey fazia parte do exrcito do 
general Lee; por consequncia, poderia ter sido ferido e estar moribundo ou 
341 
ser j cadver, e a redaco do Daily Ex-aminer era o stio mais indicado para colher uma 
informao concreta acerca da sua sorte. 
Passeou um olhar pela multido que a rodeava, cumprimentando com leve inclinao de cabea as 
pessoas suas amigas e simples conhecidas. L estava a senhora Meade, com o chapu  banda, de 
brao dado com o filho mais novo, Phil, mancebo de quinze anos apenas; as duas manas McLures, 
tentando dissimular sob os lbios trmulos os dentes protuberantes; a senhora Elsing, direita que 
nem um fuso, traindo apenas a sua ansiedade pelo desalinho dos caracis grisalhos e que se lhe 
haviam soltado da cula, e tendo a seu lado a filha, lvida como um fantasma. (Com certeza que 
Fanny no se apoquentaria assim por causa do irmo. Teria ela algum namorado na frente, sem que 
ningum suspeitasse?). A senhora Merriwether, cmodamente instalada na sua carruagem, afagava 
a mo de Maybelle, a qual, embora houvesse tentado disfarar o ventre volumoso sob o xaile em 
que se envolvera, se encontrava num estado de gravidez to adiantado que no conseguia iludir 
ningum. Scarlett pensou que era vergonhoso uma mulher apresentar-se em pblico naquelas 
condies Alis Maybelle no tinha motivos para estar preocupaa. No contava que as tropas de 
Lousiana houvessem tomado parte na invaso de Pennsylvnia. quela hora, o tenente Ren Picard 
devia estar tranquilamente a salvo, em Richmond. 
A determinada altura, a multido agitou-se para dar passagem a Rhett Butler, que conduzia 
cuidadosamente a montada na direco do local onde se encontrava estacionada a carruagem da tia 
Pitty. "]@ preciso ter coragem para se atrever a aparecer aqui nu 'ma ocasio destas!" pensou 
Scarlett. "Ele bem sabe que toda a gente o detesta e que basta o facto de no usar farda para que 
sintam o desejo de lhe reduzir os -ossos a uma massa informe". Ao v-lo aproximar-se teve ganas 
de lhe atirar a primeira pedra. A presena de Rhett Bufler era como um insulto a todos os 
circunstantes. Como ousava ele apresentar-se ali, montado naquele magnfico animal-, com as botas 
altas reluzentes como um espelho, impecvel no seu fato de linho branco, despreocupado, bem 
nutrido e de charuto nos lbios, enquanto AshIey e todos os outros rapazes arriscavam a vida na luta 
contra os yankees, afrontando os horrores da fome, do calor, do cansao e da disenteria? 
342 
Rhett Butler avanava com precauo perseguido pelos olhares rancorosos que a multido lhe 
#
la@ava. Os velhotes resmungaram entre dentes  sua passagem e a senhora Merriwether, que no 
tinha medo de nada nem de ningum, soergueu-se no banco da carruagem e, com voz clara e ntida, 
lanou-lhe em rosto o mais venenoso e ultrajante dos eptetos: "Especulador!" Rhett no deu 
resposta. Continuou a aproximar-se, sem prestar ateno  multido que o cercava, descobriu-se 
para cumprimentar Melly e Pitty, contornou a carruagem, fez o cavalo estacar ao lado da portinhola 
junto da qual Scarlett estava sentada e, inclinando-se, segredou-lhe ao ouvido: 
-No acha que faz falta aqui o Dr. Meade, para botar um daqueles discursos em que acaba sempre 
por falar na "vitria que um dia h-de vir pousar como uma guia altaneira sobre os nossos 
estandartes?" 
Scarlett voltou-se para, o encarar, como urna gata assanbada, com os nervos tensos pela ansiedade. 
Abriu a boca a fim de o invectivar, mas Rhett f-la calar-se com gesto autoritrio. 
- Minhas senhoras - disse ele em voz alta - quis ter o privilgJo de lhes comunicar que, segundo 
informaes qu acabo de receber no quartel-general, j chegaram a Atlanta as primeiras listas das 
baixas sofridas pelo regi~ mento do general Lee, em Pennsylvnia. 
Elevou-se um murmrio entre as pessoas que rodeavam a carruagem de Pittypat e que se 
encontravam suficientemente prximas para ouvirem as palavras de Rhett ButIer. A novidade 
espalhou-se com a rapidez do relmpago e a multido esboou um movimento colectivo na inteno 
de &e, precipitar para -@Vhitehall Street, em direco ao quartel-general. 
-Esperem! -gritou Rhett, erguendo-se sobre os estribos. -As listas j foram enviadas para as 
redaces dos jornais, onde esto agora a ser impressas. Fiquem onde esto, por favor! 
- Oh, capito Butler! - exclamou Melanie ' voltando-se para ele, com os olhos marejados de 
lgrimas. -Que gentileza a sua, a de nos vir dar essa notcia! Quando ser<> distribudas as listas? 
-Dum momento para outro, minha senhora. os originais foram entregues nas redaces h cerca de 
meia hora. 
0 oficial encarregado da publicao da lista no quis que 
343 
ib@ IL., 
a notcia fosse comunicada ao pblico mais cedo, com receio de que a multido assaltasse os 
edifcios dos jornais antes de a impresso estar feita. Ah! Ali as tem! 
Abriu-se uma das janelas da fachada lateral do prdio, atravs da qual surgiu a mo de algum 
brandindo um punhado de provas tipogrficas, ainda hmidas da tinta e cobertas de nomes 
impressos em linhas cerradas, formando colunas interminveis, 0 povo atiro-se a elas, arrancandoas 
da mo que as empunhavam rasgando-as, numa nsia indescritvel. Os que tinham con@eguido 
ficar com um pedao tentavam retirar-se, a fim de o ler em sossego, e os que no haviam logrado 
apanhar nenhuma empurravam os restantes'gritando: "Deixem-me passar!" 
-Segure aqui nas rdeas -ordenou secamente Rhett, desmontando e entregando o brido a Peter. 
Viram-no abrir caminho atravs da populaa, aplicando brutalmente a fora herclea dos seus 
ombros musculosos para chegar at junto da janela. Da a pouco estava de volta com meia dzia de 
listas. Entregou uma a, Melanie e distribuiu as restantes pelas senhoras que ocupavam as carruagens 
estacionadas no local -as irms McLures, e as senhoras Meade, Merriwether, Elsing e outras. 
-Depressa, Melly-disse Searlett com o corao na garganta e vibrando de impacincia ao ver que as 
mos de Melly tremiam tanto que era prticamente impossvel ler o que estava escrito. 
-V tu -sugeriu Melanie, e a, cunhada arrancou-lhe prontamente a lista dos dedos. 0 W? Onde diabo 
estaria o W? Ah, l estava ele, ao fundo da folha, quase ilegvel! White - murmurou Scarlett e, de 
sbito, a voz dela estremeceu. - Wilkens... Winn... Zebulon... Oh, MeIly, o nome dele no vem 
aqui! 0 nome dele no vem aqui! Deus seja louvado! MeIly, apanha o frasco dos sais. Ajuda-me a 
endireitar a tia! 1 
Chorando de alegria, Melanie agarrou no.queixo da tia Pitty e aplicou-lhe o frasco dos sais sob o 
nariz. Do outro lado, Scarlett passou um brao em torno da cintura da velhota, com o corao a 
transbordar de alegria. AshIey estava vivo. Nem sequer figurava no rol dos feridos. Como Deus fora 
misericordioso em o poupar! Como... 
#
Ouviu um gemido surdo e, voltando-se, viu Fanny Elsing,e--conder a cabea no ombro da me e a 
lista das baixas escorregar-lhe dos dedos para o tapete da carruagem. 
344 
A senhora Elsing abraou a filha e disse ao cocheiro, com lbios tr@mulos: 
-Para casa,. De 'pr@sa! Scarlett deitou unia olhadela rpida s listas. De nenhuma delas constava 
o nome de Hugh Elsing. Fanny devia. ter o namorad@-.na guerra e agora chorava a sua morte. 
Guardando un@'silncio constrangido, a multido abriu alas para dar passagem ao trem dos 
Elsings, logo seguido pelo carrinho das McLures. Era Faith que empunhava as rdeas, de 
fisionomia contrada numa expresso dura e com os lbios cerrados numa linha severa que lhe 
cobria os dentes. Plida como cera, Hope ama@fanhava desesperadamente a saia, da irm, junto da 
qual ia sentada, muito direita, com os olhos fixos num ponto do espao  sua frente. Pareciam duas 
velhas. Dallas McLure era o nico parente que lhes restava  superfcie da terra. E tambm ele tinha 
sucumbido naquela hecatombe infernal. 
- MeIly! Melly! - gritou Maybelle, radiante. - Ren est vivo! E AshIey tambm, graas a Deus! -0 
xaile escorregara-lhe dos ombros e a sua condio estava agora bem patente aos olho5 de todos. No 
entanto, nem ela nem a me davam mostrs de @e preocuparem com o facto naquele momento. - 
Oh, senhora Meade! Ren... - A voz dela perdeu, de sbito, toda a! vivacidade. - Melly, olha! 
Senhora Meade, faa favor! Dar estar... 
A senhora Meade tinha a ca%ea cada para o peito e nem sequer a levantou quando ouviu 
Maybelle cham-la. No entanto, o rosto de Phil, que no abandonara a me durante aquele tempo 
todo, era como que um livro a-berto no qual qualquer pessoa poderia ler o que tinha acontecido. 
- Vamos, minha me! Coragem! - murmurava ele, sem grande convico. 
A me levantou a cabea, e os olhos dela cruzaram-se com os de Melanie. 
-Pobre filho! J no precisa das botas que nos pediu... 
- Oh, meu Deus! -exclamou Melly, principiando a soluar. 
E, descarregando o fardo que para ela constitua a cabea inerte da tia Pitty sobre o ombro de 
Scarlett apeou-se da carruagem e encaminhou-se na direco da d@ mdico. 
- Lembre-se de que ainda me tem a mim _ dizia Phil, num esforo desesperado para 
reconfortar a criatura lvida 
345 
que estava junto dele. - Deixe-me partir, minha me, para exterminar de vez esses malditos yank... 
A senhora Meade agarrou o brao do filho como se no tencionasse larg-lo, mais, e disse, com a 
v@z embargada pela angstia: 
- No! 
- Phil Meade, faa o favor de se calar! - interveio Melanie num tom autoritrio que s 
excepcionalmente empregava, sentando-se ao lado da senhora Meade e tomando-a nos braos. - 
Pensa que a sua me se tranquiliza com a ideia de que voc quer arriscar-se a ter a mesma sorte que 
Darey? Que disparate, meu Deus! Leve-nos para casa, depressa! 
E, enquanto Phil empunhava as rdeas, voltou-se para Scarlett e acrescentou: 
-V se consegues meter a tia Pitty na, cama e depois vem ter comigo a casa da senhora Meade. 
Capito Butler, quer ter a amabilidade de se encarregar de levar a triste nova ao Dr. Meade? Est no 
hospital... 
A carruagem afastou-s@e entre a multido que dispersava, Viam-se mulheres a chorarem de 
alegria, mas a maior parte estava como que assombrada, incapaz de avaliar a verdadeira extenso da 
tragdia que as atingira. Scarlett examinou de novo as listas manchadas de tinta ainda fresca, que 
Rhett Bufler lhe tnha trazido, e passou rpidamente em revista os nomes que delas constavam, em 
busca dos que porventura lhe fossem familiares. Agora que sabia AshIey a salvo, j podia 
preocupar-se com a sorte dos amigos. Como o rol era longo! Como era pesado o tributo pago por 
Atlanta e por toda a Gergia! 
Deus do Cu! "Raiford Calvert, tenente". Raif! De sbito, Scarlett recordouse dum dia j distante 
em que tinham fugido juntos e haviam voltado para casa ao anoitecer, exaustos e famintos com 
#
medo da escurido. 
"Joseph K. Fontine, soldado". 0 pequeno Joe, irascvel e asmmadio! E a pobre Sally, que ainda se 
no refizera completamente do parto! 
"Lafayette Munroe, capito". Lafe estava noivo de Cath~ leen Calvert. Que pouca sorte a daquela 
rapariga! Sofrera uma perda dupla, o irmo e o noivo. Mas a de Sally ainda fora maior: o irmo e o 
marido. 
Oh, aquilo era terrvel! Scarlett quase receava prosseguir a leitura. A tia Pitty respirava 
ruidosamente com a 
346 
cabea apoiada no ombro da sobrinha, fazendo ouvir de tempos a tempos um suspiro prolongado. 
Sem a menor cerimnia, Scarlett reclinou-a contra o canto oposto da carruagem e continuou a ler. 
No, no podia ser!... Trs Tarletons naquela lista! 
0 tipgrafo decerto repetira o apelido, com a pressa por engano. Mas no, eles ali estavam, os trs. 
"Bent @@arleton, tenente". "Stuart Tarletori, cabm. -"Thomas Tarleton, soldado". E, a juntar 
queles, havia ainda o de Boyd, morto no primeiro ano da guerra e sepultado algures em Virgnia. 
Dos quatro irmos Tarletons, nenhum restava agora! Tom e os gmeos, pernaltas, preguiosos, com 
a sua paixo pela tagarelice disparatada, pelas brincadeiras maliciosas, e Boyd que tinha a 
graciosidade dum bailarino e uma lngua vperina, todos eles haviam sido ceifados pelas balas 
yankees... 
Interrompeu a leitura e largou as listas sobre o assento da carruagem. No queria passar pela 
desgosto de ver no rol das baixas sofridas pelo exrcito do general Lee os nomes de mais alguns dos 
seus antigos companheiros de infncia, com quem crescera e brincara, com quem mais tarde havia 
danado namorado e at trocado os primeiros be'.jos de amor. Deb@lde tentou chorar ou fazer 
qualquer cfkisa susceptvel de aliviar a presso dos dedos frreos que lhe apertavam a garganta. 
- Estou sinceramente penalizado, Scarlett - disse Rliett. A rapariga levantou os olhos para ele. 
Olvidara por completo a sua presena ali. - H muitos amigos seus? 
Searlett inclinou a cabea afirmativamente e fez um esforo para falar. 
- Quase todas as famlias da comarca esto de luto, agora... E os trs Tarletons... morreram todos... 
0 rosto dele ostentava uma expresso austera, quase sombria. Nos seus olhos no se vislumbrava o 
habitual claro zombeteiro. 
- E ainda no chegmos ao fim - observou. - Estas so as primeiras listas e, como tal, devem estar 
bastante incompletas. A lista definitiva s ser conhecida amanh. -Baixou a voz de forma que as 
pessoas que se encontravam prximo no pudessem ouvir o que ia dizer e prosgeguiu- - Ou -eu me 
engano muito. Scarlett, ou 0 general Lee perdeu a batalha. H quem diga que foi obrigado, a 
retirar para Maryland. 
347 
A rapariga ergueu Para Rhett um olhar desvairado. Contudo, no era o pavor da, derrota que lhe 
atormentava o esprito. A lista definitiva s seria conhecida no, dia seguinte! Mais vinte e quatro 
horas de cruel incerteza! No pensara nessa eventualidade, to satisfeita tinha ficado ao verificar 
que o nome de AshIey no figurava, no rol. Mas haveria no dia seguinte uma segunda relao, 
decerto muito maior com muitos outros nomes alm daqueles. Quem lhe ga@antia a ela que 
naquele momento AshIey no se encontrava tambm entre os cadveres que juncavam o campo de 
batalha, dormindo j o sono eterno? E, no entanto, s no dia seguinte ou talvez uma semana ou duas 
mais tarde poderia saber ao certo o que lhe acontecera! 
- Oh, Rhett, para que haver guerras,?! No teria sido muito melhor que os yankees houvessem 
comprado os escravos... ou que ns lhos tivssemos cedido gratuitamente? 
- Esta guerra no tem nada que ver com a escravatura, Scarlett. A questo, dos negros foi um mero 
pretexto. Os homens adoram as guerras e s assim se explica, que se metam nelas. As mulheres 
detestam-nas, mas os, homens no. Tm mais amor a uma guerra do que a qualquer rapariga, por 
mais bonita que seja. 
Os lbios arquearam-se,lhe no sorriso trocista que lhe era peculiar e o rosto iluminou~se-lhe 
#
novamente. 
- At  vista, Scarlett - disse ele, tirando o chapu. - 
Vou ver se encontro o Dr. Meade. Calculo que a ironia do Destino, que me indigitou para lhe levar 
a notcia da morte do filho, lhe passe despercebida. E tenho a certeza de que, daqui a algum tempG, 
ele h-de revoltar-se contra a ideia de que foi um especulador quem o informou do triste fim dum 
heri, 
Scarlett meteu a tia Pttypat na cama, obrigou-a a tomar um estimulante e, deixando-a entregue aos 
cuidados de Prissy e da cozinheira preta, saiu para a rua, encaminhando-se na direco da, casa do 
Dr. Meade. A senhora Meade tinha recolhido ao seu quarto, no primeiro andar, acompanhada pelc> 
filho e a aguardava o regresso do marido. Mela- nie estava sentada na sala, de visitas' conversando 
em voz baixa com um grupo de vizinhas que tinham vindo apresentar os psames famlia enlutada, 
enquanto, de agulha e tesoura nas mos, modificava o vestido de luto que a senhora Elsing 
emprestara  senhora Meade. Invadira a 
348 
casa o cheiro acre das roupas que a cozinheira, chorosa, remexia no caldeiro onde as pusera a 
tingir de preto. 
- Como est ela? - inquiriu Scarlett, sem erguer a voz. 
- Ainda no verteu uma lgrima - respondeu a cunhada. - P, terrvel quando se quer chorar e no se 
pode. No sei como os homens conseguem passa-r por estes transes sem chorar. Creio que  por 
serem mais fortes e corajosos do que ns. A senhora Meade est disposta a ir szinha at 
Perinsylvnia a fim de trazer o corpo do filho para casa. 
0 doutor no pode abandonar o hospital nesta altura. 
-Que horror! Por que no incumbe o filho desse trabalho? 
- Porque receia que Phil se aliste no Exrcito assim que se veja fora de casa. Bem sabes que ele est 
bastante desenvolvido para a idade que tem. Alm disso nos distritos de recrutamento j esto a 
aceitar rapazes com dezasseis anos. 
As vizinhas foram-se retirando uma a uma, a fim de no se encontrarem presentes quando o Dr. 
Meade chegasse a casa. Scarlett e Melanie ficaram na sala, a costurar. Embora se mostrasse triste, 
Melanie estava calma. De vez em quando as lgrimas rolavam-lhe pelas faces e caam-lhe sobre o 
vestido que tinha entre as mos. A julgar pelo seu aspecto ainda no lhe ocorrera a ideia de que a 
batalha podia, ter prosseguido. e Ashley sido morto aps a elaborao da lista que haviam lido. 
Angustiada, Scarlett perguntava a si prpria que deciso tomar, se repetir  cunhada as palavras de 
Rhett e buscar um conforto duvidoso, no sofrimento de MeIly, se guardar silncio. Por fim, 
resolveu calar-se. Era prefervel que Melanie continuasse a ignorar que tambm ela se preocupava 
com a sorte de Asliley. Deu graas a Deus pelo facto de toda a gente, incluindo a tia e a cunhada, se 
encontrar suficientemente apoquentada com os seus prprios problemas para no haver reparado na 
atitude dela, nessa manh. 
Continuaram a costurar durante largo tempo, at que ouviram o tropel de um cavalo que acabou por 
estacar  porta do jardim. Espreitaram atravs das cortinas e viram o Dr. Meade desmontar. Trazia 
os ombros descados e a cabea curvada, com a barba aberta em leque sobre o peito. Entrou em casa 
lentamente e, pousando o chapu e a maleta, beijou as duas raparigas sem dizer palavra. Em 
seguida, encaminhou-se vagarosamente para ar, escadasPhil desceu poucos instantes depois. Era um 
moo alto, 
349 
1 &WA@ 
quase esqueltico, desengonado e tmido. Scarlett e Melanie dirigiram-lhe com o olhar um convite 
mudo para se lhes reunir mas ele abriu a porta da rua e sentou-se no primeiro d@grau do alpendre, 
escondendo a cabea entre as mos. 
Melly suspirou. 
- Est furioso porque os pais no o deixam alistar-se. Imagina tu, Scarlett: tem apenas quinze anos e 
j quer ir para a guerra! Como deve ser bom ter um filho assim! 
#
- Para qu? Para o ver morrer estpidamente? - ripostou Scarlett, em tom desabrido, pensando em 
Darey. ._1r,prefervel ter-se um filho, nem que o Destino o talhe para morrer numa guerra, a no ter 
nenhum - retrucou Melanie, engolindo em seco. - Tu no compreendes, Scarlett, porque Deus j te 
concedeu essa graa, mas a mim... Oh, Searlett, no calculas como eu desejo ter um filho! Sei que 
no  muito prprio dizer uma coisa destas, assim sem mais nem menos, mas  a pura verdade, 
Todas as mulheres desejam ter filhos e tu no o ignoras. 
Scarlett teve que fazer um @sforo, sobre si prpria para conter uma gargalhada. 
-Se for da Vontade'de Deus que Ashley tenha de... de morrer, estou convencida de que teria fora 
para arrostar com esse golpe muito embora preferisse morrer tambm. No entanto s@ponho que 
Deus me daria nimo para resistir ao desgo@to. Mas tenho a certeza de que no suportaria a 
desgraa de ficar sem ele e sem... e sem um filho para me reconfortar da sua perda! Oh, Scarlett, 
como s feliz! Perdeste Charles,  certo, mas ficaste com o filho dele. Ao passo que se AshIey 
falecer, ficarei sem ningum. Perdoa-me, queri4 mas s vezes chego a ter cimes de ti. 
- Cimes... de mim? - repetiu Scarlett, sentindo~se de sbito esmagada pelo peso dos remorsos. 
- Sim, por teres um filho e eu no. s vezes, deixo-me embalar pela iluso de que Wade Hampton 
me pertence, to grande  a falta que sinto! 
- Tolices! - exclamou Scarlett, aliviada. Lanou um olhar de esguelha  cunhada; que continuava 
entretida com o arranjo do vestido. As faces dela estavam ruborizadas at s orelhas. Melanie podia 
muito bem desejar filhos, mas no tinha corpo para. os conceber. Pouco mais alta era do que uma 
rapariga de doze anos e tinha as ancas estreitas e os seios pequenos como duas 
350 
tangerinas enfezadas. Repugnava-lhe a ideia de que Melanie viesse a conceber. E a este pensamento 
seguiram-se outros que tentou afastar do esprito. Se Melanie tivesse um filho de AshIey, seria 
como se lhe arrancassem, a ela, Searlett, algo que lhe pertencesse. 
- Perdoa-me o que disse a respeito de Wade Hampton. Tu sabes como eu gosto dele. No ests 
zangada, pois no? 
- No sejas pateta - ripostou secamente a cunhada. - 
Deixa-te dessas coisas e vai confortar Phil que est l fora, a chorar. 
15 
0 EXRCITo do general Lee rechaado para Virgnia aps a batalha de Gettysburgo, @assou a 
estao invernosa biva, cado na regio de Rapidan. A derrota infligida pelas tropas abelicionistas 
deixara as foras confederadas exaustas e com o moral rudemente abalado. AshIey chegou a Atlanta 
poucos dias antes do Natal, a fim de passar a quadra. festiva com a famlia. Ao v-lo aps to 
prolongada ausncia, Scarlett ficou assustada com a veemncia das emoes que a sua chegada nela 
reacendeu. Quando, no vestbulo dos Doze Carvalhos, assistira ao casamento dele, pensara que 
nunca,o seu corao despedaado poderia am-lo com mais intensidade. S agora verificava que as 
sensaes que experimentara nessa noite longnqua eram do mesmo gnero das que experimenta 
uma criana que de sbito se v despojada dum brinquedo. Agora, os seus sentimentos eram muito 
mais profundos e intensos, pois 6,,; longos devaneios e a represso constante que se vira obrigada a 
exercer sobre si prpria para no trair o seu segredo tinham tornado mais forte o amor recalcado. 
Com o uniforme desbotado e coberto de remendos, e o cabelo loiro tostado, pela inclemncia do sol 
estival, o AshIey que tinha diante dos olhos era muito diferente do rapaz sentimental e sonhador que 
amara com verdadeira paixo antes da guerra, 0 homem de agora parecia-lhe mil vezes mais 
atraente do que o rapaz indolente que vira partir dos Doze Carvalhos a caminho do campo de 
batalha. Havia emagrecido e a sua pele, outrora plida, adquirira ao contacto com o ar livre uma 
tonalidade bronzeada que, juntamente com o bigode de guias descadas, que deixara 
351 
crescer segundo as velhas tradies da cavalaria sulista, lhe dava o aspecto dum verdadeiro soldado. 
Aprumado no seu uniforme podo pelo uso ' conservando a atitude marcial do militar que toma a 
srio o seu papel, com o coldre suspenso do cinturo, e a, bainha da espada, cheia de amolgadelas, a 
bater-lhe garbosamente contra o cano da bota alta e as esporas brilhantes a tilintarem-lhe a cada 
#
passo, ele ali estava diante de si -o major AshIey Wilkes, C. S. A. 0 hbito do comando dera-lhe um 
ar austero e autoritrio, como que o tornara mais senhor de si, e as rugas que comeavam a delinearse- 
lhe nos cantos da boca acentuavam ainda mais essa impresso. Havia algo de estranho na rigidez 
da sua atitude, no brilho glacial que lhe iluminava o olhar, A lentido e a indolncia de 
outrora`tinha dado lugar a uma vivacidade felina, a irrequietude vigilante duma criatura que vive 
com os nervos sob tenso permanente, como as cordas dum violino.'Nos olhos dele pairava uma 
expresso de fadiga que denunciava as suas preocupaes e a ossatura delicada do rosto quase 
ameaava romper-lhe a pele tisnada... Era bem aquele o seu adorado AshIey, mas como estava 
diferente! 
Scarlett planeara passar o Natal em Tara mas assim que chegou (> telegrama de AshIey nenhuma 
6ra @errena, nem mesmo um convite directo de lIen, conseguiria arranc-Ia da cidade. Se 
AshIey tencionasse gozar a licena em casa, Scarlett ter-se-ia apressado a fazer as malas e a partir 
para, Tara; no entanto, ele escrevera  famlia, pedindo que se lhe viesse reunir e tanto John Wilkes 
como Honey e India se encontravam j em Atlanta. Voltar para, Tara sem matar as saudades de 
AshIey, que fora acumulando durante aqueles dois anos? Desperdiar o prazer de ouvir o som 
melodioso da. sua voz e a ventura de lhe ler nos olhos a certeza de que a no esquecera? Nunca! 
Nem mesmo a prpria me merecia tamanho sacrifcio! 
AshIcy degembarcou em Atlanta quatro dias.antes -do Natal, acompanhado por um pequeno grupo 
de rapazes de Clayton, igualmente em gozo de licena tudo o que restava do numeroso contingente 
humano forn@c1do, pela comarca, aps a hecatombe de Gettysburgo. Desse punhado de homens 
fazia parte Cade Calvert, um Cade esqueltico e desfigurado, que nocessava de tossir, bem como 
dois dos Munroes, radiantes por estarem de licena-a primeira que obtinham desde 1861 -e Alex e 
Tony Fontaine, sem- 
352 
pre barulhentos conflituosos e embriagados. Todos eles tinham de esper@r duas horas pela chegada 
do comboio que os levaria para o Sul e, como os componentes mais sbrios se viam em apuros para 
evitar que os Fontaines brigassem um com o outro e se envolvessem em desordem com os 
desconhecidos que aguardavam transporte ao longo da estao Ashley decidiu lev-los at casa da 
tia Pittypat. 
-T6dos ns julgvamos que eles ficassem fartos de lutar depois do que passmos em Virgnia e 
Pennsylvnia, -comentou Cade Calvert, com azedume, enquanto os dois irmos quase se 
engalfinhavam, como dois galos de combate, disputando a primazia de beijar a mo da solteirona, 
que os bbservava embevecida e inquieta ao mesmo tempo. 
- Mas no. Desde que desembarcmos em Richmond que eles no fazem outra coisa seno beber e 
arranjar sarilhos. Ainda chegaram a estar presos e se no fosse o palavriado de Astile decerto teriam 
passado o Natal na. cadela. 
Mas Lrlett, no prestou ateno ao que ele disse, to enlevada estava porse encontrar de novo junto 
de Astiley. Como tinha ela podido pensar, durante aqueles dois anos, que havia outros homens 
simpticos, atraentes ou interessantes? Como pudera permitir que eles lhe houvessem feito a corte, 
se AshIey ainda se encontrava vivo? No entanto, A,shley estava de regresso ao lar. Naquele 
momento, apenas 
* largura da alcatifa que cobria o soalho da sala de visitas 
* separava dele. Tinha de fazer um esforo quase sobre-humano para no se debulhar em lgrimas 
sempre que levantava os olhos e o via diante de si, recostado no sof entre Melanie e India com 
Honey debruada sobre o seu ombro. Se ao menos lie assistisse tambm o direito de se sentar a seu 
lado e de passar o brao em torno da cintura dele! Se ao menos pudesse afagar-lhe durante alguns 
mnutos a manga do dlman, para se certificar de que ele estava realmente ali, pegar-lhe na mo e 
servir-se do seu leno para limpar as lgrimas de alegria que lhe marejavam os olhos! Porque 
Melanie estava a fazer tudo isso, sem o menor pejo ou constrangimento. A satisfao de ter 
novamente * marido junto de si havia logrado vencer a sua timidez * reserva. Agarrada a AshIey 
como um nufrago  tbua de salvao, manifestava abertamente a sua adorao por ele, tanto no 
#
olhar terno com que o fitava como nos sorrisos que lhe diriga e nas lgrimas que lhe rolavam pelas 
facesE Scarlett estava em demasia contente para se ressentir 
23 - Vento Levou - 1 353 
da, atitude da cunhada, em demasia feliz para ter cimes dela. AshIey tinha voltado so e salvo! 
De vez em quando levava a mo ao rosto acariciando, o ponto em que, a boca dele tinha aflorado 
aface, e como que sentia de novo a, comoo que experimentara nessa altura, enquanto os lbios se 
lhe entreabriam num sorriso. AshIey no a beijara a ela primeiro, evidentemente. Melanie lanarase- 
lhe nos braos, chorando incoerentemente, apertando-o contra si como se nunca mais o quisesse 
largar. Em seguida, fora a vez de Honey e de India, que o haviam arrancado dos braos de Melly 
sem cerimnia e coberto de beijos. Depois, AshIey oscultara a fronte do pai com uma ternura que 
demonstrava de forma bem clara os fortes laos de amizade que os uniam e a da tia Pitty, que no 
parava quieta um instante, vibr@ndo de excitao. Por fim, voltara-se para ela, rodeada pelos outros 
rapazes que reclamavam um beijo, e pousara-lhe os lbios ao de leve na face, exclamando: 
- Oh, Scarlett, como est bonita! Esse sculo tivera o condo de a fazer esquecer as palavras de 
boas-vindas que estudara para lhe dizer. S muito mais tarde ela reparou que AshIey no a havia 
beijado na boca.. Perguntou ento a si prpria se ele o teria feito, caso a houvesse encontrado 
szinha, se ele teria curvado o seu corpo vigoroso sobre o dela, erguendo-a at mal tocar no cho 
com as pontas dos ps e conservando-a assim nos braos durante longos momentos... E, como esta 
ideia a tornava feliz, optou pela afirmativa. Contudo, AshIey viera com oito dias de licena e, por 
conseguinte teria muito tempo para falar com ele longe de vistas e @lhares indis~ cretos. E 'ento, 
perguntar-lhe-ia: "Lembra-se dos passeios a cavalo que costumvamos dar atravs dos bosques?" 
Lembra-se do luar naquela noite em que nos sentmos nos degraus do alpendre de Tara e me recitou 
uma poesia?" (Santo Deus! Como, diabo era o ttulo da poesia?) "Lembra-se daquela tarde em que 
eu torci um p e me levou ao colo para casa? Chegmos j ao anoitecer, no foi?" 
Oh, havia tantas frases que ela poderia comear com aquele "lembra~se"! Tantas recordaes 
queridas que o fariam volver aos dias encantados em que ambos, como duas crianas descuidadas, 
vagueavam pelos bosques da comarca, tantas coisas que o fariam reviver as horas de enlevo que 
passara na sua companhia, antes de Melanie ter 
354 
entrado em cena! E enquanto estivessem a recordar o passado talvez ele deixasse transparecer no 
olhar um Iampejo de comoo que lhe permitisse oertificar-se de que, no obstante a barreira criada 
pelo seu afecto conjugal por Melanie, continuava a am-la com a mesma intensidade que no dia do 
piquenique, em que deixara escapar dos lbios a verdade que tanto se empenhava em ocultar. 
Contudo, nem sequer se deu ao trabalho de imaginar o que fariam os dois no caso de Asliley lhe 
declarar o seu amor por palavras inequvocas. J se contentava em saber que ele a amava... sim, 
nada perderia em esperar. Podia deixar Melanie`agarrar-se  vontade ao brao do marido, e chorar 
at se fartar, que a sua vez chegaria. Vendo bem as coisas, que podia uma rapariga ingnua e tola 
como Melanie saber acerca da difcil arte de amar? 
- Pareces um maltrapilho, meu amor - observou Mela~ nie, passados os primeiros instantes de 
comoo. - Quem foi que te remendou a farda e por que utilizaram pedaos de tecido azul? 
-Minha querida, e eu que me julgava o rbitro das elegncias! -disse Asliley, lanando um olhar 
apreciativo ao uniforme. - Mas compara-me com aquela meia dzia de vagabundos e talvez mudes 
de opinio. Foi Mose quem me remendou a roupa e, se queres que te diga, nunca supus que ele 
fosse capaz de fazer obra to asseada, tendo em ateno que nunca havia pegado numa agulha. 
Quanto  cor do tecido usado nos remendos, no h hesitao possvel quando uma pessoa chega ao 
ponto em que ou se resigna a vestir a farda toda esburacada, ou se sujeita a tapar os orifcios e 
rasges com pedaos recortados dos uniformes apreendidos aos yankees. E, no que se refere ao 
facto de o meu aspecto lembrar o de um maltrapilho, deves dar graas a Deus por no ter chegado a 
Atlanta descalo. As minhas botas soltaram o ltimo suspiro a no fim da s,emana passada -e eu 
ver-me-ia obrigado a empreender a viagem com dois pedaos de serapilheira enrolados nos Ps se 
no houvesse tido a sorte de abater dois soldados yankees que andavam em servio de patrulha. As 
#
botas dum deles serviram-me perfeitamente. 
E estendeu as pernas para que a mulher pudesse admirar as botas altas, cobertas de esfoladelas, 
de que havia despojado o cadver da patrulha yankee. 
- Eu  que j no tive tanta sorte - lamentou-se Cade. 
355 
@@JOJ'II@ ~ Ap 
h. i_ 
-As botas do outro eram dois nmeros abaixo do que eu e-alo e magoam-me horrIvelmente. Seja 
como for, no as descalarei enquanto no chegar a casa. 
- E pensar que este egosta imundo no as oferece a nenhum de ns - censurou Tony. - Umas botas 
que se adaptariam maravilhosamente aos pzinhos aristocrticos dos Fontaines! Com franqueza, at 
tenho vergonha de me apresentar diante da minha me -com estas chancas. Antes da guerra nem os 
nossos escravos queriam us-las. 
- No te preocupes - disse Alex 'lanando um olhar cobioso s botas de Cade. - Libert-l<>-emos 
daquela tortura assim que nos apanharmos no comboio. No me importaria que a me me visse tal 
qual como, estou a-ora mas aparecer diante de Dimity Munroe com os dedo@ de'fora, nessa  que 
eu no caio! 
- No querias mais nada! - protestou Tony. - Aquelas botas pertencem-me de direito. Fui eu que as 
reclamei primeiro. 
E encarou o irmo com um olhar coruscante. Receando, que eles chegassem a vias de facto, 
Melanie apressou-se a intervir e conseguiu afastar o perigo. 
- Eu trazia uma barba lindssima para lhes fazer surpresa -disse AshIey em tom pesaroso, 
esfregando o rosto onde ainda se viam sinais evidentes dos lanhos duma navalha romba - uma barba 
como no havia outra. Posso garantir-lhes que nem a de Jeb Stuart, nem a de Nathan Bedford 
Forrest levavam a melhor  minha. Porm, quando chegmos a Richmond, estes dois patifes - 
prosseguiu, apontando na direco dos Fontaines -depois de se barbearem, resolveram barbear-me 
tambm. Seguraram-me  fora e raparam-me a cara de tal jeito que ainda estou para saber como foi 
que me deixaram a cabea no seu lugar. Se o bigode escapou  razia destes vndalos, devo-o  
enrgica interveno de Evan e de Cade. 
- Deixe-o falar, senhora Wilkes. A senhora devia agradecer-nos o favor que lhe fizemos, pois tenho 
a certeza de que no reconheceria o seu marido com aquelas barbas indecentes - declarou Alex. - 
Fechar-lhe-ia a porta na cara assim que o visse aparecer. Alm disso, se o barbemos, foi para lhe 
manifestar a nossa eterna gratido pelo discurso que impingiu ao preboste, a fim de o convencer a 
soltar-nos. Uma palavra sua e rapar-lhe-emos o bigode enquanto o diabo esfrega um olho. 
356 
- Oh, no, agradeo muito a vossa boa vontade, mas no  preciso! - respondeu apressadamente 
Melanie, agarrando-se ao marido com uma expresso de pavor estampada no rosto, ao ver os dois 
irmos dispostos a juntar o gesto s palavras. -Acho que o bigode lhe fica s mil maravilhas. 
- Muito pode o amor - comentaram os Fontaines em coro, meneando a cabea um para o outro, 
como quem diz: "Ali no h nada a fazer". 
Assim que AshIey saiu para a rua a fim de transportar os amigos  estao de caminho de ferro na 
carruagem de Pitty, Melanie agarrou Scarlett pelo brao e disse: 
-0 uniforme de Ashley est um horror, no achas? 
0 dlman que lhe vou oferecer ser uma bela surpresa para ele. Oh, se ao menos o pano chegasse 
tambm para os cales! 
0 dlman destinado a Ashley constitua um assunto deveras penoso para Scarlett, que to 
veementemente desejaria ser ela e no a cunhada a oferecer-lhe aquele valioso presente de Natal. A 
l cinzenta usada na confeco dos uniformes tinha atingido preos fabulosos que rivalizavam com 
os das mais raras pedras preciosas, motivo por que a farda de AshIey fora feita com tecido de 
fabrico caseiro. At o prprio pano de algodo j escasseava no mercado, a ponto de a grande 
maioria dos soldados ter passado'a usar uniformes apreendidos aos yankees mortos em combate, 
#
depois de tingidos devidamente com cascas de noz verde. Todavia, Melanie tivera a sorte de 
arranjar um corte de fazenda de l com o comprimento suficiente para fazer um dlman -um dlman 
tanto ou quanto curto '  certo, mas que, de qualquer maneira, seria, bastante melhor do que 
aquele que Ashley trazia agora vestido. Melanie servira de enfermeira a um rapaz de Charleston que 
se encontrava hospitalizado e, quando ele morrera, cortara-lhe uma pequena madeixa de cabelo que 
enviou  me juntamente com o parco contedo das suas algibeiras e um relato reconfortante dos 
seus ltimos momentos, em que no havia qualquer aluso ao atroz sofrimento que antecipara o 
desenlace. Essa caridosa ateno originara uma troca de correspondncia entre ela e a me do 
desventurado moo a qual, ao saber que Melanie tinha o marido na frente de @atalha, lhe mandara 
o corte de tecido e os botes de lato que havia comprado para oferecer ao filho. Era uma bela pea 
de fazenda, grossa e quente, de tonalidade escura, que decerto 
357 
fora passada ao bloqueio e custara bastante caro. Encontrava-se agora nas mos do alfaiate e 
Melanie j lhe enviara recado para ter o dlman pronto na manh do dia de Natal. Scarlett pagaria 
tudo o que lhe pedissem pelos artigos necessrios  confeco do resto do uniforme, os quais 
infelizmente no existiam  venda. em nenhum estabelecimento de Atlanta. 
0 presente que tinha para Ashley era quase insignificante, comparado com o esplendor do dlman 
cinzento de Melanie. Consistia, num estojo pequeno forrado de flanela, com a preciosa carta de 
agulhas que Rhett lhe trouxera de Nassau, trs lenos de linho da mesma origem, dois tubos de 
linha e uma tesoura pequena. No entanto gostaria de lhe oferecer algo com cunho mais pessoal, algo 
com que uma mulher desejasse presentear o marido -camisa, par de luvas, chapu... Oli, sim, um 
chapu! 0 bivaque deformado que Ashley,trazia era simplesmente ridculo. Scarlett sempre 
detestara ver os soldados com aquela, espcie de barrete enfiado na cabea. Qual seria o aspecto de 
Stonewall Jackson se em vez do velho chapu de feltro usasse um ornamento daqueles? Os 
bivaques estavam muito longe de dar aos soldados a aparncia distinta que lhes convinha. Mas os 
nicos chapus que havia  venda em Atlanta eram uns quicos horrveis, de l, que nada tinham a 
invejar aos bivaques. 
Ao pensar no problema do chapu, lembrou-se de Rhett Butler, que os possua em grande 
quantidade: panams para o Vero, cartolas para cerimnia, chapus para caa e chapus de feltro, 
de abas largas, azuis, pretos e castanhos. Para que precisaria ele de tantos ' enquanto o seu adorado 
Ashley afrontava as inclemncias da chuva, cavalgando ao encontro do inimigo, com a gua a 
escorrer-lhe do bivaque pelo pescoo abaixo at lhe deixar as costas completamente encharcadas? 
"Tenho de convencer Rhett Butler a oferecer-me o chapu de feltro que comprou em Nassau nesta 
ltima viagem", pensou ela. "]@, preto, mas debru-lo-ei com uma fita cinzenta e pregar-lhe-ei na 
coi)a o distintivo do regimento de Ashley. Vai ficar uma maravilha". 
Cogitou durante alguns momentos na dificuldade que decerto iria encontrar em persuadir Rhett a 
desfazer-se do chapu sem lhe dar uma explicao plausvel. No podia dizer-lhe que tencionava 
oferec-lo a Asliley. Rhett fran- 
358 
ziria as sobrancelhas naquele trejeito irritante que costumava fazer sempre que ela mencionava o 
nome de Asliley, e com certeza que se recusaria a dar-lhe o chapu. S lhe restava um recurso. 
Inventaria uma histria de fazer chorar as pedras, acerca de um soldado que necessitava 
urgentemente de chapu e Rhett nunca chegaria a saber a verdade. . Durante toda a tarde, Scarlett 
manobrou no sentido de conseguir ficar a ss com Asliley por alguns minutos que fossem, mas 
Melanie no o abandonava nem por um instante sequer e, como se tal no bastasse, Honey e India 
seguiam-no por toda a parte, com os olhos, quase desguarnecidos de pestanas brilhando de prazer. 
At John Wilkes, visivelmente orgul@oso do filho, debalde procurava uma oportunidade de 
conversar com ele em particular. 
Durante o jantar foi a mesma coisa. Toda a gente o bombardeou com perguntas a respeito da guerra. 
A guerra! Quem se preocupava com a guerra? Scarlett tinha a impresso de que nem o prprio 
Asliley se interessava grandemente pelo que se estava passando nos campos de batalha. No 
#
cessava. de falar e ria-se amide, dominando a conversa com um -vontade que Scarlett nunca at 
ento notara nele, versando assuntos meramente triviais. Contou-lhes incidentes cmicos ocorridos 
com os amigos, descreveu humoristicamente certas peripcias da luta contra os yankees, evitando 
dramatizar os sofrimentos devidos  fome e s longas marchas debaixo de chuva, e pintou-lhes a 
figura do general Lee, que, do alto do seu cavalo aps a derrota de Gettysburgo, se voltara para eles 
e lhes dissera: "Sois de Gergia, camaradas, no  verdade? Nesse caso, vamos todos juntos, pois 
que sem vs no poderemos avanar!" 
Scarlett chegou  concluso de que ele falava ininterruptamente com o nico objectivo de impedir 
que lhe fizessem perguntas a que no queria responder. E, quando o viu curvar a cabea, vencido, 
ante o olhar perturbado com que o pai o fitava, sentiu-se invadir por uma estranha inquietao e 
perguntou a si mesma o que seria que Asliley tentava por aqu1a forma ocultar. Mas foi uma crise. 
passageira, pois no seu espirito no havia lugar para mais nada a no ser uma radiante sensao de 
felicidade e o desejo de lhe falar a ss. 
Essa sensao de felicidade persistiu at que todos os 
359 
componentes do crculo agrupados em torno da lareira comearam a bocejar e John Wilkes se 
levantou a fim de regressar ao hotel, com as filhas. Aps as despedidas, Ashley, Melanie, Scarlett e 
Pittypat encaminharam-se para a escada, precedidos por Peter, que alumiava o caminho, e s ento 
ela se apercebeu dum facto que a deixou como que petrificada, enquanto um calafrio lhe percorria a 
espinha. At quele momento Asliley tinha sido dela s dela e de mais ningum, apesar de no 
haverem troc@do uma palavra em particular durante toda a tarde. Mas agora, ao dar-lhes as boasnoites, 
acabava de notar que Melanie estava a tremer e que as suas faces, normalmente plidas, se 
encontravam cobertas de estranho rubor. Com os olhos cravados no tapete que cobria o soalho do 
vestbulo do primeiro andar, parecia dominada por um receio indefinvel e envergonhada da prpria 
felicidade. Melaffie nem sequer ergueu os olhos do cho quando o marido abriu a porta da alcova 
afastando-se para a deixar entrar primeiro. 
Ashley des@ediu-se com umas "boas-noites" tanto ou quanto bruscas evitando igualmente encarar 
Scarlett. 
A porta fec@ou-se sobre ele, deixando Scarlett boquiaberta a meio do vestbulo, s e desiludida. 
Ashley j no lhe pertencia. Pertencia a Melanie, e enquanto esta vivesse, Scarlett jamais poderia 
entrar com' ele para um quarto e fechar a porta, deixando da parte de fora o resto da humanidade -o 
mundo inteiro. 
Asliley estava prestes a partir de novo para Virgnia onde o aguardavam as penosas marchas sob 
chuva, e gra, nizo, acampamentos nas plancies nevadas, fome, cansao, sofrimento e o risco de o 
radioso encanto da, sua cabea loira e do seu corpo esbelto desaparecer de um momento para outro, 
como uma, formiga debaixo de insensvel taco. Aproximavam-se do seu termo os dias de luminosa 
beleza, as horas de inexcedivel felicidade. 
Aquela semana passara como num sonho, um sonho impregnado da suave fragrncia dos ramos de 
pinheiro das rvores de Natal, iluminadas por dezenas de pequeninas velas de cera e carregadas de 
bugigangas feitas em casa, um sonho cujos minutos haviam decorrido lestos como as palpitaes 
dum corao. Fora uma semana extenuante, no decurso da qual um sentimento misto de prazer e de 
tristeza levara Scarlett a povoar e a sobrecarregar os minutos de incidentes que lhe ficariam como 
recordaes queri- 
360 
das da curta visita de AshIey e que ela poderia relembrar a seu bel-prazer durante os longos meses 
de saudade que viriam, de pequenos pormenores de que mais tarde procuraria tirar todo o prazer 
que lhe pudessem proporcionar. Cantara, danara, rira, rodeando Ashley de todos os cuidados, 
satisfazendo os seus menores desejos antes mesmo que ele os manifestasse. Sorrira quando o vira 
sorrir, acompanhara todos os seus gestos e movimentos com um olhar atento, de forma que cada 
linha do seu corpo esbelto, cada trejeito dos lbios, cada variante da expresso fsionmica lhe 
ficasse gravada na memria, porque uma semana passaria depressa e a guerra duraria uma 
#
eternidade. 
Sentada no sof do vestbulo do rs-do-cho, com o seu presente no regao, Searlett aguardava que 
Asliley acabasse de se despedir da mulher, pedindo a Deus lhe concedesse a graa de permitir que 
ele descesse szInho, a fim de poder gozar por alguns minutos o prazer da ma presena a salvo de 
olhares indiscretos. Debalde apur 'ava o ouvido, esforando-se por sentir o que se estava passando 
no andar de cima, mas a casa parecia mergulhada num silncio sepulcral, em que o rudo da sua 
respirao ofegante se elevava como o resfolegar de uma locomotiva. A tia Pittypat devia estar @no 
quarto, a chorar, com a cabea enterrada no travesseiro pois que Astiley j se tinha despedido dela. 
Da alcova de Melanie, cuja porta se encontrava, fechada, no provinha som nenhum, nem mesmo 
um murmrio de vozes ou o rumor dum soluo. Scarlett tinha a impresso de que Ashley entrara 
para o quarto da mulher havia algumas horas j e lamentava amargamente os instantes preciosos 
que ele estava a perder junto de Melanie; o tempo voava e a hora da partida soaria, dentro em 
pouco. 
Recordou tudo o que tencionara dizer-lhe durante aquela semana. Todavia, no tivera ensejo de 
falar com ele  sua vontade e agora s muito dificilmente Surgira uma oportunidade para o fazer. 
Relembrou as frases que arquitectara, as recomendaes que a si prpria prometera fazer-lhe 
'algumas delas bem tolas, por sinal: "Tem cuidado, sim, Ashley". "Por favor, evita molhar os ps. 
Bem sabes como te constipas fcilmente". "No te esqueas de pr um jornal  volta do peito, por 
baixo da camisa, para no sentires tanto a friagem do vento". Mas havia muitas outras coisas que 
tambm lhe queria dizer. Outras coisas muito mais importantes, que 
361 
1~, 
desejaria confiar-lhe to importantes como as que gostaria de lhe ouvir dos lbi6s ou de ler nos seus 
olhos sonhadores, caso lhe faltasse coragem para as cqnfessar de viva voz... 
Queria dizer-lhe tanta coisa e o tempo era j to pouco! E at os escassos minutos que ainda lhe 
restavam poderiam resultar inteis se Melanie decidisse acompanh-lo  porta a fim de o ver entrar 
para a carruagem que o levaria  estao. Por que no se esforara ela por conseguir criar essa 
oportunidade com a necessria antecedncia? A culpa fora de Melanie, que nunca sara de junto 
dele, sempre a acarici-lo com o seu olhar apaixonado, para no falar nos amigos, parentes e 
vizinhos que, de manh at  noite, no haviam deixado a Ashle@ um nico momento de liberdade. 
E, quando acabavam de jantar, Asliley subia com a mulher para o quarto deles, a porta fechava-se e 
Scarlett via passar assim mais um dia sem conseguir o seu intento. Nem por uma s vez no decurso 
daquela breve semana, AshIey demonstrara a Scarlett, atravs de uma palavra ou de um olhar, nutrir 
por ela mais do que o afecto que um irmo, dedica a uma irm ou a um amigo, a um amigo de 
infncia. No podia deix-lo partir, talvez para sempre, sem saber se ele continuava a am-la. 
Porque ento, mesmo que AshIey morresse, restar-lhe-ia at ao fim dos seus dias a consolao do 
amor que ele lhe consagrara em segredo. 
Aps um quarto de hora de espera que se lhe afigurou uma eternidade, ouviu no andar superior o 
rumor dos seus passos e o rudo provocado pela porta do aposento que se abriu e fechou logo a 
seguir. Do topo das escadas chegou at ela o ranger das botas altas. Vinha s! Agradeceu a Deus o 
ter atendido a sua prece, Melanie devia estar completamente acabrunhada pela ideia de se separar 
dele uma vez mais e ficara estendida sobre o leito, a chorar a sua dor. Ia ter, finalmente, o ensejo 
por que tanto ansiara. Poderia falar-lhe a ss durante alguns minutos, durante momentos preciosos. 
Asliley descia as escadas vagarosamente, fazendo tinir as esporas. Scarlett ouvia distintamente o 
rudo do sabre batendo contra o cano da bota, cada vez mais prximo, at{que ele surgiu  entrada do 
vestbulo. Os seus olhos pareciam velados, sombrios. Fez um esforoi para sorrir, mas o rosto dele 
estava lvido e desfigurado, como o de algum que sofre uma ferida invisvel, a qual no cessa de 
sangrar. Scarlett levantou-se ao v-lo aproximar-se, pensando, 
362 
M . . 1- 11; 
com o mesmo orgulho que sente um proprietrio ao contemplar os seus domnios, que nunca tinha 
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visto um oficial to simptico e atraente, em toda a sua vida. 0 coldre e o cinturo reluziam como 
espelhos e tanto as esporas de prata como a bainha do sabre faiscavam, aps o rigoroso tratamento a 
que Peter os submetera. 0 dlman no lhe assentava muito bem, visto que o alfaiate, para satisfazer 
o pedido de Melanie, acabara a obra  pressa e at deixara tortas algumas costuras. Alm disso, o 
estado dos cales, desbotados e remendados, e das botas, velhas e esmurradas, no condizia com o 
dlman, acabado de estrear, no obstante as suas deficincias, Nem seria preciso envergar um arns 
de prata brilhante para encarnar mais fielmente a imagem do cavaleiro encantado dos seus sonhos. 
- Asliley - disparou-lhe ela  queima-roupa - posso acompanh-lo  estao? 
- Acho melhor que no v, Scarlett. 0 meu pai e as minhas irms prometeram ir l despedir-se de 
mim. Seja como for, prefiro levar a recordao de lhe ter dito adeus aqui e v-la ficar tiritando de 
frio na estao. Os ltimos momentos so os que custam mais, bem sabe, e eu no quero partir 
preocupado por sua causa. 
Scarlett desistiu imediatamente do plano que traara. Uma vez que India e Honey, que a 
detestavam, iriam despedir-se dele  estao, nada lucraria em o acompanhar at l. 
- Nesse caso, no irei - murmurou ela. - Contava dar-lhe este presente no momento em que o 
comboio fosse a partir, mas assim ofereo-lhe j. Veja e diga-me se gosta. 
Um tanto acanhada, agora que chegara a altura de lho entregar, Searlett estendeu-lhe o embrulho 
que tinha na mo. Asliley abriu. Continha uma faixa comprida de seda natural, espessa, terminada 
por uma franja pesada. Rliett Butler trouxera-lhe de Havana, alguns meses antes, um xaile de seda, 
amarelo, com bordados a vermelho e a azul, que representavam pssaros e flores. Durante toda a 
semana, Scarlett desmanchara pacientemente o bordado e, cortando o xaile em diversas tiras da 
mesma largura, ligara-as umas s outras, at obter a faixacom o comprimento desejado. 
- P, linda! Foi a Scarlett que a fez? Nesse caso tem muito mais valor para mim. Enrole-me  cintura, 
por iavor. 
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A rapaziada vai ficar verde de inveja quando me vir aparecer com faixa e casaco novo. 
Scarlett passou-lhe a faixa de seda brilhante em torno da cinta, de maneira a no. ocultar o cinturo, 
e atou as duas extremidades com um lao artstico. Melanie presenteara-c> com o dlman, mas 
aquela faixa fora-lhe oferecida por ela, que a confeccionara com as suas prprias mos. AshIey usla- 
ia em combate e recordar-se-ia da pessoa que lha tinha dado sempre que olhasse para ela. Sim, 
aquela faixa era bem um presente seu, a sua recompensa secreta. Afastou-se um pouco e mirou-o, 
envaidecida. Nem o prprio Jeb Stuart, com a sua cinta dourada e o seu feltro de plumas, podia 
rivalizar em elegncia com o homem que ela elegera para reinar no seu corao. 
- ]9@, linda! - repetiu AshIey, afagando a franja com os dedos. - Mas decerto inutilizou um vestido 
ou um xaile para fabricar esta maravlha, No o devia ter feito, Scarlett. Os tecidos bons e bonitos, 
como este, custam um dinheiro hoje em dia. 
-Oh, AshIey! Eu... Ia a dizer: "Cortaria o prprio corao para tu o usares, se quisesses", mas 
reprimiu-se a tempo e concluiu: 
-...faria tudo s para lhe ser agradvel. -Palavra? -perguntou ele e o rosto como que se iluminou de 
sbito. - Nesse caso, h uma coisa que eu muito agradeceria que me fizesse, Scarlett, algo que 
contribuiria bastante para me sentir mais tranquilo enquanto estiver ausente. 
-0 que ? -inquiriu ela, radiante, disposta a prometer milagres. 
-Scarlett,  capaz de olhar i)or MeIly? 
- Olhar por... Olhar por MeIly? Sentiu-se desfalecer, como se a desiluso que acabava de receber 
lhe houvesse estrangulado o corao. Era aquele ento o ltimo pedido que AshIey decidira fazerlhe, 
a ela que estava pronta a prometer-lhe algo de extraordinrio, algo de espectacular? Uma raiva 
surda se apossou dela. Passara uma semana inteira  espera de um momento em que pudesse ter 
AshIey s para si. E eis que de sbito, apesar de ausente, Melanie vinha interpor a sua sombra 
plida entre os dois. Como podia ele evocar o nome da mulher num momento daqueles? Como se 
atrevera a pedir-lhe to grande sacrifcio? 
364 
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Ele, porm, no reparou na expresso de logro que se estampou no rosto de Scarlett. Como tantas 
vezes o vira fazer outrora, AshIey fitava-a com olhar distante, como se ela fosse transparente ou no 
estivesse ali. 
-Sim, No a perca de vista e tome cuidado nela. Melanie  duma fragilidade extrema, embora nem 
sequer tenha conscincia disso. Receio que se esfalfe a tratar dos feridos e a costurar e que depois - 
fi~ para a doente. n to meiga, to tmida! Alm da tia Pittypat, do tio Henry e de si, no tem mais 
ningum no mundo, a no ser uns primos em terceiro grau, os Burrs, que vivem em Macon. Quanto 
 tia Pitty... bem sabe, Scarlett, que  pior do que uma criana. E o tio Henry est a cair de velho. 
Melanie gosta de si, no s por ter casado com Charles, mas tambm por... por ser quem . Estima-a 
como a uma irm. Talvez no queira crer, Scarlett, mas at sinto calafrios quando penso no que ser 
dela se eu morrer e a deixar sem ningum que a tome ao seu cuidado. Promete? 
Scarlett nem chegou a prestar ateno  pergunta que ele lhe fez, to horrorizada ficou ao ouvi-lo 
pronunciar aquelas palavras agoirentas: "Se eu morrer". 
Lia diriamente a lista das baixas, com o corao num sobressalto constante, persuadida de que, 
para ela, <> mundo acabaria se acontecesse alguma coisa a Astiley. Contudo, sempre tivera a 
intuio de que, muito embora os exrcitos da Confederao viessem a ser derrotados em todas as 
frentes, Ashley escaparia da guerra com vida, so e escorreito. E eis que ele acabava de pronunciar 
aquelas palavras de mau agoro! Sentiu percorrer-lhe o corpo um calafrio gelado ao mesmo tempo 
que um pressentimento sinistro lhe assolava o corao, um pressentimento horrvel que no lograva 
dominar com as armas frgeis do raciocnio. Era supersticiosa como todos os irlandeses 
principalmente no captulo respeitante a pressgios fne@res 'e nos olhos cinzentos de AshIey 
julgou ver uma expresso de profunda tristeza, que podia apenas interpretar como sendo a de uni 
homem queJ sentira no ombro o dedo frgido da Morte. 
-No diga isso! Nem sequer deve pensar nessa possibilidade! D azar pensar na Morte! Reze uma 
orao, depressa! 
- Reze-a por mim e, j agora ' acenda tambm uma 
vela, ou duas -disse ele, sorrindo perante o pavor patente na fisionomia da interlocutora. 
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Mas Scarlett no respondeu, aterrorizada pelas vises que a sua imaginao fantasiava e em que 
invarivelmente, aparecia o cadver do seu adorado Asliley abandonado sobre a neve lamacenta dos 
prados de Virgnia, to longe dela. Ashley continuou a falar, deixando transparecer na voz uma nota 
de resignao triste que fez aumentar a angstia que a atormentava e diluir os ltimos vestgios do 
ressentimento que pouco antes sentira. 
-Fao-lhe este pedido por uma razo muito simples, Scarlett. Ignoro o que me vai acontecer a mim e 
a todos ns, mas sei que, quando o fim chegar, estarei muito longe daqui, mesmo que ainda me 
encontre com vida nessa altura. E ento ser-me- absolutamente impossvel proteger Mefanie. ' 
- Quando o fim chegar? 0 fim de qu? 
- Da guerra... e do mundo. 
- Mas, Asliley, ser possvel que acredite na vitria dos yankees? Pois se durante a semana que 
passou no fez outra coisa seno proclamar que o general Lee... 
- Menti, Scarlett. Menti desde o princpio ao fim, como costumam fazer todos os homens que vm 
de licena. De que serviria alarmar Melanie e a tia Pittypat com tanta antecedncia? Estamos 
perdidos, Scarlett. Gettysburgo foi o princpio do fim. 0 povo  que ainda no se apercebeu do 
facto. Toda esta gente desconhece a gravidade da situao, mas a verdade  que... no poderemos 
resistir muito mais tempo. A maioria dos meus homens anda descala e agora a neve tem quase 
meio metro de altura 'em Virginia. Quando olho para aqueles pobres ps enregelados, envoltos em 
trapos e em sacos velhos, quando vejo os rastos ensanguentados que deixam atrs de si, sobre a 
alvura da neve, e penso que uso botas quase novas... at sinto vontade de me descalar e de marchar 
como eles... 
-Oh, Ashley! Prometa-me que no far uma coisa dessas! 
-Quando comparo as condies em que se batem os nossos soldados com as dos mercenrios 
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yankees, acabo sempre por reconhecer que o fim se aproxima a passos de gigante. Os yankees esto 
a recrutar homens aos milhares, na Europa. Na maior parte os prisioneiros que ltimamente caram 
em nosso poder nem sequer sabem falar ingls. So alemes polacos e irlandeses, que falam lnguas 
ininteligiveis. E@quanto ns, se perdemos um s homem que seja, 
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no conseguimos encontrar outro que o substitua. Quando as solas dos sapatos acabam de se romper 
j no temos outros para calar. Estamos engarrafados num beco sem sada, Scarlett. E no 
podemos lutar contra o mundo inteiro. 
"Por que no deixas a Confederao entregue ao seu destino? Por que tentas entravar a sua runa se 
s o primeiro aconcordar que no h nada a fazer?" pensou Scarlett, alucinada. "Que importa que o 
mundo acabe, desde que tu te salves? Bem sabes que eu no resistiria, se tu morresses!" . -Espero 
que no repita a ningum o que acabo de dizer- prosseguiu Ashley.-No quero alarmar a populao. 
E se tomei a liberdade de lhe confiar os meus receios foi para lhe explicar o motivo que me levou a 
pedir-lhe que olhe por Melanie. Ela  to fraca, to acanhada, e a Scarlett  to forte e decidida! 
Ser grande conforto para mim saber que estaro sempre as duas juntas, suceda o que suceder. 
Promete no promete? 
- Oh, sim! - excl@mou Scarlett. Naquele instante, ao 
ver a sombra negra da Morte a procurar envolv-lo no seu manto glido, prometeria tudo o que ele 
lhe pedisse. - 
Ashley! No quero que parta! No posso deix-lo ir-se embora, sabendo o perigo que vai correr! 
- Coragem, Scarlett - disse ele, e a sua voz mudou de tom. Parecia agora mais grave, mais profunda 
e quente, 
e as palavras saam-lhe mais fluentemente dos lbios, como que dilatadas por uma sensao 
fremente. -Precisa de ter coragem, minha querida. De outra forma, como conseguirei eu afastar-me 
daqui? 
Os olhos dela perscrutaram-lhe o rosto, vidos e radiantes, buscrido a confirmao do significado 
que dera s suas palavras. Quereria Astiley dizer que o desgosto de a deixar lhe dilacerava o 
corao, da mesma maneira que sucedia com o dela? Mas AshIey tinha as feies contradas numa 
expresso triste, anloga  que lhe vira no momento em que chegara ao vestbulo depois de se ter 
despedido da mulher, e os seus olhos no revelavam coisa nenhuma. Fitou Scarlett por momentos e, 
em seguida, curvou-se, tomou-lhe a cabea entre as mos e beijou-a ao de leve, na testa. 
- Scarlett, Scarlett!  to bonita to forte to generosa! No  s o seu'rosto que  belo, mas oda 
a.sua 
ssoa: o seu corpo, o seu esprito, a sua alma. 
367 
- Oh. Ashley! -murmurou Scarlett, radiante de felicidade, estremecendo ao ouvir o elogio e ao sentir 
nas faces a carcia dos dedos dele. -Se soubesse como eu... 
- s vezes, agrada-me pensar que ningum a conhece to bem como eu que ningum consegue 
descortinar as belas qualidades l`atentes no seu ntimo, que eu vejo e os outros no, porque no se 
detm a estudar o que existe para alm desse rosto, encantador... 
Calou-se e deixou cair as mos ao longo do corpo, continuando, todavia, com os olhos pregados 
nela. Scarlett, esperou um momento com a respirao suspensa, aguardando que ele contin@asse o 
discurso interrompido e pronunciasse a palavra mgica. Mas essa palavra no veio. ]Ela quedou-se 
trmula e ansiosa, a examinar-lhe a expresso fision&ffica, tentando descobrir o que AshIey estaria 
pensando, at que chegou  concluso de que ele tinha realmente acabado de falar. 
Pela segunda vez em to curto espao de tempo, Scarlett viu rurem as suas esperanas. Era mais do 
que o seu corao podia suportar. Soltou um "Oh!" de desiluso, como uma criana, e deixou-se 
cair no sof com os olhos marejados de lgrimas. Atravs da janela, chegou-lhe ento aos ouvidos 
um rumor vindo da lea que conduzia  rua, um som que lhe trouxe  mente o doloroso pensamento 
de que Asliley partiria dentro de instantes. Nem um pago ao ouvir o chapinhar da gua contra o 
costado da barca de Caronte teria sentido angstia maior. Cuidadosamente embrulhado num 
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cobertor de l, Peter acabava de trazer para a porta principal a carruagem que devia levar Astiley  
estao. 
Asliley dirigiu-lhe um "Adeus", com voz repass;@d-a de ternura e, tomando de cima da mesa o 
chapu de feltro que ela conseguira extorquir a Rhett Butler, encaminhou-se para a porta. 
Imobilizou-se de sbito, com a mo sobre a rnaaneta de bronze e, voltando-se para trs, fitou-a 
com olhar desesperado, durante longos momentos, como se quisesse levar consigo uma recordao 
fiel de todos os traos daquela fisionomia, de todas as curvas desse corpo. Atravs da cortina de lrimas 
que lhe velava os olhos, viu o rosto dele, triste, angustiado E com o corao a pulsar-lhe na 
garganta, pensou qu'e shIey se ia embora para muito longe dela, talvez para sempre, abandonando 
a atmosfera de tranquilidade que se respirava naquela casa, desaparecendo novamente da sua vida, 
deixando atrs de 
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si o porto seguro do seu lar, sem lhe ter dito as palavras que ela ardentemente desejava ouvir. 0 
tempo voara e agora j era demasiadamente tarde. Precipitou~se atravs do vestbulo e agarrou-o 
pelas extremidades da faixa que ela prpria lhe enrolara em torno da cintura. 
- Beije-me - suplicou, num sussurro. - Beije-me antes de partir. 
AshIey tornou-a delicadamente nos braos e curvou a cabea sobre o rosto dela. Ao sentir nos seus 
o contacto dos lbios dele, Scarlett passou-lhe os braos  volta do pescoo, apertando-o contra si 
com todas as suas foras. Durante uma fraco de segundo, os dois corpos palpitaram unidos. 
Depois, Scarlett sentiu-o retesar os msculos. Como derradeiro recurso, AshIey deixou cair o 
chapu e, levantando a mo, conseguiu libertar o pescoo dos braos dela. 
-No, Scarlett, no -disse ele em voz baixa, conservando-lhe os pulsos cruzados nas tenazes frreas 
dos seus dedos. 
- Amo-te -declarou Scarlett, com a voz estrangulada na garganta. - Sempre te amei. Nunca gostei de 
nenhum outro homem a no ser de ti. Casei com Charles apenas para... para te fazer sofrer. Oh, 
Ashley, o meu amor por ti  to grande que no me importaria de palmilhar a p a distncia que nos 
separa de Virgnia s para ter a satsfao de me encontrar ao teu lado! Cozinharia para ti, 
engralxar-te-ia as botas, cuidaria do teu cavalo... AshIey, dize que me amas! Dize que me amas e 
bastar isso para eu viver feliz at ao fim dos meus dias! 
AshIey curvou-se bruscamente para apanhar o chapu e &arlett viu de relance a expresso que tinha 
estampada no rosto uma expresso infeliz e preocupada, que nunca at ento surpreendera nele e 
traa a sua luta ntma---em que o amor que lhe dedicava e a satisfao de saber o seu afecto 
correspondido se digladiavam com o desespero e a conscincia das responsabilidades. 
- Adeus - disse ele, com voz rouca. Abriu a porta e uma lufada de vento frio invadiu a casa, fazendo 
drapejar os cortinados. Scarlett estremeceu ao v-lo correr em direco  carruagem com a bainha 
do sabre reluzindo sob o tpido sol de Inverno e a franja da faixa a esvoaar garbosamente. 
24 - Vento Levou - 1 
369 
16 
PASSARAM OS meses de Janeiro e Fevereiro de 1864, fazendo-se assinalar apenas por uma 
invernia agreste que fustigou os acampamentos dos soldados com chuvas frias e terrveis vendavais. 
0 desnimo toldou o esprito dos sulistas da mesma maneira que as nuvens sombrias toldavam a 
vasta abbada do firmamento. Como complemento das derrotas de Gettysburgo e Vicksburgo, a 
frente das tropas confederadas tinha cedido  presso do exrcito yankee ao longo de toda a zona 
central e, aps uma luta sem trguas, quase todo o territrio de Tennessee se encontrava agora em 
poder das foras da Unio. Mas nem mesmo esta srie de desaires abalou a coragem dos hericos 
homens de cinzento. Embora as fagueiras esperanas de vitria, que -a princpio tinham acalentado, 
houvessem cedido lugar a uma vontade frrea de resistir at  ltima, todos eles vislumbravam 
ainda uma estreita nesga de luz no, horizonte sombrio que os rodeava. Com efeito, os yankees 
tinham sido energicamente repelidos em Setembro do ano anterior ao invadirem Gergia, numa 
tentativa para explorar o x-.to alcanado na campanha de Tennessee. 
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Fora em Chickamauga, localidade situada a noroeste do Estado, que se travara a mais importante 
batalha ocorrida no territrio georgiano desde o incio das hostilidades. Aps a tomada de 
Chattanooga, os yankees, avanando pelos desfiladeiros haviam penetrado no territrio, mas tinham 
sido rechaaos com pesadas baixas. 
Atlanta com os seus caminhos de ferro desempenhara papel prin@ordial na vitria das foras do 
u1 em Chickamauga. Fora pelas vias frreas que ligavam Atlanta a Virgnia e a Tennessee que o 
regimento comandado pelo general Longstreet se fizera transportar, a toda a pressa, at ao teatro da 
luta. Num percurso de vrias centenas de milhas, as linhas tinham sido desimpedidas e todo o 
material rolante existente no Sul fora mobilizado para assegurar o transporte das ttopas. 
Durante horas seguidas Atlanta assistira ao desfile de algumas dezenas de comboios, compostos por 
carruagens de passageiros e mercadorias, que atravessavam a cidade 
370 
apinhada de soldados barulhentos. Todos eles tinham embarcado  pressa, sem dormir, sem comer, 
sem as respectivas montadas, sem servio de abastecimento ou de assistncia mdica a que 
pudessem recorrer, e assim, sem repouso nem alimento, haviam tomado parte no combate. E de tal 
forma se portaram que os yankees no tiveram outro remdio seno abandonar o solo de Gergia e 
entrincheirar-se de novo em Termessee. 
Foi o maior feito da guerra e Atlanta exultou, orgulhosa dos seus caminhos de ferro, pois sabia que 
sem eles no teria sido possvel alcanar aquele estrondoso xito. 
A notcia da vitria de Chickamauga teve notvel repercusso em todo o Sul, cuja populao vinha 
necessitando havia muito tempo j dum incentivo semelhante para conservar o moral intacto atravs 
da quadra invernosa. J ningum punha em dvida a coragem dos soldados yankees nem o valor 
dos seus generais. Grant era um autntico carniceiro, que no olhava a sacrifcios humanos ou 
materiais para obter uma vitria, nica coisa que lhe interessava, e o nome de Sheridan bastava para 
causar calafrios a todos os meridionais. Alm destes dois, havia ainda outro, chamado Sherman, que 
era citado cada vez com mais frequncia e que durante as campanhas de Tennessee e do Oeste 
granjeara reputao de grande cabo-de-guerra, a qual vinha firmando dia a dia. 
Nenhum deles, evidentemente, se podia comparar ao general Lee. Ainda no sofrera quebra a 
confiana dos sulistas nos seus soldados e no comandante supremo dos seus exrcitos. A f na 
vitria final nunca os abandonara. Mas a guerra arrastava-se h tanto tempo! E era j to grande o 
nmero de mortos de feridos, de mutilados de vivas e de rfos, embora'a luta ainda estivesse 
m@ito longe do seu termo! At l, quantos mortos feridos, mutilados, vivas e rfos'as balas, as 
epidemias e os estilhaos de granadas no causariam mais? 
Para agravar a situao, comeava a insinuar-se no esprito da populao uma vaga desconfiana 
quanto  competncia das pessoas que ocupavam os cargos mais importantes. Muitos jornais 
acusavam abertamente o prprio Presidente Davis, censurando a maneira como estava -a conduzir a 
guerra. Havia graves divergncias entre os ministros confederados e cada vez eram mais notrias as 
dissenses entre o Presidente e os generais. A moeda des- 
371 
&W 
valorizava-se dia a dia com rapidez alarmante. Os combatentes queixavam-se da falta de calado, e 
de vesturio e a proviso de mantimentos e de remdios decrescia assustadoramente. A 
administrao dos caminhos de ferro precisava de vages novos para substituir os que se avariavam 
e carris com que reparar os danos causados pelas foras yankees nas vias frreas que asseguravam 
as comunicaes com o Norte. Os comandantes dos exrcitos em campanha reclamavam com 
urgncia tropas frescas, quase impossveis de recrutar. E, como se tal no bastasse para tornar a 
situao desesperada, alguns dos governadores estaduais entre os quais figurava o governador 
Brown, de Gergia'ainda se recusavam a enviar contingentes das milcias po@ulares e guardas civis 
para as frentesde batalha. Contavam-se por milhares os homens capazes de pegar em 
armas'alistados nas foras de segurana interna, mas resultavam inteis todos os esforos do 
governo no sentido de conseguir arrast-los para a luta, no obstante o Exrcito necessitar de novos 
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efectivos para fazer face s investdas do inimigo. 
Com a desvalorizao da moeda os preos subiram ainda mais. A carne de vaca e a de porco bem 
como a manteiga, custavam trinta e cinco dlares o a@rtel, e uma barrica de farinha de trigo no 
poderia ser obtida por menos de mil e quatrocentos dlares. 0 arrtel de soda era vendido por cem 
dlares, e o ch por quinhentos. Os agasalhos, cada vez mais raros, haviam atingido preos 
proibitivos de tal forma que as mulheres de Atlanta no tinhan; outro recurso seno o de forrar os 
vestidos velhos de trapos reforados com folhas de jornal a fim. de enfrentarem o frio do Inverno. 0 
preo dos sapatos oscilava entre duzentos e oitocentos dlares, consoante fossem fabricados com 
percalina ou couro autntico. As mulheres usavam polainas feitas de antigos xailes de l ou de 
tapetes e as solas dos sapatos que calavam eram de madeira. 
Embora muitas pessoas ainda no houvessem dado por isso, a verdade  que o Norte estava 
sujeitando o Sul a um cerco implacvel. As canhoneiras yankees tinham apertado o bloqueio dos 
portos confederados e eram pouqussimos os barcos que logravam iludir a sua vigilncia. 
0 Sul sempre vivera do produto da -enda do algodo, com o qual depois comprava tudo aquiio que o 
seu solo frtil no produzia. Agora, porm, encontrava-se completamente impossibilitado de 
efectuar transaces comerciais 
372 
com o exterior. Gerald O'Hara tinha armazenado num alpendre anexo  adega de Tara as colheitas 
de trs anos consecutivos mas de nada lhe valia isso. Em Liverpool, esses milhar@s de fardos 
render-lhes-iam pelo menos cento e cinquenta mil dlares; a dificuldade residia em descobrir 
maneira de os fazer chegar at Inglaterra. Gerald, que antes da guerra vivia sem quaisquer 
preocupaes, no sabia agora como sustentar a famlia e os escravos durante o Inverno. 
Quase todos os plantadores do Sul se encontravam na mesma situao. Com o bloqueio cada vez 
mais eficaz da armada yankee no havia possibilidade de abastecer o mercado algodoeiro de 
Inglaterra nem de adquirir, com o produto das vendas efectuadas os artigos de que a Confederao 
necessitava. E uma @egio essencialmente agrcola como o Sul, para fazer frente a uma potncia 
industrial como a do Norte, precisava de imensas coisas que nunca em tempo de paz sonhara 
adquirir. 
A situao era de molde a favorecer as actividades dos especuladores e comerciantes oportunistas 
que pululavam por toda a parte e no deixavam fugir nenhuma oportunidade de enriquecer, embora 
 custa da misria, alheia. 
0 clamor do povo contra os especuladores foi ganhando incremento  medida que escasseavam os 
gneros e os artigos de vesturio e subiam os preos respectivos at que, nos princpios de 1864, 
todos os jornais publicram longos editoriais protestando contra "esses parasitas e sanguewugas da 
populao sulista" e solicitando a interveno do governo para tomar as providncias drsticas que 
o caso requeria. 0 governo fez o que pde, mas os seus esforos resultaram improfcuos, pois urgia 
resolver problemas muito mais importantes de ordem militar. 
Ningum inspirava tanta averso ao povo como Rhett Butler, que tratara de vender os seus quatro 
navios assim que a esquadra yankee redobrou de vigilncias e se dedicava agora  especulao com 
gneros alimentcios. Os boatos que chegavam a Atlanta, via Richmond e Wilmington, faziam corar 
de vergonha as pessoas que o haviam recebido outrora. 
No obstante todas estas provaes, a populao de Atlanta duplicara durante os trs anos de 
guerra, computando-se agora em cerca de vinte mil almas. At o bloqueio contribura para aumentar 
o prestgio da cidade. Desde 
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tempos imemoriais que " postos martimos da Confederao dominavam o Sul, no s no captulo 
comercial como em todos os outros. Presentemente, porm estavam bloqueados os poucos portos 
que ainda no tin6m cado nas mos dos yankees, pelo que o Sul apenas podia contar com os seus 
prprios meios. 0 interior era o que interessava agora, se o Sul queria ganhar a guerra, e Atlanta 
encontrava-se situada mesmo ao centro do interior. A populao da cidade estava passando pelos 
mesmos transes e sofrendo as mesmas crises que o resto da Confederao, mas Atlanta lucrava com 
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a guerra mais do que perdera. Atlanta, verdadeiro corao da Confederao, continuava a pulsar 
sem desfalecimento, impulsionando ao longo das vias frreas, que eram as suas artrias um fluxo 
ininterrupto de homens, munies e abastecim'entos. 
Noutra ocasio qualquer Scarlett teria vergonha de usar vestidos velhos e sapatos to remendados 
como os, que trazia agora, Nas circunstncias, porm, em que se via, no se importava 
absolutamente nada, tanto mais que a pessoa que realmente lhe interessava no estava ali para 
assistir a isso. Durante aqueles dois meses ela experimentou uma felicidade que no sentia havia 
muitos anos j. No escutara o bater apressado do corao de AshIey, quando lhe passara os braos 
 volta do pescoo? No vira o seu olhar desesperado, mais eloquente do que todas as confisses 
que a sua boca pudesse fazer? AshIey arnava-a. Estava certa disso e essa certeza,tornava-a to feliz 
que passou a tratar a cunhada com mais afabilidade. Melanie inspirava-lhe d, e um pouco de 
desprezo tambm, pela sua cegueira, e estupide2 
z. "Logo que esta guerra acabe", dizia Scarlett. de si para si, "nessa altura, ento ... " 
s vezes pensava com leve aperto no corao: "Ento, o qu?" Mas afastava resolutamente essa, 
dvida do pensamento. Quando a guerra terminasse tudo se arranjaria, duma maneira ou de outra. 
Se Ashl@y a amava no era justo que continuasse a viver com Melanie, 
Mas de forma nenhuma podia ser admitida a hip6tese, dum divrcio. Ellen e Gerald catlicos 
intransigentes, no consentiriam nunca que a tilha desposasse um homem divorciado, Seria o 
mesmo que renegar a religio. Scarlett pensou no caso a. srio e chegou  concluso de que, se 
374 
um dia tivesse que escolher entre a Igreja e Asliley, preferiria o ltimo. Provocaria um escndalo 
enorme,  claro, visto que os divorciados ficavam  margem no s da igreja mas tambm da 
sociedade. Por amor de Ashley, por@, arrostaria com todos os perigos. No havia sacrifcios que 
no estivesse disposta a fazer. 
E quando aquele conflito terminasse, tudo se arranjaria por si mesmo, disso tinha ela a certeza. Se 
Ashl@y.a amava tanto como lhe dera a entender, decerto conseguiria encontrar maneira de sair 
daquela situao. Ela prpria o ajudaria a achar o remdio. E,  medida que os dias iam passando, 
mais se lhe arreigava no esprito a convico de que Ashley estava apaixonado por ela a certeza de 
que, uma vez batidos os yankees, seriam re@n<>vidos todos os obstculos que agora a separavam 
dele. Era verdade que Ashley havia afirmado que a vitria caberia s tropas da Unio, mas Scarlett 
no dera crdito s suas palavras, 0 marido de IVne anie devia estar cansado e aborrecido quando 
emitira semelhante opinio. Na realidade, deixava-a indiferente a perspectiva de os abolicionistas 
vencerem. Apenas lhe interessava ver a guerra acabada para que Asliley pudesse regressar a casa. 
Foi durante o ms de Maro poca em que os aguaceiros obrigavam toda a gente a r@fugiar-se em 
casa, que um golpe tremendo feriu Scarlett. Com os olhos brilhantes de alegria, curvando levemente 
a cabea cheia duma timidez em que se misturava um pouco de or@ulho, Melanie anunciou-lhe que 
ia ser me. 
-0 Dr. Meade disse-me que a criana deve nascer em fins de Agosto ou princpios de Setembro. Eu 
j desconfiava, mas no tinha ainda a certeza. Oli, Scarlett, no achas que  to bom?! E eu que te 
invejei tanto por causa de Wade! Sempre desejei ardentemente ter @m filho e estava com receio de 
o no conseguir nunca. Agora quero, pelo menos, uma dzia. 
Diante do toucador, Scarlett preparava-se para se pentear, antes de se meter na cama, quando 
Melanie aparecera para lhe dar a novidade. 
-Santo Deus! -exclamou Scarlett. No primeiro ins~ tante no apreendeu bem o significado das 
palavras que acabava de ouvir. De repente, porm, voltou a. ver diante de si a porta fechada do 
quarto de Melanie e uma dor aguda trespassou-lhe o corao, como se As@ley fosse o 
375 
seu prprio marido e a tivesse atraioado. Um filho! Um filho de Astiley! Como podia Ashley ter 
procedido assim, se era a ela que amava e no a Melanie? 
-Eu j calculava que isto seria grande surpresa para ti -continuou Melanie ' quase sem flego. - 
Tenho a impresso de que estou a sonhar. Ol-@, Scarlett, nem sei como hei-de participar a 
#
novidade a Ashley! Custar-me-ia muito menos dizer-lhe de viva voz, ou ento... deixar que 
percebesse a pouco e pouco... 
- Santo Deus! - repetiu Scarlett quase num soluo. 
0 pente escapou-se-lhe por entre o@ dedos e mal teve tempo de se encostar ao toucador para no 
cair. 
- No te aflijas, minha querida! Ter um filho no  assim to difcil como isso. Tu mesma mo 
afirmaste muitas vezes. No quero que te apoquentes por minha causa, embora agradea o teu 
interesse por mim. 0 Dr. Meade,  claro, disse-me que' eu sou... - Uma onda de rubor alastrou pelas 
faces plidas de Melanie -...que eu sou muito estreita de ancas, mas que talvez a criana nascesse 
sem dificuldade. Searlett, quando descobriste que estavas grvida, escreveste a Charles dizendo-lhe 
o que se passava? Ou foi tua me que se encarregou disso? Talvez tivesse sido o teu pai, no? Oli, 
se ao menos a minha me ainda fosse viva, talvez ela gostasse de dar a noticia a Ashley! 1@ que eu 
nem sei como... 
---Cala-te! - gritou Scarlett, furiosa. - Cala-te! 
- Oli, Scarlett, sempre sou muito estpida! Sinto muito, minha querida! As pessoas felizes so 
sempre egostas. Estou to contente que at me esqueci de que Charles... 
- Cala-te! - repetiu Scarlett, tentando recompor-se da comoo que, por momentos, a assaltara. Por 
nada deste mundo -queria que Melanie suspeitasse do que se estava passando no seu ntimo. - 
Melanie sentiu os olhos encherem-se-lhe de lgrimas. Tinha levado a sua crueldade ao ponto de 
recordar a Scarlett a tristeza daquele dia em que havia dado  luz Wade, alguns meses depois de 
Charles ter morrido. Que leviandade a sua, santo Deus! 
- Vou ajudar-te a despir o vestido, minha queridadisse humildemente. -Em seguida, escovar-te-ei 
os cabelos. 
- Deixa-me szinha-ordenou Scarlett, friamente. E Melanie, desfeita em pranto, apressou-se a sair 
do quarto. Profundamente ferida no seu orgulho e com o corao a reben- 
376 
tr de inveja, Scarlett atirou-se para cima da cama, sem verter uma nica lgrima. 
Pensou, cheia de desespero que no podia viver nem mais um dia na companhia de >uma mulher 
que ia ter um filho de Ashley. S lhe restava voltar para casa, regressar a Tara, que, afinal de contas 
era o seu verdadeiro lar, No poderia encarar de novo Meanie, sem trair o seu segredo. Quando se 
levantou, na manh seguinte, estava firmemente resolvida a fazer as malas e a partir sem demora 
aps o primeiro almoo. Sentadas  volta da mesa, Pitty e as duas sobrinhas guardavam um silncio 
constrangido. Scarlett parecia a,cabrunhada, Pitty nervosa, Melanie triste e inquieta. A refeio 
estava quase no fim quando entrou na sala um criado, que trazia na mo un@ telegrama. 
Fora expedido por Mose, criado de quarto de Asliley, e rezava o seguinte: 
Procurei-o por toda a parte. No consegui encontrd-10. Devo regressar? 
Ningum sabia o que aquilo queria dizer, mas as trs mulheres entreolharam-se, cheias de terror. 
Scarlett esqueceu, por completo, a sua resoluo de voltar para Tara. Sem pensarem em acabar de 
comer, saram imediatamente a fim de telegrafarem ao comandante de Aghley. Na estao do 
correio, porm encontraram um telegrama dirigido pelo coronel a Melani@ e cujo teor era o 
seguinte: 
Sinto informar major Wilkes no respondeu chamada desde expedio reconheci,7nento, h trs 
dias. Continuarei dando notcias. 
A viagem de regresso foi lgubre. A tia Pitty chorava, tapando os olhos com o leno; Melanie, 
lvida, conservava uma imobilidade de esttua; quanto a Scarlett, sentara-se a um canto da 
carruagem, demasiadamente atordoada para poder pensar. Logo que chegou a casa, subiu a correr as 
escadas que levavam ao andar de cima. Entrou no seu quarto e, pegando no rosrio que estava sobre 
a mesa de cabeceira, ajoelhou-se sobre o tapete. Quis rezar uma orao, mas no lhe ocorreu 
nenhuma. Assaltou--a, ento, uma onda de terror. Tinha pecado e Deus desviara dela o Seu olhar 
misericordioso. Alm de amar um homem casado, 
377 
#
tentara roub-lo  mulher e Deus castigara-, ditando a morte dele. De novo procurou orar, sem 
todavia se atrever a levantar os olhos para o Cu. Queria chorar, mas as lgrimas pareciam 
acumular-se-lhe no peito, queimando-a como ferro em brasa. 
A porta do quarto abriu-se suavemente e Melanie entrou. 0 seu rosto assemelhava-se a um corao 
recortado em papel branco e emoldurado pela massa escura dos cabelos. Os olhos, esbugalhados, 
pareciam os duma criana assustada, perdida na escurido. 
- Searlett - murmurou, estendendo as mos - desculpa o que te disse ontem. Tu s... tu s tudo o que 
me resta, agora. Tenho a certeza de que o meu querido Asliley morreu, Scarlett! 
Caiu nos braos da cunhada, sem que esta pudesse dizer como. Os seios. pequeninos arfavam 
tumultuosamente, sacudidos por soluos. Scarlett desequilibrou-se e as duas raparigas tombaram 
sobre a cama, agarradas uma  outra. Contagiada pela angstia de Melanie, Scarlett ps-se a chorar 
tambm, com o rosto encostado ao da cunhada. As lgrimas, de ambas confundiam-se numa s 
torrente. 
0 pranto era doloroso, mas pior seria no poder chorar. "Ashley morreu ... " pensou Scarlett; "est 
morto... e fui eu que o matei com o meu amor". Os soluos brotavam-lhe do peito em vagas 
sucessivas, fazendo-a estremecer violentamente. Reconfortada pelas suas lgrimas, Melanie 
apertou-a mais ternamente contra si. 
-Ao menos- segredou-lhe ela ao ouvido-_ao menos, deixou-me o filho. 
"E a mim", pensou Searlett, muito angustiada agora para experimentar sensaes mesquinhas como 
a inveja, "a mim no me deixou nada... nada a no ser a recordao do seu rosto, no momento em 
que me disse adeus". 
Os primeiros comunicados diziam apenas: "Desaparecido -dado como. morto", pelo que o nome de 
Ashley figurava na lista das baixas. Melanie telegrafou uma dzia de vezes ao coronel Sloan e 
acabou por receber uma carta de condolncias na qual o comandante do grupo lhe explicava que 
Astiley tinha partido  testa dum esquadro de cavalaria, em misso de reconhecimento, e que no 
mais, tornara a ser visto. Constava que tinha travado uma breve escaramua no interior das linhas 
ya-nkees, e Mose, louco de dor, de- 
378 
balde arriscara a vida em busca do cadver do amo. Melanie, que aps a crise inicial ficara 
singularmente calma, remeteu-lhe um vale telegrfico, ordenando-lhe que regressasse a casa. 
Quando o nome de AshIey apareceu includo na lista dos que eram dados como tendo caldo nas 
mos do inimigo, uma tnue esperana ralou no esprito das trs mulheres. Melanie passava os dias 
 porta da estao do telgrafo e assistia  chegada de todos os comboios,  espera de notcias, ou 
duma carta tranquilizadora. 0 seu estado de sade deixava muito a desejar, tanto mais que a 
gravidez se fazia sentir atravs de inmeras manifestaes desagradveis. No entanto, recusava-se a 
obedecer s instrues do Dr. Meade, que a aconselhava a no sair da cama. Apoderara-se dela um 
nervosismo febril, que a no deixava parar um momento quieta, e,  noite, muito depois de se ter 
deitado, Scarlett ouvia-lhe ainda o tumor dos passos no quarto contguo. 
Numa tarde, Scarlett viu-a regressar a casa no trem conduzido pelo Peter, amparada ao brao de 
Rhett Butler, e teve um sobressalto ao reparar na expresso patente no rosto do velho cocheiro. 
Melanie desmaiara no posto do telgrafo e Rhett, que por acaso ia a passar no local e se aproximou 
para averiguar o que acontecera, transportou-a  carruagem. Searlett desceu para abrir a porta a 
Rhett que, pegando em Melanie ao colo, subiu as escadas e foi dep-la na cama, enquanto a 
criadagem se precipitava em todas as direces, acorrendo com a garrafa do whisky, com lenis, 
cobertores e tijolos quentes. 
-Senhora Wilkes -inquiriu Rhett, de sbito, depois de lhe ter ajeitado as almofadas debaixo da 
cabea -a senhora est para ter uma criana, no est? 
Se Melanie se no sentisse to mal, to fraca e to desgostosa, decerto teria desmaiado ante a 
inconvenincia da pergunta. At perante as amigas ficava embaraada sempre que se referia ao seu 
estado e as visitas que fazia ao Dr. Meade constituam para ela obrigaes vexatrias. E tal pergunta 
feita por um homem, especialmente por um homem como Rhett Butler, era uma coisa inconcebvel. 
#
Mas sentia-se to dbil, to desanimada, que no pensou em nada disso. limitando-se a acenar a 
cabea afirmativamente. S d@pois de o ter feito, verificou que no havia nada de vergonhoso 
naquela confisso muda. 
-Ento, precisa de ter mais cuidado consigo-disse 
379 
ele, fitando-a com uma expresso afectuosa a iluminar~lhe o rosto. - Essas correrias e 
apoquentaes de nada podero valer-lhe e talvez prejudiquem o seu filho. Se me permite, senhora 
Wilkes, usarei toda a minha influncia junto das autoridades de Washington, a fim de averiguar a 
sorte de seu marido. Se ele est prisioneiro, o seu nome deve constar das listas federais; caso no 
esteja... enfim, no h nada pior do que a incerteza. Mas para isso tem de me prometer que ter 
cuidado consigo, pois de contrrio, acredite, no darei um s passo, 
- Oli,  to gentil! - exclamou Melane. - Como pode haver gente capaz de dizer a seu respeito 
coisas to desagradveis? 
E, consciente da sua falta de tacto, horrorizada por se ter visto na necessidade de confessar o seu 
estado, Melanie comeou a chorar. Scarlett, que entrou no quarto a correr, com um tijolo quente 
embrulhado numa flanela, encontrou Rhett a afagar-lhe a mo. 
Butler cumpriu a sua promessa. Nunca chegaram a saber quais os cordelinhos que ele manejou. 
Receavam fazer-lhe perguntas, convencidas de que uma resposta sincera implicaria a confisso das 
relaes que mantinha com certos elementos das esferas oficiais yankees. Passou-se um ms antes 
que ele obtivesse notcias, noticias essas que as deixaram radiantes ao princpio, mas que mais tarde 
lhes despertaram dolorosa ansiedade. 
Ashley no morrera! Tinha sido ferido e feito prisioneiro e, segundo constava dos comunicados 
yankees, encontrava-se em Rock Island, campo de concentrao situado no Illinois. Quando Rhett 
lhes deu a novidade, no pensaram em mais nada, a no ser que ele estava vivo. Mas, passado,s os 
primeiros momentos de excitao, as duas raparigas entreolharam-se e exclamaram: "Em Rock 
Island!" no mesmo tom em que teriam dito: "No Inferno!" Porque, assim como Andersonville era 
um nome que horrorizava, os yankees, tambm Rock Island enchia de pavor o corao dos sulistas 
que tinham parentes presos nesse campo. 
Quando Lincoln se recusava a trocar prisioneiros na esperana de que os encargos que para os 
confederados representaria um campo de concentrao viessem a apressar o fim da guerra, j em 
Andersonville se contavam por milhares os yankees presos. Os sulistas contavam com um 
racionamento severo e quase no dispunham de medica- 
380 
mentos nem de ligaduras para socorrer os seus feridos e doentes, pelo que pouco tinham que 
partilhar com os prisioneiros. Alimentavam-nos do mesmo modo que aos seus soldados, com 
toucinho e ervilhas secas, dieta que, desagradava aos yankees, os quais morriam como moscas, 
chegando o nmero de vtimas a atingir por vezes uma centena por dia. Indignados com as 
informaes acerca do que se estava passando em Andersonville, os abolicionistas resolveram 
exercer represlias e infligiram aos prisioneiros confederados tratamento ainda pior. As condies 
de vida em Rock Island tornaram-se simplesmente pavorosas, Cada grupo de trs homens recebia 
apenas um cobertor para se agasalhar, a alimentao era escassa e mal preparada, e a mortandade 
causada pela varola, febre tifide e pneumonias granjeou quele campo a fama dum lazareto. Do 
total de homens que nele entraram trs quartas partes no saram de l com vida. 
E Ashley encontrava-se prisioneiro naquela manso da morte! Asliley no morrera, mas fora ferido 
e quem sabe que tormentos no estaria passando em Rock Island, onde a neve devia ter atingido j 
uma altura considervel. Quem sabe se ele no teria morrido em consequncia dos ferimentos 
recebidos depois que Rhett tivera notcias? Quem sabe seno teria sido vtima da varola? Quem 
sabe se no estaria delirando com uma pneumonia, sem nenhum cobertor para o agasalhar? 
-Oh, capito Butler, no haver maneira... no poder empregar de novo a sua influncia para 
conseguir troc-lo por outro prisioneiro? - inquiriu Melanie. 
- Lincoln, o misericordioso e justo, chora copiosamente a morte dos cinco filhos da senhora Bixby, 
#
mas no verte uma lgrima sequer pelos milhares de yankees que agonizam em Andersonville - 
respondeu Rhett, com um sorriso irnico. -Pouco se lhe d que morram todos. A ordem  
irrevogvel. No haver troca de prisioneiros. Eu... eu no lhe quis dizer isto antes, senhora Wilkes, 
mas a verdade  que o seu marido teve um ensejo de recuperar a liberdade e recusou. 
- Oh, no! -exclamou Melanie incrdula. 
- n como lhe digo. Os yankees esto a recrutar, entre os prisioneiros, homens para dominar as 
revoltas dos ndios. Todos aqueles que prestarem juramento de fidelidade e se -alistarem por um 
perodo de dois anos no servio de 
381 
.11 
fronteira sero postos em liberdade e enviados para o Oeste. 
0 senhor Wlkes no aceitou. 
- Mas porqu? - exclamou Scarlett. - Porque no ter ele prestado juramento? Poderia desertar e 
regressar a Atlanta, assim que sasse da priso. 
Melanie voltou-se para a cunhada, como urna fria. -Como te atreves a supor AshIey capaz duma 
coisa dessas? Querias que ele trasse a confederao fazendo um juramento degradante, para depois 
trair tambm a palavra dada aos yankees? Prefiro que me digam que morreu em Rock Island a saber 
que aceitou semelhante proposta, Sentir-me-ia orgulhosa se ele morresse na priso, mas se 
cometesse semelhante vileza nunca mais desejaria v-lo  minha frente. Nunca mais! Ainda bem 
que recusou. 
Scarlett, acompanhou Rhett  porta e, no momento em que se despediu dele, perguntou-lhe 
indignada: 
- Se o senhor estivesse no lugar de AshIey, no se alistaria para lutar contra,os Indi'os, a fim de 
poder fugir? 
- Isso nem se pergunta - respondeu Rhett, com um sorriso que deixou entrever duas fileiras de 
dentes brancos sob o bigode negro. 
-Ento, porque  que AshIey procedeu assim? -Porque  um cavalheiro -esclareceu Rhett. E Scarlett 
ficou pasmada,  porta, pensando como seria possvel imprimir tanto cinismo e desprezo a uma
palavra to digna.

382

TERCEIRA PARTE

17

CiiEGou o ms de Maio de 1864 -um Maio quente e seco que estiolava as flores ainda em boto, Os
 yankees do general Sherman encontravam-se de novo em Gergia, para cima de Dalton, a cem
milhas a noroeste de Atlanta. Corria o boato de estar iminente uma dura batalha prximo da
fronteira entre Gergia e Tennessee. As foras da Unio concentravam-se para um ataque  linha
frrea que ligava Atlanta com Tennessee e o Oeste, na regio onde as tropas do Sul tinham 
arremetido contra os invasores, no Outono precedente, para alcanarem a vitria de Chickamauga. 
Mas a perspectiva dum combate nas vizinhanas de Dalton no perturbava grandemente os 
habitantes de Atlanta. 
0 ponto de concentrao dos yankees encontrava-se situado apenas a algumas milhas a sueste do 
campo de batalha de Chickamauga. As tropas abolicionistas j tinham sido repelidas uma vez ao 
tentarem transpor a passagem das montanhas e seriam rechaadas novamente. 
Atlanta e Gergia inteira no ignoravam a extraordinria importncia que para a Confederao 
revestiam todas as parcelas do seu territrio e, por consequncia, tinham a certeza de que o general 
Joe Johnston no permitiria que os yankees permanecessem eternamente dentro das suas fronteiras, 
0 velho Joe e o seu exrcito no consentiriam que um s invasor conseguisse passar para o sul de 
Dalton, pois disso dependia o funcionamento normal de toda a mquina blica da Confederao. E 
Gergia, que a guerra at ali deixara quase inclume, era o vasto celeiro, a oficina, o entreposto de 
todo o Sul. Grande parte da plvora e das munies que o Exrcito requisitava bem como quase 
todos os artefactos e tecidos de algodo e l eram manufacturados nas suas instalaes industriais. 
#
Entre Atlanta e Dalton ficava situada a cidade de Rome, com a sua fundio de canhes e outras 
fbricas igualmente importantes, e as de Etowah e Allatoona, cujos centros metalrgicos cobriam 
uma vasta rea ao sul de Richmond. 
383 
E em Atlanta erguiam-se no s as fbricas de armamento, de selas, tendas e munies, como os 
maiores laminadores, as oficinas gerais da empresa ferroviria e os grandes hospitais. Era ainda em 
Atlanta que se cruzavam as quatro vias frreas de que dependia o futuro da Confederao. 
Talvez por isso ningum parecia preocupar~se. Ne@ fim de contas, Dalton fica ainda muito longe, 
no trmino da linha do Norte, combatera-se durante nada menos do que trs anos em Tennessee, e o 
povo j se habituara a considerar esse Estado como um campo de batalha distante, quase to 
afastado como Virgnia ou o rio Mississippi. Alm disso, o velho Joe e os seus homens estavam 
alerta, prontos a repelirem as arremetidas dos yankees e a defenderem Atlanta. Toda a gente sabia 
que, alm do general Lee, no havia outro cabo--de-guerra como o general Johnston, agora que 
Stonewall Jackson fechara os olhos para sempre. 
0 Dr. Meade expressou de forma bem eloquente o ponto de vista da populao civil, quando numa 
noite quente de Maio, sentado sob o alpendre da residncia de Pittypat, declarou que Atlanta nada 
tinha a recear, uma vez que o general Johnston transformara as montanhas numa muralha de ferro. 
A sua afirmao produziu nos restantes convidados as mais variadas reaces, pois todas as pessoas 
que se encontravam ali presentes, gozando tranquilamente o crepsculo vespertino e observando as 
evolues caprichosas dos primeiros pirilampos, tinham srias preocupaes a perturbar-lhe o 
espirito. Com a mo no brao do filho, a senhora Meade pediu a Deus que as palavras do marido 
correspondessem  realidade dos factos. Se a guerra se prolongasse, Phil teria de ir juntar-se aos 
infelizes que lutavam no Norte. Contava j dezasses anos de idade e fazia parte da Guarda Civil, 
pelo que seria dos primeiros a marchar. Magra e olheirenta desde que se ferira a batalha de 
Gettysburgo, Fanny Elsing procurou afastar do pensamento o quadro torturante que a obcecava 
havia meses--a imagem do tenente Dallas McLure agonizando sobre um carro de bois 
desconjuntado,  chuva, durante a trgica retirada para Maryland. 
Com o brao mutilado a doer-lhe outra vez, o capito Carey Ashburn sentia-se completamente 
deprimido ao verificar a indiferena com que Scarlett acolhia a sua corte. A noticia do cativeiro de 
AshIey ditara uma modificao 
384 
radical na atitude da rapariga para com os seus inmeros admiradores, mas, infelizmente, a relao 
entre os dois factos ainda no ocorrera ao seu novo pretendente. Scarlett, e Melanie pensavam em 
Ashley, como normalmente sucedia sempre que no tinham nada de importante que fazer nem as 
preocupava a obrigao de sustentar conversa. "Deve ter morrido", pensava Searlett, com amargura. 
"De contrrio j teramos recebido novas dele". Entretanto Melanie, que passava os dias inteiros 
combatendo desesperadamente o desnimo que teimava em a invadir, dizia de si para si: "r@@ 
impossvel que ele tenha morrido. No me assaltou nenhum pressentimento... Decerto que no 
morreu". Rhett Butler continuou recostado na cadeira, com as pernas cruzadas negligentemente, 
pondo em evidncia os sapatos brilhantes, de ptimo cabedal. Tinha no rosto moreno uma 
expresso enigmtica e os olhos pareciam vaguear pelo espao  sua frente. 0 pequeno Wade 
Hampton dormia ,tranquilamente nos braos dele, com o ossinho de frango 
- o amuleto milagroso - apertado na mo rechonchuda. Scarlett deixava o filho ficar a p at mais 
tarde sempre que Rhett ia l a casa, pois que o tmido Wade gostava imenso dele, e Rhett-coisa 
curiosa! -parecia retribuir 
* afeio da criana, Geralmente, Scarlett aborrecia-se com 
* presena do filho, mas a verdade  que o garoto se portava sempre com juzo, desde o momento 
em que Rhett lhe pegava ao colo. Quanto  tia Pitty, essa, coitada, prosseguiu nervosamente na sua 
luta contra as eructaes sem dvida provocadas pelas parcas febras dum galo velho que ingerira ao 
jantar. 
Nessa manh, Pittypat tomara a lamentvel deciso de matar o patriarca da capoeira, antes que ele 
#
morresse de velhice e de saudades do harm devorado havia muito. Durante vrios dias o pobre 
galo definhara no. galinheiro vazio, demasiadamente triste para cantar. Depois de Peter haver 
torcido a este o pescoo, Pittypat, temendo os remorsos de se regalar com ele em famlia quando 
tantos amigos seus no provavam galinha havia to longos meses, alvitrou que se fizessem convites 
para o jantar. Melanie, que j se encontrava no quinto ms de gravidez e que, por isso, no desejava 
mostrar-se em pblico nem receber visitas, no gostou da ideia, mas a tia, desta vez, revelou 
teimosia inabalvel. Comer o galo szinha seria manifestao de egosmo. E bastava que Melanie 
pusesse a saia de balo 
25 - Vento Levou - I 
385 
um pouco mais ao de cima para que ningum notasse fosse o que fosse, de mais a mais magra como 
ela estava. 
-Mas a tia bem sabe que no me d prazer nenhum receber seja quem for, quando AshIey... 
-Tu falas como se ele... como se ele tivesse morrdo 
- atalhou a solteirona com voz trmula, pois no seu foro intimo tinha a certeza de que AshIey 
morrera. -E ele est vivo como qualquer de ns ' podes crer. Deves procurar distrair-te. Vou 
convidar tambm Fanny Elsing. A me dela pediu-me que a animasse e que a convencesse a voltar 
ao convvio da sociedade--- 
-Oh, tia,  uma crueldade obrig-la a sair de casa, tendo Dallas morrido h to pouco tempo!... 
- Bem, Melly, no discutas mais comigo, se no queres que eu desate para aqui a chorar... Lembrate 
de que sou tua tia e de que tenho muito boa idade para saber o que fao. Hoje, por exemplo, 
quero convidar os meus amigos. 
E foi assim que a tia Pitty logrou levar a sua avante.  ltima hora, porm, apareceu-lhe um 
hspede que ela no esperava, nem to-pouco desejava. 0 cheiro do galo assado enchia a casa 
quando 'bateu  porta Rhett Butler, de volta duma das suas misteriosas viagens. Sobraava uma 
caixa de bombons enormes, envolta em papel arrendado, e tratou de lisonjear a tia Pitty com uma 
srie de galanteios de duplo sentido. A solteirona resgnou-se. No tinha outro remdio seno 
convid-lo a ficar para o jantar, no obstante a averso que o Dr. Meade e a mulher demonstravam 
por ele e a irritao que causava a Fanny Elsing a presena dum homem  paisana. Na rua, nem os 
Meades, nem os Elsings lhe dirigiam a palavra, mas em casa duma pessoa amiga tinham, 
evidentemente, que usar de cortesia. Rhett sentia-se agora, mais do que nunca, sob a proteco da 
frgil Melanie. A partir do momento em que ele tomara a peito conseguir notcias de Ashley, 
Melanie fizera constar pblicamente que as portas da sua casa estariam sempre abertas para receber 
o capito Butler, a despeito dos comentrios que o mundo fizesse a seu respeito. 
A atitude afvel de Rliett tranquilizou logo de incio a tia Pitty, dissipando-lhe as apreenses. Rhett 
consagrou as suas atenes a Fanny Elsing com uma deferncia to simptica que ela acabou por 
sorrir e a refeio decorreu num ambiente de cordialidade. Foi um jantar principesco. Carey 
Asliburn trouxera um pouco de ch (que encontrara 
386 
na tabaqueira dum prisioneiro yankee que ia a caminho de Andersonville), o que Dermitiu servir a 
todos os convidados uma xcara da preciosa bebida, a qual no entanto sabia levemente a rap. 
Coube a cada um, alm duma fatia de galo coriceo, uma rao de papas de milho e cebola, uma 
tigela de ervilhas piladas e uma dose de arroz em quantidade mais do que suficiente, regado com 
bastante molho, que por sinal ficara um tanto aguado, em virtude da falta de farinha para o 
engrossar. -Para sobremesa, havia jim pastelo de batata doce que foi servido juntamente com os 
bombons oferecidos por Rhett e, quando este distribuiu charutos pelos cavalheiros presentes, aps 
um clice de vinho de amora, todos concordaram que o banquete fora verdadeiramente digno de 
Luculo. 
Quando os homens se reuniram s senhoras que tagarelavam sob o alpendre, a conversa 
generalizou-se, versando o teina inevitvel do conflito em curso. Ora alegres, ora -tristes, as 
conversas giravam sempre em torno de assuntos relacionados com as hostilidades: romances e 
#
casamentos de guerra, mortes em hospitais ou em combate, feitos de audcia, actos de cobardia, 
ditos de esprito, cenas de tristeza rasgos de sacrifcio e afirmaes de confiana. Uma conflan,a 
firme e inabalvel nos destinos da confederao, no obstante as derrotas do Vero anterior. 
Quando o capito Ashburn anunciou que pedira e obtivera transferncia da base de Atlanta para o 
exrcito aquartelado em Dalton, as mulheres beijaram com os olhos o seu brao hirto e procuraram 
esconder a comoo que de sbito as dominara, declarando que no consentiriam que ele partisse. 
Quem ficaria depois para lhes fazer a corte? 
0 jovem Carey pareceu ficar confuso e lisonjeado ao ouvir aquelas palavras to amveis 
pronunciadas por criaturas da categoria das senhoras Meade, Melanie, Pitty e .Fanny Elsing, e 
desejou intimamente que as de Scarlett fossem sinceras. 
-Tambm no tardar que esteja de volta-disse o mdico, passando um brao sobre o ombro de 
Carey. - 
uma escaramua apenas e os yankees recuaro a toda a pressa para o Tennessee. E, uma vez l, o 
general Forrest se encarregar deles. Que ningum se alarme com a aproximao das tropas 
abolicionistas, pois o general Johnston e o seu exrcito formam como que uma muralha de ferro 
387 
nas montanhas. Sim, uma muralha de ferro - repetiu, saboreando a imagem. - Sherman nunca 
passar. Jamais conseguir desalojar o velho Joe. 
As mulheres sorriram em sinal de aprovao, pois todas as declaraes do Dr. Meade eram aceites 
como verdades incontestveis. Alis, os homens  que percebiam daquelas coisas, e se o doutor 
afirmava -que o general Johnston e_o seu exrcito formavam "uma muralha de ferro",  que no, 
havia que duvidar. De todos os presentes foi Rhett Butler o nico que falou. At ali, guardara 
silncio obstinado, desde que findara a refeio, e ouvira os comentrios dos restantes convidados 
com um sorriso irnico a arquear-lhe os cantos da boca. 
-Ouvi dizer que, com os reforos que acaba de receber, o general Sherman dispe de mais de cem 
mil homens. 
0 mdico respondeu-lhe secamente. Sentira-se invadir por forte irritao quando, ao chegar, 
verificara que um dos convivas era precisamente o indivduo que mais detestava, de entre todos os 
que conhecia, e s o respeito devido a Pittypat e a sua condio de convidado o haviam inibido de 
patentear os seus sentimentos hostis de maneira mais ostensiva. 
-E que tem isso a ver connosco? -berrou o mdico. -Creio que o capito Asliburn afirmou ainda h 
pouco que o general Johnston no tem sob as suas ordens mais do que quarenta mil soldados, 
incluindo os desertores que a ltima batalha animou a regressarem s fileiras. 
- Senhor - ripostou a senhora Meade, indignada - 
no h desertores nos exrcitos da Confederao. 
- Peo imensa desculpa - ripostou Rhett, com humildade trocista. - Eu queria apenas referir-me aos 
milhares de homens em gozo de licena que se esquecem de re_ gressar aos regimentos de que 
fazem parte; e aos que, tendo os seus ferimentos j cicatrizados, se deixam ficar em casa para tratar 
de negcios ou lavrar as terras, a fim de as preparar para as prximas sementeiras. 
Os olhos de Rhett cintilaram e a senhora Meade mordeu os lbios. Scarlett abafou o riso ao ver que 
Rhett reduzira a mulher do doutor -ao silncio da sua insignificncia. Contavam-se por centenas os 
homens que se refugiavam no matagal e nas montanhas escondendo-se da poltica estadual, que se 
empenhava em' os obrigar a retomarem os seus postos de combate. Esses desertores objectavam que 
se tra- 
388 
tava de "uma guerra de ricos em que s os pobres lutavam" e que estavam fartos de arriscar a vida 
em vo. No entanto, era bastante considervel o nmero daqueles que, embora dados como 
desertores, tencionavam regressar s fileiras. Durante trs anos tinham esperado baldadamente que 
lhes fosse concedida a licena a que haviam ganhado jus, cada vez mais alarmados com o teor dascartas 
que recebiam das famlias e que continham frases como estas: "Estamos a passar fome". "No 
haver colheita este ano porque no temos ningum para lavrar o terreno e fazer as sementeiras". 
#
"Temos fome". "0 Comissrio levou-nos todos os fardos de algodo e h muitos meses j que no 
recebemos o dinheiro que prometeste mandar. S temos ervilhas piladas para comer". 
E o coro de lamentos aumentava sempre: "Estamos quase a morrer de fome -eu, a tua me, a tua 
mulher e os teus filhos. Quando acabar esta maldita guerra? Quando voltars para casa? No temos 
que comer e a fome aperta cada vez mais ... " Vendo que os oficiais lhes recusavam a licena que 
pediam, os soldados desse exrcito, cujos efectivos diminuam com vertiginosa rapidez, partiam 
sem autorizao, regressando a penates a fim de e---ultivarem as terras, repararem as casas, 
concertarem os muros e as vedaes das fazendas. Sempre que os comandantes dos regimentos, a 
quem a gravidade da situao no passava desperceb;da, viam a eminncia duma batalha de 
importncia decisiva, convocavam novamente os desertores, pro-metendo fechar os olhos ao delito. 
E, de maneira geral, quase todos eles voltavam assim que consideravam o espectro da fome 
afastado, da sua casa durante os meses mais prximos. As "licenas para lavrar a terra" no eram 
tomadas como deseres em face do inimigo, mas nem por isso deixavam de enfraquecer os 
exrcitos. 
0 Dr. Meade apressou-se a quebrar o silncio opressivo que se fizera sob o alpendre, dizendo 
friamente: 
-A diferena numrica entre as nossas tropas e as da Unio no tem importncia de maior para ns, 
capito Butler. Cada um dos nossos soldados vale bem doze yankees. 
As senhoras apoiaram o mdico inclinando a cabea, num gesto de aquiescncia. Toda @ gente 
sabia que era 
assim mesmo. 
389 
- No comeo da guerra, podamos aceitar como verdica essa equivalncia - retrucou Rhett. - P, 
possvel que ela ainda se mantenha, desde que os nossos homens disp<> nham de muni~ para as 
espingardas calado para os ps e comida para o estmago. No acha,'capito Ashburn? 
Falava nuni tom melfluo, em que, todavia, deixava transparecer certa nota de falsa humildade. 
Ashburn no logrou disfarar a contrariedade que experimentava. Tambm ele nutria pelo capito 
Bufler a mais profunda antipatia. Gostaria de dar razo ao Dr. Meade, mas no tinha jeito para 
mentir. Solicitara transferncia para as linhas de fogo, apesar do brao inutilizado, porque sabia que 
a situao era crtica, circunstncia que no se verificava com a populao civil. Havia muitos 
outros homens pernetas, zarolhos 'mutilados, que abandonavam calmamente o comissariado, os 
servios hospitalares ' postais ou ferrovirios, a fim de regressarem s suas antigas unidades. 
0 velho Joe precisava de todos os braos vlidos e, por vezes nem esperavam que os chamassem. 
A@hburn guardou silncio e o Dr. Meade, perdendo a calma, trovejou: 
-Os nossos homens combateram descalos e esfomeados e mesmo assim derrotaram os yankees! E 
voltaro a lutar e a vencer!. Digo-lhe que o general Jolinston. no ser desalojado! As montanhas 
foram sempre refgio e praa-forte dos povos invadidos, desde os tempos mais remotos. Lembrese... 
lembre-se das Termpilas! 
Searlett fez um esforo mental desesperado, mas as Termpilas no tinham significado nenhum 
para ela. 
-Nessa batalha morreram todos, no  verdade, doutor?-perguntou. Rhett, mordendo os lbios para 
no sorrir. 
-No pretende insultar-me? -Por quem , doutor! No me compreendeu. Limitei-me a pedir-lhe que 
me esclarecesse. J esqueci quase por completo a Histria da Antiguidade Clssica. 
-Se for necessrio, o nosso exrcito lutar at ao ltimo homem para sustar o avano dos yankees na 
Gergia. 
A tia Pittypat levantou-se bruscamente e pediu a Scarlett que brindasse os convidados com uma 
cano ao piano. Via aconversa enveredar por um caminho perigoso. Tivera a certeza de que 
haveria questo se convidasse Rliett para jantar, mas no conseguira arranjar coragem para o 
mandar embora. A presena dele acarretava sempre uma srie 
390 
#
de aborrecimentos, cuja origem nem sequer chegava a compreender. Santo Deus! Que encontraria 
Scarlett de atraente naquele homem? E como podia Melanie defender um indivduo de to mau 
carcter? 
obedecendo ao pedido da tia Scarlett dirigiu~se para a sala de entrada. No ambie@te pairava um 
silncio agressivo contra Rhett. Como se atrevia ele a pr em dvida a infalibilidade do general 
Johnston e dos seus homens? Acreditar cegamente na invencibilidade desses heris era como que 
um dever sagrado. E os que levavam a sua deslealdade ao ponto de no partilharem dessa convico 
deviam ter pelo menos a delicadeza de se calar. 
Scarlett fez ouvir alguns acordes e a sua voz, suave e triste, elevou-se no pesado silncio que 
reinava no aposento, entoando a letra duma cano popular: 
Um dia entrou um namorado Na enfermaria do hospital, Onde jaziam moribundos Entre as paredes 
alvds de cal. 
Um namorado! To bravo e novo... No admira que ainda sorrisse Mas o seu corpo no tardaria 
Que o p do tmulo o cobrisse. 
Baos e suados os cabelos... - prosseguiu Scarlett na sua voz mal segura de soprano mas Fanny 
soergueu-se na cadeira em que estava sentaa e pediu, em tom dbil e suplicante: 
-Canta outra coisa Scarlett, por favor! Scarlett calou-se stamente surpreendida e nervosa. Atacou 
os primeiros compassos ae "0 Dlman Cinzento" e interrompeu-se de novo, com um acorde 
dissonante, ao verificar que tambm no fora feliz nessa escolha. 0 plano emudeceu outra vez. 
Scarlett no sabia que fazer. Em todas as 
cantigas havia aluses a mortes separaes ou desgostos. 
Rhett levantou-se rpidamen@e e deps Wade Ham.pton nos braos de Fanny Elsing, 
encaminhando-se para o.piano. 
-Toque "A Velha Casa de Kentucky" -sugeriu ele, em voz baixa. 
Grata pelo alvitre, Scarlett comeou a tocar a melodia. A excelente voz de bartono de Rhett uniu-se 
 dela e, 
391 
L\., 
quando encetavam a segunda estrofe, todos respiravam aliviados, conquanto a cano no fosse das 
mais alegres. 
S mais uns dias de pezadelo... -Ah, no importa que assim seja! S mais uns dias, e depois A velha 
casa de Kentucky. 
A previso do Dr. Meade realizou-se at certo ponto. Johnston aguentou-se, como um baluarte de 
ferro, nas montanhas que dominavam Dalton, cem milhas ao norte de Atlanta. E to heroicamente 
resistiu e de tal forma se ops  tentativa de Sherman para transpor o vale em direco ao Sul, que 
os yankees acabaram por recuar, a fim de estudarem novo plano de ataque. No conseguindo 
romper as linhas por meio dum assalto directo, avanaram a coberto da escurido da noite, em 
movimento envolvente, na espierana de alcanarem a retaguarda das tropas de Johnston e cortarem 
a linha frrea em Resaca, quinze nlhas abaixo de Dalton. 
Vendo o perigo que corriam as preciosas vias de comunicao, os confederados abandonaram as 
posies que haviam defendido desesperadamente e, em marchas foradas,  luz das estrelas 
dirigiram-se para Resaca, pelo caminho mais curto. Quano os yankees 'abandonando as colinas 
lhescaram em cima, j as tropas do Sul os aguardavam, ao longo das trincheiras, com as baterias 
prontas a fazerem fogo e de baionetas em riste ' como sucedera em Dalton. 
Quando os feridos de Dalton trouxeram noticias da retirada sobre Resaca empreendida pelo velho 
Joe, Atlanta sentiu-se, pela primeira vez, perturbada e surpreendida. Era uma pequena nuvem negra 
que surgia a noroeste, a primeira nuvem duma tempestade de Vero. Que ideia seria a do 
general, permitindo que os yankees se internassem dezoito milhas no territrio de Gergia? As 
montanhas eram fortalezas naturais, como muito bem dissera o Dr. Meade. Por que no os detivera 
ali o velho Joe? 
Johnston combateu hericamente em Resaca, conseguindo repelir os yankees mais uma vez. 
#
Sherman, porm, empregando o mesmo movimento de flanco, descreveu com 
392 
as suas tropas outro semicrculo, atravessou o rio Oostanaula e tornou a atacar as linhas frreas  
retaguarda dos sulistas. De novo as tropas confederadas @iveram de recuar  pressa das suas 
trincheiras vermelhas, para defenderem o caminho de ferro. E, sem haverem dormido, exaustos 
pelas caminhadas e lutas, famintos e sujos, os soldados fizeram nova marcha rpida em direco ao 
vale. Ti2ndo alcanado Calhoun, seis milhas- ao-sul de Resaca, antes da chegada dos yankees, 
entrincheiraram-se outra vez, prontos a rechaarem-nos quando eles resolvessem atacar. Travouseuma 
batalha feroz e as foras abolicionistas foram repelidas. Extenuados, quase sem foras para 
se terem de p, os sulistas pediam a Deus umas horas de repouso. Mas essas preces no eram 
atendidas. Sherman continuava a avanar inexoravelmente palmo a palmo, estendendo as suas 
tropas num largo c@culo, forando-os a nova retirada, que eles se apressavam a empreender, 
sempre com o objectivo de defenderem as linhas frreas. 
Os confederados at em marcha dormiam. Quase todos eles se sentiam demasiadamente fatigados 
para poderem pensar.,Mas sempre que o faziam renovavam a Sua COnfiana no valor e na 
competncia do velho Joe. Sabiam que estavam batendo em retirada, mas no se consideravam 
vencidos. No dispunham de homens em nmero suficiente para susterem o avano do invasor e 
fazerem face aos movimentos envolventes do exrcito de Sherman. No entanto, logravam sempre 
derrotar as foras da Unio, quando elas paravam e decidiam atacar. 
Ignoravam qual seria o desfecho da retirada. Mas o velho Joe sabia do oficio, para eles era isso que 
importava. At ali a manobra fora magikralmente executada, pois tinha pe@dido poucos homens ' 
ao passo que o nmero de yankees mortos ou aprisionados era bastante elevado. As perdas dos 
sulistas em material limitavam-se a quatro espingardas. Nem um s vago tinha cado nas mos do 
inimigo ou sofrido quaisquer estragos. Haviam conservado em seti poder o troo da linha do 
caminho de ferro compreendido entre Calhoun e Atlanta. No obstante os ataques frontais as cargas 
de cavalaria e os movimentos envolventes, herman no lograra o seu intuito. 
0 caminho de ferro! Continuavam a pertencer-lhes aqueles carris que serpenteavam ao longo do, 
vale soalheiro at Atlanta. Os homens deitavam-se para dormir de maneira a 
393 
verem-nos faiscar sob o sol implacvel que causticava a terra. .Ao chegarem ao vale deparou-selhes 
um exrcito de refugiados. Plantadores e indgenas, ricos e pobres mulheres e crianas, velhos, 
moribundos, aleijados, ferido@, matronas em adiantado estado de gravidez, pejavam a estrada que 
conduzia a Atlanta, uns a p e a cavalo, outros viajando numa caravana de viaturas a transbordar de 
malas e de objectos de uso domstico. Precedendo o exrcito em retirada, a uma distncia de cinco 
milhas marchava a grossa coluna dos refugiados, que tinham feito alto sucessivamente em Resaca, 
Calhotin e Kingston, na esperana de que os yankees fossem repelidos para Tennessee e eles 
pudessem regressar aos seus lares abandonados. Mas no havia forma de essa esperana se tornar 
realidade, e toda aquela multido continuava a emigrar para o Sul ao longo da estrada batida pelo 
sol abrasador. As tropas do general Jolinston passavam por casas vazias, por quintas e cabanas 
desertas cujas portas tinham ficado escancaradas na pre- 
- pita@ da fuga. Aqui e alm, uma mulher, acompanhada apenas por alguns escravos - 
aterrorizados vinha  estrada gritar palavras de incitamento aos soldaos, ou acarretar baldes de 
gua para os homens se dessedentarem, ou fazer pensos, ou sepultar os mortos nos seus cemitrios 
de famlia, Mas a maior parte do vale encontrava-se entregue ao mais confrangedor dos abandonos 
e as colheitas desprezadas estiolavam-se nos campos ressequidos. 
A fim de evitar o movimento envolvente das duas alas do exrcito de Sherman, o general Jolinston 
tornou a bater em retirada, de Calhotin para Adairsville, onde travou leve escaramua com as foras 
da Unio, continuando a recuar at Cassville e ainda mais para o Sul, at Cartersville. Entretanto, o 
inimigo internava-se cinquenta e cinco milhas aqum de Dalton. Em Nova Hope Church, localidade 
situada cinco milhas mais abaixo, o velho Joe ordenou uma paragem e a abertura de trincheiras, 
disposto a aguardar o combate e a no arredar p. Mas, qual serpente monstruosa e coleante 
#
instilando o seu veneno a cada bote, a interminvel horda de abolicionistas continuava a perseguir 
as tropas confederadas recuando sempre que se lhes deparava mais forte resist@cia, mas voltando 
 carga logo que se encontravam -refeitas dos desaires sofridos. Durante onze dias lutou-se 
violentamente em Nova Hope Church 
394 
e todos os assaltos dos yankees foram rechaados com pesadas baixas. Todavia, Johnston, ao ver-se 
novamente sob a ameaa de ser flanqueado, retirou com as suas fileiras desfalcadas algumas milhas 
para o Sul. 
os confederados abandonaram no campo de batalha de Nova Hope Church um elevado nmero de 
mortos e o cortejo de feridos que inundou Atlanta deixou a cidade alarmada. A batalha de 
Chickamauga, fora funesta para os sulistas, mas aquela ultrapassava por larga margem todas as 
previses. Os hospitais regurgitavam e os feridos eram acomodados nos armazns vazios, onde 
ficavam estendidos no cho ou deitados sobre fardos de algodo trazido  pressa dos depsitos. 
No havia hotel, penso ou residncia particular que no estivesse apinhada de feridos. A tia Pitty 
tambm viu a sua casa invadida, apesar de ter protestado energicamente contra a ideia de dar 
aboletamento a desconhecidos numa ocasio em que Melanie se encontrava em estado to 
melindroso, Havia certos espectculos que, pela sua brutalidade, poderiam originar um parto 
prematuro. Melanie, porm, ergueu um pouco mais a crinolina para dissimular a sua condio e os 
soldados instalaram-se prontamente na casa de tijolos vermelhos da Peachtree Road. Era preciso 
cozinhar, ajudar os doentes a voltarem-se nos catres soergu-los e aban-los com leques, Dor causa 
do ca16r. As ablues os tratamentos, a preparao de ligaduras e de parches 'de linho levavam 
horas sem conta. Havia noites em que ningum conseguia dormir, com os moribundos a delirarem 
nos quartos contguos. A cidade estava pejada de feridos que por fim tiveram de ser transportados 
para os hospitais de Augusta e de Macon. 
Os boatos alarmantes trazidos pelos soldados e o crescente afluxo de refugiados a Atlanta, onde j 
no era possvel alojar mais ningum, puseram a populao em sobressalto. A pequenina nuvem 
que surgira rio horizonte no tardara a cobrir o firmamento inteiro, como que impelida por um 
vento glacial de mau agoiro. 
Ningum perdera ainda a f na invencibilidade das tropas sulistas, mas toda a gente deixava j de 
confiar no general Johnston. Nova Hope Church distava de Atlanta trinta e cinco milhas apenas. 0 
velho Joe permitira que os yankees o houvessem feito recuar sessenta e cinco milhas em trs 
semanas. Por que no rechaava ele o inimigo em 
395 
vez de bater em retirada? Era um louco, ou talvez muito pior do que isso! Os veteranos da Guarda 
Civil e da Milcia Estadual, que se encontravam tranquilamente a salvo em Atlanta, discutiram a 
tctica adoptada pelo general, debruados sobre os mapas que desdobravam em cima das mesas dos 
botequins, explicando uns aos outros as manobras que deveriam ter sido executadas para contrariar 
os desgnios do invasor. Com as suas tropas cada vez mais desfalcadas, forado a retirar para novas 
posies a fim de evitar o aniquilamento total, o velho Johnston dirigiu um apelo desesperado ao 
governador Brown requisitando a colaborao da Guarda e da Milcia cujos membros se sentiam 
bem como estavam e nem seqer desejavam ouvir falar na hiptese de marcharem para a frente de 
batalha. Vendo bem as coisas, por que razo havia o governador de atender o apelo do general 
Johnston, se no tinha feito caso algum dos pedidos de Jeff Davis? 
Combater e retirar, combater e retirar. Durante vinte e cinco dias de luta quase diria as tropas 
confederadas tinham recuado setenta milhas. Nova Hope Church, que no tardou a ser evacuada 
pelos sulistas, deixou na mente dos soldados um amlgama de recordaes penosas, de calor 
sufocante, de poeira, de fome, de fadiga, de marchas foradas ao longo de estradas de terra 
vermelha, esburacadas e lamacentas. Aps cada retirada, vinha ordem para fazerem alto e abrirem 
novas trincheiras. Seguia-se a batalha com os yankees, que eram rechaados, mas voltavam  carga, 
tentando envolver nas suas tenazes de ao o reduzido exrcito confederado. 0 ciclo repetia-se ento 
uma vez mais e repetir-se-ia sempre, enquanto houvesse um palmo de linha frrea a defender. Nova 
#
Hope Church fora como que um pesadelo, um pesadelo de consequncias funestas, e o mesmo se 
verificou dias depois em Big Shanty, onde os sulistas tornaram a defrontar os yankees, como 
autnticos demnios. Os campos ficaram cobertos de cadveres yankees, cujos uniformes pareciam 
revestir o terreno dum manto azul. Sherman ordenou nova carga, lanando tropas frescas no 
combate, enquanto, ao longe, se divisavam duas colunas avanando para o Sul, a fim de cortarem a 
retirada s tropas confederadas e ameaando a linha de caminho de ferro -e Atlanta! 
Esgotados pela fome e pelo cansao, sem terem tido um momento de repouso, os sulistas retiraram 
de Big Shanty 
396 
para Kennesaw, prximo da pequena cidade de Marietta, onde constituram uma frente com dez 
milhas de extenso. Cavaram trincheiras nas escarpas das montanhas e instalaram as suas baterias 
nos cumes. mais elevados. Praguejando sem cessar, alagados de suor, os hericos soldados de 
cinzento transportaram para o cocuruto dos montes os seus pesados canhes ' pois as mulas no 
conseguiam escalar as vertentes escarpadas. Os estafetas e os feridos que chegavam a Atlanta 
tentavam tranquilizar a populao civil, dando-lhe notcias animadoras. Kerinesaw Mountain era 
um reduto inexpugnvel, tal como Pine Mouritain e Lost Mountain que lhe ficavam prximas e se 
encontravam tambm fortifilcadas. os yankees no lograriam desalojar dali os soldados do velho 
Joe e dificilmente poderiam flanque-los, visto as baterias montadas na crista dos montes 
dominarem toda a regio eircunvizinha num raio de vrias milhas. Atlanta respirou, levemente mais 
aliviada, mas... 
Mas Kennesaw Mountain ficava apenas a vinte e duas milhas de distncia! 
No dia em que chegaram os primeiros feridos provenientes de Kennesaw, a carruagem da senhora 
Merriwether passou junto ao porto da tia Pitty a uma hora inverosmil 
- s sete da manh. 0 cocheiro preto dos Merriwethers, de nome Levy, era portador de um recado 
urgente, intimando Scarlett a comparecer quanto antes no hospital. Fanny Elsing e as Bonnells, 
aquem a velha matrona igualmente tinha feito levantar da cama quela hora inaudita, bocejavam no 
assento traseiro da carruagem enquanto a ama de Fanny, sentada na boleia, cabeceava com sono, 
equilibrando no regao um cesto de ligaduras ainda mal enxutas. 
Searlett levantou-se de m vontade, pois danara a noite inteira num baile organizado pela Guarda 
Civil, e tinha os ps fatigados. Intimamente, amaldioou a prestimosa senhora Merriwether, os 
feridos e toda a Confederao, enquanto Prissy lhe abotoava o vestido que a patroa usava para 
trabalhar no hospital, o mais velho de todos os que ainda lhe restavam. Engoliu  pressa a 
beberagem amarga preparada com milho cozido e batata doce, que substitua o caf, e reuniu-se s 
outras raparigas que a esperavam na carruagem, a qual se ps imediatamente em marcha, a caminho 
do hospital. 
J estava farta de servir de enfermeira e uma das primeiras coisas que fez foi prevenir a senhora 
Merriwether 
397 
de que tinha recebido uma carta de Ellen ordenando-lhe que voltasse para Tara. No lucrou nada 
com isso. A digna matrona, de mangas arregaadas e o busto forte envolto no avental enorme 
lanou-lhe um olhar fulminante e limitou-se a responder: 
-No torne a dizer-me tolices dessa ordem, Scarlett Hamilton. Hoje mesmo vou escrever  sua me, 
a explicar-lhe a falta que voc faz aqui. Tenho a certeza de que ela compreender a situao e a 
deixar ficar. Agora, ponha o avental e v procurar o Dr. Meade que precisa duma pessoa que o 
ajude a fazer os curativos. 
"Meu Deus!" pensou Scarlett, aborrecida. "Que grande estopada! A me vai obrigar-me a ficar aqui 
e eu morrerei de nojo, com este fedor! Quem me dera ter j certa idade para poder impor-me s 
outras raparigas, em vez de andar s ordens de velhas corujas como esta horrvel Merriwether! Se 
eu ao menos pudesse mand-la pentear macacos!" 
Sim, j estava farta daquilo tudo, do hospital, do cheiro nauseabundo, de carne putrefacta, dos 
piolhos, dos gemidos, dos corpos sujos. Se alguma vez chegara a encontrar novidade e at certo 
#
encanto na prtica da enfermagem, como ia distante esse tempo! Ao princpio, os feridos ainda 
tinham a vantagem de ser bastante mais atraentes e simpticos do que aqueles que actualmente 
enchiam o hospital. Os de agora no manifestavam o menor interesse por ela e limitavam-se a 
perguntar. 
-J houve mais algum combate? Quem ganhou? Que tal se tem portado o velho Joe? Ningum lhe 
leva a palma em esperteza! 
Scarlett, porm, era de outra opinio. Quanto a ela, o general 'Johnston no tinha feito mais do que 
deixar os yankees penetrarem vinte e oito milhas em Gergia. No, aqueles homens, de facto, no 
possuam, a seus olhos, nenhum atractivo. Alm disso, a maioria deles morria rpida e 
silenciosamente sem resistncia fsica para combater as septicemias, a gangrena a febre tifide ou as 
pneumonias que haviam contrad6 antes de chegarem a Atlanta e de darem entrada no hospital. 
0 dia estava quente. Pelas janelas abertas entravam enxames de moscas ndias e irritantes, que 
atormentavam os homens ainda mais do que as dores que sentiam. 0 fedor era cada vez mais intenso 
e o clamor dos gemidos e gritos tornara-se ensurdecedor. Com o vestido que ela prpria 
398 
engomara na vspera, completamente encharcado pela transpirao, Scarlett acompanhava o Dr. 
Meade ao longo da enfermaria, segurando uma bacia de esmalte, onde o mdico deixava cair os 
pensos ensanguentados ou cobertos de pus. 
Oli, quanta nusea sentia e quanto esforo tinha de fazer para no vomitar, sempre que o doutor 
enterrava o bisturi nas carnes gangrenadas! E o horror daqueles gritos lancinantes-que lhe 
chegavam aos ouvidos atravs da sala de operaes, onde os colegas do Dr. Meade procediam a 
amputaes feitas quase a sangue-frio! E aquela cruciante sensao de impotncia que a invadia ao 
ver as faces lvidas daqueles homens que aguardavam a passagem do mdico pelos seus catres, com 
as feies contradas pelo sofrimento e pela ansiedade, apavorados uivos de dor vindos da sala das 
intervenes cirrgicas,  espera de ouvir as palavras temidas: "Sinto muito, rai)az, mas tenho de 
cortar essa mo. Sim, sim, eu sei. Mas vs estes verges vermelhos? No h outro remdio seno 
tir-la". 
0 clorofrmio j escasseava a tal ponto que era exclusivamente utilizado para as amputaes mais 
graves e dolorosas. Quanto ao pio, tornara-se to caro que s o empregavam para suavizar a morte 
e no a doena. 0 quinino e a tintura de iodo tinham-se esgotado. Scarlett no podia suportar por 
mais tempo as cenas horrorosas que presenciava no hospital e, nessa manh, chegou a desejar 
encontrar-se no mesmo estado que Melanie, a fim de se esquivar quela penosa tarefa. A gravidez 
era a nica desculpa plausv ue uma mulher podia apresentar para se eximir ao exe@rcqcio da 
enfermagem, numa poca to crtica como aquela. Ao meio-dia em ponto, Searlett despiu o avental 
e esgueirou-se para a rua, enquanto a senhora Merriwether estava ocupada a escrever uma carta em 
nome dum pobre campons analfabeto. J no podia aguentar mais tempo aquela vida. Era uma 
violncia terem-na ali presa. Sabia muito bem que, se no regressasse a casa antes de chegar o 
comboio da tarde com os feridos, no sairia do hospital seno ao anoitecer e talvez nem sequer 
tivesse oportunidade para comer qualquer coisa. 
Percorreu a passos rpidos os dois quarteires que a separavam da Peachtree Street, respirando o ar 
puro to profundamente, quanto lho permitia o espartilho apertado em demasia, Parou  esquina, 
hesitante, com vergonha de 
399 
UL., 
voltar para casa to cedo, mas resolvida a no tomar ao hospital nesse dia, Ainda no tinha tomado 
qualquer deciso, quando Rhett Butler fez estacar a sua carruagem diante dela, 
-Parece filha dum trapeiro -observou ele, lanando um olhar apreciativo ao vestido de chita cor de 
alfazema, salpicado de gua suja da bacia dos pensos e ainda hmido de suor. 
Scarlett ficou furiosa, sem conseguir dominar o seu embarao e indignao. Por que motivo 
reparava ele sempre nos vestidos das mulheres? E por que se mostrava to grosseiro a ponto de 
comentar a pobreza e desalinho do vesturio? 
#
-N@o diga mais nada, por favor. Salte da para me ajudar a subir e leve-me a qualquer stio onde 
ningum me veja. No voltarei ao hospital nem que me enforquem! Com franquezA, eu no fiz 
nada para que houvesse guerra e no compreendo por que razo hei-de matar-me a trabalhar... 
-Mais uma traio  'Causa! 
- Deixe-se de graas. Ajude-me a subir, vamos, No me interessa saber o destino que levava. Queria 
dar um passeio e o senhor no podia ter aparecido em melhor altura. 
Rhett apeou-se da carruagem e Scarlett observou-o de soslaio. Era deveras agradvel encontrar um 
homem so e escorreito, com mos, pernas, olhos e braos, em cuja face no se distinguiam 
vestgios de malria nem indcios de qualquer padecimento, e que, alm disso, tinha aspecto 
saudvel, de pessoa bem nutrida, e vestia com requintes de elegncia. As calas e o casaco 
assentavam-lhe muitssimo bem, pois no estavam demasiadamente largos nem demasiadamente 
estreitos, que lhe tolhessem os movimentos. 
0 fato estava novo e no em frangalhos que deixasse  mostra um par de pernas nuas, peludas e 
sujas. Rhett parecia completamente despreocupado. A sua fisionomia no apresentava a expresso 
tensa, extenuada e triste que as caras dos outros homens patenteavam. No seu rosto moreno ainda 
no havia sinais de rugas. Ajudou a rapariga a subir para a carruagem, com um sorriso divertido a 
arquear-lhe os cantos da boca, bem desenhada como a de uma mulher, de lbios carnudos, sensuais 
e vermelhos. 
Os msculos da figura atltica recortavam-se nitidamente sob o fato bem talhado, ao sentar-se ao 
lado da rapa- 
400 
riga. Scarlett sentia como uma ofensa pessoal a fascinao que essa imensa fora fsica exercia 
sobre ela. Contemplou-lhe o contorno dos ombros fortes, deslumbrada e receosa, ao mesmo tempo. 
Aquele corpo parecia-lhe rijo e forte como a tmpera do esprito que o animava. Rhett possua uma 
fora graciosa e natural, como a de uma pantera que se espreguia ao sol, pronta a saltar sobre a 
vtima incauta. 
-Quem no a conhecer que a compre -disse ele, chicoteando o cavalo. - Dana com os soldados toda 
a noite, impinge-lhes uma srie de fitas e de flores, afirma-lhes que no hesitaria em dar a vida pela 
Causa, e, quando se trata apenas de fazer o penso a um ferido ou de catar meia dzia de piolhos,  a 
primeira a desertar! 
- No poder fazer-me o favor de mudar de assunto e de apressar um pouco mais o andamento da 
carruagem? S me faltava agora esbarrar com o velho Merriwether  sada do armazm, para ele ir 
logo contar  bruxa da mulher... perdo,  senhora Merriwether. 
Rhett aplicou suavemente a extremidade do pingalim sobre a garupa da gua, que atravessou a trote 
rpido a linha de caminho de ferro que dividia Atlanta ao meio. 
0 comboio com os feridos j tinha chegado. Os maqueiros afadigavam-se sob a cancula, 
transportando os homens para as ambulncias e outras viaturas que o comando do Exrcito 
destacara para o efeito. Scarlett no teve o menor rebate de conscincia, pelo contrrio, at respirou 
aliviada ao pensar que se livrara daquilo a tempo. 
- J estou farta do hospital-confessou, ajeitando sobre o assento as pregas da saia e atando com um 
n mais seguro as fitas do chapu.-Os feridos so cada vez em maior nmero, tudo por culpa do 
general Johnston. Se ele tivesse resistido em Dalton, nada disto... 
- Mas ele resistiu em, Dalton, minha ignorante. Se bateu em retirada, foi para evitar que Sherman o 
esmagasse entre as duas alas do seu exrcito. E, alm do mais ' teramos perdido a linha de 
caminho de ferro, cuja defesa constitui o principal objectivo de Johnston. 
- P, possvel - volveu Scarlett, para quem a estratgia militar nada significava. -De qualquer 
maneira, a culpa foi toda dele. Tinha obrigao de fazer alguma coisa e no fez. Acho que deviam 
demiti-lo quanto antes. Por que no se instala ele num ponto onde possa resistir aos ataques dos 
yankees, em vez de recuar? 
26 - Vento Levou - 1 401 
- No seja como toda a gente, Quer quecortem a cabea ao pobre velho s porque ele no consegue 
#
operar milagres? Em Dalton, consideraram-no um novo Jesus, o Salvador; agora em Kennesaw j 
lhe chamam Judas e o acusam de traidor. Tudo isto no curto espao de seis semanas.  claro que, se 
ele conseguir obrigar o inimigo a recuar vinte milhas, o aclamaro de novo como um heri. Minha 
filha, Sherman tem sob o seu comando o dobro dos homens de que Johnston dispe. Por 
consequncia, pode sacrificar dois soldados por cada um dos nossos. Em contrapartida, ns 
precisamos de evitar a todo o custo perder seja o que for. 
0 velho Joe necessita urgentemente de reforos, e o que  que pensam mandar-lhe? Os bonifrates do 
governador Brown, Ho-de valer-lhe de muito! 
- Sempre  verdade que vo chamar a Milicia? E a Guarda Civil, tambm? Ainda no tinha ouvido 
falar em tal. Como  que soube? 
- Corre esse boato em toda a cidade. H quem diga que a notcia chegou esta manh, pelo comboio 
de Milled-eville. Tanto a Milcia Estadual como a Guarda Civil vo ser enviadas para a frente, a fim 
de reforar os efectivos do general Johnston. Sim, os meninos bonitos de Joe Brown devem estar 
em vsperas de sentir o cheiro da plvora e calculo que muitos deles no ganharo para o susto. 
Decerto nunca pensaram na possibilidade de tomarem parte na festa, pois, segundo consta, Brown 
prometeu-lhes que no os deixaria ir. Que boa partida! Julgavam-se completamente a salvo do 
baptismo do fo,,,,o, em especial depois de Brown se ter recusado a atender o pedido de Jef1 Davis, 
mas saram-lhes as contas furadas. Apresentavam como justificao, da sua cobardia a necessidade 
de proteger o Estado de uma possvel invaso, nunca supondo que viria um dia em que os combates 
decorressem nas suas propriedades, nem que tivessem de lutar pela prpria vida. 
- Como tem coragem para fazer chacota de um caso to grave? Lembre-se dos velhos e dos 
mancebos imberbes que fazem parte da Guarda Civil, 0 pequeno Phil Meade, o av Merriwether e o 
meu tio Henry Hamilton, tero de marebar tambm. 
-No me refiro s crianas nem aos veteranos da Guerra do Mxico. Refiro-me, sim, a esses bravos 
rapazes, como Willie Guinan, por exemplo, que gostam de se pav(>- 
402 
near com os seus uniformes fazendo tinir as esporas e rebrlhar a bainha do sabre.' 
-E o senhor? -No julgue que me atrapalha com essas alfinetadas, Scarlett. Eu no uso uniforme, 
nem sabre. Os interesses da Confederao no contam para mim. A nossa Causa pode ser muito 
justa, pode at ser uma causa sacrossanta como o Dr. Meade pretende fazer acreditar, que eu no 
tenciono pegar em armas para a defender. No estou disposto a ser morto com o uniforme da 
Guarda Civil nem com * de qualquer outra unidade militar. Em matria de guerra, * que aprendi em 
West Point chegou-me ipara o resto da vida... Mas isto no impede que deseje boa sorte ao velho 
Joe. 0 general Lee no pode prestar-lhe qualquer auxlio, visto os @yankees no lhe terem dado 
ainda um momento de sossego, em Virgnia; por conseguinte, as tropas de Gergia so os nicos 
reforos que restam  disposio de Johnston. Ele merecia mais, muito mais, pois no h dvida de 
que se trata dum ptimo oficial. Consegue sempre antecipar-se aos yankees na -ocupao dos 
pontos estratgicos, mas acaba por ter de recuar a fim de proteger as linhas frreas. Oua bem o que 
lhe digo: se Sherman conseguir desaloj-lo das montanhas para a plancie de Atlanta, Johnston  
homem morto. 
- Para a plancie de Atlanta? - exclamou Scarlett. - 
Bem sabe que os yankees jamais conseguiro chegar at aqui. 
-Kennesaw fica apenas a vinte e duas milhas c-eu aposto que... 
- Rhett, olhe ali para o fundo da rua! Est a ver aquela multido? No parecem soldados. Que 
diabo... So negros! 
Uma densa nuvem de poeira avermelhada avanava ao longoda rua, acompanhada pelo tropel de 
centenasde ps e por um coro de vozes graves, guturais e arrastadas, que entoavam um hino. Rhett 
encostou a carruagem junto  curva e Searlett examinou os corpos reluzentes, cor de bano, dos 
escravos, que continuavam a aproximar-se, munidos de enxadas e de picaretas que traziam ao 
ombro, escoltados por um oficial e por um grupo de homens que ostentavam as insgnias do corpo 
de engenheiros militares. 
#
-Mas que diabo...-volveu Scarlett, e de novo se nterrompeu sem concluir a frase. 
Os seus olhos pousaram num preto, corpulento como uM 
403 
toiro, que marchava na primeira fila, Devia medir pelo menos um metro e noventa de altura, um 
verdadeiro gigante. Caminhava  frente, com a graciosidade felina do animal selvagem, e os seus 
dentes rebrlhavam ao entoar os versos duma cano. No existia por certo no mundo nenhum outro 
negro assm to alto e forte, a no ser o Sam, capataz dos escravos de Tara. Mas que andaria o Sam 
a fazer em Atlanta, to longe de casa, numa altura em que a plantao no tinha administrador e ele 
era o brao direito de Gerald? 
Scarlett soergueu-se no banco da carruagem a fim de o ver rnelhor. 0 gigante reconheceu-a e os seus 
lbios grossos arreganharam-se num sorriso de satisfao. Parou e, largando a p que transportava 
ao ombro, dirigiu-se  rapariga. 
- Eh, Sinhora dos Cu! - gritou para os companheiros. 
- ]@ minina Scarlett! Ouve, Lias, PostIo, Profeta! n mesmo a nossa minina! 
Estabeleceu-se certa confuso nas fileiras. Os homens estacaram, indecisos, mas sorridentes 
enquanto o Sam, seguido por trs outros negros tamblin enormes, corria para a carruagem. 0 oficial 
precpitou-se-lhes no encalo, berrando, furioso: 
-Para a forma! J para a forma, se no querem que... Ah,  a senhora Hamilton! Boa tarde, minha 
senhora. Boa tarde, senhor... No me digam que tencionam provocar motins e insubordinaes entre 
os meus homens. S Deus sabe o trabalho que eles me deram esta manh! 
- Por amor de Deus, capito RandalI, no os repreenda! Fazem parte do pessoal do meu pai. Este  o 
Sam, capataz dos nossos escravos, e aqueles so Elias, Apstolo e Pr@feta, todos de Tara. n natural 
que me queiram falar, pois que j no me vem h bastante tempo. Como esto vocs, rapazes? 
Scarlett apertou a mo a alguns deles. A sua mozita branca desaparecia completamente nas 
manpulas rudes e calejadas dos pretos. Os quatro escravos de Tara mostravam-se radiantes por 
terem encontra4o, a sua ama e pareciam orgulhosos de que os companh&ros vissem a linda senhora 
que sei-viam. 
- Que vieram vocs fazer aqui to longe? Fugiram, pela certa. E se as patrulhas os apanham? 
Eles riram s gargalhadas, ao ouvirem o gracejo, 
404 
- No, minina, a gente no fugiu - respondeu o Sam. 
- No sermo cap de faz coisas dessa. Eles foram l escolh ns por sermo os quatro mais grande e 
mais forte de Tara. - Mostrou os dentes num sorriso ufano e prosseguiu: -Eles quiseram a mim 
porque eu sab cant muito bem. Sim, minina. Sinh Frank Kennedy foi l e trouxe a ns. 
-Para qu, Sam? -Sinhora dos Cu, minina Scarlett, ento inda no sabe de nada? As gente vai abri 
os buraco p'ra os branco se escond quando os yankee cheg. 
0 capito Randall e os ocupantes da carruagem sorriram perante aquela ingnua descrio das 
trincheiras. 
- Sinh Gerald quase desmai quando eles me levaram. E diz que no pode faz nada l sem eu. 
Mas sinhora Ellen respondeu: "Uva eles, Kennedy. Confederao inda precisa a mais que ns". E 
deu uma dola a mim dizendo p'ra gente faz tudo que sinh branco mand ns faz. E c estamos 
todos. 
- Que significa tudo isto, capito Randall? -Oh,  muito simples! Recebemos ordem para 
reforarmos as fortificaes de Atlanta com mais alguns quilmetros de trincheiras e, como o 
general no pde dispensar-nos homens para esse fim, tivemos de ir busc-los nas redondezas, entre 
os escravos empregados na lavoura. 
- Mas... Scarlett comeou a sentir um aperto no corao. Mais trincheiras! Para que precisariam eles 
de mais? No lhes chegavam aquelas que j havia? J no ano anterior tinham construido uma linha 
de redutos com plataformas para as peas de artilharia, em toda a volta da cidade, num raio de dois 
quilmetros. Essas plataformas comunicavam com os fossos abertos para, as trincheiras, que 
cicundavam Atlanta. E isso ainda no era suficiente! 
#
-Mas que necessidade h de nos fortificarmos mais do que j estamos? Nem tudo aquilo que j 
temos ser preciso utilizar. Decerto que o general no vai permitir... 
- As nossas fortificaes encontram-se muito prximas do centro da cidade - respondeu o capito 
Randa11. - 
Ficam to perto que a sua utilidade  praticamente nula. As novas trincheiras vo ser abertas mais 
longe porque, Se os yankees nos repelirem de Kennesaw, os nossos homens tero de buscar refgio 
em Atlanta. 
405 
Mas logo se arrependeu de ter feito tal comentrio ao ver o olhar esgazeado da rapariga. 
-No haver com certeza outra retirada -aarescentou, antes que ela tivesse tido tenipo de dizer fosse 
o que fosse. - As montanhas de Kennesaw so inexpugnveis. As baterias, instaladas nas encostas 
dos montes, dominam os desfiladeiros, e os yankees jamais conseguiro atravess-las. 
Scarlett notou que ele baixara os olhos ao sentir era~ vado no rosto o olhar penetrante de Rhett, no 
qual brilhava um claro trocista, e teve medo. Lembrou-se do comentrio que o companheiro fizera 
momentos antes: "Se Sherman conseguir desaloj-lo para a plancie de Atlanta, Johnston  homem 
morto". 
-Oh, capito, acha que... 
- Evidentemente que no. No se preocupe por causa disso. 0 velho Joe foi sempre muito 
previdente. S assim se explica que nos tenha ordenado a abertura de nova linha de trincheiras... 
Mas no posso demorar-me mais, apesar de ter muito gosto em conversar consigo... Despeam-se 
da sua ama, rapazes. Temos muito que fazer. 
- Adeus, meus amigos. Se algum de vocs adoecer, se for ferido ou se se vir em dificuldades, 
mandem-me avisar. Eu moro ali adiante, na Peachtree Street, quase aoIundo. Esperem... - Rebuscou 
na bolsa. - Meu Deus! No trouxe uni cntimo comigo. Rliett, empreste-me algumas moedas. 
Toma, Sam, compra tabaco para ti e para os outros. Portem-se com juzo e obedeam ao capito 
Randa11. 
0 batalho, que destroara temporriamente, tornou a formar. De novo do leito da estrada se ergueu 
uma nuvem de poeira avermelhada quando os homens retomaram a marcha. Sam caritava @ plenos 
pulmes, 
- Rhett, o capito Randall mentiu~me, como todos os homens tm feito... ocultando a verdade s 
mulheres, para que no nos apoquentemos antes de tempo. Tenho a certeza de que ele mentiu. Oli, 
Rhett, se realmente no houvesse perigo, poderiam evitar a a-bertura de mais trincheiras, no lhe 
parece?! E o Exrcito estar assim to desfalcado de homens que j se veja na necessidade de 
recorrer aos pretos? 
Rhett chicoteou a gua. 
- Se Johnston no estivesse a lutar com tremenda falta de homens, por que motivo pediria o auxlio 
da Guarda 
406 
Civil e da Milcia, no me dir? Quanto s trincheiras, toda a gente sabe que tm certa utilidade em 
caso de cerco. o general pyepara-se para transformar Atlanta no seu ltimo reduto, 
- Um cerco! Volte para trs, Quero ir para e-asa. Tenho de regressar j a Tara. 
-Mas que aflio  essa? -Um cerco! Um cerco, meu Deus! Eu sei bem o que isso . 0 meu pai j 
esteve num... ou talvez tenha sido o pai dele... e contou~me... 
- Em que cerco? 
- No de Drogheda, quando os irlandeses se renderam pela fome s tropas de Cromwell. 0 meu pai 
contou-me que eles morriam famintos, pelas ruas. At comiam gatos, ratazanas e carochas. E que, 
por fim, chegaram a comer-se uns aos outros, antes de se renderem embora eu no acredite muito 
nisso. E que, quando Cr&nwell entrou na cidade, todas as mulheres eram... Um cerco! Me 
Santissima! 
- Voc  a rapariga mais ignorante que at hoje encontrei! 0 sitio de Droglieda ocorreu em mil 
seiscentos e tal e, nessa altura, o senhor O'Hara ainda no existia. Alm de que Sherman no se 
#
compara com Cromwell. 
-Pois no, mas dizem que ainda  pior. 
- Quanto s exticas iguarias com que os irlandeses se alimentaram em Droglieda durante o cerco, 
confesso que, pela parte que me toca, preferia comer um rato saboroso a ingerir as vitualhas que me 
impngram h pouco tempo no hotel. Creio que tenho de voltar para Richmond, onde h sempre 
comida boa. A questo  ter dinheiro para a pagar. 
Os olhos de Rhett sorriram, trocistas, ao notarem o espanto de Scarlett, 
Irritada por ter exteriorizado a sua reaco, ela exclamou: 
-Nesse caso, por que no se vai embora? S se preoe-upa com o aspecto material da vida... 
- P, natural. No conheo melhor maneira de passar o tempo do que comendo, bebendo e... gozando 
- redarguiu ele. - No que se refere  minha estadia em Atlanta, enfim . . . tenho lido muitas coisas a 
respeito de cercos e bloqueios, etc., mas a verdade  que nunca passei por nenhuma aventura do 
gnero. ]@: por isso que ainda aqui estou. Quero ver como , para depois contar como foi. No me 
acontecer mal nenhum, porque no tenciono meter-me no baru- 
407 
lho. 19,, mais uma aventura que vou tentar. Gosto de experimentar todas as emoes, Scarlett.  um 
passatempo que enriquece o esprito... 
-0 meu j est bastante rico... 
- Voc l sabe... Mas eu diria que... No, no quero melindr-la. Se eu lhe afirmar que fiquei em 
Atlanta com o nico propsito de a ajpdar a fugir quando os yankees vierem cercar Atlanta, 
acredita? Nunca salvei uma mulher em perigo! Seria mais uma aventura a juntar a tantas outras. 
Searlett compreendeu que Rhett estava a procurar arreli-la, mas, ao mesmo tempo, teve a 
impresso de que nas palavras dele ressoava uma nota de gravidade, e baixou a cabe@a. 
-No preciso que me salve. J tenho muito boa idade para cuidar de mim. No entanto agradeo-lhe a 
inteno. 
- No diga que j tem idade para cuidar de si, Scarlett. Pense-o, se quiser, mas nunca o diga a 
ningum, e muito menos a um homem. 2 esse justamente o maior defeito das raparigas yonkees. 
Seriam verdadeiramente encantadoras se no tivessem o costume de apregoar aos quatro ventos que 
so muito capazes de cuidar de si prprias. Duma maneira geral,  assim mesmo, que Deus lhes 
valha! E  por isso que os homens muitas vezes as deixam entregues  sua sorte. 
-Tem uma maneira de tratar as coisas... -ripostou Scarlett, abespinhada, pois no havia pior insulto 
para ela do que ver-se comparada a uma ya?,mkee.-No entanto, voltando ao princpio, deixe-me 
dizer-lhe que est muito enganado. Os yankees no entraro nunca em Atlanta e o senhor sabe isso 
perfeitamente. 
- Se quiser posso apostar consigo que chegaro s portas da cidade dentro de um ms ' o mximo. 
Aposto uma caixa de bombons contra... -Os seus olhos escuros fixaram significativamente os lbios 
dela-...contra um beijoconcluiu ele. 
0 pavor que a Scarlett incutiu a perspectiva duma invaso yankee estrangulou-lhe por momentos o 
corao. A sua memria, porm, reteve a proposta de Rhett. A palavra "beijp" como que lhe ficou 
gravada na mente at que tomou conscincia dela. A conversa estava derivando para um campo que 
lhe era bastante familiar e muito mais nteressante do que a provvel evoluo das operaes milita- 
408 
res. Foi com certa dificuldade que logrou conter um sorriso de satisfao. Desde o dia em que a 
presenteara com o chapu verde, Rhett nunca mais lhe dissera fosse o que fosse que ela pudesse 
interpretar como um galanteio. Por mais esforos que houvesse feito nesse sentido, Scarlett nunca 
conseguira persuadi-lo a dissertar acerca de coisas banais, de assuntos que lhes dissessem 
directamente respeito, Contudo, eis que, de repente, sem que ela tivesse tomado qualquer iniciativa, 
Rhett se lembrava de lhe falar em beijos. 
- Esse gnero de conversas no me agrada - respondeu friamente, franzindo a testa. - No entanto, 
para que no possa ficar com dvidas, acho conveniente esclarec-lo de que preferia mil vezes 
beijar um porco a beij-lo, a si. 
#
-Gostos no se discutem e sempre ouvi dizer que os irlandeses tm uma predileco muito especial 
pelos porcos... Chegam a guard-los debaixo da cama. Contudo, o seu caso  diferente. Voc est a 
precisar que a beijem muito m&s de que imagina.  esse o seu mal, acredite, Os seus apaixonados 
andam positivamente a dormir na forma. Respeitam-na em demasia, no sei porqu. Talvez por 
recearem exceder-se, ou por outro motivo qualquer. Como consequncia disso, acho-a cada vez 
mais insuportvel, como uma solteirona envinagrada. Precisa de ser beijada, mas por algum que o 
saiba fazer como deve ser. 
A conversa j estava a afastar-se do terreno em que Scarlett desejava conserv-la, como 
normalmente sucedia quando falava com Rhett. Era uma espcie de duelo, em que ela perdia 
sempre. 
- E, naturalmente, julga-se a pessoa mais indicada para o efeito, no  verdade? - perguntou em tom 
sarcstico, dominando a irritao que de sbito se apoderara dela. 
-Com certeza -respondeu Rhett, sem se desconcertar. -Mas, para isso,  preciso que eu esteja 
disposto a dar-me a esse incmodo. H quem me considere um gnio na arte de beijar. 
- Oh! -exclamou Scarlett, indignada com a indiferena que Rhett manifestava pelos seus encantos.- 
O senhor... 
Calou-se, sem saber que dizer. Rhett sorriu e no fundo dos seus olhos brilhou um claro que logo 
s@ extinguiu. 
-Compreendo a estranheza que decerto lhe causa o facto de eu no ter explorado a vantagem- de 
certo beijo que lhe dei no dia em que lhe ofereci o chapu... 
409 
- 0 qu? Eu nunca... 
- Ah 'sim?! Nesse caso, no  uma rapariga decente, Scarlett. Todas as raparigas decentes 
estranham que um homem, com quem falam e passeiam, e de quem recebem visitas e pre@entes, 
no tente beij-las. Sabem muitssimo bem que no devem desejar que eles se atrevam a tal e que 
tm a obrigao de se mostrar indignadas sempre que os mais empreendedores tomem qualquer 
iniciativa nesse sentido. Todavia' isso no impede que 'eles intimamente se sintam lisonjeados. Seja 
como for, o certo  que um dia hei-de beij-la a valer e garanto-lhe que vai gostar. Por enquanto 
ainda  cedo. Peo-lhe que domine a sua impacincia at l. 
De novo Searlett se compenetrou de que ele apenas pretendia arreli-la. Conhecia-a suficientemente 
bem para saber que aquelas impertinncias a irritavam, e normalmente lograva o seu objectivo, 
porque nas palavras dele havia quase sempre um fundo de verdade. No entanto, ela ainda no 
perdera a esperana de lhe dar uma lio. Rhett que se lembrasse de tomar alguma liberdade... 
-Quer ter a gentileza de voltar para trs, capito Butler? Prciso de regressar ao- hospital. 
-Est a falar a srio, anglica enfermeira? Prefere s piolhos e as chagas nauseabundas  minha 
companhia? Ainda bem, porque j comeavam a apoquentar-me os remorsos de roubar  nossa 
"gloriosa Causa" o generoso auxlio dessas mozinhas suaves e delicadas. 
Obrigou o cavalo a descrever um semicrculo e conduziu a carruagem na direco do 
Entroncamento. 
- Quanto ao motivo por que no explorei a vantagem a que h pouco me referi -prosseguiu ele no 
tom, mais natural deste mundo, no obstante Scarlett ter dado o assunto 1@or terminado - quase 
intuitivo. n ainda muito nova e eu.julguei aconselhvel esperar que cresa um pouco mais. Bem v, 
se a beijasse agora, tenho a certeza de que no reagiria da melhor maneira e eu sou muito exigente 
nesse captulo. Nunca gostei de beijar crianas - acrescen tou reprimindo um sorriso ao notar que 
Scarlett parecia prtes a explodir de raiva concentrada. -Alm disso concluiu, com doura -prefiro 
aguardar que a recordao do valoroso AshIey Wilkes se dissipe do seu esprito. 
Ao ouvir o nome de AshIey, uma sbita angstia se apoderou da rapariga, enchendo-lhe os olhos de 
lgrimas. 
410 
A lembrana de Ashley nunca se apagaria da sua mente nem que ela vivesse mil anos. Pensou em 
AshIey, ferido, quem sabe se agonizante, prisioneiro num campo de concentrao yankee, sem 
#
cobertores para se agasalhar, sem ningum que o amasse ou lhe acariciasse a mo, e o seu corao 
encheu-se de io pelo homem que estava sentado ao lado dela, calmo, sadio e anafado, cuja voz 
trocista pareca ter o condo de a enfurecer. 
To desesperada ficou que no disse palavra e o trem rodou durante alguns minutos sem que 
nenhum deles quebrasse o silncio. 
-Compreendo muito bem o que se passa entre voc e AshIey - disse Rhett. - Presenciei, por acaso a 
cena terrvel que lhe fez na biblioteca dos Doze Carvaffios e, da por diante, notei uma srie de 
circunstncias deveras elucidativas e de que ningum mais se apercebeu visto ignorarem os 
antecedentes. No entanto, eu tinha o@ olhos bem abertos e no deixei escapar nada. Foi isso que 
me permitiu chegar  concluso de que continua a alimentar uma paixo romntica, de colegial, por 
AshIey, a qual ele retribui na maneira em que lho consente o seu carcter integro. A senhora 
Wilkes, evidentemente, ignora tudo. Jamais lhe passou pela mente a menor desconfiana acerca da 
partida que o marido lhe pregou, de colaborao consigo. S h uma coisa que ainda no consegui 
descobrir e que, confesso, excita francamente a minha curiosidade. Teria alguma vez o honrado 
AshIey posto em perigo a salvao da sua alma, ousando beij-la? 
Scarlett voltou-lhe acara guardando um silncio glacial. 
- Ah, por consequncia, AshIey beijou-a! Naturalmente, quando veio c, de licena. E agora, que o 
supe morto, cultiva a recordao dele, julgando-o insubstituivel. Mas tenho a certeza de que o 
tempo se encarregar de apagar essas lembranas e, quando o tiver esquecido completamente, eu... 
Scarlett voltou-se para ele, furibunda. 
- V para o diabo! - exclamou, com os olhos faiscantes de raiva. -E deixe-me sair antes que eu salte 
por cima das rodas. Nunca mais quero tornar a v-lo! 
Rhett fez estacar a carruagem e, antes que tivesse tido tempo dc se apear a fim de ajudar Scarlett a 
descer, ela atirou-se para o cho. A crinolina prendeu-se-lhe numa das rodas e, por momentos, as 
pessoas que passavam no Entron- 
411 
camento tiveram uma viso encantadora de saas brancas e pantalonas rendadas. Rhett nclinou-se 
rpidamente e, com gestos destr^ desembaraou~lhe a saia. Scarlett afastou-se Quase a correr, sem 
uma palavra nem um olhar, enqupto ele subia para a carruagem e dava rdeas  gua, com um 
sorriso, divertido a entreabrir-lhe os lbios. 
:18 
ATLANTA escutou ento, pela primeira vez desde que esta~ lara a guerra, o fragor duma batalha. 
Ao romper da madrugada, antes de a cidade despertar, comeou a ouvir-se, vindo de Kennesaw 
Mouritain, um ribombo que se assemelhava ao duma longnqua trovoada estival. 0 Dovo esforavase 
por no lhe prestar ateno e dissimulava o seu receio, conversando, rindo, tratando de negcios, 
como se os yankees no estivessem ali, apenas a vinte e duas milhas de distncia. No entanto, 
conservavam todos o ouvido alerta e dificilmente ocultavam a sua preocupao; fosse qual fosse a 
tarefa a que se entregassem, no podiam deixar de ligar importncia ao tiroteio que os mantinha em 
constante sobressalto. Ter-se-ia intensificado o troar da artilharia ou estariam os habitantes de 
Atlanta sendo vtimas duma @lucinao colectiva? Conseguiria o general Johnston deter o inimigo 
desta vez? 
Notavam-se j os primeiros sintomas de pnico entre a populao. A tenso nervosa, que se fora 
intensificando  medida que as tropas sulistas prolongavam a sua retirada, chegara prtIcamente ao 
auge. Ningum falava em medo. A inquietao latente nos espritos exteriorizava-se por meio de 
crticas acerbas ao general, A excitao atingira o ponto culminante. Sherman encontrava-se quase 
s portas de Atlanta. Mais uma retirada e as tropas da Confederao entrariam na cidade. 
- Queremos um general que no recue! Queremos um homem que resista e que lute! 
Com o troar dos canhes a ecoar-lhes: aos ouvidos, a Milcia Estadual, composta pelos bonfrates 
de Joe Brown, e a Guarda Civil partiram de Atlanta, a fim de defenderem as pontes e as 
embarcaes que asseguravam os transportes entre as duas margens do rio Chattahoochee,  
retaguarda 
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das posies ocupadas por Johnston. Do cu pardacento e triste caa chuva miudinha na manh em 
que atravessaram o Entroncamento, em direco  estrada de Marietta. A cidade em peso assistiu  
partida. As pessoas amontoavam-se sobre os telhados de madeira dos armazns de Pea chtree Street, 
esforando-se por aparentarem uma alegria que estavam longe de sentir. 
Scarlett e Maybelle Merriwether Picard obtiveram autorizao para sarem do hospital, a fim de 
presenciarem a partida das tropas, pois tanto o tio Henry Hamilton como o av Merriwether, que 
pertenciam  Guarda Civil, haviam recebido ordem de marcha, Acompanhadas pela senhora Meade 
e comprimidas entre a multido que se aglomerava ao longo da rua, tiveram de se erguer nas pontas 
dos ps para conseguirem ver alguma coisa. Embora dominada pelo desejo comum a todos os 
meridionais de s dar crdito aos boatos agradveis e tranquilizadores, Scarlett ficou desolada 
quando viu desfilar perante os seus olhos uma coluna heterognea de velhos e de rapazes ainda 
imberbes. A situao devia ser realmente desesperada para terem convocado os veteranos da guerra 
do Mxico e crianas que mal sabiam manejar armas de fogo. Nas fileirasque iam agora a caminho 
da frente havia,  certo, homens relativamente novos e mancebos aptos para a luta, os quais 
ostentavam galhardamente os vistosos uniformes das unidades de escol da Milcia, com plumas 
ondulando ao vento e faixas garridas atadas em torno da cintura. Mas era to grande o nmero de 
velhos e adolescentes que o corao de Scarlett estremeceu por instantes, assaltado por um 
sentimento misto de piedade e de terror. 
Homens de barba grisalha, mais velhos do que Gerald O'Hara, procuravam acertar o passo 
garbosamente pela cadncia marcada pelos pifaros e tambores, sob a chuva fria. 0 av 
Merriwether,com, o melhor xaile de l da nora a proteger-lhe os ombros, marchava  frente e 
saudava com um sorriso as moas conhecidas. Elas correspondiam-lhe acenando com lenos e 
gritando alegremente: "At  volta!" Mas Maybelle apertou o brao de Scarlett e murmurou, com 
voz triste: 
-Pobre av! Basta que apanhe uma chuvada mais forte para ficar liquidado! 0 lumbago... 
0 tio Henry Hamilton seguia na segunda fileira, com a gola do casaco preto erguida at s orelhas. 
Levava na 
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LIP 
mo uma bolsa feita de tapearia e no cintjuro duas i 
pistolas que usara nacampanha do M'xico,'A seu fado, caminhava o criado preto, quase to velho 
como ele, de guarda-chuva aberto. Ombro a ombro com os ancies, desfilavam rapazes de idade 
inferior a dezasseis anos. Muitos deles tinham fugido do colgio a fim de ingressarem no Exrcito e, 
aqui e alm, vi*am-se grupos que envergavam uniformes de cadetes de escolas militares, 
ostentando penas pretas, de galo, nos bivaques molhados pela chuva e alamares de lona branca 
cruzados sobre o peito. Entre eles, Scarlett avistou o filho mais novo da senhora Meade, Phil, com o 
;hapu tombado sobre a orelha e exibindo orgulhosamente o sabre e as pistolas do falecido irmo. A 
senhora Meade esforou-se por sorrir e acenou-lhe com o leno at que ele desapareceu aa longe. 
Depois, reclinou por momentos a cabea no ombro de Scarlett, como se de sbito toda a sua energia 
a tivesse abandonado. 
Muitos dos homens iam desarmados, Porque a Confederao no tinha espingardas nem munies 
para lhes fornecer. Esperavam equipar-se com os despojos dos yankees. Uma grande parte deles 
levava punhais enfiados nos canos das botas e nas mos lanas fortes e compridas, com pontas de 
ferro, conhecidas por "lanas de Joe Brown". Os mais felizes carregavam velhos mosquetes a 
tiracolo e chifres com plvora suspensos dos ciritures. 
Johnston perdera cerca de dez mil homens desde que retirara de Dalton. Precisava de outros dez mil 
para os substituir. "E afinal", pensou Scarlett, apavorada, "aperias conseguiu isto!" 
Quando a artilharia passou, esparrinhando lama para cima da multido, a sua ateno convergiu 
sobre um preto que seguia montado numa mula, a par de uma das peas. Era um negro de tez 
bronzeada e fisionomia grave. Ao reconhec-lo, Scarlett gritou: 
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- Mose, o criado de,_A@shley! Que far no meio desta gente? 
Abrindo caminho atravs da multido, aproximou-se dele e chamou: 
-Mose! Espera um pouco! Ao v-la o rapaz refreou a montada, sorriu satisfeito e fez menao de 
desmontar. Mas um sargento, que marchava atrs dele, berrou: 
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- Se desces da mula, vers como elas te mordem! Temos de chegar a Kennesaw Mountain ainda 
hoje. 
Indeciso, Mose olhou primeiro para o sargento e depois para Scarlett. Esta, chapinhando na lama, 
perto das rodas que passavam, agarrou na correia do estribo. 
- Oh,  s um instante 'senhor sargento! No desmontes, Mose! Que vais tu a fazer ai? 
-Volto pr guerra, minina Scarlett. Agora vai sinh John no lugar de sinh AshIey. 
- o senhor Wilkes! - exclamou Scarlett, como que fulminada. John Wilkes tinha perto de setenta, 
anos. -Onde vem ele? 
- Vem l atrs, ao lado da ltima pea, minina Scarlett. No fim de toda gente. 
-Desculpe, minha senhora, mas temos de seguir. Adiante, rapaz! 
Scarlett quedou-se imvel, por momentos, atolada de lama at aos tornozelos. "No, no  
possivel!" pensou. "No pode ser. 0 senhor Wilkes  muito velho. E tem tanto horror  guerra como 
o filho". Retrocedeu meia dzia de passos, acercando-se da esquina, e perscrutou atentamente o 
rosto dos homens que continuavam a desfilar. Quando chegou a vez da ltima boca de fogo e a 
carreta se aproximou- ruidosamente, Scarlett, avistou-o. Magro, erecto, com a sua longa cabeleira 
encanecida, penteada para a nuca, a escorrer gua, montava uma guazinha baia que pisava o 
lamaal com a elegncia de uma jovem vestida de seda. Santo Deus! Aquela gua era Nellie, a 
]Vellie da senhora Tarleton! 0 precioso tesouro de Beatrice Tarleton! 
Quando avistou Searlett, de p no meio do atoleiro, John Wilkes fez estacar o animal e apeou-se, 
sorridente, aproximando-se dela. 
- Ainda no tinha perdido a esperana de a ver, Scarlett. Os seus pais incumbiram-me de lhe 
transmitir uma srie de recomendaes e eu j comeava a recear que no surgisse oportunidade 
para o fazer. Mas a verdade  que no houve tempo. Chegmos esta manh e j vamos a caminho, 
como v. 
- Oh, senhor W11kes! - exclamou Scarlett, desesperada, tomando-lhe a mo. - No v! Por que no 
se deixou ficar nos Doze Carvalhos? 
-Acha que j estou velho? -perguntou ele, com um sorriso, o sorriso de AshIey num rosto mais 
idoso. - Talvez 
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@esteja 
velho para suportar lngas caminhadas, mas no para montar a cavalo nem para fazer fogo 
sobre os yankees. A senhora Tarleton foi duma gentileza extraordinria emprestando-me Nellie, de 
maneira que, por esse lado, considero-me bem servido. Quanto ao resto, o futuro o dir. Espero que 
no acontea mal nenhum a Nellie. Se lhe suceder qualquer coisa no terei coragem para encarar de 
novo a senhora Tarleton. Nellie era o ltimo animal que lhe restava - explicou, a rir, para 
desvanecer os receios que transpareciam nos olhos da sua interlocutora. -Os seus pas e irms 
encontram-se bem de sade e mandam-lhe multas saudades. 0 senhor O'Hara esteve quase a vir 
connosco, tambm. 
-0 meu pai? -perguntou Scarlett, aterrorizada. -Que horror! Mas no veio, pois no? 
- No embora tenha pensado nisso. Naturalmente, custa-lhe @ andar, por causa do joelho, mas 
estava disposto a acompanhar-nos a cavalo. A sua me no se opunha, contanto que ele fosse capaz 
de saltar a cerca do prado, porque, segundo afirmava, havia muitos obstculos a transpor nestas 
marchas. 0 senhor O'Hara aceitou a experincia e, quando o cavalo que montava se abeirou da sebe 
e estacou, o seu pai foi projectado por cima da cabea do animal e estatelou-se no cho. S por 
milagre no partiu a espinha. Sabe como ele  teimoso. Levantou-se e tentou novamente. Pois bem. 
Scarlett: caiu trs vezes.  terceira, a senliara O'Hara e Pork tiveram que o levar para a cama. L 
#
ficou deitado, a praguejar, barafustando que a sua me tinha pedido ao cavalo que o deitasse por 
terra. 0 seu pai j no est capaz para o servio activo, Scarlett. No se envergonhe por to pouco. 
No fim de contas,  preciso que fique algum em casa a cuidar das colheitas, a fim de abastecer o 
Exrcito. 
Scarlett no se envergonhou. Pelo contrrio, at respirou aliviada. 
-Mandei India e Honey para Macon para casa dos Burrs. 0 senhor O'Hara ficou a tomar conta dos 
Doze Carvalhos e de Tara... Tenho de partir, minha querida. Deixe~me beijar essa cara linda. 
Se-arlett ofereceu-lhe a face. Sentiu um n na garganta. Era to amiga do senhor Wilkes! Em 
tempos desejaria ser sua nora... 
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- Tome este beijo para a senhora Pittypat e mais este para Melanie -acrescentou, osculando-a mais 
duas vezes. -Como est Melanie? 
-Est bem. 
- Ali! - E o seu olharcomo que a trespassou, fitandoa. tal qual AshIey fizera um dia, um olhar 
distante que parecia perscrutar os horizontes longnquos. - Gostaria de conhecer o meu primeiro 
neto. Adeus, minha, querida. 
Subiu para a sela e afastou-se, num galope curto, de chapu na mo 'com a cabeleira prateada  
chuva. Scarlett reuniu-se a Maybelle e  senhora Meade e s alguns momentos depois compreendeu 
o verdadeiro significado das ltimas palavras que lhe ouvira. 
Tomada de terror supersticioso persignou-se e tentou rezar uma prece. Tal como o filh@, tambm 
ele pensara na morte. E AshIey... Ningum devia desesperar! Evocar a morte era o mesmo que 
tentar a divina Providncia. As trs mulheres regressaram em silncio ao hospital. Searlett rezou 
durante todo o percurso, suplicando: 
-Poupai-,o, meu Deus! Poupai-o, a ele e a Ashley! A retirada de Dalton para Kennesaw Mountain 
durara desde a primeira semana de Maio at meados do ms seguinte, e como os dias quentes e 
chuvosos de Junho tinham decorrido sem que Sherman houvesse logrado desalojar os sulistas das 
vertentes escarpadas, a, f na vitria final renasceu no esprito da populao de Atlanta, Todos se 
congratularam e passaram a falar com mais simpatia do general Johnston. Chegou o ms de Julho, 
ainda mais hmido do que o anterior e no decurso do qual as tropas da Confederao conseguiram 
sustar o avano das tropas de Sherman. Uma alegria selvagem se apossou de Atlanta. A esperana 
subiu  cabea de toda a gente como champanhe. "Hurra! Hurra! Detivemo-los enfim!" 0 povo 
celebrou o facto com uma srie de festa@ e de diverses. Sempre que um grupo de combatentes 
vinha pernoitar  cidade, era-lhe oferecido um jantar colectivo, seguido de baile, e, como os homens 
se encontravam agora em desvantagem numrica perante as raparigas, estas disputavam-nos 
ardorosamente, chegando a roubar os pares umas s outras. 
Atlanta regurgitava de refugiados de famlias de convalescentes, de esposas e mes de mili`tares 
que combatiam nas montanhas, e que desejavam estar perto deles, no caso de serem feridos. Alm 
desta gente, afluam  cidade grupos 
27 - Vento Levou - 1 
417 
1 or 
de mulheres de outras comareag, onde os homens que ainda no tinham sido convocados contavam 
menos do que dezasseis anos ou ultrapassavam j os sessenta. A tia Pitty revoltava-se contra a 
presena delas convencida de que o nico objectivo que as trouxera a Adanta fora o de arranjarem 
casamento uma desvergonha que a seus olhos significava o fim do i@undo. Scarlett tambm se 
mostrava indignada. No que lhe fizesse mossa competir com garotas de dezasseis anos sem 
experincia, cujo rosto fresco e sorridente levava, @o entanto, a esquecer os vestidos voltados do 
avesso e os sapatos remendados. Scarlett usava fatos mais bonitos e mais novos do que a maior 
parte delas, gra,as s fazendas que Rhett Butler passara atravs do bloqueo na ltima viagem que 
fizera. No fim de contas, ela tinha apenas dezanove anos e continuava a ser requestada, tanto mais 
que os homens manifestavam desinteresse quase total pelas meninas ingnuas. 
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"Uma viva com um filho devia sentir-se inferiorizada perante aquelas feiticeiras", pensava 
Scarlett. Mas nesses dias tumultuo-sos a sua situao de viva e me pouco lhe pesava. Nos 
intervalos do servio diurno no hospital e ddg festas,  noite, pouco tempo lhe sobrava para ver 
Wade, pelo que chegava a esquecer-se de que tinha um filho. 
Nas noites quentes e hmidas de Vero todas as casas de Atlanta abriam as portas aos soldados que 
defendiam a cidade. Os grandes edifcios, desde Washington Street at Peachtree Street, 
i)rofusamente iluminados, recebiam os combatentes enlameados, vindos das trfncheras de 
Kenneaw, ao som de banjos e de violinos. 0 rumor dos passos dos danarinos, acompanhado de 
gargalhadas cristalinas, perdia-se na distncia, transportado pela brisa nocturna. Os convivas 
debruavam-se sobre o piano e'entoavam os versos tristes da cano A tua carta chegou muito tarde. 
Os conquistadores andrajosos olhavam significativamente para as raparigas, que riam por trs dos 
leques de plumas, pedindo-lhes que-no esperassem que fosse tarde demais. Nenhuma delas os faria 
esperar, se isso estivesse nas suas mos. Contagiadas pela alegria histrica e pela agitao que 
dominava a cidade, contraam matrimnio precipitadamente. Realizaram-se imensos casamentos 
durante o ms em que Johnston conteve o inimigo nas faldas de Kennesaw. Casamentos feitos  
pressa, em que as noivas pareciam nadar em felicidade, vestindo trajes emprestados por 
418 
iwuma 
dzia de amigas e os noivos impavam de satisfao com os sabres oscilando junto s calas 
remendadas. A populao vibrava de comoo, excitada e divertida, abenoando o general 
Jolinston. que sustara o avano dos yankees. 
De facto' eram inexpugnveis as linhas de trincheiras que rodeavam Kerinesaw Mouritain. 0 prprio 
general Sherman se convenceu disso, aps vinte e cinco dias de combate, em face das enormes 
baixas sofridas pelo seu exrcito. Em vez de @rosseguir no assalto directo, resolveu estender as 
suas colunas num vasto semicrculo e forar novamente a passagem entre as posies ocupadas 
pelos Confederados e Atlanta. A sua estratgia surtiu efeito mais uma vez. Johnston foi obrigado a 
abandonar as montanhas, em que se defendera to hbilmente, a fim de proteger a retaguarda das 
suas tropas. Nessa luta perdera um tero dos homens e os restantes arrastavam-se, extenuados, 
debaixo de chuva, atravs da plancie em direco ao rio Chattahoochee. Os sulistas no podiam 
esperar mais reforos, ao passo que os yankees faziam transportar di~ riamente, ao longo do troo 
da via frrea de que se haviam apoderado, contingentes de tropas frescas e de mantimentos, 
provenientes dos quartis e depsitos dispersos pelo territrio do Estado de Tennessee. Johnston 
no teve outro remdio seno bater em retirada atravs dos campos enlameados at aos arrabaldes 
de Atlanta. 
Ao tomarem conhecimento de que as posies de Kennesaw Mouritain, que supunham 
intransponveis tinham cado em poder do inimigo, os habitantes da cidae estremeceram, 
avassalados por uma nova onda de terror. Durante vinte e cinco dias tinham vivido descuidados e 
alegres, persuadidos de que seria impossvel que tal acontecesse. Mas o facto  que acabava de 
acontecer! Urgia que o velho Joe detivesse os yankees na margem oposta do rio que ficava apenas a 
sete milhas de distncia. 
Mas Sherman ps outra vez em prtica o estratagema que at ali tinha empregado sempre com xito 
e tomou a ameaar as foras confederadas num movimento envolvente'atravessando o rio alguns 
quilmetros mais ao norte. Mortos de cansao, os valorosos militares de cinzento viram-se 
obrigados a passar para a outra margem, a fim de interceptarem a marcha dos invasores que 
avanavam 
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velozmente sobre Atlanta. Abriram novas trincheiras,  pressa, ao norte da cidade, no vale de 
Peachtree Creek, e tomaram posies a fim de fazerem frente aos soldados abolconistas. Uma 
vaga de pnico assolou Atlanta, cuja populao, passou a viver horas de angstia. 
Johnston continuava a bater em retirada e os yankees estavam cada vez mais prximos. Peachtree 
Creek ficava apenas a cinco milhas de distncia! Qual seria a ideia do general? 
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Os brados de "Queremos um homem que resista e que lute!" chegaram at Richmond 'cuja 
populao sabia que a queda de Atlanta significaria a derrota final. Aps a travessia do 
Chattahoochee 'o velho Joe foi exonerado. 0 general Hood, seu subalterno, assumiu ento o 
comando, e a cidade respirou um pouco mais tranquila. Hood no recuaria. Era um homem de 
barbas longas e olhos brilhantes, natural de Kentucky, que tinha fama de ser pior do que um 
buldogue. Obrigaria os yankees a retirarem para l do rio e a recuarem palma a palmo at Dalton, 
pelo mesmo caminho por onde tinham vindo. No entanto o exrcito, que acompanhara o velho Joe 
durante o mau'bocado por que haviam passado desde a evacuao de Dalton e cujos componentes 
sabiam que o general fize@a a nica coisa que havia a fazer naquelas circunstncias -facto que a 
populao se obstinava em ignorar -reclamava agora o seu antigo chefe. 
Sherman no deu tempo a que Hood preparasse um contra-ataque. No dia seguinte no da 
mudana deconiando, o general yankee atacou a pequena cidade de Decatur, situada seis milhas ao 
norte, a qual no tardou a cair em seu poder, e cortou nesse ponto a linha de caminho de ferro que 
assegurava as comunicaes de Atlanta com as cidades de Augusta, Charleston e Wilmington, bem 
como com o Estado de Vrgnia. Com a tomada, de Decatur, Sherman desferiu um golpe tremendo 
na Confederao. Chegara a altura de agir! Atlanta exigia uma reaco enrgica. 
E, numa tarde de Julho escaldante, Atlanta viu realizados os seus desejos. 0 general Hood fez mais 
do que resistir e lutar. Lanou-se ferozmente contra os yankees, em Peachtree Creek, incitando os 
seus homens a investirem contra as fileiras de Sherman, as quais eram duas vezes superio@res em 
nmero, 
Tremendo de pavor e implorando a Deus que o ataque 
420 
de Hood fosse coroado de xito, Atlanta escutou o troar da artilharia e o crepitar de milhares de 
espingardas que, no obstante a distncia que separava o teatro da luta do vasto burgo, pareciam 
soar to prximas como se estivessem fazendo fogo s portas da cidade. A populao ouvia o fragor 
das baterias que disparavam sem cessar e contemplav.a a fumaceira que pairava a<,ima das rvores, 
em navenzinhas, sem fazer a mais pequena ideia do cur o que a batalha estava tomando. 
Ao cair da tarde comeou-se a receber notcias, incertas, contraditrias @ alarmantes, trazidas pelos 
primeiros feridos, os quais chegavam isolados ou em grupos pequenos, e se dirigiam para os 
hospitais num fluxo constante, que se escoava penosamente atravs da cidade. Aqueles cujos 
ferimentos eram de pouca gravidade ajudavam a transportar os companheiros. Tinham a cara 
enegrecda pela plvora e pela poeira, que o suor havia amassado num amlgama pastoso. Sobre as 
feridas provocadas pelos estilhaos dos projcteis, em que o sangue ainda no coagulara, as moscas 
enxameavam cruelmente. 
A casa da tia, Pitty foi das primeiras a serem invadidas pelos feridos, os quais se arrastavam 
penosamente at ao porto, uns atrs dos outros, e se deixavam cair sobre o relvado' implorando, 
angustiados, urna gota de gua. 
Durante toda essa tarde ardente, Melanie, Scarlett. e Pittypat, assim como os criados pretos, 
afrontaram o calor do sol, atarefadas com a faina de acarretarem baldes de gua e ligaduras a fim de 
ministrarem os primeiros socorros. No tiveram um momento de descanso, quer preparando bebidas 
quer fazendo pensos at terem esgotado todas as lIga<I@ras de que dispunham@ e reduzido a tiras 
os poucos lenis e toalhas que lhiE@s restavam, A tia Pitty esqueceu-se completamente de que 
costumava perder os sentidos sempre que via sangue  sua frente. Trabalhou at que os ps 
minsculos lhe incharam dentro dos sapatos, a ponto de no poder aguent-los mais. At Melanie, 
j bastante volumosa na sua gravidez, trabalhou febrilmente ao lado de Prissy, da cozinheira e de 
Scarlett, com a fisionomia to alterada como a dos feridos. Quando por fira desmaiou, o nico lugar 
disponvel para a deitar era a mesa da cozinha. Todos os leitos, sofs e cadeiras estavam ocupados. 
Agarrado aos balastres do alpendre, inteiramente 
421 
'AL, 1 ItI, 
esquecido no meio do tumulto, o pequeno Wade espreitava para o jardim como um coelho 
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engaiolado ' com os olhos esgazeados de terror, chupando no polegar e soluando, desconsolado. 
Quando Scarlett deu pela sua presena, gritou-lhe speramente: 
-Vai brincar para o quintal, Wade! Mas a criana estava de tal maneira apavorada, e ao mesmo 
tempo fascinada pelo espectculo que se desenrolava  sua frente, que no obedeceu logo, 
0 relvado encontrava-se coberto de homens prostrados, demasiadamente exaustos para 
prosseguirem no seu caminho, ou demasiadamente enfraquecidos pelas hemorragias para se 
poderem mexer. Peter amontoava~os na carruagem e transportava-os para o hospital em viagens 
sucessivas, at que o cavalo se recusou a andar. As senhoras Meade e Merriwether cederam os seus 
trens para o mesmo efeito e elas prprias os conduziam, indiferentes aos protestos das molas que 
rangiam ameaadoramente sob o peso da carga. 
S muito mais tarde, quando j comeava a entardecer, principiaram a chegar as ambulncias e as 
carretas dos servios de sade, cobertas por lonas enlameadas, seguidas por carros de bois, galeras e 
at por carruagens particulares, requisitadas  ltima hora pelo corpo mdico. Passavam em frente 
da casa de Pittypat, avanando aos solavancos pela estrada esburacada, transportando feridos e 
moribundos que gotejavam sangue sobre o p dos caminhos. Ao verem as mulheres empunhando 
baldes e latas com gua, os condutores das viaturas faziam alto e do interior dos veculos elevava-se 
ento um coro de gritos e gemidos, suplicando gua. 
Scarlett amparava carinhosamente as cabeas dos soldados delirantes e humedecia-lhes os lbios 
ressequidos, lanava baldes de gua sobre os corpos empoeirados e febris e sobre as feridas 
expostas, proporcionando aos homens breves momentos de alvio. Erguendo-se sobre os bicos dos 
ps, dessedentava os condutores das ambulncias e interrogava-os com ansiedade: 
- Que notcias h? Que notcias h? E de todos'recebia a mesma resposta: -No sabemos nada ao 
certo. Ainda  cedo para dizer qualquer coisa, 
A noite caiu, sufocante. Nem uma s folha se movia e as fogueiras de galhos de araucria que os 
pretos manti- 
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nham acesas tornavam o ar ainda mais quente. Scarlett mal conseguia respirar em virtude da poeira 
que se lhe nfltrara nas narinas e que lhe ressequira os lbios, 0 vestidinho de chita azul que pusera 
nessa manh, limpo e engomado, estava agora manchado de sangue sujo de p e de suor. Fora a isso 
certamente que Ashley`quisera aludir ao escrever que no h glria na guerra, h apenas misria e 
lama. 
A fadiga imprimia s cenas de horror que se sucediam diante dos seus olhos um cunho fantstico, 
uma aparncia de pesadelo. Aquilo no podia ser real, e se o era, o mundo decerto tinha 
enlouquecido. De contrrio como poderia explicar-se que ela se encontrasse ali, sobr'e o, relvado do 
pacato jardim da tia Pitty agora iluminado por labaredas irrequietas, deitando gua sobre rapazes 
agonizantes, sem mdicos que pudessem acudir-lhes? Muitos deles tinham-lhe feito a corte e, 
apesar de estarem s portas, da morte, tentavam sorrir-lhe, ao verem-na. Entre os homens que 
seguiam pela estrada escura e poeirenta aos solavancos, havia tantos que Scarlett conhecia! E, entre 
os que lhe morriam nos braos, suportando esticamente os ataques dos mosquitos que lhes 
pousavam no rosto ensanguentado, havia alguns com quem, ela danara e rira, para quem tocara 
melodias ao piano e cantara as trovas mais em voga; a quem arreliara, reconfortara e amara-um 
pouco! 
Scarlett descobriu Carey Ashburn numa pilha de feridos que ia a caminho do hospital, em carro de 
bois. Estava moribundo, com uma bala alojada no crnio' Como no podia remov~lo sem 
incomodar seis outros feridos, teve de o deixar seguir tal qual o encontrou. Mais tarde, teve 
conhecimento de que o infortunado capito morrera sem assistncia mdica e fora sepultado, 
embora ningum soubesse dizer-lhe onde. Durante aqueles ltims trinta dias tinham sido 
enterrados milhares de soldados em covais abertos  pressa no cemitrio de Oa,kland. Melanie ficou 
inconsolvel por no ter-conseguido uma mecha do cabelo de Carey para enviar  me dele, em 
Alabama. 
C@ieias de dores nas costas e com os joelhw a tremerem-lhe de fadiga, Scarlett e Pitty continuaram 
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pela noite fora a interrogar os que chegavam da frente, tentando obter notcias acerca da marcha das 
operaes. 
-Quem est a vencer? Quem est a vencer? 
423- 
Amanhecia j, quando obtiveram uma resposta concreta, uma resposta que as levou a entreolharemse 
' lvidas: 
- Estamos a recuar em toda a linha. No havia outro remdio. Os yankees so muito mais 
numerosos do que ns. Cortaram a retirada da cavalaria de Wheeler, perto de Decatur. Temos de lhe 
acudir. Os nossos rapazes no devem tardar a. 
Scarlett e Pitty lanaram-se nos braos uma da outra. -Ento os yankees esto a... a aproximar-se? - 
Esto, sim, minha senhora, mas no podero avanar durante muito tempo. No se assustem que 
no chegaro a entrar em Atlanta. H milhares de quilmetros de trincheiras abertas em torno da 
cidade, onde poderemos resistir a todos os ataques, Alm disso, eu prprio ouvi o general Jolinston 
dizer: "Posso defender Atlanta eternamente". 
- Mas o general Jolinston foi exonerado. No lugar dele temos agora... 
-Cala-te, idiota! No vs que ests a assustar essas senhoras? Tranquilizem-se, que os yankees 
jamais conseguiro tomar a cidade. No entanto, talvez fosse melhor as senhoras partirem para 
Macon ou para qualquer outro local mais seguro. No tm parentes em nenhuma cidade do Sul? os 
yankees no conquistaro Atlanta, mas ho-de tentar faz-lo e a populao bem pode preparar-se 
para passar um mau bocado. Vamos ficar debaixo da metralha. 
Sob a chuva quente que no cessava de cair, o exrcito derrotado entrou em Atlanta na manh 
seguinte, exausto de fome e de cansao, enfraquecido por setenta e seis dias de batalha e de marchas 
foradas, com os cavalos quase reduzidos ao, esqueleto, mais mortos do que vivos, e com as pecas e 
armes atrelados de qualquer maneira, seguros por pedaos de corda e de correias. Mas no 
entraram desordenadamente, revelando pnico ou desorganizao. Marcha- @,am em boa ordem, 
apesar de terem os uniformes transformados em andrajos e os estandartes completamente 
esfarrapados. Haviam aprendido com o velho Joe que do ponto de vista estratgico uma retirada 
podia ser um feito de armas to grande como um ataque vitorioso. Com as fardas reduzidas a 
frangalhos e o rosto coberto i)or barba hirsuta, os hericos combatentes sulistas desfilaram por 
Peachtree Street ao som da marcha iVaryland! Maryland! e a cidade inteira saiu para a rua a fim de 
os aclamar. Na vitria como na derrota -eram sempre os seus rapazes! 
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A Milcia Estadual, que havia to Pouco tempo ainda tinha partido dali exibindo orgulhosamente os 
seus uniformes vistosos, mal se distinguia no meio das tropas das restantes unidades 'tal o seu 
aspecto sujo, e miservel. Contudo, nos olhos dos soldados brilhava uma expresso diferente. 
Tinham redimido os trs anos de desculpas e pretextos invocados a fim de no seguirem para a 
frente de batalha; tinham trocado a relativa tranquilidade dos seus lares pelas contingncias da luta. 
Muitos deles haviam mesmo trocado a vida fcil que levavam por uma morte cruel. Pela bravura 
com que se bateram, podiam ser considerados j veteranos, embora de fresca data, mas veteranos 
apesar de tudo. Procuravam entre a multido caras amigas e fitavam-nas com orgulho e arrogncia. 
Agora j podiam erguer bem alto a cabea... 
Os velhos e os rapazes da Guarda Civil marchavam logo a seguir. Os ancies extenuados 
'arrastavam os ps, sem foras para poderei@ levant-los do cho. Os adolescentes tinham o ar de 
crianas fatigadas, consequncias do contacto intemp-estivo com os problemas dos adultos. Scarlett 
avistou Phil Meade e mal o reconheceu, tal a diferena operada na sua aparncia. Trazia o rosto 
enegrecido pela plvora e a fisionomia 'Qontraida em virtude do esforo empregado. 0 tio Henry 
passou, coxeando, com a cabea  chuva, protegida apenas por um pedao de oleado velho,. 
0 av Merriwether seguia num armo de artilharia com os ps envoltos em tiras de cobertor. Por 
mais que se esforasse, Searlett no conseguiu ver John Wilkes. 
Os veteranos que haviam combatido sob ais ordens de Johnston marchavam na cadncia maquinal e 
infatigvel, que mantinham desde o. incio, e ainda conservavam energia bastante para sorrirem e 
#
acenarem s raparigas bonitas e lanarem ditos grosseiros aos paisanos que assistiam ao desfile. 0 
seu destino agora eram os entrincheiramentos que circundavam a cidade, constitudos no por valas 
pouco profundas, cavadas  pressa, mas por construes bem feitas, de @guardapeito alto, 
reforadas com sacas de areia e protegidas por uma cortina de estacas aguadas, de madeira. Toda a 
periferia da cidade se encontrava defendida por essas trincheiras, incises rasgadas nos flancos dos 
outeiros vermelhos que aguardavam a chegada dos liomens que deviam gurnec-las. 
425 
A multido aclamava as tropas como se tivessem sado vitoriosas. 0 receio dominava os coraes, 
mas, agora que conheciam a verdade, que sabiam ter acontecido o pior e que a guerra se avizinhava 
dos seus lares, uma transformao radical se operava na atitude de todos os habitantes. J no se 
vislumbravam, fosse em que ponto fosse, sinais de pnico nem de histerismo. A fisiGnomia no 
deixava transparecer o que ia na alma. Todos procuravam mostrar-se alegres, embora essa alegria 
fosse fitcia, tentando manifestar a confiana que depositavam nas tropas. Toda a gente repetia a 
frase que o velho Joe dissera poucos momentos antes de receber a noticia da sua exonerao: 
- Posso defender Atlanta eternamente! Agora, que tambm Hood se vira 'forado a bater em 
retirada, j muitas pessoas partilhavam do desejo dos soldados e ansiava pelo regresso do velho Joe, 
embora ningum ousasse confess-lo. Todavia, encorajavam-se a si prprias, buscando nimo na 
afirmao do valoroso general: 
- Posso defender Atlanta eternamente! 
Hood no era-partidrio da tctica cautelosa adoptada pelo general Johnston e investiu contra os 
yankees, a leste e a oeste de Atlanta. Sherman cercava a cidade, observando os movimentos do 
inimigo como o lutador que procura o ponto vulnervel do adversrio, a fim de desferir o golpe 
fatal. Hood, porm, no se deixou ficar entrincheirado  espera que os yankees resolvessem atacar. 
Em cargas audaciosas caiu como uma fria sobre as tropas sitiantes e no breve espao de meia 
dzia de dias travou com os abolicionistas a batalha de Atlanta e a de Ezra Church, as quais se 
arrastaram durante quarenta e oito horas e foram de tal modo renhidas e mortferas que a de 
Peachtree Creek, comparada com qualquer delas, poderia parecer apenas uma leve escaramua. 
No entanto, em vez de se retrarem, os yankees ainda se lanavam mais afoitamente na luta. Tinham 
sofrido baixas tremendas, mas dispunham de homens em quantidade suficiente para poderem 
suport-las  vontade. As suas baterias no cessavam de fazer fogo sobre Atlanta, matando os 
habitantes indefesos, destelhando os edifcios e abrindo enormes crateras nas ruas e nas estradas. A 
populao da cidade abrigava-se o melhor que podia nas adegas, em gru- 
426 
tas e cavernas, nos tneis estreitos da via frrea. Atlanta estava cercada. 
Onze dias depois de ter assumido o comando, o general Hood tinha perdido tantos homens como 
Johnston em quase trs meses de lutas e retiradas. E Atlanta encontrava-se sitiada por trs lados. 
0 caminho de ferro que ligava o principal entreposto da Confederao com o Estado de Tennessee 
achava~se inteiramente em poder de Sherman, cujas tropas haviam cortado j a via frrea que 
assegurava as comunicaes com o Leste, bem como o ramal do Sudoeste, que se dirigia para 
Alabama. S uma linha se conservava aberta ao trfegoconfederado: a que unia Macon a Savannah. 
Atlanta regurgitava de soldados, de feridos e de refugiados e essa linha era insuficiente para suprir 
as necessidades cada vez maiores e mais prementes da populao. Contudo, enquanto ela 
permanecesse na posse das foras sulistas, Atlanta poderia resistir. 
Searlett ficou aterrada quando se compenetrou da importncia daquele ramal e pensou na violncia 
dos combates que Sherman e Hood no deixariam de travar, o primeiro para o conquistar o segundo 
para o defender, porque era aquele o ramal que atravessava Gergia e passava em Jonesboro, e Tara 
ficava apenas a cinco milhas de Jonesboro. Tara constituiria certamente um osis de tranquilidade 
em relao ao inferno de Atlanta. Mas Tara ficava ainda a cinco milhas de Jonesboro... 
No dia em que se feriu a batalha de Atlanta, Scarlett assistiu, juntamente com muitas outras 
senhoras, ao desenrolar dos combates, sentada no terrao de um dos armazns e com a sombrinha 
aberta, a fim de se proteger das ardncias do sol estival. Mas, quando os primeiros estilhaos de 
#
granadas aram nas ruas da cidade tanto Searlett como as suas companheiras correram a al@rigarse 
na profundidade dos subterrneos e nessa mesma noite principiou o xodo de mulheres, crianas 
e velhos em direco a Macon. Muitos, dos passageiros que embarcaram no comboio que partiu de 
Ailanta ao entardecer eram refugiados que tinham vindo de cidade em cidade, sempre na vanguarda 
das tropas de Johnston, desde a evacuao de Dalton. Viajavam agora com bagagens muito mais 
reduzidas do que aquelas com que tinham chegado a Atlanta, A grande 
427 
iu,4" 
maioria levava apenas consigo um saco de tapearias e uni parco farnel, embrulhado num leno de 
seda. Entre eles, via-se um ou outro criado, com expresso de pavor estampada no rosto, carregando 
jarros de prata, talheres e fotografias de pessoas de famlia, que haviam conseguido salvar na 
primeira fuga. 
Tanto a senhora Merriwether como a senhora Elsing se recusaram a partir. Ambas alegaram que no 
podiam abandonar o hospital, acrescentando altivamente que no tinham medo de nada nem de 
ningum e que no havia yankees capazes de as expulsarem de suas casas. No entanto, Maybelle 
Merriwether e o filho, seguiram para Macon, juntamente com Fanny Elsing. Pela primeira vez na 
sua vida de casada a senhora Meade negou-se terminantemente a obedecer ao marido quando este 
lhe ordenou que se metesse no comboio e partisse para um local seguro. 
0 marido precisava dela, dizia a pobre senhora. Alm disso, Phil encontrava-se algures nas 
trincheiras e queria estar prximo dele no caso de... 
A senhora Whiting partiu tambm e com ela muitas outras senhoras conhecidas de Scarle@t. A tia 
Pitty, que fora a primeira a censurar o velho Joe pela tctica de contemporizao que adoptara, foi 
igualmente das primeiras a fazer as malas. Tinha nervos extremamente sensveis, que no lhe 
permitiam suportar durante muito tempo o fragor das batalhas e o, troar incessante dos canhes - eis 
a desculpa que ela invocou. Receava desmaiar com alguma exploso mais forte, antes que tivesse 
tido tempo de se refugiar na adega, No que fosse medrosa, argumentava ela, tentando cerrar os 
lbios numa linha severa e resoluta. Iria para casa da prima, a idosa senhora Burr, de Macon, e 
queria que Scarlett e Melanie a acompanhassem, 
No obstante o terror que as continuas deflagraes das granadas lhe infundiam, Scarlett preferiu 
ficar em Atlanta a refugiar-se em Macon, poi@ detestava cordialmente a senhora Burr. Ainda se 
no esquecera do dia em que a velha lhe chamara leviana em virtude de a ter surpreendido a deixarse 
beijar pel@ filho, Willie, no decurso duma festa realizada em casa dos Wilkes. "No", dissera ela 
 tia Pitty, "vou para Tara, para junto dos meus pais, e Melanie, se quiser, pode ir consigo para 
Macon". 
Ao ouvir isto, Melanie rompeu num pranto convulsivo, dando largas  sua consternao. Pitty saiu a 
correr a fim 
428 
de ir chamar o Dr. Meade, e Melanie assim que a viu desaparecer no corredor, agarrou amba@ as 
mos da cunhada, implorando: 
-Por amor de Deus 'Scarlett, no me deixes! Sentir-me-ei to s e desamparada sem a tua 
companhia! Oh, Scarlett, tenho a certeza de que no resistirei se tu no estiveres ao p de mim 
quando a criana nascer! Sim,, eu sei... A tia Pitty  uma jia e no me abandonar. Mas tu 
conhece-Ia to bem como eu... Ela nunca teve filhos e as suas caturrices s vezes enervam-me de tal 
forma que at me d vontade de gritar. Por favor, Scarlett, no te vs embora! Tens sido como uma 
irm para mim e, alm disso... 
- acrescentou, esboando um plido sarriso, -...tu prometeste a Ashle que olharias por mim. Ele 
disse-me que te pediria esse @avor antes de partir. 
Scarlett fitou a cunhada, estupefacta. Como era possvel que Melanie lhe quisesse tanto, no 
obstante a antipatia que lhe votava e que to mal lograva dissimular? Como podia Melanie ser to 
estpida que nunca tivesse percebido o segredo da sua paixo por AshIey? Quantas vezes ela no 
trara esse segredo durante todos aqueles meses de tormento,  espera de noticias que nunca mais 
#
chegavam? Melanie, porm, no via seno o lado bom das criaturas... Sim, de facto prometera-lhe 
que olharia pela mulher... "Oh, AshIey! AshIey! J deves estar morto h tantos meses e s6 agora a 
promessa que te fiz vem tolher-me o passo!" 
-Na verdade - respondeu secamente - prometi a AshIey que cuidaria de ti e no voltarei com a 
minha palavra atrs. Mas isso no implica que seja obrigada a ir para Macon aturar aquela maldita 
velha. Arrancar-lhe-ia os olhos em menos de cinco minutos assim que lhe pusesse a vista em cima. 
Quero voltar para Tara e tu podes muito bem vir comigo. A minha me ter muito gosto em te 
receber. 
-Boa ideia! A tua me  to boazinha! Mas bem sabes que a tia Pitty morrer de desgosto se no 
estiver presente quando o nen nascer e eu duvido que ela queira ir para Tara, Fica muito perto do 
campo de batalha e a tia no quer correr riscos inteis. 
0 Dr. Meade, que chegou esbaforido, julgando encontrar Melanie j no incio do trabalho de parto, 
em face da aflio manifestada pela tia Pitty, no ocultou a sua indignao. E, ao conhecer a causa 
que motivara aquele alarme 
429 
injustificado, resolveu o assunto em termos tais que lhe no deu aso a prolongarem a discusso. 
- Ponha de parte essa ideia de ir para Macon, menina Melly. No me responsabilizo pelo que lhe 
possa acontecer se sair daqui. Os comboios andam superlotados, no respeitam as tabelas horrias e 
os passageiros esto sujeitos a serem despejados dum momento para outro no meio duma floresta, 
se as formaes forem de repente necessrias para o transporte de feridos, de tropas ou de 
abastecimentos. No seu estado... 
- Mas se eu for para Tara acompanhada por Scarlet,... -J lhe disse que no  conveniente sair de 
casa nas condies em que se encontra. Alis, o comboio que serve Tara  o mesmo que segue para 
Macon e portanto o problema subsiste. Alm disso, ningum sabe ao certo o que andam os yankees 
a fazer neste momento, nem onde param, pelo que h que contar sempre com a possibilidade de eles 
dinamitarem a linha. E mesmo que chegasse a Jonesboro s e salva, teria ainda que se sujeitar a 
urna viagem de cinco milhas por uma estrada pssima, para chegar a Tara. Deve concordar que no 
 uma aventura aconselhvel para uma senhora que se encontra nesse estado. E, para concluir, devo 
inform-la de que no h mdico nenhum na regio desde que o Dr. Fontaine se alistou. 
-Mas h parteiras... -Eu falei em mdicos -redarguiu o Dr. Meade com brusquido, e 
inconscientemente os olhos contemplaram a frgil constituio da criatura deitada no leito. - No 
quero que se mexa da. Pode ser perigoso. No pretende arriscar-se a ter o filho no comboio ou 
numa carroa, pois no? 
As trs mulheres coraram 'embaraadas, ante a rude franqueza do mdico, e guardaram silncio. 
- No, deixe-se estar 'onde est para que eu tenha possibilidade de a observar sempre que for 
preciso. E no saia da cama. Nada de correrias para o subterrneo nem que as balas comecem a 
entrar pela janela. A deitada nenhum perigo a ameaa. E no deve tardar que os yankees sejam 
obrigados a bater em retirada... Quanto  senhora Pitty, pode partir quando quiser. Mas as suas 
sobrinhas tm de ficar. 
- Sem terem quem as vigie? 
- Elas j so ambas casadas - respondeu o mdico, vivamente. -E a minha mulher mora aqui mesmo 
a dois 
430 
passos. Alm disso, tenho a certeza de que no tencionam receber visitas masculinas com a menina 
Melly neste estado. Meu Deus! Lembre-se de que nos encontramos em guerra! No podemos 
preocupar-nos com preconceitos sociais! Agora o que nos importa  cuidarmos desta. 
Saiu da sala e esperou sob o alpendre que Scarlett se lhe reunisse. 
-Vou ser franco consigo, Scarlett -declarou ele, cofiando a barba grisalha.-A menina parece-me uma 
rapariga dotada de senso prtico e portanto, espero que me poupe o embarao de a ver cora@. Peolhe 
encarecidamente o favor de convencer a sua cunhada a no empreender qualquer viagem antes 
que a criana nasa. Duvido que ela conseguisse resistir, por mais cuidados que houvesse. A Melly 
#
vai passar por um mau bocado, mesmo na melhor das hipteses. n muito estreita de ancas, como 
sabe, e tudo faz prever que se torne necessrio o emprego de frceps, razo por que no quero 
nenhuma parteira preta metida neste caso. Mulheres como a sua cunhada no deviam ter filhos, 
mas... Seja como for, o que agora tem a fazer  emalar as roupas da senhora Pittypat e mand-la 
para Macon. A sua tia est to amedrontada que no faria mais do que afligir a Melly sem 
necessidade o que s poderia precipitar os acontecimentos e acarret@r algum dissabor. Quanto a 
si... -prosseguiu o mdico, lanando a Scarlett um olhar perscrutante - _ melhor pr tambm de 
parte a ideia de partir numa altura destas. Deixe-se ficar junto de Melly at que ela d  luz. No  
medrosa, pois no? 
- Oli, no! - volveu Scarlett, mentindo desassombradamente. 
- Tanto melhor. A senhora Meade acompanh-la- sempre que for preciso e dispensar-lhe- a velha 
Betsy para cozinhar, no caso de a senhora Pitty levar as criadas consigo. Calculo que ela no seja 
necessria por muito tempo, visto que, segundo as minhas previses, a criana deve nascer dentro 
de cinco semanas, o mais tardar. No entanto, em virtude de se tratar do primeiro filho, e com todo 
este tiroteio a contender coni-og-nervos da Melly, h que encarar a hiptese de o parto ocorrer mais 
cedo, 
Pittypat partiu para Macon, a debulhar-se em lgrimas, levando consigo Peter e a velha cozinheira 
negra. Num rasgo de patriotismo de que logo se arrependera doara a sua carruagemcom o respectivo 
animal aos servios hwpi- 
431 
talares, o que contribuiu ainda mais para engrossar o pranto que verteu no momento da despedida. 
Searlett e Melanie ficaram sznhas com Prssy e Wade Hampton, numa casa que lhes parecia agora 
muito mais tranquila, se bem que o bombardeamento dos yankees prosseguisse na mesma escala. 
lo 
os yankees la@_,aram-se ento ao assalto da cidade, esbarrando contra, a enrgica defesa oposta 
pelos soldados de Hood. Durante os primeiros dias do cerco ' Scarlett ficava to apavorada sempre 
que uma granada explodia mais prximo que se limitava a tapar os ouvidos com as mos, esperando 
a morte a cada momento. Quando ouvia o silvo que assinalava a passagem dum projctil, 
precipitava~se para o quarto de Melanie e deitava-se na cama, junto da cunhada. Agarravam-se uma 
 outra escondendo a cabea nas almofadas, e gritavam: "Oh! h!", enquanto Prissy e Wade corriam 
para a adega, onde se agachavam na escurido, sob as teias de aranha. Prissy berrava a plenos 
pulmes, aterrorizada, e Wade gemia e soluava. 
Sufocando sob as almofadas de penas enquanto a morte uivava acima da sua cabea, Scarlett 
amaldioava Melanie em silncio visto ser por causa dela que no podia procurar refgi@o na cave. 
0 Dr. Meade intimara-a a no abandonar a cunhada e proibira Melanie de andar. Ao medo de ir 
pelos ares juntava-se o receio no menor de que a criana nascesse dum momento para outro. 
Cobria-lhe o corpo um suor frio sempre que tal pensamento lhe acudia. 0 que havia ela de fazer 
quando o parto comeasse? Ser-lhe-ia muito mais fcil deixar Melanie morrer do que correr  rua a 
fim de chamar o mdico, com as granadas a choverem sobre a cidade. Quanto a Prissy, sabia que 
preferiria apanhar uma sova mortal a dar um passo fora de casa. Que faria ela, se a criana 
nascesse? 
Certa noite, estava Scarlett a discutir o assunto em voz baixa, com Prssy, enquanto preparavam na 
bandeja o jantar de Melane, quando a criadita preta inesperadamente acalmou todos os seus 
receios: 
- Minina Scarlett, mesmo que a gente no pode i busc o dout, quando a hora dela cheg, no se 
rale! Eu posso 
432 1 
ajud. Sei trat de sinhora Melly. Minha me  parteira. Ela criou a mim pra s parteira tambm. 
Deixe o caso por minha conta. 
Searlett respirou aliviada ao verificar que tinha ao seu alcance duas mos experientes mas bem 
quisera que a crise que se avizinhava tivesse j passado. Ansiava por se libertar da ameaa 
#
constante das granadas, por se refugiar na quietude de Tara. Todas as noites pedia a Deus que a 
criana nascesse no dia seguinte, para que, uma vez livre do compromisso que tomara, pudesse 
abandonar Atlanta. Tara parecia-lhe to segura, to distante de todo aquele horror... 
Searlett suspirava por regressar de novo  casa onde pela primeira vez vira a luz do dia, por voltar 
junto da me, do pai e das irms 'como nunca suspirara por qualquer outra coisa em toda a sua 
vida. A companhia de Ellen inspirar-lhe-ia confiana, dissipar-lhe-ia todos os seus temores, 
acontecesse o que acontecesse. Quando a noite tombava aps mais um dia de terror, Scarlett ia 
deitar-se levando ainda nos ouvidos os silvos das granadas e o troar dos canhes, e tomava a firme 
resoluo de na manh seguinte declarar a Melanie que no passaria mais nenhuma noite em 
Atlanta. Iria para Tara e Melanie teria de se recolher em casa da senhora Meade. @las logo que 
reclinava a cabea no travesseiro vinha-lhe  mente a imagem de Asliley tal qual o vira pela ltima 
vez torturado por um sofrim@nto interior, com um sorriso triste a entreabrir-lhe os lbios e a 
recomendar-lhe que tomasse conta de Melanie. 
E ela tinha prometido. Asliley morrera em qualquer parte. Mas, onde quer que se encontrasse agora, 
estaria a v-Ia e decerto exigiria o cumprimento da promessa feita. Scarlett no queria causar~lhe 
nenhuma decepo. Respeitaria a palavra dada, custasse o que custasse, mesmo que viesse a saber 
ao certo que ele sucumbira no cativeiro. E assim se ia deixando ficar dia aps dia. 
Quando respondia s cartas de Ellen, em que a me lhe implorava que voltasse para Tara, Scarlett 
depreciava sempre os per@gos que estava correndo, alegando que Melanie se encontrava num 
estado melindroso e comprometendo-se a partir imediatamente aps o nascimento da criana. Ellen, 
que atribua grande importncia aos laos de famlia, ainda que no fossem consanguineos, acabou 
por se resignar, mas exigiu que Prissy e Wade Hampton seguissem quanto 
28 - Vento Levou - 1 433 
antes. Esta sugesto teve a plena concordncia de Prissy, que batia os dentes ao, menor rudo 
suspeito e ficava em perfeito estado de idiota sempre que uma granada passava assobiando por cima 
do telhado. Permanecia horas e horas agachada no subterrneo e se a senhora Meade no tivesse 
emprestado a sua velha 'Betsy para ajudar Scarlett na cozinha, teriam morrido todos  fome. 
Scarlett estava to ansiosa como a me por fa2er sair o filho daquele inferno, no s por causa da 
segurana do pequeno, mas ta'mbm pelo enervamento que lhe causava o terror constante em que o 
via. 0 pavor que o assaltava ao ouvir as exploses das granadas deixava-o ficar sem fala e at nos 
momentos de relativa calma ele se agarrava desesperadamente s saias de Scarlett.  noite, tinha 
medo de se deitr e no queria dormir s escuras, com receio de que os yankees o levassem assim 
que ele fechasse os olhos. 
0 choro constante do garoto desequilibrava-lhe os nervos. No ntimo, Scarlett sabia que o seu terror 
era to grande como o de Wade, mas irritava-se ver a cada momento esse terror patente no rosto do 
filho. Sim, era em Tara que o pequeno devia estar. Prissy podia lev-lo e voltar imediatamente a fim 
de assistir ao parto. 
Mas, antes que Scarlett tivesse tido tempo de pr em prtica o seu intento, chegou  cidade a notcia 
de que os yankees se haviam dirigido para o Sul e combatiam ao longo da via frrea, entre Atlanta e 
Jonesboro. E se os invasores detivessem o comboio em que os dois viajassem? Ao lembrarem-se 
dessa possibilidade, Scarleit e Melanie empalideciam, pois ningum ignorava as atrocidades que os 
soldados de Sherman infligiam s crianas indefesas, muito piores do que as tropelias que faziam s 
mulheres. E, assim, o mido ficou em Atlanta, como um pequenino fantasma silencioso, aterrado 
seguindo a me como uma sombra, @om receio de ser arr@batado na voragem daquela guerra 
interminvel. 
0 cerco prolongou-se por todo o ms de Julho, cujos dias quf4ntes se arrastaram com pasmosa 
lentido. Quando caa a iloite, o troar ininterrupto das baterias yankees dava lugar a um silncio 
sepulcral que ainda se tornava mais impressionante do que o ribombar dos canhes. Os habitantes, 
contudo, j estavam habituados a uma coisa e a outra. Dir-se-ia que tudo lhes era indiferente agora, 
depois da longa srie de desiluses sofridas. 0 cerco, que tanto 
434 
#
haviam receado, j no revestia a seus olhos a gravidade de outrora. E a vida prosseguia num ritmo 
quase normal. Sabiam que estavam sobre um vulco, mas at que ele entrasse em actividade nada 
podiam fazer. No valia a pena preocuparem-se. Era at muito provvel que a erupo nunca se 
chegasse a dar. Bastava atentar na facilidade com que Hood mantinha os yankees a distncia. Era 
ver como a cavalaria defendia o caminho de ferro para Macon! Sherman nunca conseguiria tomar 
Atlanta! 
Mas, apesar da aparente indiferena pelos projcteis que no cessavam de cair sobre a cidade apesar 
de serem cada vez mais reduzidas as raes que @ompetiain a cada um, apesar de ignorarem que o 
inimigo se encontrava apenas a oitocentos metros de distncia, apesar da confiana ilimitada que 
depositavam nos hericos soldados de cinzento, os habitantes de Atlanta viviam inquietos, na 
incerteza do que lhes poderia acontecer no dia seguinte. A dvida, a fadiga, o desalento, a tristeza, 
a fome, tudo ia desgastando gradualmente a resistncia do povo. 
A pouco e pouco, Scarlett foi haurindo coragem na expresso de bravura patente no rosto dos 
amigos, cuja fisionomia deixava transparecer tambm aquela resignao que a natureza empresta a 
todos os que tm de enfrentar uma situao irremedivel. Evidentemente, ainda estremecia com o 
fragor das exploses, mas j no corria, aos gritos, a esconder C> rosto no travesseiro de Melanie, 
At j encontrava nimo para dizer, embora com voz fraca: 
-Esta foi muito perto, no foi? No se assustava j com tanta facilidade ' em parte porque a vida 
agora se lhe afigurava um sonho, um sonho demasiadamente terrvel para ser real. No era possvel 
que ela, Searlett O'Hara, estivesse correndo perigo a toda a hora e a todo o instante. No era 
possvel que a tranquila maneira de viver de outrora tivesse sofrido to radical transformao em 
to breve espao de tempo. 
Parecia-lhe irreal, fantstico, que o azul do cu das lindas manhs estivais fosse turvado pelos 
fumos da plvora, que pairavam sobre a cidade em nuvens baixas, como se estivesse iminente forte 
trovoada, que as tardes suavemente perfumadas pela fragrncia das madressilvas e roseiras em flor 
fossem perturbadas pelos silvos das granadas que tombavam nas ruas, explodindo com fragor, 
projectando esti- 
435 
lhaos de ferro a centenas de metros de distncia, esfacelando homens e animais. 
As horas calmas das sestas tinham passado  histria, pois que, embora no desenrolar das operaes 
se verificassem por vezes perodos de relativa acalmia, o trfego em Peachtree Street no sofria 
quebra durante o dia. Atrs das ambulncias que transportavam feridos para os hospitais, 
desfilavam regimentos que em passo acelerado se deslocavam duma linha de trincheiras para outra 
e passavam estafe;as galopando em direco ao quartel-general, como se a sorte da Confederao 
dependesse da rapidez dos seus cavalos. 
As noites quentes decorriam calmas, mas havia na sua quietude algo de sinistro. 0 silncio sepulcral 
que ao entardecer tombava sobre o vasto burgo chegava a incutir pavor, era em extremo profundo 
para ser real. Dir-se-ia que as rs, as cigarras e os pssaros tinham perdido a alegria de viver e se 
recusavam a entoar o coro habitual das noites estivais. De tempos a tempos, o silncio era 
bruscamente interrompido por uma detonao isolada, que se elevava na noite como um verdadeiro 
trovo. 
Por vezes, a horas mortas, quando j todas as luzes estavam apagadas e Melanie dormia a sono 
solto, Scarlett, que no conseguia adormecer, ouvia abriar o fecho do porto e leves pancadas na 
porta da frente. 
Eram sempr@5- soldados 'cujo rosto no lograva descortinar na escurido, os quais lhe faziam os 
mais variados pedidos, falando com sotaques que por vezes lhe eram completamente 
desconhecidos. De quando em quando subia da rua at  sua janela a voz dum homem mais 
delicado, que lhe dizia cortsmente: 
- Minha senhora, peo mil desculpas de vir incomod-la a esta hora, mas seria possvel fornecer-nos 
um pouco de gua, a mim e ao meu cavalo? 
Apareciam com frequncia soldados de sotaque anasalado dos longnquos plainos do Wiregrass, 
#
situados muito mais ao Sul, ou com a pronncia spera dos habitantes das regies montanhosas ou 
com a entonao arrastada e musical da popula@ da faixa costeira, a qual fazia lembrar a voz de 
Ellen. 
- Menina, trago aqui um camarada ferido, mas ele no aguenta mais... Pode deix-lo entrar? 
436 
- Minha senhora, no tenho nada para comer. -J@ capaz de me dar uma maaroca que lhe no faa 
falta? 
- Minha senhora perdoe-me a ousadia, mas... deixa-me passar a noite debaixo da sua varanda? Vi 
as suas roseiras e senti o cheiro das madressilvas... Fizeram-me lembrar tanto a minha casa que... 
No, essas noites no eram reais.-Faziam parte dum pesadelo horrvel em que perpassavam homens 
sem corpo nem rosto e vozes misteriosas que se elevavam da obscuridade clida. Acarretar gua ' 
oferecer comida, colocar travesseiros sob a varanda, fazer pensos, amparar cabeas ensanguentadas, 
de moribundos... Nada disso, de facto, podia ser real. Era uma alucinao ' uma fantasmagoria 
criada pelo seu esprito imaginativo, vido de sensaes... 
Numa bela noite dos fins de Julho, o tio de Melanie foi bater-lhe  porta, como muitos outros 
soldados haviam feito antes dele, Henry Hamilton j no trazia na mo o saco de viagem, nem topouco 
o guarda-chuva com que tinha partido para a frente. Durante a luta fora despojado at da 
prpria barriga. Estava muito mais magro e a pele das bochechas, outrora gordas e rosadas, pendialhe 
dum lado e doutro da cara, como papadas dum buldogue lazeirento. A sua cabeleira branca 
parecia negra de sujidade. Vinha quase descalo, faminto e coberto de piolhos. Mas conservava o 
esprito irascvel que a sobrinha sempre lhe conhecera. No obstante ter afirmado que aquela guerra 
era uma luta insensata em que at os velhos tontos como ele andavam misturados, Scarlett e 
Melanie estavam plenamente convencidas de que o velho encontrava certo prazer oculto em sentir 
de novo o cheiro da plvora impregnado nas narinas. Hood precisava dele tanto como dos rapazes 
novos, e a verdade  que Henry Hamilton fazia o mesmo que os jovens. Alm de que, comentava o 
tio Henry jovialmente, no receava confronto com ningum, o que no podia dizer-se do av 
Merriwether, o qual j pouco fazia. 0 lumbago atormentava-o e o capito estava disposto a 
dispens-lo mas o velho recusara. No queria voltar para casa. Decl@rava peremptoriamente que 
preferia as pragas e a impertinncia do capito aos cuidados excessivos da nora. J no podiaouvi-la 
pedir-lhe que deixasse o vcio de mascar tabaco e lavasse as barbas todos os dias. 
A visita do tio Henry foi curta, porque estava dispen- 
437 
LALI 
sado por quatro horas, e s a caminhada de ida e volta exigia duas. 
- Menina, vou passar algum tempo longe de Atlanta - 
anunciou, mergulhando os ps, deleitado,, na bacia de gua fresca que Scarlett lhe trouxera. - A 
nossa companhia parte amanh de madrugada. 
- Para onde? - perguntou Melanie, assustada, agarrando-lhe o brao. 
- No me toques - preveniu o tio Henry irritado. - 
Estou minado de piolhos. A guerra no passari@ dum piquenique se no fossem os parasitas e a 
disenteria, Para onde vou? Ainda no me disseram, mas calculo. Se me no engano muito vamos 
marchar para o sul, em direco a Jonesboro, as@im que rompa a manh. 
- Em direco a Jonesboro? Porqu? 
- Porque  l que somos precisos, minha filha. Os yankees vo fazer toda a diligncia por se 
apoderarem do> caminho de ferro e, se o conseguirem... adeus Atlanta! 
-0 tio Henry acha que eles podero tomar a cidade? -Valha-me Deus, meninas! Evidentemente que 
no! Como seria isso possvel, estando eu l?-0 tio Henry sorriu, ao v-las assustadas e, assumindo 
um ar circunspecto, acrescentou: -Vai ser uma batalha renhida e temos de ganhar, d por onde der. 
Vocs decerto j sabem que os yankees esto de posse de todas as linhas frreas, excepto a de 
Macon, no  assim? No entanto, no foi isso smente que eles at  data conseguiram. Talvez 
vocs ignorem, mas os yankees esto senhores de todas as estradas, de todos w caminhos e veredas 
#
de Gergia, com excepo da estrada de McDonough. Atlanta est metida num saco e os cordes 
desse saco vo fechar-se em Jonesboro. Se o, inimigo se apossar do caminho de ferro nesse ponto 
poder puxar pelos cordes e apanhar-nos de vez. l@ por'isso que temos de lhes tolher o passo. J 
devia ter partido, meninas. Vim aqui apenas para me despedir e para averiguar se de facto Scarlett 
tinha ficado a fazer-te companhia. 
-Pois claro que ficou -respondeu Melanie afectuosamente. - No se incomode connosco, tio Henry, 
e cuide antes de si. 
0 velhote enxugou os ps na toalha turca e resmungou, ao enfi-los de novo nos sapatos 
esburacados: 
- Tenho de me ir embora. Ainda so cinco milhas daqui 
438 
at ao meu posto. Arranja-me qualquer coisa de comer, Searlett. Seja, o, que for. 
Despediu-se de Melanie e dirigiu-se para a cozinha, onde Scarlett. estava embrulhandG uma 
maaroca de milho jun~ tamente com algumas mas... 
-Tio Henry... tem a certeza de que... de que a situao  assim to grave? 
-Assim to grave? Valha-me Deus, Scarlett!  gravssima! Deixa-te de iluses. Estamos quase a dar 
o ltimo ai. 
-E pensa que eles chegaro a Tara? 
- Ora... - comeou o veterano, irritado com a mentalidade da sobrinha, que s se preocupava com o 
seu problema pessoal quando estavam em causa coisas muito mais importantes. Mas, ao v-Ia 
desfigurada pelo terror prosseguiu: -Decerto que no chegaro to longe. Tara ica desviada cinco 
milhas do caminho de ferro e s o caminho de ferro  que interessa aos yankees. Tu tens to pouco 
miolo como um grilo minha querida. 
E cal@u-se bruscamente, para acrescentar logo a seguir: 
- Eu no fiz toda esta caminhada apenas para lhes dizer adeus, Scarlett. Trazia uma notcia, triste 
para dar a Melanie, mas no tive coragem. Espero que tu lha ds por mim. 
- Ashley!... Ouviu dizer alguma coisa a respeito dele? Se morreu?... 
- Como poderia eu receber notcias de Asliley se tenho estado nas trincheiras, atascado em lama at 
aos joelhos? No, quem morreu foi John Wilkes, o pai. 
Scarlett deixou-se cair numa cadeira, com o embrulho meio desfeito. .-Vim c propositadamente 
para dizer isto a Melly, mas no fui capaz. Dize-lho tu... e entrega-lhe estas coisas. 
Retirou dos bolsos um pesado relgio de oira com berloques, uma miniatura da senhora Wilkes, 
faleida havia muito e um par de botes de oiro macio. S em face do relgi@ que tantas e tantas 
vezes vira nas mos de John Wilkes, Scarlett compreendeu realmente -que o pai de Astiley deixara 
de-existir. Ficou como que fulminada pela notcia, in@capaz de falar ou de chorar. Atarantado, o tio 
.Henry tossiu e evitou encarar a sobrinha, com receio de que a viso das suas lgrimas o 
transtornasse. 
- Era um valente... No te esqueas de o dizer a Melanie, Scarlett. Dize-lhe tambm que comunique 
a triste nova 
439 
1 s cunhadas. Foi morto' por uma granada que o atingiu em cheio. A montada no morreu logo. Fui 
eu que lhe acabei 'com o sofrimento. Era um belo animal. Convm igualmente escrever  senhora 
Tarleton, que tinha uma adorao pela sua gua puro-sangue, a respeito da qual fazia tantos 
projectos. Embrulha a minha merenda, pequena. Tenho de me ir embora. E no tomes a coisa tanto 
a peito,. Que melhor morte pode ter um velho do que combatendo como um rapaz? 
- Oh! Ele no devia ter morridoi Nunca devia ter ido para a guerra. Devia ter vivido para ver crescer 
o neto e morrer em paz no seu leito. Oh, por que no se deixou ficar tranquilamente nos Doze 
Carvalhos? No acreditava na nossa Causa e at detestava... 
- H muitos outros que tambm pensam da mesma forma mas que havemos ns de fazer? - 
comentou o tio Henr@,' assoando-se ruidosamente. -Pensas que, na minha idade,  muito agradvel 
servir de alvo para os atiradores Vankees? Contudo, os homens da nossa classe no tiveram outro 
#
remdio seno marchar tambm. Adeus, filha, e no te preocupes por minha causa. Estou certo de 
que sairei inclume desta guerra. 
Scarlett despediu-se e ouviu-o descer as escadas e abrir o fecho do porto. Parou ainda um 
momento, com o esplio de John Wilkes nas mos, em seguida subiu os degraus at ao andar de 
cima, a fim de dar a triste noticia  cunhada. 
S nos derradeiros dias de Julho chegaram as desagradveis novas que o tio Hen@y previra. Os 
yankees tinham contornado Jonesboro e haviam cortado a linha frrea quatro milhas ao sul da 
cidade. No entanto, a cavalaria da Confederao rechaara-os das posies conquistadas e o corpo 
de engenharia sulista, suando sob o sol escaldante, empenhava-se na reparao dos carris. 
Scarlett ardia de ansedade:Vivera trs dias de tormento na expectativa de que tivesse sucedido o 
pior, mas por fim recebera do pai uma carta tranquilizadora. 0 inimigo ainda no tinha chegado a 
Tara. J ali haviam escutado o fragor d batalha, mas os yankees ainda no se viam nas imediaes. 
A epstola de Gerald era to minuciosa e relatava com tanto humor a forma como os invasores 
tinham sido desalojados da linha de caminho de ferro que se diria que assis- 
440 
tira  luta e cometera o feito pessoalmente. Encheu nem mais nem menos do que trs pginas com a 
descrio das proezas levadas a efeito pelos soldados de cinzento e s no fim aludia  doena de 
Carreen. Na opinio da mulher dele, tratava-se dum caso de febre tifide. Contudo, o estado dela 
no era grave, pelo que no havia motivo para Searlett se afligir. Sob nenhum pretexto, nem mesmo 
que fossem nulas as probabilidades de o caminho de ferro cair em poder do adversrio, deveria ela 
pensar em regressar a Tara. A me ficara radiante pelo facto de Scarlett e Wade no terem partido, 
quando teve conhecimento de que Atlanta se encontrava cercada e recomendava  filha que fosse  
missa e rezasse alguns teros pelo restabelecimento da irm. 
Scarlett no se sentiu muito bem com a sua conscincia, pois havia j alguns meses que no entrava 
numa igreja. Noutros tempos, teria considerado isso um pecado mortal; agora, porm j no lhe 
parecia to grave a falta. No entanto, satisiazendo o desejo da me, recolheu ao quarto e rezou. 
Terminada a orao, ergueu-se, mas no com a sensao de conforto que outrora experimentara no 
final das suas preces. Havia muito tempo j que tinha a impresso de que Deus a desamparara no 
s a ela, mas tambm  Confederao e a todo o Su, a despeito dos milhares de oraes que Lhe 
eram dirigidas diariamente. 
Nessa noite, sentou-se sob o alpendre, guardando no seio a carta de Gerald, que apalpava de vez em 
quando a fim de ter a iluso de estar em contacto directo com Tara e com a me. 0 candeeiro da sala 
iluminava de forma estranha as trepadeiras que se entrelaavam em torno das colunas do alpendre e 
as madressilvas e as roseiras formavam  sua volta uma cortina de deliciosa fragrncia. A noite 
continuava tranquila; nem sequer a detonao duma espingarda perturbava o silncio, e o mundo 
parecia ter-se distanciado para muito longe. Recostada numa cadeira de baloio, Scarlett pensou, 
desolada, nas notcias que recebera de Tara. Desejaria ter ao p de si uma companhia amiga, nem 
que fosse a da senhora Merriwether. Mas essa estava de servio nocturno no hospital e a senhora 
Meade ficara em casa para festejar Phil, que viera de licena. Melanie j adormecera, No lhe 
restava sequer a esperana de aparecer um visitante caEmal. Em Atlanta no havia nenhum homem 
vlido, pois todos aqueles que estavam aptos para marchar e pegar numa arma se encontravam 
441 
VO. .14 
nas trincheiras, combatendo os yankees nos arredores de Jonesboro. 
Raras vezes se vira to sznha como agora, ela que detestava a solido! A solido obrigava-a a 
meditar e nesse dia, os seus pensamentos nada tinham de agradvel.' Como sucedera com a maioria 
das pessoas, habituara-se a pensar apenas no passado, nos mortos. Naquela noite, a acalmia em 
Atlanta era tal que, fechando, os olhos, Scarlett imaginou ter voltado  quietude buc6lica de Tara. 
Por instantes, chegou a supor que a vida no mudara nem era susceptvel de mudar. Contudo 
intimamente, reconhecia que a vida na comarca jamais voltaria a ser o que fora. Pensou nos quatro 
Tarletons, nos gmeos de cabelo ruivo, em Tom e em Boyd, e sentiu um n formar-se-lhe na 
#
garganta. Tanto Stuart como Brent podiam t-la desposado... Quando acabasse a guerra e 
regressasse a Tara no tornaria a ouvir as saudaes joviais dos dois rapazes, nem voltaria a v-los 
surgir a galope ao fundo da alameda dos cedros. E Raiford Calvert, que danava divinalmente, 
nunca mais iria. b:psc-Ia para bailar. E os Munroes e o pequeno Joe Fontaine... e... e AshIey! 
"Oh, As)lley!" soluou ' escondendo a cabea entre as mos. "Nunca me habituarei  ideia de que 
partiste para sempre!" 
De sbito, ouviu abrir o porto do jardim e tratou imediatamente de enxugar as lgrimas. Levantouse 
e viu Rhett Butler dirigir-se para ela com o panam na mo. Rhett no voltara a aparecer-lhe 
desde o dia em que ela o abandonara precipitadamente no Entroncamento. Lembrava-se de que 
nesse instante lhe exprimira o desejo de no lhe tornar a pr a vista em cima. Agora, porm, estava 
to contentepor ver surgir uma pessoa com quem falar, com quem distrair o pensamento 
entristecido pela recordao de Ashley, que se apressou a varrer da, mente a memria do 
desagradvel incidente ocorrido com Rhett, o qual ou j o esquecera ou simulava t-lo esquecido 
,pois subiu a escada at ao ltimo degrau e estacou junto dela, sem fazer qualquer aluso ao caso. 
- Ento no foi para Macon? Ouvi dizer que a senhora Pitty havia fugido para l e imaginei que 
tivesse ido com ela. Mas ao ver a luz acesa aqui em casa resolvi certificar-me. Por que ficou em 
Atlanta? 
442 
- Para fazer companhia a Melanie. H-de compreender... ela no pode viajar... 
- Ora essa! - exclamou Rhett. Scarlett notou,  luz do candeeiro que ele franzira as sobrancelhas. - 
No me diga que a @enhora Wilkes ainda se encontra na cidade! Que disparate! Nas condies em 
que est arrisca-se a sofrer algum dissabor se os yankees atacarem novamente. 
Scarlett emudeceu, embaraada. 0 estado de Melanie no era assunto que uma mulher pudesse 
discutir com um homem. Alm disso, sentia-se pouco  vontade, verificando que Rhett, celibatrio 
inveterado, conhecia o perigo que Melanie corria. 
-Verifico com pesar que se no preocupa com o que possa acontecer-me - observou ela, secamente. 
- J lhe disse uma vez, mas posso repeti-lo, que ficarei em Atlanta para a defender dos yankees 
enquanto eles rondarem a cidade. 
- No sei se interprete as suas palavras como um galanteio, se no - replicou Scarlett, indecisa. 
- No se trata de nenhum galanteio - explicou ele. - 
Quando  que perder essa mania de imaginar galanteios em todas as palavras que os homens lhe 
dirigem? 
-S depois de morta -respondeu ela. E sorriu, pensando que encontraria sempre homens que lhe 
dirigissem piropos, mesmo que Rhett nunca o fizesse. 
-Presuno e gua benta cada qual toma a que quer 
- comentou Rhett. - Graas a Deus, tem ao menos uma virtude: a de ser sincera. 
Abriu o estojo dos charutos, escolheu um e levou-o ao nariz por instantes, a fim de lhe aspirar o 
aroma. Riscou um fsforo e, recostando-se contra uma das colunas, passou os braos  volta dos 
joelhos e fumou em silncio durante alguns momentos. Scarlett fez baloiar a cadeira, sem dizer 
palavra, observando o companheiro ' imvel. Envolvia-os a quietude tpida da noite. Um tordo, que 
fizera ninho no emaranhado das madressilvas e roseiras, pareceu despertar do sono letrgico em que 
recara desde o incio do cerco e soltou uma nota triste e tmida. Mas logo se calou, como se tivesse 
reconsiderado e decidido guardar o seu canto para melhor oportunidade. 
Na penumbra do alpendre, Rhett fez ouvir de sbito uma gargalhada suave. 
- Com que ento ficou a fazer companhia  senhora 
443 
tk 
Wilkes! ]@ a situao mais curiosa que se me tem deparado nestes ltimos tempos. _ Confesso que 
no veio nada de extraordinrio na situao - redarguiu Scarlett, pouco  vontade e j meio 
desconfiada. 
-No v? Nesse caso, isso apenas significa que no  capaz de examinar a questo atravs de um 
#
prisma impessoal. H muito que tenho a impresso de que no tolera a sua cunhada. Na minha 
opinio considera-a parva e estpida e as suas noes de patriotismo tm o condo de a irritar. Alm 
disso, verifiquei por mais de uma vez que no perde oportunidade de a nieter a ridiculo.  portanto 
muito natural que eu me surpreenda de a ver manifestar de sbito tanta dedicao pela senhora 
Wilkes, levando o seu altruismo a ponto de permanecer em Atlanta, no obstante a metralha que os 
canhes yankees vomitam sobre ns.  capaz de me explicar o motivo de to ..brusca mudana de 
atitude? 
- Melanie  irm do meu defunto marido e, por consequncia,  como se fosse minha irm tambm 
- respondeu Scarlett revestindo-se de toda a sua dignidade, embora o sangue comeasse j a,-afluirlhe 
s faces. 
- Queria dizer que ela  a viva de Ashley Wilkes, com certeza... 
Searlett levantou-se bruscamente, tentando dominar a clera que a assaltara. 
- Estava quase disposta a perdoar-lhe a forma pretensiosa e grosseira por que me tratou da ltima 
vez que nos vimos mas acaba de me obrigar a mudar de ideias. Se me no s@ntisse to sozinha e 
triste, no teria consentido que houvesse transposto h pouco a soleira do porto... 
- Sente-se e componha esse abafo - disse Rhett, mudando de tom. Soergueu-se e, pegando na mo 
dela, f&1a sentar-se novamente. - Por que estava triste. 
- Oh! Recebi uma carta de meu pai, esta tarde. Os yankees esto a pouca distncia de Tara e a 
minha irm mais nova adoeceu com febre tifide. Agora, mesmo que eu pudesse voltar para casa, 
como to ardentemente desejo, a minha me recusar-se-ia a receber-me com receio de que eu 
ficasse contagiada. No imagina a vontade que sinto de voltar para junto dos meus. 
-Bom, bom, no chore -murmurou Rhett, adoando a voz. - Est aqui muito mais segura do que em 
Tara, 
444 
mesmo que Sherman tome a cidade. Os yankees no lhe faro mal nenhum, ao passo que a febre... 
j sabe que no poupa ningum. 
- os yankees no me faro maM Como  que se atreve a mentir dessa maneira? 
- Minha cara amiga, os yankees no so nenhuns dem6nios. No tm chfres nem cascos, como 
julga. Pelo contrrio, so at bastante parecidos connosco... a no ser no que se refere a maneiras e 
ao sotaque horrvel com que pronunciam as palavras. 
-No diga isso! Se me apanhassem, eles... -Violent-la-iam? Duvido. Vontade disso no lhes 
faltaria,  claro. 
- Se continua a dizer disparates 'vou-me embora jpreveniu Scarlett, agradecendo a Deus a 
escurido da noite, que lhe permitiu ocultar de Rhett o rubor que lhe tingira as faces. 
- Seja franca: No era isso mesmo que estava a pensar? 
- Evidentemente que no! -Era, sim! Por favor no se zangue comigo pelo simples facto de eu lhe 
adivi@har os pensamentos, ]@ essa justamente a maior preocupao de todas as senhoras sulistas, 
to castas e to bem-educadas. A maior e, em muitos casos, a nica. Aposto que at as vivas como 
a senhora Merriwether.,. 
Scarlett engoliu em seco, lembrando-se de que, sempre que duas ou mais matronas se encontravam, 
a conversa versava invariavelmente as violncias cometidas pelos yankees nos Estados de 
Tennessee de Virgnia e de Louisiana, mas nunca em Gergia. Os @ankes tinham violentado as 
mulheres, tinham rasgado o ventre das crianas  baioneta, tinham incendiado -prdios cujos 
moradores haviam morrido carbonizados nos escom@ros. Toda a gente sabia que estes factos eram 
verdicos, embora ningum andasse a aprego-los pelas esquinas. E se Rhett possusse uma leve 
noo de decncia, compreenderia que as coisas eram mesmo assim e abster-se-ia de lhes fazer 
aluso. Alis, o caso no se prestava a gracejos. 
Scarlett ouviu-o rir  sucapa. Por vezes Rhett tornava-se odioso. No havia direito de um home@i 
saber o que as mulheres pensavam ou diziam a respeito disto e daquilo. Na presena dum indivduo 
como o que tinha agora  sua 
frente, uma rapariga experimentava a desagradvel sensa- 
#
445 
o de estar completamente nua. P, claro que o homem s podia aprender coisas daquelas com 
mulheres de reputao duvidosa. Scarlett estava indignada por ver que Rhett lhe tinha lido os 
pensamentos. Era-lhe grato supor que constitua um enigma para os seus admiradores, embora 
soubesse perfeitamente que Rhett via atravs dela como se fome de cristal. 
- J que aflormos este capitulo - prosseguiu ele -  capaz de me dizer se tem alguma dama idosa ou 
protectora em casa? A admirvel senhora Merriwether ' por exemplo, ou a no menos anglica 
senhora Meade? Uma e outra olham para mim como que a dizer: "Tu no andas aqui por bom". 
-A senhora Meade costuma vir dormir c a casarespondeu Scarlett, satisfeita por mudar de assunto. 
- Esta noite, porm, no veio. 0 filho mais novo chegou hoje, de licena. 
- Que sorte a minha! - disse Rhett. - At que enfim consegui encontr-la szinha! 
A voz dele adquirira uma entoao que fez acelerar as pulsaes do corao de Scarlett, cujas faces 
se cobriram de intenso rubor. J estava habituada a ouvir os homens falarem-lhe naquele tom, 
sempre que se preparavam para lhe fazerem declaraes de amor. Oh, como seria divertido! Se 
Rhett lhe confessasse que a amava, no lhe chegaria o tempo para se arrepender. Atorment-lo-ia 
at ao fim dos seus dias e vingar-se-a de todas as observaes sarcsticas que lhe ouvira naqueles 
trs ltimos anos, Havia de se desforrar da tremenda hum;lhao que sofrera na tarde em que Rhett 
presenciara a cena em que ela dera a bofetada a AshIey, na biblioteca dos Doze Carvalhos 'E, 
depois, dir-lhe-ia muito delicadamente que no poderia ser para ele mais do que uma irm 
retra,ndo--se da luta com as honras de vencedora. Solto@ uma risada nervosa, antegozando a 
vitria. 
-No se ra-dsse ele, e, pegando-lhe na mo, voltou-a de forma a ficar com a palma para cima e 
beijou-a demoradamente. 
Scarlett sentiu um frmito de comoo, que lhe percorreu o corpo numa carcia inefvel 'como se 
uma corrente elctrica, plena de vitalidade se houvesse descarregado atravs dela, ao contacto 
daqu@la boca to quente. Os lbios de Rhett viajaram-lhe at ao pulso e ela teve a certeza de 
446 
que lhe no passara despercebida a brusca alterao que se verificou no seu pulso, a qual no era 
mais do que o reflexo do galope desenfreado em que entrou o corao. Tentou retirar os dedos. No 
previra aquela reaco, aquela sensao traioeira e quente que a invadiu, que fez com que ela 
desejasse passar-lhe os braos pelos ombros e sentir os lb;os dele fortemente colados aos seus. 
"No o amava", dizia de si para si, confundida e perturbada. Amava AshIey. Mas, ento como se 
explica aquele tremor nas mos e aquela frialdade no estmago? 
Rhett riu suavemente, -Deixe estar a mo, que no lhe fao mal. 
- No me faz mal? Eu no tenho medo de si, Rhett Butler! Nem de si, nem de ningum! - exclamou, 
furiosa, por ver que a voz lhe tremia tanto como as mos. 
-Est muito bem, mas escusa de falar to alto, A senhora Wilkes pode ouvi-Ia. Acalme-se. No 
adianta nada em se exaltar. 
Rhett parecia deleitado com a excitao da rapariga. 
- Scarlett, gosta de mim, no  verdade? Esta pergunta j se encontrava mais integrada no mbito 
das suas previses. 
- s vezes - respondeu ela, cautelosamente. - Quando se no porta como um patife da pior espcie. 
-Pois estou convencido de que gosta de mim justamente por eu ser como sou: um patife. J lidou 
com muitos durante a sua vida, mas no do mesmo gnero que eu, e  essa diferena que lhe 
desperta a curiosidade: a atraco do desconhecido. 
No era bem aquele o rumo, que ela desejaria imprimir  conversa. De novo tentou libertar a m<:>. 
- Isso no  verdade! Eu gosto dos homens decentes, que sabem portar-se como cavalheiros... 
- Quer dizer, homens que se deixam manobrar facilmente por si.  apenas uma questo de ponto de 
vista. Mas isso, no interessa. 
Beijou-lhe a mo outra vez e de novo a rapariga sentiu um arrepio pela nuca. 
-0 que interessa  gostar de mim. Acha que poder vir a amar-me um dia, Scarlett? 
#
"Ah!" pensou ela, triunfante. "At que enfim o apanhei!" 
M,as respondeu com estudada indiferena: 
447 
-Para falar com franqueza, acho que no. Isto , enquanto no se corrigir. 
-0 pior  que eu no penso corrigir-me. Por consequncia nunca se apaixonar por mim. Ainda bem, 
porque, embora eu simpatize imenso consigo, a verdade  que no a amo e seria realmente 
aborrecido que sofresse pela segunda vez a tragdia dum amor no correspondido. No lhe parece, 
minha querida? A propsito, posso chamar-lhe minha querida, senhora Hamilton? Tenciono passar 
a trat-la assim, quer goste ou no, mas no h nada como uma pesSoa guardar as conveniencias e 
pedir autorizao primeiro. 
- Ento no me ama? 
- No. Porqu? Desiludi-a? 
- No seja presumido! 
- Vejo que lhe causei mais uma decepo! Que pena ter desfeito as suas iluses! De facto, eu devia 
am-la, porque  realmente encantadora e Deus prendou-a com uma srie de dotes inteis. No 
entanto, h muitas senhoras que tambm so encantadoras e prendadas e se revelam to inteis 
como voc. Mas no a amo. Contudo, gosto muito de si, pela elasticidade da sua conscincia, pelo 
egosmo que quase nunca se preocupa, em ocultar, pelo esprito prtico que julgo ter herdado de 
algum campnio de ascendncia irlandesa. 
Campnio! Agora, decidia insult-la! As palavras comearam a sair dos lbios de Scarlett aos 
borbotes. 
-No interrompa- instou ele, apertando-lhe a mo. -Gosto de si porque possui as mesmas qualidades 
que eu. Existe certa afinidade entre ns. Sei muito bem que continua a venerar a memria do 
Ashley Wilkes, esse dolo de cabea de pau, que deve estar a fazer tijolo h cerca de seis meses, 
mas  preciso que no seu corao haja um lugarzinho tambm para mim. Scarlett, deixe estar a mo 
quieta. No v que estou a declarar-me? Desejo-a desde o primeiro instante em que lhe pus os olhos 
em cima no vestbulo dos Doze Carvalhos, estava voc a tecer o feiltio contra o pobre Charles 
Hamilton. Desejo-a como nunca desejei outra mulher... e j esperei por si mais do que estou 
habituado a esperar. 
Scarlett fitou-o, muda de surpresa, ao ouvir-lhe aquelas palavras. No obstante os seus insultos e 
grossarias, Ilhett amava-a e, se afirmava o contrrio, era apenas com receio 
448 
de que ela fizesse troa. Por isso se mostrava assim to evasivo. Pois bem: Ia dar-lhe uma lio e 
era para j. 
- Est a pedir-me em casamento? Rbett largou-lhe a mo e desatou s gargalhadas, fazendo to 
grande alarido que Scarlett se deixou cair para trs, na cadeira. 
-Que ideia a sua, Scarlett! Pedi-Ia em casamento eu? No lhe disse j que no perteno ao nmero 
dos hoi@en9 que se deixam cair nessa ratoeira? 
- Mas... ento... No, percebo... 
11hett levantGu~se e, levando a mo ao corao, curVOU-Se numa vnia burlesca. 
-Minha querida-disse ele, calmamente-eu no estou a fazer mais do que apelar para a sua 
inteligncia, pedindo-lhe que seja minha amante sem que me veja forado a seduzi-Ia primeiro. 
Amante! A conscincia gritou-lhe a palavra, gritou~lhe que tinha sido vilmente insultada. Mas 
naquele primeiro momento de surpresa, Scarlett no sentiu verdadeiramente a ofensa. Avassalou-a 
apenas uma onda de indignao. Como era possvel que ele a julgasse tola a ponto de a supor capaz 
de tal loucura? Porque no havia dvida de que a considerava supinamente estpida para se atrever 
a fazer-lhe uma proposta daquela natureza, em vez de a pedir em casamento, conforme ela sugerira. 
Um misto de raiva impotente, de vaidade ferida e de desiluso lhe turvou o esprito e, antes mesmo 
que lhe tivesse ocorrido a ideia de invocar o aspecto moral da questo, que to valiosa arma lhe 
facultaria para o zurzir sem piedade, deu voz s primeiras palavras que lhe acudiram aos lbios: 
- Amante? E que ganharia eu com isso, a no ser uma ninhada de filhos? 
#
Mas logo deixou cair o queixo, horrorizada, ao compenetrar-se do que acabava de dizer. Rhett riu 
at mais no poder, observando-a atravs da penumbra que os envolvia, imvel na cadeira, muda de 
vergonha, com o leno apertado contra a boca. 
- P, por isso mesmo que gosto tanto de si. Voc  a 
nica mulher sincera que conheo, a nica que encara as questes do ponto de vista prtico, sem se 
preocupar com argumentos de ordem moral. Outra mulher teria desmaiado '>9 - Vento Levou - 1 
449 
de horror para me pr no meio da rua, assim que recobrasse os sentidos. 
Scarlett ps-se de p num pulo rubra de humilhao. Como pudera dizer uma coisa ass@i! Como 
pudera elaela, a filha de Ellen Robillard, educada segundo as velhas tradies da aristocracia 
francesa - ter escutado uma proposta to desonesta e dado uma resposta to pouco prpria de lbios 
femininos? Devia ter gritado. E desmaiado. Devia ter-lhe voltado as costas friamente, em silnci<>, 
e entrado em casa. Mas agora j era tarde! . - Ponha-se na rua! - gritou-lhe, sem se importar que 
Melanie ou os Meades, seus vizinhos, a ouvissem. - Saia imediatamente! Como se atreveu a dizerme 
uma coisa dessas? Que fiz eu para o animar... para o levar a supor que... Retire-se e no volte 
mais aqui! Estou a falar a srio, desta vez. Escusa de tornar a aparecer com as suas caixas de 
bombons e carteiras de alfinetes, pensando que lhe perdoo. Vou contar tudo a... ao meu pai, e bem 
pode fugir, antes que ele o mate. 
Rhett Butler pegou no chapu e fez uma vnia. Scarlett surpreendeu nos lbios dele um sorriso que 
lhe deixou entrever duas fileiras de dentes alvos, a que a luz do car - 
deeiro, arrancou reflexos fugazes. Rhett no ficara envergonhado com o que ela lhe dissera; pelo 
contrrio, at parecia divertido e examinava-a com vivo interesse. 
Oli, conio, ele era detestvel! Scarlett rodou sobre os calcanhares e entrou em casa. Deitou a mo  
maaneta da porta para a fechar com estrondo: o gancho que a mantinha aberta era pesado demais 
para as suas foras, Tentou levant-lo' mas acabou por desistir, ofegante. 
- Posso ajud-la? - perguntou ele. Receando que a tenso nervosa em que se, encontrava lhe 
provocasse a ruptura duma aitria, se continuasse ali por mais tempo, Scarlett precipitou-se 
pela.escada acima. Ao chegar ao topo dos degraus, ouviu-o bater a porta e afastar-se ao longo da 
lea que conduzia  rua. 
ZO 
0 BOMBARDEAMENTO cessou bruscamente quando os dias quentes e agitados de Agosto se 
aproximavam do, seu termo. Na tranquilidade que ento passou a reinar na cidade havia 
450 
algo de estranho, de anormal. As pessoas que se cruzavam na rua com amigos de longa data 
fitavam-nos absortas, desconfiadas e receosas, sem atinar com uma explicao plausvel para aquele 
sbito marasmo, ignorando o que os yankees estariam a preparar. Aps tantos dias de tiroteio, o 
silncio dos canhes, longe de actuar como sedativo nos nervos arrasados dos habitantes, ainda 
agravava mais, em certos casos, a inquietao e a angstia. Ningum conhecia os motivos por que 
as baterias dos abolicionistas se tinham calado; ningum parecia estar devidamente informado 
acerca do movimento das foras confederadas, embora fosse voz corrente que o general Hood 
enviara para o Sul grande parte dos efectivos que guarneciam as posies da periferia de Atlanta, a 
fim de defender a linha do caminho de ferro; e ningum sabia onde as- tropas combatiam, se  que 
estava em curso algum combate, nem para que lado se inclinara a sorte das armas, se  que a batalha 
j chegara ao fim. 
As nicas noticias que circulavam na cidade eram aquelas que passavam de boca em boca. Privados 
de papel, de tinta e de tipgrafos, os jornals--- tinham suspendido a sua publicao desde que os 
yankees haviam cercado Atlanta, onde corriam os boatos mais desencontrados. AproveitandG as 
inesperadas trguas que as foras da Unio lhe haviam concedido, a populao da cidade sitiada 
redemoinhava em frente do quartel-general, exigindo informaes acerca da situao, ou 
aglomerava-se em densos magotes em torno do posto de telgrafG e da estao do caminho de 
ferro,  espera de notcias, de boas notcias, pois que toda a gente interpretava o silncio dos 
#
canhes de Sherman como prova cabal de que os yankees tinham sido derrotados e retiravam em 
toda a linha, ao longo da estrada de Dalton, perseguidos pelos hericos homens de cinzento. Essas 
notcias, porm,  que nunca mais che 'gavam. Os fios telegrficos permanecam mudos e a nica 
via frrea que restava  Confederao parecia abandonada, como se a terra houvesse tragado todos 
os comboios que at ento tinham assegurado as comunicaes com o Sul, em consequncia do que 
o servco, postal ficara automaticamente desorganizado. 
0 Outono avizinhava-se com o seu calor e as suas poeiras finas, ameaando sufocar a cidade que to 
sbitamente mergulhara naquela apatia agoirenta, submetendo os coraes impacientes e fatigados a 
uma sobrecarga de sofrimento. Embora se esforasse por conservar aparncia 
451 
@X 
estica, Scarlett ardia de ansiedade por receber notcias de Tara. Parecia-lhe que o cerco de Atlanta 
se arrastava havia sculos como se toda a sua vida tivesse decorrido ali, sob a metr@lha dos 
canhes yankees, atormentada pelo troar constante da artilharia inimiga at que sobre a cidade 
tombara aquele silncio repentin@, sepulcral. E, no entanto, havia apenas trinta dias que Atlanta se 
encontrava sitiada. Trinta dias de cerco! Circundada por quilmetros e quilmetros de trincheiras 
rasgadas no solo avermelhado, a cidade ouvia, com indiferena j 1o ribombar das bocas de fogo e 
o crepitar das espingardas. assistia, aptica  passagem de longas colunas de amb@lncias e 
carros'de bois, que se dirigiam para os hospitais ajoujados, de feridos, embebendo em sangue o p 
das estradas; e presenciava, insensvel, a lgubre actividade das brigadas de coveiros que 
arrastavam os cadveres ainda quentes pelas ruas, largando-os como fardos nas interminveis filas 
de valas abertas  superfcie do terreno. Trinta dias somente! 
E havia apenas quatro meses que os yankees haviam ultrapassado Dalton na sua marcha para o Sul! 
Quatro meses apenas! Sempre que relembrava esse dia Scarlett tinha a impresso de que ele 
ocorrera noutra @ida. No podia ter sido s h quatro meses, mas sim, talvez, quatro sculos atrs! 
No decurso daqueles cento e vinte dias de pesadelo, os nomes de Dalton, Resaca e Kennesaw 
Mountain, que a sua memria evocava como localidades servidas pela linha frrea, recordavam-lhe 
agora outras tantas batalhas em que Jolinston lutara desesperadamente durante a sua penosa retirada 
at s portas de Atlanta. E Peachtree Creek, Decatur, Ezra Church e Utoy Creek tambm j lhe no 
traziam  mente as imagens de lugares aprazveis. No mais poderia relembr-los como vilas 
risonhas e tranquilas, de gente amiga e hospitaleira como cantinhos de verdura onde tantas vezes 
fora de pa@seio com oficiais simpticos e passara horas esquecidas senta-da sobre a relva vicejante, 
 beira de riachos indolentes. Todos esses nomes lhe despertavam vises apocalpticas de combates 
sangrentos, desenrolados sobre a grama que cobria as margens dos regatos em cujas guas se 
mirara, e que ficara estraalhada @elos rodados dos canhes, esmagada sob milhares de ps nos 
pontos onde se haviam travado renhidas lutas  baioneta, revolvida pelos corpos que se contorciam 
nas 
452 
agonias da morte. Os riachos, esses corriam agora mais vermelhos elo que nos dias de enxurradas 
tintos pelo sangue dos soldados e no pela terra encarni@ada que as chuvas arrastavam. Peachtree 
Creek ficara rubro, segundo se dizia, desde que os yankees o tinham atravessado. Peachtree CreekI 
Decatur, Ezra, Church, Utoy Creek eram agora a seus olhos nomes de necrpoles onde jaziam 
enterrados muitos dos rapazes seus conhecidos, de bosques e matagais onde apodreciam corpos 
insepultos, de quatro marcos histricos onde Sherman tentara romper caminho at Atlanta e vencido 
pela obstinada resistncia das tropas de Hood. 
Por fim, chegaram  cidade sitiada notcias do Sul, notcias alarmantes, especialmente para Scarlett. 
0 general Sherman estava a atacar novamente as linhas confederadas, tentando apoderar-se da via 
frrea e abrir uma brecha que lhe permitisse atingir Jonesboro. Os yankees investiam em massa 
contra as posies ocupadas por Hood, utilizando no pelotes isolados ou destacamentos de 
cavalaria, mas regimentos completos. Para sustarem o seu avano, os poucos milhares de homens a 
que estava reduzido o exrcito sulista tinham recebido ordens para abandonar as posies da 
#
periferia da cidade e marchar ao encontro do invasor. Assim se explicava o brusco silncio que 
reinava em torno de Atlanta. 
"Mas porqu Jonesboro?" dizia Scarlett de si para si, angustiada, ao pensar na distncia cada vez 
menor que separava Tara do teatro da luta. "Por que se encarniam eles contra Jonesboro? Por que 
no decidem cortar o caminho de ferro noutro ponto?" 
Estivera uma semana inteira sem saber notcias de Tara e a ltima carta rabiscada  pressa, que 
recebera do pai, apenas avoluma6 os seus temores. Carreen piorara e estava muito mal. Quanto 
tempo se passaria agora sem que o correio voltasse a trazer correspondncia do Sul? Quantos dias 
ou talvez quantas semanas ficaria ela na incerteza se Carreen melhorara ou j morrera? Oh, se ela ao 
menos tivesse regressado a Tara nos primeiros dias do cerco, sem se importar com Melanie! 
Lutava-se em Jonesboro... era tudo o que Atlanta sabia. Desconheciam-se pormenores acerca da 
marcha das operaes, o que dava origem a que circulassem na cidade os boatos mais assustadores, 
atormentando a populao. Final- 
453 
-"'-q 
mente chegou a Atlanta um estafeta vindo de Jonesboro com a notcia de que os yankees tinham 
sido escorraados. No entanto, haviam feito uma surtida s posies sulistas, no decurso da qual 
tinham incendiado o edifcio da estao do caminho de ferro, cortado os cabos telegrficos e 
destrudo a via frrea numa extenso de trs milhas antes de retirarem. 0 corpo de engenharia 
trabalhava afa@osamente na reparao da linha, Contudo, isso ainda levaria algum tempo, pois 
tropas de Sherman haviam queimado os dormentes em grandes fogueiras, que tinham utilizado para 
aquecer ao rubro os carris arrancados, os quais depois enro.lavam  volta dos postes telegrficos, 
obrigando-os a tomarem a forma de saca-rolhas gigantescos. E, numa altura como a que estava 
atravessando, a Confederao lutava com enorme dificuldade para susbtituir esses carris por out.ros, 
visto encontrar-se quase  mngua de matrias-primas para o fabrico de ao. 
No, os yankees ainda no haviamchegado a Tara. Foi o prprio estafeta que trouxe os 
comunicados oficiais ao general Hood que dissipou as dvidas de Scarlett a esse respeito. Tinha 
encontrado Gerald em Jonesboro, aps a batalha, no momento, em que se dispunha a partir para 
Atlanta, e Gerald at lhe pedira que fosse portador duma carta para a filha. 
Mas o que estaria o pai a fazer em Jonesboro? 0 mensageiro mostrou certo constrangimento perante 
a pergunta de Scarlett. Gerald andava  procura dum mdico do Exrcito para o acompanhar a Tara. 
Scarlett agradeceu ao estaflta e quedou-se ao sol, sob o alpendre, sentindo as pernas fraquejaremlhe. 
Carreen devia estar a morrer para que os conhecimentos de Ellen se tivessem revelado 
insuficientes e Gerald se houvesse visto na necessidade de chamar um mdico! 0 mensageiro 
desapareceu ao longe, envolto numa nuvem de poeira avermelhada e ela s ento rasgou com dedos 
trmulos, o sobrescrito a carta que o pai lhe @nviara. To grande era a falta de papel nos Estados 
da Confederao, que Gerald escrevera nas entrelinhas da ltima missiva que Scarlett lhe remetera, 
o que tornava a leitura difcil e demorada. 
Querida filha: A tua me e irm encontram-se de cama com febre tifi.de. 0 estado delw inspira 
cuidados, mas espero que 
454 
.tudo corra pelo melhor. QuanclIlo adoeceu, a tua me pediu-me te mandass,3 dizer que desistisses 
do projecto de voltar para Tara enquanto a epidemia grassar na regio, pois tanto Wide como tu 
fi'cariarn sujeitos ao contgio. Envia-te muitas saudades e pede-te que rezes por ela. 
"Que reze por ela!" Searlett voou pela escada acima e, ajoelhando-se aos ps da cama, orou como 
nunca tinha orado em toda a sua vida. Renunciando aos teros convenconais, limitou-se a repetir 
no uma nem duas, mas centenas de vezes, as mesmas palavras: "Virgem Maria, no a deixeis 
morrer! Prometo tornar-me boazinha se a no deixardes morrer! Por amor de Deus, dai-lhe sade 
para ela viver!" 
Durante toda a semana seguinte, Searlett arrastou-se pela casa como um animal ferido, na 
expectativa de notcias que tardavam em chegar, sobressaltando~se sempre que ouvia ao longe o 
#
tropel dum cavalo,, precipitando-se pela escada abaixo quando a meio da noite soavam na porta de 
entrada as pancadas discretas dos soldados famintos, exaustos ou moribundos. Mas os dias iam 
passando sem ter novas nem mandados. Era corno se a separasse de Tara a vastido imensa de todo 
um continente e no apenas um troo de estrada poeirenta com vinte e cinco milhas de extenso. 
As comunicaes postais continuavam interrompidas. Ningum conhecia o paradeiro d" tropas 
confederadas, nem os intentos dos yankees. A populao de Atlanta vivia na mais completa 
ignorncia acerca d" situao. Sabia apenas que nas imediaes de Jonesboro estavam concentrados 
milhares de soldados sulistas e da Unio. Uma semana findou e outra principiou sem que Scarlett 
houvesse recebido notcias de Tara. 
Scarlett tinha tratado de inmeros casos de febre tifide, no hospital de Atlanta, e <,_stava 
perfeitamente familiar!Zada com as caractersticas da doena para saber o que Uma semana 
representava na evoluo do terrvel mal. Ellen encontrava-st-gravemente enferma,talvez 
moribunda, enquanto a filha viva horas de tormento em Atlanta, sem lhe poder acudir, com uma 
mulher grvida a seu cargo e dois exrcitos a barrarem-lhe o, caminho. Ellen estava enferrna,... 
talvez moribunda, Mas isso era impossvel! Ellen nunca estivera doente. A ideia de que a vida da 
me corria 
455 
perigo repugnava a Scarlett, tanto mais que vinha abalar os alicerces sobre os quas se apoiava a sua 
prpria segurana. Toda a gente adoecia, menos Ellen. Ellen cuidava de todos os enfermos at 
ficarem completamente curados. No podia estar doente. Scarlett ansiava por voltar para ,casa. 
Desejava regressar ao ambiente familiar de Tara, com todo o ardor duma criana assustada que 
busca frenticamente ck nico refgio que lhe foi dado conhecer em toda a sua vida. 
Tara! A branca moradia com as suas janelas guarnecidas de cortinas transparentes, que tremulavam 
agitadas pela brisa suave, com o seu relvado pintalgado de trevo florido, sobre o qual zumbiam as 
abelhas, com o seu moleque sentado nos degraus do alpendre, enxotando os patos e os perus dos 
canteiros, com os seus campos avermelhados e serenos e os seus interminveis hectares de algodo 
branquejando ao sol! Tara!... 
Se ao menos ela tivesse regressado a casa antes do incio do cerco, quando toda a gente de bomsenso 
abandonara, Atlanta! Podia mesmo ter-se feito acompanhar de Melanie, sem que a cunhada 
houvesse corrido, risco algum, visto nessa altura faltar ainda bastante tempo, para a criana nascer! 
"Diabos a levem!" pensou Scarlett furiosa. "Por que no foi ela para Macon, com a tia? 0 seu lugar 
 junto da farnlia e no junto de mim. No somos do mesmo sangue. Por que se agarra ela a mim 
desta maneira? Se tivesse partido com a tia, eu j estaria em Tara h muto tempo, ao p da minha 
me! E, mesmo agora... mesmo agora, no me importaria de tentar a viagem, a despeito da ameaa 
dos yankees, se no fosse a criana estar para nascer. Talvez o general Ho@od me concedesse uma 
escolta!  uma excelente criatura e tenho a cert@_,za de que me no recusaria esse favor. 
Destacaria um grupo de soldados para me acompanhar e eu atravessaria as linhas de Sherman sob a 
proteco de uma bandeira branca, como a dos parlamentrios, Mas estou aqui amarrada,  espera 
que o nen venha ao mundo!... Oh, minha, me, minha me! No morra!... Por que ser que 
Melanie no ata nem desata? Hei-de ir falar ainda hoje com o Dr. Meade para saber se h algurna 
forma de abreviar os partos, a fim de que eu possa voltar para casa quanto antes, se conseguir uma 
escolta. 0 doutor disse que ela ia passar um mau bocado, Santo Deus! E se Melanie 
456 
no consegue resistir? Se no consegue resistir e morre?... Asfiley ficar... No, no tenho o direito 
de pensar numa coisa destas. No  decente. Mas a verdade  que Ashley... no, no devo pensar 
nisto. Asliley deve ter morrido... No entanto, obrigou-me a prometer que tomaria conta da mulher. 
Porm... se eu no olhasse por Melanie e ela morresse, e se Astiley ainda estivesse vivo... No 
tambm no devo pensar em tamanha barbaridade! Seria'um pecado... e eu prometi a Deus no 
tornar a pecar, se Ele permitir que a minha me no morra. Oh se ao, menos a criana nascesse! Se 
ao menos eu pudess@ abandonar este inferno e regressar a casa, Ou ir para outro lado qualquer, 
contanto que sasse daqui! ... " 
#
De cidade buliosa e animada que Scarlett tanto apreciara, Atlanta transformara-se num burgo 
silencioso e triste, que ela, odiava agora. Atlanta j no era o centro das alegres diverses de 
outrora, mas sim um local hediondo e lgubre como um lazareto, cuja quietude aps o tumulto do 
cer@o,'se tornara insuportvel. No fra@or e no perigo dos bombardeamentos havia pelo menos 
algo de estimu lante, ao passo que na tranquilidade que se lhes seguiu somente havia horror. A 
cidade parecia assombrada, assombrada pelo terror, pela incerteza, pelas recordaes. As pessoas 
traziam afiveladas no rosto mscaras de ansiedade, C OS POUCGS soldados que Scarlett por vezes 
avistava tinham as feies distendidas de fadiga, como atletas que se esforam por vencer a 
derradeira tirada duma prova j perdida. 
No ltimo dia. de Agosto comeou a circular o boato de que se estava travando algures para o Sul o 
mais ranhido combate que at  data se produzira aps a batalha de Atlanta. A populao, que 
passara uma semana inteira aguardando notcias quanto  marcha das operaes, ficou como que 
suspensa na expectativa e riem sequer se dava j ao trabalho de dissimular a sua inquietao. 
Ningum ignorava j o, que os soldados sabiam, havia du 'as semanas, que Atlanta estava 
literalmente perdida e que, se a via frrea para Macon casse em poder dos yankees, Atlanta em. 
breve teria a mesma sorte. 
Na manh do primeiro de Setembro, Scarlett acordou sob urna asfixiante sensao de pavor que j a 
atormentava na vspera no momento em que se deitara. "Que foi que tanto me apoquentou antes de 
vir para a cama, ontem?" 
457 
_O0 
L 
perguntava a si prpria, ainda meio tonta de sono. "Ab, sim, j sei, foi a guerra! Houve uma batalha 
algures. Quem ter ganhado?" Sentou-se rpidamente no leito esfregando os olhos, enquanto no 
corao se lhe infiltrava@n os receios que j a tinham perseguido na vspera. 
No obstante o dia ter raiado havia ainda pouco tempo, j pairava na atmosfera a ameaa 
implacvel de mais uma tarde de cu intensarnente azul e de sol escaldante. L fora reinava o mais 
Drofundo silncio. A estrada permanecia deserta. No se ouvia o. chiar das rodas das carruagens, 
nem o tropel dos soldados a caminho da frente, nem as vozes arrastadas dos escravos cantando nos 
quintais da vizinhana, nem sequer os rudos familiares dos preparativos para o primeiro almoo 
pois que *tanto a senhora Meade como a senhora Mer@wether tinham procurado refgio em 
Macon. Nem o mais leve rumor lhe chegava aos ouvidos, vindo das suas casas, Na seco 
coniercial, ao fundo da rua, no se notava movimento nenhum; a maioria das lojas e escritrios 
tinha encerrado as suas portas, reforadas por grossas trancas de ferro e de madeira rija, enquanto os 
seus proprietrios se encontravam empenhados na batalha em curso, algures nas imediaes de 
Jonesboro. 
A tranquilidade opressiva que envolvia o aposento naquela manh afigurou-se a Scarlett ainda mais 
sinistra do @ue a lgubre acalmia dos- dias precedentes. Levantou-se a pressa, sem perder tempo a 
espreguiar-se nem a bocejar, como costumava fazer, e assomou  janela, na esperana de ver a cara 
de algum vizinho, qualquer coisa que lhe incutisse nimo. Mas no avistou vvalma. As folhas das 
rvores conservavam-se verdes, mas estavam ressequidas e cobertas de espessa camada de poeira 
vermelha e as flores do jardim de que ningum j cuidava, tinham murchado  mngua'de gua. 
Quedou-se por momentos apoiada ao peitoril da janela. A certa, altura, chegou-lhe aos ouvidos um 
rudo surdo, longnquo, que lhe fez lembrar o ribombar do trovo precursor duma tempestade 
estival. 
"Vem l chuva", pensou ela, com o alvoroo natural duma criatura que viveu no campo toda a sua 
infncia e v as planta9 morrerem de sede. "J c estava a fazer falta". Mas logo acrescentou, 
desiludida: "No  chuva, afinal. So os canhes". 
Com o corao em sobressalto, debruou-se na janela 
458 
e apurou o ouvido, tentando descobrir de que lado provinham as detonaes. Contudo o rumor era, 
#
to confuso e distante que no logrou tirar nenhuma concluso. 
"Deus queira que seja em Marietta!" suplicou. "Ou em Decatur. Ou em Peachtree Creek. Mas no 
para as bandas do Sul!" 
Cravou as unhas no peitoril e fez um esforo para ouvir melhor. Teve a impresso de que o 
canhoneio. soava agora mais prximo. E algures ao sul de Atlanta! 
A artilharia entrara em aco ao Sul! Ao Sul, onde se erguiam cidades como Jonesboro, onde se 
desdobravam colinas como a, de Tara, onde viviam pessoas que ela conhecia... onde vivia Ellen! 
Quem sabe se naquele momento os yankees no teriam j assolado Tara! De novo aDurou o ouvido 
mas o pulsar violento do, seu corao abfava at o fra@or longnquo. No, Sherman ainda no 
podia ter ultrapassado Jonesboro, pois que caso contrrio, o troar dos canhes seria. quase 
imperce@tvel. Talvez estivessem perto de Rough e Ready, lugarejo situado dez milhas ao norte de 
Jonesboro. A artilharia entrara em aco, ao Sul, possivelmente para apressar a queda. de Atlanta. 
Mas para Scarlett, que estre- mecia angustiada, ao pensar no perigo que ameaava a me, uma 
batalha na regio de Jonesboro era uma batalha nos arrabaldes de Tara. Comeou a passear no 
quarto, de um lado para o outro, torcendo as mos, desesperada, e s ento lhe acudiram  mente as 
provveis consequncias que adviriam para o Sul, caso o exrcito do general Hood, sasse 
derrotado. Foi a presena de algumas dezenas de milhares de yankees nas imediaes de Tara que a 
fez compenetrar-se da gravidade da situao e avaliar em toda a sua grandeza o horror da guerra, 
coisas que nem o bombardeamento de Atlanta durante o cerco nem as exploses das granadas nas 
ruas da cidade, nem a'fome, nem a falta de agasalhos, nem sequer as avalanches de soldados 
moribundos haviam conseguido. As tropas de Sherman encontravam-se a poucas milhas de Tara, E 
mesmo que fossem derrotadas nada as impediria de devastarem Tara na sua retirada. E Gerald com 
trs mulheres doentes em casa, no poderia pr-se'a salvo! 
Oh, se ao menos ela l estivesse, com ou -sem yankees! Continuou a passear  volta do quarto 
descala, com a camisa de noite colada s pernas. Quant@ mais caminhava, 
459 
mais negros se lhe tornavam os pressentimentos. Quem lhe dera estar em casa! Quem lhe dera estar 
junto da me! 
Da cozinha, no rs-do-cho, chegava at ela o tinir da loua de porcelana que Prssy dispunha na 
bandeja para servir o primeiro almoo. Betsy, a cozinheira da senhora Meade, no dava sinal de si. 
A criadita preta preparava a refeio, trauteando uma cano em voz aguda e melanclica. Searlett 
rangeu os dentes, amedrontada pela interpretao ambgua a que a letra se prestava. Enfiou  pressa 
um r@u@o 'saiu para o corredor e, debruando-se sobre o corrimo do patamar da escada das 
traseiras, gritou: 
-Acaba l com essa cantilena, Prissy! A pretinha obedeceu prontamente, com um "Si, sinhora" 
taciturno e Scarlett respirou fundo sentindo-se subitamente envergonhada de si prpria. 
- Que  feito de Betsy? -Eu no sab. Inda no veio. Searlett encaminhou-se para o quarto da 
cunhada e entreabriu a porta, espreitando o interior do aposento banhado pelo sol. Melanie estava 
deitada envolta na sua camisa de noite, com os olhos cercados por crculos negros e profundos, 
rosto turnefacto e o corDo franzino horrivelmente deformado. Scarlett sentiu insinuar-se-lhe no 
esprito o desejo malvolo de que Asliley a pudesse ver naquele instante. 0 seu aspecto era muito 
pior do que o da maioria das mulheres na mesma condio, Melanie abriu os olhos e, ao avistar a 
cunhada, descerrou os lbios num sorriso meigo que lhe iluminou o rosto. _ Entra-disse ela, 
voltando-se de lado com dificuldade. -Acordei pouco depois de romper a r@anh e tenho estado a 
pensar em diversas coisas. Queria pedir-te um favor, Scarlett. 
A cunhada entrou no quarto e sentou-se  beira da cama, sobre a qual o sol batia em cheio, 
Melanie estendeu o brao e tomou a mo de Scarlett, que apertou afectuosamente, num gesto pleno 
de confiana. 
- Estou desolada com o canhoneio, minha querida murmurou. - ]@, para os lados de Jonesboro, no 
? 
- Hum - respondeu Scarlett, absorta, sentindo o coraao bater mais apressado ante a aluso da 
#
cunhada. _ Calculo como deves estar apoquentada. Sei que foi por minha causa que no partiste 
para Tara logo que rece- 
460 
beste a notcia da doena da tua me, na semana passada; no  verdade? 
- 1@I - respondeu secamente Scarlett. 
- Oh, Scarlett! Tens sido to bondosa para mim! Nem uma irm faria o que tu tens feito. No, 
imaginas como te estou grata, Acredita que lamento imenso ter-me atra, vessado no teu caminho. 
Scarlett olhou-a fixamente. Com que ento Melanie estava-lhe muito grata? Que idiota! 
- Espero que no leves a mal o pedido que te vou fazer, Scarlett, mas tenho a certeza de que 
compreenders - 
prosseguiu ela, apertando com mais fora a mo da cunhada. - Se eu morrer, s capaz de tomar 
conta do meu filho? 
Os olhos de Melanie pareciam desmedidamente abertos e iluminados por um brilho de ansiedade, 
s? Scarlett libertou a mo, sentindo invadi-la uma onda de terror que deixou transparecer na voz, 
a, qual se tornou subitamente spera: 
-No sejas tola, Melly! Tu no morrers. Todas as mulheres receiam morrer antes de terem o 
primeiro filho. Foi o que se verificou comigo. 
- No digas isso, Scarlett. Nunca tiveste receio de nada. Falas assim para me animares. No  a 
morte que eu temo, rn as sim a. possibilidade de deixar o meu filho desamparado., sem ningum 
que olhe por ele, se Astiley de facto... Searlett, promete-me que tomars a criana, a teu cargo, no 
caso de eu morrer, e ficarei absolutamente descansada. A tia Pittypat j est velha demais para 
educar uma criana e Honey e India so muito, boas raparigas mas...  a ti que eu quero confi-la. 
Promete, Scarlett. Se for um rapaz, gostaria que o educasses de maneira a parecer-se com o pai e, se 
for uma rapariga... desejaria que fosse como tu. 
- Com seiscentos diabos! - exclamou Scarlett, saltando da cama. - Achas poucas as preocupaes 
que j temos para ainda vires falar em morrer? 
Perdoa-me, Scarlett, mas promete-me o que te pedi. Estou convencida de que a criana nasce hoje. 
Ou melhor, tenho a certeza. Promete, por favor. 
- Est bem, prometo - respondeu Scarlett, confundida, mirando a cunhada com olhar perscrutador. 
Seria Melanie to parva que ainda no tivesse adivi- 
461 
nhado a natureza dos sentimentos que ela votava a AshIey? Ou j teria compreendido tudo e seria 
esse justamente o motivo por que lhe fizera aquele pedido esperanada em que o amor dela por 
AshIey a levasse a aceitar to pesado encargo? Sentiu desejo intenso de interrogar a cunhada, mas 
as palavras morreram-lhe na garganta quando Melanie lhe pegou novamente na mo e a encostou 
por alguns instantes  face plida. 
-Por que julgas que ser hoje, MeIly? 
- Tenho sentido dores desde que amanheceu... mas no muito grandes. 
- Ah, sim?! E posso saber por que no me chamaste? Vou mandar Prissy imediatamente  procura 
do Dr. Meade. 
-No, Scarlett, ainda  cedo. Tu bem vs como ele est atarefado com trabalho, ele e os outros 
mdicos. Basta que o previnas de que precisaxemos dele hoje. Dize a Prissy que passe por casa da 
senhora Meade e lhe pea, que venha fazer-me companhia. Ela depois ver a altura em que ser 
necessrio chamr o marido. 
- Por favor, Melanie, pe de parte essas ideias altrustas. Sabes perfeitamente que precisas do 
mdico como qualquer outro doente no hospital. Vou mandar cham-lo e h-de ser j. 
-No faas isso, Scarlett. H casos em que o parto demora um dia inteiro e no seria justo que o 
doutor perdesse a tarde aqui  espera, numa altura em que faz tanta falta aos rapazes. Manda chamar 
a senhora Meade. Ela tratar de tudo. 
-Est muito bem - aquiesceu Scarlett. 
DEpois de ter mandado para cima a bandeja com o primero almoo de Melanie, Scarlett despachou 
#
Prissy para casa da senhora Meade e sentou-se por sua vez  mesa, com Wade. Mas estava sem 
apetite. Mal podia comer, com o nervosismo que lhe causava a aproximao do parto da cunhada e 
a tenso inconsciente motivada pelo constante troar dos canhes. 0 corao funcionava-lhe de 
maneira estranha: pulsava regularmente durante alguns minutos, para depois bater numa srie de 
pancadas violentas e rpidas que lhe provocavam perturbaes no estmago. 0 mi- 
462 
lho, modo grosseiramente, aderia-lhe  garganta como se fosse cola. Nunca lhe soubera to mal 
aquela mistura de milho com inhame, com que substitua o caf. Sem acar nem leite parecia-lhe 
quase to amar,-,a como fel, pois o irielao, empregado para a adoar de muito pouco servia. 
Sorvei @:1 
i um trap e afastou a chvena de si. Se no houvesse outras razoes bastaria aquela para odiar os 
yankees, os quais a tinham privado de bom caf, de acar e da nata que apreciava imenso. 
Wade estava mais calmo do que era costume e no fez a sua habitual reclamao de todas as 
manhs contra a mistela que tanto detestava. Tomava silenciosamente as colheradas que a me lhe 
metia pela boca abaixo e empurrava-as ruidosamente com goles de gua. Os seus olhos, castarilhos 
e meigos, redondos como moedas de dlar, em que pairava uma expresso assustada, seguiam 
atentamente os movimentos da me como se lhe houvessem comunicado todos os receios que 
Scarlett to mal lograva dissimular. Scarlett mandou-o brincar para o jardim logo que ele acabou de 
comer e foi com verdadeiro alvio que o viu correr em direco  casa dos brinquedos. 
Em seguida levantou-se da mesa e deteve-se, hesitante, ao fundo da, escada. A sua conscincia 
dizia-lhe que devia ir para junto da cunhada, a fim de lhe fazer companhia e de lhe distrair o 
pensamento da provao por que estava prestes a passar. Contudo, no se sentia com disposio 
para isso. Que pouca sorte a sua! Logo Melanie havia de escolher aquele dia para, ter o nen! 
Sentou~se no primeiro degrau da escada, para se recompor, perguntando a si prpria como teria 
decorrido a batalha da vspera e c. que se estaria, passando nesse dia. Que sensao to 
desagradvel a de saber que se travava um combate to importante a poucas milhas dali, e ignorar a 
marcha das operaes! 
Como era estranha a quietude que reinava naquela zona de Atlanta, em contraste com o tumulto a 
que assistira na altura em que se ferira a batalha de Peachtree Creek! A casa da tia Pitty 'era uma das 
ltimas na extremidade norte de Atlanta e como. a luta se desencadeava algures para o Sul, 
Searlett'j no via, passar  sua porta as colunas de reforos marchando aceleradas para as linhas da 
frente, nern ambtilncias a caminho do hospital, nem os grupos vacilantes de feridos que 
regressavam por seu prprio p. 
463 
Pensou que essas cenas se estariam desenrolando agora na extremidade oposta da cidade e deu 
graas a Deus por se encontrar longe do local. Pena era que a maioria dos seus vizinhos de 
Peachtree Street tivesse partido para Macon. Com excepo dos Meades e dos Merriwetfiers, todos 
haviam fugido ao sentirem suspensa sobre a cabea ai ameaa da entrada dos yankes-em Atlanta. 
Sentia-se to s, to triste e desolada! Que pena o Peter no se encontrar ali, para o mandar at ao 
quartel-general informar-se acerca, do que se estava passando. Se no fosse por causa de Melanie, 
iria ela prpria tratar disso, mas no podia sair dali enquanto a senhora, Meade no chegasse. Por 
que se demoraria tanto? E que andaria Prissy a fazer? 
Levantou-se e foi at  varanda da frente na esperana de as ver, mas a morada, dos Meades ficava 
situada numa curva sombri, da estrada e no conseguiu avistar ningum. S algum tempo depois 
Prissy surgiu szinha, ao fundo da rua, fazendo bambolear as saias e olhando por cima do ombro 
para observar o efeito, 
- s boa para ir buscar a Morte - gritou-lhe Scarlett, quando ela chegou junto do porto. -Que disse 
a senhora Meade? Ainda demorar muito? 
- Sinhora Meade no tava l - informou a, criadita. 
- Ento onde  que ela est? A que horas voltar pata casa? 
Eu no sab - respondeu Prissy, arrastando as palavras, para dar mais nfase ao relato que se 
#
propunha fazer. - A cozinheira disse que sinhora Meade foi numa carruage busc o filho com Talbot 
e Betsy. Minino Phil apanhou um tiro, e t,@1uito mal. Sinhora no pode vi. 
Scarlett fitou-a, pasmada, e teve de refrear o desejo impetuoso de a sacudir. Os pretos pareciam 
encontrar sempre prazer especial em serem portadores de ms novas. 
- Bem, no fiques para a especada como um espantalho. Vai a casa da senhora Merriwether e pedelhe 
que chegue c ou que mande a ama da menina, Maybelle. Mas vai depressa! 
-No t l ningum, minina, Scarlett. Passei par l quando vinha de volta pra fal com ama, de 
minina Maybelle, pra mat o tempo. Foram embora. A casa t toda fechada. Se calh, foi pr 
hospital. 
-Agora j sei por que te demoraste tanto! Quando te mandar a qualquer stio, trata de fazer o que eu 
te disser 
464 
e no pares em parte nenhuma para matar o tempo seja ,com quem for. Que hei-de eu fazer, meu 
Deus? Scarlett quedou-se'a reflectir. De entre os seus amigos quem teria ficado na cidade que 
pudesse ser-lhe til naquela conjuntura? Havia a senhora Elsing. Pensando bem, a senhora Elsing 
no gostava nada dela. No entanto, sempre se mostrara muito afeioa-da a Melanie... 
-Vai procurar a senhora Elsing e explica-lhe a situa, o. Dize-lhe que faa o favor de vir c. E ouve 
Prissy: a senhora Melly est prestes a dar  luz o nen4 e pode precisar de ti. Vai num p e vem 
noutro. 
- Sim, sinhora - disse Prissy, saindo para a rua a passo de caracol. 
Anda depressa, lesma! Sim, sinhora. Prissy apressou o passo quase imperceptivelmente e 
Scarlett entrou em casa. Dirigiu-se para a escada, mas hesitou antes de principiar a subir. 
Tinha que explicar a Melanie a razo por que a senhora Meade no podia comparecer e a notcia de 
que Phil Meade fora gravemente ferido talvez a afligisse. Resolveu ocultar-lhe a verdade. 
Ao entrar no quarto da cunhada notou que Melanie deixara o -almoo intacto. Continuava deitada 
sobre um dos lados, com o rosto plido como cera. 
- A senhora Meade est no hospital - disse Scarlett. 
- Mas mandei chamar a senhora Elsng. Sentes-te mal? 
- Assim ' assim - volveu mentindo, Melanie. - Scarlett, quanto tempo levou o t@u filho a nascer? 
-Foi um instante- respondeu Scarlett, afectando um desprendimento que se encontrava longe de 
sentir.-Estava no jardim e quase no tive tempo de entrar em cas. A minha ama disse que foi um 
escndalo, tal qual como 
acontece com as pretas. 
-Deus queira que o meu parto seja assim rpidomurmurou Melanie com um sorriso que desapareceu 
subitamente ao set acometida por uma dor que a fez contorcer o rosto. 
Scarlett, olhou desalentada para as ancas estreitas de Melanie mas tentou tranquiliz-la: 
- O@, no,  to difcil como tu julgas! 
- Bem sei que no . Mas eu sou muito medrosa. A senhora Elsing demorar-se- muito ainda? 
30 - Vento Levou - 1 
465 
kL. 
-No deve tardar a -declarou Scarlett. -Vou buscar gua e uma esponja. Est hoje tanto calor! 
Searlett demorou-se o mais possvel no andar de baixo, correndo  porta de dois em dois minutos, 
na esperana de avistar Prissy. Mas no via sinais dela e acabou por voltar para junto da cunhada. 
Lavou-lhe o corpo inundado de suor e penteou-lhe a longa cabeleira negra com extrema solicitude, 
Uma hora depois ouviu na rua um rumor de passos arrastados. Espreitou pela janela e viu a boa 
Prissy caminhando vagarosamente, bamboleando as ancas e meneando a cabea com afectao, 
como se estivesse sendo observada por numerosa assistncia. 
"Qualquer dia ainda dou uma sova naquela desavergonhada", pensou Scarlett, furiosa, descendo as 
escadas a correr para ir ao encontro da criada. 
- Sinhora Elsing t no hospital. A cozinheira disse que vieram urna quantidade enorme de soldado 
#
ferido no comboio da manh e ficou a faz sopa pra eles. E disse tambm que... 
-No me interessa o que ela disse -atalhou Scarlett, com o corao oprimido por um vago 
pressentimento.Pe um avental limpo, para ires ao hospital. Vou dar-te um bilhete para o Dr. Meade 
e ' se ele no estiver, entrega-o ao Dr. Jones ou a qualquer dos outros mdicos. E, se no te 
despachares desta vez, podes ter a certeza de que te arrancarei a pele, 
- Sim, sinhora. 
- De caminho pede a qualquer pessoa que te d notcias de Jonesboro. Se ningum souber nada, 
passa pela estao e pergunta ao 's maquinistas dos comboios que trouxeram os feridos. V se eles 
conseguem dizer-te onde esto a combater os nossos soldados, se ainda lutam nos arredores.de 
Jonesboro ou se os yankees j os obrigaram a recuar mais para o Sul. 
- Valha-me Nosso Sinh! -Na face negra de Prissy estampou-se um terror sbito. -Os yankee no 
to em Tara, pois no, minina Scarlett? 
-No sei. Trata de obter notcias, 
Santo Deus, minina Scarlett! Eles podem faz mal  minha me-disse Prissy, rompendo em pranto, 
o que contribuiu para aumentar o aborrecimento de Scarlett. 
466 
- Deixa-te de choramnguices. A senhora Melanie pode ouvir-te. Vai mudar de avental, depressa. 
Prissy obedeceu, correndo para as traseiras da casa. Searlett rabiscou rpidamente meia dzia de 
linhas  margem da ltima carta que recebera do pai-nico bocadito de papel que havia, em toda a 
casa. Ao dobr-la, de forma que as palavras que acabava de garatujar saltassem  vista, leu 
fragmentos das frases escritas por Gerald: A tua me... tifo... que desistisses... voltar para Tara. Foi 
quanto bastou para que as lgrimas lhe chegassem aos olhos. Se no fosse por causa de Melanie 
regressaria a Tara imediatamente nem, que tivesse de fazer o caminho a p. 
Prissy partiu a trote, com a carta na mo, e Scarlett voltou ao andar de cima 'tentando imaginar 
uma mentira plausvel para desculpar a falta de comparncia da senhora Elsing. Melanie, porm, 
no lhe fez perguntas. Deitara-se de costas com uma expresso to serena no rosto que, ao v-Ia, 
Scarlett ficou tranquila por algum tempo. 
Sentou-se e tentou conversar sobre coisas fteis, mas a ideia de que Tara se encontrava sujeita aos 
ataques dos yankees, caso as tropas do general Hood fossem desfeiteadas, torturava-a cruelmente, 
Pensou em Ellen, viu-a estendida no leito, moribunda, e imaginou os yankees avanando sobre 
Atlanta, para incendiarem tudo e matarem toda a gente. Continuava a ouvir-se ao longe o troar da 
artilharia, sinistro e aterrador. Scarlett estava incapaz de pronunciar palavra e limitava-se a 
contemplar, da janela, a rua. calma e soalheira e as folhas das rvores, imveis e empoeiradas. 
Melanie tambm no falava. De vez em quando contraa a face com a violncia das dores e, de cada 
vez que o fazia, murmurava: 
- Afinal esta no foi to forte como a princpio supus. Mas Sea@lett via perfeitamente que ela no 
dizia a ver~ dade. Teria preferido que Melanie gritasse, a v-Ia sofrer em silncio, resignada. Sabia 
muito bem que devia apiedar-se de Melanie mas a verdade  que no sentia o menor vislumbre de 
cor4aixo por ela. Tinha o. esprito atormentado pela sua prpria angstia. A certa altura olhou 
fixamente para o rosto descomposto da cunhada e perguntou a si prpria por que teria sido ela, de 
entre tanta gente que existia neste mundo, a escolhida para ficar ao p de Melanie naquele momento 
critico - ela que nada tinha de comum ,com a cunhada, que a odiava, que at ficaria contente se a 
467 
visse morta, Mas talvez o seu desejo se tornasse realidade antes do fim do dia. Assaltou-a ento um 
receio supersticioso, No era bom desejar a morte de ningum. Era quase to mau como rogar uma 
praga. As maldies recaam sempre sobre a cabea de quem as invocava, quantas vezes lho dissera 
a sua velha ama. Mentalmente, rezou uma orao, pedindo a Deus que Melan1@3@ no morresse 
e, em seguida, rompeu numa conversa febril, sem no entanto saber ao certo o que dizia. Por fim, 
Melanie pegGu-lhe na mo e murmurou: 
-No te preocupes em me distrair, querida. Eu bem vejo cGmo ests aflita. Desculpa causar-te tanto 
incmodo. 
#
Scarlett calou-se sem conseguir dominar a sua inquietao. Que havia de'fazer, se nem mdico nem 
Prissy chegassem a tempo? Foi  janela, olhou para a rua, voltou para dentro e tornou a sentar-se, 
Instantes depois, levantou~se novamente e, acercand(>-se da outra janela do quarto, espreitou 
atravs das- cortinas. 
Passou-se uma hora e outra ainda. J dera meio-dia. 
0 Sol estava a prumo, dardejando os seus raios quentes sobre a terra, e nem uma brisa movia, as 
folhas cobertas de poeira, As dores de MeIane aumentavam. Tinha o cabelo encharcado em suor e 
a camisa pegada ao corpo. Scarlett lavou-lhe a face com uma, esponja, sem lograr ocultar por mais 
tempo o receio que sentia. Deus do Cu, e se a criana nascesse antes de o mdico aparecer? Como 
deveria ela proceder? No percebia nada de obstetrcia. Fora essa eventualidade que sempre temera 
desde que Melanie ficara entregue aos seus cuidados. H,abituara-se  ideia de que poderia contar 
com Prissy para resolver a situ;@o, caso o mdico faltasse. Prissy tinha prtica de parteira, 
segundo ela prpria afirmara por mais de uma vez. Mas por onde andaria o diabo da rapariga? Por 
que no tera voltado ainda? E por que no chegava o mdico? Tornou a ir  janela, Apurou o 
ouvido e de repente, teve a impresso de que o canhoneio cessar@. Perguntou a si mesma se no 
estaria a sonhar. Se,.na verdade, o troar da artilharia se perdera j na distncia, isso apenas 
significava que o teatro da luta. estava cada vez mais prximo de Jonesboro e que... 
Por fim, avistou Prssy, que vinha correndo para c@sa, e debruou-se na janela. A rapariguinha 
olhou para cima e, ao ver a ama, abriu a boca para lhe gritar as novidades. 
468 
Scarlett, porm, interpretando correctamente a expres-so de terror que Prissy trazia estampada no 
rosto e receando que as notcias fossem de molde a assustar Melanie, levou o indicador aos lbios a 
ordenar silncio e meteu-se para dentro. 
- Vou buscar gua mais fresca -disse ela, fitando com um sorrisoorado a face olhirenta da 
cunhada. 
Em seguida, apressou-se a abandonar o, quarto, fechando, a porta cautelosamertte- -atrs de si. 
Arquejante, Prissy sentara-se no ltimo degrau da escada. 
-Eles to combatendo em Jonesboro, minina Scarlett. Disseram a mim que os nossos soldados to, a 
perd. Sinh dos Cu minina Scarlett, qu que vai acontec  minha me e ao Pork? Sinh dos 
Cus, minina Searlett, qu que vai acontec  gente se os yankee chega aqui? Sinh dos Cu... 
Scarlett tapou-lhe a boca com a mo. 
- Cala-te, pelo amor de Deus! Sim, o que seria delas, se os yankees entrassem em Atlanta? Que 
aconteceria., se eles chegassem a Tara? Mas tratou de reagir, procurando afastar do esprito aqueles 
pensamentos, pois de contrrio acabaria por berrar e barafustar com Prissy. 
- Que  feito do Dr. Meade? A que horas vir ele? -Eu c no vi, minina Scarlett, -0 qu? 
- 0 dout no t no hospital. Sinhora Merriwether e sinhora Elsing tambm no to l. Um dos 
home disse a mim que o dout tava nos armazm ao p duma ambulana que trouxe os soldados 
ferido. de Jonesboro. Mas eu tive medo de me cheg junto dele. No gosto de v gente a raorr, 
Tenho muito medo dos morto. 
-E os outros mdicos? -Sinh dos Cu, minina Scarlett, eu no consegui encontr ninhum que lesse 
o bilhete. Andavam como gente doida no, hospit, a corr dum lado pr outro. Um dos mdico disse 
a mim pra ir. pr diabo e preguntou a rlini se eu no t vergonha de ir fal a eie em nen com tanto 
soldado ali a morr. Disse pra eu arranj uma mui pra ajud. Depois fui pregunt as noticia que a 
sinhora inandou e toda a gente disse a mim que os soldado tO lutando em Jonesboro e que... 
469 
-Disseste que o Dr. Meade se encontrava na. estao? 
- Sim, sinhora. Ele.... -Nesse caso, abre bem os ouvidos: Eu vou ~ver, se consigo trazer o Dr. Meade 
c a casa. Enquanto no vier, quero que fiques sentada ao p da menina Melanie e que faas tudo 
quanto ela te mandar. Se lhe disseres alguma coisa acerca do que se est passando no Sul, garantote 
que te venderei a um fazendeiro de Louisiana, to certo como dois e dois serem quatro. E no lhe 
vs participar que os outros mdicos no quiseram vir. Compreendeste? 
#
- Sim, sinhora. -Enxuga os olhos e leva l para cima um jarro de gua fresca. Lava a menina Melly 
com a esponja. Dze-lhe que eu fui falar com o Dr. Meade. 
-Ela vai t o filho j, minna Scarlett? 
- No sei. Receio bem que sim, mas no tenho a certeza. Tu percebes disso mais do que eu. Vai para 
junto da menina MeIly, anda. 
Scarlett pegou num chapu de palha de abas largas, que jazia sobre o toucador e p-lo na cabea. 
Olhou para o espelho e comp& maquinalmente as madeixas soltas, sem sequer atentar na imagem 
que o vidro reflectia. 0 pavor que@ a assaltara como que lhe produzira uma estranha sensao de 
vcuo no estmago. Enregelaram-lhe tambm os dedos, que a fizeram estremecer, quando tocou 
com eles na face coberta de camarinhas de suor. Saiu para a rua a correr e, assim que transps a 
soleira da porta, sentiu-se envolta na carcia ardente do sol. Estava um calor sufocante, e as fontes 
comearam a latejar-lhe pouco depois de ter sado de casa, Ainda no tinha chegado ao fim da rua 
quando ouviu um rumor de vozes que aumentava e diminua de -intensidade. Ao passar em frente 
da casa dos Leydens, comeou a arquejar, pois tinha o espartilho muito apertado, mas nem por isso 
abrandou o passo. A vozearia soava cada vez mais alto. 
Desde a residncia dos Leydens at ao Entroncamento, a rua fervilhava de actividade, como um 
formigueiro que acaba de ser destrudo. Passavam negros para baixo e para cima com o terror 
estampado nas faces. Sob os alpendres, viam-se crianas brancas a chorar. Peachtree Street estava 
atravancada de viaturas militares e de ambulncias carregadas de feridos bem como de carruagens 
ajoujadas. de malas e de mveis. Das ruas laterais no cessavam de 
470 
desembocar naquela artria cavaleiros que se dirigiam a galope para o quartel-general. De p,  
Porta de casa o velho Amos Bonnell, que segurava as rdeas da gua at'relada  caril-iagem, saudou 
Searlett, volvendo para ela um olhar eggazeado. 
- Ainda fica por c, Scarlett? Ns vamo-nos j embora. A minha filha est a fazer as malas. 
-Vo-se embora? Para onde? 
- S Deus sabe, menina. Os yankees j vm a caminho! Scarlett seguiu sem mesmo dizer adeus. Os 
yankees j vinham a cam@inho! Em Wesley Chapel parou para respirar, tentando restabelecer o 
ritmo normal do corao, Se no se acalmasse desmaiaria, com certeza. Encostou-se a um 
candeeiro. N@sse momento, avistou um oficial a cavalo, que se aproximava  desfilada, vindo d<> 
lado do Entroncamento. Cedendo a um impulso repentino, correu para o meio. da rua e intimou-o a 
parar. 
-Por favor! ]@ s um momento. 
0 homem refreou to, bruscamente o cavalo que este se empinou. Tinha afivelada no rosto uma 
mscara de cansao e de ansiedade, mas apressou-se a tirar o chapu de feltro cinzento 
completamente esfarrapado. 
- Qi@e deseja minha senhora? 
- Diga-me se' verdade que os yankees vm a, caminho. 
- Infelizmente . 
- Tem a certeza? 
- Tenho, sim, minha senhora. Recebemos h meia hora um comunicado do campo de batalha, em 
Jonesboro. 
- Em Jonesboro? Est certo disso? 
- Absolutamente. No vale a pena continuarmos a acalentar iluses, minha senhora. A mensagem 
vinha assinada pelo general Hardee e dizia: "Perdi a batalha e estou em plena reti@rada". 
- Oli, meu Deus! 
0 cavaleiro olhou para ela sem que a sua face trasse qualquer sinal de comoo. Pegou de novo nas 
rdeas e ps o chapu. 
- Por favor,  s mais um segundo: Que acha que devo fazer? 
-Confesso que no sei, minha senhora. 0 Exrcito prepara-Se para evacuar Atlanta dentro de 
algumas horas. 
#
- 0 qu? Vo-se embora e deixam-nos  merc dos y-ankees? 
471 
-Receio bem que sim. Esporeou o cavalo e no tardou a sumir-se ao longe, enquanto Searlett se 
detinha no meio da rua, com os ps enterrados na terra vermelha. 
Os yankees vinham a caminho e o Exrcto ia partir! Os yankees vinham a caminho! Que havia ela 
de fazer? Para onde ir? No, no, no podia partir. Melanie estava em casa, de cama,  espera do 
filho. Oli para que haviam .a3 mulheres de ter filhos? Se no foss@ Melanie, partiria com Wade e 
Prissy e esconder-se-ia na floresta, num stio onde os yankees no conseguissem descobri-los. Mas 
no podia levar Melanie para a floresta. Nem pensar nisso. Pelo menos por enquanto. Se ela tivesse 
tido o filho, na vspera que fosse, talvez conseguisse arranjar uma ambulncia para a transportar a 
qualquer local onde pudessem ocultar-se. Mas agora precisava de encontrar o Dr. Meade, custasse o 
que custasse e de fazer com que ele a acompanhasse at junto de Meily. Talvez o mdico 
conhecesse um processo de apressar o parto. 
Apanhando as salas correu pela rua fora e a frase "Os yankees vm a camin o" como que marcava - 
o ritmo dos seus passos. 0 Entroncamento estava pejado de gente que se acotovelava, meio 
aparvalhada. Por todos os lados havia carroas, ambulncias, tipias e carros de bois carregados de 
feridos. Da multido elevava-se um rudo semelhante ao de uma ressaca. A seus olhos, deparou-selhe 
ento um espectculo indito e singular. Vindos das bandas da estao do caminho de ferro, 
surgiam grupos de mulheres carregando presuntos aos ombros. Ao lado delas caminhavam crianas 
pequenas, vacilando sob o peso de @aIdes a transbordar de melao. Alguns rapazitos arrastavam 
atrs de si sacas de milho e de batatas. Um velhote empurrava com dificuldade um carro de mo em 
que transportava uma barrica de farinha de trigo. Homens, mulheres e crianas, tanto brancos como 
pretos, caminhavam apressadamente, com a fisionomia alterada, acarretando embrulhos, sacos e 
caixas de provises em quantidades muito superiores s que Scarlett tinha visto consumir durante 
um ano inteiro. A multido abriu alas de repente para dar passagem a um trem que a frgil senhora 
Elsing conduzia de p, com as rdeas numa das mos e o chicote na outra. 
Plida e sem chapu, com os cabelos grisalhos cados sobre os ombr<:>s, vergastava furiosamente o 
cavalo. Sen- 
472 
tada no banco de trs, Melissy, ama negra de Fanny, sobraava um enorme presunto e, empregando 
simultneamente os ps e as mos, mantinha em equilbrio uma pilha de ce-- 
---tos e de sacas, das quais uma a certa altura se rompeu, espalhando pela rua as ervilhas secas que 
continha. Searlet,t chamou a senhora Elsing aos gritos, mas o tumulto Z.`ufou-lhe a voz e a 
carruagem prosseguiu a sua marcha a toda a brida. 
Por momentos, no logrou compreender o que via, mas depois lembrou-se de que os armazns dos 
servios de abastecimento do Exrcito, existentes junto  linha frrea, tinham sido franqueados ao 
povo por ordem do general Hood, a fim de que a populao pudesse retirar o que lhe fosse possvel 
antes da chegada dos yankees. 
As cotoveladas, Searlett abriu caminho por entre a populaa, ultrapassou a turba agitada e, ao 
desembocar no Entroncamento, correu a toda a velocidade em direco  estao. Atravs do 
aglomerado de ambulncias e das nuvens de poeira que se elevavam do local, conseguiu avistar os 
mdicos e os maqueiros, que se moviam incessanternente de um lado para outro. Graas a Deus, 
no tardaria a encontrar o Dr. Meade. Dobrou a esquina do Hotel Atlanta e, ao ver surgir  sua 
frente o edifcio da estao do caminho de ferro, deteve-se aturdida. 
Sob o sol implacvel, jaziam estendis no cho milhares de soldados feridos, alinhados sobre a via 
frrea e sobre os passeios em filas interminveis. Alguns deles estavam rgidos e imveis, ao passo 
que outros gemiam, contorcendo-se sob o calor sufocante. Por cima dos homens pairavam enxames 
de moscas, que zumbiam e pousavam nos rostos angustiados. Por toda a parte havia sangue e 
ligaduras sujas, e se ouviam suspiros e gritos de dor quando os maqueiros levantavam os feridos. 
Dos corpos suados e imundos, exalavam-se emanaes ftidas, de sangue e de excrementos que 
tornavam a atmosfera irrespirvel e quase provocavam nuseas. Os enfermeiros chegavam a pisar 
#
os feridos, to perto se encontra@ vam uns dos outros, e os infelizes olhavam para eles, 
apalermados, aguardando pacientemente o seu turno. 
Scarlett recuou, tapando a boca com as mos, para no Vomitar. No podia avanar mais. Vira 
milhares de feridos, no s no hospital, mas tambm no jardim da, tia Pitty, aps a batalha travada 
nas margens de Peachtree Creek, 
473 
mas nunca presenciara nada que se comparasse com aquilo, que se parecesse com o espectculo 
daqueles corpos sujos e ensanguentados 'atormentados pelo sol abrasador. Era um inferno de dor, 
de mau cheiro e de barulho... Depressa! Depressa! Depressa! Vm a os yankees! Vm a os 
yankees! 
Encheu-se de coragem e passou entre os homens estendidos no solo, procurando o Dr, -Meade no 
meio das pessoas que se encontravam de p. Ma-,:; nem sequer podia olhar  sua volta, porque, se 
no visse onde punha os ps, arriscava-se a pisar algum daqueles pobres soldados. Apanhou a saia e 
esforou-se por alcanar um grupo de oficiais que dirigiam o servio dos maqueiros, Mos febris 
agarravam-se-lhe s roupas quando ela passava, enquanto vozes angustiadas lhe suplicavam: 
- Minha senhora... gua! Por favor, minha senhora, ,aua! Traga-me um copo de gua- por amor de 
Deus, minha senhora! 
S muito dificilmente lograva desenvencilhar a sala daquelas mos convulsas. 0 suor escorria-lhe 
em grossas bagas pela cara abaixo. Se pisasse algum dos homens que estavam deitados no solo, 
gritaria ou perderia os sentidop, com certeza. Passou por cima de cadveres por cima de infelizes 
que jaziam com os olhos embaciaos e as mos apertadas sobre o ventre, onde o sangue j seco 
colava o uniforme s feridas, por cima de soldados cuja barba estava enipastada de sangue 
coagulado e cuja boca, rasgada, emitia sons que signicavam: 
- gua! gua! Desataria aos berros se no conseguisse encontrar o Dr. Meade dentro de pouco 
tempo. Avistou um grupo de homens  entrada do parque das- ambulncias e gritou o mais alto que 
lhe foi possvel: 
- Dr. Meade! 0 Dr, Meade est a? Do grupo, destacou-se um homem que avanou na direco dela. 
Era o mdico. Estava sem casaco e com as mangas arregaadas. Tinha a camisa e as calas tintas de 
sangue, corno as de um magarefe e nem escapara a ponta da barba grisalha. 0 seu a--pecto@ e@a o 
dum homem embriagado pelo excesso de fadiga, por um desespero impotente, por uma compaixo 
imensa. Todo ele ressumava sujidade e sangue. 
0 suor cavara-lhe longos sulcos na camada de poeira que lhe cobria as faces. A voz, porm, era 
calma e decidida. 
474 
- Ainda bem que apareceu - disse, aproxmando-se mais. - Preciso do seu auxlio. 
Scarlett encarou-o por instantes, estrrecida, deixando cair as saias sobre o rosto dum ferido, que 
tentou dbilmente voltar a cabea, para no sufocar. 
A poeira levantada pelas ambulncias que continuavam a chegar e as emanaes ptridas quase a 
no deixavam respirar. 
- Depressa, filha! Venha c! Arregaando, novamente as saias, Scarlett atravessou o mais 
rp4damente que pde as fileiras de corpos e acercou-se do mdico. Pousou-lhe a mo no brao e 
sentiu que ele tremia de fadiga, embora o rosto no trasse o mais leve indcio de fraqueza. 
- Oh, doutor! - gritou. - Tem de vir a nossa casa. Melanie j est com as dores. 
0 mdico fitou-a com olhar estranho, como se no tivesse compreendido. Um homem, que jazia no 
solo a seus ps, com a cabea deitada na mochila, esboou um sorriso ao ouvir as palavras da 
rapariga. 
-No se preocupe. Eles trataro disso-murmurou. Searlett nem sequer olhou para ele, limitando-se a 
sacudir o brao do mdico. 
-Melanie est muito aflita. A criana pode nascer dum instante para o outro. Venha, doutor. Ela j... 
No tinha tempo Dara usar de rodeios, mas custava-lhe dizer co`sas daquele gnero diante de tantos 
homens que nunca tnha vsto. 
#
-As dores esto a apertar. Por favor, Dr. Meade! -Foi por causa disso que veio procurar-me? Parece 
impossvel! -exclamou o mdico cujo rosto se contraiu subitamente numa expresso de rricor, de 
rancor que no era dirigido contra ela, nem contra nin um em especial, 
9 mas sim contra o mundo onde tais coisas aconteciam.Enlouqueceu? Corno-quer que eu abandone 
estes homens? Esto a morrer para a, s centenas. Seria um crime deix-los, para socorrer uma 
mulher que est para ter um filho. Arranje algum que a ajude. Leve a minha mulher. 
Scarlett abriu a boca para lhe dizer que a senhora Meade se, no encontrava em Atlanta. Mas 
pensou que teria de lhe explicar o motivo por que ela se ausentara e calou-se. 
0 doutor ignorava que o filho estivesse gravemente ferido! Continuaria ali, se o soubesse? Contudo, 
tinha a impresso 
475 
de que no abandonaria o seu posto, mesmo que o informassem, de que Phil agonizava, pondo 
acima dos seus interesses pessoais o cumprimento do dever. 
-Precisamos de si, doutor. Bem sabe que Melanie vai ter um parto difcil. 
Scarlett nem queria crer que fosse ela quem ali estava a falar de um assunto to escabrso diante de 
estranhos, em voz alta, no meio daquele inferno de calor e de sofrimento. 
-Morrer com certeza, se o senhor doutor no vier! 
0 mdico sacudiu do brao a mo da rapariga e respondeu, como se mal a conhecesse ou no 
soubesse ao, certo do que se tratava: 
- E ento? Tambm estes homens todos podem morrer, se no lhes acudirmos j. No temos 
ligaduras, -nem pensos, nem clorofrmio, nem quinino. Oh, meu Deus! Da-me um pouco de 
morfina para os que esto pior, ou umas gotas de clorofrmio! Diabos levem os yankees! Malditos 
sejam! 
-Isso, doutor! Mande-os para o inferno! -disse o homem deitado no cho, mostrando os dentes entre 
a barba. 
Scarlett estava a tremer e os olhos ardiam-lhe com lgrimas de terror. 0 mdico recusava-se a 
acompanh-la. Melanie encontrava-se muito mal e ela desejara que a cunhada morresse! E o doutor 
no podia ir! 
-Por amor de Deus, venha comigo! 
0 Dr. Meade mordeu os lbios, mas no arredou p. -Vou tentar, minha filha. Mas no posso 
prometer nada, Primeiro tenho de tratar destes homens. Os yankees vm a caminho e as nossas 
tropas j comearam a evacuar a cidade. No h comboios. A linha frrea para Macon caiu nas 
mos do general Sherman... Farei o possvel. E, agora, dexe-me em paz. No  muito difcil assistir 
a um parto. Basta atar o cordo... 
Um enfermeiro'tocou-lhe no ombro. 0 mdico voltou-se e comeou a dar ordens para a esquerda e 
para a direita, apontando na direco dos feridos. 0 homem que jazia,a seus ps lanou um olhar 
pesaroso a Scarlett, que se reti-ou cabisbaixa. 0 mdico j tinha esquecido completamente a sua 
presena. 
Abrindo passagem entre os feridos, Scarlett regressou a casa rpidamente. No poderia contarcom o 
mdico. Teria que agir por si prpria. Felizmente Prissy sabia o que havia a fazer naquelas 
c1rcunstnc1@s. Doa-lhe a cabea 
476 
por causa do calor. 0 espartilho, encharcado em transpirao, colara-se-lhe ao corpo. Tinha o 
crebro entorpecido e as pernas dormentes como num pesadelo, e no poderia correr mesmo que 
qilisesse, 0 percurso de regresso pareceu-lhe interminvel. 
0 estribilho "Os yankees vm a caminho" comeou a martelar-lhe os ouvidos outra vez. 0 corao 
batia-lhe agora com mais fora, transmitindo-lhe aos membros uma vtalidade nova. Estugou o 
passo em direco ao Entroncamento, onde a multido se acotovelava nos passeios, pelo que se viu 
obrigada a seguir pelo meio da rua. Os soldados desfilavam a caminho das portas da cidade, em 
longas colunas, cobertos de poeira e exaustos. Pareciam milhares, todos eles barbados sujos; de 
espingarda ao ombro, marchando em passo liger e cadenciado. No seu encalo, avanava a 
#
artilharia, cujos condutores fustigavam as mulas magras com tiras de couro cru. A seguir, rodavam 
as viaturas dos servios auxiliares, com a cobertura de lona esburacada. E, atrs de tudo trotava a 
cavalaria, levantando nuvens de poeira vermelha. Scarlett nunca tinha visto tanta tropa junta. 0 
exrcito batia em retirada! 
A coluna dos soldados empurrou-a para cima do passeio, pejado por uma turba compacta. Pairava 
na atmosfera um cheiro a whisky barato. Nas proximidades de Decatur Street, destacavam-se entre 
a multido mulheres com vestidos garridos e rostos pintados, as quais punham no ambiente uma 
nota discordante de dia festivo. Quase todas elas estavam embriagadas, assim como grande parte 
dos soldados, a quem se agarravam aos beijos. Scarlett viu de relance uma cabea de caracis 
avermelhados e no teve dificuldade em reconhecer Belle Watling. Chegou-lhe aos ouvidos a 
gargalhada estridente que ela soltou quando, ao perder o equilbrio, se apoiou a um soldado maneta, 
que mal podia segur-la. 
Deixou o Entroncamento atrs de si e continuou a caminhar rapidamente. Para aqueles lados, a 
multido comeava a tornar-se menos densa. 
Scarlett apanhou de novo as saias e recomeou a correr. Ao atingir Wesley Chapel, j tinha 
dificuldade em respirar e sentia-se um tanto agoniada. 0 espartilho cortava-lhe a cintura. Sentou-se 
nos degraus da igreja e escondeu a cabea entre as mos, at normalizar a respirao. Se ao menos 
pudesse inspirar fundo, de maneira que o ar lhe 
477 
chegasse at ao abdome! Se ao menos o corao cessasse de bater com tanta, violn6a! Se ao menos 
encontrasse naquele inferno algum que lhe pudesse valer! 
Nunca em toda a sua vida tivera de agir por si. Havia sempre quem fizesse as coisas por ela, que a 
aconselhasse, quem a protegesse e animasse. Custava-lhe a crer que fosse ela, Scarlett O'Hara 
HamitIon, quem naquele momento descansava sentada nos degraus da igreja, sem um amigo ou 
vizinho a quem pudesse recorrer para enfrentar a crise que se avizinhava. Nunca lhe havia faltado 
auxlio sempre que dele precisara. Encontrara sempre pessoas amigas, vizinhos e escravos 
competentes, prontos a acudirem-lhe em todas as emergncias. Parecia-lhe inacreditvel que 
estivesse ali apavorada, completamente s, longe do lar e de todos os que lhe eram queridos! 
Se ao menos estivesse em Tara!... Oh. como seria agradvel ver-se de regresso ao lar, ainda que os 
yankees ron- dassem a plantao! Oh, como seria bom acolher-se de novo ao tecto sob o qual vir4 
pela primeira vez a luz do dia, embota Ellen se encontrasse doente! J tinha saudades do rosto 
meigo da me, de sentir  volta do pescoo a carcia dos seus braos fortes! 
Meio tonta, ergueu-se e retomou o caminho. Ao chegar perto de casa, avistou Wade, que se 
balouava no porto da frente. Quando ele viu a me, franziu a testa e comeou a chorar, 
mostrando-lhe um dedo ferido. 
- Um ache! -disse ele, com voz lamentosa.- Um ache! 
- Cala-te, se no queres apanhar. Vai para, o quintal fazer bolos de lama e no saias de l. .-Wade 
tem fome! 
E o pequeno ps-se outra vez a chorar, metendo o dedo -na boca. 
No me maces. Vai brincar para o quintal, anda... Olhou para cima -e viu Prissy debruada a uma 
das janelas do quarto de Melanie, com expresso de terror estampada no rosto. De repente, porm, 
ao avistar a ama, todos os sinais de inquietao se desvaneceram da face negra da criadita. Scarlett 
fez-lhe sinal que descesse e entrou em casa. Como estava fresco no vestbulo! Desatou os laos do 
chapu e arremessou-o sobre a mesa, enxugando  manga do vestido o suor que lhe humedecia a 
fronte. A porta do quarto de Melane abriu-se e um gemido 
478 
de dor ecoou no corredor do primeiro andar. Prissy desceu as escadas a correr. 
- 0 dout no vem? 
- No. No pode vir. 
- Sinh dos Cu, Ininna Searlett! Sinhora Melly t rnuito mal! 
-0 Dr. Meade recusou-se a abandonar os feridos. No encontrei ningum que pudesse valer-nos. 
#
Tens que assistir ao parto e eu ajudar-te-ei na medida. do possvel. 
Prssy deixou cair o queixo e debalde tentou articular palavra. Lanou  ama um olhar desvairado e 
ps-se a remexer os ps, torcendo-se toda. 
-No te ponhas com essas parvoces! -exclamou Searlett, furiosa ao ver a rapariga naqueles 
preparos.Que aconteceu? ' 
-Sinh dos Cu, minina Scarlett! A gente precisa do dout. Eu no sab de parto, Minha me nunca 
me deixou a mim t ao p das mui nesta altura. 
Scarlett quedou-se, horrorizada, com a respirao suspensa'at' que um ataque de clera se apossou 
dela. Prissy ainda tentou fugir, mas no teve sorte nenhuma. 
- Grande aldrabona! Que queres tu dizer com isso? Garantiste-me tantas vezes que estavas 
habituada a. tratar de partos e agora sais4e com essa! 
Scarlett sacudiu violentamente a criadita, cuja cabea oscilava para um lado e outro como se ela 
estivesse bbada. 
- Menti, minina Searlett! No sei por que foi, masdeve t sido sem quer. S vi inda uma criana Q 
minha me bateu em mim por t tado, a espreit. 
Scarlett encarou-a, furibunda, e Prissy encolheu-se toda, tentando libertar-se. Por momentos 
recusou-se a aceitar a realidade dos factos, mas, quando'se convenceu de que Prissy sabia tanto de 
obstetrcia como ela o seu desespero foi imenso. Nunca batera numa escrava e@@ toda a sua vida, 
Mas desta vez esbofeteou Prissy com quanta fora tinha, at sentir o brao doer-lhe, A pretinha 
berrava a plenos pulmes, mais por medo que por dor, e ensaiou uma espcie de dana 
contorcionista para conseguir escapulir-se das mos da ama. 
Aos gritos de, Prissy, os gemidos cessaram no primei@o andar e, momentos depois, a voz de 
Melanie, fraca e tremula, chamou: 
-s tu, Scarlett? Vem c, por favor! 
479 
, -1 
Scarlett largou o brao de Priss@y, que se deixou cair sobre os degraus da escada, a choramingar. E 
ficou parada, por instantes, com os olhos cravados no tecto, escutando os gemidos que tinham 
recomeado. Durante uma fraco de segundo, experimentou a sensao de lhe terem colocado uma 
canga ao pescoo, um peso que a faria vacilar assim que desse o primelro passo. 
Tentou reconstituir mentalmente tudo quanto Ellen e Bab lhe tinham feito quando Wade Hampt6 
nascera, mas a sua memria ape@as havia, guardado umas recordaes muito vagas desses ho@rrveis 
momentos. No entanto, conseguiu lembrar-se de algumas coisas e ordenou a Prissy, com voz 
autoritria: 
1 - Acende o lume e pe gua a ferver. Em seguida, traze todas as toalhas que encontrares e um 
novelo de fio. E urna tesoura, tambm. V se tomas bem sentido que  para depois no faltar nada. 
Depacha-te anda! 
Agarrou-a pelo vestido, obrgando@@ a Wvantar-se, e, empurrou-a na direco da cozinha. 
Depois, encolheu os ombro@ num gesto de resignao e comeou a subir a escada. No seria 
empresa fcil explicar a Melanie que Pri"y e ela  que teriam de- lhe assistir ao parto. 
ZZ 
POR muitos anos que vivesse, Searlett jamais esqueceria aquela tarde de calor sufocante que 
parecia nunca mais ter fim. At as moscas que a no largavam um instante sequer, estavam 
apostadas em aumentar o seu torrrf@to. Voavam em torno de Melanie, sem ligarem importncia 
ao leque de palma, que Scarlett agitava sem cessar a ponto de j ter os braos doridos daquele 
movimento 6nstante. Contudo, os seus esforos resultavam inteis pois que, enquanto enxotava 
umas do rosto hmido da cunhada, iam pousar-lhe outras sobre os ps encharcados de suor, 
obrigando a pobre doente a, murmurar, com voz dbil e entrecortada: 
- Por favor, Scarlett, os meus ps. 
0 aposento estava mergulhado numa semiobscuridade repousante. Para evitar a claridade 
demasiadamente ntensa e a temperatura asfixiante que reinava l fora, Sear- 
#
1 ett descera o estore, semeado de pequenos buracos de tama- 
480 
nho de bicos de alfinetes, que o sol, atravessando, parecia pontilhar de luz. 0 quarto assemelhava-se 
a uma estufa. As roupas de Scarlett, longe de enxugarem, ficavam cada vez mais encharcadas e 
pegajosas com a transpirao  medida que as horas iam passando. Acocorada a um canto, Prissy 
exalava um cheiro a catinga to intenso que Scarlett, teria corrido com ela se no receasse que, uma 
vez livre da sua vigilncia, a criadita desse s de Vila Diogo. Melanie, deitada num lenol negro de 
suor e que apresentava aqui e alm manchas hmidas da gua que Searlett lhe deitara por cima, 
estorcia-se sem descanso, voltando-se dum lado para outro, debalde procurando uma posio que 
lhe trouxesse algum alvio. 
De vez em quando tentava sentar-se na cama, mas logo se deixara cair para trs, contorcendo-se 
com dores. De incio, procurara cGnter-se mordendo os lbios at fazer sangue, numa animosa 
tentativa de no exteriorizar o seu sofrimento. Mas Scarlett, cujos nervos j no aguentavam mais, 
disse-lhe, com voz surda: 
- Pelo amor de Deus, MeIly, no te faas mais forte do que na realidade s. Grita  vontade. Alm 
de mim e de Prissy, ningum te ouvir, 
Com o correr do tempo as dores foram-se tornando mais violentas e, no obst@nte a coragem que 
de incio revelara, Melanie j no lograva conter os gemidos e, de vez em quando, soltava um ai 
pungente que dlacerava o corao da cunhada, Nessas alturas, Scarlett escondia a cabea entre as 
mos, apertando os ouvidos com fora, enquanto intimamente pedia a morte a Deus, pois tudo seria 
pn-fervel quele martrio de presenciar uma dor to grave sem poder fazer nada para a minorar. 
No havia ' com certeza, tormento maior do que o de estar  espera duma criana que no 
tinha pressa alguma de vir ao mundo. E ela via-se na necessidade de continuar ali, presa  cabeceira 
de Melanie, sabendo perfeitamente que os yankees se deviam encontrar j no Entroncamento. 
Estava sinceramente arrependida de no ter prestado ateno s conversas das matronas a respeito 
de nascirnentos e partos. Oh, se ela se tivesse interessado por esses assuntos j saberia agora se o de 
Melanie estava decorrendo com normalidade ou no! Lembrava-se vagamente de ter ouvido a tia 
Pitty contar o caso de uma amiga que, depois -de ter sofrido durante quarenta e oito horas seguidas, 
havia 
31 - Vento LeVou - 1 481 
morrido sem dar  luz. E se acontecesse o mesmo a Melanie? Se ela se conservasse assim por mais 
dois dias? Mas Melanie era muito frgil para suportar tanto, tempo aquela tortura. Se a criana no 
nascesse depressa, a me decerto no resistiria. E onde , que Searlett iria arranjar coragem para 
enfrentar de novo AshIey caso ele ainda estivesse vivo, e lhe participar a morte e Melanie, depois 
de ter prokmetido que tomaria conta dela? 
De princpio, Melanie quisera segurar as mos de Searlett sempre que a dor se tornava mais intensa, 
mas era tal a fora com que lhas apertava que pouco faltava para lhe .quebrar os ossos. Ao fim 
duma hora, Scarlett tinha as mos de tal forma inchadas e doridas que nem as podia fechar. 
Resolveu ento atar dois lenis de banho aos ps da cama, e fazer um n em cada uma das 
extremidades livres, as quais entregou a Melanie, Esta agarrou-se a elas como a uma tbua de 
salvao, torcendo-as, puxando-as, cravando nelas as unhas, como se isso lhe minorasse o 
sofrimentG. Gemeu e gritou durante todo o dia, como um animal cado numa armadilha. s vezes, 
largava as pontas dos lenis, para enxugar as mos banhadas de suor, e fitava Scarlett com os 
olhos esbugalhados pela dor. 
- Fala comigo, Scarlett-implorava, com voz fraca.Dize qualquer coisa, por favor. 
E Searlett comeava a falar, sem saber bem o que dizia, at que Melanie principiava a contorcer-se 
de novo. 
As horas passavam to devagar, naquele quarto saturado de calor, de sofrimento e dos zumbidos das 
moscas, que Scarlett perdeu a noo do tempo. Parecia-lhe ter vivido uma eternidade, desde que 
entrara no aposento escuro e abafado cnde Melanie se encontrava. De cada vez que a cunhada 
gritava, Scarlett tinha de fazer esforo sobre si mesma para a no imitar, mordendo os lbios at 
#
fazer sangue, pois que s assim conseguia dominar o histerismo que a assaltava. 
A certa altura, Wade subiu as escadas nos bicos dos ps e assomou  porta. _ ade ter 
W. n fome-disse ele. Scarlett levantou-se para tratar do filho. Melanie, porm, adivinhando-lhe 
as intenes, implorou: - 
- No me deixes szinha, Scarlett! A tua presena d-me coragem. 
Scarlett mandou Prissy  cozinha, a fim de aquecer as 
482 
papas de milho que constituam o almoo do pequeno e de lhas dar a comer. Quanto a ela, tinha a 
impresso de que nunca mais seria capaz de ingerir fosse o que fosse, a partir daquele dia to 
trgico. 
0 relgio do fogo parara. Scarlett no sabia que horas eram, mas, como o calor diminura de 
intensidade e j se no distinguiam pontos luminosos nos estores, levantou-os. Verificou ento, com 
surpresa, que a tarde ia bastante adiantada j. 0 Sol, qual disco incandescente, estava prestes a 
esconder-se no horizonte. Sem saber porqu, Scarlett imaginara que ele continuaria a brilhar para 
sempre, envolvendo tudo no calor asfixiante do meio~dia. 
Cheia de ansiedade, perguntou a si prpria o que se estaria passando. Teriam as tropas sulistas 
recuado uma vez mais? E se os yankees se encontrassem j dentro da cidade? Seria possvel que o 
general Hood se retirasse sem dar luta? Com o corao apertado de angstia, Searlett recordou o 
reduzido nmero de soldados de que a Confederao dispunha e os milhares de homens bem 
alimentados que constitu-am os efectivos de Sherman. Sherman! Nem o prprio nome de Satans 
lhe infundia tanto horror como este. Mas nem tempo para pensar lhe sobejava, agora. Melanie tinha 
sede, queria uma toalha molhada em  'gua fria para refrescar a fronte, suplicava-lhe que a 
abanasse com o leque, que lhe enxotasse as moscas que teimavam em lhe pousar no rosto. 
J era quase noite quando Prissy surgiu como um fantasma negro e assustadio para acender o 
candeeiro. Foi nessa altura que Melanie comeou a perder as foras. Chamava Ashley a todo o 
instante, como num delrio. A insistncia montona da voz dela exasperava S<--arlett. Com os 
nervos completamente arrasados, chegou a sentir o desejo de- a sufocar de qualquer maneira, nem 
que fosse com urna almofada sobre a boca. Mas no valia a pena desesperar. Talvez o Dr. Meade 
conseguisse arranjar tempo para lhes ir dar uma ajuda. Se ao menos ele no se demorasse muito! 
Com uma tnue esperana a reanim-la Scarlett voltou-se para Prissy e ordenou-lhe que fos@e, 
numa corrida, a casa dos Meades saber se o mdico ou a mulher l estariam, 
- E se o Dr. Meade tiver sado - acrescentou - pergunta  senhora ou  criada o que havemos de 
fazer. Pede-lhes que venham at c, por favor. 
483 
Prissy saiu ruidosamente do quarto. Scarlett viu-a correr pela rua abaixo, numa velocidade de que 
nunca julgara capaz.aquela rapariguinha sem prstimo. Depois duma ausncia prolongada, a criadita 
voltou szinha.' 
-0 dout no teve em casa o dia todo. Parece que foi com os soldados. Minina Scarlett, minino Phil 
morreu j. 
- Morreu? 
- Sim, sinhora - respondeu Prissy, impando de importncia. - Talbot que  o cochero deles  que 
disse pra mim. 
-Deixa l isso agora. -Eu no vi a mui do dout. A cozinheira disse que ela levou o filho pr 
enterr antes dos yankee cheg. Ele disse que quando as d f grande, pra p debaixo da cama uma 
faca que parte as d ao meio... 
Scarlett sentiu ganas de a esbofetear, pela valiosa informao que ela acabava de lhe trazer, mas 
conteve-se, porque Melanie abriu uns olhos grandes e espavoridos e perguntou, num murmrio: 
-Deus do Cu!... Os yankees j a vm? 
- No - respondeu energicamente Scarlett. - Prissy est a mentir com todos os dentes que tem na 
boca. 
- No tou mentindo, no, sinhora - protestou a pretinha, calorosamente. 
#
-Eles j a vm! -teimou Melanie, sem se deixar iludir, escondendo a cara na almofada. 
E exclamou, com voz surda: 
- Meu filho, meu pobre filho! - Aps uma longa pausa, continuou: -Tu no podes ficar aqui, 
Scarlett. P, preciso que fujas quanto antes e que leves Wade contigo. 
Melanie disse exactamente aquilo que a cunhada estava a pensar 'mas, ao ouvi-Ia, Scarlett ficou 
furiosa e envergonhada ao mesmo tempo como se tivesse estampado no rosto o receio que 
secretamente a minava. 
- No sejas parva! - respondeu. - Os yankees no me metem medo! Por nada deste mundo eu te 
deixaria ficar aqui szinha. 
- Pois. fazes mal, Scarlett - volveu Melani. - No resistirei por muito, tempo. 
Muito devagar, como se fosse j bastante velha, Scarlett desceu as escadas imersas nas mais 
profundas trevas, apoiando-se pesadamente ao corrimo, tal se receasse cair de um instante para 
outro. As pernas tremiam-lhe de fadiga 
484 
e pesavam-lhe que nem chumbo. Tiritava de frio por causa da roupa encharcada em transpiraao 
que se 'lhe colava ao@ corpo. Extenuada, dirigiu-se para o alpendre, e deixou-se cair no primeiro 
degrau da escada. Encostou-se a um dos pilares e, com mos pouco firmes, desabotoou quase at  
cintura o corpete do vestido. A noite estava escura e sufocante e Scarlett quedou-se a contemplar o 
espao  sua frente, completamente embrutecida. 
0 mau tempo j passara. Melanie no morrerae o filho, cujos vagidos lembrava os miados dum 
gatito recm-nascido, fora entregue aos cuidados de Prissy que lhe estava dando o primeiro banho. 
Melanie adormecera. Como podia ela dormir, depois daquela noite de pesadelo, daquelas dores 
horrveis que a no haviam deixado sossegar um instante, daquele sofrimento atroz que as suas 
mos inexperientes ainda tinham agravado? Que poder estranho teria impedido Melly de sucumbir? 
Scarlett estava convencida de que no teria resistido a semelhante tratamento. No entanto, logo que 
o trabalho do parto havia terminado, Melanie murmurara, com voz to dbil que Scarlett se vira 
obrigada a curvar-se para perceber o que ela queria dizer: "Obrigada, Scarlett". E cara num sono 
profundo. Como conseguira adormecer depois de todo aquele tormento? Scarlett j no se 
lemb`rava de que tambm dormira depois de Wade ter nascido. No era capaz de recordar fosse o 
que fosse. Tinha a impresso de que se lhe fizera o vcuo no esprito. 0 mundo parecia-lhe vazio. 
Para ela, era como se no houvesse existido nada antes daquele dia interminvel e agora s tinha 
conscincia da noite quente e abafada @ue a envolvia, da sua prpria respirao ofegante 
* ruidosa, do suor que lhe corria das axilas at  cintura 
* dali at aos joelhos, ensopando-lhe a roupa, fazndo-a tremer de frio. 
A pouco e pouco, a respirao pesada e uniforme transformou-se-lhe num soluar espasmdico, 
mas os olhos conservavam-se secos e ardiam-lhe penosamente, como se nunca mais pudessem 
verter uma nica Mg-rima. Endireitou-se lentamente como se qualquer movimento representasse 
para ela um sacrifcio enorme e levantou as saias acima dos joelhos. To deDressa estremecia com 
arrepios de frio, como se sentia su-focar de calor, Todos os seus Poros pareciam segregar um visco 
que lhe pegava a roupa ao corpo. A carcia da brisa nocturna sobre as pernas 
485 
4m", 
p,19- 
Jk'@. 
fazia-a experimentar uma sensao reconfortante. Tentou imaginar o que a tia Pitty diria se a visse 
ali, sentada sobre os degraus do alpendre, com as saias levantadas e as paritalonas  mostra. Mas 
isso, agora era-lhe indiferente. Nada lhe interessava j. 0 tempo corno que suspendera a sua marcha, 
Tanto podiam ser oito horas como meia-noite, que ela no se importava. 
Ouviu um rumor de passos no andar de cima e pensou, "Diabos levem aquela maldita Prissy", antes 
que os olhos se lhe fechassem e uma leve sonolncia descesse sobre ela. Aps um perodo 
indeterminado de completa obscuridade, Scarlett abriu os olhos e descobriu a criadita preta ao seu 
#
lado, tagarelando despreocupadamente: 
- A gente fez bom trabalho, minina Scarlett. Minha me no podia faz mi, -com certeza, 
Imersa na escurido que reinava sob o alpendre, Scarlett limitou-se a encar-la com um olhar 
sombrio, demasiadamente fatigada para a repreender, demasiadamente exausta para enumerar os 
erros cometidos por Prissy-a sua gabarolice ao afirmar que possua uma experincia que no tinha, 
o seu terror, a sua estupidez, a sua falta de jeito nos momentos de maior emergncia, extraviando a 
tesoura justamente quando ela se tornava mais necessria, entornando a bacia da gua quente sobre 
a cama, deixando cair o nen que acabava de nascer. E agora vinha gabar-se das suas habilidades! 
E os yankees ainda queriam libertar os escravos! Depois que no se queixassem. 
Recostou-se contra a coluna do alpendre, em silncio, e Prissy vendo que a ama estava mal 
disposta, afastou-se ra@idamnte, nos bicos dos ps desaparecendo na escurido. Aps longo 
intervalo, duran'te o qual a sua respirao conseguiu finalmente normalizar-se e o seu esprito 
logrou readquirir o equilbrio perdido, Scarlett ouviu o, som de vozes distantes que se aproximavam 
ao longo da estrada bem como o tropel de centenas de ps marchando em direco ao Sul. 
Soldados! Desencostou-se lentamente do, pilar e puxou as saias para baixo, embora soubesse que 
ningum a poderia ver ali, cercada de trevas. 0 grupo continuou a aproximar-se at que surgiu em 
frente do jardim. Scarlett. acercou-se do porto e chamou: 
- Faa favor! 
486 
Destacou-se um vulto da massa annima, acercando-se da berma da estrada. 
Vo-se embora? Vo deixar-nos? -perguntou ela. sombra fez um gesto como que a tirar o chapu, e. 
uma voz calma elevou-se @nto no negrume da noite. 
- Sim, minha senhora. ]@ isso, precisamente o que estamos fazendo. Fomos os ltimos a abandonar 
as trincheiras. 
- E vocs esto... 0 general Hood deu ordem de re~ tirar? 
-Deu, sim, minha senhora. Os yankees esto a'chegar de um momento para outro,... 
Os,yankees estavam a chegar! Scarlett tinha-os esquecido por completo. De repente sentiu a 
garganta contrair-se-lhe num espasmo que a impossibilitou de pronunciar uma nica palavra. A 
sombra afastou-se, misturou-se s ltimas que passavam e de novo o tropel dos soldados se fez 
ouvir na estrada. "Os yankees esto a chegar. Os yankees esto a chegar". Era o que dizia o ritmo 
das passadas que se perdiam na distncia, era o que lhe repetia o bater apressado do corao, que 
parecia querer saltar-lhe do peito: "Os yankees esto a chegar". 
-Os yankee vai cheg! -berrou Prissy, agarrando-se a Scarlett. - Oli minina Searlett, eles vai enfl as 
espada dele na barriga @a gente! Eles vai... 
- Cala-te! -bradou Scarlett. Bem bastavam os pensamentos tenebrosos que lhe povoavam o 
crebro, No, prec@sava de os ouvir expostos naquelas palavras trmulas. Nova onda de terror a 
assaltou. Que havia ela de fazer? Como poderia escapar ao perigo que a espreitava? A. quem 
devia dirigir-se, implorando auxlio? Todos os amigos a tinham abandonado! 
De repente, lembrou-se de Rhett Butler e o medo que dela se apossara momentos antes desapareceu 
por completo. Por que no teria pensado nele, nessa manh em vez de andar de um lado para outro, 
como doida, sem'saber o que fazer? Odia-va-o, como no podia deixar de ser mas Rhett Butler era 
forte e esperto no, temia os -yan@ees e ainda devia encontrar-se em Atlanta. Scarlett, claro, estava 
muito zangada com ele, pois ainda no esquecera a proposta ultrajant@ que Rhett lhe fizera da 
ltima vez que se tinham visto. Mas, numa aflio daquela natureza, no havia lugar para 
ressentimentos, Butler possua uma carruagem e um cavalo. Oli, por que no teria pensado nele 
desde o prin- 
487 
cpio?! Rhett podia lev-la para fora daquela maldita cidade, para longe dos yankees, para onde 
quissese, contanto que as tirasse dali, 
Voltou-se para Prissy e disse-lhe, febrilmente: 
- Sabes onde vive o capito Bufler... n<> Hotel Atlanta? 
#
- Sim, minina Scarlett, mas... 
- Ento vai l, a correr e dize-lhe que preciso de falar com ele. Pede-lhe que ven@a c e que traga o 
cavalo e carruagem, ou uma ambulncia, se lhe for possvel arranjar alguma, mas que no se 
demore, pelo amor de Deus. Conta-lhe que menina Melanie j teve o filho. Podes inform-lo de que 
precisamos que ele nos leve para longe de Atlanta. Anda depressa, ouviste? Vai. 
Scarlett endireitou-se e deu um empurro  criada, para a espertar. 
- Sinh dos Cu,. minina Scarlett! Tou com medo de and szinha de noite. E se os yankee me 
agarra? 
- Se correres, ainda podes apanhar os soldados que passaram aqui h bocado, e. eles no deixaro 
que os yankees te faam mal. No percas tempo, ests a ouvir? 
- Mas tenho medo, minina Searlett. E se o capito Butler no t em hot? 
-Pergunta por ele a algum de l. No tens miolos? Se o no encontrares no hotel, v se o descobres 
nos botequins de Decatur Street. Vai a casa de'13elle Watling. Procura-o. Grande parva, ainda no 
percebeste que, se no conseguires falar-lhe quanto antes, os yankees apanhar-nos-o a todas, com 
certeza? 
- Ih, minina Scarlett! Minha me me sova com chicote se sabe que eu entrei nos botequins ou nas 
casas daquelas mui. 
Scarlett levantou~se. 
- Eu  que te dou uma sova e j, se no fores imediatamente. Podes ficar  porta e 'gritar de maneira 
que te ouam l de dentro 'no podes? Ou ento pede a qualquer pessoa que o v chamar. 
Desaparece, depressa! 
Prissy comeou a mover-se lentamente, arrastando os ps e fazendo trejeitos com os lbios grossos. 
Impaciente, Scarlett deu-lhe um safano que por um triz a no fez rolar pela escada abaixo. 
-Faze o que te digo, se no queres que te venda aos plantadores de Louisiana. Nunca mais poders 
ver tua me 
488 
nem nenhuma pessoa tua conhecida e, alm disso, ters de trabalhar no campo. Vais ou no vais? 
-Sinh dos Cus, minina Scarlett... Sentindo a presso frrea dos dedos de Scarlett no brao, Prissy 
comeou a descer os degraus. 0 porto do jardim rangeu nos gonzos e Scarlett gritou: 
- Corre, idiota! Prissy desatou num galope desenfreado. Scarlett, ouviu o som dos passos morrer na 
distncia, abafado pela terra vermelha e fofa. 
23 
DEpois de Prissy ter partido, Searlett desceu at ao vestbulo do rs-do-cho e acendeu o candeeiro. 
Apesar de j ter anoitecido o ar continuava quente, como se a casa houvesse concentrado nas suas 
paredes todo o calor da tarde. 
0 pior j tinha passado e agora o estmago comeava a exigir-lhe a satisfao dos seus direitos. 
Lembrou-se de que, alm duma colherada de papas de milho, no comia nada desde a noite anterior. 
Pegou no candeeiro e dirigiu-se  cozinha. Na fornalha o fogo j se apagara, mas o compartimento 
parecia uma estufa. Encontrou numa caarola um bocado de broa de milho, que devorou 
rpidamente, enquanto procurava outra coisa que comer. Ainda havia papas num tacho, as quais 
atacou vorazmente, servindo-se de urna concha, sem mesmo se dar ao trabalho de as entornar no 
prato. As papas eEftavam insossas mas a fome era tanta que Scarlett nem sequer lhes deitou'mais 
sal. Tragou quatro colheradas e, como o calor na cozinha fosse insuportvel, pegou no candeeiro e 
num bocado de broa e encaminhou-se para o vestbulo. 
A c(>nscineia dizia-lhe que tinha o dever de ir fazer companhia  cunhada, pois se de sbito 
surgisse qualquer Complicao, Melanie no teria foras para a chamar. Contudo, repugnava-lhe 
deveras a ideia de voltar quele quarto, onde passara tantas horas de verdadeiro pesadelo. Nem que 
Melanie estivesse a morrer ela transporia novamente o limiar do aposento. No queria tornar a pr 
os ps no quarto da cunhada. Colocou o candeeiro num suporte junto da janela e saiu para o 
alpendre. Apesar de o calor da tarde ainda se no ter dissipado por completo, estava muito mais 
fresco ali. Sentou-se nos degraus, envolta nos tnues raios 
#
489 
luminosos prajectados pelo candeeiro e continuou a mastigar o po de milho. 
Acabou de comer e, gradualmente, sentiu renascer-lhe as foras e, com estas, os receios acerca da 
situao criada pela derrota dos sulistas em Jonesboro. Chegava-lhe aos ouvidos um rumor 
contnuo, distante, que no lograva interpretar, por mais tratos que desse  imaginao. Era um 
rudo esquisito que to depressa aumentava como diminua de intensidade. Apurou o ouvido e no 
tardou ,que os msculos do pescoo lhe doessem com o esforo dispendido. Naquele momento, 
nada lhe daria.maior satisfao do que ouvir o rodar de uma carruagem e ver surgir  sua frente a 
figura tranquilizadora de Rhett Butler, com um sorriso nos olhos negros e descuidados, zombando 
dos seus temores. Rhett lev-las-ia para qualquer lado. Para onde, no sabia, nem to pouco lhe 
importava saber. 
Continuava escutando todos os rudos quando lobrigou um fraco claro que se elevava acima das 
rvores e a deixou intrigada. Observou-o atentamente e verificou que se tornava cada vez mais 
brilhante. No cu azul distinguia-se certa mancha alaranjada que se foi avermelhando at que uma. 
labareda enorme riscou a escurido da noite. Dum salto, Scarlett ps-se de p' com o corao 
pulsando violentamente, como se quisesse saltar-lhe para fora do peito. 
Os yankees! Os yankees tinham entrado em Atlanta e j haviam principiado a incendiar o casario. 0 
fogo. devia ter comeado a Leste da cidade. As labaredas, dum vermelho intenso, alastravam 
rpidamente perante os olhos aterrorizados de Scarlett. J todo um quarteiro devia estar ardendo. 
Comeou a soprar uma brisa fraca que trazia at ela baforadas quentes de fumo. 
Subiu a correr as escadas e foi a uma das janelas do seu quarto para ver melhor. 0 firinamento 
adquirira uma cor sinistra e lgubre. Elevavam-se no ar grandes rolos de fumo negro formando 
nuvens que ficavam pairando acima das labared@s. Ocheiro acre da madeira queimada era mais 
pronunciado agora. Os pensamentos tumultuavam-lhe no crebro, de forma incoerente. Quando 
atingiriam as chamas Peachtree Street, incendiando-lhe a casa? Quando seria ela atacada pelos 
yankees? Para onde havia de fugir? Que fazer? Todos os demnios do Inferno pareciam gritar-lhe 
aos ouvidos, estabelecendo--lhe na mente uma confuso e 
490 
um pnico tais que teve de se agarrar ao peitoril da janela para no cair. 
"Preciso, de pensar", repetia incessantemente para si prpria, "preciso, de pensar". 
Mas as ideias como que se lhe escapavam, entrando e saindo do crebro quais aves assustadas. 
Estava ainda apoiada  janela quando atroou os ares uma exploso, ensurdecedora, mais forte do 
que a de qualquer pea de artilharia. Uma i@hama gigantesca iluminou a abbada celeste. 
Seguiram-se-lhe outras detonaes igualmente violentas. A terra estremeceu e os vidros voaram em 
estilhaos por cima da cabea dela, caindo  sua volta. 
A cidade transformara-se num braseiro imenso em que as exploses se sucediam numa cadncia 
alucinant@. Milhares de fascas sulcavam o cu, para depois descerem preguiosamente sobre a 
terra entre nuvens de fumo cor de sangue. Pareceu-lhe ouvir um apelo fraco, vindo do quarto 
contguo, mas no fez caso. No se sentia com disposio para se ocupar de Melanie, nem de coisa 
nenhuma. S o receio dum incndio em casa a apoquentava agora. 
Quisera poder voltar aos tempos da sua meninice para esconder de novo a cabea no regao 
materno, a fim de no assistir quele espectculo horrvel que a apavorava. Se ao menos estivesse 
na quinta, ao lado da me!... 
No meio de todo aquele barulho enervante distinguiu outro som: um rumor de passos apressados 
galgando a escada precipitadamente e uma voz que gemia como um co perdido. Prissy irrompeu 
pelo quarto dentro e precipitando-se na direco de Scarlett, agarrou-se-lhe a6 brao com quanta 
fora tinha. 
-Os yonkees exclamou Scarlett. 
No... so os nossos soldados! - gritou Prissy, com voz sacudida, cravando as unhas no brao de 
Scarlett. - 
Pegaram fogo  fundio e aos armazns e depsito do Exrcito! E chegaram lume aos setenta 
#
carros com granada e plvora! Sinh dos Cu, minina Scarlett, e se eles que!rnam a gente tambm? 
Desatou aos berros e ape-rtou com tanta fora o brao de. Scarlett que esta soltou um grito, de dor, 
sacudindo-lhe a mo, furiosa. 
Visto isso, os y-ankees ainda no tinham entrado em Atlanta! Por consequncia, elas ainda estavam 
a tempo de fugir! A ideia como que lhe emprestou alma nova. 
491 
Lkt. 
"Se no trato de me dominar", pensou Scarlett, "acabarei aos guinchos como um gato escaldado!" 
A viso do terror abjecto patente no rosto de Prissy ajudou-a a dominar-se. Segurou a criadita pelos 
ombros e sacudiu-a. 
-Acaba com essa berraria e fala como deve ser. Os yankees ainda no chegaram, palerma! Falaste 
com o capito Butler? Que disse ele? Sempre vem? 
Prissy calou~se 'mas os dentes batiam~lhe com medo. -Sim, sinhora. Encontrei-o num botequim. - 
No me interessa saber onde o encontraste. Ele disse-te que vem? Pediste-lhe que trouxesse o 
cavalo? 
- Minina Scarlett, ele disse a mim que os nosso soldado levaram o cavalo e a carruage pra servirem 
de ambulana. 
-Deus do Cu! -Mas o sinh vem... 
- Ali, sim?! Que foi que ele respondeu? Prissy recobrara o flego e parecia menos assustada. 
- A sinhora mandou procur a ele no botequim e eu fui. Chamei ele do lado de fora da porta e ele 
veio  rua. E eu c ,t 
on ei tudo pra ele. Depois saram uns soldado dos armazm de Decatur Street e o fogo comeou. Ele 
disse a mim: "Vamos fugi" e agarrou no meu brao e a gente corremos at Entroncamento e ele 
disse a mim: "Qu que h? Fala depressa". E eu disse que precisava traz c a casa o cavalo dele e a 
carruage tambm prs sinhora fugi. Eu disse que sinhora Melly j tem o filho dela e que minina 
Scarlett queria lev a ela pra fora de cidade. E ele preguntou: "E aonde  que ela quer i?" E eu disse: 
"Eu no sab no, sinh. Minina Scarlett precisa que o sinh v l ante; dos yankee cheg. E ela 
disse pr sinh lev o cavalo qu seu". E ele riu e disse pra mim que eles levaram o cavalo dele. 
Scarlett quedou-se como que fulminada, vendo desvanecer-se a sua ltima esperana de salvao. 
Que patetice a sua, supor que um exrcito em retirada deixaria qualquer animal ou veculo atrs de 
si! Ficou to aturdida que no prestou ateno ao que Prissy lhe estava a contar e foi com visvel 
esforo que conseguiu ouvir o resto da histria. 
- Depois ele disse: "V diz a minina Scarlett pra fic descansada. Eu c vou roub um cavalo do 
Exrcito, se eles tiverem algum". E depois disse: "J roubei munto cavalo. Diz a ela que eu roubo 
um cavalo pra ela, mesmo que eles do tiro em mim". E ele riu e disse: "Fecha a boca e corre 
492 
pra casa". E quando comecei a volt pra corr bum... Foi um baruio to grande que eu quase caiu de 
@osta. E ele disse que no era nada, no, sinh, que eram as arma que os nosso soldado pegaram 
fogo prs yankee no fic com elas. 
-Ele vem? E traz um cavalo? 
- Traz, sim, sinhora. Scarlett soltou um suspiro de alvio, Se houvesse forma de obter um cavalo, 
Rhett Butler arranj-lo-la, com certeza, Rhett era homem esperto e desembaraado! Estava disposta 
a perdoar-lhe tudo se ele a livrasse daquela situao horrvel. No teria meo de fugir na sua 
companhia. Ele proteg-las-ia. Ainda bem que Rhett tinha ficado em Atlanta! A perspectiva de 
abandonar a cidade f-la readquirir o senso prtico que a caracterizava. 
- Vai acordar o menino, veste-o e enche uma das malas pequenas com roupa para todos ns. Por 
ora, no digas nada  senhora Melanie acerca da nossa partida. Mas embrulha o nen em duas 
toalhas grossas e no te esqueas da roupita dele, 
Prissy continuava agarrada s salas da ama, rolando os olhos nas rbitas. Searlett abanou-a, para se 
desembaraar dela, 
- Vamos, despacha-te! - gritou-lhe. Prissy afastou-se rapidamente, correndo como um coelho. 
#
Searlett sabia que precisava de ir tranquilizar Melanie. Esta devia estar amedrontada, 
completamente fora de si, pois que as exploses no cessavam e o claro das chamas continuava a 
iluminar o cu. Parecia o fim do mundo. 
Contudo, Searlett ainda no se sentia com coragem de entrar no quarto da cunhada, Desceu as 
escadas a correr, com o intuito de arrumar a loia de porcelana e as pratas que a tia Pitty no pudera 
levar para Macon. Ao chegar, porm,  sala de jantar, as mos tremam-lhe de tal modo que deixou 
cair trs pratos, os quais se fizeram em cacos. Chegou  porta da rua para escutar e voltou de novo  
sala, pegando desajeitadamente numa salva de prata que lhe escorregou das mos. Deixava cair tudo 
aquilo@ em que pegava. Com a pressa, tropeou no tapete e estendeu-se ao comprido no cho, mas 
levantou-se to rpida que no teve tempo para ver se se magoara. Ouviu as correrias de Prissy no 
andar de cima a galopar como um animal selvagem, e aquele barulho e@fureca-a, pois tinha a 
certeza de 
493@ 
que ela no estava a fazer nada com jeito. Foi at  porta pela duodcima vez e voltou para dentro. 
Mas desistiu de empacotar as louas e as pratas. Atirou-se para cima duma ,cadeira. Era-lhe 
completamente impossvel embrulhar fosse o que fosse. S lhe restava ficar ali  espera, com o 
corao aos pulos dentro do peito, aguardando a chegada de Rhett, cuja demora lhe parecia 
interminvel. Finalmente, ouviu um chIar de rodas mal lubrificadas e o trote incerto e lento dum 
animal. Por que viria ele to devagar? Por que no obrigava o cavalo a apressar o andamento? 
0 rudo soava cada vez mais prximo. Levantou-se e saiu ao alpendre. Lobrigou a silhueta de Rhett 
a saltar da boleia de uma carroa pequena e chamou-o. Ouviu abrir o porto e avanar ao longo da 
lea do jardim. A claridade do candeeiro luminou-o em cheio, ao chegar junto dela. Vinha vestido 
como se fosse para um baile: envergava fato de linho branco, de bom corte, colete de seda cinzenta 
e camisa de peitilho pregueado. Trazia o panam de abas largas um pouco  banda, e do cinto das 
calas pendiam-lhe duas pistolas de cano comprido e coronhas de marfim. Os bolsos abarrotavamlhe 
de cartuchos. 
Galgou o passeio em passo elstico, aproximando-se de cabea erguida, com o ar dum prncipe 
pago. A ameaa que pesava sobre a cidade e que tanto apoquentava Scarlett havia actuado sobre 
ele como um poderoso estimulante. 
0 seu rosto deixava transparecer uma ferocidade cuidadosamente refreada, uma expresso que a 
teria assustado se dela se houvesse apercebido. 
Os seus olhos negros brilhavam conio se tudo aquilo constitusse para ele um motivo de distraco, 
como se as exploses que atroavam os ares e as labaredas que se ele- ,vavarn no cu no passassem 
de simples brincadeiras para assustar crianas. Subiu os degraus do alpendre e Scarlett avanou um 
passo ao encontro dele com o rosto lvido e um claro de pavor a iluminar-lhe @s olhos verdes. 
- Viva! - disse Rhett, com a sua voz arrastada ' tirando o chapu num gesto largo. - Est uma noite 
linda! Constou-me que ia fazer uma viagem. 
- Se comea com as suas brincadeiras, nunca mais lhe falo -preveniu a rapariga, com voz trmula. 
- No me diga que est com medo - redarguiu ele, ,;imulando surpresa e esboando um sorriso que 
despertou em Scarlett o desejo de o empurrar pela escada abaixo. 
1 -Por que no? Estou aterrorizada. E se voc tivesse um pouco de senso estaria como eu. Mas no 
h tempo a perder. Precisamos de sair daqui quanto antes. 
-s suas ordens, minha senhora. Para onde deseja ir? Vim at c por mera curiosidade, a fim de 
averiguar das suas intenes. No pode ir para o Norte nem para o Sul, nem para Leste, nem para 
Oeste, Estam@s completamente cercados pelos yankees. H apenas uma estrada que eles, ainda no 
tomaram e pela qual o Exrcito est retirando, estrada essa que no ficar em nosso poder por muito 
tempo. A cavalaria do general Steve Lee retarda a marcha do inimigo em Rough e Ready para dar 
ensejo a que as nossas tropas evacuem a cidade, Se voc seguir pela estrada de McDonough, o mais 
certo  ficar sem o cavalo e, embora ele no seja grande coisa, a verdade  que tive bastante 
dificuldade em o furtar. Para onde quer ir afinal? 
Scarlett quedara-se, trmula, escutando @s palavras de Rhett, sem quase as compreender. Mas, ao 
#
ouvir a pergunta que este lhe fez, tomou logo uma resoluo, uma resoluo que inconscientemente 
j havia tomado muito antes, quando Melane dera  luz o filho. 
- Para casa. 
- Para casa? Para Tara? 
- Sim, para Tara, Por amor de Deus, no percamos t e rw 0! 
Khett encarou-a, atnito, como se ela tivesse perdido o juizo, 
- Para Tara? Valha-me Nosso Senhor Jesus Cristo! Ento no sabe que se lutou na regio de 
Jonesboro todo o santo dia? Ignorava, porventura, que a batalha se desenrolou numa frente de dez 
milhas dum lado e doutro de ROugh e Ready e at nas ruas de Jonesboro? Os yankees j devem ter 
chegac3o aTara e a todos os pontos da comarca. Ningum sabe ao certo onde eles se encontram 
agora, mas calculo que no andem longe. Voc no pode ir para casa! Decerto no pretende 
atravessar as linhas -yankees! 
- J lhe disse que quero ir para casa! - gritou ela. - 
Quero e hei-de ir! 
-No seja tola! -disse Rhett, com voz simultneamente imperiosa e dura.-Ainda no percebeu que 
no Pode ir para esses lados? Mesmo que consiga escapar das unhas dos soldados lembre-se de que 
nos bosques formigam os bandidos e <Iesertores de ambos os Exrcitos. Alm 
495 
disso, uma grande parte das nossas tropas est ainda a retirar de Jonesboro, e a primeira coisa que 
elas faro ser roubarem-lhe o cavalo. A nica possibilidade que lhe resta  a de seguir as tropas 
pela estrada de McDonough e pedir a Deus que ningum a veja na escurido. Desista dessa ideia de 
ir para Tara. Ainda que conseguisse l chegar, o mais provvel seria encontrar tudo incendiado. No 
consinto que se meta numa aventura dessas. Seria uma loucura. 
-Mas eu quero ir para minha casa! Voc no pode impedir-me de ir para onde me apetece. Quero 
estar junto de minha me! Mat-lo-ei a tiro, se me no deixar ir! Quero voltar.para Tara! 
Rolaram-lhe pelas faces lgrimas de terror e de histerismo, lgrimas h muito retidas e que 
finalmente brotavam em torrentes caudalosas. Com os punhos cerrados, desatou a martelar-lhe o 
peito, gritando sempre: 
- Quero ir! Quero ir! Nem que seja a p! De sbito, Scarlett encontrou-se nos braos de Rhett. 
Quedou-se imvel, com as mos a agarrarem-lhe desespera- damente as bandas do casaco e o rosto, 
molhado pelas lgrimas, comprimido contra o peitilho engomado da camisa. Rhett acariciou-lhe o 
cabelo num gesto meigo e tranquilizador, falando-lhe com voz terna, uma voz to terna to calma e 
isenta de troa que se diria no ser a de hett Bufler, mas sim a de qualquer desconhecido, caridoso 
e forte, que rescendia a conhaque, a tabaco e a cavalos, odores reconfortantes que traziam  mente 
dela recordaes de Gerald. 
- Calma calma, querida Scarlett - murmurou ele. - 
No chore. Parei o possvel por a ajudar a cumprir o seu desejo! Ir para Tara. Pronto, no chore. 
Scarlett sentiu qualquer coisa roar-lhe nos cabelos e perguntou a si prpria se seriam os lbios 
dele. Naquele momento, Rhett mostrava-se to meigo e carinhoso que Scarlett se no importaria 
de lhe ficar assim nos braos para sempre. Sob a proteco dum homem to forte nunca poderia 
suceder-lhe mal nenhum. 
Rhett levou as mos aos bolsos e tirou um leno com que lhe enxugou os olhos, 
-Agora, assoe esse nariz como uma boa meninaaconselhou ele, com um leve sorriso no olhar -e 
diga-me o que pretende de mim. Temos de nos desembaraar. 
Searlett obedeceu e assoou o nariz dernoradamente, mas 
496 
foi incapaz de apresentar qualquer sugesto. Ao v-Ia erguer para ele um olhar suplicante, com (>s 
lbios a trernelicarem-lhe novamente, Rhett resolveu assumir o comando das ol-eraes. 
-A senhora Wilkes j teve o menino? Vai ser peri"oso remov-la... ]@ arriscado transport-la numa 
carroa Z"1 como esta durante uma viagem de vinte e cinco milhas. Seria melhor deix-la ao 
cuidado da senhora Meade. 
#
-Os Mt@ades no esto em casa e eu no a posso abandonar. 
-Muito bem. Ir na carroa connosco. Onde est a pateta da sua criada? 
-Est l em cima, a fazer a mala. 
- A fazer a mala? No pode levar mala nenhuma. A carroa  to pequena que mal deve chegar para 
nos acomodar a todos e ainda por cima tem as rodas quase a cair. Chame-a e diga-lhe que traga o 
colcho de penas mais leve que encontrar e o ponha na carroa, 
Searlett nem sequer tinha foras para se mexer. Rhett apertou-lhe o brao e ela teve a sensao de 
que aquele breve contacto lhe havia comunicado a energia de que ela tanto precisava. Se, ao menos, 
pudesse mostrar-se senhana de si, dotada de to notvel sangue-frio como o que o seu companheiro 
estava manifestando naquele instante! Rhett empurrou-a suavemente para o vestbulo; Scarlett, 
porm, continuou a fit-lo, desalentada, e ele estendeu-lhe o lbio inferior em ar de mofa. 
- Custa-me a crer que voc seja aquela rapariga corajosa que me garantiu no temer a Deus nem aos 
homens. 
Desatou a rir e largou-lhe o brao. Magoada, Scarlett olhou para ele com dio, 
-Eu no tenho medo nenhum. 
Tem, sim, e no  pouco! No tarda muito que desmae e o pior  que eu nunca trago comigo 
nenhum frasco 
ZD de sa-s. 
ScrIett bateu o p, furiosa, e, sem dizer palavra, pegou no candeeiro e subiu as escadas. Rhett 
seguiu-a de perto e ela ouviu-o rir baixinho, o que a enfureceu ainda mais. Ao entrar no quarto de 
Wade, viu o filho sentado ao colo de Prissy, ainda quase por vestir e soluando convulsivamente, 
enquanto a pretinha choramingava. 0 colcho de Wade era pequeno e Scarlett ordenou  criada que 
o levasse para a carroa, Prissy ps a criana no cho e 
32 - Vento Levou - 1 497 
obedeceu. Wade foi-lhe no encalo e, interessado nos movimentos da pretinha, cessou de chorar. 
- Venha - disse Searlett a Rhett, encaminhando-se para o quarto da cunhada e abrindo a porta. 
Rhett penetrou no aposento, de chapu na mo. Melanie estava deitada, com o lenol puxado para 
o queixo, e conservava perfeita serenidade, no obstante a sua palidez e as olheiras que lhe 
circundavam as rbitas. No manifestou a menor surpresa ao ver R-hett entrar no quarto; antes o 
facto se lhe afigurou natural. Tentou sorrir, mas no teve Ioras para tanto. 
- Vamos partir para casa para Tara - anunciou Searlett, 'secamente. -Os yankee@ no tardam a. 
Rhett ofereceu-se para nos acompanhar.  a nica soluo, MeIly. 
A cunhada inclinou a cabea num gesto de aquiescncia e olhou significativamente para a criana 
que dormia a seu lado. Searlett pegou no recm-nascido e envolveu-o numa toalha grossa, Rhett 
encaminhou-se para o leito. 
- Vou fazer o possvel por no a magoar - disse ele suavemente, ajeitando-lhe o lenol em torno do 
corpo. - 
Tente passar os braos em torno do meu pescoo. 
Melanie esforou-se por lhe obedecer, mas no conseguiu. Rhett curvou-se sobre ela e, passandolhe 
um brao nas costas e outro sobre os joelhos ergueu-a com delicadeza. Melanie no gritou mas a 
cuAhada viu-a morder os lbios e empalidecer aina mais. Scarlett levantou o candeeiro acima da 
cabea a fim de alumiar o caminho e, quando iam a sair a porta, Melanie apontou quase 
imperceptivelmente para a parede. 
-Que ?-perguntou Rhett. -Por favor-murmurou Melanie, tentando apontar: 
- Charles... 
Rhett encarou-a, receando que ela estivesse a,delirar, mas Scarlett compreendeu o que a cunhada 
queria e irritou-se, Melanie desejava levar consigo a fotografia do irmo que estava dependurada na 
parede por baixo da espad@ e da pistola. 
- Por favor-torium Melanie.-Tragam a espada... -Est bem-disse Scarlett. @carlett acompanhou 
Rhett at  porta da rua, iluminando cuidadosamente os degraus e voltou atrs. Subiu a escada 
novamente e, encaminhan6-se para a panplia que Melanie arranjara a um canto do aposento, pegou 
#
na espada 
498 
e no cinturo. No era empresa fcil carregar a criana, o candeeiro e as armas. Coisas de Melanie! 
Nem o estado em que se encontrava, nem a proximidade do inimigo pareciam impression~la 
grandemente. 
Ao retirar a moldura da parede, Scarlett relanceou o olhar pelo daguerretipo. Os olhos castanhos 
de Charles pareciam fit-la atravs do vidro. Deteve-se por instantes a examinar o retrato, com 
curiosidade. Aquele homem fora seu marido, dormira consigo algumas noites e deixara-lhe um filho 
com os mesmos olhos meigos e castanhos. E, no entanto, mal se recordava dele. 
A criana que tinha nos braos agitou os punhos pequeninos e soltou um vagido. Scarlett mirou-a 
atentamente. S ento teve conscincia de que aquele nen era filho de AshIey e desejou 
ardentemente que a criana fosse sua, sua e de AshIey. 
Prissy galgou de novo a escada e Scarlett entregou-lhe o petiz. Desceram precipitadamente. A luz 
do candeeiro recortava sombras irregulares nas paredes. Ao chegar ao vestbulo, Scarlett avistou o 
chapu sobre a mesa e p-lo na cabea, atando as fitas sob o queixo. Era o chapu de luto de 
Melanie, que no lhe ficava nada bem, mas ela no tinha a menor ideia do lugar em que deixara o 
seu. 
Saiu de casa e desceu os degraus do alpendre, com o candeeiro na mo, procurando evitar que o 
sabre lhe batesse nas pernas. Melanie, deitada no fundo da carroa, tinha a seu lado Wade e o nen 
embrulhado na toalha. Scarlett saltou para dentro do veiculo e tomou o pequenito nos braos. 
A carripana era com efeito muito apertada e bastante baixa. As rodas, inclinadas para dentro, davam 
a impresso de se soltarem a cada momento. Quando, olhou para o cavalo, caiu-lhe a alma aos ps, 
Era um animal lazeirento, que mantinha a cabea curvada para o solo, metida entre as pernas. Tinha 
o dorso coberto de chagas e de bubes produzidos pelos arreios, e uma Pulmoeira acentuada. 
- No  precisamente um animal de raa, pois no? - 
comentou Rhett, a rir. -D a impresso de que j no se aguenta nas canetas. Mas foi o melhor que 
consegui arranjar. Um dia hei-de contar-lhe, com floreados, em que circunstnc4as o roubei e como, 
por um triz, no fiquei estendido com um tiro. S a afeio que tenho por si me levaria, nesta altura 
da. minha carreira, a fazer-me ladro de cavalos, e de um cavalo, destes. Deixe-me ajud-la a subir. 
499 
Tirou-lhe o candeeiro das mos e pousou-o no cho. 
0 assento do cocheiro no passava duma tbua estreita. Rhett pegou em Scarlett e sentou-a na 
boleia. "Como seria bom ser-se homem e forte como Rhett", pensou ela, enquanto ajeitava  sua 
volta as salas rodadas. Com Rhett a seu lado, nada receava; nem os incndios, nem as exploses 
nem os yankees. 
l@hett saltou para o lado dela e pegou nas rdeas. 
- Ah, espere! - exclamou Scarlett. - Esqueci-me de fechar a porta da rua. 
11hett soltou uma gargalhada e fustigou o animal. -Por que se ri? -Porque acho graa. Voc a querer 
impedir que os yankees lhe entrem em casa! 
0 cavalo iniciou a marcha, lenta e penosamente. 0 candeeiro ficou aceso sobre o passeio projectando 
em torno de si um.crculo de luz amarelada,' que diminua gradualmente  medida que se iam 
afastando. 
Rhett dirigiu os passos lentos do cavalo para ocidente de Peachtree Street. A carroa deu um 
solavanco to violento ao entrar na estrada esburacada que Melanie no pde conter um gemido. As 
ramadas compactas das rvores entrelaavam-se sobre as suas cabeas. Casas escuras e silenciosas 
ladeavam a estrada e as estacadas biancas dos gradis lembravam pedras tumulares. A rua estreita 
formava um tnel sombrio onde, atravs da espessura da folhagem, apenas a vermelhido sinistra 
que cobria o cu por vezes penetrava. As sombras vacilantes projectadas pelos edifcios sucediamse 
como fantasmas alucinados. 0 cheiro a fumo era cada vez mais intenso. A brisa quente trazia do 
centro da cidade um pandemnio de sons: berros o barulho tremendo das pesadas viaturas do 
Exrcito e os passos cadenciados dos soldados em marcha. Rhett acabava de obrigar o animal a 
#
descrever uma curva para entrar noutra rua, quando uma exploso ensurdecedora atroou os ares e 
um monstruoso fogo de artifcio se elevou a oeste da cidade. 
-Deve ter sido o ltimo comboio de munies -disse Rhett calmamente. - Por que no o evacuaram 
aqueles parvos durante a manh? Tiveram bastante tempo para isso. Tanto pior para ns! Pensei que 
dando volta  cidade, ainda pudssemos evitar os incndi6s e aquele bando de bbados de Decatur 
Street, e ultrapassar sem perigo a parte 
SOO 
sudoeste. Assim, seremos forados a cortar Marietta Street em qualquer ponto e, se no me engano 
muito, a exploso foi para esses lados. 
-Quer dizer que... que teremos de passar atravs das labaredas? - balbuciou Scarlett. 
- No 'se andarmos depressa -disse Rhett. E, saltando da carroa, desapareceu na escurido de um 
quintal, para voltar pouco depois com um raminho de rvore, o qual utilizou para fustigar 
cruelmente o dorso do cavalo. 0 pobre animal rompeu num trote ofegante e a carroa deu um salto 
que os lanou uns de encontro aos outros, como milho em peneira. 0 nen choramingou. Prissy e 
Wade soltavam gritos de dor sempre que um solavanco os projectava contra os taipais do veculo. 
Melanie, porm, no soltava o menor queixume. 
Ao aproximarem-se de Marietta Street, as rvores comearam a rarear. As labaredas, alterosas 
'rugiam com estrpito, erguendo-se acima dos edifcios, iluminando com um claro mais intenso do 
que o sol as ruas e as casas e desenhando no solo silhuetas monstruosas que se contorciam 
fantasmagricamente como velas dum navio aoutadas pelo vento, 
Scarlett batia os dentes, sem todavia dar por isso, to grande era o seu terror. Tinha frio e toda ela 
tremia, no obstante o calor das labaredas, cujas baforadas lhe afogueavam as faces. Julgou-se em 
pleno Inferno e se pudesse dominar o tremor dos joelhos ter-se-ia atird6 da carroa abaixo e 
corrido aos gritos, p@ra a rua sombria, em busca de refgio que lhe proporcionaria a casa de 
Pittypat. Encostou-se mais a Rhett, agarrou-lhe o brao com dedos trmulos e ergueu os olhos para 
ele, na esperana de ouvir algumas palavras que a tranquilizassem. No claro averrnelhado que o 
banhava, o perfil moreno de Rhett recortava-se to nitidamente como a efgie cruel duma bela 
moeda antiga. Ao sentir o contacto dos dedos de Scarlett, Rhett volveu para ela um olhar em que 
perpassou um brilho estranho que a assustou mais que o prprio claro das labaredas. earlett 
observou-o demoradamente e teve a impresso de que ele se divertia imenso com a situao e que o 
deleitava a perspectiva de enfrentar aquele inferno de que se aproximavam. 
-Oua -disse ele, levando a mo a uma das pistolas que guardava no cinturo: Se qualquer 
pessoa, branca 
501 
ou preta, se abeirar do carro e pretender deitar a mo ao cavalo, atire e no se preocupe com o que 
possa acontecer. Mas, pelo amor de Deus no v, com o seu nervosismo, atirar sobre o animal. ' 
-Eu... eu tenho aqui a pistola -murmurou ela, segurando a arma que levava no regao, com a certeza 
anteci~ pada de que, se encontrasse a morte na sua frente, no teria coragem para premir o gatilho. 
-Ah, tem?! Onde a arranjou? -Era de Charles. -De Charles? -Sim, de Charles... de meu marido. - 
Mas voc teve, de facto, um marido, minha querida` -Perguntou ele, soltando uma risada. 
Se Rhett ao menos se deixasse de graas! Se andasse um pouco mais depressa! , 
-Como julga que eu arranjei o meu filho>-,-ritou ela, furiosa. 
-Ora! Para isso, nem sempre  preciso um marido'... -Por que no se cala e no anda mais 
depressa? De sbito, quase ao, dobrar a esquina para Marietta Street, Rhett refreou o animal, 
fazendo estacar a carroa,  sombra dum armazm que o incndio no havia ainda alcanado. 
"Depressa!" no cessava ela de repetir mentalmente, "Depressa!" 
-Vm l soldados -murmurou ele. 
0 destacamento descia Marietta Street, avanando por entre os edifcios em chamas. Arrastavam-se, 
carregando as armas de qualquer maneira, cabisbaixos, exaustos, demasadamente fatigados para se 
importarem com as fagulhas que choviam sobre eles ou com o fumo que os envolvia Vinham todos 
andrajosos, a ponto de no se distinguirem os oficiais dos soldados, excepto por uma ou outra aba 
#
de chapu que conservava ainda as iniciais dos Estados da Confederao. A maioria caminhava 
descala e aqui e ali via-se uma ligadura imunda a enrolar uma cabea ou um brao, Desfilavam 
sem olhar para a direita nem para a esquerda, to silenciosos que, se no fosse o rumor cadenciado 
dos seus passos, poderiam ser tomados por fantasmas. 
- Olhe bem para eles - disse Rhett, num tom irnico - 
para que um dia possa descrever aos seus netos a retirada dos homens que lutavam pela "gloriosa 
Causa". 
502 
Scarlett sentiu invadi-Ia uma onda de clera contra aquele homem que em tudo parecia ver motivo 
para gracejo. Naquele momento, odiou-o com uma intensidade que superou o medo que a 
avassalava e o qual lhe parecia agora mesquinho e insignificante. Sabia que a sua salvaG e a dos 
seus companheiros de viagem dependia exclusivamente de Rhett, mas o facto de ele ter escarnecido 
dos soldados andrajosos despertou no seu ntimo uma intensa antipatia. Lembrou-se de Charles, que 
morrera, de Ashley, que podia estar morto, e de todos aqueles rapazes alegres e valentes que 
apodreciam em sepulturas rasas. Esquecera por completo que tambm ela uma vez os julgara 
loucos, Tinha na garganta um n que a impedia de falar, mas fitou o companheiro com olhar 
rancoroso, em que deixou transparecer todo o desprezo que por ele sentia. Assistiram em silncio  
passagem dos soldados. Um dos que marchavam na ltima fila, cambaleando e arrastando a coronha 
da arma pelo cho, estacou no meio da rua e ficou. embasbacado a ver os outros afastarem-se. Tinha 
estampada no rosto sujo uma expresso de fadiga que lhe dava o aspecto de sonmbulo. Era um 
moo ainda imberbe, sensivelmente da mesma estatura de Scarlett, e pouco mais alto do que a 
espingarda que levava. No devia ter mais de dezasseis anos, pensou Scarlett. Possivelmente 
pertencia  Guarda Civil, ou, ento, talvez houvesse fugido de alguma escola a fim de se alistar no 
Exrcito. 
Enquanto ela o observava, o rapaz dobrou os joelhos e caiu no cho. Sem dizerem palavra, 
destacaram-se dois homens da ltima fila e retrocederam at junto do infortunado moo. Um deles, 
indivduo alto  magro, de barba negra que lhe chegava quase ao cinto passou ao camarada a sua 
espingarda e a do rapaz. Em seguida, agarrou-o por baixo dos braos lanou-o para cima das costa$ 
com a destreza de um pre@tidigitador e retomou a marcha, seguindo no encalo da coluna em 
retirada, curvado -sob o peso do companheiro, enquanto este, fraco mas enfurecido como uma 
crianca arreliada pelos mais velhos gritava: 
PonI@a-me no cho, com mil demntios! Ponha-me no cho! Eu posso andar! 
0 homem barbudo no respondeu e continuou o seu caminho, at desaparecer na primeira curva da 
rua. 
Imvel, segurando na mo as rdeas bambas, RhIett s,eguiu-os com olhar estranho, at os perder de 
vista. De 
503 
sbito, caiu perto deles uma chuva de bocados de madeira incandescentes. 
Searlett viu uma labareda lamber o telhado do armazm un qua se in am aco  o. ao ar ou que o 
seu interior irrompessem chamas e lnguas de fogo que subiam, triunfantes, em direco ao cu. 0 
fumo quase que a sufocava j, e tanto Wade como Prissy comearam a tossir. 
0 nen chorava e espirrava cada vez com mais frequncia. 
- Pelo amor de Deus, Rhett! Voc est louco!, Leve-nos daqui para fora, o mais depressa possvel. 
Por nica resposta, Rhett brandiu acima da cabea o ramo de rvore e vergastou cruelmente o dorso 
do cavalo, que deu um salto para a frente. Com toda a velocidade de que o pobre animal foi capaz, 
atravessaram aos solavancos Marietta Street.  frente deles formara-se um tnel de fogo, com os 
prdios ardendo como archotes de ambos os lados da rua estreita que conduzia  linha do caminho 
de ferro. Enveredaram por ali. A claridade intensa ofuscava-lhes a vista e o calor queimava-lhes a 
pele. 0 crepitar das labaredas e as exploses chegavam-lhes aos ouvidos numa cadncia alucinante. 
Pareceu~lhes uma eternidade o tempo que levaram a atravessar aquela fornalha imensa, Depois, 
abruptamente, acharam~se de novo imersos no escuro. 
#
Desceram a rua e atravessaram a v@a frrea. Rliett chicoteava o animal automaticamente, 
conservando no rosto uma expresso aptica. Dir-se-ia que esquecera por completo o local onde se 
encontrava. Seguia com os ombros descados e o queixo projectado para a frente, numa atitude de 
quem est longe de ter pensamentos agradveis. Com o calor do incndio, a testa e as faces haviamse- 
lhes coberto de suor que ele nem sequer se dava ao trabalho de enxugar. 
Tomaram por uma rua lateral, depois por outra e em seguida, por uma terceira, at que Scarlett 
ficou 4co;@pletamente desorientada. 
0 fragor do incndio ia diminuindo de intensidade, perdendo-se na distncia. Rhett no dizia 
palavra, limitando-se, absorto, a vergastar o cavalo. Comeava a desvanecer-se a luminosidade 
rubra que ainda tingia o cu, A estrada que nesse instante percorriam encontrava-se imersa em 
trevas to densas e assustadoras que Scarlett ansiava que ele quebrasse o silncio com algumas 
palavras, as quais, embora pudessem ser injuriosas, no deixariam de lhe proporcionar 
504 
uma sensao reconfortante. Mas Rhett como que emudecera. No entanto, Scarlett agradecia a Deus 
a presena dele ali a seu lado. Era,to bom ter junto de si um homem forte, sentir o contacto do seu 
brao robusto e saber que ele se erguia como uma muralha intransponvel perante os perigos que a 
ameaavam, ainda que esse homem se conservasse mudo e aptico@ 
- Rhett - murmurou ela, tomando-lhe o brao - que teria sido de ns sem o seu auxlio? Ainda bem 
que no foi combater! 
Ele voltou a cabea e lanou-lhe um olhar que a fez estremecer e largar-lhe o brao. Desta vez, 
Rhett no estava a zombar. Nos olhos dele ardia um brilho de clera e de surpresa. Virou a cara 
para o lado e comprimiu os lbios numa linha severa. A carroa continuou a rodar penosamente ao 
longo da estrada escura. Os seus ocupantes guardaram um silncio glacial apenas interrompido 
pelos vagidos do nen e pelas fungadelas de Prissy. Quando j no podia suportar a choraminguice 
da criada, Scariett voltava-se na boleia e dava-lhe um belisco. Prissy soltava gritos de dor, mas 
calava-se logo a seguir, e o silncio restabelecia-se uma vez mais no interior do veiculo. 
Finalmente, Rhett meteu por uma estrada mais larga. As casas comeavam a rarear. E as matas 
sucediam-se umas s outras. 
- J estamos fora da cidade - informou Rhett, bruscamerite, puxando as rdeas. -Acabamos de 
entrar na estrada que conduz a Rough e Ready. 
-Vamos! Por que espera? -Deixe o animal respirar um pouco. -E, voltando--se para Scarlett, 
perguntou vagarosamente: -Continua resol@ vida a fazer essa loucura? 
- Que loucura? -Ainda tenciona ir para Tara?  um autntico suicdio. A cavalaria de Steve Lee e o 
exrcito yanke barrar-lhe-o o caminho. 
Sant Deus iria Rhett agora recusar-se a lev-la at Tara, depois d@ todos os tormentos por que 
tinha passado nesse dia? 
- Evidentemente que tenciono. Por favor Rhett, par~ tamas quanto antes! 0 cavalo no est cansao. 
-Espere. No pode ir para Jonesboro por esta estrada e tambm no pode seguir pela linha frrea. Os 
nossos 
505 
homens combateram durante o dia inteiro nas imediaes de Rough e Ready de forma que os 
caminhos devem estar intransitveis 'hece alguma estrada, vereda ou atalho . Con que a leve a 
Tara sem passar por Rough e Ready e Jonesboro? 
- Conheo! - exclamou Scarlett, aliviada. - Perto de Rough e Ready desemboca um camnho que 
parte da estrada de Jonesboro e atravessa a comarca at s vizinhanas de Tara, 0 meu pai 
costumava passear comigo a cavalo, por esse atalho. Vai ter  propriedade dos Mac lntoshes e passa 
apenas a uma milha de Tara, 
-ptimo! ptimo!  possvel que consiga atravessar Rough e Ready sem dificuldade. 0 general 
Steve Lee ainda l se encontrava esta tarde a fim de cobrir a retirada das nossas tropas. Talvez os 
yankees no tenham entrado na vila e, por consequncia, poder passar, se os homens de Steve Lee 
lhe no roubarem o cavalo. 
#
-Eu... eu poderei passar? 
- Sim, voc -confirmou Rhett, com voz spera. 
- Mas, Rhett... o senhor... o senhor vem connosco, no  verdade? 
- No. Vou deix-las aqui. Scarlett deitou em volta um olhar alucinado. Contemplou o cu lvido 
que deixara para trs as Jrvores negras que ladeavam a estrada e que cercavan@ os fugitivos como 
grades duma priso, e as criaturas apavoradas que jaziam em monte no fundo da carroa, e, por fim, 
encarou o com~ panheiro. Teria ele endoidecido? Teria ela na realidade ouvido bem? 
Rhett sorria, agora. Na penumbra, Scarlett viu-lhe de relance os dentes brancos e distinguiu-lhe nos 
olhos a habitual expresso trocista. 
-Vai deixar-nos? Mas porqu? -Quero partir com o Exrcito, minha querida. Scarlett soltou um 
suspiro de alvio, sentindo-se todavia, levemente irritada. Que prazer encontraria ele e@@ fazer 
esprito numa ocasio daquelas? Rhett Butler no Exrcito! Depois de tudo quanto dissera acerca da 
Causa, depois de ter metido a ridculo os homens que arriscavam a vida, influenciados pelo rufar 
dos tambores e pelas palavras bombsticas de oradores feitos  pressa... loucos que se deixavam 
matar para que outros enriquecessem! 
-Merecia que eu o esganasse s para acabar com essa 
506 
maldita mania de pregar sustos s pessoas! Vamo-nos embora! 
- Mas eu no estou a brincar, minha querida. E custa-me bastante verificar que no compreende o 
meu generoso sacrifcio. Que  feito do, seu patriotismo? Onde pra o seu amor pela nossa 
"gloriosa. Causa?" Chegou agora o. ensejo de me dizer se quer que eu volte so e salvo ou que fique 
por l, a apodrecer. Mas seja breve porque ainda quero ficar com uns minutos livres para lo fazer 
um discurso, antes de partir para a guerra, 
Scarlett continuava a distinguir uma nota de sarcasmo na voz arrastada do companheiro, Rhett no 
s estava a zombar dela, como de si prprio. Aonde pretendia ele chegar com aquelas aluses a 
patriotismo, ao amor da Causa e com o discurso que tencionava fazer numa altura grave como a que 
estavam atravessando? No era possvel que ele estivesse a falar a srio, No entanto... Como 
poderia falar assim to levianamente, ali, no meio daquela estrada sombria, com uma mulher quase 
moribunda, um recm-nascido, uma pretinha imbecil e uma criana apavorada, dentro duma carroa 
prestes a desconjuntar-se, ameaando deixar-lhe o encargo de os pilotar atravs dos interminveis 
campos de batalha, em que pululavam vagabundos e yankees, em que lavravam incndios e 
grassavam epidemias? 
Com a idade de seis anos, Scarlett cara duma rvore e estatelara-se no solo de barriga para baixo. 
Ainda se lembrava dos momentos angustiosos que ficara sem poder respirar e, agora, ao olhar para 
Rhett, experimentava uma sensao anloga, de falta de ar, de estonteamento e de nusea. 
- Rhett, est a brincar! Agarrou-lhe o brao e sentiu que as suas lgrimas caam sobre o pulso do 
companheiro. Rhett pegou-lhe na mo e beijou-lha, maquinalmente. 
-H-de ser egosta at ao fim, Preocupa-se exclusivamente com salvar a sua pele e no se importa 
nada com o futuro da herica Confederao. Lembre-se do incentivo que para os nossos homens 
representar o meu. alistamento numa altura em que tudo parece j perdido, 
A voz dele deixava transparecer uma nota de maliciosa ternura. 
- Oh, Rhett! - gemeu Scarlett. - Como  que pode fazer uIna coisa dessas? Por que me abandona? 
507 
- Por que a abandono? - repetiu ele jovialmente. - 
Talvez porque no fundo sou um sentimental, como todos os sulistas. E em parte, talvez, porque me 
sinto envergonhado... 
- Envergonhado? Realmente, devia sentir-se envergonhado, mas era por nos abandonar assim, 
szinhas e sem auxlio... 
-No ficar sem auxlio, querida Scarlett. Uma pessoa enrgica e egosta nunca pode considerar-se 
desamparada. Deus livre os yankees de a toparem no caminho. 
Desceu bruscamente da carroa e contornou-a, a fim de se abeirar de Scarlett, que o observava, 
#
estupefacta. 
- Desa - ordenou ele. Scarlett no se mexeu. Com um gesto brutal, Rhett agarrou-a por debaixo dos 
braos e dep-la no cho a seu lado e, sem a largar, obrigou~a a afastar-se alguns metros da viatura. 
Scarlett sentiu a areia do caminho, entrar-lhe para dentro dos sapatos e magoar-lhe os ps. As trevas 
ainda mornas envolviam-na como num sonho. _ No lhe peo que me compreenda nem que me 
perdoe. No me interessa nem uma coisa nem outra, porque eu prprio compreenderei ou 
desculparei a mim mesmo tal tolice. Aborrece-me verificar que ainda no me libertei do esprito 
quixotesco que herdei dos meus antepassados. Mas a verdade  que o Sul necessita de todos os seus 
homens, agora mais do que nunca. Creio que foram estas as palavras que o nosso bravo governador 
Brown proferiu num dos seus discursos. Seja como for vou para a guerra. 
E, de sbito, soltou uma ga@galhada estridente, que despertou ecos adormecidos nas matas 
sombrias. 
- "Eu no poderia arnar-te tanto minha querida, se no amasse a Honra ainda mais" -disse ele, -Esta 
citao impunha-se, no acha? Confesso que no seria capaz de imaginar melhor maneira de lhe 
exprimir o que sinto neste momento. Porque a verdade  que a amo Scarlett, no obstante tudo 
quanto lhe disse naquela noit@ debaixo do alpendre. 
A voz dele tornara-se acariciadora e as suas mos fortes e quentes subiram ao longo dos braos nus 
de Scarlett. 
-Amo-a, porque somos parecidos, porque somos dois renegados, dois egostas da pior espcie. 
Nenhum de ns se importa com o que possa acontecer ao mundo, desde que nos sintamos sos e 
@alvos. 
508 
As palavras elevavam-se na escurido da noite e Scarlett ouvia-as maquinalmente sem lhes 
apreender o sentido. o seu esprito fatigado tentava conformar-se com a verdade amarga, esforavase 
por se persuadir de que Rhett ia realmente deix-la ali szinha, sujeita  ameaa dos yankees. 
"Ele vai abandonar-me! Ele vai abandonar-me!" pensava, sem que tal ideia, porm, conseguisse 
despertar nela a menor comoo. 
Rhett passou-lhe ento os braos em torno dos ombros. Scarlett sentiu contra o seu corpo os 
msculos retesados das suas coxas e contra o peito os botes do seu casaco. No obstante a surpresa 
e o terror que a assaltaram, apossou-se dela uma lassido tpida e agradvel que lhe afugentou do 
esprito a noo do tempo, do espao e das circunstncias. Sentia-se com(> uma boneca de trapos, 
mole e frgil, sem foras nem vontade de se defender daqueles braos fortes que a apertavam. 
-No quer reconsiderar sobre o que lhe disse o ms passado? No h nada como o perigo e a morte 
para nos estimular. Seja patriota, Scarlett. Pense na deliciosa recordao que assim proporcionaria a 
um soldado que vai partir para a frente! 
Comeou a beij-la lentamente, acariciando-lhe os lbios ardentes com o bigode, como se tivesse a 
noite inteira  sua disposio. Charles nunca a beijara assim. Nunca os beijos dos Tarletons ou dos 
Calverts lhe haviam dado aquela sensao de frio e de calor. Dobrando para trs o corpo da 
rapariga, Rhett foi deslizando a boca pelo pescoo dela at ao ponto em que um alfinete de camafeu 
lhe prendia o corpete. 
-Meu amor-murmurou ele.-Meu amor! Searlett distinguiu a silhueta da carroa recortada contra o 
cu avermelhado e ouvia a vzinha dbil de Wade chamar: 
- Mam! Wade tem medo! 
0 seu esprito perturbado readquiriu de sbito a faculdade de raciocinar, e ela lembrou-se ento do 
que naquele momento estivera prestes a esquecer... de que se encontrava aterrorizada e ia ficar ali 
szinha. Rhett dispunha-se a abandon-la, o patife. E ainda tinha o topete de a insultar com as suas 
propostas infames! Invadiu-a uma onda de clera. Retesou o corpo e, num movimento brusco, 
libertou-se dos braos de Rhett. 
509 
- Canalha! - exclamou, procurando recordar as palavras mais insultuosas que ouvira o pai chamar a 
Lincoln, aos Mac Intoshes, e s mulas manhosas sem todavia o conseguir. - Voc  um homem 
#
abjecto, @m cobarde, um velhaco como nunca vi igual! 
E,  falta de outro nome mais ofensivo, esbofeteou-o na boca, com toda a fora que ainda lhe 
restava. 
- Ah! -disse ele 'com toda a calma, e durante longo momento ficaram a olhar um para o outro. 
Scarlett ouvia o rudo forte da respirao dele, enquanto ela prpria arquejava, como se tivesse 
acabado de fazer uma corrida. 
-Bem diziam eles! Eles  que tinham razo! Voc no  um cavalheiro! 
-Mas a que propsito vem isso filha? Scarlett compreendeu que Rhett' estava troando dela e ainda 
ficou mais furiosa. 
- V-se embora! Desaparea da minha vista! Depressa! No quero tornar a v-lo! Oxal lhe caia 
uma granada em cima, que o desfaa em mil pedaos! Deus queira que... 
-No diga mais no diga mais. Por a j posso calcular o resto. Tenho a certeza de que, se um dia 
souber que fui sacrificado no altar da ptria, sentir remorsos do que acaba de fazer. 
Scarlett ouviu-o rir baixinho e lobrigou-lhe o vulto afastando-se em direco  carroa junto da qual 
estacou. Como sempre que se dirigia a Meanie, a voz dele tornou-se meiga e respeitosa, ao chamar: 
- Senhora Wilkes? Do fundo da carroa elevou-se a voz medrosa de Prissy: 
- Por Deus sinh capito ButIer, sinhora Melly desmai h que tempo! 
- Mas no est morta 'pois no? Ainda respira? 
- Inda, sim, sinh. 
- Nesse caso, talvez tenha sido melhor assim. Se estivesse consciente, duvido que houvesse 
conseguido suportar uma viagem to acidentada. Toma conta dela, Prissy. Aceita esta gorjeta e v 
se te fazes um pouco mais esperta do que s, 
-Sim, sinh. Muito obrigada. 
- Adeus, Searlett. Scarlett sabia que Rhett se tinha voltado para ela, mas no respondeu. 0 dio 
privara-a do uso da palavra. A areia 
510 
do caminho crepitou sob os ps de Rhett e, por momentos, Searlett viu Os seus ombros robustos 
recortarem-se na obscuridade. Depois, desapareceu, Continuou a ouvir ainda por instantes o rumor 
dos seus passos at que esse rudo 
por sua vez se extinguiu, Regressou lentamente para junto da carroa. Os joelhos tremiam-lhe 
assustadoramente. 
Por que razo teria ele partdo, teria ele desaparecido na escurido da noite, a fim de se aventurar na 
guerra, de arriscar a vida na defesa duma causa que sabia perdida de antemo? Por que teria ele 
sacrificado a tranquilidade em que vivia e optado pelo inferno da guerra, ele que adorava os 
prazeres, que as mulheres e as bebidas proporcionam, que apreciava o conforto, os bons manjares e 
os leitos macios, as roupas finas e o calado luxuoso, ele que odiava o Sul e troava dos tolos que 
combatiam Dela Causa? Com as suas botas envernizadas, acabava de se sumir numa estrada plena 
de amargura, que a fome percorria sem descanso, onde os ferimer@tos a fadiga e o sofrimento 
corriam de mos dadas, como lob@s famintos a uivarem. E, ao fim dessa estrada, espreitava-o a 
Morte. Por que teria ele partido? Vivia em segurana 'era rico, tinha tudo o que queria. E, no 
entanto, fora-se embora, abandonando-a no meio dum caminho deserto, numa noite escura como o 
pecado, inerme para se defender dos ataques dos yankees e dos assaltos dos ladres que lhe 
barravam o caminho de casa. 
Acudiram-lhe  mente, de roldo, todos os nomes feios que gostaria de lhe ter chamado mas agora 
j era demasiadamente tarde. Encostou a ca@ea ao pescoo do cavalo e deu livre curso ao pranto. 
24 
SCARLETT acordou com a luz vibrante do sol matinal, que escorria atravs das rvores. Durante 
um momento, ainda entorpecida pela posio fatigante em que adormecera, no conseguiu lembrarse 
onde estava. 0 sol encandeava-a, as tbuas duras da carroa magoa 'vam4he o corpo, e sobre as 
Pernas descala-lhe um grande peso. Tentou sentar-se e per cebeu que esse peso no era outra coisa 
seno Wade, que dormitava com a cabea apoiada aos joelhos dela. Os ps descalos de Melanie 
#
roavam~lhe a cara. Prissy, enrolada 
511 
lk,ki 
como um gato preto, debaixo do assento, tomava conta do nen. 
Ento Scarlett lembrou-se de tudo. Com esforo logrou por fim endireitar-se e olhou ansiosa  sua 
volta. draas a Deus, no se via nenhum yankee. Naquela noite no lhes tinham descoberto o 
esconderijo. Os factos perpassavam-lhe na memria: a horrvel jornada desde que se haviam 
extinguido os passos de Rhett, a noite interminvel, o caminho escuro e cheio de buracos e de 
pedras, contra as quais o veiculo embatera, os fossos em que se atolara, a energia desesperada que 
ela e Prissy haviam desenvolvido para deseneravar as rodas. Lembrava-se com um calafrio, de todas 
as vezes que puxara o caval@ recalcitrante atravs dos campos e do bosque, quando ao ouvir a; 
aproximao @dos soldados ficara na dvida de serem amigos ou inimi- gos... Ah, recordava-se 
como temera que Wade, espirrando ou tossindo, os pudesse denunciar  tropa! . 
Oh, aquela estrada sombria onde os homens marchavam como espectros, silenciosos, produzindo 
apenas o rumor dos passos abafados sobre a areia mole o dbil tinir dos freios dos cavalos e o 
ranger dos aparelh@s de couro! E esse momento incrvel em que o animal, extenuado, se recusara a 
puxar a carroa, enquanto nas trevas passava a cavalaria e a artilharia, to perto, do stio onde os 
fugitivos imveis retinham a respirao! Scarlett quase podia ter tocado nos militares, e pelo menos, 
sentira-lhes a transpirao dos corpos mal lavados. 
Quando, por fim 'se aproximaram de Rough e Ready, viram brilhar ainda, fogueiras no campo 
onde a retaguarda das tropas do general Steve Lee esperara ordem de retro@ceder. Scarlett 
descrevera um crculo de cerca de milha atravs dum terreno lavrado, at que os fogos do bivaque 
se extinguissem de todo. E foi ento que se perdera na escurido envolvente e derramara lgrimas 
amargas ao convencer-se de que no encontrava o atalho to do seu conhecimento.  claro que 
sempre acabara por o achar, mas nessa altura o cavalo deixara-se cair entre os varais, sem querer 
levantar-se ou sequer mexer-se ainda quando Prissy fez toda a fora para o puxar pela'cabeada. 
Scarlett desatrelara-o e, dominada pela fadiga, deitara-se na carroa, estendendo as pernas que lhe 
doiam tanto. Lembrava-se vagamente de que, na ocasio em que as plpebras cediam ao sono, a voz 
fraca de Melanie lhe pedira, quase a 
512 
desculpar-se: "Searlett, posso beber um pouco de gua, por favor?" e ela respondera: "J no h 
nenhuma", adorme- ,cendo ainda ante3 de a frase lhe sair toda da boca. 
Era agora manh, e o mundo 'calmo e silente, exibia o seu esplendor verde edoirado. No havia 
soldados  vista. Scarlett tinha fome e sede, e de corpo dolorido perguntava a si mesma como  que 
pud r dormir sobre @buas, como uma escrava, quando s era capaz de o fazer entre lenis de 
linho, sobre fofoscolches de penas. 
Pestanejando sob o efeito da claridade poisou os olhos em Melanie e ' horrorizada, quase perd@u a 
respirao. A outra jazia to rgida e plida que dava a impresso de estar morta. E at parecia velha 
com os cabel<>s desgrenhados caindo-lhe sobre as faces'lvidas. Mas Scarlett notou, com alvio, 
que o peito se lhe elevava e descia e isso ao menos era sinal de que sobrevivera quela noite. 
Pondo a. mo em pala na testa, Scarlett investigou  sua roda. Tinham acampado, evidentemente, 
sob as rv(>res dum jardim, pois que havia acol um passeio de saibro que descrevia uma curva 
antes de ir perder-se num grupo de cedros. 
"Mas isto  a casa dos Mallorys!" disse ela consigo, enquanto o corao lhe palpitava  ideia de que 
ia encontrar amigos e auxlio. 
Contudo, pesava sobre a plantao um silncio mortal. Os arbustos e a relva tinham sido 
arrancados, destruidos pelas rodas dos carros e pelas patas dos cavalos. Lanando a vista  
residncia que to bem conhecera, construo antiga de madeira branca, s descobriu um extenso 
rectngulo de alicerces de granito e duas altas chamins, que se erguiarn no meio das folhas 
calcinadas das rvores. 
Aquilo f-la soltar um suspiro fundo, seguido dum arrepio. Acharia Tara tambm naquele estado, 
#
arrasada por completo, silenciosa como um cadver? 
"No devo ainda pensar nisso", deliberou logo a seguir. "Seno, os meus terrores voltariam sem 
demora". Mas, a despeito da resoluo tomada, o corao comeou a bater-lhe em ritmo precipitado 
e ela julgava. ouvir que lhe dizia: "Depressa 'depressa, vai para casa!" 
Tinham de pr-se em andamento. Era, porm, neces,srio descobrir qualquer coisa que comessem e 
bebessem. Sobretudo gua. Abanou Prissy, para a despertar. A preta encarou-a, de olhos 
esbugalhados. 
33 - Vento L--vou -1 513 
1 r, 
- Minina, no esperava acord seno na Terra de Promisso... 
-Ainda ests longe -respondeu Scarlett, procurando dar um pouco de compostura aos cabelos. Tinha 
a cara hmida e o corpo coberto de suor; sentia-se suja, viscosa, e a impresso de estar cheirando 
mal. Como no se despira para dormir, o vestido estava muito amarrotado. Jamais experimentara 
semelhante fadiga, semelhante mal-estar. Os msculos recordavam-lhe de contnuo o esforo feito 
na vspera, e cada rnovimento causava-lhe um sofrimento atroz. 
1 Olhou para Melanie e viu que esta abrira os olhos: eram olhos de enferma, brilhantes, febris, 
circundados de negro. Melly entreabriu os lbios ressequidos e murmurou suplicante: 
- gua... 
- Levanta-te, Prissy - ordenou Scarlett. - Vamos ao poo buscar gua. 
- Minina, deve hav fantasma por ali. Se a gente encon- tra defunto? 
-Eu vou transformar-te em defunta se no te pes a mexer-volveu Scarlett, que no estava disposta a 
discutir. 
Ela prpria desceu a custo, da carroa. S ento  que pensou no cavalo. "Meu Deus se morreu 
durante a noite!" Quando o desatrelara,o, animai parecia moribundo.  pressa, deu volta ao veiculo 
e viu o cavalo estendido. Se j no existisse, Scarlett amaldioaria Deus e morreria tambm. Havia 
algum, na Bblia, que fizera outro tanto. Amaldioar Deus e morrer! Sabia muito bem o que essa 
pessoa devia ter sentido. Mas o animal respirava, embora com dificuldade, e de olhos semicerrados. 
Em todo o caso, vivia! Tambm a ele faria bem um pouco de gua. 
Prissy saiu de m vontade da carroa, soltando muitos gemidos, e seguiu a dona cheia de medo. Por 
trs das runas as cabanas dos escravos, lanibuzads de cal, alinhavam-se tristes e silenciosas 
debaixo das rvores. Entre aquelas e os alicerces enegrecidos do fumo encontraram a cisterna com o 
cilindro e o suporte intactos. Puxaram a corda e apareceu o balde transbordante de gua cristalina. 
Scarlett levantou-o e bebeu grandes goladas, entornando gua por cima de si. S parou quando 
ouviu Prissy exclamar que tambm queria. 
- Desata o, n, leva o balde  carroa e d-lhes de beber. 
o que ficar  para o cavalo. No te parece que a senhora Meily devia alimentar o menino? H-de 
estar morto de fome... 
- Snhora Melly tinha pouco leite. No deve j t nenhum. 
- vai, no te ponhas com demoras. Eu entretanto procurarei qualquer coisa que se coma. 
 fora de revolver tudo 'Scarlett acabou por descobrir as mas que os soldados ainda haviam 
deixado nas rvores, j no em muito bom estado, Escolheu as melhores, encheu com elas a aba da 
saia, e voltou. A terra estava mole e nas pantufas metiam-se-lhe pedrinhas soltas. Por que no se 
dera ao trabalho na vspera, de calar qualquer coisa mais resistente? P@r que no trouxera o 
chapu de palha para se abrigar do sol? Por que no se fornecera de. comida? Portara-se como urna 
desastrada! l@ claro que tinha confiado em Rhett... 
Rhett! Ao lembrar-se desse nome cuspiu.para o cho, horrorizada. Detestava-o! Que procedimento 
miservel o, seu! Pensar que ficara ali, a meio do caminho, a deixar-se beijar por ele... e que 
chegara a ter gosto nisso! Devia estar louca, nessa altura. Que ser abjecto! 
Ao regressar junto dos outros, dividiu as mas e atirou algumas para dentro da carroa. 0 cavalo 
pusera-se de p, mas a gua no parecia t-lo refrescado muito. Assim de dia mostrava-se mais 
abatido do que na noite anterior, Os ossos das ancas espetavam@se-lhe como os duma vaca muito 
#
velha, a barriga parecia uma tbua e o dorso apresentava-se como uma chaga viva. Scarlett recuou 
vrias vezes quando o atrelava  carroa. Ao passar-lhe o freio 'notou que ele quase no tinha 
dentes. Roubar por roubar, por que no escolhera Rhett um que fosse melhor? 
Trepou para o assento e tangeu com o chicotinho as costas do animal que principiou a andar, mas 
to vaga, roso que Scarlett'pensou que iria mais depressa a p. Ah, se ao menos no tivesse de se 
ocupar de Melanie, do filho desta, de Wade e de Prissy! Faria a caminhada e em pouco tempo 
estaria em casa. Cada passo a aproximaria do lar e da me, 
Tara no devia ficar a mais duma quinzena de milhas, mas com aquele roncero a viagem duraria o 
dia todo, Pois era necessrio parar de vez em quando para ele descansar. 
0 dia inteiro! Com o olhar, percorreu a. estrada de terra 
515 
vermelha, onde havia fundos sulcos cavados pelas rodas dos canhes e das ambulncias. Teriam de 
decorrer muitas horas antes de saber se Tara estava ainda como, era e se Ellen se encontrava l. 
Muitas horas antes de finalizar essa jornada sob o sol ardente de, Setembro, 
Virou-se para observar Melanie que deitada de costas, fechava os olhos  claridade, e 
disse,'lanando a Prissy a sua capota: 
-Tapa-lhe a cara com ist<>!-E, como sentisse em si mesma os ardores do sol, acrescentou: -Vou 
ficar com tantas sardas- como um ovo de galinha da ndia. 
Nunca at ento se expusera aos raios solares sem chapu ou vu, nunca pegara nas rdeas sem um 
par de luvas com que protegesse a pele das mos, delicadas. Ei-la agora desprovida de tudo isso, 
numa carripana que um triste sendeiro puxava, suja e suada com fome, na perspectiva de seguir 
sempre atravs dun@a regio deserta. E, ainda h poucas semanas, a sua existncia era calma e 
feliz, ao abrigo de todos esses percalos. Pouco tempo decorrera desde que ela, como alis toda a, 
gente supusera que Atlanta jamais se renderia, que Gergia'nunca sofreria o flagelo duma invaso. 
Mas a, nuvenzita que, quatro meses antes, se formara ao Noroeste, engendrara uma tempestade 
violenta que viera arrasando tudo o que constitua o seu mundo, arrancando-a do seu bem-estar e 
lanando-a no meio da desolao geral. 
Tara estaria ainda como era? Ou fora tambm atingida pelo furaco que soprava sobre Gergia? 
Deixou cair o chicote no dorso do pobre cavalo tentando obrig-lo a, apressar-se, enquanto as rodas 
desco@juntadas da carroa, faziam os seus ocupantes oscilar dum lado a outro, como brios. 
A morte errava no ar. Sob os ralos do sol-poente, todos os campos, todos os matos de que Scarlett 
se lembrava to bem surgiam numa! imobilidade sinistra que lhe encheram de terror o corao. S 
se viam casas abandonadas, chamins lgubres erguidas como sentinelas entre as runas. Desde a 
vspera que no encontrava nem um ser humano, nem um animal com vida. A beira da estrada 
jaziam homens e cavalos mortos cobertos de moscas. Os prprios pssaros tinham deixado de 
cantar, e o vento no agitava 
516 
os ramos das, rvores. 0 silncio era apenas quebrado pelos cascos do solPede que puxava a 
carroa e pelos vagidos do nen de Melanie. 
0 campo dir-se-ia sob o imprio duma encantao formdvel. Ou pior ainda (pensou Scarlett, com 
um arrepio): lembrava-lhe o rosto, duma, me que, depois das torturas da agonia, encontra enfim no 
repouso da morte a beleza e a serenidade. Parecia-lhe que os bosques familiares estavam ao 
presente povoados de fantasmas. Tinham morrido milhares de soldados durante a batalha de 
Jonesboro, e. os cadveres jaziam nessa floresta que o sol declinante enchia de esplendor doirado: 
amigos e inimigos  mistura, observando-a de longe enquanto a carroa se deslocava, vendo-a. 
atravs dos olhos ensanguentados e poeirentos, dos seus olhos vtreos e horrveis! 
"Me! Me!" murmurou. Se pudesse chegar junto de Ellen! Se, por milagre Tara. se conservasse 
ainda de p! Subiria a longa alame arborizada, entraria em casa, veria o rosto terno da me, sentiria 
de novo a caricia das suas mos, agarrar-se-lhe-ia s saias para a esconder o rosto. A me no devia 
ignorar o que ela tinha a fazer. Impediria que Melly e o filho sucumbissem, afastaria os fantasmas e 
os terrores s6 com um simples sussurro. Mas a me estava doente, talvez moribunda... 
#
Tornou a fustigar o cavalo. Era foroso apressarem-se. Passara~se o dia inteiro nessa, viagem 
interminvel, e a noite no tardaria a cair. Os fugitivos ver-se-iam obrigados a ficar no meio daquela 
deslocao que se assemelhava  Morte. Scarlett apertou as rdeas nas mos j cheias de empolas e 
chicoteou o animal at sentir G brao cansado. 
Se conseguisse alcanar Tara e depositar ali o seu fardo! Todos contavam com ela, confiando, numa 
coragem que Scarlett no possua, num vigor que h muito a tinha abandonado. 
0 cavalo, exausto, j no reagia nem ao chicote nem s rdeas; arrastava~se, tropeava nas pedras, 
oscilava como se fosse cair de joelhos. Contudo, ao, crepsculo estavam na ltima parte da sua 
comprida viagem. D@ixando o caminho sinuoso Dor onde tinham enveredado vieram sair na 
estrada nacional. Tara, ficava s  distn6a de milha. 
J se podia ver a massa escura da sebe'que indicava, o extremo da propriedade dos Mac Intoshes, 
Um pouco mais alrn, Scarlett parou defronte da alameda de carvalhos que 
517 
11 1111, 
conduzia  residncia do velho Angus; Mae Intosh. A sombra adensava-se e, por mais que 
investigassem com o olhar, nada conseguiram descobrir. A escurido era completa, nenhuma luz 
brilhava na casa ou nag. dependncias.  fora, porm, de aplicar a vista, acabou por lobrigar um 
cenrio com que j se ia familiarzando: duas altas chamins, como gigantescas pedrasi tumulares 
' dominavam o segundo piso em runas; no primeiro andar, as janelas surgam nas paredes como 
rbitas vazias. _ Eia, gente! - gritou ela. - No est ningum a? 
Cheia de medo, Prissy agarrou-se  dona, e esta, voltando-se, viu-lhe o olhar esgazeado, 
- Minina, no chame! Sabe l quem pode respond? "A preta tem razo", pensou Scarlett. "No se 
sabe o que pode aparecer num stio destes". 
Sacudiu as rdeas e a carroa ps-se de novo em movimento. 0 espectculo da casa dos Mac 
Intoshes tirava-lhes a derradeira esperana que ficara. 0 edifcio incendiado, em runas, abandonado 
como os de todas outras plantaes sugeria a ideia de que Tara devia ter sofrido a mesma sort@. 
Estava a meia milha dali, na mesma estrada, precisamente aquela em que passavam as tropas: 
devia encontrar-se tambm destruda e Scarlett iria achar apenas as paredes. Ellen, Gerald " irms, 
Bab os pretos, todos haviam de ter partido: s Deus sabia @ara onde, e essa mesma calma 
sinistra pairaria sobre a quinta, 
Por que se metera nessa fuga insensata, levando consigo Melane e o pequeno? Mais valia morrer 
em Atlanta do que no meio dos escombros mudos de Tara, depois de ter sofrido as torturas do sol e 
os percalos duma viagem num veculo desmantelado. 
Mas Ashl-eyconfiara-lhe a mulher. "Tome conta- dela", dissera. Ah, aquele dia extraordinrio em 
que ele a beijara ao despedir-se! "Vai tomar conta dela, no  verdade? Est combinado,". E Scarlett 
prometera, Por que se manietara, com essa promessa, agora que ele partira? Apesar do seu 
esgotamento, ainda tinha a fora de detestar Melanie e os vagidos do nen, que dbilmente 
quebravam o silncio. No entanto, prometera, e da por diante Melanie e o mido dependiam dela 
assim como Wade e Prissy, e seria necessrio lutar e deiend-los at ao ltimo suspiro. Podia t-los 
largado em Atlanta ' meter Melanie no hospital, abandon-la... Se, porm, houvesse feito isso, 
como apareceria 
518 
diante de AshIey, quer neste mundo quer no outro, para lhe dizer que os deixara morrer no meio de 
estranhos? 
E Ashley, onde estaria ele a essa hora, enquanto ela, a custo prosseguia por essa estrada maldita em 
companhia da mulher e' do filho do ausente9 Continuaria vivo? Lembrar-se-ia de Scarlett entre as 
grades da priso de Rock Island? Morrera de varola, h muito tempo j, e apodreceria numa vala 
junto de centenas de confederados? 
Ao ouvir um @u!do na moita de silvas, ali perto, ela teve um sobressalto, e Prissy, soltando um 
grito agachou-se no cho da carroa, arrscando-se a esmagar a @abea do nen. Melanie moveu-se 
com dificuldade e, com a mo, procurou o filho. Quanto a Wade, muito assustado para poder gritar, 
#
ficou a tremer de ps e braos, Ento a sara abriu-se, estalando sob o peso dum anima,1 macio, e 
cortou o ar um gemido surdo e plangente. 
-n apenas uma vaca -disse Scarlett, -ainda com voz trmula.-No sejas pateta, Prissy. Ias 
amachucando a criana e assustaste a senhora e o menino, 
-No era fantasma? -retorquiu a preta. Virando, Scarlett bateu nas costas de Prissy com o ramo que 
lhe servia de chicote. Estava demasiadamente cansada e abatida para consentir na fraqueza dos 
outros. 
- Levanta-te, parva, antes que eu te quebre isto no lombo! 
Ainda apavorada, Prissy ergueu a cabea e, olhando por cima do rebordo do carro, viu que era 
realmente uma vaca malhada de branco e ruivo que contemplava os viajantes com ar aterrado e 
implor@6r. E o animal, como se de facto sofresse, soltou um novo e longo mugido. 
- Estax ferida? - observou Scarlett. - No muge ,Como as outras vacas. 
- A mim parece que ela tem leite a mais - declarou Prissy, recuperando pouco a pouco o 
sangue~frio. - A gente devia ordenh. Deve s do rebanho de sinh Mae Instosh que os ngo 
levaram para o bosque e os yankee no apanharam. 
- Levamo-la connosco - decidiu logo Scarlett. - Desta rnaneira teremos leite para o mido. 
-Como  que a gente vai lev? No se pode. E antes disso ela rebenta a@; teta, que to muito cheia. 
Por isso 
que tava, a gem, 
-J que percebes tanto do assunto, despe a saia de 
519 
baixo, rasga-a em tiras e amarra a vaca  parte traseira da carroa. 
- Minina, bem sabe que h mais dum ms no tenho saia de baix , e se tivesse no ia d  vaca. 
Esses bicho metem tanto medo a mim! 
Searlett largou as rdeas e verificou a sua prpria saia: era guarnecida de rendas, a nica e 
derradeira coisa bonita que lhe restava. Mandara-a fazer dum pano que Rhett trouxera de Nassau, 
no ltimo navio em que forara o bloqueio. Arrancou-a, mordeu-a at que o tecido cedesse, e ps-se 
a rasg-la de alto a baixo. Depois amarrou todas as tiras e ordenou a Prissy que prendesse um 
extremo aos chifres do animal. 
- Tenho medo de vaca - repetiu a preta. - No sou nga de quinta,, sou criada de dentro. 
-No s seno uma estpida e o meu pai fez um grande disparate em te comprar. @uando puder 
servir-me do brao, dou-te um par de chicotadas. 
Rolando os olhos, Prissy olhou primeiro para, a dona, em seguida para a vaca. Esta tomara a mugir 
lastimosamente, de forma que Scarlett lhe pareceu a menos perigosa das duas: era preferivel 
desobedecer-lhr@. 
Scarlett desceu a custo do seu lugar. A cada movimento que fazia, os msculos doloridos 
causavam-lhe verdadeiras torturas. Prissy no era a nica a ter medo de vacas; para Searlett, ainda 
as mais mansas representavam feras temiveis. 0 momento, porm, no permitia delongas tanto mais 
que outros perigos maiores se acumulavam n6 horizonte. Por felicidade, a vaca era socivel, e a dor 
incitara-a a aproximar-se das pessoas; no fez, pois 'nenhum gesto ameaador quando Scarlett lhe 
passou em volta dos cornos a extremidade da corda improvisada. Depois de tudo realizado, quando 
se preparava para subir de novo para o assento, tomou-a uma. lassido en- orme, ao mesmo tempo 
que uma vertigem. Teve de se agarrar  carroa para no cair. 
Melanie abriu os olhos e, vendo Scarlett ali ao p, murmurou: 
-J chegmos  tua casa? "Tua casa!" Esta frase provocou-lhe abundantes lgrimas. A sua casa! 
Melanie no sabia que j no tinham tecto, que estavam ss e abandonados no meio dum mundo 
desolado e enlouquecido. 
520 
- Ainda no - respondeu em voz to suave quanto lhe permitia a garganta seca. - Mas pouco tarda 
para chegarmos. Acabo de encontrar uma vaca e vamos ter leite para ti e para o teu filho. 
- coitadinho... -comentou a me do petiz, tentando baldadamente tocar-lhe com a mo. -- 
#
Scarlett teve de recorrer a toda a sua energia para-trepar outra vez, mas sempre o conseguiu e pegou 
nas rdeas. o cavalo, de cabea baixa, recusava-se a andar e Scarlett fustigou-o sem d, pensando 
que Deus lhe perd@aria forar um animal esgotado; e, se no lhe perdoasse, tambm no 
importava. No fim de contas, Tara ficava s a um quarto de milha: uma vez l o cavalo podia 
afundar-se no meio dos varais, se Ilie desse para isso. 
Por fim, o rocinante recomeou a mover-se lentamente, arrastando a carroa que chiava e a vaca 
sempre aos mugidos lancinantes. Estes eram de tal. ordem que Scarlett pensou em parar e dar 
liberdade ao animal. Reflectindo bem, para que lhe servia, uma vaca em Tara se no estava l 
ningum? Era incapaz de a ordenhar @, ainda que o conseguisse, o animal daria tais coices a quem 
lhe tocasse nas tetas doridas que o balde se entornaria ao primeiro leite. Contudo, tinha a vaca e 
podia conserv-la. Os seus bens j eram to escassos... 
Quando atingiram por fim a base dum outeiro, os olhos de Scarlett de novo se encheram de 
lgrimas. L no alto estava Tara. Mas, ao mesmo tempo 'o corao oprimiu-se-lhe. 0 cavalo 
decrpito jamais teria fora de galgar a colina, a. colina de que ela se ria tanto quando a trepava a 
galope, na sua gua veloz! Demais a mais carregada como estava a carroa, nunca poderia o cavalo 
alcanar o topo. 
Morta de fadiga, Scarlett apeou-se e puxou o sendiro pipla rdea. 
- Desce, Prissy - ordenou. - Pega no menino Wade ao colo. Deixa o outro ao lado da me. 
Wade desatou a soluar e Scarlett distinguiu uma palavra que ele proferia amide: "Escuro... escuro 
... " 
- Minina, no posso and. Tenho bexiga no p e menino faz muito peso. 
- Apeia-te antes que te obrigue a saltar  fora. E ento sou capaz de te deixar aqui szinha. 
Prissy no cessava de se lamentar. De olhar fixo, investigava as rvores sombrias que ladeavam a 
estrada e que 
521 
-@" 
 LI. 
dir-se-ia prepararem-se para a agarrarem logo que ela deixasse o seu refgio de quatro rodas. 
Todavia sempre colocou o nen junto de Melaffie e tirou Wade da carroa. 
0 pequeno continuava a chorar, 
-V se te calas. No suporto esses gritos-declarou Scarlett, puxando o cavalo pela rdea e forandoo 
a avanar.-Vamos, Wade, s bonzinho. Deixa-te de chorar, seno apanhas uma palmada. 
"Por que teria Nosso Senhor inventado as crianas?" disse consigo na ocasio em que esteve quase 
a dobrar um tornozelo. "14o servem de nada, choram por tudo, aborrecem toda a gente. Temos de 
nos ocupar delas a cada instante ... " Sentia-se to exausta que era incapaz de se con doer do 
pequeno atemorizado que Prissy conduzia pela mo. 
- Minina -cochichou a preta agarrando o brao da dona. -No vale a pena i l. Q@em- sabe se to 
todos morto? 
Furiosa por ouvir o eco dos seus prprios pensamentos, Scarlett desembaraou-se e rpostou: 
-Ento d c a mo do menino. Senta-te tu para a, e fica. 
-No, no! -Nesse caso, cala a boca. E o cavalo avanava to lentamente! A espuma que ele deitava 
pela boca escorria nos dedos de Scarlett. Finalmente chegaram ao cume da encosta e diante deles, 
surgiu a massa escura dos carvalhos de Ta@a. Scarlett, ansiosa, procurou descobrir uma luz. No 
havia, nenhuma. "Partiram", disse de si para si. "Foram-se embora". 
Sempre a puxar o cavalo, enfiou pela extensa alameda, e os cedros, unindo os ramos acima dos 
fugitivos, ajudaram-nos a fundirem-se nas trevas da noite. Sondando o comprido tnel sombrio 
Scarlett viu  sua frente... os tijolos claros de Tara! A: sua casa! Mas estava realmente a v-Ia? No 
seria iluso? Eis as queridas paredes brancas, as janelas de cortinas, as varandas largas... Era isso, 
de facto, que ela distinguia ao fundo, na obscuridade? Ou a noite caridosa lhe escondia o horrivel 
espectculo que lhe oferecera a plantao dos.Mac Intoshes? 
A alameda de cedros parecia no ter fim, e o cavalo andava cada vez mais devagar. Scarlett fazia 
#
esforos enormes para penetrar as trevas. 0 tecto da residncia mostrava-se intacto. Seria possvel? 
No, custava tanto a crer... 
522 
guerra no respeitava nada, nem sequer Tara, feita para @durar quinhentos anos; no podia ter 
poupado Tara. Ento comearam a precisar-se os contornos mergulhados na sombra. Scarlett puxou 
o cavalo com mais fora. Viam-se agora as paredes brancas; o fumo no as enegrecera. Tara fora 
poupada! Scarlett largou a rdea e transps a correr os primeiros metros que a separavam da sua 
casa. Quanto desejaria abraar aquelas paredes! De repente, viu emergir do escuro uma forma que 
se aproximou dos degraus da varanda. Tara no estava deserta. Algum a habitava. 
Ia-lhe escapar um grito de alegria, mas depressa o sufocou na garganta. A casa permanecia sem luz, 
muito calma, e o vulto imobilizara-se na varanda. Que se passava, pois? Embora intactas, a quinta e 
a casa pareciam cobertas por aquele lenol morturio que cobria a regio inteira com a sua 
tranquilidade sinistra. Ento o vulto mexeu~se, e vagaroso, com muito custo, desceu um homem os 
degraus da varanda. 
- o pap? -perguntou Scarlett, com a voz embargada pela comoo. - Sou eu, Katie Scarlett. Estou 
de volta. 
Arrastando dificultosamente a perna rgida, Gerald, mudo e sonmbulo, dirigiu-se ao encontro da 
filha. Chegou junto dela e olhou-a espantado, como se a visse em sonhos. Em seguida ps-lhe a 
mo no ombro. Scarlett sentiu essa mo tremer como se ele despertasse de sbito dum pesadelo e 
ainda no estivesse compenetrado da realidade. 
-Minha filha -murmurou com esforo. -Minha filha. Depois, calou-se. "Est um velho!" pensou 
Scarlett. No rosto que ela distinguia confusamente j no havia traos daquela virilidade inquieta 
que o extremava. dos mais. Os olhos que a miravam eram quase os mesmos olhos assustados do 
pequeno Wade. G,erald no passava agora dum velhinho tmido. 
Ento o medo do que sucedera apoderou-se de Scarlett. Incapaz de fazer um gesto, ela limitou-se a 
contemplar o pai. Os lbios retinham-lhe o fluxo de perguntas que no se atrevia a formular. 
Da carroa elevou-se um vagido dbil e Gerald, com grande esforo, pareceu-se recair em si. 
523 
- P, Melanie, e o filho - explicou logo Scarlett. - Est muito doente; trouxe-a comigo. 
Gerald tirou a mo do ombro da filha e dirigiu-se lentamente para a carroa. Ao v-lo assim, dir-seia 
ser o fantasma do antigo dono da casa que se apresentasse diante dos convidados. Quando falou, 
as pala*vras proferidas foram como arrancadas a lembranas que o tempo obscurecesse. 
- Prima Melanie... Esta balbuciou qualquer coisa que no se ouviu. 
- Prima Melanie, est em sua casa. Dos Doze Carvalhos s h runas. Vai ver-se obrigada a viver 
connosco. 
Ao pensar no longo martrio suportado por Melanie, Scarlett readquiriu a energia que a abandonara. 
Estava outra vez a contas com o presente, tinha de deitar Melanie e o filho numa boa cama, de os 
rodear dos mil cuidados necessrios, 
-Tem de ser levada ' no pode andar. Ouviu~se um rudo de passos precipitados e apareceu na 
varanda um vulto escuro. Pork desceu a escada a correr. 
- Minina Scarlett, minina Scarlett! -exclamou ele. , Scarlett abraou-o. Pork fazia parte integrante 
de Tara, era-lhe to querido como os tijolos das paredes e os corredores cheios de frescura. Sentiu 
as lgrimas dele carem- 
4he nas mos, escutou-lhe a voz entrecortada de soluos. 
-Que alegria t voltado! Que alegria! Prissy desatou tambm a chorar, pronunciando palavras 
incoerentes. E Wade, animado pela fraqueza das pessoas crescidas, atreveu-se a declarar que tinha 
sede. 
Scarlett, ento, tomou toda a gente ao seu cuidado principiou a dar ordens. 
-A senhora Melanie e o filho esto na carroa. Pork, leva-a para cima com muita cautela e pe-na 
no quarto de hspedes das traseiras. Prissy, pega na criana... Leva o menino Wade e d-lhe um 
copo de gua. A mam onde est, Pork? Dize-lhe que preciso dela. 
#
Galvanizado pelo tom autoritrio de Searlett, Pork aproximou-se da carroa e tacteou s escuras. 
Melanie soltou um gemido. Ento o preto ergueu-a do colcho em que ela viera deitada e conduziua 
ao colo como uma criana. Prissy, com o nen nos braos e Wade pela mo, subiu com eles a 
escada e desapareceu no vestbulo sem luz. 
Com os dedos doridos, Scarlett procurou febrilmente a mo do pai. 
524 
-Vo todos bem? As pequenas melhoram. Fez-se silncio. No esprito de Scarlett comeou a 
desenvolver-se uma ideia, demasiadamente horrorosa para ser transformada em palavras. No, era 
impossvel exprimir esse pensamento, as frases no transporiam os seus lbios. Todavia sempre 
experimentou, mas parecia que a garganta se lhe secava ainda mais. Seria aquela a explicao do 
enigma do sinistro silncio que pesava sobre Tara? Como se quisesse responder  pergunta que a 
obcecava, Gerald resolveu falar: 
-Tua me... Mas calou-se. 
- A mam? 
- Morreu ontem. 
Com o brao do pai fortemente apertado ao seu, Scarlett atravessou o amplo vestbulo que, apesar 
da obscuridade, ela conhecia to bem como os seus prprios pensamentos. Desviou-se das cadeiras 
de espaldar alto, do cabide de armas desprovido agora de espingardas, do aparador de ps de garra 
salientes e, de instinto, sentiu-se atrada para a saleta, ao fundo da casa, onde Ellen costumava estar 
a fazer contas. Imaginou-a sentada  secretria, viu-a j a erguer a cabea, pr de lado a pena de 
pato, e deixar a cadeira a fim de ir ao encontro da vida, sussurrando as saias levemente perfumadas. 
No podia estar morta, apesar de o pai lhe repetir, como um papagaio, a sua nica frase: 
- Ellen... morreu ontem, Contudo, Scarlett admirava-se de no experimentar nenhuma comoo de 
s sentir fadiga, uma fadiga enorme que lhe paralsav@ os membros como se tivesse pesadas 
cadeias de ferro, e uma fome que lhe fazia tremer os joelhos de fraqueza. Mais tarde pensaria na 
me. Nesse momento, Porm, arred-la-ia do esprito, custasse o que custasse, seno comearia a 
embrulhar as palavras como Gerald ou a Soluar como Wade. 
Pork desceu a escada, ao escuro, correndo para Scarlett ,como um animal friorento que procura o 
lume. 
- No se arranja uma luz? - inquiriu ela. - Por que h-de estar aqui uma escurido destas? Traze 
velas, Pork. 
- Levaram todas as velas, minina, menos uma que a 
525 
gente tem servido e t @q@iase no fim. Sua mam para trat minina Carreen e minina SueIlen 
acendeu pano molhado em gordura. 
- Traze o que resta dessa vela - ordenou Scarlett. - 
Uva para a saleta da mam. 
Pork dirigiu-se para a casa de jantar, e Scarlett, avanando s apalpadelas, entrou na saleta e atirouse 
para cima dum sof. 0 pai continuara a agarrar-lhe o brao, de modo que ela, atravs dessa 
presso confiante e imploradora, adivinhava o profundo abatimento a que ele tinha chegado. 
"Est um velho um velho muito cansado", dizia de si para si. E de novo'se admirava de encarar as 
coisas com tanta indiferena. 
Pork entrou com a vela me!o, consumida, equilibrada sobre um pires, e o quarto encheu-se duma 
claridade vacilante. Tudo pareceu renascer para a vida. 0 velho sof, que cedia ao peso de Gerald e 
da filha, a poltrona de Ellen, a secretria de alado, ainda cheia de papis, o tapete gasto, tudo 
continuava ali, tudo excepto Ellen com o seu vago aroma de lcia-lin-ia e a expresso suave dos 
seus olhos. Scarlett sentiu uma dor surda no corao, como se os nervos, entorpecidos por uma 
ferida Drofunda, diligenciassem retomar a sua funo. Isso, no entanto, convinha no permitir, pois 
tinha  sua frente a existncia inteira, para sofrer! Nesse instante, no. "Ainda no, por favor, meu 
Deus!" 
Observou o rosto de Gerald, que apresentava agora um tom amarelento, e, pela primeira vez na sua 
#
vida, viu-o coberto de plos grisalhos 'onde ele no tivera o cuidado de passar a navalha. Pork 
colocou a vela numa palmatria e aproximou-se de Scarlett, e esta pensou que, se o criado fosse um 
co, descansar-lhe-ia o focinho nos joelhos e solicitaria uma carcia no dorso. 
-Quantos negros esto c, Pork? 
- Minina, esses maldito foram emb, e alguns dele com os yankee. 
Quantos ficaram? Eu e depois Bab. Bab tratou de mininas todo o dia. E I)ficey tambm que est 
junto de mininas. A gente somos trs, minina S@ar1ett. 
Trs... onde tinha havido uma centena! A custo, Scarlett levantou a cabea, to desolada estava. 
Mas no devia trair a sua comoo. Com surpresa, ouviu-se a falar em tom indiferente, e to natural 
como se no tivesse havido guerra 
526 
e se bastasse apenas fazer um gesto com a mo para ver acudirem dezenas de servidores. 
-Pork, estou cheia de fome. H alguma coisa que se coma? 
-No minina yankee levou tudo. 
- E n@ horta?' 
- Meteram l seu cavalo. 
- Nem sequer restam batatas doces? Nos lbios carnudos do preto esboou-se algo semelhante a um 
sorriso. 
-Ah, espere, esquecia o inhame! Deve hav algum. Os yankee julgava que era razeg que no 
prestava de com. 
- A lua est quase a nascer. Vai ver se encontras alguns e depois trata de os assar. E milho, no h 
tambm? Nem ervilhas piladas? E a respeito de galinhas? 
- No, minina. Galinha que no comeram eles meteram na mochila. 
Ainda faltava isso? No bastara terem incendiado e assassinado por toda a parte? Precisavam ainda 
deixar morrer  fome as mulheres, as crianas e os escravos, numa regio devastada? 
- Miniria, ainda h ma que sua mam guardou. 1@, o que a gente est comendo ag. 
-Traze ento mas, antes de ires cavar o inhame. E tambm... eu... sinto-me to fraca... Ficou vinho 
na adega, nem que seja de amoras? 
-A adega foi primeiro lugar onde yankee ps seu p. A fome, a noite passada em claro, o 
esgotamento, tudo isso contribuffi para que Scarlett sentisse nuseas e tonturas. Lanou a mo ao 
brao do sof, para no cair desmaiada. 
-Acabou-se o vnho-murmurou, lembrando-se das filas de garrafas na adega. E de repente teve uma 
ideia: -Pork e essa aguardente d@ milho que'o pap escondeu numa barrica, debaixo duma rvore? 
Outra vez perpassou a sombra dum sorriso na face de Pork, que tomou uma expresso de surpresa e 
alegria. 
-Minina tem memria, no h que v! 'Eu j tinha esquecido. Mas essa aguardente no deve 
prest. Foi h mais dum ano. E aguardente no serve pra snhora. 
Que estpidos, esses pretos! Nunca se lembravam seno daquilo que lhes diziam. E os nortistas 
ainda os queriam emancipar? 
-Para mim h-de servir, e para o pap. Va@ depressa, 
527 
11 .. ~ " 
Pork. Desenterra a barrica, e traze dois copos, hortel e acar. Vou fazer um refresco. 
A face de Pork exprimiu desta vez censura. 
- No sabe que no h acar em Tara h muito tempo, minina Scarlett? E os yankee partiram todos 
os copo. 
-No importa, vai buscar essa aguardente. No deixaremos de a tomar. - Depois de o preto ter dado 
meia volta, ela acrescentou: - Pork, espera ainda. Tenho tido tanto em que pensar 'que j nem me 
lembrava. Trouxe um cavalo e uma vaca, A vaca precisa de ser mungida. 0 cavalo est cheio de 
sede. Desatrela@o. Vai prevenir a Bab; dize-lhe que  absolutamente necessrio que tire o leite  
vaca. 
#
0 menino da senhora Melanie no tem comido nada... 
- A ginhora Melanie no tem ... ?-Pork interrompeu-se, por delicadeza. _ No, no tem leite - 
respondeu Scarlett. 
Que conversa, santo Deus! Se a me a ouvisse, teria decerto desmaiado. 
-T bem, minina, Dilcey vai pod aliment minino. Dilcey teve um filho e tem leite bastante para 
dois. 
- Pork, s outra vez pai? Crianas, crianas, crianas... Por que as deitava Deus em tanta quantidade 
neste mundo? No, no era Deus que as fazia, eram esses imbecis. 
- Sim, minina, um rapaz gordo, muito ngo. -Vai dizer  Dilcey que deixe os pequenos. Eu me 
encarrego deles e ela que trate do menino da senhora Melanie. A Bab;i que se ocupe da vaca e 
ponha o cavalo na estrebaria. 
-J no h estrebaria, minina. Deitaram abaixo para faz lenha. 
-Deixa-te de me contar o que eles fizeram. Ehtendeste, Pork? Agora vai buscar a aguardente e os 
inhames. 
-Mas, minina... no, tenho luz pra i cav. 
- Arranja archotes. -Queimaram tudo... -Faze como puderes. 0 que eu quero  que me'tragas os 
inhames, e depressa. 
Pork saiu, e a filha e o pai ficaram s6s. Scarlett, aaricio meigamente o joelho de Gerald e reparou 
quanto ele emagrecera. Tinha de fazer o possvel para o arrancar daquela apatia. Em todo o caso, 
no podia falar-lhe da me. Mais tarde, quando pudesse suportar a ideia dessa morte. 
528 
-Por que no teriam incendiado Tara? Gerald olhou um momento espantado para ela, como se no 
compreendesse. Foi preciso repetir a pergunta. 
-Porqu? --retorquiu. Tentou lembrar-se e acrescentou: - Estabeleceram aqui o seu quartel-gen@ral, 
-os yankees? Nesta casa? Experimentou a sensao de se encontrar entre paredes profanadas. Uma 
casa que a presena de Ellen tornara sagrada! E aqueles homens tinham-na habitado! 
- P, verdade, minha filha, vieram instalar-se aqui. Antes disso, vimos arder a residncia dos Doze 
Carvalhos, alm do rio. Honey e India, com alguns escravos, refugiaram-se em Macon, de forma 
que no nos afligimos muito quanto  sua sorte. Ns ' infelizmente,  que no podamos ir para 
Macon. As tuas irms estavam bastante doentes... tua me... enfim, no pudemos ir. Os nossos 
pretos fugiram, no sei para onde, e levaram as carroas e as mulas. S ficou Pork, e Dilcey, e 
Bab. Tuas irms... tua me... no pudemos partir. 
-Sim, sim... Scarlett no consentiria que ele falasse da me. De tudo, menos disso. Podia dizer que o 
general Sherman se servira daquela saleta, ou dizer tudo mais que quisesse; mas falar da me, no. 
- Os yankees iam para Jonesboro, cortar a linha frrea. Vieram pelo vale, subiram a estrada... Eram 
milhares deles, milhares... com canhes e cavalos. Esperei-os na varanda. 
"Oh, corajoso Gerald!" pensou Scarlett, impressionada. 
0 pai apresentara-se diante do inimigo, esperando-o ao alto da escadaria de Tara como se tivesse um 
exrcito inteiro atrs de si. 
-Deram-me ordem de despejo, porque iam incendiar a casa. Respondi-lhes que morreria nos 
escombros. No podamos partir. Tuas irms... tua me... 
-E depois? Sempre a perspectiva de se ocupar de Ellen9 
- Disse-lhes que havia doentes... com febre tifIde. Que morreriam se... Deitassem, pois, fogo  
casa, connosco dentro... mas nada me obrigaria a partir a deixar Tara... 
A voz foi-se-lhe extinguindo, enqua@to ele contemplava, com ar abstracto, as paredes. Scarlett 
compreendeu. No sangue irlands de Gerald falavam os antepassados mortos 
34 - Vento Levou - 1 529 
em defesa duns palmos de terra depois de se terem batido para no deixarem o lar ances@ral. 
- Declarei-lhes que, se queimassem a casa, queimariam ao mesmo tempo trs mulheres doentes, 
Mas ns no partiramos. 0 oficial, homem novo, era um perfeito cavalheiro. 
-Apesar de yankee? Oli, pap! 
#
- Um perfeito cavalheiro. Deu meia volta com o cavalo e foi-se a galope. Da a pouco regressava 
com um capito-mdico, que observou as pequenas... e tua me. 
-Deixou o patife do yankee entrar no quarto? -Trazia pio, coisa que no tnhamos. Salvou as tuas 
irms. Suellen estava com uma hemorragia, e ele fez quanto pde para a tratar. Quando comunicou 
aos chefes que... havia doentes... houve ordem de no incendiar a casa. Veio instalar-se aqui um 
general, com os seus oficiais... muita gente, Ocuparam todos os quartos, excepto os dos doentes. E 
os soldados--- 
Parou de novo, como se estivesse muito cansado para continuar, deixando abater-se pesadamente 
sobre o peito o queixo onde a barba branca despontava. Em seguida recomeou a falar, com maior 
esforo, 
-Acamparam derredor da casa, por toda a parte, nos campos de algodo, nos de milho. No se via 
seno uniformes azuis. Nessa noite brilharam muitos fogos diante das tendas. Destruram as 
vedaes para fazer lenha. 0 mesmo aconteceu aos estbulos,  cavalaria. Mataram as vacas, os 
porcos, as galinhas. - "As suas preciosas galinhag da India" pensou Scarlett. - Levaram inmeras 
coisas, at quadr@s... mveis... loias... 
- Prata tambm? 
- Pork e Bab deviam ter feito qualquer coisa para as salvar. Talvez as escondessem no poo. No 
me lembro. Era daqui que eles partiam para os combates. Daqui, de Tara. Que barulho meu Deus! 
Cavalgadas idas e vindas de soldados... depois os canhes, em Jonesboro... Parecia trovoada! As 
pequenas, apesar de doentes como'estavam, tambm ouviam o canhoneio. 
E a mam? Sabia que os yankees se encontravam c? No... no soube nada. "Graas a Deus"! 
murmurou Searlett. "Ao menos fora-lhe poupada aquela provao. A mam nunca soube, nunca 
sentiu os inimigos nos quartos, no ouviu o bombardea- 
530 
rnento, nunca teve conhecimentG de que estava a ser cal~ cada pelos yankees a terra que ela tanto 
amava!" 
-Eu no vi muito, porque ficava todo o tempo l em cima, com as pequenas e com tua me. Lidei 
principalmente com o cirurgio, que era novo, amvel. Depois de se ter ocupado o dia inteiro dos 
seus feridos, ele vinha sentar-se  cabeceira das nossas doentes. At nos deixou alguns remdios, Na 
ocasio da partida, afrmou-me que as pequenas se restabeleceriam, mas que tua me... Achava-se 
to fraca para poder resistir! Esgotara as foras... 
No meio do silncio que se seguiu, Scarlett evocou a me tal como ela devia ter estado no decurso 
das ltimas semanas da sua existncia... afadigando-se tratando dos outros, trabalhando, fazendo 
por no dormi@ e no comer para que os demais pudessem comer e dormir. 
-Por fim partiram. Sim, partiram. - Calou-se um instante e procurou a mo da filha. -Ainda bem que 
voltaste - ajuntou. 
Ouviu-se o som de qualquer coisa a raspar. Era Pork. Habituado durante anos a esfregar os ps 
antes de entrar, o preto no se esquecera desse excelente hbito. Penetrou na sala e exalou-se logo 
um cheiro forte a lcool. Trazia na mo duas cabaas. 
-Entornei um bocado -disse ele. -Custa muito ench cabaa no barril. 
- No faz mal, Pork. Obrigada. Pegou numa das cabaas que estava toda molhada, e absorveu, de 
narinas fren@entes, aquele cheiro que a enjoava. 
-Beba, pap. Gerald obedeceu como uma criana e bebeu a longos tragos ruidosos. Scarlett pediu a 
Pork a segunda cabaa, que tinha gua, e apresentou-a ao pai. Mas este abanou a cabea. Por sua 
vez, ela levou a aguardente aos lbios, gesto que o pai seguiu com ateno, e percebeu que ele 
ficara um tanto admirado. 
-Sei que as senhoras no bebem lcool- observou. - 
Mas esta noite no sou senhora a valer, e alm disso tenho muito trabalho diante de mim.-Soltou um 
suspiro e bebeu rapidamente. Sentiu logo um ardor na garganta depois no estmago. Tossiu, 
vieram-lhe lgrimas aos olho@. Suspirou outra vez e recomeou a beber. 
531 
#
-J basta, Katie Scarlett -disse o pai. Era a primeira nota de autoridade paterna que ouvia desde que 
chegara. -No ests habituada, podes embebedar-te. 1 
-Embebedar-me? Era isso mesmo que eu queria. Embebedar-me e esquecer tudo! 
Continuou bebendo. Depressa nas veias se lhe espalhou um calor agradvel. Aquilo percorreu-lhe 
todo o corpo, indo at s pontas dos dedos, onde sentiu leve formigueiro. Era to bom esse fogo que 
se lhe pegava assim, produzia-lhe to estranhas sensaes! Dir-se-la entrar no corao, apesar da 
rija couraa gelada que- protegia. As foras voltavam-lhe. Perante a expresso intrigada e 
constrangida de Gera!d, Scarlett, mais uma vez lhe fez uma festa no joelho e diligenciou retomar o 
sorriso agarotado que tanto apreciava. 
-Como  que isto me podia embebedar, pap? Sou sua filha, herdei a cabea mais segura da 
comarca de Clayton.@.. 
No rosto de Gerald perpassou um sorriso triste.. A aguardente tambm o reconfortara. Scarlett 
passou-lhe a cabaa. 
- Beba mais. Depois irei lev-lo ao quarto. Deteve-se, de sbito, Era assim que falava ao filho, no 
tinha o direito de se dirigir no mesmo tom ao pai: representava uma falta de respeito. Ele, porm, 
estava suspenso dos lbios da filha. 
- Sim, vou lev-lo ao quarto - repetiu ela; - e dar-lhe-ei mais... talvez o resto da cabaa para dorinir 
bem. Precisa dum bom sono. Katie Scarlett est presente ' para o que for necessrio. No se 
preocupe comigo. Beba. 
Gerald obedeceu. Passando o brao debaixo do dele, Scarlett ajudou-o a erguer-se. 
- Pork... 
0 preto pegou na cabaa, numa das mos, e com a outra segurou o brao de Gerald. Scarlett agarrou 
a palmatria, cuja vela j tinha a chama vacilante, e todos trs, aps haverem atravessado o 
vestbulo escuro, comearam a subir a escada. 
0 quarto onde Suellen e Carreen se viravam e reviravam na mesma cama estava impregnado do 
cheiro pestilencial que exalava uma espcie de mecha -feita de trapo embebida em gordura e que 
lhes servia de lamparina. Quando abriu a porta, Scarlett quase ia desmaiando tal era a atmosfera 
pesada que ali reinava. As janelas achavam-se fechadas 
532 
e o ar viciara-se no s com aquela torcida improvisada ,como tambm pelo cheiro dos remdios. 
Apesar de os mdicos dizerem que rum quarto de doente se no devia renovar o ar, pois aquele 
poderia correr grave perigo, Scarlett escancarou as trs janelas, declarando que doutra maneira 
morreria. Imediatamente sentiu o aroma da terra e das folhas de carvalho; mas isso ainda no era 
bastante para dissipar o cheiro naugeabundo que se acumulara durante semanas nesse aposento 
calafetado. 
Magras plidas Suellen e Carreen dormiam com sono agitado. cordara@n de repente, arregalando 
os olhos e puseram-se a murmurar palavras incoerentes. Estavam ambas na vasta cama de dossel, 
onde outrora haviam segredado tantas coisas, em tempos mais felizes. A um canto do quarto 
patenteava-se um leito vazio, de estilo Imprio, que Ellen trouxera de Savannah. A  que ela 
estivera deitada. 
Scarlett sentou-se junto das irms e observou-as com ar embrutecido. A aguardente, caindo-lhe no 
estmago depois de tanto jejum, principiava a fazer-lhe negaas. s vezes as raparigas pareciam-lhe 
recuar para muito longe, tornando-se minsculas e o que elas diziam chegava-lhes aos ouvidos 
como um zumbido de insectos. Outras vezes aumentavam desmedidamente e precipitavam-se sobre 
a recm-vinda com a velocidade dum blide. Scarlett sentia-se fatigada ao mximo, Seria capaz de 
se estirar fosse onde fosse e dormir durante dias inteiros. 
Se pudesse fazer isso, at que Ellen lhe sacudisse o brao e lhe dissesse que era tarde que no fosse 
preguiosa... Mas tal coisa jamais sucederia. Se ao menos Ellen fosse viva, ou tivesse algum mais 
velho e sensato para tomar conta da casa... Se houvesse uns joelhos sobre que descansasse a cabea, 
uns ombros em cima dos quais descarregasse o fardo... 
A porta abriu-se devagarinho e Dilcey entrou, corn o petiz de Melanie apertado ao peito e a cabaa 
#
de aguardente na mo.  luz fumarenta e incerta da improvisad lamparina ela deu a Scarlett a 
impresso de estar mais magra do @ue na ltima vez que a vira. No rosto notava-se-lhe 
distintamente a ascendncia india, com as mas mais salientes, o nariz mais convexo acor 
acobreada mais viva. Trazia aberto o corpete do vestido de chita desbotada, Onde avultava o peito 
forte e bronzeado. 0 pequeno de Melanie premia gulosamente os lbios plidos contra o 
533 
mamilo negro, ao mesmo tempo que esfregava os dedinhos na pele sedosa do seio. 
Searlett levantou-se num movimento pouco firme e poisou a mo no brao de Dilcey, dizendo: 
-Fizeste bem em ficar. -Como  que eu havia de i com esses maus ngo, depois de seu pap t a 
bondade de nos compr a minha Prissy e eu, e depois da sua mam s to am",'@,el? 
Senta-te Dilcey. 0 menino pegou bem, no  verdade? Como vai a senhora Melanie? 
Quanto ao minino no h nada mau, porque eu tenho com que aliment. E sinhora Melanie tambm 
vai mi. No se aflija, minina Scarlett. Ela est fatigada e nervosa e apoquenta por causa de seu 
filhinho, Mas eu sosseguei. Dei a ela um pouco desta cabaa e sinhora adormeceu. 
Deste modo a aguardente de milho servira para toda a famlia. Scarlett pensou se no deveria dar 
uma gota a Wade, para ver se lhe passariam os soluos. Os seus pensamentos continuavam em 
doida sarabanda. E quando Ashley voltasse... se um dia voltasse... No, mais tarde reflectiria nisso. 
Tinha agora tanto em que se entreter .. Tantos'negcios a resolver, tantas decises a tomar... De 
sbito, teve um sobressalto. Acabava de quebrar o silncio da noite um estalido seguido dum rumor 
de roldana. 
-- Bab que tira gua para mininas. Elas tomam muitos banhos-explicou Dilcey, descansando a 
cabea sobre a mesa entre um copo e frascos de remdios. 
Ento Scakett desatou a rir. Devia estar realmente com os nervos muito excitados para que tivesse 
medo do ranger da corda do poo, barulho a que se acostumara desde a mais tenra infncia. Diley 
viu-a rir e continuou impassvel, cheia de dignidade. Todavia, Scarlett adivinhou que a escrava a 
compreendia. Recostou-se na cadeira e pensou quanto seria bom desabotoar-se, descalar-se... 
A cada rangido no poo, a corda enrolava-se e trazia o balde at ao cimo. Bab no devia tardar. A 
ama de Ellen, a sua ama! 0 petiz de Melanie j menos esfomeado, choramingava por ter perdido o 
bic6 do selo, e Dilcey guiou-lhe silenciosamente a boca. Scarlett escutava agora os passos 
vagarosos de Bab no corredor. Estava to calma, a noite! 
0 mais pequeno som tomava propores grandiosas. 
Bab aproximou-se da porta e o escuro corredor pareceu tremer sob os seus ps. Por fim entrou. 
Trazia dois pesados 
534 
baldes de gua e mostrava expresso de tristeza e abatimento.  vista, porm, de Scarlett, o seu 
olhar brilhou, os dentes cintilaram. Scarlett precipitou-se' para ela e escondeu 
a cabea no peito vasto em que tantas outras cabeas, pretas e brancas, se haviam refugiado. 
"Finalmente, eis uma pessoa com quem posso contar, um ser que me lembrar a vida passada". Mas 
as primeiras palavras de Bab dissiparam-lhe as iluses. 
-Voltou a minina querida da Bab! Oh, minina, agora que sua mam est na cova, que vai s da 
gente? Mais valia eu est tambm ao lado dela! No posso faz nada sem sinhora Ellen. Isto agora  
s misria! Que trabalhos, minina, que trabalhos! 
Enquanto Scarlett ficava imvel, com a cabea apoiada ao peito da negra essa palavra "trabalho" 
continuava a soar-lhe aos ouvidos. Era isso que a obcecava j desde algum tempo. De regresso a 
Tara, no gozaria dum repouso merecido; teria de tomar aos ombros um fardo ainda maior. Recuou 
um pouco e, com ambas as mos, ps-se a acariciar as faces da escrava. 
-Minha minina querida as suas mos... Pegou-lhe nas mos cob@rtas de empolas e mirou-as 
horrorizada. Searlett calculou o que Bab lhe iria dizer em seguida: que as raparigas com mos 
estragadas e sardas na cara no encontravam marido. E mudou logo de assunto: 
- Bab, fala-me da mam. Custa-me muito, mas o que no quero  ouvir o pap falar dela. 
1 Com os olhos subitamente cheios de lgrimas, a preta abaixou-se a fim de levantar os dois baldes. 
#
Sem dizer palavra'levou-os at ao p da cama e depois puxou o lenol @ 
ara baixo e comeou a despir as camisas de noite de uellen e de Carreen. Scarlett, que observava as 
irms  claridade tnue da lamparina de acaso, notou que Carreen tinha camisa limpa mas 
esfacelada e que Suellen estava envolta num velho penteador castanho enfeitado de rendas. Bab 
chorava em silncio. ao passar a esponja nesses dois corpos descarnados e ao enxug-los com um 
avental,  guisa de toalha. - Minina, foram os Slatterys, esses infeliz que mataram minha sinhora 
Ellen. Eu lhe disse muita vez que no valia pena se cans por causa de desgraado, mas sinhora 
Ellen era muito teimosa e de to bom corao que no queria sab destes aviso. 
535 
-Os Slatterys? - repetiu Scarlett, intrigada. - Que fizeram eles? 
-Tinham apanhado doena. Emmie, a filha da velha snhora Slattery, veio c a toda a pressa busc 
minha sinhora como fazia sempre que acontecia qualquer coisa. No podia trat szinha de sua 
minina? E minha sinhora foi trat da doente. Sua mam no andava boa tambm, no comia muito 
porque no havia muita coisa de com, com todos estes homens c na casa. Comia menos que 
passarinho. Eu disse a ela muitas vez que deixasse esses infeliz, mas sinhora no fazia caso. Pois 
quando minina Slattery ia mi, nossa Carreen cai com doena. A mosca dos tifo veio com sinhora 
at aqui e picou minina Carreen. Depois foi a vez de minina Suellen. Ento minha sinhora comeou 
a trat de suas filha. Eu pensava enlouquec com aquela guerra toda e as pessoas a fugi e mininas 
sem remdio que tom. Uma noite minha sinhora disse assim: "Bab, se eu pudesse vend minha 
alma, eu vendia pra salv minhas filha". No deixava entr aqui sinh Gerald nem mais ningum 
seno a mim, porque eu j tinha tido febre tifide. E ento ela apanhou doena tambm... - 
Endireitou-se, e limpou as lgrimas com a orla do avental. -No durou tempo nenhum, minina 
Scarlett, e esse bondoso dout yankee no pde faz nada. No dava acordo de si, eu falava e ela 
no respondia, mas conhecia que era a sua Bab. 
- Nunca pronunciou o meu nome? 
- No, minha querida. Ela pensava que era ainda minina em Savannah. Nunca chamou ningum por 
seu nome. 
Dilcey mexeu-se e poisou o nen adormecido nos joelhos. 
- Sim, minina, chamou por algum. 
- Cala tua boca, preta ndia! - exclamou Bab, voltando-se para Dilcey com ar ameaador. 
-Sossega, Bab. Quem  que a mam chamou, Dilcey-? Foi o pap? 
-No, minina. No foi seu pap. Foi na noite em que ardeu algodo. 
- J no h algodo? 
- No h minina. Os soldados tiraram os fardos do alpendre e l@e pegaram fogo. 
536 
Trs colheitas de algodo... cento e cinquenta mil dla- . dos1 res queima 
- E o incndio era to grande que parecia de dia. A gente teve muito medo que ardesse casa 
tambm. Estava to claro que se podia enfi uma linha na agulha. luz acordou sinhora Ellen, 
que se sentou em sua cama e chamou muita vez em voz alta: "Philippe! Philippe!" Eu nunca tinha 
escutado um nome como esse, mas devia s um nome de pessoa... 
Bab parecia petrificada e no despegava os olhos de Dilcey. Searlett escondeu a cabea nas mos. 
Philippe... Qum seria? Quem fora esse homem, para que a me o chamasse  hora da morte? 
Depois daquela viagem toda, Scarlett dera com 'o nariz na parede, como se costuma dizr - ela que a 
devia acabar atirando-se aos braos da me! Jamais poderia adormecer sossegada, sob o telhado 
paterno, confiante no amor tutelar da me. Terminara o perodo de segurana, perdera-se o porto de 
abrigo. Por mais que procurasse no encontraria da em diante ningum que a ajudasse, ningum a 
quem pudesse transmitir o fardo. 0 pai estava alquebrado, as irms doentes, Melanie era muito 
fraca, os pequenos no contavam ainda para nada os pretos erguiam para ela rostos de expresso 
risonha'e infantil, convencidos de que dali viria a salvao, como viera anteriormente de Ellen. 
Pela janela, Scarlett via Tara iluminada de luar. A maioria dos escravos partira ' os campos estavam 
devastados, as granjas reduzidas a cinzas. Tara jazia acol como um ,corpo ensanguentado, como o 
#
prprio corpo dela, que vertia gota a gota. Eis o que a esperava ao fim da jornada: velhice trmula, 
doenas, bocas esfaimadas, mos impotentes que se lhe agarravam s saias, No extremo do caminho 
s existia Scarlett O'Hara Hamilton, mulher de dezanove anos, viva, e me dum filho. 
Que devia fazer? A tia Pitty e os Burrs poderiam tomar conta de Melanie e do pequeno desta, em 
Macon. Se as irms escapassem, a famlia teria de as sustentar, de bom ou de mau grado. Quanto a 
ela mesma e ao, pai, ambos Podiam solicitar assistncia dos tios James e Andrew. Cogitando, 
olhava para aquelas formas franzinas que se agitavam debaixo do lenol, Nunca gostara muito de 
Suellen, compreendia-o agora muito bem. Por Carreen tambm no 
537 
sentia particular afeio. Achava impossvel estimar os seres fracos. Mas as duas pequenas eram do 
mesmo sangue que o dele, faziam parte de Tara. No, no as deixaria levar a vida de parentes 
pobres no lar das tias. Uma O'11ara a sofrer humilhaes e a comer de esmola? Ah, isso nunca! 
No haveria, pois, nenhum meio de sair daquela situao? 0 esprito cansado de Scarlett s tinha 
nessa altura reaces lentas. Levou as mos  cabea, num gesto to difcil como se os braos 
tivessem de deslocar gua e no o ar. Pegou na cabaa e olhou para dentro: restava ainda 
aguardente; no saberia a quantidade certa, porque estava muito escuro, E percebeu, surpreendida, 
que o cheiro violento do lquido j no lhe causava repugnncia. Bebeu ento devagar, sem 
experimentar desta vez nenhuma sensao de ardor, s um reconforto que a entorpecia pouco, a 
pouco. 
Descansou a cabea vazia entre o copo e o frasco de remdio e circurivagou o olhar pelo quarto. 
Pareceu-lhe tudo um sonho. Sim ' um sonho estar nesse aposento obscuro cheio de fumo, com as 
irms estiradas na cama, Bab e@orme e informe, Dilcey imvel com o mido ao peito... Um sonho 
a cujo despertar sentiria o cheiro do presunto frito na cozinha, ouviria o riso dos pretos, o barulho 
das carroas a caminho do campo... e viria Ellen estender~lhe os braos. 
Ento percebeu que estava no seu prprio quarto, deitada na cama, 0 luar lutava dbilmente contra 
as trevas. Bab e Dilcey despiam-na; as baleias do espartilho no a torturavam j podia dilatar os 
pulmes  vontade e resprar a fundo' Notou que lhe descalavam as meias com inuitas precaues e 
ouviu a Bab murmurar palavras consoladoras, ao mesmo tempo que lhe banhava os ps cobertos 
de empolas. Como a gua era refrigerante, como era bom estar estirada como uma criana, em cima 
dum colcho macio! Soltou um suspiro, abandonou-se, e da a um momento (de que foi incapaz de 
avaliar a durao) achou-se s no quarto  este pareceu-lhe mais iluminado, porque os raios da lua 
se filtravam at junto do leito. 
No sabia que estava bria, bria de fadiga e de aguardente. Sabia apenas que deixara <> corpo e 
que flutuava algures num mundo onde no existia nem dor nem lassido, 0 esprito viu tudo com 
sobre-humana claridade. 
Considerava as coisas por um prisma novo, pois deixava 
538 
para trs, rio Caminho que a trouxera a Tara, o que lhe restava da infncia. J no era o barro 
argiloso sobre o qual cada movimento punha a sua marca. 0 barro endurecera no decurso dessa 
caminhada, que devia ter durado mil anos... Ei~la mulher, com a juventude consumida. 
No, no devia nem podia rogar assistncia  famlia de Gerald O'Hara nem  de Ellen. Os O'Haras 
no imploravam caridade: sabiam desenvencilhar-se s?)zinhos. Cara-lhe nos ombros um fardo 
pesado mas os seus ombros conseguiriam aguent-lo. Scarlett najo ficou admirada ao verificar que 
os seus ombros teriam fora para suportar qualquer peso. No devia abandonar Tara. Tal como um 
algodoeiro, estava profundamente enrazada nessa terra cor de sangue, donde hauria a vida. Ficaria 
em Tara e f-la-ia manter-se @omo pudesse; olharia tambm pela existncia do pai e das irms, por 
Melanie e pelo filho de Ashley, pelos pretos... Amanh... Oh, amanh ajustaria o jugo ao pescoo! 
Amanh havia muito que fazer! Iria aos Doze Carvalhos e aos Mac Intoshes ver se r,estava qualquer 
coisa nos jardins desertos iria para a banda do rio aos matagais,  procura de galin6s e porcos 
extraviados, iria a Joriesboro e a Love~ joy com as jias de Ellen... Devia ter ficado alguma que se 
pudesse vender. Amanh, amanh... 0 esprito trabalhava-lhe cada vez mais devagar, como a 
#
pndula dum relgio sem corda, Mas no perdia a nitidez. 
De repente, tornaram-se claras como cristal as histrias familiares que ela muita vez ouvira contar 
sem as entender. Gerald, sem vintm, reedificara a quinta de Tara. Ellen triunfara dum desgosto 
misterioso. 0 av Robillard, sobrevivente do naufrgio napolenico, recuperara a riqueza na Costa 
frtil da Gergia. 0 bisav Prudhomme construra unia espcie de reino em plena selva do Haiti e, 
depois de o ter perdido, vivera ainda o bastante para ver o seu nome respeitado em Savannali. Havia 
ainda os antepassados que tinham combatido por uma Irlanda livre nas fileiras dos voluntrios e 
tinham sido, por esse delito, enforcados; e ainda os que morreram na batalha de Boyne, lutando at 
ao fim para defenderem o que lhes pertencia. 
Todos haviam sofrido Drovaes que desanimariam Outras pessoas, e no tinham perdido a 
coragem. No soobraram na derrocada dos imprios, nem as revoltas de escravos, nem as guerras, 
nem as revolues os venceram in qualquer altura. 0 destino cruel tratara-os mal, no lhes 
539 
im 
m@I 
arrefecera o ardor. Lutaram sem derramar lgrimas. Os fantasmas de toda essa gente, cujo sangue 
corria nas veias de Scarlett, pareciam mover-se tranquilamente no meio desse quarto banhado de 
luar. E ela no sentia espanto ao ver os da sua raa 'esses que  fora de energia tinhani dominado a 
sorte mais rebelde. Tara representava o seu destino, o combate da sua vida, a luta que ela devia 
travar. 
Quase adormecida, voltou-se para um lado, Pouca a pouco o esprito se lhe encheu de trevas. 
Realmente estavam ali os fantasmas? Sussurravam-lhe, de facto, palavras de nimo? Ou era apenas 
um sonho? 
-Pouco importa que estejais a ou no= balbuciou. - 
Boa noite... e obrigada! 
25 
NA manh seguinte estava o corpo de Scarlett to entorpecido e martirizado pelas longas milhas 
andadas e pelos solavancos da carroa que ela experimentava dores atrozes a cada movimento que 
fazia. Tinha a cara avermelhada da exposio ao sol'e a palma das mos em carne viva. Por causa da 
lngua saburrosa e da garganta seca, no descansava de beber gua sem conseguir no entanto, matar 
a sede. Parecia-lhe que a cabea lhe inchara, e at o simples mover dos olhos lhe causava aflies. 
Com o estmago embrulhado como no tempo da gravidez, mal podia suportar o cheiro do prato de 
inhames que lhe tinham apresentado ao primeiro almoo. Gerald poderia inform-la de que se 
tratava de reaco normal do organismo contra o excesso de aguardente ingerida; mas a verdade  
que Gerald no dava f de nada, era apenas um velho que ocupava agora o lugar principal da mesa. 
Fixando a porta com o seu olhar mortio, estendia de vez em quando o pescoo como se ouvisse o 
ruge-ruge das salas de Ellen ou pressentisse o aroma do saquitel de lcia-lima. 
Quando Scarlett se sentou ele disse entre dentes: "Vamos esperar pela senhora 'Hara, Est a 
demorar-se". Apesar do sofrimento que o gesto lhe ocasionava, Scarlett ergueu a cabea, Custavalhe 
a crer o que ouvira, mas cruzou a vista com a de Bab, que parecia suplicante e se conservava de 
p por trs da cadeira de Gerald. Examinou 
540 
ento o pai, que a luz da manh iluminava: notou que as mos lhe tremiam e que a cabea oscilava 
um pouco. 
S ento compreendeu at que ponto contara com o pai para tudo dirigir, aos outros e a ela. 
Contudo, na vspera  noite, ele parecia quase normal.  claro que j no se lhe encontravam 
vestgios da sua vitalidade de outrora, mas, em todo o caso, dir-se-ia apto a reunir duas ideias; ao 
passo que, presentemente... nem se lembrava de que a mulher havia morrido! A chegada dos 
yankees e o falecimento de Ellen tinham constitudo dois abalos muito fortes, de que ele no fora 
capaz de se restabelecer. Scarlett ia falar quando a Bab abanou a cabea e, pegando no avental, 
limpou os olhos hmidos. 
#
"Meu pai teria perdido o juzo?" pensou Scarlett, ao niesmo tempo que esse novo desgosto lhe dava 
a impresso de por sua vez a enlouquecer. "No, no  isso. Est muito abatido, nada mais. - uma 
doena, de que se h-de curar. Seno, que seria de mim? Nem quero lembrar-me disso. Por agora 
no desejo ocupar-me nem dele, nem de minha me, nem de nada destas coisas horrveis, Esperarei 
que me voltem as foras. E, alm de tudo preciso reflectir noutros assuntos, os quais no podem 
se@ resolvidos por mim". 
Deixou a casa de jantar, sem haver comido nada, e chegou  varanda das traseiras ' onde encontrou 
Pork. Des-calo, com a libr esfarrapada, estava sentado num degrau * descascar amendoim. 
Scarlett sentia zumbidos e tonturas, * sol encandeava-a, fazia-lhe doer os olhos; s para conservar 
direita a cabea lhe era necessrio empregar grande esforo de vontade. Comeou a falar o mais 
laconicamente possvel, evitando recorrer s frmulas usuais de delicadeza que a me sempre 
recomendara se empregasse no trato com os pretos. As perguntas que fazia eram em tom brusco, as 
suas ordens imperiosas -de tal modo que Pork alou as Sobrancelhas e fitou-a como se se tratasse de 
brincadera. Jamais a senhora Ellen falara com tanta secura, nem sequer quando os surpreendia a 
furtar galinhas ou melancias. E critinua a pedir uma data de esclarecimentos sobre o estado das 
terras, dos jardins, dos animais. Nos seus olhos verdes resplandeciam um brilho duro que Pork no 
tinha visto ainda. 
- Sim, sinhora, esse cavalo morreu mesmo no lug onde eu amarrei. Tinha seu focinho dentro do 
balde. No, 
541 
sinhora, a vaca no morreu, teve um vitelo esta noite. Sinhor no sabia? Por isso  que gemia 
tantas vez. 
-A tua Prissy h-de dar uma esplndida parteiraobservou Scarlett em tom custico. - Dizia ela que a 
vaca mugia por ter muito leite. 
- Sinhora, Prissy no qu s parteira de vaca - decla. rou Pork, muito srio. - No vale a pena se 
zang. E com este vitelo a vaca vai t muito leite para mininas conio doutor yankee disse que era 
preciso elas tom. 
- Tanto melhor. E que mais, quanto aos outros bichos? 
- No. fic nada seno porca com seus leitozinhos. Quando yankee chegaram levei os porco para o 
mato, mas s Deus sabe como se pode agora encontr. Esta porca  muito arisca. 
- Acabaremos por lhe deitar a mo. Tu e Prissy podieis muito bem ir j em sua procura. 
Pork estava simultneamente surpreendido e indignado. 
- Sinhora  trabalho de campons. Eu sempre servi patro em ca'sa. 
Brilharam mais os olhos de Scarlett, que ripostou: 
- Ireis ambos apanhar essa porca... seno eu vos porei a andar, atrs dos outros pretos que 
trabalhavam no campo, 
As lgrimas banhavam j o rosto de Pork. Oli se ao menos a senhora Ellen fosse viva! Ela 
compreendia perfeitamente todas essas pequeninas distines que existem entre um criado preto e 
um servo de lavoura. 
-Pr a and? Mas para onde minina Scarlett? -No sei, nem me interessa.'0 que digo  que quem no 
quiser trabalhar aqui em Tara, ter de ir com os yankees. Previne os outros. _ Sim, sinhora. 
-Agora fala-me do algodo e do milho. -0 milho! Meu Deus, eles deixaram seus cavalos no 
milharal, e o que cavalo deixou eles levaram para com. Depois passaram com canho por cima da 
terra tanta vez que no ficou algodo nenhum. Resta s coisa pra d trs fardo e nada mais. 
Trs fardos! Scarlett lembrou-se dos muitos que Tara produzia cada ano, e a dor de cabea 
aumentou-lhe de intensidade. Trs fardos! Nem chegava ao que os miserveis dos Slatterys 
colhiam, E ainda por cima havia aquilo dos impostos. 0 Governo Federal recebia-es em gneros, 
mas trs fardos no chegavam para pagar, Alis, o caso 
542 
simplificava-se pensando que nem havia quem fosse colher esse POUCO. 
"Mais tarde resolverei isso", disse ela consigo. "As mulheres no tm nada a ver com os impostos. 0 
#
pap  que devia ocupar-se deste assunto... 0 que preciso agora  saber com que havemos de matar a 
fome". 
- Pork, algum de vocs foi aos Doze Carvalhos e a casa do senhor Me Intosh ver se ficou qualquer 
coisa nos campos? 
- No, sinhora, ningum saiu de Tara. os yankee podiam agarrar a gente, 
-Vou mandar Dilcey a casa dos Me Intoshes. Talvez que l descubra qualquer coisa. Eu irei aos 
Doze Carvalhos. 
-Com quem ' minina Scarlett? 
S. A Bab no pode deixar as meninas, e o senhor Gerald... 
Pork soltou um grito de reprovao, que teve como efeito exasperar Scarlett. Que no fosse ' 
insistiu ele, pois devia haver yankees por ali, ou vadios negros. 
-Basta, Pork, Dize a Dilcey que parta imediatamente. Tu e Prissy tratareis de ir apanhar a porca e os 
leites. 
Deu estas ordens, e rodou nos calcanhares. Num cabide da varanda estava o chapu velho mas 
limpo, com que .Bab se protegia do sol. Scarlett @-lo na cabea e lembrou-se (como uma 
recordao longnqua) do chapu de plumas verdes que Rhett lhe trouxera de Paris. Muniu-se dum 
cesto largo e comeou a descer a escada da varanda. A cada p~ sentia uma espcie de 
estremecimento, no crnio. Parecia-lhe que a espinha estava a querer furar-lho, a fim de sair por ali. 
0 caininho que levava ao rio era vermelho e abrasador, cortando em dois o terreno do algodo, 
agora devastado. Nem uma rvore a cuja sombra se abrigasse! 0 sol atravessava o chapu de Bab 
como se fosse de vidro; a poeira' entrava-lhe pelo nariz e secava-lhe a garganta. Onde os cavalos 
haviam passado, havia sulcos profundos: as rodas dos canhes tinham destrudo as valas destinadas 
 gua. Viam-se ps de algodoeiro esmigalhados e encontravam-se c e l bocados, de arreios, 
botes, qupis azuis, botas rotas, tiras de uniforme, restos deixados por um exrcito em marcha. 
Scarlett passou diante dos cedros e do muro de tijolos que enquadrava o cemitrio familiar. E 
diligenciou no 
543 
pensar na cova que fora recentemente aberta ao p das trs modestas sepulturas dos irmozinhos. 
Arrastando-se quase, Searlett desceu o outeiro Poeirento, e passou rente aos cedros e  chamin dos 
Slatterys, nicas ,coisas que lhes haviam ficado da propriedade. Esses Slatterys... bem podiam ter 
morrido todos no incndio! Sem eles, Ellen no apanharia o tifo que a matou. 
Deu uma topada num calhau e soltou um gemido. Corno se compreendia que Scarlett O'Hara, a 
rainha da regio o orgulho de Tara andasse por ali a penar, quase descala, naquele caminh@ 
escabroso? Os seus pzinhos delicados tinham sido feitos para a dana; as chinelinhas no haviam 
sido destinadas para sair  rua. Nascera para ser servida e adulaa; ei-la afinal doente e andrajosa, 
acossada pela fome, disposta a vasculhar os quintais dos vizinhos a vi@r se descobria alguma coisa 
que comesse. 
Na base da-colina deslizava o rio. Que bela a sombra das rvores tranquilas, que a se ostentavam! 
Scarlett. sentou-se na margem baixa, descalou as chinelas e as meias esburacadas e molhou os ps 
ardentes na gua fresca. Seria to bom fugir aos trabalhos de Tara, ficar ali sentada todo o dia, nesse 
lugar onde s quebravam o silncio o rumor das folhas e o murmrio do rio. Contudo e custasse o 
que custasse, precisava de se tornar a calar e prosseguir o seu caminho. Os yankees tinham 
queimado a ponte, mas poucos metros abaixo dela sabia do tronco duma rvore que ligava as duas 
margens. Por ai enfiou com todas as cautelas, e da a pouco trepava, a sol descoberto, a estrada que 
conduzia aos DGze Carvalhos. 
Esses carvalhos, que tinham dado nome  quinta, erguiam-se l como no tempo dos ndios mas o 
fogo crestara-lhes as folhas e atacara os ramo,@. Formavam um crculo, no meio do qual se 
amontoavam as runas da casa de John Wilkes, essa residncia senhorial que outrora' coroava o 
outeiro com as suas colunas brancas. Viam-se os alicerces calcinados, e, de p, nicamente duas 
charnins majestosas: Atravessada na relva, estava estendida uma coluna, esmagando com o seu 
peso as moitas de jasmins. 
#
Scarlett sentou-se nessa coluna. 0 espectculo impressionava-a tanto que ela no tinha coragem de 
ir mais longe. Jazia por terra tudo que fizera o orgulho dos Wilkes. Assim desaparecera essa manso 
imponente onde ela debalde esperara reinar um dia como castel. Ali danara, ceara, tivera 
544 
os seus namoros; ali observara, ciumenta, o modo como Melanie sorria a Ashley: ali tambm,  
sombra fresca do arvoredo Charles Hamilton, louco de amor, apertara-lhe a mo qua@do ela lhe 
dissera que o aceitava por marido. 
"oh, Ashley!" pensou. "Espero que tenhas morrido. Faltar-me-ia a coragem de te deixar ver tudo 
isto". 
A conduzira Astiley a sua mulher; porm o filho deles, e o filho do filho, jamais resideriam acol. 
No se realizariam mais enlaces nos Doze Carvalhos 'no haveria mais nascimentos debaixo 
desses tectos agora abatidos, A casa estava morta e, para Scarlett, era como se todos os Wilkes 
houvessem ali encontrado a morte, no meio das cinzas. 
"Por enquanto no quero pensar nisto. No resistiria. Mais tarde, mais tarde ... " murmurou ela, 
desviando a vista. 
Contornou com dificuldade essas runas, passou defronte dos canteiros de rosas, atravessou o ptio 
e abriu caminho entre os escombros dos galinheiros e dos estbulos. J no existia a vedao da 
horta, e os legumes tinham padecido a mesma sorte dos de Tara. Os cascos dos cavalos as rodas 
pesadas haviam revolvido a terra mole e as planias foram esmagadas e afundadas. L no ficara 
nada -que Scarlett pudesse aproveitar. 
Dirigiu-se s cubatas dos escravos, gritando: "Est a algum?" Mas nenhuma voz lhe respondia. 
Nem um co, ao menos, que ladrasse. Sem dvida que os pretos dos Wilkes haviam seguido atrs 
dos yankees. Sabia que cada escravo possua um bocado de horta e foi at s cubatas na esperana 
de ver algum deles poupado. 
Os seus esforos foram recompensados, todavia o cnsao era tanto que ela mal podia regozijar-se 
com o espectculo dos nabos e das couves. Estes, ainda, que ressentids da falta de gua, sempre 
seriam aproveitados, assim como os feijes e os gros cujas vagens amarelavam. Sentou-se no cho 
e, com mo, trmula, ps-se a colher e a encher o cesto. Nessa noite haveria boa ceia em Tara, 
apesar da ausncia de carne; alis, no pareceria descabido temperar os legumes com aquela banha 
que Dilcey utilizava na iluIninao. Diria  escrava que empregasse antes resina e guardasse a 
banha para os gastos da cozinha. 
Atrs duma. cubata descobriu uma fila de ceriouras e logo se lhe despertou o apetite. Uma cenoura, 
bastante amarga, eis o que o seu estmago reclamava! Mal teve tempo de esfregar a cenoura na 
saia, para lhe tirar a terra: 
35 - vento ievou - 1 545 
trincou logo metade e engoliu-a. Estava velha e dura e to amarga que as lgrimas lhe acudiram aos 
olhos. Depressa o estmago se revoltou, produzindo-se vmitos. 
0 cheiro a catinga que se evolava da cubata aumentou-lhe o mal-estar, e, sem fora para reagir, 
vomitou quanto pde, enquanto via as rvores girarem em torno dela. 
Ficou um bocado deitada. A terra estava macia como um colcho de penas. Assim prostrada, 
deixou-se invadir pelas recordaes, que bailaram  sua roda como corvos atrados pela morte. J 
no tinha fora para dizer: "Pensarei depois na me, no pai, em Astiley, em todas estas runas ... " 
Via-se obrigada a pensar em tudo isso quer o quisesse quer no. Os pensamentos traavam 
cIr@ulos em volta dela, aproximavam-se, fendiam-lhe o crebro com unhas e bicos aguados. 
Durante um tempo impossvel de avaliar, ali ficou inerte, com a cara no cho, exposta ao sol_a 
evocar coisas e pessoas desaparecidas, a recordar-se dum modo de vida para sempre extinto a 
considerar o futuro sombrio que  sua frente desdobr@va tristes perspectivas. 
Quando por fim se levantou e contemplou mais uma vez as ruinas enegrecidas dos Doze Carvalhos, 
dir-se-ia haver perdido um pouco da sua juventude, da sua beleza, e dessa reserva de ternura que 
outrora a se continha. 0 passado era apenas o passado. Os mortos estavam bem mortos. 
0 luxo indolente dos dias pretritos desaparecera de vez, nunca mais voltaria. E, com um gesto que 
#
significava admirvelffiente a maneira como ela entendia portar-se da por diante, enfiou o brao na 
asa do cesto e olhou em frente -j que no podia voltar atrs. 
Em todo o Sul iria haver durante cinquenta anos mulheres que lanariam um olhar melanclico ao 
passado mor ito, aos homens mortos; que evocariam em vo coisas saudosas, que envolveriam a 
sua pobreza num manto de orgulho ferido. Mas Scarlett nunca mais olharia para trs de si. 
A fome acicatava-a e ela disse em voz alta: -Tomo Deus por testemunha que os yankees no me 
vencero. Resistirei, e, quando houver atravessado todas estas provaes, no voltarei a ter o 
estmago vazio. Nem eu nem os meus. Ainda que tenha de roubar ou matar! Tomo Deus como 
testemunha, no terei toda a vida o estmago vazio! 
546 
Durante os dias que se seguiram, Tara bem poderia considerar-se a ilha deserta de Robinson 
Cruso, tanta era a sua calma e o isolamento do resto do mundo. Na verdade, o mundo estava a 
poucas milhas de acol, mas era como se milhes e milhes de ondas separassem Tara de 
Jonesboro, de Faytteville, de Lovejoy ou mesmo das plantaes vizinhas. Como morrera o cavalo, o 
nico meio de transporte desaparecera com ele. E os habitantes de Tara no tinham nem tempo nem 
foras para se arrastarem por milhas e milhas ao comprido, dos caminhos de terra vermelha. 
s vezes, quando realizava um trabalho extenuante, ou quando afligia o esprito a matutar no que 
haveriam de comer, ou ainda quando prodigalizava incessantes cuidados s trs enfermas Scarlett 
surpreendia-se a querer distinguir os rudGs'fa@niliares o riso dos moleques a brincarem  frente 
das cubatas, o @anger das carroas de volta das terras, o galope surdo do cavalo de Gerald, o chiar 
das rodas no saibro da alameda, a voz dos vizinhos que vinham tagarelar  tarde. Mas escutava em 
vo. A estrada continuava silenciosa e deserta, nenhuma nuvem de p encarnado denunciava a 
aproximao de visitantes. Tara era uma ilha num mar decolinas verdes e de campos avermelhados. 
Algures existia o mundo, e famlias quecorniam e dormiam sossegadamente, debaixo do seu prprio 
tecto. Algures havia raparigas bem vestidas que namoravam e cantavam Quando a Guerra 
Acabar,'como ela mesmo fizera algumas semanas antes. Algures prosseguia a guerra, troava o 
canho ardiam cidades apodreciam soldados nos hospitais, nunia atmosfera de'cheiros 
nauseabundos. Algures um exrcito descalo marchava, combatia e morria, de fome, esgotado e 
sem esperana. Algures, enfim, estavam os montes de Gergia repletos de uniformes azuis: bem 
comidos e bem bebidos, os yankees montavam cavalos saciados de cevada. 
Para alm de Tara, era a guerra, era o mundo. Mas na plantao a guerra e o mundo no existiam j 
seno na memria, em -recordaes que era foroso rechaar quando faziam a sua investida. E o 
mundo no era nada comparado com a exigncia dos estmagos vazios; a prpria vida se reduzia a 
duas ideias fundamentais: comer e achar com que comer. ,Comer! Comer! Por que que o estmago 
tinha melhor memria do que a alma? Scarlett podia fazer calar a sua 
547 
4"' 
dor; mas a fome, era impossvel. Cada manh, ainda ensonada, antes que se lembrasse de qualquer 
coisa Searlett espreguiava-se a saborear num meio sonho as &lcias do presunto frito e dos 
pezinhos quentes. 
Havia mas, inhames, amendoim e leite na mesa de Tara, mas at estes alimentos i)rimitivos se 
apresentavam em quantidade insuficiente. Serviam-no trs vezes por dia e, ao v-los, Scarlett 
reportava-w-aos bons tempos idos, s refeies de outrora,  mesa iluminada de vela e 
rescendente do calor dos pratos. 
Que pouca ateno davam nessa altura  comida! Que prodigioso desperdcio! Pezinhos, broas, 
torradas, tudo bem barrado de manteiga, tudo na mesma refeio... Presunto a um lado da mesa, 
galinha no outro, couves boiando em molho nos pratos de porcelana decorados de florinhas, 
montanhas de feijes, abboras e cabaas, cenouras dentro dum creme to espesso que se podia 
cortar  faca... E trs pudins  sobremesa em que predominava o chocolate. A recordao 
destas'coisas delicadas tinha o condo de levar lgrimas aos olhos de Scarlett, ao passo que a morte 
e a guerra no o tinham conseguido. E esse apetite robusto (que a Bab sempre havia censurado) 
#
aumentava agora com os trabalhos rudes e variados a que presentemente Scarlett estava condenada 
a fazer. 
Alis, em Tara, a sua vontade de comer no era nica: para que banda se voltasse s via rostos 
esfomeados, de pretos e de brancos. Mais di@ menos dia, Carreen e Suellen iriam sentir o apetite 
insacivel dos que escapam  febre tifide. J o pequeno Wade choramingava, a dizer que no 
gostava de inhame, que desejava outra comida. 
0 resto da famlia resmungava tambm. 
- Minina, se eu comesse mais, podia d mais leite s crianas -observava Dilcey. 
- Sinhora, se eu tenho barriga mais cheia posso parti mais lenha. 
-Ai que fome, minina! .-Oh, filha, vamos passar a vida a comer inhame?! S Melanie  que no se 
queixava. Melanie cujas faces se tornavam mais magras e plidas e se contrala com dores mesmo 
durante o sono. _ No me apetece nada, Scarlett. D a minha rao de leite a Dilcey, que precisa 
para poder alimentar os pequenos. Os doentes contentam-se com poucQ. 
548 
Esta abnegao, a que se misturava tanta delicadeza, tinha por efeito irritar Scarlett, que se sentia 
desarmada. Gerald, Wade, os pretos, todos se afeioavam cada vez mais a Melanie pois a despeito 
da sua fraqueza continuava afvel e co@descendente, qualidades que faltavam ento a Scarlett, 
Em especial Wade no sala-do quarto de Melanie. 0 pequeno tinha qualquer coisa, isso era certo, 
mas a me no atinava com o que fosse nem lhe restava tempo para investigar. Por fim, aceitou a 
opinio de Bab, que declarava serem lombrigas, e adminstrou-lhe uma decoco de ervas secas e 
cascas, de que se servia para purgar os moleques. 
0 vermfugo, porm, s teve como resultado aumentar a palidez de Wade. Aquele pequeno, para a 
me, no passava dum tropeo: uma preocupao a mais, mais uma boca a sustentar. L para diante, 
quando a crise passasse, entreter-se-ia ento com ele 'contar-lhe-ia histrias ensinar-lhe-ia as 
primeiras letras. Agora no dispunha d@ vagares, nem pachorra. E, como ele se lhe agarrava s 
saias nos momentos menos oportunos Sca,rlett tratava-o com certa dureza. 
Ahorrecia-se ver @ efeito que os seus ralhos produziam no rapazinho: dava-lhe um ar to assustado 
que ela receava pela inteligncia da criana. No percebia que Wade errava num ambiente de terror 
um terror que lhe perturbava o esprito e que, de noite, o'fazia soltar gritos dbeis. Ao mais pequeno 
rumor imprevisto, a uma simples palavra seca, ele ficava a tremer, pois na sua memria rudos e 
palavras cruis associavam-se  ideia dos yankees. 
At o cerco haver principiado, no meio de intenso canhoneio, Wade s conhecera uma existncia 
plcida, s vivera rodeado de carinhos; certa noite, porm, fora arrancado bruscamente ao sono: vira 
a atmosfera abrasada, ouvira exploses ensurdecedoras. Nessa noite a me esbofeteara-o pela 
primeira vez e falara~lhe com severidade. Acabara-se a vida pacfica, a nica que conhecia, da 
Peachtree Street, e essa perda parecia irremedivel. Ao fugir de Atlanta, s percebera que os 
yankees o perseguiam, e continuava com imenso medo de ser apanhado por eles. De cada vez que 
Scarlett fazia voz grossa, para o censurar o medo tirava-lhe toda a energia e a memria recordav@- 
lhe os horrores daquela noite em que, pela primeira vez, a me lhe falara de modo desabrido. Da 
por diante os yankees e as descomPosturas estariam associadas no seu esprito. 
549 
Searlett no podia deixar de ver que Wade comeava a evit-la. Nos raros instantes em que os 
trabalhos lhe deixavam tempo para reflectir, ela experimentava profunda con- @rariedade. Era 
ainda pior do que ter o pequeno agarrado as saias. Maava-a, notar que ele se refugiava na cama de 
Melanie onde se entretinha tranquilamente com as brincadeira@ que ela lhe sugeria e onde se 
comprazia a escutar as histrias que ela lhe contava. Wade -adorava aquela tia, que tinha uma voz 
to caricosa, que sorria sempre e nunca exclamava: "Cala-te, Wade! Fazes-me dor de cabea! Por 
amor de Deus est quieto!" 
Embora n@6 tivesse tempo nem feitio para o mimar, Scarlett sentia cimes de Melanie, por esta lhe 
tomar o lugar. Um dia, que encontrou Wade a fazer equilbrio na cama de Melanie e a cair em cima 
da tia, no se conteve e deu-lhe uma bofetada. _ No percebes que a tua tia est doente e que no 
#
deves estremecer a cama? Vai brincar para o quintal e no voltes to cedo! ,Mas a outra estendeu o 
brao magro e puxou o pequeno. 
- Eu bem sei que no era por mal, Wade. Ele no me incomoda, Scarlett. Deixa-o ficar ao meu 
cuidado.  tudo o que posso fazer, enquanto no melhoro. Tu tens trabalho entre mos... 
-No te faas tontinha, MeIly. As tuas melhoras no so ainda a que deviam ser, e no  com Wade, 
a saltar-te sobre o estmago que conseguirs restabelecer-te. Quanto a ti, pequeno, se volto a ver-te 
aqui aos pulos, aplico-te uma boa sova. Vamos, deixa-te de choramingar. No fazes outra coisa! V 
se tens, juzo. 
Soluando, Wade foi esconder-se num canto da casa. Melanie mordeu os lbios e os olhos encheram- 
se-lhe de lgrimas, A Bab, que docorredor assistira  cena, franziu a. testa e soltou um 
suspiro fundo. Mas nesse dia e nos que se seguiram ningum ousou contrariar Scarlett. Toda a gente 
parecia temer a nova personagem em que ela estava a transformar-se. 
Agora Scarlett reinava como senhora, absoluta de Tara. S= ia-lhe o mesmo que s pessoas 
investidas sbitamente nu funo de autoridade: os instintos tirnicos dominavam-na. No que ela 
fosse m por natureza; era porque tendo medo e no se sentindo segura de si prpria, mostrava 
intransigncia a fim de no lhe descobrirem a sua 
550 
falta de aptido e se no recusassem a obedecer-lhe. Alm disso, achava certo. prazer em falar alto, 
e verificar que a temiam. Finalmente, percebeu que isso lhe dava alvio, aos nervos exacerbados. 
Ela mesma se compenetrava de que ia mudando a sua personalidade. s vezes, ao, gritar uma 
ordem, num tom que fazia Pork arrepiar-se e Bab murmurar qualquer coisa entre dentes Scarlett 
pensava como  que perdera to, depressa as sus boas maneiras. Toda a cortesia e amendade que 
Ellen lhe incutira comeava a desprender~s,e como, folhas que se deslocam das rvores ao primeiro 
sopro frio do Outono. 
Ellen no deixara, de repetir: "S firme mas amvel, com os inferiores, sobretudo os pretos%. 0 
@io,r  que, se ,se, mostrasse amvel, os pretos no deixariam de passar o di@ inteiro na cozinha a 
falar interminavelmente dos bons tempos em que, fazendo servio em casa, ningum se lembrava de 
os mandar trabalhar nas terras. 
"Trata. das tuas irms, e estima-as" dissera Ellen. "Prodigaliza a tua ternura pelos que andam aflitos 
e sofrem". Nesse momento@, era-lhe impossvel estimar as irms que no pagsavarri dum peso 
morto nos seus ombros. Qua@to a cuidar delas... No lhes dava banho, no as penteava, no as 
alimentava, sacrificando-se at a marchar milhas e milhas diariamente '  procura de hortalias? 
No aprendera a ordenhar a vaca se bem que a, apavorasse a ideia de o animal lhe dar mrradas? 
Enfim, a bondade que a me preconizava reduzia-se a pura e simples perda de tempo. Se exagerasse 
a solicitude para, com w rms, estas prolongariam a sua permanncia no leito, e o que convinha  
que estivessem de p e, mais depressa possvel. 
A convalescena -de Carreen e Suellen dilatava-se. No recuperavam as foras e mantinham-se 
mergulhadas numa espcie de prostrao. 0 mundo mudara enquanto elas jaziam inconscientes na 
cama. Os yankees tinham vindo, os escravos haviam fugido a, me morrera, Trs factos incrveis 
que o esprito das @apaxigas a custo admitia. Chegavam a supor que deliravam ainda e que n(> 
sucedera nada disso. Scarlett transformara-sQ tanto que mal se acreditaria fosse a mesma. Quando 
se aproximava das irms e lhes dizia por alto os trabalhos em que tencionava ocup-Ias, Suellen e 
Carreen olhavam-na como, se tivessem o diabo  sua frente. Ficava alm da sua compreenso a 
ideia de que j no possuam uma centena de escravos 
551 
para as servir. Achavam inacreditvel que uma O'Hara precisasse de utilizar os braos e as mos. 
-Oh, Scarlett -observara Carreen, com o seu rosto infantil ensombrado pela consternao -eu nunca, 
poderia rachar lenha! Que seria dos meus dedos? 
-Olha primeiro para os meus-respondia Scarlett, com um sorriso inquietante. 
-J@; horrvel, falar-me assim e  mana!-exclamava SuelIn.-Estou convencida de que  para nos 
meteres medo. Se a mam fosse viva, no te deixaria dizer essas coisas. Rachar lenha' Essa agora! 
#
Convencida de que Scarlett procedia assim apenas por maldade, Suellen, no meio da sua fraqueza, 
encontrava ainda foras para detestar mais a irm primognita. Suellen estivera, quase a morrer. 
Perdera a me. Sentia-se s, tinha medo, precisava de ternura e de mimos. Em vez disto Searlett 
demorava-se todos os dias um bocado ao p d@ leito das irms e com uma chispa de dio nos olhos 
verdes, tratava de sab@r se elas iam melhorando e falava-lhes das camas por fazer, dos pratos a 
preparar dos baldes de gua a encher, da lenha que devia, ser ra;ada. E dir- @se-ia que tirava 
prazer maligno em pormenorizar essas are as horrveis. 
De facto, Scarlett tirava da um, prazer maligno. 7'iranizava os pretos e dava suplcios s irms no 
s porque estava muito preocupada e cansada, para proceder doutro modo, mas porque isso lhe 
permitia esquecer a amargura que ressentia ao ver que era falso tudo quanto a me lhe contara 
acerca da exstncia. 
Nada do que a me lhe ensinara tinha o mnimo valor, e ao seu logro juntava-se a indignao. No 
lhe vinha  ideia que Ellen fora incapaz de adivinhar o descalabro dessa civilizao em que educara 
as filhas; que no podia ter suspeitado a desapario das camadas sociais que tanto lhe ensinara a 
considerar. No lhe ocorria sequer que, ensinando-a a, ser amvel e galant, boa e honesta simples e 
sincera, Ellen tivera em vista uma longa perspectiva de anos de paz, semelhantes em tudo aos da 
sua prpria vida. 
Desesperada, Scarlett dizia: "Nada, nada do que me aconselhou serve seja para o que for! De _que 
me serviria ser bondosa? Que valor tem a delicadeza? Mais valia ter aprendido a lavrar e a colher 
algodo como uma negra! Oh, mam, como se enganou!" 
552 
No se dava  canseira de pensar que j no existia o rnundo bem ordenado de Ellen, que o 
substitura um mundo brutal, onde todos os valores estavam trocados. Compreendia apenas, ou 
queria compreender, que a me se enganara,. Por isso se transformava rpidamente a fim de se 
adaptar a uma vida nova para que no fora preparada. 
S no mudaram os seus sentimentos em relao a Tara. Jamais, ao voltar, fatigada, dessa dura 
labuta atravs dos campos deixava de se alegrar  ideia de que chegava  sua casa. J@mais, 
reclinada na janela, contemplava as terras e m rvores sem se sentir penetrada por uma sensao de 
desvanecimento. Em nenhuma parte haveria uma herdade como aquela! 
Quando admirava Tara compreendia em parte a razo pela qual havia guerra. Rhett enganava-se ao 
dizer que os homens se batiam por dinheiro. No, combatiam era por essas reas cheias de sulcos 
por esses prados verdes, por essas guas amareladas e' indolentes, por essas casas brancas to 
ridentes entre as magnlias. Eis as nicas coisas por que valia a pena lutar: a terra encarnada que 
pertencia aos pais, e passaria aos filhos, os tratos rubros, que daria algod-o aos filhos e aos netos, 
Agora que no tinha me nem AshIey, que Gerald voltara infelizmente  infncia, que o dinheiro, 
os escravos e o sossego haviam desaparecido uma noite, eram os campos devastados de Tara tudo 
quanto lhe restava. Bem lhe dissera o pai que a terra era a nica coisa por que valia a pena 
combater! 
Sim, Tara valia a pena que se lutasse por ela. Scarlett aceitava a luta. sem discutir, Ningum lhe 
arrancaria a quinta! Ningum a foraria a viver nem aos seus s sopas dos parentes. Scarlett 
conservaria' Tara, ainda @ue fosse preciso esfalfar os que l viviam! 
go 
SCARLETT j estava em Tara havia duas semanas quando Uma das escoriaes do p-a, maiorcomeou 
a tomar mau aspecto e a inflamar. 0 caso  que lhe foi impossvel calar o sapato. S 
podia andar assentando o calcanhar no cho. Ao ver todo aquele inchao, invadiu-a o desespero. Se 
a ferida gangrenasse, como as dos soldados? E ela ali 
553 
sem mdico! Apesar da sua amargura no desejava deixar a vida to cedo. Quem se ocuparia d@ 
Tara, depois da sua morte? 
Durante certo tempo acalentara a esperana de que Gerald voltasse ao que era, a fim de assumir as 
responsabilidades da plantao. Mas ao fim de duas semanas, perdera de todo as iluses. Sab'1a 
#
agora que, com -ou sem vontade, devia tomar nas suas mos inexperientes a sorte da quinta e dos 
seus habitantes; Gerald passava os dias imvel, como que perdido em sonhos. Quando a filha lhe 
suplicava algum conselho 'ele lmitava-se a responder: "Faze o que te parecer melhor". Ou ainda, o 
que era mais triste: "Pede a opinio de tua me". 
No melhoraria, com certeza, e Scarlett enfrentava a verdade nua e crua. Gerald continuava na, 
crena de que * mulher estava viva, e esperava o seu regresso a todo * instante; vivia num pas de 
fronteiras incertas, donde o tempo fora abolido, e cria sempre que Ellen se encontrava no quarto 
contguo. Quebrara-se-lhe a mola vital, desaparece a-lhe a confiana a audcia, a energia de que 
dera tantas provas. Ellen f@ra a espectadora diante da qual se representara o drama turbulento de 
Gerald O'Hara. Mas o pano cara para sempre, tinham apagado as luzes da ribalta, e a assistncia 
abandonara a sala. S o velho comediante, aparvalhado, ficara em cena  espera que lhe soprassem 
a continuao do papel. 
Nessa manh a casa estava silenciosa. Toda a gente (excepto, Scarlett, Wade e as trs doentes) fora 
para os brejos ver se apanhava a porca e os leites. 0 prprio Gerald sara do seu torpor e, 
arrastando a perna de sulco em sulco, passeava pelas terras apoiado ao ombro de Pork, com um 
pedao de corda na mo livre. A fora de chorarem, Suellen e Carreen haviam adormecido ' o 
que lhes acontecia pelo menos duas vezes por semana, quando pensavam na me. Melanie fora 
autorizada a sentar-se na cama, e, de pernas cruzadas debaixo, do lenol, segurava o filho com um 
brao e com o outro, o de Dilcey, 
Para Scarlett, o sil'nio, de Tara era coisa intolervel, porque lhe recordava em demasia o silncio 
mortal dos campos desolados que ela atravessara, ao vir de Atlanta. Havia ocasies em que a vaca e 
o bezerro no faziam o mais pequeno rudo. No cantava nenhum pssaro. Scarlett encostara uma 
cadeira  janela aberta do seu quarto 
554 
e percorria com o olhar a alameda fronteira  casa, o relvado, e os prados desertos do outro lado da 
estrada. Tinha puxado as saias at ao joelho e estava assim com a cara apoiada ao cotovelo, no 
peitoril da janela. Junto dela, no cho, ficara um balde de gua tirada da, cisterna, no qual, de vez 
em quando, mergulhava o p dolorido, fazendo ao mesmo tempo uma careta de dor. 
Furiosa, enterrou mais o queixo no brao, Logo suceder-lhe aquilo quando mais precisva das suas 
foras! Achava que os outros no conseguiriam apanhar os porcos extraviados. Se ela pudesse 
reunir-se, no mato, aos perseguidoreE@ desajeitados, arregaaria as saias, pegaria na corda e 
apanharia a porca com um lao, num abrir e fechar de olhos. 
Admitindo, porm, que sempre a agarravam. Que se passa-ria depois de a terem comido, e aos 
leites? A -vida seguiria o su curso, e a fome continuaria. Aproximava-se o Inverno e nada, havia 
que se metesse na. panela, nem sequer os restos miserveis das hortalias da vizinhana. Contudo, 
seria impossvel manterem-se sem gro de bico, sorgo, papas de milho, arroz e muitas outras coisas. 
Alm disso, necessitavam de sementes de algodo, e de milho, para lanar  terra na Primavera. Isto 
sem falar de vesturio. Como resolver todos estes problemas? 
s escondidas ela fizera inventrio das algibeiras de Gerald e do cofre 'onde ele guardava o 
dinheiro. No decurso das investigaes s apurara maos de vales da Confederao em trs mil 
dlares em notas confederadas. "0 suficiente para um jantar, agora que o dinheiro- dos confederados 
no vale trs caracis", Mas, supondo que encontrava coisas de mais valor, como ir fornecer-se de 
mantimentos? Por que permitira Deus que morresse o cavalo? 0 pobre animal que Rhett furtara 
solucionaria de certo modo o problema. Ah, se ainda existissem as belas mulas, cheias de vigor, os 
esplndidos cavalos de tiro, a sua guazinha, os garranos o garanho, que atravessava o relvado 
como uma frecha!' Ao menos se lhe restasse o pior dos muares! 
Enfim, pacincia. Quando tivesse o p curado, iria a Joriesboro. Seria a maior caminhada da sua 
vida, mas iria. Ailida que os yankees houvessem incendiado a cidade de ls a ls, ela decerto 
acharia algum que a informasse onde adquirir provises. Viu  sua frente o rostozinho triste de 
555 
Wade, que repetia sem cessar: "No gosto de inhames, quero galinha, quero arroz ... ". 
#
0 sol que iluminava alegremente o jardim enevoou-se de sbito: eram as lgrimas que lhe furtavam 
a vista. Scarlett deixou cair de novo a cabea no brao e diligenciou no chorar, De pouco sen,iam 
as lgrimas, naquela conjuntura! Alis, s eram verdadeiramente teis quando se queria conseguir 
um favor de qualquer homem. Enquanto tentava deter o pranto, cerrando com fora as plpebra@, 
d'stinguiu o barulho dum cava](> a trote.. Mas no levantou a'cabea, Noite e dia, durante essa 
quinzena, parecera-lhe sempre ouvir trotar cavalos, como lhe sucedia imaginar o ruge-ruge das saias 
de Ellen, Antes que tivesse tempo de dizer "Vamos, no sejas tola", o corao ps-se-lhe a bater 
precipitadamente, como sempre fazia, em ocasies semelhantes. 
Mas, com grande surpresa dela, ocavalo mudou o trote em passo, e Scarlett sentiu o som das 
ferraduras no saibro da alameda. Era, de facto, um cavalo. Os Tarletons? Os Fontaines? Ergueu 
vivamente a cabea e descobriu um cavaleiro , ,yankee. Num movimento instintivo, afastou-se para 
trs da cortina e observou o homem atravs do tecido transparente. 0 espanto sufocava-a, 
Era um indivduo forte, de cara patibular. Dir-se-ia que e@magava a sela com o peso do corpo. A 
barba preta, hirsuta, descia-lhe sobre a farda azul desabotoada. Com os seus olhinhos envesgados, 
ele observava muito calmo a residncia dos O'Haras; depois apeou-se e, sem se apressar, amarrou as 
rdeas a um batente de madeira, ali posto adrede. Ento Scarlett retomou flego, mas- sentiu-se to 
aturdida como se levasse um soco no estmago. Um yankee, um yank-ee de pistola  cinta! E ela 
estava s em casa, com trs mulheres doentes e dois pequenos. 
Enquanto o homem subia a alameda com todo o vagar, com a mo ria pistola, investigando  
esquerda e  dreita, formou-se no esprito de Scarlett uma srie de imagens confusas, como num 
caleidoscpio. Lembrou-se de tudo quanto a tia Pitty lhe contara em voz baixa, essas histrias de 
mulheres atacadas, moradias a arder, crianas feridas  baioneta, todos os horrores, enfim, que se 
resumiam nesta palavra: yankee! 
Dominada pelo,pavor, a sua primeira ideia foi ir esconder-se num armrio. Depois pensou em 
meter-se debaixo 
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da cama. Por fim teve um desejo louco de descer pela escada de servio e fugir para os pntanos. 0 
que era preciso era escapar quele homem, Ento ouviu-o subir cauteloso os degraus da escadaria, 
depois penetrar no vestibulo... J no era possvel sair sem ser vista. Demasiadamente amedrontada 
para fazer um simples movimento, Searlett sentiu o yankee passar dum quarto para outro.  medida 
que avanava, ele devia ir-se persuadindo de que a casa estava deserta e por isso usava de menos 
precaues. Ei-lo na sala de jantar, no faltaria nada para entrar na cozinha... 
A esse pensamento, sbito furor se apoderou de Scarlett, furor to brutal que ela teve a sensao 
duma punhalada no peito, At o medo lhe desapareceu. Na cozinha! Havia dois tachos no forno, um 
cheio de mas, outro de diferentes legumes trazidos a muito custo dos Doze Carvalhos e da 
herdade dos Me lntoshes. Um jantar que mal chegaria para duas pessoas - e que se destinava a 
nove estmagos esfaimados. Havia duas horas que Scarlett resistia  tentao de ir  cozinha, mas 
impunha-se o dever de esperar pelos outros. E eis que aparecia um yankee que lhes ia comer essa 
magra refeio! 
0 diabo os levasse a todos esses malditos! Abatiam-se como gafanhotos e s partiam depois de 
deixar a desolao atrs de si. Em seguida, voltavam, para comer o que restava. Cntraiu-se a barriga 
vazia de Scarlett. Jesus, esse ycnkee no teria ocasio de a roubar! 
Descala, dirigu-se rapidamente  escrivaninha, quase sem sentir o ferimento do p. Abriu o mvel 
sem rudo, tirou duma gaveta a pesada pistola que trouxera de Atlanta, a mesma que pertencera a, 
Charles e de que ele nunca se servira. Vasculhou no estojo de coiro pendente da parede, ao lado do 
sabre, e extraiu uma espoleta que ps no lugar devido, sem que a mo lhe tremesse. Silenciosa e 
ligeira, atravessou o corredor e desceu os degraus, apoiando urna das mos  balaustrada e 
segurando na outra a Pistola bem apertada contra a coxa, a fim de a dissimular nas pregas da saia. 
- Quem vem l? - perguntou a voz fanhosa & yankee. Scarlett parou a meio da escada. As veias 
latejavam-lhe Com tanta fora que mal ouviu o outro dizer em seguida: 
- Alto ou fao fogo! 
#
0 h@mem estava no limiar da casa de jantar, pronto a 
557 
dar o ataque. Tinha uma arma na mo, na outra uma caixinha de costura onde havia um dedal, 
tesoura e agulheiro, tud de oiro. Scarlett sentiu as pernas gelarem-se-lhe at aos joelhos, mas a raiva 
escaldou-lhe as faces, A caixa de costura de Ellen na mo daquele indivduo! Quis gritar: "Largue-a 
seu ... " mas as palavras recusaram-se a sair. S pde olha@ fixamente para o militar, por cima do 
corrimo, e ver a mudana que se operara na cara, dele. A expresso dura transformou-se num 
sorriso meio desdenhoso, meio amvel. _ Ento sempre h gente nesta casa - comentou, metendo a 
pistola no estojo e aproximando-se at ficar mesmo por baixo de Scarlett. - Est szinha, minha 
linda menina? 
Rpida como um relmpago, Scarlett brandiu a arma e apontou-a quela cara barbuda e estupefacta. 
Antes que o homem pudesse levar a mo ao cinto, ela premiu o gatilho. 0 recuo f-la cambalear, ao 
mesmo tempo que o estridor de detonao lhe enchia os ouvidos e o cheiro acre da plvora lhe 
irritava as narinas, 0 homem caiu para trs e estendeu-se na casa de jantar com um estrondo que fez 
tremer a nioblia, Escapou-se-lhe a caixa das mos espalhando o contedo em redor dele. Sem ter a 
mnim@ ideia do que fazia, Scarlett desceu a escada, inclinou-se sobre o militar e ficou a observlo: 
o buraco sangrento na altura do nariz, os olhos vtreos queimados pela plvora... 
Enquanto o mirava assim, viu correr dois fios de sangue para o soalho, um vindo da cara, outro de 
trs da cabea. Estava morto, pois, No havia dvida nenhuma. Scarlett matara um homem! 
0 fumo subiu em volutas at ao tecto e os pequeninos arroios rubros engrossaram-se-lhe aos ps. 
Durante um tempo que lhe foi impossvel determinar, ela ficou ali sem s*-, mexer, e no silncio 
morno e brando dessa manh de Vero todos os sons, todos os odores pareciam tomar uma 
importncia exagerada, o bater descompassado do corao, o leve rumor das folhas da magnlia, o 
pio longnquo duma ave nos pntanos, o aroma das flores que entrava pela janela. 
Scarlett matara um homem, ela que evitava sempre assistir  morte da raposa quando ia  caa, ela 
que no podia suportar os guinchos dos porcos quando os matavam nem o grito dum coelho 
apanhado na armadilha. "Um assassinio", pensou confusamente. ",Cometi um assassnio. 
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Coino  Possvel que isto me acontecesse?" Poisou a vista na mo cabeluda que estava to prxima, 
da caixa de costura e, de sbito, retomou conscincia da realidade, nvadiu-a uma alegria feroz. Por 
pouco no enf !ou o calcanhar na ferida aberta para gozar o estranhG prazer de sentir o sangue 
morno no p descalo. Principiara a vingar Ellen, a vingar Tara--- 
No primeiro andar soou um rudo de passos precipitados e incertos, Depois sucedeu uma pausa e o 
rudo de passos recomeou mais fraco, nienos rpido, e acompanhado pelo tilintar dum objecto 
metlico. Scarlett alou a cabea e viu Melanie no alto da es-cada. Como nico vesturio trazia urna 
camisa esgarada e, com o brao dbil, segurava a custo o sabre de Charles. Num relance, Melanie 
viu toda a cena, nos mais pequenos pormenores, descobriu o cadver fardado de azul e estirado num 
mar de sangue, a caixa de costura, Scarlett descala, de rosto lvido, com a pistola na mo... No 
disse urna palavra, mas o olhar encontrou o de Scarlett. No seu rosto geralmente suave estava 
estampado o orgulho feroz, o sorriso exprimia aprovao e alegria, que se aparentavam intimamente 
com os sentimentos tumultuosos despertos no corao de Scarlett, 
Transtornada, esta contemplou a mulher franzina e vacilante por quem jamais experimentara outra 
coisa alm de averso e desprezo. E, a isto, substituiu-se um sentimento de admirao e 
camaradagem, que lutava contra o dio votado  mulher de Asbley, Num relmpago de 
clarividncia, que nenhuma comoo mesqu@nha alterou, viu que sob o tom amvel e c, olhar 
mego d<_, Melanje havia urna delgada Imina de ao que por nada se deixaria quebrar, e 
compreendeu tambm que nas veias de Melane podia perfeitamente correr sangue herico. 
- Scarlett! Scarlett! - gritararn Suellen e Carreen com voz fraca, abafada ainda mais pela espessura 
da porta. Wade chamou tambm: - Tia, tia! - Melanie ps um dedo na boca e depois, descansando o 
sabre no degrau, atravessou com dificuldade o corredor do, primeiro andar e foi abrir a porta do 
quarto das doentes, -No tenham medo, pequenas! - murmurou em tom indiferente, bastante alto 
#
para que se ouvisse no rs-do-~cho. -A vossa irm estava a tirar a ferrugem  pistola, de Charles e 
esta dsparou~se. Apanhou um susto,... Wade, a tua me deu um tiro com 
559 
'@  
@'. @1d 
a arma do pap. Quando fores crescido, poders fazer o mesmo. 
"Que estupenda simuladorat" pensou Searlett, cheia de admirao. "Eu no seria, capaz de inventar 
uma histria dessas, to depressa. Mas de que serve mentir? Acho que toda a gente deve saber o que 
eu fiz". 
Examinou outra vez o cadver e, enquanto a fria se lhe dissipava, surgia-lhe a sensao---de 
horror, que a fazia tremer dos ps  cabea. Melanie notou isso e achou da sua obrigao descer a 
escada, agarrando-se cuidadosamente ao corrimo. 
-Vai-te deitar. Ests louca? -disse-lhe Scarlett. Mas a outra, mordendo os lbios descorados, 
continuou a descer os degraus e chegou ao vestbulo. 
- Scarlett- murmurou - necessrio lev-lo daqui. Temos de o enterrar. No devia andar s, e, se o 
encontram aqui... - Dizendo isto, apoiava-se ao brao da cunhada. 
- No, creio que vinha s - respondeu esta ltima. - 
No vi mais ningum, da janela., Calculo que seja um desertor. 
- Ainda que estivesse s, convm que ningum saiba o que se passou. Os pretos podiam dar  lngua 
e ento viriam prender-te. Temos de o esconder seja l onde for, antes que os nossos regressem. 
Estimulada por estas palavras de Melanie, proferidas em tom angustioso, Scarlett ps-se a reflectir. 
-Podia enterr-lo num canto do jardim, talvez onde Pork escondeu o barril de aguardente. A terra ali 
est mole. Mas como lev-lo at l? 
- Puxamos, cada uma de ns, por uma perna - props Melanie 'enchendo-se de energia. E Scarlett, 
embora contra vontade, no pde deixar de sentir ainda mais admirao pela irm de Charles. 
-Tu no podes com um gato morto pelo rabo...- Eu  que vou pux-lo - declarou. - Volta para a 
cama. Isto faz-te mal. 
- s muito boa, Scarlett -volveu Melanie, beijando a amiga. E, antes que esta se recompusesse da 
surpresa, a outra continuou: -Se puderes lev-lo... eu vou tentar pr tudo em ordem, antes que os 
nossos voltem. Achas que  muito feio passar-lhe busca  mochila? Talvez tenha coisas de comer... 
-No me parece -retorquiu Searlett, vexada por no 
560 
ter pensado nisso mais cedo. -Em todo o caso, procura, enquanto eu lhe passo busca s algibeiras. 
- Meu Deus! - exclamou, exibindo uma carteira volumosa embrulhada num leno. - MeIly, pareceme 
que est cheia de dinheiro. 
Melanie no deu resposta, mas sentou-se bruscamente no cho, de costas apoiadas  parede. 
- Olha, MeIly! Olha! - prosseguiu Scarlett. Melanie obedeceu e os olhos pareceram dilatar-se-lhe. 
Havia inmeras notas dos Estados Unidos de mistura com outras dos Confederados. E no meio 
dela@ lanando plidos reflexos uma linda moeda de dez dares e duas de cinco dlare@, todas de 
oiro. 
- No te distraias a contar isso - recomendou Melanie. 
- No temos tempo. 
-J te compenetraste do que significa para ns todo este dinheiro? 
-Bem sei, bem sei, mas agora no h tempo. Examina as outras algibeiras. Eu trato da mcchila. 
Scarlett tinha pena de abandonar a. carteira. Que brilhantes perspectivas se abriam  sua frente! 
Havia, pois, um Deus que providenciava pelas necessidades dos seres humanos, ainda que o fizesse 
por estranhasi vias... Sentou-se e contemplou o dinheiro, sorridente. Teriam com que comer! 
Melanie tirou-lha das mos. 
- Despacha-te! Os bolsos das calas no, continham nada alm dum coto de vela, duma ona de 
tabaco e dum bocado de barbante. Melanie tirou da mochila um embrulhinho de caf que aspirou 
como se se tratasse do mais delicado perfume. Espantada, retirou ainda uma miniatura de criana, 
#
ornada de prolas; um broche de granate; dois braceletes grossos, de oiro guarnecidos de 
cadeiazinhas tambm de oiro; um dedal i@@almente de oiro; uma tesoura do mesmo metal; uni 
anel de brilhantes; e um par de brincos, terminando cada qual por um brilhante enorme, que as duas 
raparigas, apesar da sua ignorneia do assunto, calcularam dever ultrapassar um quilate. 
- Que ladro! - exclamou Melanie com voz sufocada, afastando-se do cadver. - Scarlett, isto foi, 
com certeza, tudo roubado. 
-No tenhas dvida. E veio c para continuar a pilhagerin. 
36 - Vento Levo,, - 1 561 
- Ainda bem que o mataste - declarou Melanie, Agora avia-te. Leva-o depressa daqui. 
Scarlett curvou-se, agarrou (> morto pelas botas e puxou-o com toda a fora. Era to pesado, e ela 
sentia-se nesse momento to fraca! Se o no conseguisse arrastar? Voltando-se de costas para o 
cadver, pegou unia bota em cada mo e nclinou-se para frente. Na febre desse trabalho, esquecerase 
do p doente, mas uma dor aguda chamou-a  realidade. Rangeu os dentes e apoiou aquele p, 
com toda a fora, sobre o calcanhar. Puxando, esforando-se, com o suor a cair-lhe da testa, ela 
atravessou o vestbulo, rebocando o cadver que deixava um rasto sangrento atrs de si. 
- Se sujar o ptio, no ser fcil limp-lo -observou, j quase sem flego. - D-me a tua camisa, 
MeIly, para lhe envolver a cabea. 
Melanie ruborizou-se. -No sejas tola. Eu no olho para trs. Se tivesse uma "ia, um par de calas, 
no fazia cerimnia... Encolhida contra a parede, Melanie tirou a camisa e, depois de a ter atirado a 
Scarlett> sem dizer palavra, escondeu o melhor que pde a sua nudez. 
"Graas a Deus, que no tenho esses pudores" observou Scarlett consigo mesma. No vira o ar 
contrafeit@ da outra, mas advinhara-o. E na camisa de MeIly, envolveu a cara mutilada do soldado' 
Procedendo por arrancos sucessivos consoante o p doente lho permitia, Scarlett conseguiu @hegar 
 varanda que dava para o ptio. Ali, detendo-se para limpar a testa com as castas da mo, virou-se 
e viu Melanie sentada junto da parede, a erguer desesperadamente osJoelhos para esconder os seios 
nus, "Que tolice, pr-se com aqueles escrpulos numa ocasio destas!" SemDre fora aquele aspecto 
pudibundo que desprezara na cunhada. Mas arrependeu-se daquele pensamento. No fim de contas, 
Melane levantara-se fraca como estava, e viera em seu socorro com um sabre, pesado demais para 
ela. Aquilo exigia muita coragem, essa espcie de coragem que Searlett sabia no possuir, essa 
coragem dQ que Melanie dera provas depois da rendio de Atlanta, durante a viagem 
interminvel... Coragem inquebrantvel, sem brilho, comum aos Wlkes; Scarlett no a 
compreendia bem, mas, constrangida, prestava-lhe homenagem. 
.562 
- Volta para a cama - repetiu. - Eu encarrego-me de limpar tudo, depois de o ter enterrado. 
Ningum perguntou donde viera o cavalo. Via-se jogo qu,e se perdera depois da ltima batalha, e 
todos ficaram muito contentes por ele ter ido parar ali. 0 yankee ficou metido na cova que Scarlett 
cavara. Por cima havia uma rvore e como os ramos desta estavam em grande parte apodrecios, 
Scarlett f-los cair no cho e eles cobriram por completo a sepultura do soldado. 
0 seu fantasma no se ergueu para vir pedir contas  causadora da morte, cujas noites decorriam em 
pura viglia. Nenhum sentimento de horror, nenhum remorso a invadia quando ela se recordava do 
cadver, Scarlett admirava-se com isso, pois sabia que, um ms antes, seria incapaz de semelhante 
aco. A juvenil viva 1-1@amilton, com as suas covinhas na cara, os seus brincos tilintantes e os 
seus ares de cr@aturinha indefesa... reduzir assim a um bolo a cara dum homem e enterr-lo em 
seguida numa cova feita  pressa! E Scarlett teve um sorriso lgubre ao pensar na consternao que 
semelhante ideia provocaria naqueles que a conheciam. 
Tinha mudado muito mais do que supunha. Principiava a endurecer essa crosta que se lhe formara 
no corao, no dia em que havia estado deitada na horta dos escravos, na quinta dos Dc.>ze 
Carvalhos, 
Agora, que possua um cavalo, podia ir saber o que era feito dos seus vizinhos. Desde a chegada a 
Tara que perguntava a si mesma, cheia de apreenses: "Seremos as nicas pessoas que restam na 
comarca? Morreriam todos os outros no incndio das respectivas casas? Refugiar-se-iam em 
#
Macon? Assustava-a ser informada da verdade, Porque do seu esprito se no apagara a lembrana 
das runas acumuladas nos Doze Carvalhos, nos Mac Intoshes e at nos Slatterys. Mas, enfim, 
talvez fosse prefervel ouvir contar o pior a ficar continuamente naquela incerteza. Resolveu, pois, 
ir em primeiro lugar aos Fontaines, no porque fossem vizinhos mais prximos mas na esperana de 
`X encontrar a o velho mdico, Manie precisava de tratamento. No convalescia como devia ser e 
a sua fraqueza e palidez inquietava Scarlett. 
De forma que, ao poder suportar um saDato no p doente, ela montou logo no cavalo do yankee-. E 
partiu 
563 
atravs dos campos em direco  fazenda das Alimosas', persuadida de que a acharia reduzida a 
cinzas. 
Com grande surpresa e satisfao, viu aparecer a antiga residncia de estuque amareladc>, no meio 
do bosque de mimosas, Invadiu-a uma onda de felicidade, prestes a faz-la chorar, quando as trs 
senhoras Fontaines saram de casa para a receber de braos abertos, 
Entretanto, aps as dem)nstraes de jbilo de parte a parte, e j todas sentadas na casa de jantar, 
Scarlett sentiu percorr-la um arrepio. Os yankees no haviam levado at ali a devastao, porque 
as Mimosas se encontravam fora da estrada nacional. Os Fontaines conservavam, pois, todas as suas 
coisas intactas, assim como os animais- contudo a propriedade parecia envolta no mesmo silncio 
estranho que pesava sobre Tara. Com excepo de trs mulheres empregadas nos trabalhos 
domsticos, todos os escravos tinham fugido, atemorizados pela aproximao dos yankees. No se 
via ali ningum do sexo masculino alm de Joe, filho de Sally, ainda excessivamente criana. 
Szinhas na residncia, habitavam os quartos a av Fontaine (j com mais de setenta anos), a nora 
(que, apesar dos seus cinquenta anos, ainda era charriada menina) e Sally que acabava de entrar na 
casa dos vinte. Viviam bastante afastadas dos seus vizinhos, sem terem quem as protegesse; mas 
no sentiam medo, ou pelo menos no no mostravam. "Naturalmente  porque SaIly e a sogra 
receiam a velha", pensou Scarlett. Esta tambm se apavorava diante da Fontaine, porque a outra era 
Pessoa perspicaz e de lngua de prata, coisas que Scarlett j tivera ocasio de verificar por 
experincia prpria, Embora no as, unissem laos de sangue e as separassem grande diferena de 
idade, existia certa comunidade de esprito e de sofrimento que as unia umas s outras. Todas trs 
usavam luto (vestidos tingidos em casa), todas trs eram tristes, de ar-preocupado, todas trs 
distilavam uma amargura que no, se manifestava era lamentaes, mas que todavia lhes aflorava 
aos sorrisos e s palavras de acolhimento. Isso, contudo, tinha explicao. Os escravos haviam 
fugido, o dinheiro delas j no valia nada, o marido de Sally morrera em Gettysburgo, e a senhora 
do meio era tambm viva, porque o segundo Dr. Fontaine falecera de disenteria em Vicksburgo. 
Os dois outros rapazes, Alex e Tony, estavam algures em Virgnia, 
564 
nas nngum sabia se -mortos ou se vivos. Quanto ao velho Dr. Fontaine, partira com a cavalaria, 
de Wheeler. 
- Sal)ern o que se passa em Atlanta? - perguntou Searlett, depois de se terem instalado conf 
ortvelmente, -Tara  um verdadeiro desterro. 
-  o que acontece a todos - declarou a velha, apoderando-se da conversa como era seu costume.-A 
ns sucede o mesmo, S sabemos que Sherman acabou por se apoderar da cidade. 
-Ah, sim?! E onde se batem agora? -Como quer que trs mulheres estejam ao facto da guerra, se 
vivem longe do mundo e no lem jornais? Uma das nossas escravas falou com um preto que tinha 
encon~ trado outro que fora a Jonesboro, Diz~se que os yankees s se demoram em Atlanta para 
descanso das tropas e dos cavalos. Se  ou no verdade, a menina est to apta como ns a sab-lo. 
No  que no precisem de repouso, depois do combate que nos deram, 
-E a Searlett em Tara todo este tempo, sem que a gente a suspeitasse! - acudiu a segunda Fontaine. - 
No perdoo a mim mesma no ter ido visit-la, a cavalo. Mas h tanto que fazer aqui.,. depois que 
os nossos escravos partiram! Enfim, no me portei como boa vizinha... Mag tambm julgrnos que 
os yankees tivessem queimado Tara como queimaram os Doze Carvalhos e a casa dos Mae 
#
Intoshes. Tambm pensmos que estivessem em Macon. Que voltasse para a sua quinta, Scarlett,  
que nunca me Passou pelacabea! 
-Demais a mais-acudiu a velha Fontaine-os pretos do senhor O'Hara vieram aqui, aterrados, dizer 
que os yankees iam incendiar Tara... 
- E ento era natural supor... - observou Sally. 
- Dexa-me falar se fazes favor -interrompeu a av. 
- Sim, senhora dis@eram-nos que os yankees haviam instalado l o seu @uarteI-general e que a 
famlia se preparava para seguir em direco a Macon, Nessa noite, vimos um claro para os lados 
de Tara. Durou horas esse claro. Os nossos pretos tiveram tanto medo, que fugI@ran-i, Que  que 
ardeu? 
- Todo o nosso algodo... cosa para cento e cinquenta mil dlares - respondeu Scarlett, no mais 
amargo dos tons. 
- Alegre-se por no ter sido a casa - comentou a av Fontaine, com o queixo apoiado ao casto da 
bengala. - 
565 
Algodo pode-se semear outro e colher, mas a casa no seria fcil reconstruir. A propsito, 
jcomearam a colheita do algodo? 
-No senhora temos as terras quase todas rvolvidas. Calculo q@e tenham'os apenas com que fazer 
trs fardos. E, se houvesse mais, de que serviria? Os nossos escravos debandaram todos e j no 
temos ningum para a colheita. 
Meu Deus, todos os seus escravos fugiram e no h quem possa colher o algodo! - repetiu a velha, 
repetindo o tom de Scarlett e lanando a esta um olhar irnico. - 
Ento que fazem as meninas das suas lindas mozinhas? 
- Eu, colher algodo? - exclamou a visita horrorizada, como se a av Fontane lhe houvesse 
sugerido um crime monstruoso. - Como uma escrava de lavoura? Ou uma dessas mendigas brancas? 
Como as Slatterys? 
-Mendigas! No h dvida que esta nova gerao  muito ociosa. Querem fazer todas de grandes 
senhoras! Dei- xe-me dizer~lhe 'minha filha, que eu era rapariga quando meu -pai perdeu todo o 
dinheiro que possua. No me envergonhei por ter de me servir honradamente das minhas mos, de 
trabalhar na terra at que o pai economizasse o suficiente para tornar a adquirir escravos. Trabalhei 
de enxada, apanhei algodo, e tornaria a fazer tudo isso se fosse necessrio... e talvez o seja. Com 
que ento, mendigas? 
- Oli, mam! - interveio a nora, deitando-lhe um olhar implorador. -J foi h bastante tempo! As 
condies de vida mudaram. Os tempos tambm. 
-Os tempos nunca mudam quando se trata de realizar honestamente uma tarefa -declarou 
peremptria a av Fontaine que no desarmava com facilidade. - Por causa da sua n@e Scarlett 
lastimo ouvi-Ia dizer que o trabalho honrado n@  prprio das pessoas de certa classe. Quando 
Ado cavava e Eva fiava... 
A fim de desviar o curso da conversa, Scarlett apres-, sou-se a perguntar: 
-E os Tarletons, e os Calverts? Queimaram-lhes as casas? Refugiaram-se em Macon? 
-Os yankees no foram at aos Tarletons. Esto, como ns, afastados da estrada nacional. Mas 
foram aos Calverts, roubaram o gado todo, toda a criao, e levaram consigo os pretos -comeou a , 
A av interrompeu-a. 
566 Prometeram a toda essa canalha das escravas vestidos 
de seda e brincos de oiro. Contou-me Cathleen Calvert que alguns soldados partiram, com as 
pretas  garupa. Enfim, tudo o que ho-de conseguir h-de ser mulatinhos. E no me parece que o 
sangue yankee lhes melhore a raa. 
- Oh, inarn.@! -No te faas pudibunda, Jane. Somos todas casadas. 
- Por  que no incendiaram a residncia dos Calverts? -Graas s splicas da nova Calvert e s do 
seu feitor Hilton, que  yankee -explicou a velha, que insistia em chamar "nova Calvert"  segunda 
mulher do dono da propriedade, embora a primeira j tivesse morrido h vinte anos. -Parece que 
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Cathleen jurou ser nortista dos quatro costados. Ento o Calvert, que se bateu pela Causa? E 
Raiford, que foi morto em Gettysburgo? E Cade, que est em Virgnia, com o nosso exrcito? 
Cathleen finge-se agora arrependida e diz que mais valia terem queimado a casa. Acrescenta que o 
Cade, ao voltar, h-de fazer escndalo, quando souber o que se passou. Mas que admirao? Isto 
acontece aos que se casam com yankees. As yankees no tm orgulho, no tm decncia: o que 
querem  salvar a pele. Como se compreende que no tenham incendiado Tara, Scarlett? 
Scarlett pensou uns segundos antes de responder. Sabia que a pergunta seguinte havia de ser: 
"Como vo os seus pais? A sua querida mam?" Sabia que lhe era impossvel dizer a essas mulheres 
que Ellen morrera. Sabia que dando-lhes a notcia'elas comungariam da sua dor e o, @esultado seria 
uma crise de lgrimas. No, no queria chorar. Ficaria doente. Coibira-se at a mas, uma vez 
abertas as comportas, a coragem abandona;-Ia-ia com o pranto. Contudo, se calasse aquele facto, as 
Fontaines jamais lhe perdoariam, Em especial a av, que adorava Ellen. 
- Ento? - insistiu a velha. - No tem nada a contar-nos? 
- Compreendem... eu s voltei para casa depois da batalha. Os yankees j tinham partido. 0 pap... 
disse-me que... conseguira poupar a casa porque Suellen e Carreen estavam com febre tifide... e 
no as podiam mudar. 
- n a primeira vez que oio dizer que os yankees fizeram urna boa aco -declarou a velha, como se 
lastimasse ver-se obrigada a ser justa para com os nvasores.-E as pequenas, como vo agora? 
-Vo melhorando. Esto quase restabelecidas, mas 
567 
continuam muito fracas - respondeu Scarlett. Vendo os lbios da velha formularem outra pergunta, 
a que ela receava, tratou logo de mudar de conversa. - Eu... eu vinha pedir que nos emprestassem 
qualquercoisa de comer. Os yankees devoraram tudo, como uma nuvem de gafanhotos. Mas, se 
tambm esto reduzidas ao estritamente necessrio, sejam francas. 
- Mande-nos Pork com uma carroa e ter metade do que ns possumos quanto a arroz, farinha e 
toucinho. Juntaremos umas galinhas - acrescentou a velha, deitando a Searlett uma olhadela 
penetrante. 
-Oh,  demas! Eu, realmente... -No diga nada, no quero ouvir. Ento de que serviria ser-se 
vizinhos? 
-  to bondosa, que no posso... Agora, tenho de voltar. Vo inquietar-se com a minha ausncia. 
A av Fontaine levantou-se e tomou o brao de Searlett. 
- Fiquem aqui, vocs duas - ordenou, empurrando Scarlett para a varanda das traseiras. - Preciso 
dizer uma coisa a esta rapariga. Ajude-me a descer os degraus, Scarlett. 
Jane e Sally despediram-se da visita e prometeram-lhe retribuir quando pudessem. Estavam 
impacientes por saber que  que a velha queria dizer a Searlett, mas s teriam conhecimento disso 
se aquela lhe desse na veneta contar-lhes. 
Searlett pegava j nas rdeas do cavalo, sentindo-se vagamente aflita, quando a Fontaine comeou: 
- Ora escute... Que se passou, ao certo, em Tara? Que me oculta? 
Cruzando o seu olhar com o da interlocutora, Searlett compreendeu que podia declarar a verdade 
sem verter lgrimas. Ningum podia chorar diante da velha Fontaine sem sua expressa autorizao. 
-A mam morreu-disse simplesmente Scarlett. A outra apertou-lhe o brao at lho fazer doer. As 
plpebras bateram-lhe por vrias vezes. 
-Foram os yankees que a mataram? 
- No, senhora. Morreu de tifo... na vspera da minha chegada. 
- Esquea - disse a velha em tom autoritrio. - E o seu pai? 
- 0 pai... j no  o mesmo. 
568 
- Que quer dizer' *' Est doente? -A comoao... tornou-o to esquisito, to... -Em suma, ficou 
avariado do juzo? Era um alvio ouvir expor a verdade em tenpos to categricos. Que bondade a 
daquela mulher em lhe'poupar lstimas que s serviriam para lhe provocar o choro! 
-Sim, senhora,  isso. Porta-se como um alucinado e s vezes parece no se lembrar que a mam 
#
morreu. li, custa tanto v-lo estar  espera dela, uma pessoa que noutro tempo no tinha pacincia 
nenhuma para isso! De qi@ando em quando, depois de ter estado de atalaia, ergue-se dum pulo, sai 
de casa e vai ao cemitrio. Depois volta cabisbaixo, com os olhos inundados de lgrimas 'e no 
cessa de repetir: "Katie Scarlett, a senhora O'Hara morreu. A tua me morreu". E diz aquilo como se 
o fizesse pela primeira vez! Outras vezes, alta noite, oio-o chamar por ela. Levanto-me e vou ao 
seu quarto. Explico-lhe ento que a mam foi ver um escravo doente. Ele'revolta-se, porque a mam 
se cansa em excesso, com a mania de tratar dos outros. Custa tanto a obrig-lo, a deitar-se de novo! 
Recaiu na infncia. Gostava muito que o Dr. Fontaine fosse l. Tenho a certeza de que faria 
qualquer coisa pelo meu pai. Alm disso, Melanie tambm precisa de mdico, Ainda no se 
restabeleceu do parto como devia. 
-Melly? Teve un; filho? E est consigo? -- Est sim 'senhora. -Por @ue no foi para Macon, com a 
tia e os outros parentes? Nunca pensei que gostasse tanto dela, Scarlett, embora saiba que  irm de 
Charles. Vamos, conte-me tudo isso. 
- So contos largos. Va cansar-se, assim de p... 
- No faz mal. E  prefervel que as outras no oiam, por causa das lamentaes. Vamos. Sou toda 
ouvidos. 
Com voz ofegante Scarlett comeou o seu relato pelo cerco da cidade e grav`Idez de Melanie.  
medida que falava, sob o olhar perscrutante da velha Fontaine, ela foi encontrando as palavras de 
que necessitava para dar toda a intensidade e horr-or dos acontecimentos em que se vira envolvida. 
Acorreu-lhe tudo  memria, o calor tremendo do dia em que o pequeno nascera, a sua angstia 
torturante, a fuga, a desero de Rliett. Referiu-se  escurido impressionante da noite, aos fogos de 
bivaques que tanto Podiam indicar a presena de amigos como de inimigos, s,chamins lgubres 
que via ao sol da manh, aos homens 
569 
e cavalos mortos  beira das estradas,  fome,  desolao, ao receio de que Tara estivesse 
incendiada... 
- Eu pens,@va que, conseguindo chegar a casa, a mam trataria de tudo e que eu podia descartar-me 
dos fardos. Pelo caminho, dizia comigo que j conhecera o pior; mas, ao saber da morte dela, fiquei 
para sempre a saber o que  o pior, afinal. 
Baixou os olhos e esperou que a velha falasse por seu turno. 0 silncio, porm, durou tanto que 
Scarlett ficou na dvida se a senhora Fontaine compreendera bem qual o estado de depresso em 
que se achava, Enfim, a voz da outra fez-se ouvir, cheia de doura, mais branda do que nunca. 
-Minha filha,  muito triste para uma mulher conhecer o pior, pois no tem, depois disso, mais nada 
a recear. E' mau  tambm que no se tenha nada a temer. Imagina talvez que eu no entendo o que 
me contou... as provaes por que tem passado? Pois entendo tudo isso perfeitamente. Quando tinha 
mais ou menos a sua idade fui apanhada na revolta de Creek, logo depois da chacin do Forte 
Minis. Sim, devia ter mais ou menos a sua idade, pois j decorreram uns cinquenta anos. Tive de me 
esconder na mata e de l  que vi incendiarem a casa, sem lhe poder acudir. Vi os ndios torturar 
meus irmos e minhas irms. A minha nica salvao era conservar-me tranquila e pedir a Deus que 
o claro do incndio no iluminasse o stio em que eu estava escondida. Depois agarraram minha 
me e mataram-na a pouca distncia de mim. Para ter a certeza de que ficara bem morta, um dos 
ndios voltou atrs e espetou-lhe a lana na cabea. Eu... eu era a filha querida de minha me e tive 
de assistir a tudo isso. Ao nascer do Sol, pus-me a caminho para a plantao mais prxima, coisa 
dumas trinta milhas. Gastei trs dias no trajecto atravs de charcos e de bandos de ndios. Quando 
en6ntrei o Dr. Fontaine, que me tratou, julgaram que eu ia enlouquecer. Foi h cinquenta anos, 
como disse, Depois disso nunca mais tive medo de nada nem de ningum, porque havia conhecido 
tudo o que h de pior. Esta ausncia de medo trouxe-me srios aborrecimentos e custou-me grande 
parte do bem-estar. Deus quer que as mulheres sejam tmidas. No  natural serem corajosas, 
Scarlett, guarde um pouco de medo, assim como alguma coisa a que tenha amor... 
570 
N@@ ---, --- - 
#
A voz enfraqueceu-lhe e ela calou-se. Scarlett estava impaciente. Julgava que a av Fontaine lhe 
iria ensinar um meio de resolver os problemas que a obsidiavam, Mas, como todas as pessoas 
velhas, a outra falara do passado., do que j no interessava a ningum. E Scarlett arrependia-se de 
lhe ter feito confidncias. 
-Volte para casa, minha filha, podem assustar-se com a sua demora - recomendou de sbito a 
Fontaine. -Mande o Pork com a carroa, esta tarde. E no julgue que poder desembaraar-se desse 
fardo,  impossvel, sou eu quem lho diz. 
0 Vero de S. Martinho prolongou-se, nesse ano, at ao fim de Novembro. Foram os melhores dias 
que os moradores de Tara presenciaram. 0 pior havia j passado. Agora j possuam cavalo e no 
precisavam andar a p, Tinham ovos ao almoo e toucinho ao jantar, com o que quebravam a 
monotonia dos inharnes, dos amendoins e das mas assadas, Houve uma ocasio em que chegaram 
a comer galinha! Acabaram por apanhar a tal porca erradia a qual, acompanhada da sua prole ficou 
instalada nas tr@seiras da casa. As vezes os letez1@hos grunhiam de modo inesperado, mas, 
enfim, no se considerou aquilo um barulho muito desagradvel. Quando viesse o Inverno haveria 
carne de porco fresca para os brancos e tripas para os pretos. No faltaria carne durante a estao 
fria. 
A visita s Fontaines levantara o moral de Scarlett, mais do que ela supunha. Bastava o facto de 
saber que tinha vizinhos para que se considerasse menos isolada. Alm disso, as Fontaines e os 
Tarletons haviam-se mostrado o mais generosos possvel, dividindo com os O'Haras o pouco que 
possuam. A tradio da comarca exigia que se ajudassem mutuamente. No aceitaram um cntimo 
de Scarlett, alegando que ela teria feito o mesmo por eles e que os podia reembolsar em gneros no 
ano prximo. Tara recomeava a produzir, 
Da por diante Scarlett tinha com que alimentar a famlia. 
Dispunha de cavalo de dinheiro, de ^jias tornadas ao desertor yankee; mas do que mais necessitava 
era de vestidos. Sabia quanto era arriscado mandar Pork ao sul comPrar roupa, pois o cavalo podia 
ser apanhado quer pelos nortistas quer pelos confederados. Mas, fosse como fosse, 
571 
possua dinheiro para adquirir vesturio; havia um veculo e animal para o puxar, dum momento 
para outro estava apta a enviar o preto em viagem e talvez o deixassem prosseguir o seu caminho. 0 
pior, efectivamente, j passara. 
Todas as manhs, ao levantar-se Scarlett agradecia a Deus a bno do cu azul e do sol @enfico, 
pois cada dia quente retardava a hora em que teria de. envergar trajes mais espessos. E cada dia de 
calor provocava maior colheita de algodo. As terras estavam a produzir mais do que Scarlett e 
Pork haviam calculado. Fariam provavelmente quatro fardos e no tardaria que as cubatas ficassem 
cheias de algodo. .Apesar da observao da velha Fontaine, Scarlett ainda no admitira a hiptese 
de ir trabalhar nos campos. No se concebia que uma senhora O'Hara, agora dona de Tara, se 
incumbisse de tarefas dessa ordem: isso f-la-ia descer ao nvel duma Slattery. Metera-se-lhe em 
cabea emprregar nesse trabalho os pretos, enquanto ela e as convalescentes se ocupariam dos 
servios domsticos. Mas esbarrou com um preconceito de casta muito mais forte do que o seu. 
Pork, Bab e Prissy soltaram gritos agudos s ao pensarem que podiam encarreg-los da lavoura. 
Repetiram, em todos os tons, que eram criados e no cavadores. Bab, em particular, declarou que 
recebera a sua educao na casa grande dos Robillards e que dormira l no quarto da senhora, numa 
cama baixa ao lado daquela em que ficava a sua dona. S Dilcey se calou, mas fitou Prissy com tal 
intensidade que a pequena se sentia constrangida. 
Scarlett fez ouvidos de mercador a essas lamentaes e mandou-os todos para os campos de 
algodo. Contudo, Bab e Pork trabalhavam to devagar e queixaram-se tanto que Scarlett reenviou 
Bab para a cozinha e despachou Pork para a mata e para o rio, com ordem de apanhar coelhos nas 
armadilhas e peixes no anzol. Apanhar algodo no era digno de Pork, nias caar e pescar 
condiziam muito bem com a sua pessoa, 
Depois disso, Scarlett experimentara utilizar as irms e Melanie, mas a coisa no dera resultado. 
Uma hora ao sol bastou para que Melanie desmaiasse, sendo necessrio ficar oito dias de cama. 
#
Suellen, choramingas e rabugenta, fingira desmaiar tambm, mas recompusera-se logo que a irm 
572 
lhe atirou  cara um balde cheio de gua. 0 caso  que se recusou categoricamente e continuar. 
1 
-No quero trabalhar como uma negra! No me podes obrigar a iSSO! Imagina que os nossos 
amigos sabiam... que chegava aos ouvidos do senhor Kennedy! Ah, se a mam visse!... 
- Repete o nome da mam e esborracho-te a cara! - 
ripostou Searlett. - A me tra@alhava mais do que os pretos na plantao, como tu sabes muito 
bem. Deixa-te de tomar esses ares importantes. . -No  verdade. E ' seja como for no trabalhava 
nas culturas. No me podes obrigar a isso. @ueixo-me ao pap... 
- Livra-te de ires aborrecer o pai com essas criancices! 
- bradou Searlett, ao mesmo tempo indignada e receosa de qualquer exploso de Gerald. 
- Eu ajudar-te-ei - acudiu Carreen, obsequiadora. - 
Trabalharei por duas. Bem vs que Sue ainda no est boa e que no pode expor-se ao sol... 
- Obrigada, Carreen - replicou Scarlett, reconhecida, mas envolvendo a irm mais nova num olhar 
inquieto. Carreen, que sempre tivera uma tez fresca e rosada, estava agora muito plida, mas o rosto 
dela conservava ainda a graa dum boto desabrochado. Mantinha-se muito silenciosa e um tanto 
espantadia desde que, havendo regressado  conscincia dos factos terrenos, compreendera que a 
me j no existia, que Searlett se transformara em tirana, que o mundo mudara e que a ordem de 
trabalhar atingia toda a gente. A sua natureza delicada no fora feita para aquelas mudanas. 
Andava -,orno sonmbula e fazia tudo quanto lhe mandavam, Parecia muito fraca e estava-o 
realmente, mas desenvolvia boa vontade e mostrava-se obedente e servial. Quando Scarlett lhe 
deixava um pouco de repouso, passava o tempo a desfiar o rosrio e a rezar pela me e por Brent 
Tarleton. Searlett no sabia que a irm ainda sofria o desgosto que lhe deixara a morte de Brent, 
pois para ela Carreen era sempre uma criana incaPaz de sentir uma paixo digna deste nome. 
COM as costas a doer  fora de se curvar, com as mos doridas pelos gros secos, Scarlett pensava 
quanto seria bom ter uma irm que aliasse  energia de Suellen o carcter dcil de Carreen. Esta 
tomava, sem dvida, o seu trabalho a srio, mas ao fim duma hora de esforo via-se bem 
573 
que no fora talhada para aquilo. E Searlett acabou por dispensar tambm Carreen. 
Na tarefa da colheita s' ficaram com ela, as pretas Dilcey e Prissy, A ltima trabalhava'por contagotas, 
era ronceira, lastimava-se de dores nos ps, nas costas, no corpo todo, at que a me pegava 
numa haste de algodoeiro e a sovava com fria. Depois disso sujeitava-se mais calada, tratando no 
entanto de no estar ao alcance de Dilcey. A me  que trabalhava sem descanso ilen 
como >ps lo Cios%rp uma mquina, e Searlett, avaliando-a e seu rio sofrimento achava 
que ela valia o seu peso de oiro. 
- Dilc@y - observou-lhe um dia. - quando vierem melhores tempos no me esquecerei do que tens 
feito. Por- .tas-te  altura da situao. 
A mulher no sorriu nem se saracoteou como faziam as outras pretas quando lhe dirigiam louvores. 
Voltou para a patroa um rosto srio e respondeu com dignidade; _ Obrigado, sinhora. Mas sinh 
Gerald e sinhora Ellen foram bons para mim. Sinh Gerald comprou minha Prissy para me consol 
e eu no esqueo nunca. Sou metade ndia e os ndio no esquecem quem  bom para eles. Pior  
que minha Prissy pouco vale. Saiu muito ao pai, que  preguioso. 
Apesar da aificuldade que tinha em pr os outros a trabalhar, e embora se cansasse deveras Scarlett 
reanimava-se  medida que o algodo colhio ia enchendo as cubatas. Aquilo tranquilizava-a. Fora 
o algodo que fizera a prosperidade de Tara, assim como a de todo o Sul, e Searlett, como boa 
sulista, pensava que desse terreno rubro viria a salvao da sua propriedade e de toda a regio, 
r, claro que a colheita acabada de fazer no valia muito, mas isso era o menos, Sempre daria algum 
dinheiro e com esse dinheiro arranjaria um peciljozinha para as necessidades. Na prxima 
Primavera trataria de obter do governo confederado a devoluo de Sam e dos outros pretos, e 
alugaria mais alguns dos vizinhos. Plantaria isto e aquilo... endireitou as costas fatigadas e, 
#
contemplando os campos que o Outono dourava, imaginou como seria a colheita -elo futuro ano. 
Ento, a guerra estaria terminada. Quer a Confederao sasse derrotada ou vencedora. os -tempos 
seriam melhores. Tudo era prefervel a sofrer uma invaso deste ou daquele exrcito. A guerra no 
duraria eternamente. Scarlett 
574 
possua um pouco de algodo, tinha com que comer, era dona dum cavalo e dum diminuto tesouro. 
No havia dvida, o pior havia passado. 
UmA tarde dos meados de Novembro estavam todos reunidos em volta da mesa e acabavam de 
comer o pudim que Bab preparara com bagas de mirto e farinha de milho e de sorgo. No ambiente 
passou um ar frio, o primeiro desse Inverno, e Pork, atrs da cadeira de Scarlett, esfregou as mos, 
perguntando: 
-No acha que  tempo de mat porco, minina? 
- J sentes gua na boca, hem? - volveu Scarlett, sorrdente.-Tambm me apetece carne de porco 
fresca; se o tempo se conservar assim por mais uns dias... 
Melanie interrompeu-a com a colher a meio caminho da boca: 
-Escuta! Parece que vem gente... A atmosfera muito pura permitia ouvir distintamente o rudo surdo 
dum cavalo que martelava o solo e a voz duma pessoa, gritando: "Scarlett, Scarlett!" 
Todos se entreolharam, antes de afastarem as cadeiras e de se porem em p. Apesar de alterada pela 
aflio, reconheceram a voz de Sally Fontaine que uma hora antes se detivera em Tara a fim de dar 
dois @edos de cavac@ antes de partir para Jonesboro. Enquanto se precipitavam direitos  porta, 
viram a rapariga subir a alameda a toda a brida, com o cavalo a escumar. Os cabelos flutuavam em 
torno dela o chapu a custo se lhe segurava pelas fitas. No retev@ as rdeas, mas lanou-se como 
uma louca para o meio do grupo de brao estendido para trs, na direco donde vinha. 
- Os yankees! Vi-os! Esto na estrada. Os yankees!... Segurou o animal precisamente a tempo de 
evitar que ele subisse os degraus. Este deu meia volta, transps o passeio e saltou por cima duma 
sebe, como se estivesse numa corrida de obstculos. Sentiram-no atravessar o ptio, depois descer o 
caminho estreito que separava as cubatas e enveredar por fim pelo atalho que conduzia s Mimosas. 
Por momentos, ficaram paralisados. Suellen e Carreen comearam ento a soluar, apertadas uma 
contra a outra. 
575 
Trmulo, incapaz de falar, Wade no dava um passo. Ia dar-se o que ele mais receava desde a noite 
em que sara de Atlanta. Os yankees vinham prend-lo. 
- Os yankees? - disse Gerald, incrdulo. - Mas eles j estiveram c. .. 
-Virgem Santssima! -bradou Scarlett, cujo olhar se encontrara com o de Melanie. Por instantes 
reviu os horrores da ltima noite na cidade, as casas em runas pela extenso dos campos... 
Recordou as histrias de violkies, de torturas, de assassnios evocou a imagem do soldado yankee 
no vestbulo, com @ caixa de costura de Ellen na mo. "Isto, mata-me", pensou. "E eu a julgar que 
estava tudo acabado! No terei fora para suportar mais nenhuma provao deste gnero". 
Ento reparou no cavalo selado '  espera que Pork montasse para ir fazer um recado  quinta dos 
Tarletons. 
0 cavalo, o nico que possua... Os yankees iam tirar-lho, assim como a vaca e o vitelo, E a porca, e 
os leites, que tanto lhe custara a reaver! E o galo, e as galinhas to boas poedeiras', e os patos que 
os Fontaines lhe deram. E as mas e os inhames armazenados. E a farinha, e o arroz, e as ervilhas. 
E o dinheiro do yankee! Deitariam a mo a tudo, deixando a fome atrs de si. 
- No tero nada disso! - exclamou perante o ar estupefacto da famlia, que temeu pelo juzo a 
rapariga. - No hei-de morrer de fome! 
- Que , Scarlett? Que tens? 
- 0 cavalo... a vaca... os porcos... No os tero. No quero que os apanhem. 
Voltou-se bruscamente para os quatro pretos que se uniam unscontra os outros  entrada da casa e 
cujos rostos haviam passado do bano  cor de cinza. 
- Nos brejos! - ordenou. -Que brejos? -Na margem do rio, patetas. Levem os porcos para l. Vo 
#
depressa, Pork e Prissy. Suellen e Carreen, vocs metem nos cestos tudo o que puderem de 
provisbes, e 
escondam-nos na floresta. Bab, torna a colocar a prata na cisterna. No fiques a parado 'Pork. 
Leva o senhor contigo. No me perguntes porqu. V com o Pork, pap. Seja obediente. 
No meio da sua aflio no se esquecia do efeito que havia de produzir no esprito de Gerald o 
espectculo dos 
576 
uniformes azuis. Deteve-se torcendo as mos, e os soluos de Wade, que se agarrav@ s saias de 
Melanie, aumentarum-lhe mais o terror. 
- E eu que devo fazer, Scarlett? - perguntou Melanie, que no meio de tudo aquilo conservava a sua 
calma, apesar da lividez das faces. 
- A vaca e o vitelo - respondeu imediatamente a interpelada. - Esto no pasto. Leva-os para o mato, 
assim como o cavalo... 
Antes que a cunhada acabasse a frase, Melanie desembaraou-se de Wade e desceu a escadaria. Em 
seguida correu para o cavalo, arregaando as saias pelo caminho. Scarlett mal teve tempo de 
descortinar um par de pernas franzinas e j a outra estava montada na sela, cujos estribos estavam 
muito baixos para ela; mas segurou as rdeas e tocou com os taces as ilhargas do animal. De 
sbito, susteve-se e disse, com o rosto congestionado de medo: 
- 0 meu menino! Os yankees vo mat-lo. Scarlett, d-mo. 
J se dispunha a apear-se quando a cunhada lhe gritou: -Vai-te, vai-te! Leva contigo a vaca, que eu 
me ocupo, do pequeno. Vai, j te disse. Ento julgavas que eu os ia deixar que tocassem no filho de 
Ashley? 
Melanie lanou  volta um olhar desesperado, mas sempre se resolveu e partiu direita aos pastos. 
"Nunca pensei ver Melanie Hamilton montada como um homem", comentou Scarlett consigo 
mesma, reentrando em casa. Wade corria atrs dela chorando e tentando agarrar-se-lhe s saias. Ao 
subir a 'escada, Scarlett viu Suellen e Carreen precipitarem-se para a despensa, munidas de cestos. 
Viu tambm Pork a puxar Gerald por um brao: o velho no cessava de protestar, resistindo como 
uma criana. Do ptio elevava-se a voz estridente de Bab: 
-Vamos, Prissy, tira os porcos pra fora. Bem sabes que Sou muito gorda para cab no chiqueiro. 
Dilcey, diz  tua filha que no demora, 
Scarlett abriu violentamente uma gaveta da cmoda e procurou  pressa entre a roupa a carteira do 
yankee * Tirou tambm o anel de brilhante e os brincos que meteu na carteira. Mas onde 
guard-la? No colcho?' Na lareira da cozinha? Na cisterna? Escond-la no corpete? No, a no. A 
carteira faria chumao e, se os yankees desconfiassem, obrig-la-iam a despir-se. 
37 - Vento uvou - 1 577 
",, 
"Morro, se me tocam", pensou, desesperada. Em baixo, era um barulho infernal de corridas e 
gemidos. Scarlett bem desejaria de ter Melly junto de si, Meily com a sua voz tranquila, Melly que 
se mostrara to corajosa no dia em que o yankee entrara acol. Mas que  que Melly havia dito? Ah, 
o pequeno... 
Com a carteira apertada ao seio, Scarlett atravessou c> corredor e entrou no quarto onde o pequeno 
Beau dormia no seu bero improvisado. Ergueu-o cuidadosamente e tomou-o nos braos, enquanto 
o petiz, acordando em sobressalto, comeava a debater-se. Ouviu Suellen gritar: "Carreen, vem, 
depressa!" Do ptio levantavam-se guinchos e grunhidos indignados. Correndo  janela ' viu Bab 
seguir pesadamente pela fazenda com um leito a espernear-lhe em cada brao. Atrs dela ia o 
preto, tambm com dois porquinhos e a empurrar Gerald  sua frente. Este escorregava nos regos e 
agitava a bengala no ar. 
- Leva a porca, Dilcey! - gritou Scarlett. - Obriga Prissy a tir,-la. Depois  s enxot-la pelo campo 
adiante. Dileey olhou para cima, com ar cansado. Tinha um molho de objectos de prata no avental. 
-A porca - respondeu ela - mordeu Prissy e no 
que sa, 
#
"Deix-la", pensou Scarlett. E voltou  cmoda donde tirou os braceletes, o broche e a miniatura do 
es@lio do yankee. Mas onde guardar tudo aquilo? No podia segurar Beau com uma das mos e as 
jias com a outra. Foi descansar ento o petiz na cama; aquele, porm, sentindo que o largavam, 
soltou um vagido e Scarlett teve uma ideia genial. Que melhor esconderijo que o cueiro do nen? 
Voltou a criana de costas e enfiou a carteira no lugar escolhido, o que valeu um recrudescimento 
de gritos. Ela, todavia, no fez caso e apertou de novo as pontas do pano entre as pernas de Beau, 
que espinoteou a valer. 
"Agora", disse consigo, "vamos at ao mato". Pegando outra vez no mido que chorava, apertando 
com a mo livre as suas poucas jias, Scarlett atravessou o corredor do primeiro andar. De sbito 
parou gelada de medo. A casa estava to silenciosa! Tinham partido todos? Haviam-na 
abandonado? Como as coisas corriam, tudo era possvel que acontecesse a uma mulher szinha, a 
contas com os yankees... 
Sobressaltou-a leve rumor. Virou-se logo, agarrada ao 
578 
corrimo: esquecera-se do seu prprio filho! De olhos esgazeados, tentou chamar, mas a voz sumuse- 
lhe na garganta. 
- Levanta-te, Wade, e anda. A mam no pode levar-te ao colo. 
0 pequeno correu para ela, agarrou-lhe a saia e a escondeu a cara. Principiaram a descer a escada. 
Cada passo de Searlett era dificultado pelo rapazinho, que no largava a me. "Deixa-me, Wade, 
deixa-me!" Ele, no entanto, ainda a apertava mais. 
Ao chegar ao ltimo degrau, pareceu-lhe que todo o rs-do-cho corria ao seu encontro. Todos os 
mveis pareciam cochichar, "Adeus, adeus ... " No pde reter um soluo. Ali estava a porta da 
saleta de Ellen via-se ao fundo a escrivaninha onde a me passara tantas horas a trabalhar. Ali 
estava a casa de jantar, com as cadeiras fora dos seus lugares e os pratos ainda sobre a mesa. No 
cho viam-se os tapetes que Ellen tecera e tingira na parede o retrato da av Robillard, decotada, 
com o c@wo repuxado e nariz no ar, como se o artista lhe quisesse conferir para sempre o tom 
desdenhoso da sua raa. "Adeus, adeus, Scarlett O'Hara", repetiam todas as coisas que lhe 
recordavam a sua mais distante meninice. 
Os yankees iam queimar tudo aquilo! Era o derradeiro olhar lanado  mesa, ou melhor, o 
penltimo, porque ainda a teria de ver de longe, do esconderijo da floresta ou do brejo, envolta em 
fumo, a desmoronar-se num braseiro. 
"No posso deixar-vos", pensou. Os dentes entrechocavam-se-lhe de pavor. "No posso deixar-vos. 
Meu pai no. vos abandonaria. Disse-lhes uma vez que morreria queimado, convosco. Portanto, 
queimar-vos-o igualmente comigo, porque tambm vos no posso abandonar. Sois tudo o que me 
resta". 
Ao tomar esta deciso, dissipou-se em parte o seu terror, e Scarlett no sentiu mais nada seno um 
frio intenso no peito, como se ao mesmo tempo se gelasse tanto o medo como a esperana. E 
enquanto ali ficava imvel, sentiu 
0 rudo de muitos ca@alos a subirem a alameda, acompanhado do tinir de barbelas e de espadas. E 
a seguir ouviu uma voz dura de comando: "Desmontar!" 
Scarlett ab@Ixou-se rapidamente e, com voz terna, disse ao pequeno: 
579 
- Larga-me, Wade, desce a escadaria, atravessa o ptio e vai ter ao mato. Encontras a a Bab e a tia 
MeIly. Vai depressa, filho, no tenhas medo. 
Admirado com a mudana de inflexes da me, Wade ergueu a cabea e Searlett assustou-se com a 
expresso que lhe viu nos olhos: era a dum coelho apanhado numa armadilha. "Oh, Virgem 
Santssima, fazei com que ele no tenha convulses... diante dos yankees! No devem saber que 
temos medo". E, como o pequeno se lhe agarrasse cada vez mais'ela acrescentou distintamente: 
-S um homenzinho, Wade. No  nada, so apenas os patifes dos yankees. 
E desceu os degraus para ir ao encontro deles. 
Sherman efectuava ento a sua marcha atravs de Gergia, de Atlanta ao litoral. Atrs ficavam as 
#
runas fume-,, gantes daquela cidade, que comeara a arder quando as tropas a deixavam; adiante 
estavam trezentas milhas de territrio virtualmente indefeso, se exceptuarmos a pouca resistncia 
das milcias, compostas de rapazinhos e de velhos. 
A parte frtil do Estado, ocupada pelas plantaes, s albergava mulheres, crianas, gente muito 
idosa, e antigos escravos pretos. Por oitenta milhas quadradas os yankees pilhavam e incendiavam. 
Havia centenas de casas destrudas. Entretanto para Scarlett, que os via aproximarem-se, no se 
tratava dum assunto que interessasse o pas inteiro. No, era um caso estritamente pessoal, uma 
aco malfazeja dirigida contra ela e contra os seus. 
Ei-la no sop da escadaria, com o nen nos braos e Wade agarrado s suas pernas de cabea 
escondida nas pregas da saia. Os yankees j s@ espalhavam por todos os lados, empurravam-na 
para poderem subir, puxavam os mveis para a varanda, enfiavam punhais e baionetas nos sofs e 
nos colches, para ver se l estava qualquer coisa oculta. A clera surda sufocava os ltimos 
terrores de Scarlett, que mais nada podia fazer do que contemplar o saque levado a cabo pelos 
nortistas. 
0 sargento que comandava aquele destacamento era um homenzinho grisalho, de pernas arqueadas. 
Chegou-se mais perto, mascando tabaco e cuspindo abundantemente. 
-Entregue-me o que tem na mo, minha senhoraordenou. 
580 
Elcarlett esquecera-se das bugigangas que tencionava onder e com um sorriso de desdm (que dizia 
tanto, pensou, co@1o o da av Robillard) deixou-as cair e quase se divertiu a ver a sofreguido com 
que se precipitaram sobre o despojo. 
-vai fazer o favor-de- me dar tambm o seu anel e os brincos. 
Segurando debaixo do brao a criana, que se ps a guinchar, congestionada ela tirou os brincos, 
presente de casamento feito pelo pai  me. Em seguida arrancou do dedo o anel oferecido por 
Charles. 
-No os deite no cho, entregue~mos -disse o sargento.-Esses malandros j tm bastante. Que mais 
h que me possa dar? -Falando assim, observava-lhe o corpete. 
Por um instante, Scarlett pensou que ia desmaiar, J supunha que as mos daquele homem lhe 
poisavam no peito. 
-Mais nada -respondeu, -No costumam despir as suas vtimas? 
- Creio na sua palavra - volveu o sargento, bem humorado. Tornou a cuspir e deu meia volta. 
Com a mo no stio dos cueiros onde ocultara a carteira, Scarlett endireitou o petiz e tratou de o 
calar, agradecendo a Deus a ideia que tivera. 
Ouviu em cima o calcar de botas pesadas, o arrastar de mveis, o partir de jarras e de espelhos, as 
pragas que soltavam os militares quando no descobriram nada que valesse a pena. Do ptio 
erguiam-se gritos: "Cortem-lhes o pescoo, no deixem nenhum fugir!" e o burburinho provocado 
pelas galinhas e patos em rebolio. Um grunhido angustioso e depois um tiro de pistola, deram a 
entender que haviam dado cabo da porca. Maldita Prissy que se pusera a andar sem cumprir as 
ordens recebidas! o menos que os leitezinhos estivessem em segurana! E que a familia houvesse 
chegado sem novidade ao sitio dos charcos! Mas como sab-lo? 
Assim se conservou tranquilamente no sop da escadaria, enquanto os soldados vociferavam, e 
praguejavam, movendo-se em volta dela. Wade aterrado, no lhe largava a saa, e Scarlett sentia-o 
trem.'er dos ps  cabea. Faltavam-lhe, porm, foras para dizer fosse o que fosse que o pudesse 
sossegar. Tambm no era capaz de se dirigir aos 
581 
yankees, quer para lhes suplicar, quer para exprimir a clera que a avassalava. S lhe restava um 
pouco de energia para agradecer a Deus que as- pernas ainda a sustivessem e que o pescoo ainda 
lhe mantivesse a cabea direita. Mas, quando viu um grupo de barbudos descer a escada ajoujados 
ao peso do saque e, entre os objectos de que este se compunha, reconheceu o sabre de Charles, 
ento no pde mais e soltou um grito. 
Aquele sabre pertencia agora a Wade. Fora do pai e do av e Scarlett cedera-o ao filho no seu 
#
ltimo aniversrio natalcio. Naquela ocasio reali@ara-se uma espcie de cerimnia; Melanie 
vertera lgrimas de orgulho e de mgoa, beijara o sobrinho e dissera-lhe que devia crescer para ser 
militar como os antepassados. Wade envaidecia-se com o seu sabre e subia muitas vezes  mesa 
(por cima da qual ele estava pendurado) para tocar na preciosa relquia. Scarlett ainda poderia 
tolerar que lhe levassem as suas coisas, mas aquela... 0 pequeno, tendo escutado o grito que a me 
soltara, atreveu-se a levantar a cara, para ver, e, soluando, recuperou a voz e a coragem para falar: 
- ]@ meu! 
-No pode levar isso! -acudiu Scarlett, estendendo por seu turno a mo. 
-No posso, hem? -replicou o soldado que tinha o sabre, rindo com a maior impudncia. -S se  
por ser de.um rebelde... 
- Isso  que no . Esse sabre data da guerra do Mxico. No o pode levar, pertence ao meu filho. 
Era do pai dele. - Depois voltando-se para o sargento: - Peo-lhe o favor... diga-Ie que -mo 
devolva. 
0 sargento, satisfeito com a considerao de que era alvo, ordenou ao soldado: 
- Deixa c ver, Bub. 
0 outro entregou-lho de m vontade, observando: -Tem o punho de oiro macio. Voltou-o o 
sargento nas mos e, apresentando o punho  luz, para ler o que estava inscrito, soletrou: 
-Ao coronel Willkm R. Hamilton oferta dos oficiais, como preito  sua bravura. Buena Vistd 1847. 
Sim, senhora 
- acrescentou. - Eu tambm estive n@ Mxico. - Esteve` - volveu Scarlett sem entusiasmo. 
- como lhe digo. E ainda no vi ningum bater-se nesta guerra como na outra. Ento o sabre 
pertencia ao 
582 
av do menino? Est bem, guarde-o - rematou o sargento, que parecia contentar-se com as 
bugigangas apreendidas. 
- Mas tem o punho de oiro, macio - insistiu o soldado. 
- Deixa l' Que fique com ele, para se lembrar de ns... Searlett recebeu a arma sem sequer 
agradecer. Por que havia de se mostrar grata aos ladres que lhe restituam o que lhe pertencia? 
Entretanto o soldado e o sargento discutiam, Este, aborrecido j, mandou o outro ao diabo. Como 
no falassem de pr fogo  casa, Searlett comeou a sentir-se mais aliviada. Os que desciam do 
primeiro andar ou saam dos quartos do rs-do-cho comeavam a reunir-se no vestbulo. 
-Ento, o que acharam? - perguntou-lhes o sargento. -Um porco, galinhas e patos... Milho, inharnes, 
feijes... Aquela bruxa que vimos a cavalo devia t-los vindo prevenir. 
- Ento... vamo-nos embora. Que te parece, Paul Re- 'vere? 
- Aqui no h muitas coisas, meu sargento. Tem as jias? Despachemo-nos, antes que a comarca 
inteira se ponha a correr atrs de ns. 
-Procuraste na despensa? Nas cubatas? -S vimos algodo. Pegmos-lhe fogo. Por instantes Scarlett 
reviu as canseiras da colheita, sob a cancula, e`sentiu outra vez uma dor nas costas, como de 
queimadura. Tudo aquilo fora intil! J no havia algodo. 
-Realmente, no tem muitas coisas, minha senhora. -0 seu exrcito j passou por aqui-respondeu 
seca-mente Scarlett. 
- Ah, tem razo! Passmos por c em Setembro -disse um dos soldados revirando um objecto entre 
os dedos. 
- Tinha-me esqu`ecido. 
Scarlett reconheceu o dedal de oiro de Ellen. Aquilo recordou-lhe a mo delicada de quem o usara. 
Ei-lo, ao presente na mo suja e calosa dum estranho, que o levaria para o Norte para ornar com ele 
o dedo de qualquer mulher yankee. 0 dedal de Ellen! 
Baixou a cabea, a fim de que o inimigo no a visse chorar, e as lgrimas caram uma a uma na 
cabea do nen. Atravs do pranto, viu os militares dirigirem-se para a Porta. Ouviu o sargento 
gritar ordens, em voz dura e 
583 
#
1@" 
forte. Partiam, e Tara estava salva. 0 tinir dos sabres, o passo dos cavalos no lhes produziram 
grande satisfao. Tomada de sbita fraqueza, com os nervos abalados, ficou ali inerte, enquanto os 
yankees desciam a alameda coni o produto dos seus roubos, peas de roupa, aves, a porca abatida... 
Ento sentiu um cheiro acre. Demasiadamente cansada para se preocupar com o algodo que ardia, 
entrou em casa e, pelas janelas abertas da sala de jantar, viu sair o fumo vagaroso das cubatas 
outrora ocupadas pelos pretos. Assim se ia o algodo, o dinheiro com que devia pagar os impostos e 
prover s necessidades do Inverno. Ainda bem que as cubatas ficavam longe da residncia! Ainda 
bem que, nesse dia, o vento no soprava de molde a trazer as chamas para o telhado da casa! Mas, 
de repente, voltando-se, notou horrorizada que havia fumo na galeria que comunicava com a 
cozinha. 
Scarlett descansou -o mido no cho, encostou Wade  parede e correu  cozinha, tossindo 
chorando. Recuou, ergueu a saia para tapar o nariz com @la, e voltou  carga. Na quadra havia 
apenas uma fresta, de maneira que estava escuro; ouvia, porm, crepitar qualquer coisa e viu por 
fim umas chamazinhas rastejantes, Algum espalhara no cho as achas que ardiam na lareira e o 
soalho de pinho, muito seco, deixava-se impregnar fcilmente pelo lume. Foi ento  casa de jantar 
agarrou um tapete, depois de deitar por terra uma ou d@as cadeiras, e passou diante do filho que 
continuava a um canto, ao lado do sabre. "Meu Deus, vai morrer... Meteram-lhe tanto medo, os 
yankees!" Mas no pde deter-se, prosseguiu adiante e precipitou-se sobre o balde que deixavam 
sempre cheio de gua, no corredor, junto  porta da cozinha. A molhou uma ponta do tapete e 
correu de novo para o foco do incndio. 
L dentro, com a porta fechada, tossindo constanteniente, bateu com o tapete nas lnguas de fogo, 
sem parar. Por duas vezes se lhe pegou lume  sala, que extinguiu com vigorosas pancadas. Caramlhe 
os ganchos da cabea, os cabelos tombaram-lhe sobre os ombros. Extenuada, Scarlett antevia a 
inutilidade dos seus esforos, 
Ento abriu-se a porta e a corrente de ar activou 0 
incndio. Mas logo a mo de algum a fechou. Semicega, Scarlett reconheceu Melanie que 
patinhava as chamas e brandia um objecto escuro e pesado. Viu-a cambalear, 
584 
ouviu-a tossir lobrigou-lhe num relance o rosto lvido e o corpo frgil: 6rvada, continuava a vibrar o 
tapete de que se munira. Durante uma eternidade, as duas mulheres lutaram lado a lado 'e Scarlett 
acabou por perceber que as hamas diminuam. De repente, Melanie voltou-se para ela , soltando 
um grito, bateu-lhe com toda a fora nos om~ bros. Scarlett sentiu tudo escurecer  sua roda, e, no 
turbilho do fumo, caiu sem sentidos. 
Quando reabriu os olhos estava estendida na varanda das traseiras. A cabea dela repousava no 
regao de Melanie e o sol da tarde iluminava-lhe a cara. As queimaduras recebidas no corpo 
atormentavam-na bastante. Das cubatas dos pretos continuava a sair fumo espesso e o cheiro a 
algodo queimado era ainda mais forte. Viu tambm um fumozinho que se evolava da cozinha e fez 
meno de se levantar. 
- Est quieta - ordenou Melanie. - 0 fogo ficou apagado. * 
Conservou-se imvel durante um momento, fechou as plpebras e suspirou de alvio, A seu lado o 
nen babava-se ruidosamente; um soluo f-la reconhecer tambm a presena de Wade. Graas a 
Deus, o filho no morrera. Reabriu ento os olhos e fitou Melanie. Tinha ela a cara negra de 
fuligen-r e os cabelos um tanto chamuscados, mas sorria, de pupilas cintilantes. 
-Pareces uma preta - murmurou Sca@rlett. 
- E tu, uma saltimbanca - respondeu Melanie, 
- Porque me deste com o tapete? -Porque tinhas as costas a arder. No esperava  que desmaiasses. 
Eu tinha voltado a casa logo depois de haver escondido os animais no bosque. Que susto apanhei, 
ao pensar que estavas s com o mido! Os yankees... no te fizeram nada? 
- Se te referes a violao, informo-te que isso no houve realmente - retorquiu Scarlett, fazendo um 
esforo para Se sentar, - Mas furtaram tudo... Perdemos tudo. 
#
-Restam-nos os filhos, e ainda temos um tecto para nos abrigarmos -observou Melanie, cuja voz 
denotava algo de melodioso.  tudo o qe podemos desejar nesta altura. Meu Deus Beau est todo 
molhado! Oh- Scarlett, que diabo tem el@ nos cueiros?! 
Falando assim, deslizou a mo inquieta pelas costas do petiz e extraiu de l a carteira. Por instantes, 
dir-se-ia 
585 
nunca a ter visto; depois desatou a rir, um riso franco, que nada tinha de nervoso. 
- S tu para te lembrares disto! - exclamou. Lanando os braos ao pescoo de Scarlett, abraou-a e 
aduziu: - ns a melhor das irms. 
Os elogios da cunhada eram como um blsamo refrescante. Na cozinha repleta de fumo ' 
compreendera quanto Melly se tornara merecedora de estima. Unia-as agora urna caniaradagem 
mais estreita. 
"Tenho de lhe fazer esta justia", disse Scarlett consigo, embora sem grande entusiasmo. "Est 
sempre presente nas 
ocas es ce s". 
FIM DO PRIMEIRO VOLUME 
MARGARET MITCHELL 
E TUDO O VENTO LEVOU, II 
Ttulo original: GONE WITH THE WIND 
Copyright 1936 by The Mamilian Company Copyright renewed 1964 by Stephens Mitchell 
and Trust Company of Georgia as Execulors of Margaret Mitchell Marsh Copyright renewed 1964 
by Stephens Mitchelf 
All rights reserved Protected under the Berne, Universal and 
Buenos Aires Conventions 
Traduo de Maria Franco 
e 
Ins Duque Ribeiro 
1.* edio 1954 
2.' edio- 1959 
3.' edi-'IW (reimproo: 1971) 
4.' ed@o im: 
1 
Coedio EDITORIAL MINERVA Rua da Alegria, 30 Lisboa 
CONTEXTO, EDITORA Rua Ilha Terceira, 42-D, Pavilho 2, Lisboa 
MARGARET MITCHELL 
E TUDO 
0 VENTO LEVOU 
VOLUME 2 
Coedio EDITORIAL MINER VA CONTEXTO, EDITORA 
1988 
i @ --o 1 -cl@- 
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Z8 
0 TEMPO frio fez abrupta incurso, acompanhado de geada. Pelas frinchas das portas entrava um 
vento glacial, e o mesmo parecia desconjuntar as janelas, sacudindo-as com fora e produzindo um 
rudo montono. Caam das rvores as ltimas folhas, e s os pinheiros, sombrios e enregelados na 
atmosfera plida, se conservavam vestidos. A terra vermelha das estradas ficara dura como pedra. 
Em todo o territrio de Gergia se sentia os efeitos da fome. 
Scarlett lembrou-se com amargura, da conversa que tivera com a velha Fon61ne. Haviam decorrido 
dois meses, dois meses que pareciam anos! Dissera-lhe ento estar convencida de que o pior j 
havia passado - observao que se lhe afigurava agora bastante temerria. Antes do segundo assalto 
#
dos soldados de Sherman a Tara, Scarlett possua um tesouro em dinheiro e abastecimentos, tinha 
vizinhos favorecidos pela sorte e colhera o algodo suficiente para lhe %rmitir esperar sossegada a 
Primavera, Ao presente j no he restavam nem algodo nem provises. 
0 dinheiro de nada lhe servia, porque nada podia comprar, e os vizinhos estavam nessa ocasio em 
piores circunstncias. Ficara apenas com uma vaca e o seu bezerro, meia dzia de porcos e um 
cavalo, ao passo que as outras famlias s tinham aquilo que puderam esconder na floresta ou 
debaixo da terra. 
A residncia dos Tarletons fora incendiada por completo, e a dona da casa e as quatro filhas 
assistiam agora na do feitor. A dos Monroes, perto de Lovejoy fora arrasada tambm. Nas Mimosas, 
ardera a ala de madeira e o resto da habitao resistira unicamente devido aos esforos das senhoras 
Fontaines e dos criados, que se muniram de cobertores hmidos e com eles extinguiram o fogo. 
Graas  interveno do caseiro Hilton a plantao dos Calverts havia sido mais uma vez poupada: 
mas no existia l uma s cabea de gado, nem criao, nem sementes de qualquer espcie. 
Em Tara, e em toda a comarca, o problema da alimentao superara todos os outros. A maior parte 
das famlias no possua mais nada alm do que restava da ltima colheita de inhames e amendoim, 
e da caa que se deixava apanhar no bosque. Assim como faziam nos tempos de prosperidade, cada 
qual partilhava o que tinha com os vizinhos menos afortunados; mas no tardou a chegar altura em 
que j no havia que dividir. 
Se a sorte era favorvel a Pork, comia-se coelho em Tara, e ainda sarigueia e peixe. Nos outros dias, 
deviam contentar-se com um pouco de leite 'nozes, bolotas assadas, inhames, Jamais satisfaziam o 
apetite. Para onde se voltasse, Searlett tinha a impresso de ver mos erguidas em splica, olhares 
implorativos... Receava enlouquecer - e sentia tanta fome como os outros! 
Deu ordem de matar a vitela, porque bebia grande quantidade do precioso leite; nessa noite 
comeram tanto que chegaram a adoecer. Searlett pensava tambm mandar abater um dos por"s, 
mais ia deferindo a ocasio na esperana de que os animais atingissem maior desenvolvimento. 
Eram to pequenos, dariam to reduzida carne! Depois do jantar, Scarlett e Melanie conversavam 
sobre a oportunidade de expedir Pork munido de notas tentar adquirir provises; mas detinh@-as o 
medo de ape@rem o preto, aliviando-o do dinheiro e subtraindo-lhe o cavalo. Ignoravam onde 
poderiam estar os yankees, Quem sabe se ali mesmo, na outra margem do rio? Certo dia a Drpria 
Scarlett, incapaz de resistir mais tempo, disps~se a ir em pessoa  procura de alimento. A famlia, 
porm, aterrada com a ideia de a ver cair nas mos do inimigo, obrigou-a a desistir do propsito. 
Pork saa  pilhagem 'e afastava-se bastante da quinta. ,No era raro passar fora a noite inteira,' e 
Searlett, vendo-o voltar, abstinha-se de lhe fazer perguntas, s vezes ele trazia caa, outras vezes 
maarocas de milho ou um saco de ervilhas. Chegou a aparecer com um galo, alegando que o 
encontrara na mata. Toda a gente se regalou com o banquete, embora se sentisse culpada, pois sabia 
que Pork o furtara, assim como furtara as ervilhas e as maarocas. Pouco tempo depois disto, uma 
noite em que a casa repousava silenciosa havia j algumas horas, o preto foi bater  porta do quarto 
de Scarlett e mostrou-lhe tImidamente urna perna crivada de bagos de chumbo. Enquanto a patroa 
441 
lhe fazia curativo, ele explicou, embaraado, que o tinham surpreendido no momento em que 
pretendia introduzir-se numa capoeira de Fayetteville. Scarlett no lhe perguntou a quem pertencia 
essa capoeira mas, com os olhos hmidos, sorriu-lhe tristemente. Os pret6s eram s vezes 
exasperantes, estpidos e preguiosos, mas de grande lealdade para com os seus senhores, pelos 
quais arriscavam a vida s para no os deixar morrer de fome. Noutra altura, os roubos de Pork 
seriam delito grave e o seu procedimento implicaria chicotadas. Mas ao presente, Scarlett fazia vista 
grossa e j no considerava caso de conscincia o facto de- permitir que os criados subtrassem 
gneros a outras pessoas talvez mais necessitadas do que as de Tara. Em vez de o castigar, elogioulhe 
a fidelidade e prometeu que um dia, quando tivesse dinheiro, lhe compraria um relgio. 
0 escravo aproveitou-se do devaneio a que a ama se entregara, pensando talvez na abundncia de 
outros tempos, para se escapulir do quarto e recolher ao seu. "Como a vida fora outrora complexa!" 
dizia Scarlett para si. "To cheia de problemas intrincados! Houvera aquele que consistira em obter 
#
o amor de Asliley sem deixar de manter na expectativa uma dzia de outro@ admiradores. Houvera 
certas atitudes que fora preciso ocultar da famlia, raparigas ciumentas que necessitara de conciliar, 
vestidos a escolher, penteados diferentes a experimentar, e tantas outras coisas a resolver! Agora a 
existncia decorria com surpreendente simplicidade. 0 que importava era s conseguir alimentos 
para no morrer 4e fome possuir o vesturio bastante para se proteger do frio, con@ervar um tecto 
com que se abriga@sem da chuva". 
Foi nas noites que se seguiram que Scarlett teve por vrias vezes o pesadelo que a deveria 
importunar durante anos. Era sempre o mesmo sonho. Os pormenores no se modificavam, mas 
crescia o terror que lhe inspiravam e o receio de isso a perseguir, ainda depois de acordada. 
Lembrava-se bem dos incidentes que tinham assinalado o dia em que o pesadelo viera pela primeira 
vez. 
Durante dias e dias tombara uma chuva fria e tiritava-se no interior da casa hmida onde circulavam 
correntes de ar. Na lareira fumegavam achas molhadas que no davam grande calor. Desde o 
primeiro almoo nada havia para ingerir seno leite; esgotara-se o inhame e as armadilhas e as 
linhas de -pesca de Pork no davam resultado 
nenhum. Para ter alguma coisa que comer no dia seguinte tornava-se necessrio matar um dos 
bcoros. Scarlett s via  sua volta caras esfomeadas que silenciosamente lhe pediam alimento. 
Tinham de se arriscar a perder o cavalo * mandar Pork comprar fosse o que fosse para matarem * 
fome. Por cmulo de infelicidade, Wade estava de cama com angina e febre alta, sem mdico e sem 
remdios. 
Cheia de fraqueza e extenuada por tanto cuidar do filho, Scarlett confiou-o a Melanie e meteu-se no 
quarto para descansar um pouco. Com os ps gelados incapaz de conciliar o sono, esmagada pelo 
medo e pelo desespero, no parava de se voltar na cama, ora para um lado, ora para outro. "Que heide 
fazer?" perguntava a si mesma incessantemente. "A quem dirigir-me? No haver ningum que 
me ajude?" 
Onde se encontrava, pois, tudo o queconstitua elemento de segurana na vida? Por que no existia 
ali uma pessoa forte e sensata que a desembaraasse de to pesado fardo? Ela no podia, no 
aguentava... 
A pouco e pouco as ideias foram-se-lhe baralhando no crebro, e Scarlett adormeceu, num sono 
agitado. 
Viu-se numa terra desconhecida, onde o nevoeiro formava turbilhes to espessos que nem as 
prprias mos Scarlett distinguia. 0 cho fugia-lhe debaixo dos ps. Reinava profundo silncio, e 
ela sentia-se perdida, perdida, e aterrada como uma criana nas trevas da noite. Tinha frio e fome, e 
tanto medo do que se ocultava atrs da cortina de bruma que tentou gritar. Mas nenhum som lhe 
saiu da boca. Qualquer coisa se mexia entre o nevoeiro dedos que se estendiam para lhe agarrar no 
vestido e p@x-la para uma fenda do solo que tremia, mos silenciosas, impiedosas, mos de 
espectro. E ento Scarlett adivinhou que para alm da sombra opaca existia um abrigo, um socorro, 
um asilo onde estaria e m- segurana, onde no teria fome nem frio. Mas a que distncia ficava? 
Haveria tempo de l chegar antes que as mos a agarrassem e a arrastassem para as areias 
movedias? 
De sbito desatou a correr, a correr corno uma louca atravs do nevoeiro. Chorava gritava estendia 
os braos para a frente, e as suas pal@ias s s@ntiam o vento e a nvoa hmida. Onde estava esse 
refgio9 No conseguia descobri-lo mas sabia que existia algures. Se pudesse l chegar, es6ria 
salva. Mas o terror paralisava-lhe as pernas, 
10 
a fome fazia-a desfalecer. Soltou um grito de desespero e acordou. Melanie, inclinada sobre ela, 
olhava-a inquieta e sacudia-a com toda a fora. 
E o sonho repetiu-se sempre que Searlett se deitava de estmago vazio. A tal ponto a assustava que 
ela j temia adormecer, embora quisesse convencer-se de que no havia nada de apavorante naquele 
sonho. No, nada... Contudo, tinha tanto medo de se encontrar naquela terra enevoada que passou a 
dormir com Melanie, a qual ficou encarregada de a acordar assim que ela comeasse a gemer e a 
#
agitar-se no sono. 
A tenso nervosa tornou-a plida e magra. Desapareceu-lhe a graciosa convexidade das faces e as 
mas do rosto, salientando-se, acentuaram a for@na oblqua dos olhos verdes, dando-lhe o ar de 
um gato famlico sempre  cata de comida. 
"0 dia  para mim um pesadelo para que outro me atormente durante a noite", pensava Scarlett 
desesperada, comendo a sua rao diria antes de se deitar. 
Pelo Natal, Frank Kennedy e um pequeno destacamento, de soldados da Administrao Militar 
foram a Tara na v esperana de ai requisitarem cereais e cabeas de gado para o Exrcito. To 
andrajosos se apresentavam que pareciam salteadores. Os cavalos em que eles vinham, mancos e 
estafados, encontravam-se em muito mau estado para o servio activo. Tal como s montadas, 
haviam dispensado os homens das linhas de vanguarda. Com excepo de Frank, todos eles tinham 
um brao ou um olho a menos ou um membro tolhido. A maioria usava capotes azuis dos yankees 
e, nos primeiros momentos, os moradores de Tara, assustados, julgaram ver  sua frente soldados de 
Sherman. 
Passaram l a, noite, deitados no cho da sala, encantados por se estirarem sobre a, alcatifa,; havia 
semanas que dormiam ao ar livre, sobre a, terra dura ou em cima de rama de pinheiro. Apesar dos 
farrapos e da barba hirsuta, eram todos bem educados, conservadores. Contaram anedotas 
divertidas, distriburam cumprimentos e manifestaram a sua alegria por passarem a noite de Natal 
numa casa grande, no meio de mulheres bonitas, tal como estavam habituados noutros tempos. 
Recusaram-se a tomar a guerra muito a srio, mentiram descaradamente para fazer rir 
11 
as senhoras e deram  casa nua e despojada uma nota festiva que desde muito ali se desconhecia. 
-n quase como noutros tempos quando dvamos recepes, no  verdade? - murmurou Suellen a 
Scarlett. 
Suellen estava radiante por ter de novo um pretendente, e mal desviava os olhos de Frank Kennedy. 
Scarlett admirou-se ao verificar que a irm parecia quase bonita, apesar da magreza que persistira 
depois da doena. Tinha as faces coradas e no olhar notava-se-lhe doce luminosidade. 
"Est apaixonada", pensou Scarlett com desdm. "Aposto que se tornaria mais simptica se 
arranjasse marido, nem que fosse este velho tonto". 
Carreen tambm tinha melhor aspecto nessa noite, e -perdera o ar de sonmbula. Descobrira que um 
dos homens fota camarada de Brent Tarleton e que estava a seu lado no dia em que fora morto. Por 
essa razo, queria ter uma conversa a ss com o soldado, depois do jantar. 
 mesa, Melane surpreendeu toda a gente com a sua vivacidade. Ria, gracejava e por um pouco 
usaria de garridice com um soldado zarolho que lhe retribua com extravagantes galanteios. Scarlett 
sabia qual o esforo fsico e moral que isso representava para Melanie, a quem a presena de 
homens s lhe aumentava a timidez. Para mais, no andava nada bem. Embora afirmasse que se 
sentia forte e trabalhasse mais do que Dilcey ' Scarlett percebia que ela estava doente. Empalidecia 
sempre que pegava em qualquer peso e, de vez em quando, sentava-se de repente como se as pernas 
lhe fraquejassem. Nessa noite, porm, como Suellen e Carreen, fazia todo o possvel para que os 
soldados tivessem uma consoada agrad4vel. S6 Scarlett no experimentava prazer nenhum em 
receber convidados. 
Os militares juntaram as suas raes de milho e de carne salgada s ervilhas piladas, s mas 
assadas e ao amendoim que Bab ps em frente deles, e, de comum acordo, declararam que havia 
muitos meses no tinham refeio to boa. Scarlett via-os comer e sentia-se constrangida. No s 
lastimava cada bocado que eles ingeriam como pedia a Deus e aos santos que no descobrissem o 
bcoro, que Pork matara na vspera. 0 animal encontrava-se na despensa, e Scarlett ameaara 
arrancar os olhos a quem falasse aos soldados do porco morto e dos vivos que estavam na, pocilga, 
que ela mandara construir no meio 
12 
L1k"1@ , 
do brejo. Aqueles homens esfomeados eram capazes de devorar o bcoro e, se soubessem da 
#
existncia dos outros, requisit-los-iam para o Exrcito. Scarlett estava igualmente sobr brasas 
quanto ao destino da vaca e do cavalo; mais valia que os tivessem escondido nos charcos que na 
floresta. Se lhes levassem o resto do gado, seria impossvel @resistir a outro Inverno em Tara, pois 
no havia maneira de substituir aqueles animais. Quanto ao modo como a tropa se provia, ela pouco 
se importava. 0 Exrcito que alimentasse o Exrcito... se pudesse. Scarlett j tinha grande 
dificuldade em dar de comer aos seus. 
A sobremesa,, os soldados exibiram uns pes especiais, que Scarlett viu pela primeira vez, mas 
acerca dos quais j,conhecia os gracejos que se lhes fazia na comarca. Apresentavam o aspecto de 
espirais de madeira caleinada. Os homens acharam-se na obrigao de os oferecer e, quando ela deu 
uma dentada num desses pes, descobriu que por baixo da superfcie queimada estava apenas uma 
broa sem sal. Aquilo sabia mais a serradura do que a outra coisa! Imediatamente o devolveu ao 
militar que lho tinha dado, e toda a gente desatou a rir. 0 seu olhar cruzou-se com o de Melanie, e 
ambas tiveram este pensamento. "Como podero continuar a combater se  isto o que eles comem?" 
A refeio foi bastante alegre, e o prprio Gerald, que presidia, conseguiu puxar pela memria ao 
ponto de se recordar das obrigaes que tem um dono de casa. Quando se remetia ao silncio 
punha-se ento a sorrir. E, no meio das conversas e dos so@risos, Scarlett voltou-se bruscamente 
para Frank Kennedy a fim de lhe, perguntar pela tia Pitty@ pat, A expresso, no entanto, que lhe 
surpreendeu f-la esquecer-se do que ia dizer. Os olhos de Frank no fitavam Suellen: erravam no 
quarto, poisavam-se ora sobre Gerald, que tinha o ar duma criana espantada, ora para o cho 
desprovido de tapetes, ora na lareira vazia, nas poltronas desventradas pelos! yankees, nas paredes 
onde se via a marca deixada pelos quadros. Tambm observava a mesa to pobre de baixela, os 
vestidos remendados das raparigas, o bibe de Wade feito dum saco de farinha. Lembrava-se, por 
certo, da herdade que ele conhecera antes da guerra e a sua expresso patenteou a dor e a clera que 
experimentava. Amava Suellen, simpatizava com as outras irms, respeitava Gerald e votava  
plantao um verdadeiro culto. Desde que Sherman passara como um vento m,au 
13 
sobre Gergia, Frank vira bastantes espectculos de horror durante as diligncias feitas por todo o 
Estado a fim de obter provises: mas nada o perturbara tanto como a quinta de Tara naquele 
momento. Gostaria de ser til aos O'Haras, em especial a Suellen, mas no lhe era possvel. Quando 
Scarlett lhe surpreendeu o olhar 'abanava ele a cabea, lastimoso, e dava estalinhos com a lngua. 
Como notasse o orgulho indignado da rapariga, baixou a, vista, embar&ado, para o prato. 
As trs irms e Melanie estavam ansiosas por notcias. Depois da queda de Atlanta, havia j quatro 
meses, paralisara o servio dos correios e elas continuavam na mais perfeita ignorncia quanto  
localizao actual dos yankees,  situao do exrcito confederado e ao destino de Atlanta e das 
pessoas conhecidas. Como as suas funes o obrigavam a percorrer o Estado de ls a ls, Frank 
equivalia a um autntico jornal, demais a mais sendo aparentado com quase toda a gente de Macon 
e de Atlanta. Para dissimular o seu embarao, -meteu-se imediatamente na conversa, 
-Os confederados poderiam ter retomado Atlanta depois da salda de Sherman. Mas seria uma 
conquista desvaliosa, com a cidade toda incendiada! 
-Eu supunha que o incndio tinha sido na noite da nossa partida e que os residentes  que haviam 
posto o fogo! 
- Ali, no, senhora,! Ns no queimmos nenhuma das cidades enquanto os nossos estavam l 
dentro. 0 que viu arder f@ram os armazns que ns no desejvamos cassem em poder dos 
yankees, assim como as fundies e os depsitos de material de guerra. Nada mais. Quander 
Sherman se apoderou da cidade, isso, ainda estava intacto e ele instalou l os soldados. 
- E que sucedeu aos habitantes? Mataram-nos? 
- Mataram alguns, mas no a tiro - declarou o soldado zarolho. - Logo que chegou a Atlanta, o 
general disse ao administrador que toda a gente devia ser evacuada. E havia tantas pessoas de idade 
incapazes de suportarem uma viagem! Mulheres que... enfim, senhoras que tambm se no 
encontravam em estado de se deslocarem. Pois mesmo assim forou-as a sair debaixo da chuva 
mais forte que eu at hoje vi! AbandoAou-os a todos no bosque perto de Rough e Ready e pediu por 
#
escrito ao general Hood que 
14 
os fosse recolher. Muitos morreram de pneumonia, ou devido  falta de resistncia. 
- E por que  qui-- procedeu assim? No lhe podiam fazer mal nenhum -observou Melanie. 
- Alegou que precisava da cidade para os militares e os soldados descansarem - respondeu Frank. - 
De facto, ficaram l at meados de Novembro.  partida, pegaram fogo a tudo. 
-A tudo! -repetiram as mulheres 'consternadas. No concebiam que tivesse deixado de existir a 
cidade to animada, to cheia de gente que haviam conhecido. Todas aquelas moradias sombreadas 
de rvores, todas aquelas lojas, todos aqueles hotis to @bons... Tudo isso destrudo? Melanie 
parecia prestes a debulhar-se em lgrimas porque ali fora criada e tivera a sua casa. A prpria 
ScaAett sentiu o corao oprimido, pois, em seguida a Tara, era aquele o stio que preferia. 
-Isto , a quase tudo - apressou-se Frank a corrigir, impressionado com a expresso delas. Esforouse 
por se mostrar despreocupado, para no apoquentar mais as senhoras, e, para evitar maiores 
sobressaltos, calou os factos piores a que assistira. Outros que lhos contassem. 
No podia descrever-lhes o que o Exrcito vira quando retomara posse de Atlanta: centenas 
de.chamins enegrecidas e isoladas entre runas 'montes de escombros meio caleinados, tijolos a 
obstruir as ruas rvores antigas que o fogo matara, deixando--lhes os ram6s cabonizados... No 
esquecera a impresso terrvel que lhe causara tal espec~ tculo, nem as maldi" dos confederados 
quando tinham visto o que restava da cidade. Oxal aquelas senhoras nunca chegassem a saber dos 
horrores que os homens de Sherman haviam praticado no cemitrio, quando da pilhagem, pois no 
suportariam semelhante notcia. Era l que estavam enterrados os pais de Melanie e Charles 
Hamilton. A viso daquele cemitrio saqueado ainda causava pesadelos a Frank. Na esperana de 
encontrar jias nos defuntos, os soldados yankees tinham arrombado jazigos, revolvido sepulturas' 
despojado os mortos, arrancado s urnas as guarnies de prata. Entre os caixes desmantelados, 
amontoavam-se cadveres e ossos expostos ao sol e ao vento... 
E Frank tambm no pola falar dos ces e dos gatos. As senhoras dedicavam tanta estima a esses 
animais! Milhares de ces e de gatos vagueando pelas ruas, tran- 
15 
_. r 
sidos, esfomeados, bravios... Os fortes atacavam os fracos, os fracos espreitavam a morte dos mais 
fracos ainda, para os comerem... E, por cima da cidade em runas, butios sinistros pairando no cu 
nebuloso... 
Frank procurou nos recnditos da memria qualquer pormenor que atenuasse a m impresso das 
senhoras. 
-Ainda ficaram algumas casas de p-declaroucasas distanciadas das outras, a que o incndio no se 
propagou. As igrejas e a loja manica esto intactas, assim como alguns armazns. Mas a zona 
comercial, o bairro ao longo da via frrea... isso ardeu tudo. 
-- Nesse caso j no existe o armazm que Charles me deixou? -disse @carlett, com amargura. 
- Se ficava prximo da linha, decerto tambm foi destrudo... - Frank sorriu de repente. Como  que 
no se lembrara disso mais cedo? - Alegrem-se, minhas senhoras! A casa da sua tia Pitty no ardeu. 
Ficou um pouco danificada mas l est. _bomo  que escapou,ao incndio? 
n construda de tijolos, e devia ser a nica em Atlanta que tinha telhado de ardsia. Suponho que foi 
devido a isso que o lume lhe no pegou. Para mais,  um dos ltimos prdios do lado norte, e a o 
incndio no foi to violento.  claro, os yankees aquartelados nessas bandas fizeram o possvel por 
estrag-la. Chegaram ao ponto de partir os balastres e o corrimo de mogno da escada, para 
fazerem lenha; mas, quanto ao resto, a casa est na @@esma, Quando a semana passada encontrei a 
senhora Pitty em Macon... 
-Encontrou-a? Como  que ela est? -Muito bem. Dei-lhe a notcia de que a casa ficara intacta e 
resolveu logo voltar para Atlanta. 0 que no sei  se o velho preto a deixar partir... Muitas pessoas 
j regressaram a Atlanta. Sherman no tomou Macon, mas receiam que Wilson aparea por l, e 
Wilson ainda  pior que Sherman. 
#
- Mas que tolice, a de essas criaturas terem regressado, se perderam a casa! Onde  que se abrigam? 
-Abrigam-se em tendas 'em grutas 'em cabanas feitas de tbuas. Nas poucas casas que restan@ 
alojam-se seis e sete famlias, E tentam reconstruir. No  tolice, no. Conhecem to bem como eu 
os habitantes de Atlanta. Tm tanto apego quela cidade como os de Charleston tm  sua, e seria 
preciso outra coisa alm de yankees e de incndios 
16 
para sarem dali definitivamente. Os atlantenses... salvo o devido respeito, senhora Melly... so 
teimosos como burros quando se trata da sua terra. No sei porqu... Sempre achei Atlanta 
destestvel, muito barulhenta, muito dinmica... Mas eu sou do campo e no gosto de cidade 
nenhuma. Em todo o caso, compreendo que os primeiros a regressar so os mais espertos. Os que 
chegarem depois no encontraro uma tbua nem uma pedra da sua casa, porque_ o que todos 
pretendem agora  material para reconstruo. Ainda anteontem vi a senhora Merriwether 'a 
menina Maybelle e ai criada preta a apanharem tijolos e a, p-los num carrinho de mo. E a senhora 
Meade disse-me que tencionava fazer um casebre de madeira logo que o doutor estivesse de volta 
para a ajudar. Contou-me que j vivera numa cabana quando Atlanta ainda se chamava Marthasville 
e que no se importava nada viver assim outra vez. n claro, disse isto por brincadeira, mas por aqui 
se v a forma de pensar daquela gente. 
-Coragem no lhes falta-comentou Melanie, com orgulho. -No achas, Scarlett? 
Scarlett fez um gesto afirmativo. Atlanta, como dissera Frank ' era uma cidade dinmica, e por isso 
mesmo  que ela a apreciava. Ali no se fazia vida caseira como nos burgos mais antigos, e todos 
mostravam uma exuberncia que se harmonizava com o feitio de Scarlett. "Sou como Atlanta", 
pensou ela. "Nem yankees nem incndios me deitam abaixo". 
- Se a tia Pitty voltar para Atlanta, podemos ir morar com ela. Seria o melhor. No te parece, 
Scarlett? 
- Abardonar Tara? - retorquiu Scarlett, com uma nota de irritao na voz. -Se quiseres ir, vai. No te 
retenho. 
- No era isso que eu queria dizer - volveu Melanie, corando. - Que cabea a minha! Evidentemente 
que no podes abandonar Tara... E... a tia tem o Peter e a criada para tratarem dela... 
- Nada te impede de ir - tornou secamente Scarlett. 
- Sabes bem que no te deixo. Sem ti... morria de medo. 
-Como queiras 'Alis ningum me apanha em Atlanta. Assim que estejam alguAs prdios 
construdos, Sherman voltar para incendiar tudo outra vez. 
-No voltar-afirmou Frank. E, apesar dos seus esforos, transpareceu4he o desgosto na fisionomi. 
- Atra- 
2 - Vento Levou - 11 17 
vessou todo o Estado at a costa. Savannah rendeu-se esta semana e consta que os yankees entraram 
em Carolina do Sul. 
- Savannah rendeu-se! 
- No podia-fazer outra coisa. No dispunha de homens suficientes para a defesa, apesar de terem 
chamado todos os que puderam. Sabem que, quando os yankees marcharam sobre Milledgeville, 
convocaram todos os alunos dos colgios militares sem se preocuparem com a sua idade, e que at 
abrirai@ a Penitenciria para terem tropas frescas? 19', verdade, libertaram todos os presos que 
estavam dispostos a bater-se e prometeram-lhes <> indulto se esca" passem da guerra. Senti-me 
arrepiado ao ver aqueles midos nas fileiras ao lado de assassinos e de ladres. 
-Libertaram os presos? So capazes de nos atacar! -No se assuste, minha senhora. Eles esto muito 
longe daqui. Alm disso, esses homens so esplndidos soldados. 0 facto de ser ladro no impede 
de ser bom soldado. 
-Acho isso magnfico -murmurou Melanie. 
- Eu, no - ripostou Scarlett. - J temos muitos gatunos no pas, no s os yankees como... 
Calou-se a tempo, mas os homens desataram a rir e completaram a frase: 
-No s6 os yankees como os funcionrios da Manuteno Militar. 
#
Scarlett corou at  raiz dos cabelos. 
- E onde est o exrcito do general Hood? - interveio Melanie. -Esse  que podia defender 
Savannah. 
- Oh, minha senhora! - protestou Frank. - 0 general nunca esteve nessas bandas. Batia-se em 
Tennessee para expulsar os yankees de Gergia. 
-E o seu plano deu um resultado! -exclamou Scarlett em tom sarcstico. -Deixou os malditos 
yankees atravessar o nosso pas e, para nos proteger, chamou meninos de escola e presidirios! 
- No praguejes, filha! - ralhou Gerald, inesperadamente. - Tua me no gostaria de te ouvir. 
- Malditos, sim! - repetiu Scarlett, afogueada. - Hei-de apod-los sempre de malditos. 
Aquela aluso a Ellen provocou um silncio de constrangimento. De novo Melanie se interps. 
18 
-Quando esteve em Macon, viu India e Honey Wil.kes? Elas souberam alguma coisa de AshIey? 
-Oh, minha senhora, se houvesse novidade a respeito dele eu vinha logo inform-la! No no 
souberam nada. Em todo o caso, no se aflija. Sei que h muito tempo no recebe notcias de seu 
marido, mas no se pode contar com notcias frequentes dum prisioneiro, no  verdade? A vida nas 
prises yankees no  to m como nas nossas. Aos yankees no falta comida, nem medicamentos, 
nem cobertores. Ao passo que a ns... 
- Sim, os yankees tm tudo o que  preciso, mas no do nada aos prisioneiros - observou Melanie 
em tom de amargura. - Sabe-o muito bem, senhor Kennedy, e diz isso para me animar. No ignora 
que os nossos morrem de fome e de frio, que no tm assistncia mdica nem remdios, porque os 
yankees nos detestam. Oh, pudssemos ns varrer da face da Terra todos os yankees! Sei que 
AshIey j... 
- Cala-te! - atalhou Scarlett, com um n na garganta. Enquanto ningum dissesse que AshIey 
morrera acalentava a dbil esperana de que ele ainda vivia; mas tinha a impresso de que, se 
algum proferisse a frase fatal, AshIey morreria no mesmo instante. 
-No se apoquente por causa do seu marido -interveio o soldado zarolho. - Capturaram-me depois 
da primeira batalha, de Manassas e, enquanto estive prego, deram-me tudo o que havia de bom: 
bolos, frango assado no espeto... 
- Palpita-me que isso  uma grande peta -disse Melanie esboando um sorriso. - Que lhe parece? 
-Parece-me que sim -respondeu o homem, soltando uma gargalhada. 
-Se quiserem passar todos  sala, cantarei algumas loas de Natal-props Melanie, desejosa de mudar 
de assunto.-Os yankees no puderam levar o plano. Est muito desafinado, Suellen? 
-Desafinadssimo - respondeu esta sorrindo para Frank. 
Entretanto, quando os convivas saam da casa de jantar, Frank deixou-se ficar para trs e puxou pela 
manga de Scarlett. particular. 
-Gostaria de ter consigo uma conversa em 
19 
Scarlett receou que ele quisesse falar-lhe dos animais e tratou de forjar uma mentira. 
Depois de todos sarem, Frank e Scarlett aproximaram-se do fogo. Frank parecia agora um velho, 
sem a falsa alegria que antes lhe animava o rosto, A sua pele seca e escura lembrava as folhas que 
rodopiavam ao vento nos,campos de Tara, As suas arruivadas estavam entremeadas de cs. Frank 
afagava-as distraidamente e, antes de comear a falar, pigarreou de modo desagradvel. 
-Senti muito a morte da senhora sua me... -No toquemos nesse assunto por favor -E o senhor seu 
pai... Ficou'assim desde que ... ? 
- Sim. J no  o mesmo, como viu. -Era muito afeioado  esposa... 
- Peo-lhe senhor Kennedy, no falemos de... 
- Desculpe, menina Scarlett. - Frank arrastava os ps, nervosamente. - Eu tencionava falar ao senhor 
O'Hara de determinado assunto, mas compreendo que no est em condies de... 
- Talvez eu possa ajud-lo, senhor Kennedy. Afinal, sou eu quem faz as vezes de chefe de famlia. 
- n que... - principiou Frank, puxando pelas suas com dedos trmulos -... que eu queria pedir ao 
seu pap a mo da menina Suellen, 
#
-Ento ainda no falou nisso ao meu pai? -replicou Scarlett, admirada e divertida com o caso. -H 
tanto tempo que namora minha irm! 
Frank corou e sorriu timidamente, 
- No tinha a certeza de que ela me quisesse. Sou muito, mais velho, e havia. tanto rapaz a rondla... 
"Rondavam era a mim, no era a Suellen", pensou Scarlett. 
- E ainda no sei se ela ine quer. Nunca lhe disse nada, mas a menina Suellen deve j ter percebido 
os meus sentimentos. Eu queria que o senhor O'Hara me desse consentimento... Acho de minha 
obrigao dizer a verdade. Noutros tempos, eu tinha algum dinheiro, mas hoje nada mais possuo do 
que o meu cavalo e a roupa que trago vestida. Quando me alistei, vendi quase todas as propriedades 
e coloquei o dinheiro em ttulos de dvida da Confederao. Sabe o que valem agora; menos ainda 
do que o papel em que esto impressos. E nem isso me resta, porque ardeu tudo com a casa de 
minha irm. n, uma ousadia pedir a 
20 
mo da menina Suellen nesta altura em que no tenho um cntimo mas... A gente no pode prever o 
que resultar desta g@erra, D-me a impresso de que ser o fim do mundo... n tudo to incerto! 
Seria um consolo para mim, e talvez tambm para ela, ficarmos noivos oficialmente. Ao menos era 
uma coisa segura. No pretendo casar enquanto no tiver com que manter um lar e no fao a 
mnima ideia quando isso acontecer, ma@, se d algum valor a uma afeio sincera, pode ter a 
certeza de que a sua irm ser rica nesse ponto, se no o for materialmente. 
Proferiu estas palavras com uma dignidade que chegou a enternecer Scarlett, embora ela estivesse a 
desfrut-lo. No compreendia que algum pudesse amar Suellen. Achava a irm um monstro de 
egosmo que passava a vida a lastimar-se e a aborrecer os outros. 
-Est muito bem, senhor Kennedy-disse em tom amvel. - Falo em nome de meu pai. Ele sempre 
teve por si grande considerao e esperava que Suellen casasse consigo. 
- Palavra?! - exclamou Frank, radiante. -Sim, senhor-afirmou Scarlett, reprimindo a vontade de rir 
ao lembrar-se da maneira como Gerald costumava antigamente interpelar Suellen, dum extremo a 
outro da mesa: "Ento, menina? 0 teu apaixonado ainda no se declarou? Ser preciso que eu lhe v 
perguntar quais so as suas intenes?" 
-Vou falar hoje mesmo  menina Suellen-disse Frank, com as bochechinhas a tremer. Agarrou na 
mo de Scarlett e apertou-a com fora.-Muito obrigado pela sua bondade. 
-Direi a Suellen que venha ter consigo. E Searlett dirigiu-se para a sala. Melanie comeara a tocar. 0 
piano encontrava-se muito desafinado, mas algumas notas conservavam bela sonoridade e Melanie 
elevava a voz para entusiasmar os outros a cantar Ouvi os Anjos Anunciadores. 
Searlett parou a escutar o cntico de Natal. Parecia-lhe impossvel que a guerra tivesse passado duas 
vezes por ali, que ela vivesse com os seus num pais devastado ' beira da misria, quase a morrer 
de fome... Voltou-se de repente para Frank: 
-Que queria dizer ao declarar-me que tinha a impresso de que isto era o fim do mundo? 
21 
--Vou falar-lhe com toda a franqueza - respondeu Frank lentamente. -Mas peo que no alarme as 
outras senhoras repetindo as minhas palavras. A guerra no pode durar muito mais tempo. H. falta 
de homens que preencham as vagas nas fileiras e cada vez  mais elevado o nmero de desertores. 
No suportam estar longe da famlia, sabendo que a mulher e os filhos morrem de fome, e 
regressam a casa para ver se conseguem arranjar-lhes subsi tncia. No os censuro, mas o facto  
que o Exrcito enfraquece. Alm disso, os soldados no podem trabalhar sem comer, e o alimento 
escasseia. Ningum melhor que eu sabe o que se passa porque sou oficial da Administrao Militar. 
Desde que @etornmos Atlanta 'percorri a regio de ls a ls e no encontrei nada que enchesse 
sequer o papo a um canrio. E em trezentas milhas at Savannah  tudo a mesma coisa. As pessoas 
esto na misria, j no existem linhas frreas, nem espingardas, nem munies, nem sequer 
cabedal para sapatos. Nestas condies, no acha que o fim est prximo? 
Mas as iluses perdidas da Confederao afligiam muito menos Scarlett do que as observaes de 
Frank acerca da falta @de alimentos. Tencionava confiar a Pork as suas moedas de oiro e as notas 
#
confederadas e mand-lo, com o cavalo e a carroa, procurar mantimentos e algumas peas de 
roupa. Mas, se o que Frank dizia era verdade... 
No entanto, Macon no cara em poder do inimigo. Devia haver comida em Macon. Assim que se 
retirassem os homens da manuteno, ela mandaria Pork a Macon, embora se arriscasse a que 
requisitassem para o Exrcito o seu precioso cavalo. 
- No falemos mais de coisas tristes esta noite, senhor Kennedy - disse Scarlett. - V para a saleta 
da minha me e espere l pela Suellen, Assim, podero... conversar mais  vontade. 
Vermelho e sorridente, Frank saiu do quarto, seguido pelo olhar da irm de Suellen. 
"Pena  que no -case j com ela", pensou Scarlett. "Seria menos uma boca a alimentar". 
22 
ZO 
No ms de Abril do ano seguinte o general Johnston, a quem haviam, restitudo os pobre@ restos 
do seu exrcito desmantelado, rendia-se ao inimigo no Estado de Carolina do Norte. Assim acabava 
a guerra. Todavia a notcia s chegou a Tara duas semanas depois. Havia ali muito que fazer, de 
modo que no podiam 'perder tempo em visitas nem conversas. E como os vizinhos estavam 
tambm ocupados, as novidades chegavam duns a outros com enorme lentido. 
Procedia-se nessa altura  lavra das terras. Era preciso semear algodo, hortalias e legumes 
aproveitando as sementes trazidas de Macon pelo negro'Pork. Este estava to orgulhoso por ter 
voltado so e salvo com o seu carregamento que j no fazia praticamente nada. De facto, trouxera 
a carroa, cheia de roupa, sementes, criao, presunto, carne de vaca, farinha. De vez em quando 
contava as suas peripcias de viagem e os perigos a que escapara. Deliciava-se a descrever os 
caminhos desviados que havia seguido, as veredas por onde no passava ningum, os antigos 
trilhos, as sendas destinadas apenas aos cavalos. Durante as cinco semanas que durara a ausncia 
dele, Scarlett estivera sobre brasas, mas ao v-lo chegar, no lhe dirigira qualquer censura. 
Alegrava-a a ideia de que o preto se sara bem e de que no fizera despesas inteis: no fundo, 
desconfiava de que alguns gneros no tivessem sido comprados, o que explicava tantas economias 
feitas. Na realidade para que haveria Pork de gastar o dinheiro da sua senho@a, se existiam pelos 
caminhos numerosas galinhas  solta? Tantas despensas a pedir que lhes deitassem a mo? 
Agora que j no se encontravam  mngua dos mantimentos, os habitantes de Tara esforavam-se 
por dar  vida, o seu aspecto normal. Havia afazeres para todos, muitos afazeres contnuos, 
infindveis. Era preciso arrancar os caules s@cos dos algodoeiros do a-no anterior, a fim de dar 
espao para a nova semeadura. 0 cavalo 'que no estava habituado a puxar a charrua deixava-se 
conduzir de mau modo. Fazia mister, tambm, esembaraar a horta das ervas que a enchiam, 
semear para aquele ano, cortar 
23 
lenha, repor as vedaes que os yankees haviam tirado para queimar. Duas vezes por dia tinham de 
ir ver as armadilhas que Pork distribura, destinadas aos coelhos bravos, e verificar se as linhas de 
pesca necessitavam de engodo. Isto sem falar das camas por fazer dos quartos a limpar do servio 
de cozinha, com a re4ectiva. loia. E levar 6mida aos porcos e s galinhas, e recolher os ovos que 
estas punham. E ordenhar a vaca, lev-la a pastar perto do brejo, vigiando-a todo o tempo, no 
fossem aparecer de sbito os yankees ou os subordinados de Fr@nk Kennedy... 0 pequeno Wade 
tambm fazia o trabalho. T as as manhs, de cabaz no brao, ei-lo com ar importa@n2 a apanhar 
caruma e lenha para atear o lume. 
Foram os rapazes Fontaines os primeiros da comarca que regressaram da gu@ra: eles  que 
trouxeram a nova da rendio de Johnston. Alex, que ainda possua botas, vinha a p, e Tony, que 
estava descalo, montava um muar desselado. Tony sempre tratara de ser o mais bem servido da 
famlia. Depois daqueles quatro anos de exposio ao sol e s intempries, estavam ambos mais 
tisnados do que nunca e igualmente mais magros. Com a barba intonsa que h@viam deixado 
crescer, tornavam-se quase irreconhecveis. 
De caminho para as Mimosas e ansiosos por se acharem em casa, pararam s uns instantes em Tara 
para cumprimentarem as raparigas e anunciar-lhes a rendio do Exrcito. Estava tudo acabado, 
#
diziam eles, mas com o ar de quem no ligava muita iniportncia ao facto. A nica coisa que os 
preocupava era saber se a residncia das Mimosas fora incendiada. Naquela viagem de regresso no 
tinham visto seno paredes enegrecidas onde outrora existiram moradias, e mal ousavam esperar 
que a sua houvesse sido poupada. Suspiraram, pois, longamente quando Scarlett lhes participou que 
as Mimosas continuavam de p, e deram fortes palmadas nas coxas ao ouv-la contar a cavalgada 
doida de Sally e a forma admirvel como ela saltara a sebe. 
- P, uma rapariga valente - comentou Tony. - Que pouca sorte ter-lhe rnorrido o Joe! Ter voc por 
acaso um pouco de tabaco de mascar Scarlett? 
- No, temos s de 6chimbo. 0 pai fuma-o num 
cachimbo improvisado. 
-Ainda no cheguei a esse apuro-replicou Tony.Mas no vem longe o dia... 
24 
- Que tal vai a Dimitry Munroe? - perguntou Alex vivamente, se bem que um pouco embaraado. E 
Scarlett lembrou-se vagamente de que ele no desagradava  irm mais nova de SaIly. 
- Menos mal. Vive agora com a tia em Fayetteville. A casa de Lovejoy ardeu, 0 resto da famlia est 
em Macon. 
-No  isso que lhe interessa. Ele s queria saber se Dimitry casou com um desses hericos coronis 
das foras territoriais - observou Tony, escarninho. 
Alex deitou-lhe um olhar furibundo. 
- No, no casou - respondeu Scarlett, divertida. -Talvez mais valesse ter casado -replicou Alex com 
ar soturno. -Como diabo... desculpe, Scarlett... como  que um homem pode pedir uma rapariga em 
casamento quando se v sem escravos, sem gado e sem dinheiro? 
-Bem sabe que Dimitry no se importaria com isso -volveu Scarlett, Podia ser magnnima para 
Dimitry e dizer bem dela, porque Alex Fontaine nunca entrou nr, rol dos seus pretendentes. 
- Raios me par... Desculpe, Scarlett. Tenho de perder o hbito de praguejar, seno a av ainda me 
chega ao plc;. 
0 caso  que, na situao em que me encontro, no vou propor casamento a uma rapariga. Se ela no 
se importa, importo-me eu. 
Enquanto Scarlett tagarelava com os dois rapazes debaixo da varanda, Melanie, Suellen e Carreen 
entraram silenciosamente emcasa aps a notcia da rendio. Depois de os Fontaines partirem, 
Searlett entrou por seu turno e ouvia-as chorar na saleta de Ellen. Tudo findara: o belo sonho que 
haviam acalentado, a Causa que lhes arrebatara os amigos, os noivos, o marido e que arruinara a 
famlia. Cara Dara sempre essa Causa que tinham julgado invencvel. 
Scarlett  que no via razo para lgrimas. Quando soubera a grande novidade, dissera logo 
consigo: "Graas * Deus! Agora j no h perigo que me furtem a vaca, nem * cavalo. Agora j 
podemos tirar as pratas da cisterna e 
cada qual ter o seu talher. Acabou-se o medo de andar pela regio  procura de alimento". 
Que alvio! No ter mais sobressaltos ao ouvir tropel de cavalos, nem acordar a me!o da noite, com 
a sensao de estarem yankees no ptio... Enfim, Tara estava salva! Isto ainda era o melhor de tudo. 
Da em diante j no teria o 
25 
receio constante de ver a casa adorada consumida pelas chamas. 
Sim, a Causa estava perdida, mas Scarlett sempre considerara a guerra uma loucura e a pa - era 
prefervel a tudo. Nunca se comovera ao ver iar a bandeira da Confederao nem ao ouvir tocar 
Dixie. Essa dedicao  Causa, esse fanatismo que sustentara as outras mulheres no a haviam 
ajudado a suportar as privaes, os repugnantes deveres de enfermeira os terrores durante o cerco, a 
fome por que passara nos ltimos meses. Tudo findara, e no seria ela que desataria a chorar por 
causa disso. 
Tudo acabado. Acabada aquela guerra interminvel, aquela guerra que Searlett no desejara, que lhe 
cortara a vida a meio, corte to profundo que ela mal se lembrava da sua existncia de outrora. 
Podia inclinar-se sobre o passado e rever sem comoo nenhuma a linda Scarlett com os seus 
#
sapatinhos de marroquim verde e os seus folhos impregnados de perfume de alfazema. Custava-lhe 
a crer que fosse essa mesma rapariga a quem todos os rapazes cort Javam, que possua uma centena 
de escravos que se apoiava nas riquezas de Tara como nas muralhas duma fortaleza, que era to 
amimada pelos pais. Scarlett O@Hara, a que tivera tudo quanto queria... excepto o que dizia 
respeito a Ashley. 
Algures, na longa estrada que serpenteava atravs dos ltimos quatro anos, a rapariguinha 
perfumada, calada de sapatinhos leves, cedera lugar a uma mulher de olhos duros que contava o 
dinheiro e fazia trabalhos grosseiros, mulher a quem a derrocada nada deixara alm do indestrutvel 
solo vermelho que ela pisava. 
Enquanto, no vestbulo ouvia as outras soluar, Scarlett elaborava os seus pl@nos. "Semearemos, 
muito mais algodo. Amanh, vou mandar Pork a Macon comprar mais sementes. Agora os yankees 
no queimam o algodo nem as nossas tropas precisam dele. Santo Deus! 0 algodo vai atingir 
preos fabulosos, com certeza!" 
Entrou na saleta e, sem sequer olhar para as mulheres lacrimosas sentadas no sof, instalou-se em 
frente da escrivaninha e pegou numa comprida pena de pato, para calcular o que lhe ficaria depois 
de comprar mais sementes. 
"Acabou a guerra" disse consigo. E, de sbito invadida por uma onda de felicidade, descansou a 
pena.'A guerra acabara e Ashley... se ainda estivesse vivo... Asliley ia 
26 
voltar! Scarlett perguntou a si mesma se Melanie teria pensado nisso no meio daquele desgosto pela 
Causa perdida. "Em br@ve receberemos carta... Carta no, porque no h correio. Mas, de qualquer 
maneira, no tardaremos a saber dele". 
Contudo, passaram-se dias, semanas, e continuavam sem notcias de AshIey. No Sul, o servio 
postal funcionava de maneira precria e nos campos no havia postos de correio nem distribuio 
de cartas. Por vezes um viajante de Atlanta trazia meia dzia de linhas da'tia Pitty, em que esta 
suplicava que Scarlett e Melanie fossem viver com ela. Mas, de Ashley, nem novas nem mandados. 
Depois da rendio, do Exrcito travou-se um conflito entre Searlett e Suellen por causa do cavalo. 
Agora que os yankees no eram de temer, Suellen queria visitar os vizinhos. Sentia-se isolada e 
tinha saudades da agradvel convivncia doutros tempos. Desejava ir a casa das amigas, no s para 
conversar com elas como tambm para verificar se viviam em melhores condies que os 
moradores de Tara. Scarlett, porm, manteve-se inflexvel. 0 cavalo era para transportar lenha da 
mata, puxar a charrua, trazer as provises que Pork adquiria. Ao domingo, tinha todo o direito de 
descansar. Se ela queria fazer visitas, fosse a p. 
At ao ano anterior, Suellen nunca percorrera a p mais decern metros e no a seduzia nada a 
perspectiva de fazer longas caminhadas. Conservou-se, pois, em casa, a choramingar e a dizer 
constantemente: "Ah, se a mam estivesse aqui!" Por fim Scarlett deu-lhe a bofetada que desde 
muito lhe prometera,'e to violenta foi que Suellen se atirou para cima da cama a gritar quanto mais 
podia, o que provocou grande consternao em toda a casa. Depois disso Suellen refreou as suas 
la,mentaes, pelo menos em pre@ena de Scarlett. 
Searlett no mentira quando alegara que queria o cavalo em descanso ao domingo, mas tambm no 
fora absolutamente sincera. No ms seguinte  rendio fizera vrias visitas na comarca, e a vista 
dos velhos amios e das antigas plantaes havia-a desanimado mais do que ela prpria julgava. 
Eram ainda os Fontaines quem, graas a SaIly, se encontravam em situao mais desafogada, mas 
s podiam consider-la boa em relao  existncia dramtica dos vizinhos. 
27 
.t@*I 1,1 
L&L@.` 
A av Fontaine nunca ficara completamente bem depois do ataque cardaco que tivera no dia em 
que ajudara a apagar o incndio e a salvar a casa. 0 velho Dr. Fontaine restabelecia-se lentamente da 
amputao dum brao. Alex e Tony manejavam a charrua e a enxada sem habilidade nenhuma. 
Quando Scarlett l chegou, ambos eles, debruados por cima do muro para lhe apertar a mo, 
#
tinham-se rido da carroa desconjuntada que trouxera a visitante, Scarlett pedira-lhes que lhe 
vendessem milho i)ara semeadura, eles concordaram, e da comearam a falar de assuntos relativos 
 quinta. Os Fontaines tinham uma dzia de galinhas duas vacas, cinco porcos e a mula que haviam 
trazido d guerra. Um dos porcos morrera havia pouco e estavam com receio de perder tambm os 
outros. Ao @uvir falar assim aqueles ex-janotas, cuja nica preocupao, noutros tempos era saber 
o que havia de melhor e mais moderno em m@tria de gravatas, Scarlett riu-se tambm, com um 
riso to amargo como o deles quando haviam troado da carroa. Nas Mimosas, todos a tinham 
recebido de braos abertos e teimado em dar-lhe e no vender-lhe, o milho que ela pretendia. 
Quando Sc@rlett pusera uma nota sobre a mesa, os Fontane, manifestando bem o seu feitio 
impetuoso, negaram-se redondamente a aceitar o dinheiro. Ela tivera de aceitar a oferta, mas,  
socapa, meteu na mo de Sally uma nota de dlar. Desde a primeira visita de Searlett, oito meses 
antes' Sally modifcara-se muito. Nesse tempo, ainda que andasse plida e triste, sentia-se nela 
grande energia; mas agora essa energia, desaparecera como se a rendio, do Exrcito lhe tivesse 
tirado as derradeiras esperanas. 
- Scarlett -murmurou ela, fechando a mo sobre a nota. - De que serviu tudo aquilo? Para que nos 
batemos? Oli, meu pobre Joe! 
-No sei por que motivo nos batemos, nem quero saber - ripostou Scarlett. - No me interessa. 
Nunca me interessou. A guerra  assunto para homens, no para mulheres, 0 que me interessa  ter 
urna boa colheita de algodo. Olhe, SaIly, pegue nesse dlar e compre um bife ao pequeno Joe. 
Sabe Deus se ele precisa de roupa. Alex e Tony so muito amveis, mas no quero despojar-vos do 
vosso milho. 
Os rapazes acompanharam-na at  carroa e ajudaram-na a subir, sempre cavalheirescos apesar dos 
andrajos ' sempre alegres, com aquela alegria subtil peculiar aos Fon- 
28 
taines. Mas, ao afastar-se das Mimosas, Scarlett no pde reprimir o calafrio que lhe deu a evocao 
da pobreza em que eles viviam. J tinha tanto disso, na sua casa! Como seria bom frequentar gente 
rica, para quem as refeies no constitussem problemas intrincados! 
Cade Calvert achava-se na sua moradia, e @carlett, ao subir a escada recordou-se das inmeras 
vezes que ali fora para danar.  rapaz tinha mau parecer, de faces cavadas, coma morte estampada 
mesmo no rosto. Estava a tomar sol, estendido numa preguiceira, com um xaile sobre os joelhos. 
Tossia constantemente. No entanto ao reconhecer a visita, a fisionomia iluminou-se-lhe. Tratava-se 
apenas duma simples constipao que lhe descara para o peito, explicou ele, tentando levantar-se 
para receber Scarlett. Apanhara aquilo dormindo vezes repetidas  chuva, Mas a doena no duraria 
muito e, logo que estivesse melhor, recomearia a trabalhar. 
Nessa ocasio Cathleen, tendo ouvido vozes, saiu de casa e, cruzando a vista com a dela, por cima 
da cabea do irmo. Scarlett pde ler~lhe no olhar um profundo desgosto. Invadida pelas ervas 
ruins 'a plantao estava por assim dizer ao abandono. No meio das terras de lavra comeavam a 
surgir pinheiros; na casa reinava a mais completa desor~ dem, Cathleen vinha plida e parecia 
descarnada. 
Cathleen e o irmo viviam naquela residncia silenciosa em companhia da cunhada yankee, das 
suas quatro irmzin,has consanguneas, e de Hilton, feitor da propriedade. Scarlett antipatizava 
tanto com este como antipatizara com o antigo capataz de Tara, Jonas W11kerson; e nesse momento 
ainda embirrou mais com ele, vendo-o aproximar-se com todo o desembarao e trat-la como de 
igual para igual. Outrora o homem apresentava um misto de servilismo e impertinncia, mas ao 
presente, com a morte de Calvert e de Raiford na guerra e com a doena de Cade, toda aquela 
humildade havia desaparecido. A segunda mulher do patro nunca soubera impor-se aos criados 
pretos e no seria de esperar que o conseguisse dum servidor branco. 
- Hilton foi muito amvel em no nos ter abandonado nestes tempos difceis -disse ela, um tanto 
nervosa, lanando olhadelas furtivas  enteada. -Deve saber j como ele salvou, por duas vezes a 
nossa e-asa, quando Sherman passou por aqui... Que se@ia de n6s sem o seu auxlio, na penria em 
que nos encontramos, com a doena de Cade!... 
#
29 
@. <@ 
Ao rosto lvido de Cade subiu um sbito rubor. Cathleen fechou os olhos franjados de longas 
pestanas. Ento Scarlett compreende@ que aquele irmo e aquela irm se sentiam aflitos com a 
dependncia em que se achavam perante aquele feitor yankee. A senhora Calvert dir-se-ia que ia 
chorar. Cometera, evidentemente, uma indiscrio: passava todo o tempo a dizer inconvenincias, 
Embora vivesse h vinte anos no Estado de Gergia, ainda no fora capaz de compreender os 
sulistas. Nunca sabia em que tom devia dirigir-se aos filhos do marido, os quais'no entanto, a 
tratavam sempre com a maior delicadeza. No fundo, desejava ardentemente voltar para o Norte 
levar consigo os pequenos e deixar essa gente to estr@nha e emproada. 
Aps aquelas visitas, Scarlett no sentiu desejo nenhum de ver os Tarletons. No tinha nimo de ir 
agora que j ali no estavain os quatro rapazes, que a @asa fora destruda pelo incndio e que o 
resto da famlia morava na habitao do feitor, Mas Suellen e Carreen tanto insistiram, e Melanie 
tanto disse considerar feio no dar as boas-vindas ao senhor Tarleton, que, num belo domingo, l 
foram todas quatro. 
Foi a visita mais penosa. Quando a carroa subia a alameda e passava diante das runas da casa, 
viram Beatrice Tarleton. Vestida com um velho fato de amazona, de chicote debaixo do brao, 
estava encarrapitada no muro da cerca reservada aos cavalos, de olhos no vcuo e expresso 
carrancuda. A seu lado, com ar to lgubre corno o da patroa, encontrava-se o pretinho cambaio 
que, noutros tempos se ocupava dos cavalos. Na cerca, antigamente cheia de @otros brincalhes e 
de guas plcidas, s restava um muar, aquele em que Tarleton regressara da guerra. 
- Palavra que no sei o que faa de mim - disse ela, descendo para o cho -agora que to-dos 
desapareceram. - 
Ao ouvi-Ia, poder-se-ia supor que fazia aluso aos filhos mortos; mas as raparigas sabiam que ela 
pensava nos seus queridos cavalos. -Todos mortos! Se ao menos me restasse a pobre Nellie! No, s 
me resta um muar. Um muar indecente! - repetia, lanando um olhar indignado quele animal quase 
sem plo. - ]@ uma ofensa  memria dos meus queridos cavalos, ter uma coisa destas aqui! Devia 
ser proibido criar mulas. 
Jim Tarleton, irreconhecvel com a barba hirsuta, saiu 
30 
da casa do feitor e veio cumprimentar as visitas. As filhas dele, quatro ruivas, com os seus vestidos 
no fio, saram por seu turno, atropelando uma dzia de ces pretos e cor de canela'que tinham 
comeado a ladrar ao escutarem vozes desconhecidas, A famlia @toda aparentava um ar de alegria 
estudada que ainda impressionou mais Scarlett do que a amargura dos Fontaines e a angstia de 
Cathleen. 
Os Tarletons insistiram com as raparigas para que ficassem e jantassem com eles. Recebiam to 
poucas visitas que desejavam aproveitar a de Scarlett e das irms e cunhada e ouvir contar tudo o 
que estas sabiam. Scarlett tinha vontade de se ir embora, tanto a oprimia a atmosfera da casa, mas as 
outras quiseram aceitar o convite e ela viu-se obrigada a comer parcamente as ervilhas piladas e a 
escassa carne que lhe apresientaram  mesa. Alis, aquela modesta refeio foi pretexto para 
motejos, e o bom humor aumentou quando os Tarletong descreveram, como se setratasse da mais 
divertida anedota, os expedientes a que recorriam para se poderem vestir. Melanie surpreendeu 
Scarlett narrando com inesperada vivacidade os trabalhos fragosos levados a efeito em Tara e rindose 
ds privaes que sofriam. Swrlett mal tinha coragem de falar. 0 quarto parecia-lhe to vazio sem 
os quatro Tarletons! Eram to engraados, to divertidos! E, se a ela aquilo se afigurava fnebre, 
que sentiriam no fundo os da famlia, debaixo daqueles rostos sorridentes? 
Ca,rreen pouco falara no decurso do jantar, mas no fim, aproximou-se da dona da casa e segredoulhe 
@ualquer coisa ao ouvido. 0 rosto da senhora Tarleton modificou-se, o sorriso desapareceu e ela 
abraou o corpo franzino de Carreen. Saram ambas, e Scarlett, farta do ambiente, resolveu seguilas. 
As primeiras atravessaram o jardim, dirigindo-se para o cemitrio privativo. Ah, agora Scarlett 
j no as podia deixar: seria indelicado voltar para trs e reunir-se aos outros. Mas por que cargas de 
#
gua pretendia Carreen levar a senhora Tarleton at  sepultura dos filhos, quando a Beatrice 
custava tanto mostrar-se corajosa? 
Debaixo dos cedros, entre os quatro muros do recinto, havia duas estelas de mrmore, to novas 
ainda que a chuva no tivera tempo de as borrifar de terra vermelha. 
- Temo-las desde a semana passada -participou Beatrice Tarleton. - Meu marido foi a Macon e 
trouxe-as na carroa. 
31 
Quanto no tinham custado aquelas lpides! Searlett, de repente, sentiu muito menos pena dos 
Tarletons. Quem gastava dinheiro em semelhantes coisas quando os alimentos eram to caros no 
mereciam a comiserao de ningum. E ainda por cima, em cada lpide estavam gravadas 
vrias'inscries. Quanto mais inscries maior a despesa. Aquela gente enlouquecera! E no 
devia'ter custado pouco a trasladao dos trs cadveres. Sim, s trs, porque nunca tinham 
encontrado o corpo de Boyd. 
Entre as campas de Brent e de Stuart, erguia-se uma estela na qual se lia: "Belos e amveis na vida, 
nem a morte s separou". Noutra estavam inscritos os nomes de Boyd e de Tom, assim como 
qualquer coisa em latim que principiava por Dulce et... Mas Scarlett no percebeu nada desses 
dizeres porque se esquivara sempre ao estudo do Latim no colgio de Fayetteville. 
Tanto dinheiro gasto em pedras tumulares! Eram doidos varridos, os Tarletons. Scarlett sentia-se 
to indignada como se a houvessem despojado desse dinheiro. 
Os olhos de Carreen brilhavam com estranho fulgor. -Acho esta muito bonita -murmurou, 
designando a primeira lpide, 
Pois claro! Carreen tinha forosamente de achar aquilo muito bonito. Tudo o que cheirasse a 
sentimentalismo enternecia aquela rapariga. 
- Sim - concordou em voz suave a senhora Tarleton. 
- Pensmos que ficaria bem assim, porque eles morreram quase ao mesmo tempo. Stuart morreu 
primeiro. Brent apanhou a bandeira que o irmo deixara cair e por seu turno foi atingido. 
No caminho 'de regresso a Tara,,Scarlett reflectiu no que vira em casa dos seus diversos vizinhos e 
lembrou-se dos tempos faustosos em que as moradias espaosas regurgitavam de convidados, em 
que o dinheiro corria a rodos e em que os campos bem tratados ostentavam bela colheita de 
algodo. 
"Mais um ano, e todos aqueles campos se apresentaro cobertos de pinheiros novos" pensou 
relanceando a vista pelos pinhais circunvizinhos. "Sem 'pessoal,  impossvel manter uma grande 
plantao, e muitos terrenos ' com a falta de cultivo acabaro em mata. E sem cultivar algodo, 
que ser de ns? Que ser da gente que mora no campo? .Na cidade, de qualquer maneira se 
governam. Mas ns, 
32 
camponeses, temos de retroceder cem anos,  poca em que os pioneiros moravam em cabanas, 
cavavam uns paimos de terra e viviam na misria". 
"No", disse consigo Scarlett. "Em. Tara no ser assim, nem que eu mesma tenha de empurrar a 
charrua. Os outros que deixem as suas terras serem invadidas pelos pinheiros. Eu  que no deixo 
Tara tornar-se num matagal. No tenciono desperdiar dinheiro em lpides fnebres nem perder 
tempo a carpir as consequncias da guerra. Havemos de arranjar maneira de nos livrarmos de 
apuros. A falta dos pretos no  o que mais nos prejudica; pior  o facto de terem morrido na guerra 
todos os homens novos". E Scarlett tornou a pensar nos quatro Tarletons, em Joe Fontaine, em 
Raiford Calvert, nos irmos Munroes, em todos os rapazes de Fayetteville e de Jonesboro de quem 
ela vira o nome na lista dos mortos. "Se tivessem ficado alguns homens, ainda se conseguiria 
qualquer coisa". 
Outro gnero de ideia lhe acudiu ao esprito. E se ela quisesse tornar a casar-se? n claro que no 
queria. Bastava ter casado uma vez. 0 nico homem que lhe agradaria desposar era Ashley 'e esse 
estava ligado a outra mulher... se 'que continuava vivo *Mas enfim, se lhe desse na fantasia 
contrair novo matrimn'lo? Quem encontraria para marido? Mais valia nem pensar nisso. 
#
- Melly- perguntou- que destino vo ter as raparigas do Sul? 
Que queres dizer? Isto mesmo. Que  que as espera? No h rapazes com quem casem. Morreram 
milhares de homens na guerra e, em todo o Sul, outras tantas mlheres ho-de ficar solteiras. 
- E nunca tero filhos - acrescentou Melanie, para quem esse pormenor era o mais importante. 
Decerto que Suellen j reflectira no assunto, pois que, sentada na parte de trs do carro ' desatou a 
chorar de repente. Desde o Natal que estava sem notcias de Frank Kennedy. Ignorava se isso era 
devido  falta de correio ou se Frank, muito simplesmente, a tinha esquecido. Ou talvez o 
houvessem matado nos ltimos dias da guerra! Antes esta hiptese do que a de ele a ter 
abandonado. Ao menos, havia certa dignidade num amor despedaado pela morte, como o de 
Carreen e o de India Wilkes, ao passo que a desero dum noivo... 
- Cala-te, por amor de Deus! -exclamou Scarlett. 
3 - Vento Levou - r1 33 
- Ah, tu pouco te ralas! - soluou a Irm. - Casaste, tens um filho e todos sabem que muitos rapazes 
andavam atrs de ti. o passo que eu... E s to m que ainda me censurao por estar solteira, coma 
se a culpa fosse minha. s odiosa. - 
- Cala-te! Detesto as pessoas que passam a vida a lamuriar. Sabes perfeitamente que o teu velhote 
no morreu e que voltar para casar contigo. Mas sempre te digo que, no teu lugar, preferia morrer 
solteira a casar com ele. 
Suellen calou-se e Carreen consolou-a o melhor que pde, afagando-a distraidamente. Estava muito 
longe de todas essas preocupaes de momento; recuara trs anos, e via-se a cavalgar pelo campo, 
ao lado de Brent Tarleton. Os olhos brilhantes traam a sua exaltao. 
- Ah! - suspirou Melanie. - 0 que ser o Sul sem os nossos simpticos rapazes? Se vivessem, 
podamos recorrer  sua energia,  sua coragem,  sua inteligncia. Scarlett, ns que temos filhos 
devemos educ-los de molde a substituir um dia os homens que desapareceram, a serem corajosos 
como eles. 
-Nunca mais haver homens como eles -disse Carreen em voz suave. - Ningum poder substtulos. 
Calaram-se, e foi em silncio que fizeram o resto do trajecto. 
Pouco tempo depois, Cathleen Calvert apareceu em Tara ao cair da tarde. Cingira a sua sela de 
amazona na pileca mais miservel que Scarlett jarnais vira, um pobre animal manco e de orelhas 
descadas. E o aspecto de Cathleen no era menos lastimoso que o da montada. Trazia um vestido 
de guingo desbotado, no gnero daqueles que as criadas pretas usavam noutros tempos e o chapu 
vinha amarrado com um atilho debaixo do quei@o. Parou em frente da porta, mas no se apeou. 
Scarlett e Melanie, que estavam a admirar o pr-do-Sol, desceram os degraus e avanaram para ela. 
Cathleen parecia to plida e to abatida como Cade no dia da visita de Scarlett. No entanto, 
mantinha-se direita na sela, e foi de cabea erguida que saudou as amigas. 
-No, obrigada, no quero apear-me -declarou. - 
Vim s participar-vos que vou casar. 
-0 qu? 
- Com quem? 
- Muitos parabns, Cathy! 
34 
-Quando  o casamento? 
- Amanh - respondeu Cathleen muito calma. Ao tom da sua voz, o sorriso desvaneceu-se dos 
lbios de MeIly e de Scarlett. -Vim dizer que me caso amanh em Jonesboro... e que no fao 
empenho nenhum que assistam  cerimnia. 
Intrigadas acolheram estas palavras em silncio, at que Melanie @erguntou: 
-n algum do nosso conhecimento? -Sim. P, o Hilton-elucidou Cathleen com frieza. -0 Hilton? - 
Sim, o nosso feitor. Scarlett nem conseguiu dizer "Oh!". Cathleen, olhando de sbito para Melanie, 
proferiu com veemncia: 
-Se chora, MeIly, no aguento. Morrerei! Melanie baixou a cabea e acariciou ao de leve o p 
grosseiramente calado que pendia do estribo. 
#
-E no me toque! Tambm no posso suportar isso! Melanie deixou tombar a mo. 
- Tenho de me ir embora. Vim c s para dizer o que j disse. 
Retomou a sua mscara dolorosa e puxou pelas rdeas. 
- Cade como vai? - indagou Scarlett, para quebrar o horrvel silncio. 
- A beira da morte - respondeu Cathleen em voz inexpressiva. - Farei todo o possvel para que 
morra tranquilo, sem se apoquentar com o meu futuro. A minha madrasta parte amanh para o 
Norte com os filhos onde ficar definitivamente. Compreendem? Bem, tenho @e me ir embora. 
Melanie ergueu a cabea e fitou Cathleen. Havia lgrimas nas pestanas de Melanie e compreenso 
nos seus olhos. Cathleen esboou um sorriso, ou melhor, uma careta semelhante  que fazem as 
crianas corajosas que no querem chorar. Scarlett, estupefacta no podia conceber sequer a ideia 
daquele casamento. dathleen, filha dum plantador abastado. Cathleen que, com excepo de 
Scarlett, tivera mais admiradores que nenhuma outra rapariga... ia casar com o feitor? 
Cathleen inclinou-se e Melanie ps-se em bicos de ps. Beijaram-se. Ento aquela sacudiu 
nervosamente as rdeas do flanco da montada e o animal comeou a andar. 
Melanie seguiu-a com a vista, de rosto banhado pelas lgrimas. Scarlett olhava-a tambm, com ar 
espantado. - 
35 
- MeIly, ela ter enlouquecido? Ser possvel que esteja apaixonada por aquele homem? 
-Apaixonada? Oli Scarlett, como podes insinuar semelhante coisa?! Pobre @athleen! Pobre Cade! 
- Ora, ora! - exclamou Scarlett comeando a perder a pacincia. Irritava-a o facto de Melanie 
parecer ~pre compreender melhor as situaes do que ela pr6pria. 0 caso de Cathleen era mais 
estranho do que trgico.  claro, no devia ser nada agradvel casar com um yankee daquela classe, 
mas tambm uma rapariga no podia dirigir szinha a plantao. Precisava dum marido que a 
ajudasse. 
- MeIly, lembras-te do que eu te disse outro dia? No h homens, e as raparigas necessitam de 
casar. 
- N cessitam? No  vergonha nenhuma ser solteirona. Olha a tia Pitty! Preferia ver Cathleen morta. 
E Cade tambm preferia, estou certa. P, o fim dos Calverts. Pensa no que sero os... filhos. Oli, 
Scarlett, manda Pork selar o cavalo! Ele que corra atrs dela e lhe diga que venha viver connosco! 
- Deus do Cu! -bradou Scarlett escandalizada com o -vontade com que Melanie dispunh@ de 
Tara. Era o que faltava, ter mais uma boca a sustentar! Scarlett ia dizer isto mesmo, mas, ao ver a 
face angustiada de Meily, limitou-se a replicar:-Ela no queria. Sabes perfeitamente. n muito 
orgulhosa e consideraria uma esmola a nossa oferta. 
- Tens razo - murmurou Melanie, observando a nuvenzinha de poeira avermelhada que ia a 
desaparecer no fim do caminho. 
"Ests aqui h meses", reflectiu Scarlett de olhos fitos na cunhada "e ainda no te compenetraste de 
que vives  custa alhei@. E aposto que esta ideia nunca te ocorrer. s dessas pessoas a quem a 
guerra no modificou, e continuas a pensar e a agir como se nada tivesse acontecido... como se 
ainda fssemos ricos, como se houvesse comida  farta e no fizessem diferena um conviva a mais 
ou a menos. Conveno-me de que te hei-de ter toda a vida debaixo da asa, mas no quero ter 
tambm Cathleen a meu eargo". 
30 
NAQUELE Vero ardente que se seguiu  paz, Tara foi de sbito arrancada ao seu isolamento. 
Durante meses, subiu a 
36 
colina rubra uma multido de espantalhos barbudos, andrajosos, descalos e esfomeados. Todos 
estes homens iam sentar-se nos degraus da escadaria 'Pedindo de comer e um abrigo para a noite. 
Eram soldados da Confederao que voltavam aos seus lares. Os comboios, tinham trazido de 
Carolina do Norte para Atlanta os restos do exrcito de Jolinston, e da comeavam eles a sua 
caminhada a p, numa lenta peregrinao. Depois desta horda dos sobreviventes de Jolinston 
comeou a passagem dos veteranos de Virgnia, igualmente extenuados, e depois a dos combatentes 
#
da frente ocidental, todos  procura de casas que talvez j no existissem e de famlias que por certo 
estariam mortas ou dispersas. A maior parte calcorreava os caminhos, mas alguns, mais 
felizes'montavam cavalos e mulas esquelticas que lhes haviam permitido conservar aps a 
rendio: lgubres animais que se via mesmo no poderem atingir a Florida longnqua ou a parte 
meridional de Gergia. 
Voltar a casa! Voltar a casa! Eis o nico pensamento dessas criaturas. Muitos iam tristes e 
silenciosos, outros alegres, rindo dos sofrimentos suportados: mas a nica coisa que lhes dava 
foras de prosseguir era a ideia de que tudo acabara e de que eles regressavam a penates. Poucos 
manifestavam o seu desgosto, deixando isso para as respectivas mulheres para o pai ou para a me; 
tinham lutado, com valentia, haviam perdido e s desejavam agora que os deixassem tranquilos, e 
livres para empunhar o arado. 
Voltar a casa! Voltar a casa! No existia outro assunto de conversa. No falavam das batalhas, nem 
dos ferimentos, nem do cativeiro, nem do futuro. Mais tarde, evocariam essas lutas e contariam aos 
filhos e aos netos as partidas pregadas ao inimigo a fome, as marchas foradas ' as feridas; mas 
ainda era @edo para isso. A uns faltava o brao direito ou o esquerdo, uma perna, um olho. Outros 
apresentavam cicatrizes que os fariam sofrer quando o tempo estivesse hmido. Tais misrias, 
entretanto, de pouco valor se lhes afiguravam. 
Moos e velhos, tagarelas e taciturnos, plantadores ricos e camponeses pobres, todos tinham de 
comum os piolhos e a disenteria. 0 soldado da Confederao estava to habituado  vrmina que j 
nem pensava nisso e se coava mesmo na presena das senhoras. Quanto  disenteria dir-se-ia no 
ter poupado ningum, desde o soldado raso ao 
37 
general. Quatro anos de alimentao insuficiente quatro anos passados a comer produtos ordinrios, 
ou m@ito verdes ou apodrecidos, realizaram a sua obra devastadora;, e os soldados que passavam 
por Tara ou acabavam de convalescer de uma disenteria ou ainda se encontravam em plena crise. 
Eles no tem intestino bom nas tropa de Confederaao- observava a Bab, que suava de cabea 
pendida para a lareira e preparava uma tisana de razes de silva, remdio santo de Ellen para aquele 
gnero de afeces. -A mim parece que no foi yankee quem bateu nossos soldados, mas o ventre 
dele. Com barriga doente no pod faz guerra. 
A todos indistintamente Bab administrava a sua tisana, sem perder tempo a interrog-los sobre o 
estado do organismo, e todos sem excepo se submetiam humildemente, fazendo caretas e 
lembrando-se talvez de outras caras negras e severas, de outras mos pretas e inexorveis que 
outrora os obrigavam a tomar colheradas de remdio. 
Bab tambm transigia na questo dos piolhos. Quem, os tivesse no passava da porta. Ela conduzia 
ento os atacados para trs duma sara, desembaraava-os da farda, dava-lhes uma bacia de gua e 
sabo de potassa e distribua-lhes cobertores para dissimularem a nudez enquanto lhes fervia a 
roupa suspeita. Bem podiam as senhoras observar-lhe que tal atitude envergonhava os militares: a 
velha ama replicava-lhes que elas ficariam muito mais envergonhadas se descobrissem parasitas no 
corpo. 
Quando principiaram a chegar quase diariamente, a preta protestou contra o facto de lhes 
permitirem ocupar os quartos de dormir. Temia sempre que escapasse algum piolho  sua rigorosa 
vigilncia. Renunciando a discutir, Scarlett transformou em dormitrio o salo grande alcatifado de 
veludo carmesim. Bab soltou igualmente gritos enrgicos, declarando que era um sacrilgio deixar 
a tropa estender-se na alcatifa da senhora Ellen, mas a rapariga insistiu na sua ideia. Os homens 
tinham de dormir em, qualquer parte. Meses depois da rendio, o veludo espesso e macio 
comeava a dar sinais de muito uso e, em certos pontos, via-se j a trama. 
A cada um que chegava, Scarlett e Melanie pediam notcias de Ashley. Quanto a Suellen, limitavase 
a inquirir sobre o destino de Kennedy. Mas nenhum dos soldados ouvira falar deles. Alm disso, 
no pareciam dispostos a 
38 
interessar-se pelos ausentes. J era sorte haverem ficado neste mundo e no queriam lembrar-se dos 
#
camaradas sepultados em covas distantes e annimas. 
Depois dessas desiluses, toda a famlia se esforava por dar nova coragem a Melanie. Asilley no 
devia ter morrido na priso, porque num caso desses forosamente escreveriam a participar o facto. 
Ele havia de voltar. Mas era to longe de Tara o lugar onde o tinham encarcerado! Ora at em 
caminho de ferro as viagens demoravam... E, se v'lesse a p como aqueles homens, quanto tempo 
no levaria a chegar? No entanto, por que no escrevera? Oli, filha, tu sabes como funcionam os 
correios em ocasies de guerra... Mas suponham vocs... que ele morreu pelo caminho! Oh, Melly, 
ento no nos informariam? Agora enxuga essas lgrimas. AsIlley no tarda a aparecer por a. Tem 
muito que andar... e naturalmente est sem botas. 
E,  ideia de AsIlley descalo, Scarlett a custo reprimia o choro. Que os outros militares se 
arrastassem com os seus andrajos 'com os ps envoltos em panos de saca, ela ainda tolerava a ideia. 
Mas Ashley! Este devia regressar de pluma no chapu, belo uniforme e botas envernizadas. Para 
Scarlett, constitua o cmulo da degradao pensar que Asilley podia voltar no mesmo estado que 
todos aqueles miserveis. 
Numa tarde de Junho quando os de Tara se encontravam reunidos debaixo  varanda das traseiras a 
ver a criado cortar a primeira melancia da estao, ouviram passos de cavalo na alameda da entrada. 
Prissy foi, sem pressa, abrir a porta, enquanto os outros ficavam a discutir se esconderiam a 
melancia ou a apresentariam  mesa, no caso de o visitante ser soldado. 
Melanie e Carreen eram de parecer que este devia ter o seu quinho, mas Scarlett, apoiada por 
Suellen e pela ama, ordenou a Pork que escondesse imediatamente aquele pomo de discrdia. 
- Vocs so tolas! Mal chega para ns - declarou Scarlett. - Se forem dois ou trs soldados 
esfomeados, nem uma talhada restar... 
Enquanto Pork,  espera da deciso final, continuava agarrado  melancia soou a voz aguda de 
Priss3r. 
- Minhas sinhor@s! Venham c depressa! 
- Quem ser? - observou Scarlett correndo para o vestbulo, seguida pelas outras. "Ashley!" pensou 
ela. "Ou, talvez ... " 
39 
- n o Peter! 0 Peter da sinhora Pittypat! Chegadas  porta, viram o alto e velho dspota da tia Pitty 
apear-se dum cavalicoque sobre o qual haviam amarrado um retalho, de edredo. Na cara negra e 
reluzente travavam combate a habitual dignidade e a alegria de rever pessoas amigas, de modo que 
as sobrancelhas se conservavam franzidas enquanto a boca desdentada se abria como a dum sabujo 
contente. 
Toda a gente desceu a escada e foi ao seu encontro. Patroas e criadas apertaram-lhe a mo e 
assediaram-no com perguntas, mas a voz de Melanie acabou por dominar o tumulto, 
- A tia no est doente, pois no? -No, sinhora, T muito bem, graas a Deus - respondeu Peter, 
lanando um olhar to severo a Melanie e a Scarlett que estas se sentiram culpadas sem saber de 
qu. -T muito bem, mas anda consumida porque famila no qu mor com ela, e, pra diz verdade, 
tambm no gosto disso. 
-Oh, Peter! Como  que... -No, vale pena arranj desculpa. Sinhora Pitty no escreveu a pedi que 
fossem mor com ela? Vi escrev carta e vi sinhora chor quando recebeu resposta que no podiam 
i porque tinham muito trabalho nesta quinta velha. 
- Mas, Peter... 
- Deix sinhora Pitty assim sznha! Bem sabem que sinhora nunca viveu s e depois que voltou de 
Macon t sempre a trem... Diss@ a mim que no compreendia que abandonassem a ela quando 
precisa tanto das sinhora. 
-Cale boca-interveio Bab em tom acerbo, vexada por ele ter chamado a Tara "quinta velha".-E a 
gente no precisa aqui das sinhora? No pod pass sem minina Scarlett nem sinhora MeIly. Por 
que  que sinhora Ptty. no procura irmo? No  da famlia? 
Peter mostrou-se embaraado. -Ela no se d com sinh Henry h muito ano e no  agora com sua 
idade que se vai d. - Voltou-se para as raparigas, que se esforavam por no se rirem. -Deviam t 
#
vergonha de deix szinha minha pobre sinhora. Metade de seus amigo morreu e outra meiade t 
em Macon,. e 'tlanta t,cheia de soldado yankee e de ngo forro. 
Scarlett e Melanie haviam escutado impvidas as censuras de Peter, mas,  ideia de que Pitty 
mandara o velho 
40 
tirano para lhes pregar moral e lev-las para Atlanta, no conseguiram manter mais tempo o ar de 
seriedade. Desataram a rir de tal maneira que tiveram de se agarrar uma  outra para no perderem o 
equilbrio. Como seria de prever, Dilcey e Bab explodiram em gargalhadas ao ver ridicularizar o 
detractor da sua querida Tara. Suellen e Carreen foram tambm contaminadas pela hilariedade 
geral, e o prprio Gerald esboou um sorriso. Todos se riam, excepto Peter, que se mantinha srio 
no meio da sua indignao. 
- Ento j ts muito velho pra proteg tua sinhora? - 
observou Bab. 
-Muito velho! No, ainda posso proteg sinhora Pitty como sempre. Quem protegeu ela quando foi 
pra Macon? 
* quando yankee passou e ela tava sempre a desmai? 
* quem descobriu este cavalo pr traz pra 'tlanta e a protegeu todo caminho? -Estas palavras foram 
proferidas no tom de pessoa ultrajada.-No s de proteco que se trata, mas de parec mal, 
-Parecer mal? 
- Sim, parec mal minha sinhora viv szinha. 0 povo diz coisa escandalosa de mui solteira que 
vive s6 - explicou Peter. Para os seus auditores, no havia dvida que aos olhos dele, Pitty era ainda 
uma mocinha de dezasseis anos que se devia defender das ms lnguas. -No quero que murmurem 
de minha ama. Nem quero que tome qualquer pessoa pra sua companhia. Disse assim  sinhora: 
"No toma estranho enquanto houv gente de seu sangue pra vi mor consigo". E 'afinal, a gente 
de seu sangue renega a ela! Sinhora Pitty  uma criana... 
A isto, Scarlett e Melanie tiveram de se sentar nos degraus, tal foi o ataque de riso, Por fim, Melanie 
acal~ mou-se e enxugou os olhos. 
-Coitado do Peter! Lastimo muito ter rido. Desculpa. Nem eu nem a senhora Scarlett podemos nesta 
altura ir para Atlanta. Talvez eu v em Setembro, depois da colheita do algodo. Ento a tia 
obrigou-te a fazer esta caminhada s para nos pregares um sermo e nos levares contigor em cima 
desse pobre cavalinho? 
A esta pergunta, Peter ficou um momento de boca aberta, e a sua face enrugada exprimiu remorso e 
consternao. 
-Sinhora MeIly-acabou por dizer-bem se v que 
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tou a fic velho. J tinha esquecido porque  que sinhora mandou a mim eu vi c. Uma coisa to 
importante! Trago carta pra si. Sinhora Pitty no quis confi a ningum seno a 7nim. 
- Uma carta? De quem? 
- Espere. Minha patroa disse assim: Peter, no ds notcia de repente'tem cautela... 
Melly levantou-se do degrau onde se sentara e levou as mos ao peito. 
-Ashley! AshIey morreu! -No, snhora! -exclamou Peter em voz estridente, vasculhando o bolso 
interior do casaco muito coado. - T 
ivo. A carta  dele. J vem a caminho de c. Ele... Jesus! Aguenta sinhora, Bab! Eu... 
- No toca nela, seu bruto! - vociferou Bab, esforando-se por impedir que tombasse no cho o 
corpo vergado de Melanie. -Estpido! Olha a cautela com que deu noticia! Vem c, Pork, agarra 
sinhora pelo p. Minina Carreen, segure cabea. Vamos deit sinhora em sof da sala. 
Exceptuando Scarlett, toda a gente se alarmara com o desmaio de Melanie. Rodeavam-na, 
lamentavam-se, corriam para dentro de casa a fim de ir buscar gua e almofadas... 
Peter e Scarlett ficaram szinhos no passeio da entrada. Incapaz de se mover, Scarlett olhava 
fixamente para o negro que, de carta na mo, perdera o ar de dignidade e parecia agora uma criana 
a quem houvessem repreendido. 
#
A nova de que Ashley no morrera e ia regressar no lhe causara alegria nem excitao. Deixara-a 
petrificada. Pareceu-lhe ento ouvir a voz de Peter soando muito ao longe humilde e entristecida: 
-'Sinh Willie Burr, de Macon,  que trouxe carta a minha patroa. Tava em mesma priso que sinh 
Ashley. Sinh Willie tem cavalo e por isso chegou mais depressa. Mas sinh Asliley s tem sua 
perna pra and. 
Scarlett arrebatou a carta da mo de Peter. Trazia o nome de Melly 'escrito pela tia Pitty, mas 
Scarlett no hesitou. Rasgou o sobrescrito, e o bilhete de Pitty caiu no cho. Dentro daquele vinha 
um papel dobrado em quatro, sujo pelo contacto do bolso em que viera metido, amarrotado e 
rasgado nos cantos. Na caligrafia de AshIey via-se o seguinte endereo: "Senhora George AshIey 
Wilke@. - Ao cuidado da senhora Sarah Jane Hamilton. - Atlanta, ou Quinta dos Doze Carvalhos. - 
Jonesboro. - Gergia". 
42 
Com os dedos trmulos, Scarlett desdobrou o papel e leu: 
Minha anwda, volto para junto de ti... 
Comearam lgrimas a deslizar-lhe pelas faces, de tal modo que no pde continuar a leitura. 0 
corao dilatou-se-lhe, e ela julgou no suportar o excesso de felicidade. Apertando a carta de 
encontro ao peito, subiu os degraus da entrada, atravessou o vestbulo como uma seta, passou diante 
da sala onde todos rodeavam Melanie desmaiada, e entrou na saleta de Ellen. Fechou ento a porta  
chave e, rindo, chorando e beijando a carta, atirou-se para cima do sof. 
"Minha amada" repetiu ela em voz sussurrante, "volto para junto de ti ... " 
0 bom-senso dizia-lhe que .96 com o auxilio, de asas  que Astiley poderia transpor num prazo 
curto aquela distncia que levaria semanas ou meses a percorrer; mas os seus coraes batiam 
apressados sempre que desembocava um militar na alameda dos cedros. Quem sabe se um daqueles 
barbudos era o querido, ausente? Mas, se no fosse ele, o recm-vindo seria capaz de trazer ao 
menos uma carta da tia Pitty acerca do assunto que tanta ansiedade lhes causava. E logo, brancos e 
pretos, todos se precipitavam para a varanda assim que ouviam ruido de passos. Bastava a vista dum 
uniforme para que toda a gente abandonasse o que estava a fazer. Durante um ms os trabalhos 
permaneceram sempre no mesmo ponto. Ninguem queria deixar de assistir  chegada de Ashley, e 
Scarlett menos do que qualquer outra pessoa. Tornava~se-lhe difcil pedir aos companheiros que 
desempenhassem as respectivas tarefas, quando ela prpria negligenciava a sua. 
Mas, quando passaram semanas sem noticias de Ashley, a vida retomou o seu curso ordinrio. Os 
coraes impacientes tinham apenas a fora suficiente para tolerar to longa demora. Na alma de 
Scarlett insinuara-se o terror insidioso de que houvesse acontecido qualquer coisa a AshIey, pelo 
caminho. Rock Island ficava muito longe e ele devia estar enfraquecido bastante ' seno doente, na 
altura de recuperar a liberdade. Alm disso no possua dinheiro e precisava de atravessar uizia 
regi@ onde os Confederados no eram vistos com simpatia. Se soubesse onde 
43 
ele se achava. nesse momento 'Scarlett, mandar-lhe-ia o necessrio para que.tomasse o comboio e 
viesse mais depressa. 
"Minha amada, volto para junto de ti". Nessa ocasio, a sua alegria era to grande ao ler estas 
palavras que chegara a imaginar lhe fossem dirigidas. Agora,  luz mais fria da razo, compreendia 
que se destinavam a Melanie, cuja voz enchia a casa de festivas canOes. s vezes' Scarlett 
perguntava a si mesma por que  que Melanie no morrera de parto. Isso teria resolvido as coisas. 
Depois de haver sacrificado  decncia, durante o tempo necessrio, casar-se-ia com Asliley e 
tornar-se-ia excelente madrasta do pequeno Beau. Quando lhe acudiam estes pensamentos, no se 
apressava a rezar a Deus para lhe dizer que eram involuntrios, Deus j no lhe metia medo. 
Os militares continuavam a chegar um a um, aos pares e s dzias, e sempre esfomeados. Scarlett 
ficava desesperada e teria preferido que, sobre Tara, se abatesse uma praga de gafanhotos. 
Amaldioava as leis tradicionais da hospitalidade, que haviam imperado na poca da abundncia, 
costumes que no permitiam a nenhum viajante, hmilde ou poderoso, continuar a jornada sem que 
lhe fosse oferecido abrigo para a noite e comida para ele e o seu cavalo. Scarlett sabia que essa 
#
poca desaparecera para sempre, mas os outros habitantes de Tara no se convenciam de tal coisa, 
nem to-pouco os soldados, e cada visitante era acolhido de braos abertos como um convidado 
querido esperado h muito tempo. 
 medida que desfilava o interminvel cortejo mais endurecia o corao de Scarlett. Aqueles 
homens davam-lhe cabo das provises destinadas aos moradores de Tara, comiam-lhe os legumes 
que tanto lhe haviam custado a obter. No era fcil arranjar alimentos e o dinheiro do yankee no 
duraria eternamente. S lhe restavam duas moedas de oiro e meia dzia de notas. Que obrigao 
tinha ela de sustentar aquela chusma de famlicos? A guerra terminara e j no tinha necessidade 
deles. 
Acabou por ordenar a Pork que reduzisse a ementa sempre que houvesse soldados  mesa. 
Prevaleceu a ordem at Scarlett notar que Melane, que desde o nascimento de Beau nunca fora 
muito resistente induzia Pork a servir-lhe bocadinhos minsculos e a dar @os militares o que lhe 
competia. 
44 
-Vais acabar com essa graa - admoestou-a Scarlett. -Andas fraca e, se no comes mais, adoeces a 
srio e ns  que temos de te tratar. No te importes que os homens no encham a barriga. Durante 
quatro anos comeram pouco, e no faz mal que prolonguem e@se regime por mais uns dias. 
Melanie voltou-se para ela e, pela primeira vez, Scarlett surpreendeu nos seus olhos serenos uma 
comoo bem evidente. 
-No te zangues! Deixa-me fazer isto. Nem calculas quanto me consola. De cada, vez que dou o 
meu quinho a um desses pobres homens penso que, em qualquer terra do Norte, est uma mulher a 
oferecer ao meu AshIey parte do seu jantar e que assim o ajuda a recuperar foras e a voltar mais 
depressa para junto de mim. 
"0 meu AshIey ... " "Minha amada, volto para junto de ti ... " Scarlett afastou-se incapaz de articular 
palavra. Depois desta conversa, Melanie reparou que aparecia mais comida na mesa sempre que 
havia gente de fora. 
Quando os soldados estavam muito doentes para prosseguirem o seu caminho (e o facto no era 
raro) Searlett mandava-os recolher  cama, porm de m vontade. Cada doente representava mais 
uma boca a alimentar. E ainda se tornava necessrio que algum o tratasse, o que significava menos 
duas mos a manejar a enxada, a semear, a conduzir a charrua, a construir estacadas. 
Um dia, certo militar que se dirigia para Fayetteville descarregou na varanda um rapaz de fino buo 
loiro. Encontrara-o desmaiado  beira da estrada, colocara-o na sela do seu cavalo e levara-,o para 
Tara, que era a residncia mais prxima. As raparigas calcularam que ele fizesse parte dos alunos 
requisitados aos colgios militares quando Sherman se aproximou de Milledgeville; mas nunca 
chegaram a ter a certeza. 0 rapaz morreu sem haver recuperado os sentidos e o exame dos bolsos 
no forneceu nenhum esclarecimento. Era um belo adolescente, com certeza de boas familias, e em 
qualquer parte do Sul devia estar uma mulher a perscrutar a estrada e a perguntar a si mesma onde  
que ele se encontraria e quando chegaria. Enterraram-no no cemitrio privativo, aolado dos trs 
pequenos O'Haras e, enquanto Pork tapava a cova, Melanie debulhou-se em 
45 
lgrimas  ideia de que pessoas estranhas podiam estar nesse momento a sepultar tambm o corpo 
de Ashley. .Tal como aquele rapaz, Will Benteen chegou desmaiado na sela dum camarada. Will 
estava muito doente. Tinha uma pneumonia, e, quando o deitaram na cama, recearam que fosse 
reunir-se ao outro no cemitrio. 
Possua o rosto ossudo dos camponeses de Gergia do Sul, cabelos de um loiro arruivado e olhos 
azuis claros que, mesmo durante o delrio mostravam expresso suave e resignada. Uma perna 
estava amputada pelo joelho e a esse coto. fixava-se um pedao de pau talhado toscamente. No 
havia dvida, era um campons, assim como o defunto devia ser filho dum plantador rico. Seria 
difcil s raparigas explicar o motivo desta sua convico. Will no se apresentava mais sujo, nem 
mais hirsuto, nem mais coberto de piolhos do que muitos senhores finos que tinham aparecido em 
Tara. A linguagem que empregava no seu delrio no era menos gramatical que a dos gmeos 
#
Tarletons. Mas o instinto dizia s senhoras de Tara que Will no pertencia  sua classe, tal como 
lhes permitia distinguir um puro sangue dum cavalo ordinrio. No entanto, essa certeza no as 
impediu de fazer todos os esforos para o salvar. 
Emagrecido por um ano de cativeiro, extenuado por longa caminhada com o seu toco de pau mal 
- ajustado, poucas foras lhe restavam para resistir  pneumonia, e, durante dias seguidos, ficou de 
cama, gemendo, tentando levantar-se, revivendo as batalhas em que tomara parte. Nem uma s vez 
pronunciou o nome de me, nem de esposa, nem de irm, nem de noiva, o que deu que pensar a 
Carreen. 
-Qualquer pessoa, nestas alturas, chama pelos parentes - comentou a rapariga. - D a impresso de 
que no tem ningum. 
Apesar da magreza era robusto, e os cuidados ajuda~ ram-no a vencer a doena. Chegou o dia em 
que, perfeitamente lcido, pousou os olhos azuis em Carreen. Estava ela sentada junto do leito, com 
as contas do tero na mo e os cabelos loiros aureolados pelo sol matutino. 
-Afinal, no era um sonho-disse ele, numa voz tranquila. - Espero que no lhe tenha dado muito 
trabalho, minha senhora. 
Foi demorada a convalescena, e ainda passou dias deitado, a contemplar as magnlias atravs da 
janela, sem 
46 
incomodar ningum. Carreen simpatizava com o homem por causa dos seus silncios, que ele no 
procurava quebrar. Nas tardes quentes e longas, ficava ela a seu lado, abanando-o com o leque, sem 
dizer palavra. 
Frgil e delicada'Carreen ia -e vinha semelhante a uma sombra, executando os trabalhos que as suas 
foras lhe permitiam. Falava pouco, mas rezava muito. Quando Scarlett lhe surgia no quarto sem 
bater ' porta encontrava~a ajoelhada aos ps da cama. Esse espectculo'contendia-lhe com os 
nervos, pois achava que j l se fora o tempo das oraes. Se a vontade de Deus tinha sido punir 
assim a humanidade, para qu rezar? Searlett sempre considerara a religio uma espcie de negcio. 
Em troca das graas divinas, Scarlett prometia a Deus proceder bem. Ora, na sua opinio Deus 
faltara vrias vezes ao contrato, e portanto, ela j no lhe devia nada. Por isso, de cada vez que 
surpreendia Carreen de joelhos (quando podia estar a dormir a sesta ou a passajar roupa) tinha a 
sensao de que 
* irm se esquivava a uma parte das suas obrigaes. 
Uma tarde, em que Will Benteen pudera, enfim deixar 
* cama e sentar-se numa poltrona, Scarlett falou@-lhe do que pensava a respeito de Carreen e ficou 
muito admirada quando Will lhe respondeu: 
- Deixe-a. n a consolao de sua irm. 
- A consolao? -Sim. Reza pela vossa me e por ele. -Quem  esse ele? Sem mostrar espanto WlI 
fixou em Searlett os seus olhos azuis franjados de @estanas alouradas. Nada. parecia surpreend-lo 
ou impression-lo. Talvez j tivesse visto e ouvido muita coisa espantosa e nada agora lhe causasse 
admirao. No achava extraordinrio que Scarlett ignorasse o que se passava no corao da irm, 
assim como se lhe afigurava natural o facto de Carreen se confiar a ele, que era um estranho. 
- 0 noivo dela, o tal Brent que morreu em Gettysburgo. 
- 0 noivo de Carreen? - replicou Scarlett. - Qual noivo! Tanto ele como o irmo eram meus 
pretendentes. 
- Sim, a menina Carreen --ontou-me. Pelos modos, todos os rapazes da regio tinham certo fraco 
pela senhora. Mas isso no impede que o moo se voltasse depois para ela. Quand .o veio c de 
licena pela ltima vez, declarou-se-lhe 
47 
e ficaram noivos. Disse-me ela que fora o nico homem de quem gostara, e cons@ola-se a rezar 
pela- sua alma. 
- H-de ganhar muito com isso! -comentou Searlett, com uma pontinha de cime. 
Fitou com certa curiosidade esse indivduo descarnado, de ombros ossudos 'cabelos arruivados e 
#
olhos serenos. Com que ento estava ao corrente de assuntos particulares da famlia O'Hara, 
assuntos que ela prpria ignorava... Por isso Carreen andava sempre na lua e no fazia seno rezar. 
Essa fase passaria. Muitas outras mulheres acabavam por esquecer, o noivo defunto, e at o prprio 
marido. Ela mesma esquecera Charles. E conhecia uma senhora de Atlanta que por trs vezes 
enviuvara durante a guerra e que ainda era capaz de atrair a ateno dos homens. Assim disse a Will 
mas este abanou a cabea: 
-No, a menin@ Carreen no  dessas -declarou convicto. 
Tornava-se agradvel conversar com Will, porque compreendia tudo e no desperdiava tempo com 
frases inteis. Scarlett falava-lhe dos problemas relativos  lavoura e criao de porcos e vacas, e 
Will mostrava-se sempre bom conselhe,iro, porque j possuradois escravos e uma quintarola ao sul 
da Gergia. Sabia que os pretos estavam emancipados e que nas terras dele s havia agora pinheiros 
e ervas ruins. Dos parentes, restava-lhe apenas a irm, que h muitos anos se encontrava no Texas 
com o marido. Alm dela, no tinha mais ningum no mundo. Contudo, estas coisas pareciam 
prebcup-lo tanto como a perna que perdera em Virgnia. 
Conversar com Will era, pois, um alivio para Scarlett, em especial depois de aturar as rezingas dos 
pretos as lamentaes de Suellen e as perguntas constantes de Ge61d acerca de Ellen. A Will podia 
dizer tudo. Chegou at a contar-lhe que matara um yankee, e ficou envaldecida quando ele 
comentou: 
- Bom trabalho! Por fim, a famlia inteira ia ter ao quarto de Will para desabafar as suas tristezas at 
a prpria Bab, que a princpio lhe manifestara certafrieza por ele no ser um senhor e s ter 
possudo dos escravos. 
Quando Will se encontrou em estado de andar pela casa, entreteve-se a fabricarcestos de aparas de 
carvalho e a consertar os mveis estragados pelos yankees. Era muito habi- 
48 
lidoso,  Wade nunca o largava porque ele lhe fazia brinquedos de madeira, os nicos de que o 
pequeno dispunha. Com Will em casa, podiam deixar sem receio as crianas e ir trabalhar no 
campo, pois ele sabia to bem como Bab lidar com nens. 
-Foi muito bondosa comigo -disse um dia a Scarlett. 
- Teve muito maada, muito trabalho com uma pessoa que no lhe era nada. Se no v 
inconveniente nisso, ficarei aqui a ajud-la at que me sinta menos devedor para @nnsigo e todos 
desta casa. J sabe que no poderei pagar o que fizeram por mim, porque uma pessoa nunca pode 
ficar quite com quem lhe salvou a vida. 
Assim ele ficou e, a pouco e pouco sem darem por isso, grande parte do fardo de Tara passoi@ dos 
ombros de Scarlett para os ombros descarnados de Will Benteen. 
Estava-se no ms de Setembro na altura da colheita de algodo. Ao agradvel sol da ta@de, Will 
sentara-se nos degraus da entrada, aos ps de Scarlett, e, na sua voz lenta e montona, falava dos 
preos exorbitantes que exigiam para debulhar c> algodo na mquina nova de Fayetteville. 
Entretanto, ele soubera que a despesa seria reduzida de um quarto se emprestassem o cavalo e a 
carroa por quinze dias, ao proprietrio da debulhadora. Em todo o caso, Will no quisera resolver 
nada sem consultar Scarlett. 
Esta observava o seu interlocutor, que mastigava uma palhinha encostado ao pilar da escada, Como 
Bab muito bem dizia Will fora um dom da Providncia, e Scarlett por vria@ vezes perguntara a si 
mesma o que seria de Tara sem ele, naqueles ltimos meses. Will falava pouco, nunca mostrava 
desenvolver grande energia, afectava indiferena por tudo, e, no entanto, estava ao facto de quanto 
podia interessar os moradores de Tara. Silenciosamente, pacientemente, punha em obra muito do 
que havia a fazer. Apesar de s ter urna perna, era mais gil do que Pork; e at conseguira que este 
trabalhasse, o que Scarlett considerava milagre. Quando a vaca esteve com clicas, e o cavalo por 
um triz no morreu, atacado de doena rnisteriosa, Will passou noites inteiras a trat-los e salvoulhes 
a vida. E a sua queda para o negcic, raleu-ihe a considerao de Scarlett. Safa de manh com 
um ou dois aIqueires de mas e de batata doce, e voltava com cereais ' farinha e outras coisas 
indispensveis. Scarlett, por muito que 
#
4 - vento UVOU - ri 49 
entendesse de negcios, sabia que no conseguiria to bons resultados como ele. ' Pouco e Pouco, 
elevara-se ao nvel de membro da famflia, e haviam-lhe arranjado uma cama no quarto de vestir 
contguo ao de Gerald. Nunca falara em sair de Tara,,e Scarlett evitava aflorar esse assunto com 
medo de que e se fosse embora, As vezes, pensava que Wil], se tivesse juizo, 'voltaria para a sua 
terra, mas esta opinio ntima no a impedia de desejar ardentemente que ele se fixasse em Tara. 
Era to cmodo ter um homem em casa! 
Scarlett tambm pensava que, se Carreen fosse um pouco mais esperta, veria que Will gostava dela. 
Que bom seria se Will pedisse Carreen em casamento! Claro que antes da guerra a ningum 
passaria pela cabea que semelhante homem pretendesse a mo duma filha de Gerald. Will nada 
tinha de comum com a classe dos plantadores, se bem que no pertencesse  categoria dos 
<obrancos ordinrios". Era um simples campons que cometia erros de gramtica e desconhecia as 
belas maneiras dos senhores que noutros tempos frequentavam a casa dos O'Haras. Scarlett, depois 
duns momentos de reflexo concluiu ser impossvel considerar Will corno pessoa bem'nascida. 
Melanie deferidia-o com o maior calor e declarava que um homem de to bom corao como ele e 
que tanto pensava nos outros, por fora que tivera bons princpios. Searlett sabia que Ellen 
desinalaria s  Wela de que uma filha sua pudesse casar com tal indivduo, mas Scarlett j se 
desviara muito dos preceitos de Ellen para que agora essa lembrana a afligisse. Escasseavam 
rapazes, as raparigas deviam casar-se, e Tara necessitava duma presena masculina. -Mas Carreen, 
cada vez mais embrenhada no livro de oraes e cada vez menos em contacto com as realidades do 
mundo, tratava Wll com simples ternura de irm. 
"S Carreen sentisse um pouco de gratido por mim, casaria com ele e no o deixaria sair de c", 
resmungava Scarlett, indignada. "Mas no, passa a vida a sonhar com uni tolo que se calhar nunca 
pensou nela a srio". 
0 certo  que Will se deixou ficar em Tara, Por que no se iria embora? Scarlett ignorava a razo, e 
no se importava averiguar. Apreciava a maneira como ele a tratava, falando de negcios como de 
homem para homem. Mostrava-se deferente para o luntico Gerald mas era sempre a Scarlett que se 
dirigia como ao verdadeiro chefe de famlia. 
50 4% 
Searlett aprovou o seu Projecto de emprestar o cavalo, se bem que isso condenasse a famlia a estar 
privada por uns tempos do seu meio de transporte. Suellen, especialmente, no ficaria nada 
satisfeita. 0 seu maior prazer era acompanhar Will a Jonesboro e a FayettevlIe quando este tinha de 
l ir por questes de negcios. Aparamentada com os melhores atavios da famlia, visitava velhas 
amigas, ouvia as ltimas novidades da comarca e sentia-se de novo menina de Tara. Suellen nunca 
perdia oportunidade de sair da plantao e dar-se grandes ares em casa de pessoas que no sabiam 
que ela fazia as camas e sachava o jardim. 
"A princesa vai ser obrigada a interromper os seus passeios durante duas serianas" pensou Scarlett 
"e ns teremos de lhe aturar a chiada e as lamentaes". 
Melanie velo instalar-se tambm na varanda da entrada, com o nen ao colo. Estendeu no cho um 
cobertor velho e a deps o pequeno Beau, para que engatinhasse  vontade. Desde a carta de 
AshIey, Melanie ora cantava, transbordando de alegria, ora se consumia de ansiedade. Feliz ou 
sucumbida, continuava muito plida e muito magra, Cumpria as suas obrigaes sem se queixar, 
mas no andava bem de sade. 0 velho Dr. Fontaine diagnosticou uma doena peculiar s mulheres 
e concordou com o Dr, Meade na opinio de que ela nunca devia ter tido Beau. E declarou, 
francamente, que segunda gravidez a mataria. 
- Quando estive hoje em Fayetteville - disse Will Benteen -encontrei uma coisa bonita. Trouxe-a 
porque pensei que talvez interessasse s senhoras. 
Meteu a mo ao bolso das calas, sacou a carteira de pano e de cortia que Carreen lhe fizera, e 
tirou de l uma nota de Banco da Confederao. 
-Se acha bonito o dinheiro confederado, WlI, eu no acho - exclamou Searlett. - No cofre de meu 
pai h perto de trs mil dlares, e Bab est sempre a serngar-me para que lhe d as notas. Quer 
#
tapar com elas os buracos nas paredes do sto e acabar assim com as correntes de ar. Qualquer dia 
dou-lhas. Ao menos tero prstimo. 
- "Arrogante Csar, pela morte em argila transformado... Agora serve para vedar alguma fenda, 
interce@> tando o ar" (1) - citou Melanie, com um sorriso triste. - 
(2) HamIet, Va~-N.T, 
51 
No faas isso Scarlett, guarda as notas para Wade, que ainda h-de te@ orgulho nelas. 
-No sei o que significa isso de Csar - declarou Will -mas o que tenho aqui  no gnero do que a 
senhora acaba de dizer a respeito do menino Wade. Colaram uns versos nas costas desta nota. Sei 
que a senhora Scarlett  pouco dada a versos, mas pensei que talvez a interessasse... 
Virou a nota. No reverso, estava de facto colado um bocado de papel de embrulho, onde se via 
qualquer coisa escrita com tinta muito descorada. Will pigarreou e ps-se a ler vagarosamente, com 
certa dificuldade: 
-0 ttulo  Poesia a um-a nota confederada. 
Ela no vale nada sobre a Terra E tambm sobre as guas nada vale; Guarda-a, e mostraa, meu 
amigo, Como penhor duma nao veneida. 
Mostra-a a todos que queiram dar ouvidos A histria que ela conta: a liberdade Nascida em sonhos 
de altos patriotas... Uma nao que esUolou no bero! 
- Que tocante que isso ! Que 'bonito! - exclamou Melanie. -No ds os teus dlares a Bab para ela 
tapar os buracos do sto. Vale mais do que papel... n, como diz a poesia, o penhor duma nao 
vencida. 
-Deixa-te de sentimentalismos, Melly! Papel  papel, e no h fartura dele c em casa. J no posso 
ouvir a Bab queixar-se de que entra frio pelas fendas do sto. Se Deus quser, quando Wade for 
crescido hei-de dispor de notas boas para lhe dar, em vez de lixo 6 Confederao. 
WilI, que enquanto discutiam a questo do dinheiro se entretivera com o pequeno Beau, ergueu a 
cabea e, com a mo em pala, olhou para o passeio da entrada. 
- Vamos ter gente - anunciou. - n um soldado. Searlett olhou tambm e viu uma cena j muito sua 
conhecida: um homem barbudo, vestido com farrapos de fardas azuis e cinzentas, subia a alameda 
de cedros, de cabea baixa, arrastando os ps lentamente. 
- Julguei que j estivssemos livres de soldados - disse Scarlett. - Oxal que este no venha com 
muito apetite. 
-Com fome vem ele -replicou Will. 
52 
Melanie levantou-se. 
- Vou dizer a Dilcey que ponha mais um talher na mesa -declarou. -Tambm hei-de recomendar a 
Bab que no lhe arranque, sem mais nem menos, a roupa do corpo e... 
Calou-se to repentinamente que Scarlett se voltou para ela. Melanie comprimia a garganta com a 
mo estreita como se sentisse ali dores horzveis. Sob a pele branca viam-se-lhe as veias a latejar, 
em pancadas rpidas. 0 rosto tornara-se-lhe mais plido e os olhos dilatados pareciam maiores do 
que nunca. 
"Vai perder os sentidos", pensou Scarlett, dando um pulo e agarrandoa pelo brao. 
Mas, num instante, Melanie desprendeu-se e desceu os degraus. Com os braos estendidos e a saia 
desbotada a flutuar atrs dela foi a correr pelo passeio ensaibrado, veloz como um p@saro. S 
ento Scarlett percebeu o que acontecia. Experimentou a sensao de haver recebido uma pancada e 
apoiou-se ao pilar da varanda. 0 homem mos@trava a cara invadida de barba loira e mal tratada; 
deteve-se, e olhou para a casa, como se, de to cansado, no pudesse dar mais um passo. 0 corao 
de Searlett pulou, parou e recomeou a bater desordenadamente ' enquanto Melly, soltando 
gritos inarticulados, se lanava nos braos do soldado e a cabea deste se inclinava para a dela. 
Louca de alegria Scarlett ia descer os degraus quando Will a segurou pka saia e a reteve. 
-No lhes estrague este momento-disse ele muito calmo. 
-Largue-me! No seja parvo! Largue-me,  o Ashley! WilI, porm, no a largou. 
#
- 2 o marido dela, no ? - replicou, sempre no mesmo tom tranquilo. 
E Scarlett, inebriada de felicidade, e furiosa tambm, baixou a vista para Will e leu compreenso e
piedade na serena profundeza dos seus olhos.

53

QUARTA PARTE

31

POR uma fria tarde de Janeiro de 1866, Scarlett estava sentada  secretria e escrevia  tia Pitty
 uma carta em que lhe explicava pela dcima vez, e pormenorizadamente, o motivo por que nem ela,
nem Melanie, nem AshIey podiam voltar para Atlanta. Redigia com impacincia, por saber que a tia
Pitty no iria alm das primeiras linhas e lhe responderia desconsolada: "Custa-me tanto viver
szinha!"
Tinha as mos geladas e deteve-se um instante para as friccionar e envolver melhor os ps no
retalho de edredo velho em que os metera. As solas das chinelas no existiam praticamente e o que
delas restava fora reforado com bocados de tapete; mas estes remendos, embora impedissem o
contacto directo com o cho, de nenhum modo produziam calor. Nessa manh, Will fora a cavalo a
Jonesboro a fim de ferrar o animal. E Scarlett reflectiu com tristeza que vivia numa poca
desconcertante: os cavalos no dispensavam calado, ao passo que as pessoas andavam descalas
como os ces.
Retomou a pena a fim de prosseguir na carta, mas largou-a outra vez ao ouvir Will entrar pela porta
das traseiras. Reconhecera o bater da perna de pau no pavimento do vestbulo, onde o recmchegado
parou. Scarlett ficou  espera e, percebendo que ele no se atrevia a entrar, resolveu
cham-lo. WlI obedeceu: vinha com as orelhas encarnadas do frio e com o cabelo revolto. Sorrindo
de leve, com
ar irnico, perguntou:
- Escute uma coisa... que dinheiro tem em cofre?
- Est com ideias de casar comigo, por interesse? -
retorquiu ela, de m catadura.
- No, seWiora... ]@, s para saber. Scarlett olHou-o intrigada. 0 homem no parecia falar a
srio'mas a verdade  que a seriedade no lhe era peculiar. Devia haver qualquer coisa de grave,
fosse o que fosse.
- Tenho dez dlares de oiro - respondeu por fim. -
Tudo o que resta desse dinheiro do yankee.
54

-No chega... -Para que  que no chega?
- Para pagar os impostos - declarou WilI, coxeando at  lareira, sobre que se inclinou, estendendo 
ao lume as mos avermelhadas. 
- Impostos? Ora essa, j os pagmos! 
- Bem sei, mas dizem que no foi bastante. Ouvi falar hoje a esse respeito em Jonesboro. 
-No percebo, Will. Que quer dizer? -Minha senhora, custa-me muito causar-lhe aborrecimentos, 
mas tenho de me explicar. Dizem eles que no pagou o que devia pagar. Vo aumentar as 
contribuies, sobre Tara, para alturas fabulosas... 
- Mas eu j paguei... 
- Bem sei que nunca vai a Jonesboro, e folgo com isso. No  lugar para senhoras, nestes tempos 
que correm. Mas, se tivesse ido l, saberia que existe ali uma scia de Renegados, de Republicanos 
e de Sacolas que se apoderou dos negcios da terra. Do-nos cabo do miolo! At vemos ali os 
pretos a fazerem de senhores... 
- Mas que tem tudo isso a ver com os impostos? -J lhe digo. Para alguma coisa foi que esses 
bandidos valorizaram excessivamente a propriedade de Tara. Logo que a coisa me constou, fui dar 
uma voltinha pelos botequins para ouvir as conversas e averiguei que, se no se pagasse o que eles 
exigem, havia quem estivesse pronto a arrematar a quinta quando o xerife a vendesse em hasta 
#
pblica. Ora toda a gente sabe que a senhora no est habilitada a entrar com o dinheiro. Ainda no 
descobri quem  a pessoa interessada em adquirir Tara mas palpita-me tratar-se de algum que esse 
patife Hilton conhece... Esse que casou com a menina Cathleen... 0 homem riu de modo muito 
estranho quando eu quis tirar nabos da pcara. 
Will sentou-se no sof e ps-se a esfregar a perna amputada. Quando estava frio, ela doa-lhe, e o 
taco de pau avivava-lhe as dores. Scarlett lanou-lhe um olhar furibundo. 0 homem no parecia 
muito comovido com o que acabava de revelar! Vender Tara em hasta pblica! Onde iriam eles 
acolher-se? Passar a propriedade a outras mos? Podia-se l admitir uma coisa dessas! 
Dedicara-se tanto  explorao de Tara que mal prestava ateno a tudo mais. E agora, que tinha 
Will e Asliley para lhe tratarem dos negcios em Jonesboro e Fayette- 
55 
ville, raras vezes abandonava a plantao. E, da mes ma forma que fizera orelhas moucas ao que 
dizia o pai, nos dias anteriores  guerra, tambm agora quase nem ouvia as discusses daqueles 
dois,  mesa, depois da ceia, a reI, peito das origens da Reconstruo. 
n claro que estava ao par das actividades dos Renegados, esses do Sul que se haviam passado para 
os ReDublicanos, por interesse; e dos Sacolas esses do Norte, que aps a rendio desceram o 
continen@e, munidos apenas dum saco, por nica bagagem. Tambm no desconhecia o que se 
passava na Agncia dos Forros: soubera at que certos pretos libertos -se estavam a tornar deveras 
arrogantes. Este ltimo facto custava-lhe bastante a crer, pois em toda a sua vida jamais encontrara 
um negro que fosse insolente. 
Havia, porm, multas coisas que Will e Ashley tinham resolvido ocultar-lhe. Ao flagelo da guerra 
sucedera outro pior, o da Reconstruo; no entanto, aqueles dois homens estavam decididos a no 
fazer meno das circunstncias mais alarmantes, sempre que em casa falavam do assunto. Se 
Scarlett se punha acaso a escut-los, a verdade  que lhe saa por um ouvido o que lhe entrava por 
outro. 
Ouvira Astiley dizer que estavam a considerar o Sul como pas conquistado, e que a poltica dos 
vencedores era sobretudo inspirada pelo esprito de vingana. Mas esse gnero de histria deixava 
Searlett indiferente, A poltica era assunto para homens. Will declarara na presena dela que 'em sua 
opinio, o Norte no estava disposto a deixar que o Sul se levantasse. 'E Scarlett comentara 
consigo mesma: "Os homens andam sempre preocupados com tolices". A ela,  que os yankees no 
tinham apanhado, nem seria desta vez que a apanhariam. 0 -que havia a fazer era trabalhar com 
afinco e no se apoquentar por causa do governo yankee. No fim de contas, a guerra acabara. 
Scarlett no compreendia que as regras do jogo se houvessem modificado e que o trabalho honesto 
j no recebesse a justa recompensa. Gergia vivia virtualmente sob a lei marcial. Os soldados 
yankees infestavam o pas e a 
Agncia dos Forros mandava em tudo e s fazia o que lhe agradava. 
Eossa agncia, organizada pelo g9verno federal para se ocupar dos antigos escravos indolentes e 
provocantes, arrancava-os aos milhares das plantaes e instalava~os nas 
56 
cidades e nas vilas. Alimentava-os na ociosidade e envenenava-lhes o esprito contra os seus 
senhores de ontem. 
0 ex-superintendente de Gerald ' Jonas Wilkerson, dirigia a seco local e tinha como adjunto o 
marido de Cathleen Calvert, o tal Hilton. Estes dois espalhavam astuciosamente o boato de que 
Sulistas e Democratas esperavam apenas oportunidade para restabelecer a escravido e davam a 
entender que a nica forma de os pretos escaparem ao seu destino seria colocarem-se sob a 
proteco da Agncia e do partido republicano. 
Wilkerson e Hiltonchegavam a declarar aos negros que estes eram iguais aos brancos e que, por 
consequncia, no - 
s permitiam o casamento entre gente branca e de cor como tambm dividiriam os domnios dos 
antigos senhores, cabendo a cada preto quarenta acres de terra e uma azmola. Excitavam-nos com 
o relato de crueldades cometidas por brancos e, numa regio afamada desde muito tempo pelas boas 
#
relaes entre escravos e seus donos, comeava a desenvolver-se o dio e a desconfiana. 
Eram soldados que mantinham a Agncia. Haviam publicado vrios regulamentos contraditrios 
respeitantes ao procedimento dos vencidos: tudo era motivo de priso, at o facto de no se fazer 
rapa-ps aos funcionrios respectivos. Promulgaram ainda instrues marciais relativas ao ensino 
escolar,  higiene, ao gnero de botes que se devia usar,  venda de artigos de necessidade 
corrente, e assim por diante. W11kerson e Hilton tinham autoridade para interferir em todas as 
transaces comerciais e a prpria Scarlett via-se forada a cingir-se ao preo @ue eles fixavam em 
tudo quanto ela vendia ou trocava. 
Felizmente que Scarlett tinha poucas relaes com eles, pois Will persuadira-a a deix-lo tratar dos 
negcios em seu lugar, enquanto a senhora se consagrava  plantao. Graas ao seu feitio cordato, 
Will sanara muitas dificuldades, mas no lhe dissera nada a esse respeito. Em casos bicudos, sabia 
entender-se com os dois homens. Mas, agora, surgia um problema que superava as suas foras. 0 
adicional dos impostos e o perigo de perder Tara eram coisas de que Searlett devia ser informada. 
- Malditos yankees! - exclamou esta, fixando Will com olhar flamejante. -No lhes basta ter-nos. 
vencido e arruinado? Ainda querem atirar canalha contra ns? 
57 
Findara a guerra, a paz fora assinada, mas os yankees podiam ainda roub-la, reduzi-Ia  fome 
'expuls-la de casaQue tola fora em convencer-se durante meses de que tudo acabaria bem se 
conseguisse aguentar-se at  Prin@avera! Aquela notcia, sabida ao fim dum ano de esperana e de 
trabalho esgotante, era a ltima gota de gua que faz transbordar o copo. 
- Ali 'WilI, e eu a julgar que as nossas aflies tinham acabado com a guerra! _ No, senhora - 
redarguiu ele, erguendo o rosto e fitando-a com firmeza. -As nossas aflies esto precisamente a 
comear. 
-Qual  o adicional que nos exigem? 
- Trezentos dlares. Por momentos ela ficou perplexa. Trezentos dlares? Podiam-na at ter 
colocado em trs milhes! 
- Ento... ento... temos de arranjar esse dinheiro! 
- Sim, senhora. E depois havemos de lhes dar tambm o cu e a terra. 
- WilI, o que  preciso,  que no vendam a propriedade. 
- Vend-la-o se lhes apetecer. No lhes falta vontade. Este pas est perdido. Os Renegados e os 
Sacolas adquiriram direitos que so recusados a quase todos ns, democratas. Nenhum democrata 
pode votar se estava inscrito, em 1865, com uma contribuio superior a dois mil dlares, o que 
exclui o nome do seu pai o do senhor Tarleton, o de MeRaes r dos Fontaines. Tambm no vota 
quem tinha patente de coronel para cima, durante a guerra. Ora este Estado produziu mais coronis 
do que qualquer outro da Confederao! No pode votar ningum que houvesse exercido funes 
pblicas, o que pe de lado toda a gente, desde os notrios aos juzes. Quem era algum antes da 
guerra perdeu o direito de voto, com as leis que esses yankees fizeram. Excluram as pessoas 
inteligentes f as srias as ricas. Mas eu posso votar, se quiser prestar o infame j@ra-mento a que 
eles nos obrigam. Em 1865 no tinha com que mandar cantar um cego, e com certeza que no fui 
coronel nem coisa parecida. Mas no me presto a isso. Se os yankees tivessem procedido bem 
ainda faria o tal juramento de lealdade; mas agora, no. No entanto, os tipos da laia do Hilton... 
esses votam. Canalhas como o Jonas Wilker- 
-erys insignificantes como os son, pobretes como os Slati, MacIntoshes... tudo isso vota! E so, 
eles quem manda neste 
58 
n@omento. Sempre que lhes apetea aumentar as contribuies, no fazem cerimnia. E olhe o que 
acontece com os pretos: j podem matar os brancos, sem serem enforcados. 
Deteve-se, constrangido, porque ambos se recordavam muito bem do que sucedera a uma branca 
que vivia szinha numa herdade isolada, para as bandas de Lovejoy. Por fim, continuou: 
-Esses pretos fazem-nos o que querem, porque tm atrs de si a Agncia, os soldados e os canhes. 
Ns nem temos o direito de voto, para nos defendermos! 
#
-Votos! Votos! A que propsito vem tudo isso Will? Estvamos era a falar das contribuies. 
Esetite-m@ Wili: toda a gente sabe que Tara  uma bela plantao. PoAamos hipotec-la e pagar 
com esse dinheiro o adicional. 
- Bem sei que a senhora no  destituda, mas s vezes fala como se o fosse. Quem h a que tenha 
dinheiro para emprestar sobre essa terra? Quem, excepto os Sacolas, que a querem despojar da 
propriedade? Olhe que seria o mesmo que perd-la... 
-Restam-me estes brincos de diamantes.  vend-los! -Mas quem  que dispe de dinheiro para se 
dar ao luxo de comprar brincos de diamantes? Se at ele falta para comprar de comer! Deixe os 
brincos em paz. Se calhar, nem davam por eles dez dlares, o que j  uma riqueza para muitas 
pessoas. 
Calaram-se. Scarlett tinha a impresso de estar a bater com a cabea numa parede. Contra quantas 
paredes no esbarrara ela, no ano anterior! 
-Que se h-de fazer, ento, minha senhora? 
- Sei l! - Sentia-se to desanimada que chegava a julgar-se doente. De que valia trabalhar, lutar? A 
cada combate espiava-a a derrota para a aniquilar e ainda por cima escarnecer. - Sei l! - repetiu. - 
No diga nada a meu pai. Haveria de se apoquentar bastante! 
- Prometo. 
- Falou a algum neste assunto? -No, senhora, vim directamente para aqui. De facto, pensou ela, 
todos vinham directamente dar-lhe as ms notcias. J estava farta daquilo. 
-Onde est o senhor Wilkes? Talvez que nos possa sugerir qualquer coisa. 
Will fitou-a, e Scarlett compreendeu que ele sabia tudo, como acontecera no dia em que Asliley 
tinha regressado. 
59 
- Est no pomar, a fazer estacas. Ouvi-lhe o som do machado, quando fui guardar o cavalo. Mas j 
lhe digo que no dispe de mais dinheiro do que ns. 
-Quero f alar-lhe e creio que estou no meu direito declarou ela erguendo-se e desembaraando-se 
dos fragmentos de edredo. 
Will no se ofendeu e continuou esfregando as m0-9 diante do lume. 
-Leve o seu xalle. Est frio l fora. Ela ,porm, saiu sem xaile, porque este ficara no andar de cima, 
e. tinha pressa de confiar a Asliley as suas atribulaes. 
Que sorte poder encontr-lo s! Ainda no tivera oportunidade de trocar com ele uma palavra em 
particular. Rodeavam-no sempre, Melanie no o largava e at lhe puxava pelo casaco para se 
certificar de que o tinha bem a seu lado. 0 espectculo daquele gesto de posse despertava em 
Scarlett o cime e a animosidade que se haviam atenuado durante (> tempo em que ela o supusera 
morto. Agora estava resolvida a v-lo a ss, e desta vez no deixaria que ningum se lhes 
interpusesse. 
Atravessou G pomar, onde as rvores se apresentavam despidas de folhas. Como as ervas estavam 
hmidas, ela comeou a sentir os ps molhados. J ouvia as machadadas de Asliley nos cepos 
trazidos do paul. Tratava-se dum trabalho rude e demorado. Tudo, alis, era demorado e penoso, 
pensou Scarlett cheia de fastio por aquela existncia que a minava. Fos@e Asliley niarido dela, e 
no Melanie, e que bom seria descansar a cabea no seu ombro, descarregar nele todas as 
responsabilidades, deix-lo agir como melhor pudesse! 
Contornou um macio de romzeiras cujos ramos desnudos o vento frio agitava, e descobriu 
hnalmente Asliley Wilkes. Apoiando-se ao machado enxugava ele a testa com as costas da mo. 
Tinha envergdo os restos esfarrapados do uniforme e uma camisa de Gerald, que lhe ficava 
apertada: bela camisa de pregas, que o antigo possuidor vestia em ocasies solenes. Acalorado com 
a tarefa, despira o casaco e pendurara-o num galho: e continuava em atitude de repouso, quando 
Scarlett se aproximou. 
Ao v-lo to andrajoso, de machado na mo ela sentiu um mpeto de revolta contra o destino, Era 
de@iais, aquilo 
60 
#
-o seu belo AshIey outrora impecvel, a mourejar nessa figura! As mos del@ no eram feitas para 
o trabalho, o corpo no era feito seno para usar roupas finas, Deus criara-o para viver em palcio, 
entretendo~se com gente educada, a tocar piano, a escrever coisas que soavam bem e que no 
queriam dizer nada. 
Scarlett suportava o espectculo do seu prprio filho mal trajado' das suas prprias irms metidas 
em trapos velhos, mas no tolerava a ideia de AshIey posto naquela situao; achava-o delicado em 
excesso para sofrer essas misrias, e talvez por isso  que o amava tanto. Preferia talhar os cepos 
por sua mo do que permitir que fosse ele a ocupar-se disso. 
- Parece que LincoIn comeou por este of cio - disse AshIey ao V-Ia chegar. -Que alturas no vou 
eu atingir, a avaliar por isto! 
Scarlett, franziu o cenho. AshIey adoptava sempre esse tom de mofa quando falava das atribuies 
que sofriam. Ela, ao contrrio, considerava-as questes de vida ou de morte e, por vezes irritava-se 
com tais observaes. 
Sem rodeios, contou a AshIey a notcia dada por W111. Exprimiu-se laconicamente, sentindo-se 
mais aliviada enquanto falava. Com certeza que ele acharia soluo para o caso. AshIey no disse 
nada, mas, vendo-a tremer, ps-lhe aos ombros o seu casaco. 
- Ento? - exclamou Searlett. - No lhe parece que temos de descobrir esse dinheiro em qualquer 
parte? 
-Sem dvida. Mas onde? -volveu ele, 
- Era o que eu queria saber - replicou Scarlett, aborrecida. Desaparecera-lhe a sensao de alivio. 
Ainda que AshIey no a pudesse ajudar, por que no a consolava ao menos? Nem que fosse com 
uma simples palavra de d. 
Ele sorriu. -Desde que voltei, j h meses, s ouvi falar duma pessoa que tivesse dinheiro.  Rhett 
Bufler. 
Na semana anterior, a tia Pitty escrevera a Melanie a dizer-lhe que Rhett ButIer regressara a Atlanta 
com uma carruagem, dois cavalos famosos e a carteira recheada de notas. Dera, no entanto, a 
entender que essa, riqueza no fora adquirida honestamente, A tia suspeitava duma coisa (e disso 
compartilhava meia Atlanta): Rhett fugira com os misteriosos milhes do tesouro dos 
Confederados. 
61 
- No falemos desse indivduo - atalhou Scarlett. - 
 uma criatura vil. Em que nos tornaramos, nas suas Mos? 
Ashley descansou o machado perscrutou os longes e os seus olhos pareceram vaguear p6r stios 
inacessveis, onde ela no o podia seguir. - respondeu ele - 
- n o que eu pergunto tambm Alis, o que ir ser de ns todos, os do Sul, com o que est a 
acontecer? 
Scarlett teve vontade de mandar para o diabo os do Sul, pois era s de si e dos seus que se tratava na 
ocasio. Mas calou-se, porque se sentia cada vez mais abatida. Ashley, decididamente, no a 
auxiliaria. 
- No fim de contas, h-de suceder o mesmo que sucede quando uma civilizao se esbarronda. Os 
que tiverem coragem e miolos ganharo a Dartida, os outros sero eliminados. Em todo o caso, no 
se me dava assistir a um Gotterdammerung, 
- A um qu? 
- Um crepsculo dos deuses. Infelizmente ns outros, sulistas tommo-nos por deuses... 
- A@abe com isso Asliley Wilkes! Se somos ns os eliminados no  ocasio para filosofias. 
0 desespero e o abatimento de Searlett encontraram, de sbito, eco na alma de Wilkes. Num 
movimento repassado de ternura, pegou nas mos dela, voltou-as e examinou-lhe as palmas calosas. 
- So as mos mais belas que eu conheo - declarou, antes de as beijar. -Belas porque so fortes e 
cada calo  uma venera cada ampola um louvor  c@ragem e ao desinteresse. F@or ns  que elas 
endureceram, pelo seu pai, por suas irms, por Melanie, pelo pequeno, pelos pretos, e por mim. Sei 
o que est a pensar, Scarlett. n isto: "C est este fantasista a parolar sobre os deuses mortos, 
#
quando os homens vivos  que precisam de socorro". No  verdade? 
Scarlett negou, com um sinal de cabea desejando ao mesmo tempo que ele lhe no largasse as 
@nos. TodaVia, AshIev deixou-as nesse instante. 
-E veio procurar-me na esperana de que eu a auxiliasse? Pois fique j a saber: no me  possvel. 
Amargurou-se-lhe a expresso enquanto relanceava a vista pelo machado e pelo mont@ de paus. 
62 
- Perdi a casa e todos os haveres - continuou. - J no sirvo de nada neste mundo, pois aquele a que 
eu pertencia desapareceu. No a posso ajudar, Scarlett, seno como lavrador e mesmo assim 
desajeitado; nem isso evitaria que se @erdesse Tara. Ningum mais do que eu deplora a situao. 
Vivemos aqui s suas sopas, Scarlett! Sim,  a pura verdade. E, por maior que seja o meu 
reconhecimento, estou incapaz de retribuir os seus favores. Disto me compenetro eu cada vez mais, 
de dia para dia. E cada vez mais tambm este dom que possuo, de me 
esquivar  realidade me impede igualmente de aceitar a vida tal qual como @la . Compreende o 
que quero dizer? 
Scarlett, esboou um gesto afirmativo. No percebia muito bem a ideia de AshIey, mas bebia-lhe as 
palavras. Apesar de parecer to longe dela, era a primeira vez que lhe expunha os seus 
pensamentos. 0 facto animava-a como 
se estivesse prestes a fazer uma descoberta. 
- P, maldio... isto de no querer ver a realidade nua e crua. At ao momento de rebentar a guerra, 
a vida era 
para mim to fictcia corno as sombras projectadas numa tela. E eu preferia-a assim. No me 
agradam os contornos muito ntidos. Gosto deles um tanto difusos. . Calou-se, sorriu de leve e 
estremeceu ao vento que lhe atravessava a camisa delgada. 
- Por outras palavras, Scarlett: sou cobarde. No, ela no percebia patavina daquela dissertao 
acerca de sombras e contornos difusos, mas as ltimas palavras foram em linguagem que se 
entendia melhor. Ele mentira, porm. Cobarde  que no era. Tudo nele-evocava a herana das 
geraes corajosas e Scarlett bem sabia qual fora a sua aco durante a guerra. 
- Isso no  verdade! - bradou. - Os cobardes no trepam aos canhes em Gettysburgo, para reunir 
os soldados. 
0 prprio general escreceu a Melanie, a narrar o caso... Demais... 
- No foi coragem - replicou Astiley, com acento de fadiga. @ 0 combate  como o champanhe: 
tanto embriaga os heris como os poltres. No campo de batalha, s h a escolher entre a morte e a 
bravura. Mas eu referia-me a outra coisa. A minha espkie de cobardia  infinitamente pior do que se 
eu tivesse fugido ao ouvir troar o canho. 
As palavras acudiam-lhe vagarosas, difceis, como se ele sentisse que lhe era doloroso exprimir-se. 
Se outro qual- 
63 
quer homem lhe falasse desse modo ' Scarlett t-lo-ia arguido de falsa modstia, achando neste 
discurso um processo de alcanar elogios. Mas Ashiey parecia sincero, alm de que havia nos olhos 
dele um olhar que expressava qualquer sentimento difcil de compreender. No era medo, nem 
desculpa, mas o esforo para suster um fluxo irresistvel que o dominava. 0 vento spero enregelava 
os ps hmidos de Scarlett, e ela de novo tremeu: mas os seus arrepios provinham menos do frio do 
que do receio que lhe despertavam no corao as palavras do seu inte@locutor. 
- De que  que tem medo, AshIey? 
- Ora... de coisas sem nome, de coisas que parecem muito estpidas quando as queremos expor em 
conversa. Temo que a vida tome de sbito um aspecto demasiadamente real... Temo encontrar-me 
em pessoa com os factos mais comezinhos da existncia. No me importa estar aqui a cortar 
madeira, na lama; contudo, no sou insensvel ao que isso representa. Tenho pena muita penal de 
que se haja desvanecido a belew da vida que tanto amei outrora. Porque a vida era magnfica antes 
da guerra, Scarlett. Possua um encanto, uma perfeio, uma harmonia s semelhante  da arte 
grega. Duvido agora de que todos pensassem como eu, mas para mim a vida afigurava-se-me 
#
verdadeiramente deliciosa. E eu pertencia a essa existncia, integrava-me nela. Na actual, sinto-me 
deslocado e tenho medo. Sei que os outros tempos eram. para mim um espectculo de sombras 
chinesas; evitava tudo o que n<> fosse um jogo de sombras afastava-me das pessoas e das 
situaes dernasiadament@ reais. No as queria no meu domnio. Tambm tentei afastar-me de si 
Scarlett. Era muito cheia de vida, muito real, e eu, coba@de, preferia as sombras e os sonhos. 
-E... a MeIly? -A Melanie  o mais suave dos sonhos, e fez parte dos meus devaneios. Se a guerra 
no houvesse surgido, eu teria continuado a gozar a minha existncia feliz nos Doze Carvalhos, 
assistindo ao desenrolar da vida, mantendo-me sempre como espectador. Mas quando rebentou a 
guerra, apresentou-se-me a vida tal como . A primeira vez que entrei em aco... foi em Bull Run... 
Vi camaradas desfazerem-se ern pedaos, ouvi cavalos a soltar rinchos de agonia, senti-me cheio de 
hrror e repugnncia ao ver cuspir sangue e torcerem-se com dores aqueles homens 
64 
sobre quem eu d@sparava. Mas isso ainda no foi o pior da guerra; o pior, Scarlett, foram as 
pessoas com quem tive de conviver. 
"Desde sempre que me retra dos outros. Escolhi os meus amigos com todo o cuidado. Mas a guerra 
ensinou-me que eu criara um mundo  parte, povoado de criaturas ideais. Ensinou-me o que so de 
facto as pessoas, mas no como devo conviver com elas. E receio bastante que nunca o aprenda. 
Hoje, sei que para sustentar minha mulher e meu filho serei forado a abrir caminho atravs da 
multido com quem nada tenho de comum. Voc, Scarlett agarra a vida pelos cornos e submete-a  
sua vontade. @las eu, como poderei submet-la? Digo-lhe que chego a ter medo. 
Exprimia-se em voz baixa e clara, impregnada dum sentimento que Scarlett no atingia. De vez em 
quando, apreendia uma palavra e esforava-se por lhe compreender o sentido. Mas as palavras 
escapavam-se-lhe como pssaros assustados. Incitava-o algum cruel aguilho, porm Scarlett no 
percebia que fora o levava a falar assim. 
-No sei ao certo quando me apareceu a triste realidade acabando com a minha sesso privada de 
sombras chin@sas. Talvez fosse nos primeiros cinco minutos que passei em Bull Run depois de ver 
tombar o primeiro homem que matei... 1@o entanto, eu sabia que j no podia ser simples 
espectador. De repente, encontrei-me em cena; era eu que representava, que tornava atitudes e fazia 
gestos fteis. Fora-se o meu pequeno mundo, invadido por criaturas cujos pensamentos no eram os 
meus, cujas aces eram to diferentes das minhas como as dum hotentote. Invadiam-me os 
domnios, com ps enlameados ' e j no me restava lugar onde me refugiasse. Na priso, 
pensava: "Quando a guerra acabar, regressarei  vida de outros tempos e os sonhos de ento, verei 
de novo as minhas queridas sombras". Mas no se volta atrs, Scarlett. E o que nos espera agora  
pior do que a guerra, pior que a priso e, para mim, pior do que a morte... Bem v que os meus 
pavores so para me atrarem castigo. 
-Oia, Ashley-comeou Scarlett, ainda desnorteada 
- se tem medo que se morra de fome... havemos de achar maneira de resolver a dificuldade. Tenho 
confiana. 
Por um momento, os grandes olhos de Ashley, que pareciam de cristal cinz@nto poisaram-se 
sobre ela e dr-se-la expressarem sentiment@s de admirao. Mas, de sbito, 
5 - Vento Levou - n 
65 
retomaram o ar distante e Scarlett, de corao oprimido compreendeu que ele n@ aludia  fome. 
Eram como duas' pessoas que falassem lnguas diferentes. Ela, porm, estimava-o tanto que, ao W- 
1o escapar-se-lhe como nesse instante'experime@fitou a mesma sensao que teria ao verificar que 
o Sol se pusera e que o calor do dia sucedera o lugar  fria humidade crepuscular. Desejaria agarrlo 
pelos ombros, faz-lo compenetrar-se de que ela era feita de carne  sangue e no qualquer 
personagem evadida dos seus sonhos. Se ela pudesse sentir aquela sensao, de identidade com ele 
por que tanto ansiava, desde que AshIey viera da Europa e se detivera nos degraus de Tara, exttico, 
a sorrir-lhe! 
-A fome no  agradvel-disse ele por fim.-Sei-o por experincia prpria, mas no  isso o que me 
#
aterroriza. Receio achar uma existncia desprovida da beleza calma do nosso mundo de outrora. 
Scarlett desesperava-se, pensando ao mesmo tempo que Melanie sabia a que  que Asbley queria 
referir-se. Ele e Melly falavam muitas vezes de fantasias daquela espcie, de livros, de sonhos, de 
poesia, dos raios da Lua e da poeira das Estrelas. Asliley no partilhava das aflies de Scarlett, no 
sentia a tortura dum estmago vazio, nem as agruras do Inverno, nem o medo de perder Tara. 0 
pavor que ele tinha era de qualquer coisa que Scarlett jamais conhecera ou poderia imaginar. Que 
tinha ele a temer no naufr'-gio dum mundo estranho  fome, ao frio e  perda da propriedade? E 
Scarlett pensou que, se o auscultasse Inti- .mamente, saberia qual a resposta de Ashley. 
- Oli! - exclamou ela num tom de desiluso, como uma criana que, ao desfazer um embrulho muito 
bem apresentado'verifica no existir nada l dentro. Ao ouvi-Ia, esboou ele um sorriso triste de 
desculpa. 
- Perdoe-me, Scarletti, de falar assim. No conseguirei fazer-me entender, porque no sabe o que o 
medo . Tem corao de leo e faltam-lhe por completo os dons imaginativos, duas coisas que eu 
lhe invejo. A si no faz diferena ver-se a contas com a realidade, nunca se esforar por lhe 
escapar, como eu. 
Escapar! Dir-se-la ser a nica palavra acessvel que ele pronunciara. Asliley, como ela estava 
cansado da luta e queria fugir. Scarlett respirou @nais fortemente. 
66 
- Oli, Ashley! - gritou. - Eu tambm queria escapar-me! Estou to farta de tudo isto! 
Ele ergueu as sobrancelhas, como quem no acredita, e ela, poisando-lhe no brao a mo febril, 
continuou, atropelando as palavras: 
-Escute-me. Afirmo-lhe que estou farta e sinto que no posso suportar mais. Tenho lutado p@lo 
po, pelo dinheiro; semeei, mondei, colhi algodo, cheguei a lavrar a terra at onde puderam as 
minhas foras. 0 Sul morreu, Ashley,  o que eu digo! Caiu nas mos dos yankees, e dos escravos 
forros e dos Sacolas, e no ficou nada para ns. Fujamos, Ashl@yT 
Baixando a cabea para lhe observar o rosto, que se purpureara com a excitao, Asliley no 
respondeu e ela prosseguiu: 
- Fujamos 'sim. Deixemos os outros1 Estou cansada de trabalhar para eles. Algum nos h-de 
substituir, h sempre quem se ocupe dos que no podem desenvencilhar-se szinhos. Vamos-nos 
embora. ambos. Podemos ir para o Mxico: A precisam de oficiais. Talvez sejamos felizes, 
Trabalharei para ti, farei tudo o que for necessrio, Bem sabes que no gostas da Melanie. 
AshIey pretendeu falar. Ela, porm, tinha ainda muito que dizer: 
- Disseste-me um dia que gostavas mais de mi&. Lembras-te? Ora tu no mudaste! Tenho a certeza. 
Declaraste que ela no era mais do que um sonho... Vamos, far-te-el feliz. 0 Dr. Fontaine  de 
opinio que ela. no pode ter mais filhos. Eu posso... 
Ele pusera-lhe as mos nos ombros e apertava-a con1 tanta fora que lhe provocava dores. Scarlett 
parou, extenuada. 
- Esqueamos o que se passou nesse dia nos Doze Carvalhos. 
- Achas que jamais o esquecerei? i% capaz de o esquecer? Dirs sinceramente que no me tens 
amor? 
Asliley suspirou e retorquiu logo: -No. No a amo. 
- P, mentira! -Ainda que o seja, isso est fora de discusso. 
- Queres dizer que... ibora abando-Pensa que eu concordaria em ir-me eir 1 
nando Melanie e o pequeno, ainda que os detestasse? Dar- 
67 
-lhe esse desgosto? Deix-los entregues  caridade dos amigos? Enlouqueceu, Scarlett? Perdeu o 
juzo? Nem pode deixar seu pai e as suas irms, que esto a seu cargo, como Melanie e Beau esto  
minha guarda. Quer esteja cansada ou no, o seu dever  ficar e olhar por eles. 
- Podia abandon-los, sim... Estou farta de os aturar. Asliley inclinou-se de novo e por instantes, ela, 
de corao palpitante, julgou que el@ a ia apertar nos seus braos. Mas'em vez disso, Asliley deulhe 
uma pancadinha afectuosa no ombro e, como quem se dirige a uma criana para a consolar, 
#
falou-lhe nestes termos: 
- Sei que est farta e cansada. Isso  que a leva a dizer essas coisas. Suporta a carga de trs homens. 
Mas eu vou auxili-la. Deixarei de ser desajeitado... 
- S tens uma maneira de me auxiliar - interrompeu-o Scarlett exaltada. -  levar-me para longe 
daqui, seja para ond@ for, dar-nos uma oportunidade de sermos felizes. Nada nos retm aqui. 
- Nada - disse Asliley tranquilamente. - Nada seno a honra. 
Frustrada na sua expectativa, Scarlett fixou-o e, pela primeira vez notou-Ihe como as pestanas 
tinham o tom doirado e qente do trigo maduro. Reparou no ar digno daquela cabea sobre o 
pescoo nu, e como, apesar dos andrajos grotestos, o, seu corpo esguio e direito conservava toda a 
nobreza. Fitaram-se uns momentos; os olhos de Scarlett eram suplicantes ' os de Asliley incertos 
como lagos da montanha sob um cu tempestuoso. 
Ali viu ela a condenao dos seus sonhos, dos seus 
desejos insensatos. 
Invadida pelo desnimo, escondeu a cabea entre as mos e ps-se a chorar. Asliley nunca a vira 
assim. Jamais lhe passara pela ideia que mulheres da tmpera de Scarlett se dexassen-i dominar 
pelas lgrimas. Num mpeto de ternura e de remorso, apertou-a nos braos, embalou-a como 
a uma criana e encostou-lhe a cabea de encontro ao corao, enquanto murmurava: 
- Ento, que  isto? To corajosa e a chorar! No chore... 
Mal a havia estreitado, logo a sentiu transformar-se sob o seu amplexo; o corpo esguio que ele 
segurava transmitia-lhe uma espcie de magia delirante os olhos verdes envolviam-no num claro 
ardente. o a@gustiado Inverno 
68 
L 
j no existia para AshIey era agora Primavera, a Primavera perfumada de que el@ quase se 
esquecera, cheia dos murmrios das folhas tenras. Dir-se-ia reviver os dias descuidados de outrora, 
do tempo em que os seus desejos juvenis no tinham perdido o ardor. Olvidou os anos de amargura 
que se lhes tinham seguido... e, vendo palpitar os lbios rubros que se lhe ofereciam, aproximou a 
boca e beijou Searlett. 
Ela ouvia confusamente um rumor surdo como se tivesse encostado dois bzios s orelhas: eram 
a@ pancadas do seu prprio corao. Julgou que o corpo se lhe fundia no do homem. E ambos, 
perdendo a noo do tempo, ficaram assim unidos um ao outro. Ashley beijava-a com avi- dez, 
como se jamais pudesse mitigar aquela sede. 
Quando, de sbito, a largou, Searlett teve a impresso de que ia perder o equilbrio e encostou-se  
barreira. E olhou para ele, cheia de amor, triunfante. 
- Amas-me! Amas-me! No o negues! As mos dele voltaram a segur-la pelos ombros, mos que 
Searlett sentiu tremerem, mas cujo estremecimento a deliciava. Aproximou-se de novo, num 
movimento ousado, mas AshIey repeliu-a e fitou-a com expresso de angstia, torturado pelo 
combate a que dentro de si se entregava. 
- No! - bradou. - Se se chega mais, eu, aqui mesmo . . . Scarlett sorriu de modo radiante, que 
significava o esquecimento do tempo e do lugar, tudo enfim, menos a 
lembrana dos lbios que se uniram. 
Ento, ele principiou a sacudi-Ia tanto que os cabelos castanhos se desataram, descendo-lhe pelos 
ombros; sacudiu-a como se estivesse dominado por um acesso de furor contra ela... e contra si 
prprio. 
-No temos o direito de fazer isto! Digo e repito que no! 
Parecia que, a prosseguir aquela fria, o pescoo de Scarlett iria despregar-se. 0 cabelo tombado 
cegava-a, U 
procedimento de AshIey aturdia-a. Recuou um passo e fitou-o. Viu-lhe pequeninas gotas de suor na 
testa, viu-lhe ainda os dedos enclavinhados como garras... 
-A culpa foi minha-confessou ele.-No foi sua. Mas isto no se h-de repetir, porque me vou 
embora com 
#
Melanie e o pequeno. 
69 
Vais-te embora? - gritou Scarlett, aflita. - No  possvel! 
-Sim, irei. Julga que posso ficar aqui depois do que se passou? Se tornasse a acontecer... __ AshIey' 
no te vs. Tu amas-me. Para onde iriam vocs? Tu amas-me... 
Ele inclinou-se, e com tal brusquido que Scarlett se encolheu de novo contra a barreira. 
-Amo-te, sim. Amo a tua coragem, a tua obstinao, o fogo que h em ti, a tua crueldade. At que 
ponto vai este amor?, Ouve:  to grande que 'ainda h pouco, estive quase a profanar a 
hospitalidade da casa que nos acolheu, a mim e  minha famlia, esquecendo a melhor esposa que 
jamais existiu... Sim amo-te tanto que seria capaz de aqui mesmo, sobre a lam,como um... 
Scarlett debatia-se num caos de pensamentos. 0 corao sentiu nesse momento que a traspassava 
um estilete de gelo. 
- Se experimentaste tudo isso... e no me quiseste fazer tua...  que no me tens amor! 
- Nunca eu conseguirei que me entendas! - replicou AshIey. 
Calaram-se, fitando-se mutuamente. De repente, ela estremeceu e notou, como no regresso duma 
longa viagem, que era Inverno, que os campos estavam enregelados, que ela mesma tinha imenso 
frio. Reparou tambm que o rosto de AshIey retomara a expresso de desprendimento que lhe era 
peculiar; ele igualmente reconhecera a estao hibernal, e os seus traos revelavam sofrimento e 
remorso. 
Scarlett desejaria deix-lo e voltar para casa, procurando ali abrigo e consolo mas estava muito 
cansada para o fazer. 0 prprio acto defalar se lhe tornava fatigante. 
- J nada resta - disse por fim. - Nada para amar ou defender. Perdi-te e vou perder Tara. 
AshIey contemplou-a um instante em silncio. Depois abaixou-se e apanhou do cho um bocado de 
terra argilosa. 
-Alguma coisa resta -disse ele, e nos lbios perpassou-lhe a sombra do sorriso antigo. - Uma coisa a 
que tem mais amor do que a mim, embora talvez no o saiba. Ainda no perdeu Tara. 
ou-lhe na palma . Pegou na mo inerte de Scarlett, coloe o pedao de argila hmida e fechou-lhe os 
dedos. Nem a um nem a outro a mo escaldava de febre. Scarlett olhou 
70 
sem interesse para o torro vermelho. Em seguida, fixou a vista em AshIey, compreendendo 
vagamente que ningum conseguiria abalat a integridade daquele esprito. 
Nunca ele abandonaria Melanie, nem que morresse de amor. Ainda que se consumisse de paixo, 
jamais possuiria Scarlett, e lutaria por mant-la sempre a distncia. No, ela no tornaria a penetrar 
naquela armadura. Para AshIey, as palavras hospitalidade, lealdade e honra tinham maior 
significado do que para Searlett. 
Esta voltou a olhar para o pedao de argila. 
- Sim - murmurou - ainda me resta isto. Falou sein convico, no vendo naquilo seno, um 
bocadinho de barro. Mas, logo a seguir, sem nada ter evocado, surgiu-lhe na mente o oceano de 
terra vermelha que rodeava Tara; lembrou-se de quanto lhe queria, no rude combate que travara, e 
que teria de travar, para que a sua propriedade no fosse parar a outras mos. Olhou ento de novo 
para AshIey, perguntando a si mesma para onde teria ido a vaga de paixo ardente que o assolara 
momentos antes, Quanto a ela, estava apta a reflectir, j no sentia nada, comoo nenhuma. 
- No h necessidade de se ir embora - declarou em voz nitida. - No tenciono deixar vocs todos 
morrerem de fome, s porque me lancei nos seus braos. Isso no torna a acontecer. 
Voltou-lhe costas e tomou o caminho de casa, torcendo os cabelos sobre a nuca. AshIey seguiu-a 
com o olhar e vu-a erguer os ombros franzinos. Esse gesto falou-lhe mais ao corao do que 
qualquer das frases que ela proferira. 
T=A ainda na mo o pedacinho de barro quando subiu os degraus da entrada, Tomara a precauo 
de dar a volta  casa, porque, se passasse diante da cozinha, os olhos perspicazes de Bab notariam 
logo que algo de grave acontecera. Alis, Scarlett no queria ver ningum. No sentia vergonha, 
nem decepo, nem rancor, mas apenas fraqueza de pernas e a cabea vazia. Com tanta fora 
#
apertou a mo 
71 
que a terra se lhe escapou entre os dedos. E ento Scarlett ps-se a repetir como um papagaio: 
"Sim, ainda me resta isto. Sim, ainda me resta isto". Nada mais possua alm daquela terra vermelha 
que, momentos antes, ela seria capaz de abandonar como quem abandona um leno rasgado. Agora 
sentia de novo quanto lhe era afeioada e perguntava a si mesma que loucura a dominara para to 
pouco caso fazer dessa terra. Se AshIey cedesse, ela teria partido sem sequer olhar para trs; no 
entanto, apesar do esprito vazio, sabia bem quanto lhe custaria deixar essas colinas vermelhas, 
esses pinheiros escuros e descarnados. At morrer, as saudades no a largariam. 0 prprio AshIey 
havia de sentir a falta de Tara. Como AshIey era sensato e como a conhecia! Bastara meter-lhe na 
mo um punhado de terra hmida para que o juzo-lhe voltasse. 
Ia Searlett fechar a porta quando ouviu o barulho duma carruagem. Virou-se i3ara ver quem era. 
Visitas em semelhante ocasio! Impossvel, Fugiria para o quarto, alegando uma enxaqueca. 
Mas, quando a carruagem se aproximou mais, o espanto esmoreceu-lhe o desejo da fuga. Era um 
veculo novo, luzidio, com arreios tambm novos, semeados aqui e ali de ornatos de lato. Devia, 
com certeza, pertencer a qualquer pessoa estranha  terra. Searlett no conhecia por ali ningum 
suficientemente rico para se dar ao luxo duma, coisas dessas. 
Ficou no limiar, contemplando enquanto, o vento frio lhe colava as saias aos tornozelos. Ento a 
carruagem parou defronte da porta e apeou-se Jonas Wilkersn. Ao ver o antigo feitor de Tara 
envolto num sumptuoso casaco de abafo, Scarlett ficou pasmada. No entanto, Will contara-lhe. que 
Jonas parecia prosperar desde que obtivera colocao na Agncia dos Forros; e explicara que ele 
devia ganhar muito dinheiro burlando ora os pretos ora o Governo, ou confiscando as colheitas de 
algodo com o'pretexto de que pertenciam ao Estado. Com certeza que ele no adquirira todo aquele 
dinheiro honestamente, atendendo s dificuldades econmicas da poca. 
E ei-lo que safa agora duma carruagem elegante e ajudava a apear-se uma dama trajada com o 
maior apuro. Num relance, Scarlett verificou que o vestido era de cor espa- 
72 
ventosa e de mau gosto, mas no deixou por isso de o olhar com avidez. Desde muito tempo que 
no via vestidos  moda. "Pelo visto, usam-se as crinolinas menos largas este ano", pensou, 
enquanto observava a saia vermelha enxadrezada. "E como os casacos so curtos!" prosseguiu ela 
consigo mesma, de olhos fixos no casaco de veludo preto. "Que chapu to esquisito! Decerto, que 
as capotas j passaram de moda!" De facto a mulher tinha no cocuruto da cabea um chapelinho 
riculo de veludo encarnado, achatado e redondo como um prato, cujas fitas, em vez de serem 
amarradas debaixo doqueixo como nas capotas, se atavam sobre a nuca, debaixo dum molho de 
caracis. Scarlett no pde deixar de notar que esses carcis no eram da mesma cor do resto do 
cabelo. . Quando ela poisou o p no cho e olhou para a residncia, Scarlett viu que aquela cara lhe 
no era de todo estranha: cara de coelho coberta de p-de-arroz! 
- 2 Emmie Slattery! - exclamou, e to surpreendida que a voz saiu mais alta do que ela esperava. 
-Sim, senhora, sou eu -respondeu Eminie, baixando a cabea e sorrindo e avanando para a escada. 
Enimie Slattery! Essa desavergonhada de cabelos de estopa, cujo filho natural Ellen levara a 
baptizar. Essa que provocara a morte de Ellen, comunicando-lhe a febre tifide. Pois agora tinha o 
topete de se apresentar em Tara, vestida de espavento, com o -vontade de quem est em sua casa! 
Scarlett lembrou-se de Ellen e logo experimentou uma fria que a fez tremer como se tivesse um 
acesso de malria. 
- Retire-se, mulher indigna! - gritou-lhe. - Saia da minha casa! 
Enimie ficou boquiaberta e olhou para Jonas, que chegava nessa ocasio, de cenho carregado. 
Apesar de furioso, fez um esforo para conservar a sua dignidade. 
-No  dessa maneira que se fala  minha mulher - 
disse ele. 
- Sua mulher? - repetiu Scarlett, desatando a rir. - 
J devia ter casado com ela h mais tempo. Quem baptizou os outros rebentos, depois da morte de 
#
minha me? 
- Oli! - bradou Eminie, tornando a descer precipitadamente os degraus, disposta a reentrar- na 
carruagem. Jonas deteve-a, agarrando-a por um brao. 
73 
-Vimos c fazer uma visita... uma visita amigvel - 
declarou ele em tom resmungo. -E queremos conversar de negcios como velhos amigos. 
- Amigos? -A voz de Scarlett era fustigante como uma chicotada. -Quando  que fomos amigos de 
gente da sua laia? Os Slatterys viviam  nossa custa e pagaram os benefcios recebidos matando a 
minha me! E quanto a voc... meu pai expulsou-o porque fez um filho a. Emmie... No  novidade 
para si. Amigos? Saiam daqui para fora antes que eu chame o senhor Benteen e o senhor Wilkes. 
Ao ouvir isto, Emmie desprendeu-se da mo do marido e correu para a carruagem to depressa 
quanto lhe permitiram as botinas de verniz debruadas de encarnado e atadas com cordes de borlas 
escarlates. 
A face plida de Jonas enrubesceu de sbito, tal o monco dum peru zangado, sob o efeito duma 
clera no menor  de Scarlett. 
- Sempre arrogante, hem? Sempre com os seus grandes ares? Deixe-se disso! Sei que nem tem ealado 
para enfiar nos pa, e sei tambm que o seu pai se tornou idiota... 
-Ponha-se na rua! -No me h-de falar muito tempo dessa maneira. Sei que est na penria. Nem 
sequer tem dinheiro para pagar as contribuies. Vim aqui propor-lhe a compra desta propriedade, e 
fazia-lhe uma boa oferta. Emmie tem grande empenho em viver nesta casa. Mas agora, afiano que 
nem lhe ofereo um centavo. Sua irlandesa petulante, h-de ver o que  bom quando o fisco lhe 
vender as terras para se pagar dos impostos! E eu  que hei-de comprar a propriedade, com moblia 
e tudo, e hei-de vir instalar-me aqui. 
Com que ento era Jonas Wilkerson que pretendia Tara... Jonas e Emmie que sonhavam vingar-se 
das afrontas recebidas no passado, vindo habitar a casa onde lhes tinham feito sentir a sua 
indignidade! Os nervos de Scarlett vibravam de clera, como j haviam vibrado no dia em que 
disparara a pistola apontada para -o yankee barbudo. A sua pena era no ter agora uma arma 
consigo. 
- Demolirei esta casa, pedra por pedra, deitar-lhe-ei fogo, e espalharei sal por todo o campo antes 
que voltem a pr aqui os ps! - bradou ela. - Retirem-se, j disse! Rua! 
Jonas fitou-a com olhar flamejante, pronto a responder-lhe; mas, mudando de ideias, deu meia volta 
e enca- 
74 
minhou-se- para a carruagem. Abancou junto da mulher que choramingava, e chicoteou o cavalo. 
Quando Jonas ' Emmie se afastavam, Scarlett cuspiu na direco deles. Sabia que era um gesto to 
ordinrio quanto infantil, mas sentiu-se com isso mais aliviada. Chegou a lastimar que eles no a 
tivessem visto proceder assim. 
Malditos defensores dos pretos, atreverem-se a vir ali zombar da sua pobreza! Aquele patife nunca 
tencionara propor-lhe a compra de Tara. Viera apenas para se pavo,near  sua frente com a mulher. 
Esses imundos Renegados terem a pretenso de se instalar em Tara! 
Ento invadiu-a sbito terror e toda a sua ira se fundiu. Deus do Cu! Decerto viriam instalar-se em 
Tara! Ela no podia impedi-los de comprar a propriedade, de comprar todos os espelhos, todas as 
mesas e camas 'todos os mveis de mogno e de pau-rosa que tinham pertencido a Ellen e aos quais 
Scarlett tanto queria, embora danificados pelos yankees. E tambm as pratas dos Robillards. "No, 
no consentirei em tal coisa", pensou Scarlett, convicta. "Nem que tenha de incendiar a casa, 
Emmie jamais por os ps no cho que minha me pisou!" 
Fechou a porta e encostou-se-lhe cheia de medo, mais,. assustada ainda que no dia em que @s 
homens de Sherman lhe tinham invadido a casa. Dessa vez, o seu maior terror era que lhe pegassem 
fogo a Tara... e que morresse queimada... mas agora o caso era muito pior. Aqueles seres vis 
habitarem a sua moradia! E depois gabarem-se aos amigos de como tinham posto na rua os 
orgulhosos O'Haras! Talvez at chegassem ao ponto de convidar pretos a jantar e a passar ali a 
#
noite. Will contara que Jonas se comprazia em tratar os negros como de igual para igual: comia com 
eles, visitava-os, levava-os a passear de carruagem, abraava-os... 
Quando Scarlett pensou na possibilidade de infligir este derradeiro'insulto a Tara, o corao 
comeou a pulsar-lhe to forte que ela mal conseguia respirar. Tentou estudar o problema, esforouse 
por descobrir uma soluo, mas, de cada vez que concentrava as ideias, tremia com nova onda de 
raiva e pavor. No entanto, devia existir um meio de resolver o caso. Algum que dispusesse de 
dinheiro e que lho emprestasse... 0 dinheiro no desaparecia assim, no se evaporava. Algum o 
possua ainda. 
Lembrou-se ento das palavras de AshIey: 
75 
"S uma pessoa dispe de dinheiro: Rhett Butler". Rhett Butler! Scarlett, dirigiu-se para a sala e 
fechou a porta. A claridade do crepsculo filtrava-se pelas persianas fechadas. A ningum passaria 
pela mente ir procur-la naquele quarto' e ela queria reflectir sem que a incomodassem. Era to 
simples a ideia ocorrida agora que se espantava de no ter pensado nisso mais cedo. 
"Rhett  que me h-de valer. Vendo-lhe os brincos de diamantes; ou ento peo-lhe dinheiro 
emprestado e deixo-lhe os brincos como penhor". 
Durante um momento sentiu-se to aliviada que a dominou uma espcie de fra@ueza. Sim, pagaria 
os impostos e teria o prazer de rir na cara de Jonas Wilkerson. Mas a esta agradvel perspectiva 
sucedeu a verdade implacvel. 
"No  s este ano que preciso de dinheiro para os impostos. Tambni precisarei dele no prximo 
ano, e assim sucessivamente at ao fim dos meus dias. Se eu pagar desta vez, para a outra 
aumentaro os impostos e voltarei, a ter as mesmas aflies. Se for boa a colheita de algodo, as 
contribuies sero de tal ordem que nada me restar, ou ento confiscam-me tudo com o pretexto 
de que o algodo pertence ao Estado. os yankees e os patifes que esto com eles acabaro por ter o 
que pretendem. Toda a minha vida andarei com medo de que eles consigam os seus fins. Toda a 
vida lutarei por arranjar dinheiro, matar-me-ei com. trabalho, e tudo para nada, s para ver o meu 
algodo ir parar a outras mos. Pedir emprestados trezentos dlares a fim de pagar os impostos, isso 
ser apenas um paliativo. 
0 que eu quero  ver-me livre para sempre destes apuros, dormir sossegada sem receio do que 
poder acontecer no 
ms seguinte e no prximo ano". 
0 crebro de Scarlett raciocinava sem descanso. Fria, logicamente, a-se-lhe desenvolvendo uma 
ideia no esprito. Lembrou-se da figura de Rhett, da sua fileira de dentes brancos, daquela cara 
trigueira onde luziam uns olhos pretos sardnicos. Recordou-se de certa noite tpida, em Atlanta. 
Estava sentada na varanda da tia Pitty, ao cair da tarde... Ainda sentia o calor da mo de Rhett ' 
quando este lhe agarrara no brao e lhe dissera: - Desejo-a como nunca desejei nenhuma mulher, e 
esperei-a mais tempo do que jamais esperaria por outra. 
"Vou casar com ele", decidiu Scarlett. "Assim, acabam~se de vez as preocupaes". 
76 
Oli, abenoado pensamento, mais doce do que a esperana do Paraso! Nunca mais se apoquentar 
com questes de dinheiro, saber que Tara no passaria para mos alheias, que a famlia no teria 
privaes, que ela prpria no tornaria a andar s cabeadas contra um muro de pedra! 
Sentiu-se envelhecida. Os acontecimentos da tarde haviam-lhe exaurido os sentimentos: primeiro 
fora a atordoadora notcia acerca dos. impostos, depois a atitude de A@hley, por fim a visita de 
Jonas Wilkerson e da mulher. No, j no conseguia ter emoes. Se toda a sua capacidade 
emocional fora esgotada como poderia insurgir-se contra o plano que se lhe esboava na cabea? 
Nem se lembrou de que detestava Rhett mais do que qualquer outra pessoa neste mundo. Mas 
perdera a faculdade de sentir. Limitava~se a pensar, e os seus pensamentos eram apenas de ordem 
prtica. 
"Disse-lhe coisas tremendas naquela noite em que ele nos abandonou no meio do caminho, mas 
farei com que as esquea", disse de si para si, fatuamente, convicta do poder que ainda exerceria 
#
sobre Rhett. "Saberei ser insinuante, convenc-lo-ei de que sempre lhe tive amor e que, se lhe falei 
assim daquela vez, era por estar cheia de medo. Ah, os homens so to vaidosos que crem em tudo 
o que os lisonja!... No convm,  claro, dar-lhe a entender as dificuldades por que passamos pelo 
menos enquanto no o houver persuadido. Sim, iss@ no dever ele saber: se suspeitasse da nossa 
pobreza, calcularia logo que era ao dinheiro que eu procurava e no  sua pessoa. No fim de contas, 
como havia de desconfiar? A tia Pitty tambm continua na ignorncia de tudo. Depois de ter casado 
comigo, Rhett ver-se~ obrigado a vir em nosso auxlio. No h-de querer que a famlia da mulher 
morra de fome ... " 
Esposa de Rhett Butler! Do fundo de si mesma brotou' de sbito um sentimento de repulsa mas foi 
breve, logo se extinguiu. Recordou-se dos factos desagradveis que marcaram a sua curta lua-demel 
com Charles, as mos desajeitadas do marido, o seu ar canhestro, as suas emoes 
incompreensveis. Lembrou-se de Wade Hampton. 
"No pensemos nisso agora. Dar tempo depois de casada ... " .Depois de casada... A memria 
badalou-lhe como um sino, e ela sentiu enregelarem-se-lhe os olhos. Evocava aquela noite tpida, 
em casa da tia Pitty, quando pergun- 
77 
@r"' 
tara a Rhett se ele tinha inteno de a desposar. Como ele rira de forma odiosa! At respondera: 
"No fui feito para o casamento ... " 
Se continuasse a pensar da mesma maneira? Se recusasse casar, a despeito de todos os encantos da 
pretendente? Pior ainda: Se se houvesse esquecido por completo de Scarlett e andasse interessado 
por outra mulher? 
"Minha querida, desejo-a como nunca desejei nenhuma". Scarlett cerrou os punhos e as unhas 
enterraram-se na carne. "Se me esqueceu, saberei for-lo a lembrar-se. H-de medesejar outra 
vez!" . E tambm, se no quisesse despos-la, mas t-la apenas, isso serviria igualmente para lhe 
apanhar dinheiro. Pois j no lhe propusera uma vez que fosse sua amante? 
Na obscuridade da sala, Scarlett deu combate decisivo aos trs mais fortes laos da sua alma: a 
memria de Ellen, os princpios da sua religio e o amor que dedicava a AshIey. Sabia que a me l 
no Cu acharia odioso o seu plano; sabia do mesmo n;odo que, am'ando tanto a AshIey, o acto que 
ia praticar representava dupla prostituio. 
Mas todos estes escrpulos se desfizeram diante da frieza cruel do raciocnio e sob o aguilho do 
desespero. Ellen morrera e a morte possivelmente faria compreender muitas coisas. A religio 
proibia as relaes ilcitas sob pena do fogo do Inferno: mas, se a Igreja julgava que ela ,ia cruzar os 
brabs quando Tara corria perigo... ento que a Igreja pensasse o que quisesse! No se preocuparia 
com isso, pelo menos por enquanto. E, no que se referia a AshIey... Acaso AshIey a desejava? Sim, 
l desejar parece que desejava. S aquele beijo... Fosse como fosse, no fugiria com ela. "15', 
curioso que no me parecia pecado com AshIey, mas com Rhett ... " 
No crepsculo da tarde de Inverno, Scarlett chegava ao fim da longa caminhada que tivera incio 
naquela noite de Atlanta. Quando se pusera a andar, que era ela mais do que uma rapariga fflimada, 
egosta, sem experincia, cheia de mocidade e ardor, facilmente atordoada pela vida? Agora, no 
final, nada restava dessa rapariga. A fome, o trabalho duro, o medo e o esforo contnuo, os terrores 
da guerra e os da Reconstruo, tudo lhe tirara o que ainda havia de mocidade, de entusiasmo, de 
candura. No mago, formara-se-lhe uma carapua, que pouco a pouco fora endurecendo, naqueles 
meses interminveis... 
78 
Contudo, at a, sustiveram-na duas esperanas: que, terminada a guerra, a existncia retomasse 
pouco a pouco o aspecto de outrora e que o regresso de Asliley desse algum significado  sua vida. 
Agora essas duas esperanas estavam destrudas. A apario- de Jonas Wilkerson em Tara fizera-a 
compreender que, afinal, para ela e para todos do Sul a guerra no chegara ao seu termo: pelo 
contrrio, comeavam as lutas mais amargas, as vinganas mais brutais. E, quanto a Asliley, estava 
prisioneiro para sempre de juramentos mais fortes do que as grades da cadeia. No mesmo dia 
#
soubera que tinha perdido a paz e que havia igualmente perdido Ashley. A carapaa no 
apresentava fendas, e a ltima camada havia j endurecido. Searlett tornara-se naquilo que a av 
Fontaine lhe aconselhara que evitasse: uma pessoa que experimentara o pior e a quem no ficava 
mais nada que temer. Nada podia j recear quanto  vida  me  conservao do seu amor, ao bom 
conceito do @blico.' S existia uma coisa que a atemorizava: passar fome. 
E, visto que se libertara de tudo quanto a ligava ao passado e a si mesma, Scarlett sentia-se 
estranhamente aliviada. Tomara uma deciso, e, graas a Deus, isso no * assustava. Nada tinha a 
perder e estava disposta a levar * seu propsito at o fim. 
Se conseguisse induzir Rhett a casar com ela ttd<> acabaria bem. Caso contrrio... havia de obter o 
di@heiro. Por um momexto pensou com objectividade o que  que se.pode esperar duma amante. 
Rhett exigiria que ela ficasse em Atlanta, como, segundo constava, procedera com a Watling? Se a 
obrigasse a viver em Atlanta, veria quanto isso lhe iria custar... Tinha de se mostrar generoso para a 
compensar do seu afastamento de Tara. Scarlett era muito ignorante quanto ao lado oculto da vida 
dos homens e no fazia ideia dos compromissos que resultariam duma ligao entre ela e Rhett. 
Pensou tambm se poderia vir a ter uma criana. Isso seria uma catstrofe. 
"No me inquietarei com tal coisa por enquanto; fica para mais tarde". E baniu do esprito essa ideia 
desagradvel, com receio de que lhe trantornasse os planos. Nessa mesma noite anunciaria aos seus 
a sua partida para Atlanta,- onde ia tratar dum emprstimo ou da hipoteca da propriedade, caso 
fosse necessrio. Era tudo o que lhes 
79 
bastava saber at ao dia nefasto em que descobrissem tratar-se de assunto diferente. 
Decidida como estava, ergueu a cabea e endireitou o busto. 0 negcio no seria fcil, bem o sabia. 
Noutro tempo era Rhett quem solicitava e ela quem outorgava os favores: agora ia Scarlett 
mendigar, submetendo-se s condies do outro... 
"Mas no me apresentarei corno pedinte. Irei como uma rainha, que distribuiu graas e mercs. E 
ele ficar sem saber que ... " 
Aproximou-se do alto espelho da parede e mirou-se de alto a baixo. 0 espelho na sua moldura de 
oiro -gasto, reflectiu a imagem dum@ estranha. Dir-se-ia que no se via a si prpria h mais dum 
ano. Todas as manhs se mirava na superfcie polida para verificar se estava decente e penteada, 
mas fazia-G com o pensamento noutras coisas mais urgentes que a no deixava proceder a um 
exame atento. Mas agora, aquela desconhecida... Sim, essa mulher de faces cavadas poderia ser 
realmente Scarlett O'Hara? Scarlett O'Hara tinha rosto belo engraado alegre. A cara que entretanto 
se lhe apresent@va  frent@ no era nada bonita, no revelava os encantos de que ela to bem se 
recordava. Esta era plida, desfigurada. As sobrancelhas pretas seguiam a linha oblqua dos olhos 
verdes e destacavam-se de modo estranho na pele branca como asas dum pssaro, assustado. A 
expresso tinha qualquer coisa de esforado e ansioso. 
"No tenho suficiente beleza para o conquistar", disse consigo mesma, sentindo-se desesperar mais 
unia vez. "Estou to magra... horrivelmente magra!" 
Tacteou as faces, palpou os ossos, investigou o corpo todo... Os seios eram pequenos quase to 
pequenos como os de Melanie. Devia enchum@ar o peito para o tornar mais saliente: fazer 
exactamente aquilo de que ela se ria, quando o surpreendia nas outras mulheres! Enchumaar * 
peito! Dessa ideia passou a outra: o vestido. Observou * saia, considerando os remendos que havia 
nos folhos. Rhett gostava de mulheres bem vestidas, vestidas  ltima moda. Lembrou-se com 
saudade do vestido verde de franjas que usara depois do luto e que ia bem com o chapu de plumas 
que ele lhe comprara. Que lisonjeiros cumprimentos lhe dirigira ento! Recordou-se tambm com o 
dio que a inveja desperta, de traje de Emmie Sla@tery, de 
80 
xadrez encarnado, com botinas debruadas da mesma cor e respectivas borlas e chapu redondo, em 
forma de tacho. Indumentria espaventosa  certo, mas nova, e  moda, capaz d@ chamar a ateno' 
Ah, como ela tambm desejava atrair os olhares 'em especial os de Rhett Butler! Se ele 
* visse naqueles andrajos, concluiria logo o que se passava 
#
* respeito de Tara. Ora isso no o devia saber. 
Que louca fora ao pensar que podia ir a Atlanta e que ele a pediria enicasamento... com esse 
pescoo descarnado, olhos de gata famlica e vestido no fio! Se no conseguira, no auge da sua 
beleza, uma proposta matrimonial de Rhett ' como poderia obt-la agora, assim feia e mal 
trajada? Se se confirmasse o boato espalhado pela tia Pitty, Rhett devia ser o homem mais rico de 
Atlanta; competia-lhe pois fazer a sua escolha entre as mulheres mais bonitas e elegantes. "Contudo 
- pensou Scarlett - possuo um trunfo que falta a muitas delas: a deciso. Se ao menos tivesse um 
vestido capaz ... " 
No havia, em Tara, um nico que prestasse para o efeito. Os poucos que existiam haviam sido 
remendados e voltados mais duma vez. 
"15@, a triste verdade" disse consigo, olhando desconsoladamente para o cho. A: vista poisou-se 
no tapete de Ellen, de veludo cor de musgo, gasto, manchado, desfiado pelo roar de muitos corpos 
que sobre ele tinham dormido ' e este espectculo deprimiu-a ainda mais pois deu-lhe a 
entender que Tara se encontrava em to lamentoso estado como ela prpria. 0 quarto escurecera por 
completo e Scarlett sentiu-se pouco  vontade. Dirigiu-se  janela, ergueu a vidraa 'abriu os 
postigos e deixou entrar a derradeira luz do crepsculo hibernal. Depois tornou  fechar a vidraa e 
encostou a cabea ao reposteiro de veludo, olhando distrada para as rvores sombrias do cemitrio. 
Sentindo na pele a macieza do veludo, esfregou com delcia a face no reposteiro, como faria um 
gato. E ento, de sbito, teve uma ideia. 
Da a pouco ' arrastava uma pesada mesa de mrmore, cujos rodzios enferrujados gemeram em 
sinal de protesto. Empurrou-a at  janela, arregaou as saias trepou para o tampo e, levantando-se 
na ponta dos ps, 'ps-se a desprender a grossa cimalha. Aquilo estava um bocado alto e, com os 
saces e puxadelas, veio abaixo com grande fragor. 
6 - vento Ievou - n 81 
Como por encanto, abriu-se a porta da sala e surgiu a cara larga e negra da ama cheia de 
curiosidade. Lanou um olhar de reprovao a S@arlett (que, de saias erguidas, se preparava para 
descer da mesa) e ficou desconfiada com a expresso de triunfo que viu no rosto daquela. 
-Que est minina a a faz com reposteio de sinhora Ellen?-inquiriu a preta. 
-E que andas tu a espreitar s portas? -replicou a interpelada, dando finalmente o salto e agarrando, 
num braado, o veludo poeirento. - 
-No costumo espreit s porta-ripostou Bab, pronta para o combate.-E minina no tem nada que 
mex nas coisa de sinhora Ellen. Que lembrana foi essa de arranc reposteio e de arrast dessa 
maneira no p do cho? 
Scarlett fixou nela os olhos verdes, olhos que brilhavam. de prazer como nos velhos tempos em que, 
rapariguinha maldosa, fazia arreliar a ama. _ Vai depressa ao sto buscar a minha caixa de moldes 
- ordenou 'dando-lhe um leve empurro. - Vou ter um vestido novo. 
A preta indignou-s@e  !<leia de, com o siu peso de mais de cem quilos, ter de subir ao sto; e ao 
mesmo tempo, atravessou-lhe o esprito uma suspeita errvel. Num gesto rpido, apoderou-se do 
reposteiro e apertou-o de encontro aos selos flcidos e enormes, como se se tratasse duma relquia 
sagrada. @No h-de t reposteio de sinhora Efien para faz vistido novo' se  isso que pensa. No, 
no ter enquanto mim f viva, 
Notou ento a ama que o rosto de Scarlett assumia aquela expresso a que _a velha costumava 
chamar "ar bravio", para logo ceder lugar a um sorriso deveras irresistvel. Mas Bab no se deixou 
vencer. Sabia que Scarlett sorria unicamente para obter o que pretendia, e ela no estava disposta a 
ceder quele capricho. 
- Bab, no sejas assim. Vou a Atlanta pedir dinheiro emprestado, e preciso dum vestido novo. , - 
P'ra qu? Outras sinhoras no tem vistido novo. Usam vistido velho e sentem bem orgulhosa com 
isso. A filha de sinhora Ellen pode and maltrapia se f de sua vontade, e toda gente a respeit tanto 
como se visse minina vistida de seda. 
82 
A pouco e pouco a fisionomia de Scarlett foi assumindo o "ar bravio". 
#
"Meu Deus-disse a preta consigo- de espant como ela cada vez se parece mais com sinh Gerald e 
menos com sinhora Ellen". 
- Sabes perfeitamente, Bab que a tia Pitty nos escreveu a participar que a Fanny sing se casa no 
prximo sbado. 2 clara que tenho de assistir ao casamento e, para isso, necessito dum vestido 
capaz. 
- Esse que minina tem em cima de si no h-de s pi .que de minina Fanny. Sua tia Pitty dizia na 
carta que os Elsings tavam em m circunstncia. 
- Repito que preciso dum vestido novo! Bab, no calculas a que ponto necessito de dinheiro! As 
contribuies... 
- A gente j sabe isso, mas... 
- J sabes? -Sim, Nosso Sinh deu a mim bom ouvido e ele no and tapado. Pra mais sinh Will 
nunca se d trabalho de fech porta. 
Haveria conversa que Bab no surpreendesse? Aquele corpanzil, que fazia tremer o soalho, era 
capaz de se deslocar sem rudo quando a sua dona queria escutar s portas. 
- Ento se ouviste tudo, deves tambm saber que Emmie e J@nas W11kerson... 
- Sim, sinhora - respondeu a preta, de olhos cintilantes. 
-Pois bem, no sejas teimosa e deixa-me ir a Atlanta arranjar o dinheiro para as contribuies. ] 
absolutamente necessrio! - gritou, batendo com o punho fechado na palma da outra mo. - Em 
nome de Deus Bab! Olha que eles nos pem na rua. Vais, discutir comig@ por causa dum 
reposteiro velho, quando aquela desavergonhada da Emmie Slattery que matou a mam, se prepara 
para se instalar nesta ca'sa e dormir na cama em que dormiu a tua patroa? 
Bab apoiava-se ora num p ora noutro, como um elefante impaciente. Tinha o vago pressentimento 
de que acabaria por ceder. 
-No qu v essa gente aqui, mas... -Fitou Scarlett com um olhar perscrutante: -A quem vai pidi 
dinheiro emprestado? n preciso i de vistido novo? 
Scarlett, que no esperava a observao, retorquiu confusa: 
-isso  comigo. 
83 
Bab no a perdia de vista, tal como fazia quando Searlett era pequena e tentava esquivar-se com 
rodeios e mentiras. Com a impresso de que a ama lhe estava a adivinhar os pensamentos, Scarlett 
baixou os olhos atrapalhada. 
- Ento precisa de vistido novo pa@a pidi dinheiro emprestado? - insistiu a preta. - A mim no 
engana. Onde est esse dinheiro? 
- No tenho mais nada que te dizer - declarou Scar- 'lett j irritada. -0 caso  comigo. D-me esse 
reposteiro e ajuda-me a talhar um vestido. 
- T bem -volveu Bab, capitulando com tanta rapidez que despertou as suspeitas de Scarlett. 
Apresentou o veludo e, com um sorriso malicioso, perguntou: - Sinhora Melly vai com minina a 
'tlanta? 
- No - ripostou abruptamente Scarlett, receosa do que poderia surgir dali. - Vou szinha. 
- Isso  o que diz - atalhou a preta, cheia de firmeza. -Vou com minina. No deixo d passo sem 
mim. 
Por momentos, Scarlett imaginou a sua viagem a Atlanta e a conversa com Rhett sob as vistas 
tutelares da ama, especada a distncia como um Crbero negro. Sorriu de novo e ps a mo no 
brao da preta. 
- Bab,  muita bondade da tua parte quereres ir comigo e ajudar-me em tudo, mas o que seria desta 
gente c em casa, durante a tua ausncia? Bem sabes que s tu s capaz de manter isto em ordem. 
- Ah, minina, no vale a pena gast palavra doce comigo. Conheo minina desde que pus nela 
primeiro cueiro. Disse que vou acompanh a 'tlanta e no volto com a palavra atrs. Si soubesse na 
cova, sinhora Elle tremia de espanto! Ir s para 'tlanta, terra com yankeu e escravo  solta! 
- Mas  que vou para casa da tia Pittypat - redarguiu Scarlett, frentica. 
- Minina Pittypat  muito boa pessoa. Julga v tudo e afin no v nada -declarou Bab, dando meia 
#
volta e saindo com ar majestoso, a fim de pr ponto final na discusso. 0 soalho do vestbulo rangeu 
sob o seu peso respeitvel. - Prissy - acrescentou, uma vez ali - corre ao sto para traz caixa de 
costura e tesoura, tudo depressa! 
"Bonito negcio - pensou Scarlett, desanimada. - Mais valia ter um co-polcia  perna". 
84 
Depois da ceia Scarlett e Bab estenderam os moldes sobre a mesa de Jantar enquanto Suellen e 
Carreen descosiam o forro de cetin@ do reposteiro e Melanie escovava o veludo. Gerald Will e 
Ashley, sentados em cadeiras, fumavam e dive@tam-se com aquela agitao feminina. Parecia 
emanar de Scarlett uma agradvel excitao de que ningum compreendia o motivo mas que se 
comunicava a todos. De faces rosadas e olhos brilhantes, ria por tudo e por nada, e o seu riso 
alegrava toda a gente. Havia tantos meses que no a ouviam soltar uma gargalhada! Gerald, 
sobretudo compraz ,ia-se com o seu contentamento. 
0 pai de Scarleti mostrava o olhar menos vago que de costume, seguindo com a vista todos os, 
movimentos da filha e dando-lhe uma. palmadinha afectuosa sempre que ela passava ao alcance da 
sua mo. As raparigas estavam to entusiasmadas como se andassem a preparar-se para um baile; 
tomavam medidas, talhavam e alinhavam com o interesse de quem faz o vestido que vai exibir 
numa grande festa. 
Scarlett ia a Atlanta pedir dinheiro emprestado, ou hipotecar Tara se tal fosse necessrio. Mas, 
afinal, que significava hipoteca? Scarlett pretendia que facilmente se livraria dela graas  prxima 
colheita de algodo, e que at lhe sobraria dinheiro. Dizia-o com ar to convencido que ningum 
pensou sequer em discutir. Quando lhe perguntaram a quem tencionava pedir o emprstimo 
respondeu com um olhar de malcia que a todos fez rir e lelicit-la pelas suas boas relaes: - H 
sempre moscas que caem no mel. 
-No pode deixar de ser o capito Rliett Butlerobservou astutamente Melanie, o que, atendendo ao 
disparate, provocou nova exploso de riso. Todos sabiam quanto Scarlett detestava Butler; nunca 
lhe regateava insultos, quando os outros se referiam ao seu nome. 
Mas Scarlett no se riu, e Asliley, que soltara uma 
gargalhada, pronto se deteve ao surpreender o olhar rpido que Bab lanara  patroa. 
Contagiada por aquela atmosfera de generosidade Suellen foi buscar a sua gola de rendas irlandesas 
ainda bonita apesar do uso, e Carreen insistiu por que Sariett se servisse dos seus sapatos 'poisestavam 
em melhor estado do que quaisquer outros existentes em Tara. Melanie pediu  ama que 
deixasse um bocado de veludo para forrar a sua velha capota e divertiu toda a gente ao declarar que, 
se o 
85 
nico galo da capoeira no fugisse imediatamente, teria de resignar-se a largar as penas verdes e 
bronzeadas da cauda. 
Scarlett, que observava os dedos a coserem com agilidade, ouviu as risadas e lanou em seu redor 
um olhar amargo e desdenhoso. 
"Ningum faz ideia do que me espera, nem do que lhes pode acontecer, a eles e ao Sul. Julgam, 
apesar de tudoi que nada de muito mau lhes suceder porque so O'Haras, Wilkes, Hamiltons. At 
os pretos pensam assim. Que estupidez! Nunca chegaro a compreender nada. Ho-de continuar 
nessa convico e a viverem como sempre viveram. Melly pode andar esfarrapada, colher algodo e 
at ajudar-me a matar um homem, que nunca se m@dfica. Ser sempre a bem educada senhora 
Wilkes, a perfeita dama da sociedade. AshIey, esse, pode ver a morte de perto, ser ferido, 
prisioneiro e voltar sem vintm que continuar sempre o mesmo senhor que vivia nos Doze 
Carvalhos. Will  diferente. Sabe como as coisas se passam, mas nunca teve muito a perder. Quanto 
a Suellen e Carreen, acham que isto h-de acabar um dia. No querem adaptar-se a novas situaes 
que, segundo pensam no ho-de durar muito. Imaginem que Deus vai fazer @m milagre 
especialmente para seu benefcio. Mas Deus no o far. 0 nico milagre  o que eu vou tratar de 
realizar com Rhett Bufler... No, estes jamais ho-de mudar. Eu sou a nica pessoa que se 
modificou... porque assim se tornou necessrio". 
#
Ao fim de certo tempo, Bab expulsou os homens da sala de jantar e fechou a porta, pois iam 
comear as provas do vestido. 
Pork ajudou Gerald a subir e a deitar~se, e AshIey e Will ficaram ss no vestbulo iluminado por 
um candeeiro. .Estiveram uns momentos sem dizer palavra; o segundo mascava tabaco com o ar 
dum pacfico ruminante. 
-No vejo com bons olhos ewa viagem a, Atlantadeclarou por fim.-No me agrada nada. 
o outro lanou-lhe uma olhadela rpida e desviou a vista. No falou, mas pensou se Will teria a 
mesma horrvel suspeita que o obcecava. Custava-lhe a crer. Will ignorava o que se passara no 
pomar, naquela mesma tarde;. desconhecia aquela cena que pudera ter levado Scarlett a tomar uma 
resoluo desesperada. Tambm no devia ter notado a expresso da ama quando tinham proferido 
o nome de Rhett Butler. Alis, no estava ao facto da situa- 
86 
o, deste nem da sua m reputao. Pelo menos 'era esta a opinio de Ashley, embora depois da 
sua volta percebesse que WilI, assim como Bab, parecia andar desconfiado dalguma coisa, 
chegando a prever a realizao de certos acontecimentos. Existia qualquer ameaa, que Asliley no 
sabia definir e ante a qual se considerava impotente para salvar Searlett. Nem uma nica vez, nessa 
noite os olhos dos dois se encontraram; a alegria que ela man4estara chegara a causar-lhe medo. 
Eram muito graves as suas dvidas para que ele as exprimisse por palavras; nem iria ao ponto de a 
ofender, perguntando-lhe se havia motivo para as acalentar. De raiva, cerrou os punhos. Nessa tarde 
perdera o direito de fiscalizar o procedimento de Scarlett. Tambm no- podia ir em seu auxilio. 
Mas quando pensou na cara trombuda da ama e no seu ar d@cidido, enquanto cosia o vestido de 
veludo, Asliley sentiu-se um tanto tranquilizado. Quer quisesse quer no, Scarlett teria a preta a 
velar pela sua segurana. 
"Eu  que sou a causa de tudo isto" pensou, cheio de aflio. "Levei-a a este extremo". 
Lembrou-se da maneira como ela erguera a cabea ao deix-lo, e o corao comeou a bater-lhe 
mais forte. Aamirava-a, e sentia-se ao mesmo tempo esmagado pela sensao da sua prpria 
impotncia. Sabia que Scarlett se no considerava herona e que ficaria perplexa se ele confessasse 
que no conheci alma to herica como a sua: sabia que ignorava todas as belas qualidades que ele 
lhe atribua. Mas sabia tambm que ela aceitava a vida tal qual se lhe apresentava, que opunha a 
todos os obstculos uma vontade de ferro, que lutava com uma teimosia para a qual no havia 
derrota e que prosseguia no combate ainda quando essa derrota se mostrasse inevitvel. 
Olhando para Will na obscuridade do vestbulo AshIey. considerou que jamai@ conhecera 
heroismo compa@vel ao de Scarlett O'Hara, que partia a conquistar o mundo com um vestido feito 
dum reposteiro de veludo e com um chapu enfeitado de penas de galo. 
Sop"vA vento frio e havia no cu nuvens cinzentas quando, no dia seguinte, Scarlett e a ama se 
apearam (10 comboio 
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em Atlanta. A estao no fora reconstruda depois do incndio da cidade 'e como elas tinham 
descido a certa distncia das runas a antiga, tiveram de abrir caminho atravs das cinzas e de 
lama. Levada pela fora do hbito, Searlett procurou com a vista G tio Peter e a carruagem da tia 
Pitty'pois era costume virem sempre ao seu encontro quando fazia a viagem de Tara a Atlanta, 
durante a guerra. Ento, recaindo em si, riu-se interiormente. Era natural que Peter no estivesse ali 
porque ningum prevenra a tia Pitty da sua chegada; alm disso, lembrou-se de que numa das 
cartas, a velha senhora lhe contara a morte o pobre garrano que Peter arranjara em Macon para o 
transportar a Atlanta, aps a rendio da cidade. 
0 olhar de Searlett vagueou pelo espao devastado que rodeava a estao, a ver se descobria alguma 
carruagem de gente conhecida que a conduzisse a casa da tia mas no deu--- f de nenhuma. 
Essa gente por certo que j no possua meios de transporte. Os tempos eram maus, havia 
dificuldade de encontrar alimentos- quanto mais carruagens! A tia Pitty dissera a verdade: na maior 
parte os seus amigos faziam como ela, andavam a p. 
Viam-se vrios caminhes enfileirados ao longo dos vages de mercadorias algumas carroas 
#
cobertas de lama, mas carruagens s ha@ia duas. Uma delas era fechada, e a outra, aberta, estava j 
ocupada por uma mulher elegante e um oficial yankee. Se bem que a tia Pitty tivesse informado que 
as ruas de Atlanta fervilhavam de soldados yankees, Searlett no pde reprimir um sobressalto de 
medo ao reconhecer a farda azul, Ainda lhe custava a crer que a guerra houvesse acabado e que 
aquele homem no, a fosse perseguir para a roubar ou insultar. 
0 relativo sossego em redor do comboio trouxe-lhe ao esprito certa manh de 1862, quando Scarlett 
viera a Atlanta envolta nos seus crepes de viva. Recordou-se de como havia ali ento tantas 
carruagens, do barulho das pragas dos condutores, dos gritos das pessoas a saudarem os amigos, e 
suspirou de alvio por ter acabado a excitao do teinpo de guerra. Em seguida deu outro suspiro 
mas desta -Vez  ideia de se ver obrigada a ir a p at  casa da tia Pitty. Acalentava, porm, a 
esperana de, uma vez na Peachtree Street, encontrar algum conhecido que lhe desse uma boleia. 
Quando estava a olhar em volta, um preto de meia-idade 
88 
aproximou-se com a carruagem fechada e, debruando-se para Scarlett, perguntou: 
-Qu um trem, minha sinhora? Duas moeda p'ra i onde quis, dentro da cidade. 
Bab fulminou-o com um olhar. -Trem de alugu! -resmungou. -Por quemnstoma, ngo? 
Bab era docampo, mas no vivera sempre l e sabia que uma mulher que se,Drezasse no se metia 
em carro de praa, demais a mais fechado, sem que a acompanhasse um membro niasculino da 
famlia, Nem a presena duma criada velha bastava para satisfazer as convenes sociais. 
- Vamos emb, minina Scarlett. Trem de alugu guiado por escravo forro! No faltava mais nada... 
- No sou isso que diz - protestou o cocheiro. - Tou ao servio de sinhora Talbot e fao estes 
extraordinrios p'ra ganh algum dinheiro. 
- Quem  essa sinhora Talbot? 
- Sinhora Suzannah Talbot, de Milledgeville. Viemos para c depois de patro morr. 
- Conhece, minina? 
- No - respondeu Scarlett, com pena de dar unia resposta negativa. -Conheo to pouca gente em 
Milledgeville! 
-Ento  mi i a p -concluiu Bab, em tom severo. -Pode i embS, cocheiro. 
Empunhou o saco de viagem em que ia o vestido de veludo, o chapu e a camisa de noite, e, 
metendo debaixo do brao a trouxa em que guardava as suas prprias coisas, obrigou a patroa a 
atravessar o largo encharcado da chuva. Searlett no protestou, pois no queria de modo nenhum 
indispor-se com a ama. Desde que esta a surpreendera a contas com o reposteiro de veludo os seus 
olhos tomavam s vezes uma expresso de descor@fiana nada tranquilizadora. Havia de ser difcil 
escapar quele pau de cabeleira e Scarlett no queria despertar os instintos combativos de Bab sem 
que isso fosse necessrio. 
Enquanto se dirigiam, ao longo da Peachtree Street, sobre o passeio estreito Scarlett sentia-se triste 
e desanimada. Atlanta apareci@-lhe to diferente do que fora! Passaram junto do que havia sido o 
hotel onde Rhett e o tio Henry viviam: s restava a armao com as paredes enegrecidas. Os 
armazns que ladeavam a @ia frrea por um 
89 
VIh,M1 1 A ~ 
quarto de milha, e que continham toneladas de mantimentos para a tropa, no tinham sido 
reconstruidos e os seus alicerces rectangulares ofereciam aspecto lgubre, debaixo dum cu soturno. 
Sem o muro da construo no outro lado e com o alpendre desaparecido a linha frrea apresentavase 
na sua feia nudez. Algure@ entre essas runas, quase indistinto, estava o que ficara do armazm 
que Charles legara a Scarlett. 0 ano passado o tio Henry pagara, por. ela, os respectivos impostos. 
'Mais dia menos dia teria de o reembolsar. Mais um motivo de preocupao. 
Ao dobrarem a esquina Scarlett olhou para a banda do entroncamento e no pd@ reprimir um grito 
de espanto. Apesar de tudo o que lhe contara Frank acerca do incndio da cidade nunca imaginara 
tamanha devastao. No seu esprito, tlanta que ela tanto amava estava ainda cheia de belos 
prdios. Mas esta Peachtree Street que Scarlett, via agora parecia-lhe to diferente que no a 
#
reconheceu e sentiu desejos de chorar. 
Embora tivessem surgido bastantes construes desde o dia em que Sherman sara da cidade havia 
ainda grandes espaos vazios nas proximidades do entroncamento, onde se amontoavam tijolos e 
escombros de toda a espcie. Das casas que Scarlett conhecera, s restavam paredes sem telhado, 
janelas desprovidas de vidros chamins solitrias. Aqui e ali, tinha ela a satisfao de d@scobrir um 
estabelecimento que sobrevivera ao incndio e ao bombardeamento e cujas paredes enegrecidas 
faziam realar a cor vermelha dos tijolos novos. Nas fachadas de lojas recentes e nas janelas de 
novos escritrios leu Scarlett nomes familiares, mas, na maior parte, no os reconhecia, sobretudo 
quando se tratava de advogados, mdicos ou negociantes de algodo. Noutros tempos, tinha a 
impresso de conhecer toda a gente de Atlanta, e agora sentia-se desanimada ao ler tanto nome 
estranho. 0 que a consolava era o espectculo dos prdios que estavam a construir de cada lado da 
rua. 
Havia dzias deles, e alguns de trs andares! Enquanto Scarlett olhava para a direita e para a 
esquerda ' tentando adaptar-se  nova Atlanta, ouvia o som alegre dos martelos e das serras, 
observava os andaimes que se erguiam, via os operrios a treparem escadas com tijolos aos ombros. 
Deteve o olhar na rua tanto da sua simpatia e a vista turvou-se-lhe um pouco. 
"Incendiaram-te - pensou - reduziram-te a escombros, 
90 
mas no te consumiram de vez. No podem faz-lo, e tu ressuscitars to grandiosa como eras". 
Seguindo pela rua, com Bab na peugada 'ela reparava como os passeios estavam repletos de 
gente, tal qual em plena guerra, e como havia o mesmo ar de actividade, de azfama que a seduzira 
quando pela primeira vez fora visitar a tia Pitty. Passavam tantos veculos como outrora, 
chafurdando na pavimento esburacado, s com a diferena que no eram dos Confederados. Diante 
das coberturas de madeira das lojas viam-se muitos cavalos e mulas, como de costume. Mas o rosto 
das pessoas no lhe pareceu familiar: eram caras novas homens de aspecto rebarbativo e mulheres 
de elegncia @spectaculosa. Havia tambm muitos pretos encostados s paredes ou sentados no 
cho, os quais olhavam para as carruagens com curiosidade infantil, como se estivessem num circo. 
- Escravo forro vindo do campo - sentenciou Bab. - 
Nunca em sua vida viu trem. E j mostra atrevimento. 
Eram atrevidos, sem dvida, como Scarlett verificou, pela_maneira indolente como a olhavam. Mas 
depressa os esqueceu para admirar os uniformes azuis. A cidade estava cheia de soldados yankees, a 
cavalo, a p, em carros militares, divagando pelas ruas ou saindo cambaleantes dos botequins. 
"Nunca me habituarei a v-los" pensou Scarlett, cerrando os punhos. "Nunca!" em voz alta, 
virando-se para a ama, disse: 
- Depressa, livremo-nos desta gentalha. 
- Isto tem yankee a mais - concordou aquela. Abriram caminho atravs das lajes escorregadias que 
facilitavam a passagem sobre o lamaal da Decatur Street e continuaram pela, Peachtree Street, A 
multido a era menos densa. Ao alcanarem a capela metodista (onde Searlett descansara, para 
tomar alento, nesse dia de 1864 em que fora em busca do Dr. Meade) Scarlett soltou uma 
gargalhada nervosa. Bab lanou-lhe um olhar desconfiado e interrogador, mas no levou mais 
longe a sua curiosidade. Scarlett ria de si mesma, lembrando-se do terror que experimentara ento. 
Assustavam-na os yankees, assustava-a o prUimo nascimento de Beau. Agora admirava-se de como 
tivera tanto medo. Fora muito tola em supor que os yankees, o incndio, a derrota representavam o 
pior que podia acontecer. Como tudo isso se reduzia a zero ao lado 
91 
i 3"". 
da morte da me, da decrepitude do pai, da fome, do frio, do trabalho excessivo, do pesadelo da 
insegurana! Como lhe seria fcil, presentemente mostrar-se herica perante o exrcito invasor! To 
fcil` como era difcil afastar o perigo que ameaava Tara. No jamais tornaria a recear outra coisa 
que no fosse a pobr@za. 
Passou nessa altura uma carruagem e Scarlett aproximou-se vivamente da borda do passeio para ver 
#
quem seria * ocupante. A casa da tia Pitty ficava ainda longe. A ama * Scarlett inclinaram-se para a 
frente. A ltima esboara j um sorriso, quando na moldura da portinhola surgiu uma cabea de 
mulher que a fez recuar. Era uma cabea ruiva, com chapelinho de peles: Belle Watling. 
Reconheceram-se e antes que esta se escondesse de novo no interior do @arro Scarlett fez uma 
careta de contrariedade. Logo havia d@ ser Belle a ptimeira pessoa que ela encontrava! 
-Quem ?-perguntou Bab 'desconfiada. - Minina conheceu, mas no cumprimentou. Nunca vi 
aquela c de cabelo, nem sequ nas Tarletons. Parece cabelo pintado! 
-E -confirmou Scarlett, continuando a andar. -Ento conhece? Quem  essa mui? -0 gnio mau da 
cidade. P, claro que no a conheo. Agora cala a boca. 
Deus do Cu! - exclamou a ama, boquiaberta, olhando para a carruagem que se afastava. Desde que 
deixara Savannah, vinte anos antes na companhia de Ellen, era a primeira vez que via uma @nulher 
de m vida e lastimava no a ter examinado mais de perto. 
-Pois vai bem vestida, em belo carro e cum cocheiro a val. No sei por que Nosso Sinh deixa que 
mui como essa viva  grande, quando a gente luta com penria. 
- H muito tempo que Nosso Senhor se desinteressou de ns - volveu Scarlett, irritada. - No me 
venhas dizer outra vez que -minha. me se revolve na sepultura quando, ouve coisas destas. 
Bem queria Scarlett sentir-se superior a Belle WatlIng em matria de virtude, mas no o conseguia. 
Se os seus planos se realizassem, encontrar-se-ia no mesmo nvel daquela criatura, sustentada pelo 
mesmo homem. Para no aprofundar as suas reflexes, comeou a andar mais depressa. 
Passaram diante da antiga casa dos Meades, da qual s 
92 
restavam dois degraus de pedra e uma entrada que no conduzia a parte nenhuma. No lugar onde 
fora a moradia dos Whitings no havia mais nada alm do cho. At haviam retirado os alicerces e 
as chamins de tijolo; distinguiam-se vestgios de rodas das carroas que tinham levado os 
destroos. A casa dos Elsings conservava-se ainda de p, com telhado novo e segundo andar 
reconstruido. A dos Bonells, toscamente consertada e coberta de tbuas desiguais em vez de ripas, 
parecia ainda habitvel apesar da sua aparncia. Mas em nenhuma dessas residncias, nem nas 
janelas nem nas portas, se via assomar figura humana ' e Scarlett regozijou-se com o facto. Por 
ento, no lhe agradava ter de falar fosse com quem fosse. 
Por fim, apareceu a casa da tia Pitty com o seu telhado de ardsia e paredes de tijolo. 0 corao de 
Scarlett bateu com mais fora. Graas a Deus, que fora possvel reparar os estragos! 0 tio Peter 
vinha a sair com cesto no brao; quando viu as recm-chegadas, abri@ a boca num sorriso largo e 
incrdulo. 
"Alegra-me tanto v~lo, que sou capaz de lhe beijar as faces de azeviche" pensou Scarlett, que se 
ps a gritar: 
- Sim sou eu, Peter! Vai buscar o frasco de sais da minha tia@ 
Nessa noite,  mesa da tia Pitty, apareceram as inevitveis papas de milho e as peras passadas, e 
Scarlett, comendo umas e outras, fez secreto voto de que, em sua casa, tais coisas jamais seriam 
admitidas quando ela voltasse a ter dinheiro. Pois, custasse o que custasse, ia ser de novo rica, mais 
do que suficiente para liquidar as contribuies de Tara. Pouco lhe faltava para nadar em oiro, nem 
que tivesse para isso, de cometer um crime! 
 luz amarefaa do candeeiro da casa de jantar, perguntou  tia em que estado se encontravam as 
suas finanas; esperava mau grado as aparncias, que a famlia de Charles se a@hasse habilitada a 
emprestar-lhe o dinheiro de que precisava. Aquelas perguntas no eram muito subtis, mas a tia 
Pitty, satisfeita por ter um membro da famlia com quem conversasse ' nem sequer dava conta do 
desembarao com que a sobrinha orientava a palestra. Com os olhos marejados de lgrimas, entrou 
em pormenores quanto aos seus infortnios. Nem sabia ao certo como lhe desapareceram as quintas, 
prdios da cidade e numerrio, 
93 
 &@@. 1 
mas a verdade  que j nada disto possua. Pelo menos, assim lhe dissera Henry, que no conseguira 
#
pagar as contribuies dessas propriedades. Tudo se fora, excepto a casa em que vivia: nem lhe 
passava pela cabea que este imvel no era dela mas, em comum, de Scarlett e Melanie. o irmo, 
HeAry, com dificuldade satisfazia os encargos daquela residncia e, alm disso dava-lhe todos os 
meses qualquer coisa que ela se via o@rigada a aceitar, embora ferida no seu amor-prprio. 
-Henry diz que no poder continuar com essa gene~ rosidade,, atendendo ao aumento dos 
impostos, mas no deve ser verdade. H-de haver ainda muito dinheiro, que ele esconde. 
Scarlett sabia que o tio Henry era sincero. Bastavam, para o acreditar, as poucas cartas que lhe 
escrevera acerca dos bens deixados por Charles. 0 velho advogado lutava corajosamente para salvar 
a casa e terreno onde fora o armazm a fim de que Wade e Scarlett pudessem ficar com qualquer 
coisa. S o facto de satisfazer os impostos representava um duro sacrifcio. 
" claro que no dispe de dinheiro -disse Scarlett de si para si. - Risquemo-lo da lista, a ele e  
Pitty. No h ningum seno Rhett. Tenho de me fixar neste. Mas ainda no posso ocupar-me disso. 
Vou puxar a conversa para a pessoa de Rhett e sugerir  tia que o convide a vir c amanh ... " 
Sorriu e, metendo entre as suas as mos rolias da tia Pitty, comeou: 
-No falemos mais de coisas tristes. Esqueamos o dinheiro e o mais e tratemos de assuntos alegres. 
Conte-me * que sabe a respeito dos nossos velhos amigos. Como vai * senhora Merriwether? E 
Maybelle? Ouvi dizer que o -crioulo da Maybelle voltou so e salvo. E os Elsings? E o Dr. Meade e 
a mulher? 
Com a mudana de assunto secaram-se as lgrimas da tia Pitty e o seu rosto exprimiu satisfao. 
Falou pormenorizadamente dos velhos vizinhos, do que eles faziam, usavam, comiam e pensavam. 
Contou, em tom de horror, que, antes do regresso de Ren Picard, a senhora Merriwether e a filha 
tinham conseguido manter-se  custa da venda de pastis aos soldados yankees. Que ideia to triste! 
s vezes, viam-se mais de duas dzias de yankees no ptio de Merriwether,  espera que os bolos 
sassem do 
94 
forno! Depois da vinda de Ren, este ia todos os dias numa carripana at ao acampamento dos 
yankees, para vender pastis e bolachas aos soldados. A senhora Merriwether declarava que assim 
que dispusesse de dinheiro ia abrir uma pastelari@. Pitty- no podia critic-la, mas..' Na sua opinio 
era prefervel morrer de fome a negociar com os yankees. Sempre que encontrava um soldado 
media-o de alto a baixo com olhar desdenhoso e at atravessava para o outro lado da rua, embora 
isso oierecesse inconvenientes nos dias de chuva. Searlett concordou que nenhum sacrifcio, nem o 
de ficar com os sapatos enlameados, era demais para mostrar lealdade  Confederao. 
A senhora Meade e o doutor tinham ficado sem casa quando os yankees incendiaram a cidade, e, 
alm de no possurem dinheiro, no sentiam nimo para a reconstruir depois da morte de Phil e 
Darey. Os Meades viviam muito retirados, se bem que morassem agora com os Elsings que tinham 
feito obras na parte dahificada do prdio. Os Whitings tambm ocupavam l um quarto e a senhora 
Bonnell falava em mudar-se para a residncia os Elsings se tivesse a sorte de alugar a sua casa  
famlia dum oficial yankee. 
- Mas como  que cabe l toda essa gente? - observou Scarlett. - A senhora Elsing, a Fanny, o 
Hugh... 
- A senhora Elsing e a Fanny dormem na sala e o Hugh no sto - explicou Pitty, que estava ao 
corrente de todos os arranjos domsticos dos amigos. -Minha querida, no me agrada dizer isto, 
mas, embora a senhora Elsing no o confesse, aquilo agora  uma casa de hspedes. Imagina! A 
senhora Elsing dona duma penso familiar! 
- Acho muito bem - declarou Scarlett. - S lastimo no haver tido hspedes a pagarem a sua estadia 
em Tara, o ano passado, em vez de ter convidados. Talvez no estivssemos agora assim to pobres. 
- Scarlett! Como te atreves a dizer semelhante coisa? A tua me, coitada, deve estremecer na 
sepultura s  ideia de quereres que paguem a hospitalidade que ofereces em Tara! A senhora 
Elsing no podia proceder doutra maneira. Ainda que se entregasse a trabalhos de costura, enquanto 
Fanny decorava loia de porcelana e Hugh vendia lenha para aquecimento, no conseguia o 
bastante para se manter. Imagina tu, o pobre Hugh forado a vender lenha! Ele, que tudo indicava 
#
vir a ser um grande adVO- 
95 
@@ 
gado! At me d vontade de chorar ver a que extremos chegaram os nossos rapazes. 
Scarlett evocou os campos de Tara onde os algodoeiros se alinhavam sob um sol de fogo e lembrouse 
de quanto as costas lhe ardiam durante a colheita. Sentia ainda contra as palmas cobertas de 
bolhas o rude contacto da charrua que ela manejava com mos inexperientes e pareceu-lhe que 
Hugh Elsng no merecia tal compaixo pela sua sorte. Apesar das runas que via  sua volta, a tia 
Pitty no se modificara. 
-Se no lhe agrada vender lenha, por que no exerce advocacia? Deixou de haver trabalho para os 
advogados? 
-Pelo contrrio, at h muito. Hoje em dia, quase toda a gente anda metida em demandas. Com tudo 
o que por a vai incendiado, sem marcos, ningum sabe ao certo onde comeam e acabam as suas 
propriedades. Mas a verdade  que as despesas do processo ficam sempre por pagar. No h 
dinheiro. Por isso  que Hugh continua a vender a sua lenha... A propsito, no te informei? A 
Fanny Elsing casa amanh  tarde, e decerto hs-de assistir ao casamento. A senhora Elsing ter 
muito prazer em convidar-te quando souber que ests c. Suponho que trazes outro vestido alm 
desse.... No  que ache esse feio, mas... j no tem o aspecto muito fresco... Ah, trouxeste um 
vestido novo! Ainda bem, porque  o primeiro casamento a valer que temos em Atlanta desde que a 
cidade caiu. Vai ser uma grande festa, com bolos, vinho... At haver baile. Nem sei como os 
Elsings podem, sendo to pobres! 
-Com quem casa a Fanny? Julguei que depois da morte de Dallas McLure... 
-No devemos censurar Fanny. Nem todos podem ser fiis aos mortos como tu s ao Charles, que 
Deus l tenha. Ora vejamos... Como  que ele se chama? No consigo recordar-me do nome, Tom 
Qualquer Coisa... Conheci muito bem a me dele. Fomos colegas no Colgio La Grange. Era uma 
Tomlinson de La Grange, e a me dela chamava-se... Perkins? Parkins? Ah j sei: Parknson. 
Parkinson, de Sparta. Boa famlia, m@sI ainda assim... no percebo como Fanny se resolveu a casar 
com ele. 
- Porqu? Embriaga-se? -No, no no bebe. n de uma moralidade perfeita. Referia-me a o@tra 
coisa. Foi gravemente ferido pelo estilhao duma bomba e ficou com defeito nas pernas. Tem as 
96 
pernas... (No gosto desta palavra, mas, enfim ... ) tem as pernas escanchadas, e quando anda no 
faz muito bonita figura. No percebo o que levou Fanny a aceit-lo para marido. 
-As raparigas tm de casar com algum... -No concordo- protestou a tia Pitty.-Eu nunca casei. 
-0 tia, no era de si que eu falava '! Toda a gente sabe que obtinha muito xito ' e que ainda o obtm. 
Olhe o juiz Carlton, como lhe fazia olhos doces... 
- Cala-te! Aquele velho tonto! - zombou a tia Pitty, que recuperava o bom-humor. - Mas 'no fim 
de contas, a Fanny tinha possibilidades de casar melhor, e no acredito que ela goste desse Tom 
Qualquer Coisa. No me parece que j se consolasse da morte de Dallas McLure, mas nem toda a 
gente  como tu. Permaneceste fiel ao pobre Charles e no entanto podias tornar a casar dezenas de 
vezes. m, muitas oc-asies Melly e eu falmos de quanto eras fiel  memria de teu marido, 
quandoi os outros te acusavam de seres uma namoradeira. 
Scarlett no fez comentrios a esta confidncia inbil e levou diplomaticamente a tia a passar em 
revista todos os seus conhecimentos. Entretanto, se bem que desejasse com impacincia falar de 
Rhett, no queria tomar essa iniciativa, pelo menos logo aps a sua chegada. Poderia despertar as 
desconfianas de Pitty. Havia tempo para isso. 
A tia continuou a tagarelar, contente como uma criana que consegue auditrio. Contou que as 
coisas em Atlanta iam de mal a pior, devido  aco dos Republicanos. E no havia esperana de 
melhoras. Bastava o que eles metiam na cabea dos pretos! 
- Queres crer? Pretendem que os pretos tenham direito de voto. J ouviste uma coisa destas? 
Todavia, quando penso bem no caso acho que Peter tem mais juizo do que qualquer republic@no ' 
#
e at melhores maneiras... Mas o Peter  demasiadamente bem-educado para querer votar. 0 facto  
que, com'estas ideias 'eles vo estragando os pretos. Esto a tornar-se duma insolncia... Depois de 
anoitecer ningum anda na rua com segurana, e at com dia claro obrigam as senhoras a patinhar a 
lama, para eles irem  vontade no passeio. Se algum cavalheiro se lembra de protestar, chegam a 
prend-lo. J te disse que o capito Butler est na cadela? 
7 - Vento Levou - U 97 
- Rhett Butler? Apesar da m notcia, Scarlett abenoou a tia Pitty por lhe ter evitado que fosse a 
primeira a referir-se a esse nome. 
-Esse mesmo. -0 rosto da tia animou-se. Endireitando-se na cadeira, prosseguiu: - Est preso por 
matar um preto e so capazes de o enforcar! Que te parece, hem? 
0 capit@ Butler enforcado! 
Por instantes, Scarlett julgou que lhe faltava a respirao. Mal se atrevia a olhar para a sua 
interlocutora, que estava encantada pelo efeito produzido por aquela notcia. 
- Ainda no reuniram provas contra ele, mas a verdade  que algum matou esse preto que ofendeu 
uma branca. Os yankees andam preocupados, pois ultimamente tm sido muitos os negros mortos 
naquelas circunstncias. No h provas, repito, mas, segundo diz o Dr. Meade, querem dar um 
exemplo; diz ele tambm que, se o enforcarem, ser a melhor coisa que os yankees jamais fizeram... 
No sei se tem razo. E pensar que o capito Butler esteve aqui h s uma semana! Imagina que 
veio oferecer-me uma codorniz! Perguntou-me muito por ti. Receia ter-te ofendido durante o 
cerco... e que tu nunca mais lhe perdoes. 
-Quanto tempo ficar preso? -Ningum sabe. Decerto at que o enforquem. Mas talvez no 
cheguem a provar que foi ele quem matou. Que os yankees pouco se importam com as provas... 0 
que eles querem  enforcar algum. Esto bastante preocupados. 
- A tia baixou a voz em tom de mistrio. - Por causa da Ku-Klux-Klan. Por 1' no existe uma 
seco da Klan? Tenho a certeza de que AshIey est ao facto disso, mas no diz nada porque vocs 
so mulheres. Os membros da Klan no podem falar. Vestem-se como fantasmas e vo de noite, a 
cavalo, a casa dos Sacolas que roubam dinheiro e dos pretos que se fazem muito insolentes. s 
vezes limitam-se a preveni-los de que devem sair de Atlanta, outras do-lhes chicotadas e-baixando 
mais a voz-chegam a mat-los, deixando,-lhes ao p um bilhete com o nome da seita. Os yankees 
andam furiosos por causa disto e querem dar um exemplo. Mas Hugh Elsing disse-me no lhe 
parecer que enforcassem o capito Bufler porque pensam que ele sabe onde est o dinheiro, embora 
no o queira descobrir. Querem obrig-lo a confessar. 
-Que dinheiro? 
98 
-Ento no sabes? Julguei que te tinha dito na carta. Bem se v que ests desterrada em Tara. Toda 
a cidade ficou embasbacada quando o capito regressou, com um belo cavalo e uma linda 
carruagem. Trazia as algibeiras recheadas de dinheiro, quando todos os outros mal sabiam onde ir 
desencant-lo para comer. Indignaram-se com o facto de um antigo especulador, que sempre disse 
mal da Confederao, aparecer assim to rico no meio de tantos pobres. Todos se esfalfavam para 
saber como ele conseguira tanto dinheiro mas ningum se atrevia a perguntar... excepto eu. B@tler 
riu-se e respondeu: "Pode ter a certeza de que no foi por meios honestos". Tu conhece-lo bem. 
Nunca fala a srio! 
- Ora... ganhou dinheiro durante o cerco. 
- Pois sim, mas no foi s isso; seria uma gota de gua no mar, em relao ao que possui. Todos, 
incluindo os yankees, esto convencidos de que ele deitou a mo a milhes de dlares em oiro 
pertencentes ao governo da Confederao, e que os escondeu em qualquer parte. 
- Milhes ... ? 
- Dize-me c: para onde foi todo o nosso oiro confederado? Algum se apoderou dele e o capito 
Butler deve ser esse algum. 0 capito e outr6s que tais... Os yankees supunham que fosse o 
Presidente Davis ao deixar Richmond, mas depois, quando o prenderam, viram que o pobre homem 
poucos cntimos tinha consigo. 0 certo  que na altura em que a guerra acabou, o tesouro estava 
#
vazio, e toda a gente pensa que foi obra dalgum desses que romperam o bloqueio. 
-Milhes... de oiro! Mas como... -Ento no sabes que o capito Bufler levou milhares de fardos de 
algodo para Inglaterra e para Nassau a fim de os vender por conta do governo confederado? - 
retorquiu Pitty com ar triunfante. - E no s vendeu o algodo do governo como o outro que lhe 
pertencia. Com certeza ests ao facto do preo que atingiu o algodo no mercado ingls durante a 
guerra. Podiam pedir tudo quanto quisessem! 0 governo dera-lhe pulso livre, com clusulas de 
vender o algodo e, com esse dinheiro, comprar armamento que ele devia fazer chegar ao seu. 
destino. Pois bem, quando apertaram o bloqueio, Rhett Bufler, desistiu de coniprar as armas, visto 
no poder desembarc-las; e como, por outro lado, o algodo lhe rendeu tais somas que era 
impossvel 
99 
gastar a centsima parte, concluram que o capito Butler e os outros depositaram milhes de 
dlares nos bancos ingleses,  espera que o cerco alargasse. E no me venham dizer que 
depositaram esse dinheiro em nome da Confederao. Depositaram-no em seu nome, e ainda l 
est. No se fala noutra coisa desde a rendio, e bastante os tm criticado. Os yankees j deviam 
saber desta histria quando prenderam o capito Butler, porque desde que o detiveram tm tentado 
tudo para que ele diga onde se encontra o dinheiro. Todos os fundos da Confederao pertencem 
agora aos yankees... pelo menos eles assim o julgam. No entanto, o capito Bufler afirma que no 
sabe nada. 0 Dr. Meade  de opinio que deviam enforc-lo, se bem que a forca seja um gnero de 
morte, ainda muito suave para os ladres e oportunistas... Mas que mau parecer o teu, Scarlett! No 
te sentes bem? Impressionou-te a minha conversa? Bem sei que Bufler te fez a corte noutros 
tempos, mas imaginei que Isso j tivesse passado  hist6ria... A mim  que ele nunca me agradou, 
pela fama que tem. 
-Tambm no  pessoa da minha simpatia - replicou Searlett, dominando-se, - Zangmo-nos 
durante o bloqueio, depois de a tia partir para Macon. Onde  que ele se encontra preso? 
- No quartel dos bombeiros, perto do jardim pblico. 
- No quartel dos bombeiros? A tia Pitty riu-se. 
- Sim, no quartel dos bombeiros. Transformara ni-no em cadeia militar. Os yankees esto 
acampados em barracas no Largo, em toda a volta da Cmara Municipal, e como o quartel dos 
bombeiros fica a dois passos, no fim da rua...  menina, sabes que ouvi ontem contar uma histria 
engraada a respeito do capito Butler? Decerto ainda te lembras de quanto ele era asseado... um 
verdadeiro janota. Pois bem. Meteram-no no quartel dos bombeiros e, como no o deixassem tomar 
banho, insistiu nisso todos os dias at que o levaram a meio da praa, onde havia uma celha de gua 
em que j se lavara todo o regimento. Quando lhe disseram que podia banhar-se ali, respondeu: 
"No, prefiro a minha porcaria de Sulista  porcaria dos yankees". 
A tia Pitty continuou a tagarelar sem descanso e Scarlett ouvia-a sem lhe prestar ateno. No seu 
esprito s havia lugar para duas ideias: Rhett tinha mais dinheiro 
100 
do que ela esperava e estava preso. Este ltimo facto, e a possibilidade de F@hett ser enforcado, 
transformava um pouco Q aspecto das coisas, dava margem a perspectivas mais brilhantes. Pouco 
se importava que o enforcassem. A sua necessidade de dinheiro era muito urgente, muito 
desesperada, para se inquietar com o destino de Rhett. Chegava at a partilhar da opinio do Dr. 
Meade: a forca era morte suave demais para ele. Merecia bem ser enforcado um homem que 
abandona em plena noite uma mulher no meio de dois exrcitos, s para ir lutar por uma causa j 
perdida... Se ela, Scarlett, conseguisse casar com Rhett enquanto este se encontrava na priso todos 
aqueles milhes viriam a pertencer-lhe, no caso d@ ele ser executado. Se o casamento no fosse 
possvel, pedir-lhe-ia ento dinheiro emprestado, prometendo... fosse o que fosse. E se o 
enforcassem, ficaria a dvida liquidada. 
Por um momento a sua imaginao inflamou-se  ideia de que podia enviuvar graas  bondosa 
interveno do governo yankee. Milhes em oiro! Havia de fazer obras em Tara, contratar 
trabalhadores agrcolas, plantar milhas e milhas de algodo. Teria vestidos bonitos e comeria tudo 
#
quanto lhe apetecesse. No esqueceria Suellen nem Carreen. Quanto a Wade, estava indicada a 
superalimentao para o engordar e lhe dar boas cores; havia de ter uma governanta e mais tarde 
frequentaria a Universidade para no ser um rapazinho ignorante como um rstico. donfiaria o pai a 
um bom mdico, e Ashley... que no faria ela por AshIey?! 
0 monlogo da tia Pitty interrompeu-se de sbito com a pergunta: -Que , Bab? E Scarlett, 
arrancada aos seus devaneios, viu a preta imvel, no limiar da porta, com as mos debaixo do 
avental e o olhar inquiridor. H quanto tempo estaria ali  escuta? A avaliar pelo brilho dos olhos, 
certamente ouvira tudo. 
-Minina Scarlett est cansada. n mi i deit. -Sinto-me, de facto, cansada -concordou Scarlett, 
levantando-se e dirigindo  ama um olhar de criana necessitada de apoio.-E tenho a impresso de 
que estou um tanto constipada. Tia Pitty, importa-se que eu fique amanh na cama e no a 
acompanhe nas suas visitas? No faltar ocasio para visitar as amigas. 0 que eu quero  assstir,  
noite,  festa do casamento de Fanny. Se me constipar 
101 
a valer, no poderei ir l. Um dia de repouso na cama h-de fazer-me bem. 
Bab tacteou a mo de Scarlett e observou-lhe o rosto, inquieta. Com certeza a menina no estava 
de perfeita sade. A excitao do crebro diminura de repente, deixando-a plida, abatida. 
-Minina tem mo fria como gelo-disse a ama.Venha deit. Vou faz chzinho de sassafraz e p na 
sua cama tijolo quente p'ra minina transpir. 
- Que cabea a minha! - exclamou a tia Pitty, saltando da cadeira e acariciando o brao de Scarlett. - 
Com a minha conversa esqueci-me de ti. Filha, vais ficar amanh todo o dia na cama. At  melhor 
para tagarelarmos... Ah, no,  impossvel! Prometi  senhora Bonnell ir a casa dela. Est com 
gripe, assim como a cozinheira. Ainda bem que vieste, Bab. Podes ir comigo  casa da senhora 
Bonnell, para ajudar no que for necessrio. 
Bab empurrou Scarlett para a escurido da escada, continuando a fazer consideraes acerca das 
mos frias e dos sapatos de sola fina. Scarlett mostrava-se submissa e no ffitimo estava satisfeita 
com a situao. Se conseguisse trazer a ama iludida e safar-se de casa no dia seguinte de manh, 
tudo iria pelo melhor. Iria visitar Rhett na priso. Ao subir a escada ouviu-se um trovo e Scarlett 
pensou no rudo dos canhe@ durante a guerra. Aquilo f-la estremecer. No seu esprito a trovoada 
significaria para ela, da por diante, tiroteio @ guerra. 
34 
NA manh seguinte o Sol brilhava por intermitncias e a ventania que o toldava de grossas nuvens 
escuras fazia abalar as vidraas e enchia a casa de dbeis gemidos. Searlett agradeceu a Deus ter 
cessado a chuva que ela toda a noite ouvira cair e que, a continuar assim, lhe estragaria por 
completo o vestido de veludo e a capota nova. Agora que via retalhos do cu azul sentia-se 
reanimada. Custou-lhe a ficar na cama, a mostrar um ar dolente e a tossir que metia d at que a tia 
Pitty, Bab e Peter se pusessem a caminho da residncia da senhora Bonne11. Logo que os ouviu 
fechar o porto e se encontrou szinha em casa (com excepo da cozinheira que trauteava na 
cozinha) 
102 
Scariett saltou do leito e tirou do armrio a sua indumentria por estrear. 
0 sono dera-lhe novas foras % do fundo do seu corao endurecido, extraiu a coragem de que 
necessitava. Estimulava~a a perspectiva de se defrontar com um homem ' fosse ele qual fosse; 
e, depois de meses de luta contra inmeros desaires, experimentava uma sensao de embriaguez  
ideia de encontrar enfim um adversrio definido, algum a quem tinha de vencer com os seus 
prprios recursos. 
Vestir-se szinha no foi coisa fcil; no entanto, consegui-o e, depois de pr na cabea o chapu de 
penas atrevidas correu ao quarto da tia Pitty a fim de se ver no espeffio alto. Como estava bonita! 
As penas de galo davam-lhe um arzinho provocante e o verde-escuro da capota realava-lhe o 
brilho dos olhos e tornava-os quase cor de esmeralda. Quanto ao vestido era luxuoso, elegante e, ao 
mesmo tempo, distinto. Que agradvel possuir de novo um lindo vestido e sentir-se bonita e 
#
apetecvel! Scarlett inclinou-se para a frente e beijou a sua imagem no espelho. Em seguida riu-se 
de tamanha infantilidade. Pegou ento no xaile, de Ellen, para se envolver nele; mas, achando que, 
alm de desbotado no condizia com a cor do vestido, abriu o armrio da tia e de l tirou uma capa 
negra de pano fino que Pitty s usava ao domingo. P-la nos ombros, enfiou nas orelhas os brincos 
de diamantes que trouxera de Tara e agitou a cabea para observar o efeito. Os brincos tilintaram de 
modo satisfatrio e Scarlett, decidiu menear de vez em quando a cabea na presena de Rhett. 0 
movimento de brincos seduz sempre os homens, alm de conceder s mulheres um ar espiritual. 
Que pena a tia Pitty no ter outras luvas seno as que usava nesse momento! Sem luvas uma mulher 
no pode sentir-se elegante, mas Scarlett no possura nenhumas desde que partira de Atlanta. Para 
mais, os rudes trabalhos a que se entregava em Tara haviam-lhe tornado as mos to feias! 
Pacincia, quanto a isso nada podia fazer! Foi buscar o regalo de foca da tia Pitty e a escondeu as 
mos. Mirando-se ao espelho achou que o regalo lhe punha a nota final de elegncia. l@ingum, ao 
v~la, suspeitaria da sua pobreza. 
E era necessrio que Rhett no desconfiasse de nada. Devia ficar convencido de que s motivos de 
ternura a 
tinham levado a visit-lo. 
103 
Scarlett desceu a escada em bicos de ps e saiu de casa sem despertar a ateno da cozinheira, que 
continuava o seu concerto na cozinha. A fim de escapar aos olhares dos vizinhos, desceu a correr a 
Baker Street e ao chegar  Ivy Street, foi sentar~se num marco em fr@nte dum prdio incendiado, 
na esperana de que uma alma caridosa lhe desse uma boleia no carro. 
0 Sol ora se escondia ora aparecia por trs das nuvens apressadas, banhando a rua com uma 
claridade enganadora. 
0 vento brincava com as rendas das calas de Scarlett, a qual, j cheia de frio, se embrulhou na capa 
da tia ]Pitty. No momento em que se resignava a ir a p at ao acampamento dos yankees, viu 
aproximar-se uma carroa meio desconjuntada que uma pachorrenta mula arrastava, Dentro vinha 
sentada uma velha com o nariz sujo de rap e cara tisnada do sol. Dirigia-se para as bandas da 
Cmara Municipal e acedeu de m vontade a que Scarlett se instalasse a seu lado. Era evidente que 
no lhe agradava a elegante indumentria daquela intrusa. 
"Toma-me por uma meretriz", pensou Searlett. "E talvez tenha razo ... " 
Quando a carroa chegou enfim ao Largo, Scarlett agradeceu, apeou-se e viu afastar-se a velha 
camponesa. Ento, assegurando-se de que ningum a podia observar, beliscou as faces para lhes dar 
cor e mordeu os lbios para os tornar nffis vermelhos. Ajustou a capota, comps os cabelos e lanou 
um olhar em seu redor. 0 edifcio da Cmara tinha escapado ao incndio, mas, sob o cu cinzento, 
parecia abandonado. Em toda a volta da praa, de que ele era o centro, alinhavam-se tendas de 
campanha, sujas de p e de lama. Viam-se por toda a parte soldados yankees e Scrlett, olhando-os 
indecisa, sentia faltar-lhe a coragem. Como conseguiria chegar junto de Rhett, em pleno campo 
inimigo? 
Inspeccionou a rua, do lado do quartel de bombeiros, e viu que as portas se encontravam fechadas e 
guarnecidas de grades, e que se cruzavam a cada instante duas sentinelas. Rhett estava l dentro. 
Que havia ela de dizer aos soldados? E estes que lhe responderiam? Scarlett encheu-se de brio. 
Quem teve a coragem de matar um yankee no ia agora amedrontar-se por falar a outro. Atravessou 
como pde a rua pedregosa e enlameada e foi direita  sentinela. Esta, de capote azul, a proteg-la 
do vento, deu-lhe ordem de parar. 
104 
Ai11.4, ~~1 
- Que deseja? - perguntou com a sua pronncia nasal, mas em tom deferente. 
- Queria visitar um homem que est a... preso... 
- Ah, no sei se... -volveu o soldado, coando a cabea. -H instrues quanto s visitas... -Parou de 
sbito, observando-a, e exclamou: -No  caso para chorar! V ao Quartel General e pea aos 
oficiais. Com certeza que a 
#
deixam entrar. 
Scarlett, que no tinha nenhuma vontade de chorar, sorriu abertamente. A sentinela voltou-se para a 
outra, que fazia o seu giro vagaroso e disse: -Anda c, Bill. 
Este era um rapaz forte, de bigodes espetados, que lhe saam da gola revirada do capote. 
Aproxmou-se e ouviu o primeiro recomendar-lhe: - Conduz esta senhora ao Quar~ tel General. 
Depois de agradecer' Scarlett seguiu o seu guia. -Tenha cuidado - aconselhava ele, tomando-lhe o 
brao. -No v torcer um p nestas pedras... Arregace um pouco a saia, por causa da lama. 
A voz que emergia da gola e dos bigodes tinha o mesmo 
sotaque nasal, mas era amvel. A mo com que segurava a visitante parecia firme porm respeitosa. 
No fim de contas os yankees no er@m to maus como se dizia! 
- st um dia frio demais para andarem senhoras na rua - observou a sentinela. - Vem de muito 
longe? 
-Do extremo da cidade -respondeu Scarlett, radiante com a afabilidade do homem. 
- Afrontar um tempo destes 'com tanta gripe que por a h- prosseguiu o soldado. - Ora c estamos 
no posto do comando... Mas que tem, minha senhora? 
-Esta casa...  que  o vosso quartel general? E Scarlett, olhando para aquela velha residncia, sentiu 
desejos de chorar. Assistira ali a tantas festas, durante a guerra! Era urna aprazvel moradia e agora 
flutuava na varanda uma grande bandeira dos Estados Unidos... 
-Que tem, minha senhora? -insistiu o yankee. 
- Nada... P, que eu conhecia as pessoas que viviam aqui. -Lastimo. Tenho porm a impresso de que 
nem os antigos moradores reonhece@Iam o interior da casa, Est tudo numa tal barafunda! Queira 
agora entrar, minha senhora, e perguntar pelo capito, 
Scarlett subiu os degraus, acariciando o corrimo branco e empurrou o porto. 0 vestbulo estava 
escuro e glacial 
105 
como um subterrneo e, em frente da porta do quarto que noutros tempos servia de sala de jantar, 
passeava uma sentinela transida de frio. 
-Desejo falar com o capito -disse Searlett. 
0 homem abriu a porta e Scarlett entrou ' de corao palpitante e faces rubras de comoo e 
embarao. Na sala havia um cheiro de casa pouco arejada, misto de tabaco, de coiro'de fardas 
transpiradas e corpos mal lavados. Searlett viu confusamente paredes nuas com o papel rasgado, 
renques de capotes azuis e de chapus de feltro pendurados em pregos, uma mesa comprida coberta 
de papelada e um grupo de oficiais fardados de azul. 
Engoliu a saliva e animou-se a falar. No s queria mostrar a esses yankees que no tinha receio 
deles. como fazia empenho em causar a melhor impresso possivel. 
-0 capito? -Sou um dos capites -respondeu um homem gordo, de casaco desabotoado. 
- Desejava falar com um dos presos, o capito Rhett Butler. 
- Outra vez o Butler? P, muito popular, aquele sujeito 
- comentou o militar gordo; e tirando da boca a ponta do cigarro, soltou uma gargalhada. -  parente 
dele? 
- Sim... sou irm. 
0 homem riu-se outra vez. 
- Pelo que veio, tem muitas irms. Ainda ontem esteve c uma. 
Scarlett corou. Tratava-se sem dvida duma daquelas criaturas com quem, Rhett mantinha relaes, 
talvez a Watling. Esses yankees haviam de julgar que ela era uma das tais. No podia tolerar 
semelhante coisa. Nem mesmo por Tara ficaria ali mais um minuto, a deixar-se insultar. 
Encaminhou-se para a porta e agarrou no puxador com gesto furioso, mas, entretanto, aproximou-se 
outro oficial. Este era novo, de cara bem barbeada, e mostrava expresso risonha e amvel. _ Um 
momento, minha senhora. No quer sentar-se junto do fogo para se aquecer? Vou ver o que posso 
fazer por si. Como se chama? Ele recusou receber a:.. senhora que veio ontem visit-lo. 
Scarlett sentou-se na cadeira que lhe ofereciam, relariceou a vista pelo gordo e atrapalhado capito e 
#
declinou a sua identidade. 0 moo oficial enfiou o capote e saiu, 
106 
enquanto os camaradas se retiravam para a outra extremidade da sala, onde ficaram a falar em voz 
baixa e a compulsar documentos. Scarlett estendeu as pernas na direco do lume, sentindo agora 
quanto tinha os ps frios e lastimando no haver posto -palmilhas de papel nos sapatos. Ao fim de 
certo tempo, soaram vozes no corredor e ela reconheceu o riso de Rhett Butler. Abriu-se a porta, 
varreu a sala uma corrente de ar frio e Rhett apareceu, sem chapu e de capa sobre os ombros. 
Vinha mal barbeado, sujo, sem gravata, mas apesar disso tudo mantinha o seu ar de conquistador e 
os olhos brilharam-fhe quando a avistou. 
- Scarlett! Agarrou-lhe em ambas as mos com o entusiasmo doutros tempos e, antes que ela 
percebesse o que ia acontecer, inclinou-se e beijou-a na face, Ao sentir-lhe o gesto de recuo, 
segurou-a pelos ombros, exclamando, sorridente: 
- Querida irmzinha! Scarlett no pde deixar de lhe retribuir o sorriso. Que descarado! A cadeia 
no o modificara. 
- Isto  contra o regulamento - resmungou o capito gordo, dir4gindo-se ao moo oficial. - Ele no 
devia sair do quartel dos bombeiros. Voc conhece as ordens. 
- Por amor de Deus, Henry! Esta senhora morreria de frio naquela geleira! 
- Bem, bem, a responsabilidade  sua. 
- Afirmo-lhes, meus senhores - disse Rhett, voltando-se para eles sem largar os ombros de Scarlettque 
minha irm no me trouxe serras nem limas para me ajudar a evadir. 
Rram-se todos, e Scarlett lanou um olhar desanimado  sua volta. Ver-se-ia obrigada a falar a 
Rhett na presena de seis oficiais yankees? Consideravam-no assim to perigoso, para no quererem 
perd-lo de vista um s instante? Adivinhando o que lhe ia no esprito, o moo oficial abriu a porta 
e murmurou algumas palavras a dois soldados, que se levantaram para lhe fazer continncia. 
Obedecendo s ordens recebidas, pegaram nas espingardas e saram para o vestbulo, fechando a 
porta atrs de si. 
- Se quiserem, podem passar para esta sala reservada s sentinelas - declarou o oficial. - Mas no 
tente fugir, porque esto l fora dois guardas. 
107 
- V a reputao que tenho Scarlett - disse Rhett. - 
Obrigado pela gentileza, capito. 
Fez um leve cumprimento de cabea. e, tomando o brao 'de Searlett, levou-a para aquele 
compartimento,em desordern. Era um quarto pequeno, escuro e pouco aquecido, onde havia 
cadeiras forradas de coiro e afixados nas paredes, papis escritos  mo. Depois de fechar a porta, 
Rhett aproxmou-se de Searlett e debruou-se para ela. Percebendo o que ele pretendia, Scarlett 
virou rapidamente a cabea, sorrindo de esguelha. 
- No tenho o direito de a beijar agora? -S na testa, como irmo afectuoso. ,-Assim no, muito 
obrigado. Prefiro esperar qualquer coisa de melhor. - 0 olhar de Rhett posou nos lbios dela e'al se 
deteve uns instantes. -Que bondade a sua ter vindo visItar-me! ]@ a primeira pessoa respeitvel que 
pergunta por mim desde que me encarceraram e asseguro-lhe que se aprecia deveras a amizade 
quando se est preso. Encontra-se h muito tempo na cidade? 
-Cheguei ontem , tarde, . 
- E veio ver-me esta manh! Oli, minha querida, isso  mais do que bondade! 
Sorriu e, pela primeira vez, Scarlett viu-lhe no rosto urna expresso de sincero prazer. Satisfeita no 
ntimo, bai~ xou ela a cabea como se atrapalhada. 
- P claro, vim logo aqui, A tia Ptty falou ontem a seu respeito'eu... no consegui pregar olho em 
toda a noite, a pensar nesse horror de situao. Rhett, sinto-me to aflita por sua causa! 
- Ento Scarlett! A voz d@ Rhett era suave, mas notava-se-lhe estranha vibrao. Scarlett olhou 
para aquela face trigueira e no lhe descobriu o ar cptico e trocista que to bem conhecia. Perante 
esse olhar sincero, tornou ela a baixar as plpebras, desta vez realmente confusa. As coisas iam 
melhor do que esperava, 
#
- Vale a pena estar preso para a voltar a ver e ouvir ,dizer coisas como essas. Realinente, no quis 
acreditar quando me anunciaram o seu nome, No calculava que me perdoasse a resoluo 
patritica que tomei naquela noite, no caminho de Rough a Ready. Esta visita representa de facto 
um perdo? 
Scarlett sentiu invadi~la a clera,  evocao dessa noite 
108 
j no entanto longnqua; mas dominou-se e moveu a cabea para fazer oscilar os brincos. 
- No, no lhe perdoei - respondeu, fingindo-se amuada. 
-Mais uma esperana que perco! E depois de me ter oferecido ern holocausto  ptria e combatido 
descalo sobre a neve, em Franklin, onde apanhei a mais linda disenteria de que h memria! 
-No quero saber dos seus sofrimentos -declarou Scarlett, continuando a mostrar-se amuada, mas 
no deixando de sorrir a Rhett.-No deixei de julgar indigno o seu procedimento de ento, Bem me 
parece que nunca lhe perdoarei. Deixar-me s dessa maneira,  merc de qualquer coisa grave! 
- Mas no lhe acointeceu nada. J v que a minha confiana se justificava. Sabia que chegou a 
salvamento. Deus quis que nenhum yankee a encontrasse... 
1 - Rhett, que diabo o levou a fazer essa tolice alistar-se  ltima hora, quando sabia que amos ser 
d@rrotados? E depois de haver dito tanta coisa a respeito dos imbecis que se ofereciam para 
morrer?! 
-Poupe-me, Scarlett. Cada vez que penso nisso sinto-me corar at  raiz dos cabelos. 
-ptimo, gosto de saber que se envergonha do modo como me tratou. 
-No est a compreender. Lastimo dizer-lhe que a minha conscincia no me censura de a ter 
abandonado. Agora, quanto ao alistamento... quando penso que me reuni ao Exrcito ainda de botas 
de verniz e fato de linho branco, armado apenas dum par de pistolas de duelo... E naquelas longas 
marchas que fiz sobre a neve, j descalo, sem sobretudo 'com fome... ah, sim, no percebo por que 
motivo no desertei! Foi rematada loucura! Mas que quer? Est na massa do sangue. Os sulistas no 
podem resistir a uma causa perdida. Pouco importam, no entanto, as minhas razes. Basta-me ter 
sido perdoado. 
- No o foi. Continuo a achar que se portou de maneira ignbil. - Esta ltima palavra foi dita de 
forma to suave que mais parecia significar amor. 
-No disfarce, Sei que perdoou. As raparigas no costumam aproximar-se das sentinelas yankees s 
para verem um prisioneiro que no lhes interessa... Nem tra@ zem vestidos de veludo, chapus de 
penas, regalos de pele 
109 
de foca... Scarlett, voc est adorvel! Graas a Deus que no me aparece andrajosa, nem de luto. 
Estou farto de mulheres mal trajadas, sempre envoltas em crepes... Parece vir directamente da Rue 
de l Paix. Volte-se, para eu a apreciar melhor. 
Reparara, portanto, na indumentria. Ou ele no fosse Rhett Butler! Searlett riu-se, deu meia volta, 
estendeu os braos, ergueu um pouco a saia para exibir a orla das calas guarnecidas de rendas. 0 
olhar dele percorreu-a dos ps  cabea, sem perder nada. Era o mesmo olhar impudente, que 
parecia despir as mulheres e que fazia arrepios a Scarlett. 
- No h dvida que est prspera. Elegantssima. Apetece trinc-la, Se no fossem os yankees, l 
fora... Mas no h perigo nenhum para si. Sente-se. No abusarei da minha fora, como da ltima 
vez que nos vimos. - Esfregou a cara, fingindo uma dor. - Francamente ' Scarlett, no acha que foi 
um pouco egosta, na tal noite? Penso em tudo quanto havia feito por si, no risco que tomei ao 
roubar um cavalo, e que cavalo! E, ainda por cima, no fui defender a nossa gloriosa causa? Que 
compensao obtive? Palavras cruis e uma bofetada. 
Scarlett sentou-se. A conversa no tomava bem o rumo que ela queria. Rhett parecia to amvel ' 
to contente de a ver@ Assemelhava-se mais a um ser humano do que ao indivduo perverso que 
ela to bem conhecia. 
-Precisa ento de qualquer coisa que o recompense? 
- n -claro que sim. Sou um monstro de egosmo, como no ignora. Espero sempre a paga das 
#
minhas aces. 
Aquela resposta f-la estremecer. Conteve-se e sacudiu de novo os brincos. 
- Ora, no  to maucomo quer dar a entender, Rhett... 
- Sou, palavra de honra. Mas voc  que mudou 
- acrescentou ele, rindo. - Quem a teria amansado? Tive sempre notcias suas atravs da senhora 
Pittypat, que no entanto nada me disse a respeito dessa dornesticao. Fale-me de si, Scarlett. Que 
tem feito? 
Ela sentiu despertar em si o antigo antagonismo que a opunha a Rhett. Desejaria responder-lhe com 
palavras duras. Contudo, sorriu e mostrou uma covinha na face. Rhett aproximou a sua cadeira e 
Scarlett inclinou~se para a frente, enquanto lhe poisava: como que distrada, a mo no brao. 
- Oh, eu!... Vou indo bem, obrigada. Tudo corre bem 
110 
-11 -1 _'4@ -11 
- i. :@. 
em Tara, presentemente. P, claro que houve horas dficeis, quando Sherman passou por l, mas, no 
fim de contas, no pegou fogo  casa, Os pretos salvaram quase todos os animais, levando-os para o 
paul. J se sabe que a produo diminuiu. Precisamos de braos. A ltima colheita rendeu vinte 
fardos. Ser melhor no prximo ano na opinio de meu pai, Ali, Rhett, c> campo  agora t@ triste! 
Acabaram-se os bailes e piqueniques. Ningum fala seno das dificuldades actuais. J estou farta! 
Cheguei a tal ponto que o pai me aconselhou a dar este passeio, para me distrair. Aproveitarei a 
ocasiao para encomendar uns vestidose depois irei a Charleston, visitar a tia, H-de ser bom, ir 
outra vez a bailes! 
"Muito bem" pensou Scarlett, orgulhosa. "Contei-lhe a minha histria como devia ser. No me fiz 
passar por muito rica nem por muito pobre". 
-Fica linda vestida de baile. Sabe-o muito bem, nfelizmente! Desconfio que o verdadeiro motivo da 
sua viagem  que os zagais da sua terra j no a interessam e voc procura achar outros rebanhos... 
Searlett regozijava-se com o facto de Rhett haver andado muito tempo por fora e s h pouco ter 
vindo para Atlanta. Seno, no lhe fazia um cumprimento to ridiculo, Reviu em pensamentos os 
"zagais" da regio os andrajosos e mal-humorados Fontaines, os pobretes &s Monroes, os rapazes 
de Jonesboro e de Fayetteville ocupados com a charrua, ou a tratar dos animais doentes... Para eles 
os bailes e namoros eram uma recordao vaga! Mas darou e riu satisfeita, como se achasse justa 
a observao de Rhett. 
- Talvez, talvez... - murmurou. 
- P, uma criatura sem corao Scarlett. Quem sabe se parte do seu encanto vem dai? - RAett sorriu 
como outrora fazendo uma ruga ao canto da boca; no entanto, via-se que fora sincero nos louvores 
que lhe tributara. -Tem mais encanto do que  permitido por lei... Eu prprio, estanhado como 
estou, sinto e sofro as consequncias. Muitas vezes perguntei a mim mesmo que  que havia em 
voc para que eu a no pudesse esquecer. Conheci mulheres mais bonitas mais inteligentes, e... 
devo diz-lo?... noralmente superio@es, Mas, seja como for, lembro-me sempre de si. At durante 
o cerco, quando estive em Frana e Inglaterra e tinha a agradvel convivncia de bonitas mulheres, 
recordava-a e perguntava a mim mesmo que fim teria levado. 
Por um momento, Scarlett sentiu-se indignada. 0 qu? Ele atrevia-se a dizer que conhecia mulheres 
mais belas, mais inteligentes e melhores do que ela? No entanto, esta decepo foi compensada pelo 
prazer de Rhett se recordar dela e do seu enca-nto. Isso facilitava-lhe a tarefa. E a sua atitude era to 
agradvel, ele portava-se quase to bem como um homem da sociedade em tais circunstncias... 
Agora, o que Scarlett tinha a fa@er era conduzir a conversa para a pessoa do prprio Rhett a fim de 
lhe dar a entender que tambm no o tinha esqu@cido, e ento... 
Apertou-lhe de leve o brao e mostrou de novo a covinha na face. 
- Oh, Rhett, que exagero! Arreliar uma saloia como eu! Sei muito bem que nunca mais se lembrou 
de mim desde aquela noite. No venha agora dizer-me que pensou na Scarlett no meio de todas 
aquelas francesas e inglesas. Mas eu no vim c para o ouvir contar pataratas. Vim... porque... 
#
- Porque ... ? -Oh, Rhett, estou to apoquentada por sua causa! Quando o poro em liberdade? 
Ele imobilizou a mo de Scarlett com a sua e manteve-a apertada sobre o brao. 
- Lisonjeia-me muito o seu cuidado. No fao ideia de quando sairei daqui. Provavelmente quando 
esticarem a corda um pouco mais. 
- A corda? 
- Sim, calculo que sala daqui na ponta duma corda. -No me diga que vo enforc~lo! 
- F-lo-o se reunirem provas contra mim, 
- Oh, Rhett! - exclamou Scarlett, premendo o corao. -Isso aflige-a? Se o seu desgosto  sincero, 
no me esquecerei de si no testamento... 
0 seu testamento! Scarlett baixou as plpebras para no se trair, mas no suficientemente depressa, 
pois os olhos de Rhett brilharam de sbita curiosidade. 
- Segundo os yankees, eu devia fazer testamento. Parecem tomar considervel interesse pelas 
minhas finanas. Todos os dias me fazem comparecer diante de comisses de inqurito, e maamme 
com perguntas tolas. Corre o boato de que fugi com o oro misterioso da Confederao. 
-E ento,  verdade? 
112 
-Ora a est uma pergunta directa. Sabe tanto como eu que a Confederao imprimia notas em vez 
de fabricar moedas de o@ro. 
- Nesse caso, donde lhe veio o dinheiro? Negcios? A tia Pitty diz que... 
- Est a tentar sondar-me? Diabos o levassem! 0 certo  que ele tinha o dinheiro. Scarlett estava to 
agitada que lhe era difcil falar com doura. 
- Rhett, apoquenta-me tanto v-lo preso! Tem alguma possibilidade de se salvar? 
-Nihil desperandum, eis a minha divisa. 
- Que significa isso? 
- Significa "talvez", minha encantadora ignorante. Scarlett pestanejou antes de o fitar e tornou a 
baixar a vista. 
- P, inteligente demais para deixar que a enforquem. Tenha a certeza de que acharia maneira de 
iludir os yan, ke@es e sair daqui. E depois... 
- Depois ... ? - repetiu ele em voz suave, inclinando-se mais. 
- Eu... - E Scarlett nesta altura, tratou de arranjar um ar de atrapalhao @ de se mostrar ruborizada. 
Corar no lhe foi difcil, pois estava ofegante e o corao batia-lhe como um tambor. - Rhett 
'lastimo tanto o que eu... o que eu disse naquela noite... sabe a que me refiro... perto de Rough e 
Ready... Estava transtornada de medo--- e via-o to--- - Searlett, de olhos baixos, notou as mos 
trigueiras de Rhett a reter as suas. -Julguei que nunca lhe perdoaria, nunca! Mas ontem, quando a tia 
Pitty me disse que... que podiam enforc-lo... senti de repente qualquer coisa em mim e eu... - 
Dirigiu-lhe um olhar suplicante onde se liam todas as torturas dum corao amargurado.-Oh, Rhett, 
se o enforcarem eu morro tambm! No poderei sobreviver!-Sem j conseguir suster o brilho 
ardente dos olhos de ButIer, baixou de novo as plpebras. 
"Daqui a instante desato a chorar" pensou ela, admirada consigo mesma. "Devo deixar ou no 
correr as lgrimas? 
0 que parecer mais natural?" 
- Deus do cu! Est a dar-me a entender, Searlett, que voc... - E Rhett apertou-lhe as mos com 
tanta fora que lhas fez doer. 
De olhos fechados, ela esforava-se por fazer vir as 
8 - Vento Levou - H 113 
lgrimas, mas, ao mesma tempo, teve a ideia de voltar.a cara para que ele a beijasse sem 
dificuldade. No tardaria a sentir os lbios de Rliett pousados nos seus, aqueles lbios rijos e 
insistentes de que se recordou com uma nitidez que a deixou anelante. Mas Rhett no a beijou. 
Desiludida, Scarlett entreabriu os olhos e observou-o  socapa. Estava de cabea inclinada sobre as 
mos dela e, nesse momento, beijou uma e apoiou a outra de encontro  face. Scarlett, que esperava 
um gesto violento ficou pasmada com aquela manifestao de ternura. Gostaria de ver a fisionomia 
#
de Rhett, mas este continuava de cabea baixa. 
Scarlett fechou de novo os olhos com receio de que ele se endireitasse bruscamente e lhe 
surpreendesse a expresso de triunfo. No havia dvida, ia pedi-Ia em casamento, ou pelo menos, 
declarar que a amava... Continuou a exami@-lo atravs das pestanas. Rhett ia beijar-lhe a palma da 
mo quando, de sbito, estacou com um breve suspiro. Ento Scarlett, pela primeira vez, reparou 
em que estado se encontravam as suas mos e ficou gelada de terror. Aquela palma era duma 
estrana, no se parecia nada com a palma branca e macia de Scarlett O'Hara. 0 trabalho calejara 
essa mo, o sol tisnara-a e cobrira-a de sardas. As unhas estavam quebradas ' desiguais, e no 
polegar, sobressaa uma empola mal cicatrizada. Metia nojo a queimadura que ela fizera no ms 
anterior, com leo a ferver. Scarlett viu tudo isto cheia de horror e, sem pensar, fechou o punho 
bruscamente. 
Rhett, sempre de cabea inclinada, abriu-lhe a mo num gesto impiedoso, agarrou na outra e 
observou as duas em silncio. 
-Olhe para mim -disse finalmente numa voz muito calma. -E abandone esse a@ de menina 
@ecatada. 
Ela voltou-se para ele, contra vontade, e Rliett viu o seu olhar perturbado, mas j arrogante. Franziu 
a testa, as pupilas negras cintilaram. 
-Com que ento tudo corre bem em Tara? A colheira de algodo  to grande que permite estas 
viagens... andou a fazer com as mos? Empurrou a charrua? 
Scarlett tentou desenvencilhar-se, mas ele segurou-a bem, continuando a passar-lhe o dedo sobre a 
pele calejada. 
-No so mos de senhora! -exclamou por fim, largando-as. 
114 
- Oh, cale-se! - bradou ela, sentindo momentnea~ mente grande alvio. Ia poder exprimir os seus 
sentimentos! -Que lhe importa o estado em que tenho as mos? 
"Fui parva", disse logo consigo. "Devia ter pedido emprestadas as luvas da tia Pitty, Ou ter-me 
apoderado delas, Mas no previ que as mos apresentassem to mau aspecto. Ele tinha 
forosamente de reparar! Ainda por cima perdi a linha, e estraguei tudo. E acontece uma coisa 
destas quando eu ia receber uma declarao de amor!" 
- Sem dvida que no me importo - volveu Rhett em tom glacial, apoiando-se indolente ao espaldar 
da cadeira, de rosto imperturbvel. 
De maneira que ele tornava a retirada... Pois bem, se Scarlett transformasse aquela derrota em 
vitria? Far-se-ia submissa. Quem sabe se, desse modo?... 
- Bem me parece que no foi amvel para com as minhas pobres mos. Tudo porque montei a 
cavalo sem luvas, a semana passada... 
- A cavalo? - retorquiu ele, sem alterar a voz. - 0 que andou foi a trabalhar como uma negra. No  
verdade? Que ideia foi essa de me vir contar maravilhas de Tara? 
- Escute, Rhett... 
- Ponhamos tudo em pratos limpos. Qual foi o verdadeiro motivo da sua visita? Cheguei a acreditar 
nas suas meiguices e a crer que lastimava a minha sorte. 
- E lastimo, na realidade. 
- No, no me lastima. Podem enforcar-me  vontade que voc no se rala. Isso est escrito na sua 
cara, como nas suas mos est escrita a vida que leva. Queria de mim qualquer coisa de grande 
necessidade ' e da a explicao da comdia que representou. Por que no falou 'com toda a 
franqueza? Teria muito mais possibilidade de obter o que queria, porque se existe alguma qualidade 
que eu aprecie nas mulheres  a franqueza. Mas no, esteve aqui a agitar os brincos, a fazer 
beicinho e a menear-se como uma prostituta que pretende seduzir um homem. 
Proferiu estas palavras sem elevar a voz e, no entanto, foram para Scarlett como o silvo duma 
chicotada. Aquilo era o fim das suas esperanas de casamento. Se Rhett explodisse de raiva ou a 
cumulasse de censuras ela saberia como proceder. Mas assustava-a a serenidade 6 voz, impedia-a de 
agir. Compreendia agora que, mesmo preso, Rhett ButIer era um homem perigoso de abordar. 
#
115 
@L", 
- Afinal, devo culpar a minha memria. Devia lembrar-me de que voc se parece comigo e que 
nunca faz nada sem motivo. Ora vejamos que ideia se lhe meteu na cabea, senhora Hamilton. Ser 
possvel que estivesse equivocada a pontos de imaginar que eu ia pedi-Ia em casamento? 
Scarlett corou at  raiz dos cabelos e no respondeu. -Contudo, muitas vezes lhe disse que no sou 
homem para casar. No pode ter esquecido. 
Perante o seu mutismo, ele insistiu com repentina violncia: 
-No esqueceu? Responda! 
- No esqueci - balbuciou Scarlett, desamparada. 
- Que jogadora me saiu! - continuou Rhett. - Quis tentar a sorte. Disse l consigo: "Ele est preso, 
no v mulheres, quando eu lhe aparecer atira-se a mim como gato a bofe". 
"E era o que tu farias se no fossem as minhas mos", pensou Scarlett cheia de ira. 
-Conhecemos agora mais ou menos a verdade, mas ainda no estamos ao facto do motivo que 
a levou a querer enredar-me nas malhas do casamento. Poder dizer-me ao certo? 
Havia algo de suave e malicioso na voz de Rhett que reanimou Scarlett. Afinal, nem'tudo estava 
perdido. Fo~ ra-se a hiptese de casamento, mas, com jeito e fazendo apelo s mtuas recordaes, 
talvez ele acabasse por emprestar o dinheiro. 
- Oli, Rhett - exclamou, assumindo uma expresso infantil - podia prestar-me um grande servio, se 
quisesse ser gentil... 
-Nada me agrada tanto como ser... gentil. 
- Rhett, em nome da nossa velha amizade, faa-me um favor... 
-Com que ento a dama de mos calejadas chega finalmente ao seti objectivo. Bem me queria 
parecer que no lhe ia a carcter o papel de visitadora de enfermos e encarcerados. Que pretende? 
Dinheiro? 
A rudeza da pergunta destruiu em Scarlett todas as esperanas de conseguir o que queria por meio 
de subterfgios ou argumentos de ordem sentimental. 
- No se faa mau, Rliett - disse ela, persuasiva. - 
116 
Preciso de dinheiro. Queria que me emprestasse trezentos dlares. 
- Enfim, a verdade! Fala-se de amor e pensa-se em dinheiro. ]@ essencialmente feminino. Tem 
grande necessidade desse emprstimo? 
- Grande necessidade no mas fazia-me arranjo. 
- Trezentos dlares! n uma soma avultada. E para que ? 
- Para satisfazer os impostos de Tara. -E eu  que hei-de apresentar a importncia... Pois bem, visto 
tratar com uma mulher de negcios, falarei como homem de negcios. Que tem para me oferecer 
como fiana? 
- Como qu? 
- Como fiana. Que garantia me oferece? No quero perder todo esse dinheiro. 
- Os meus brincos. 
- No me interessam brincos. 
- Uma hipoteca sobre Tara. 
- Que hei-de fazer duma quinta? 
- P, uma boa plantao... Alis, reembols-lo-ei na prxima colheita. 
-No  de crer... -E Rhett Butler recostou-se na cadeira e enfiou as mos nos bolsos. -0 algodo est 
a descer de preo. Hoje em dia h pouco dinheiro, e o que h no se deita fora. 
-Oh, Rhett, no brinque comigo! Bem sabe que possui milhes. 
Os olhos dele luziram de malcia. 
- Com que ento tudo lhe corre s mil maravilhas e no tem grande necessidade de dinheiro... Pois 
muito me regozijo. Agrada-me saber que os meus velhos amigos vivem sem dificuldades. 
-Por amor de Deus, Rhett-interrompeu-o Scarlett, j desesperada. 
#
- Fale-me mais baixo ' por favor. Ou quer que os yankees a oiam? Nunca lhe disseram que voc 
tem olhos de gato... de gato s escuras? 
- Rhett, peo-lhe... Vou contar-lhe tudo. Tenho grande necessidade desse dinheiro. Menti-lhe 
quando lhe disse que tudo corria bem. Tudo corre o pior possvel. 0 pai... j no  o mesmo. Desde 
que morreu minha me, ele tornou-se esquisito e no me ajuda em nada. Parece uma criana. No 
temos ningum que se ocupe do algodo, e somos treze 
117 
pessoas a alimentar. E as contribuies... so to elevadas! Rhett, quero dizer-lhe tudo. H mais 
dum ano que andamos quase a morrer de fome. Voc no sabe! No pode saber! Nunca comemos o 
bastante e nada mais aflitivo do que acordar esfomeado e deitar-s@ esfomeado. No temos abafos, 
e os pequenos andam sempre constipados... 
- Onde descobriu esse belo vestido? 
- Fi-lo de um reposteiro l de casa -respondeu ela muito desanimada para poder mentir. - Suportei 
at agora a fome e o frio, mas os Sacolas acabam de elevar as contribuies e eu no tenho com que 
as pagar. Resta-me apenas uma moeda de oiro de cinco dlares. Compreende? S no, pagar, l se 
me vai a propriedade e eu no quero perd-la! _ Por que no contou isso tudo logo de comeo, em 
vez de tentar amolecer-me o corao, sempre sensvel quando se trata de mulheres bonitas? Vamos, 
no chore... Tem recorrido a todas as manhas, s faltava essa... que no conseguir impressionarme. 
Fiquei muito desiludido com a descoberta de que no era pelos meus lindos olhos, mas sim pelo 
meu dinheiro que se interessava. 
Scarlett lembrou-se de que ele frequentemente dizia a verdade com ar de troa, quer a seu respeito 
quer a respeito dos outros, e fitou-o para investigar se o teria ferido, de facto, nos seus sentimentos. 
Gostaria dela, realmente? Estaria disposto a fazer-lhe uma proposta honesta antes de lhe observar as 
mos? Ou iria propor-lhe outra coisa menos sria, como j lhe fizera por duas vezes? Se lhe tinha 
amor, talvez ainda. fosse possvel lev-lo a ceder. No entanto, aquelas pupilas negras no revelavam 
ternura, mas unicamente ironia. 
-No quero a garantia de que prope. No sou plantador. Que outra coisa tem a oferecer-me? 
Enfim chegara o momento prprio! Searlett respirou fundo, f6u-o, e, j sem manejos de seduo, 
proferiu a frase que ela mais temera: 
- Eu... eu mesma! 
- Ah, sim?! -Lembra-se daquela noite em casa da tia Pittyreplicou, com um fulgor de e@meralda 
nos olhos.-Foi durante o cerco. Disse... disse que me queria. 
Rhett Butler recostou-se mais na cadeira e, impassvel, 
118 
ps-se a observ-la. Bailou uma centelha nos seus olhos, rnas ele no pronunciou palavra. 
- Disse... que nunca desejara tanto uma mulher... como desejava a mim. Se ainda me quer, aqui me 
tem, Ilhett. Farei tudo o que quiser, mas, por amor de Deus, preencha-me um cheque! Estou a falar 
a srio, juro-o, e no voltarei com a palavra atrs. Posso at fazer a promessa por escrito, se quiser. 
Ilhett olhava-a de modo estranho, sempre impenetrvel e ela, prosseguindo na sua splica, no sabia 
se ia ser aceita ,ou repelida, Se ao menos ele di@sesse qualquer coisa! As faces escaldavam-lhe. 
- Preciso com urgncia desse dinheiro, Rhett. Vo-nos pr na rua, e esse maldito feitor de meu pai  
capaz de ficar proprietrio... 
- Espere. 0 que a leva a crer que ainda a desejo? 
0 que a faz pensar que vale trezentos dlares? Poucas mulheres se avaliam por to alto preo. 
Scarlett corou ainda mais, completamente humilhada. 
- Porque faz tudo isso? Porque no renuncia  quinta e no vem viver com sua tia Pitty? Metade da 
casa  sua. 
- Est louco? No posso perder Tara! ]@@ o meu lar. Nunca o deixarei, enquanto tiver um sopro de 
vida. 
- Os irlandeses so uma raa tremenda -comentou ele, endireitando-se na cadeira e retirando as 
mos dos bolsos: 
#
- Do importncia excessiva a coisas que no valem nada. A terra, por exemplo. Um bocado de 
terra  igual a outrei bocado. Mas raciocinemos; Scarlett. Velo propor-me um negcio. Dou-lhe 
trezentos dlares e ser minha amante. 
- Sim. Agora que fora proferida a palavra odiosa, ela sentia-se mais  vontade e recomeava a ter 
esperana. Rhett dissera: "Dou-lhe". Nos olhos dele havia um claro diablico como se aquele 
assunto o divertisse muito. 
- No entanto, quando tive o descaramento de lhe fazer essa mesma proposta, ps-me fora de casa. 
Alm de que me chamou uma poro de nomes feios sem esquecer de me informar de que no 
queria uma "n1@hada de garotos". Mas passemos adiante. 0 que me interessa so as contradies, 
ou melhor, as peculiaridades do seu esprito. No queria ser minha amante para seu prprio prazer, 
e contudo, por necessidade est disposta a pertencer-me' Isto. 
119 
refora a minha opinio de que a virtude  apenas uma questo de dinheiro, 
- Oh, Rhett,  demais! Se quer insultar-me, insulte-me, mas passe-me o cheque! 
Respirava agora mais  vontade. Sendo corno era, Rhett naturalmente queria atorment-la e dirigirlhe 
ofensas para se vingar da sua indiferena de outrora e da recente tentativa de o intrujar. Tara 
valia bem a pena. Por um momento ela evocou a vida na quinta, numa tarde de Vero, sob o @u 
azul; o aroma das flores deliciava-lhe o olfacto, 
0 zumbir das abelhas encantava-lhe os ouvidos. Pelos campos alm chiavam as carroas. Sim, Tara 
valia bem a pena. 
Ergueu a cabea e insistiu: -Vai dar-me o dinheiro? -No-ripostou. ele em tom brutal, depois de a 
ter olhado com ar divertido. 
Durante uns instantes, ela no atinou bem com o sentido daquela negativa, 
- Ainda que o quisesse, no o poderia fazer. No tenho um cntimo comigo, nem um dlar em 
Atlanta. Possuo algum dinheiro,  certo, mas no aqui. No lhe direi onde, nem quanto . E se eu 
lhe passasse um cheque 'os ya~es saltavam-nos em cima e nenhum de ns aproveitaria a massa. 
Que lhe parece? 
Scarlett ficou lvida, as sardas pronunciaram-se-lhe mais sobre o nariz e a boca torceu-se num 
acesso de clera, como a do pai. Ps-se de p, soltando um grito incoerente, que fez emudecer as 
vozes do quarto contguo. Rpido como um tigre, Rhett saltou para junto dela, tapou-lhe a boca, 
apertou-a pela cintura. Scarlett debateu-se como uma louca, tentando morder-lhe a mo, dar-lhe 
pontaps 'gritar o seu desespero, o seu dio, o seu amor-prprio mortalmente ferido. Contorceu o 
corpo, procurando escapar queles braos de ferro. 0 corao parecia estalar-lhe o espartilho 
cortava-lhe a respirao. Ele segurava-a co@n tanta fora que a magoava deveras, e a mo 
comprimia-lhe a boca duma forma cruel. Sob o tom queimado 'a cara de Rhett empalidecera. De 
olhar duro e inquieto, ergueu Searlett do cho, sentGu-se outra vez e conservou-a apertada de 
encontro a si, sobre os joelhos. 
- Por amor de Deus, cale-se! No grite, seno eles entram aqui dum momento para outro. Acalmese. 
Quer que os yankees a surpreendam nesse estado? 
120 
Ela pouco se importava com o escndalo. 0 seu desejo veemente seria matar esse homem, mas 
sentia um turbilho na cabea. Faltava-lhe a respirao. Asfixiava, tinha a sensao de estar metida 
numa tala de ferro. Em vo se debateu entre aqueles braos at que a voz de Rhett se tornou num 
murmrio distante, o seu rosto se envolveu em nvoa cada vez mais densa... e ela no viu nem 
ouviu mais nada. 
Quando voltou a si, sentia-se alquebrada, morta de fadiga. Encontrava-se reclinada na cadeira, sem 
chapu, e Rhett, de olhar ansioso, batia-lhe nas mos. 0 oficial novo e amvel esforava-se por fazla 
engolir um pouco de conhaque de que j lhe entornara uns pingos no pescoo. Os outro@ 
militares cirandavam. por. ali, gesticulando e falando em voz baixa. 
- Parece-me que... desmaiei -disse Scarlett, e a sua voz soou to dbil que ela se assustou. 
-Bebe isto -ordenou Rhett, pegando no copo e chegando-lho  boca. 
#
Lembrava-se agora do que acontecera, mas estava sem foras para se zangar. 
-V, bebe... Scarlett engoliu umas gotas, engasgou-se tossiu mas Rhett voltou  carga. Tomou ela 
ento um@ gola6, e o lquido ardente abrasou-lhe a garganta, 
-Creio que j est melhor, meus senhores -declarou Rhett.-Agradeo o vosso cuidado. Foi forte 
demais para ela a notcia de que eu ia ser condenado  forca. 
Os oficiais desvaram-se um tanto constrangidos e acabaram por se retirar. 0 moo capito detevese 
 porta: 
-Se h mais alguma coisa que eu possa fazer... 
- No, obrigado. Saiu finalmente e fechou a porta. -Beba mais -disse Rhett. -No quero. 
- Beba. Scarlett, tomou outro gole que a aqueceu e lhe concedeu algumas foras s pernas trmulas. 
Repeliu o copo e tentou levantar-se, mas Rhett forou-a a conservar-se sentada. 
-No me toque. Quero ir-me embora. 
- Ainda no. Espere um instante. Pode desmaiar outra vez. 
121 
- Prefiro desmaiar na rua a ficar aqui consigo. 
- Pois a mim no me agrada que perca os sentidos no meio da rua. 
-Deixe-me partir. Detesto-o. Rhett esboou um sorriso. 
- Isso agora j  mais natural. Deve sentir@se melhor. Scarlett ficou sossegada uns instantes, 
esperando encolerizar-se outra vez, o que viria em sua ajuda. Queria recuperar as foras. Mas estava 
to fatigada que lhe era impossvel indignar-se ou ocupar-se fosse do que fosse. A derrota 
esmagava-a -coni-um ptso de chumbo, Jogara tudo e tudo perdera. Nem sequer lhe restava o 
orgulho. Era a runa irremedivel das suas esperanas 'era o fim de Tara, o seu fim e o de todos. Por 
muito tempo esteve de olhos fechados, reclinada na cadeira, ouvindo perto a respirao pesada de 
Rhett. Fazia-se sentir a aco da bebida a qual a pouco e pouco lhe comunicava fora e calor, 
e'mbora fictcios. Quando reabriu os olhos e o viu  sua frente, a ira despertou ento de novo. 
Vincou a testa, carregou o cenho e Rhett sorriu com(> costumava. 
- Acho que est melhor. V-se pelo seu aspecto carrancudo. 
- Sim, estou melhor. Rhett Butler voc  odioso. Um miservel, como no h outro. Sabia @esde o 
princpio o que eu ia dizer, e estava disposto a recusar-me auxlio. E deixou-me continuar! Ao 
menos, poupasse-me o trabalho... 
- E perder a oportunidade de ouvir tudo isso? Nunca! Tenho to poucas distraces... 
Riu de sbito, do modo mais escarninho possvel. Ao ouvir a gargalhada, Scarlett ps-se de p e 
lanou mo da capota. Ele deteve-a segurando-a pelos ombros. 
- Ainda no acabo@. Sente-se suficientemente melhor para me falar em perfeito juzo? 
- Deixe-me ir embora! 
- Est perfeitamente bem no h dvida. Ento, responda-me a isto. Eu era o nico que voc tinha 
em vista? 
-Que lhe importa saber? 
- Mais do que supe. Vai lanar a rede a outros homens? Diga-me! 
- No. 
- Custa-me a crer. No a imagino sem meia dzia deles de reserva. H-de haver algum que aceite a 
sua inte- 
122 
ressante proposta, tenho a certeza; por isso lhe vou dar um conselho. 
-No preciso dos seus conselhos. -Mas sempre lho darei,  a nica coisa de que disponho neste 
momento. Oia, porque vale a pena. Quando estiver a seduzir um homem, no descubra todas as 
suas cartas, como fez comigo. Seja mais subtil, mais persuasiva. D melhor resultado. Costumava 
ser perfeita neste jogo. Hoje'ao oferecer-me a sua... garantia... o seu olhar era duro. J vi um olhar 
igual ao seu, num duelo, a vinte passos de mim, e afiano-lhe que no achei agradvel  vista. 
Expresses dessas no despertam nenhum ardor no peito dum macho... No  assim que se lida com 
homens, minha cara amiga. Neste ponto, voc era mais habilidosa, antigamente. 
#
- No preciso que me ensine como hei-de proceder - 
replicou Scarlett, pondo o chapu com gesto lasso. 
Admirava-se de que Rhett, na iminncia de ser enforcado, tivesse ainda nimo para troar de quem 
se encontrava em to tristes circunstncias. Nem reparava que ele metera as mos nos bolsos e 
cerrava os punhos, corno que furioso contra a sua prpria impotncia. 
-Anime-se-disse Rhett, enquanto Searlett amarrava as fitas da capota. - Poder assistir ao meu 
enforcamento, e isso far-lhe-ia muito bem. Saldar duma vez todas as contas que tem a ajustar 
comigo... at esta, E no a esquecerei no meu testamento. 
- Agradeo; mas decerto no o enforcam a tempo de eu pagar as contribuies -volveu Scarlett com 
ironia igual  de Rhett. E era bem o que pensava. 
CROVIA quando Scarlett saiu do edifcio. Os soldados que deambulavam na praa haviam-se 
refugiado nas suas tendas e as ruas estavam desertas. No avistando nenhum veculo, Scarlett 
resignou-se a ir a p at  casa da tia. 
A medida que avanava desaparecia o calor produzido pelo conhaque. 0 vento frio fazia-a tiritar e 
os pingos de chuva picavam-lhe a cara como alfinetaas. Depressa a fina capa da tia Pitty ficou 
encharcada, gotejando lamentavelmente. 0 vestido de veludo ia ficar estragado. Quanto 
123 
s penas de galo do chapu ofereciam o aspecto triste como nos dias em que o se@ antigo possuidor 
arrastava a asa-na capoeira enlarneada de Tara. As lajes do passeio estavam partidas, e algumas 
faltavam: ai Scarlett enterrava-se at aos tornozelos. Em certa ocasio, tendo-se-lhe desprendido um 
sapato, ela abaixou-se e a orla da saia arrastou no charco. Por fim, no se importava chapinhar na 
gua, limitando-se a arregaar o vestido. As calas molhadas gelavam-lhe as pernas... Mas que lhe 
importava afinal, a runa da indumentria sobre cujo efeito tanto @ontara? Estava transida, 
desesper`ada; perdera por completo a coragem. 
Como podia mesmo regressar  quinta, depois das palavras confiantes que ali proferira? Como lhes 
havia de dizer que ela e todos deviam ir-se embora? Como seria capaz de abandonar os canipos 
rubros, os altos pinheiros, as terras pantanosas, o calmo cemitrio familiar onde Ellen repousava  
sombra densa dos cedros? 
0 dio a Rliett queimava-lhe o corao. Que ente ignbil! Oxal o enforcassem e ela nunca mais 
encarasse aquele homem que vira o seu aviltamento e humilhao. Se ele quisesse, arranjaria o 
dinheiro. A forca ainda era morte boa demais para semelhante criatura. Que sorte Rliett no poderv- 
la agora, com a roupa a pingar, o cabelo despenteado, e a bater o queixo de frio! Devia estar 
horrorosa. Que troa ele no faria! 
Os pretos que passavam por Scarlett voltavam-se com ar insolente e riam ao v-Ia chapinhar e 
escorregar na lama. Pois atreviam-se a rir, esses macacos negros? Atreviam-se a escarnecer dela, 
Scarlett O'Hara? A sua vontade seria mand-los chicotear at que o sangue lhes corresse pelas 
costas. Malditos yankees ' a libertarem pretos e a deix-los insultar gente branca! 
Na,Washington. Street, achou a paisagem to lgubre como o seu estado de esprito. Ali no havia 
nenhuma da animao que Scarlett notara na Peachtree Street. Das numerosas moradias doutros 
tempos, poucas tinham reconstrudo. Com desanimadora frequncia, encontravam-se alicerces 
enegrecidos pelo fumo e chamins isoladas. Nos jardins das antgas casas nada se via seno ervas, 
Vento frio, chuva, lama, rvores despidas, silncio desolao. Como ela sentia os ps molhados e 
como era l@ngo aquele caminho! 
124 
-00.! - , o@_ 
Atrs de si ouviu o chape de patas de cavalo e afastou-se para o extremo do passeio a fim de evitar 
mais ndoas  capa da tia Pitty. Descia um trem lentamente a rua e Scarlett, olhou para trs, 
decidida a pedir boleia ao seu ocupante, caso fosse um branco. A chuva turvava-lhe a vista, mas 
quando o veculo se aproximou, distinguiu um indivdu@ que a observava de dentro do toldo. A 
cara no lhe pareceu desconhecida e ao chegar-se mais perto, sentiu uma tossezinha de em@arao e 
depois um grito alegre, a que se misturava surpresa. 
#
- 0 qu?  a menina Scarlett? 
- Ah,  o senhor Kennedy! - exclamou ela, atravessando a rua e apoiando-se  roda enlameada, sem 
j se preocupar com a capa.-Nunca na minha vida me senti to contente por encontrar algum! 
0 homem corou de satisfao, ao escutar essas palavras evidentemente sinceras, e, depois de ter 
expelido um jacto de saliva amarelada pelo tabaco, apeou-se ligeiro da carruagem. Apertou com 
entusiasmo a mo de Scarlett, e ajudou-a a subir. 
- Que faz szinha por aqui? No sabe que corre perigo? Est toda encharcada! Embrulhe os ps 
nesta manta. 
Enquanto ele se esforava por ser amvel, Scarlett gozava o prazer de ser acarinhada. Era agradvel 
receber tantas atenes, ainda que estas proviessem dum homem como Frank Kennedy. Ainda as 
apreciava mais naquela ocasio, lembrando-se da forma brutal como a tratara Rhett Butler. E que 
consolo ver um rosto conhecido, quando estava to longe da terra! Scarlett notou que Frank se 
apresentava bem trajado e que o trem era novo. 0 cavalo tambm no parecia velho e devia ser bem 
tratado: quem parecia mais idoso era o dono, envelhecera muito depois que o vira em Tara, com os 
seus homens. Magro, de faces cavadas, olhos hmidos rodeados de pele enrugada... A barba ruiva, 
mais rala do que nunca e suja de tabaco, dir-se-ia gasta pelo seu hbito incessante de a puxar. 
Contudo, em comparao com as caras tristes e fatigadas que ela por toda a parte encontrava d 
aspecto de Kennedy podia considerar-se jovial e brilh@nte. 
-Feliz encontro-disse ele com ardor.-No sabia que estava c na cidade. Ainda na semana passada 
falei com a senhora Pittypat que no me disse nada a respeito da sua vinda... Veio...'velo algum de 
Tara, consigo? 
125 
Estava a pensar em Suellen, o jarreta! -No -respondeu Searlett, envolvendo-se na manta. - 
Vim s, e nem sequer preveni a tia Pitty. 
-Vo todos bem, em Tara? -Assim assim. Devia arranjar um assunto de conversa, mas custava-lhe 
tanto falar! A derrota sofrida pesava-lhe no esprito e o seu maior desejo era jazer ali bem abafada e 
no pensar em Tara. "Pensarei nisso mais tarde quando j no me afligir tanto". Se pudesse sugerir 
qua@quer tema com que o seu companheiro se entretivesse todo o caminho, deixando-a apenas 
murmurar de vez em quando "ah, sim?!" ou "com certeza"! 
-Senhor Kennedy, tambm me admirei de o ver. Reconheo que sou malcriada, no procurando os 
velhos amigos, mas no sabia que estava em Atlanta. Lembro-me de ter algum dito que se 
encontrava em Marietta. 
- Tenho negcios em Marietta, muitos negcios... A sua mana no lhedisse que eu me havia 
instalado em Atlanta? No lhe falou do meu armazm? 
Scarlett tinha uma vaga ideia de ter ouvido Suellen aludir a Frank e ao seu armazm, mas no dera 
multa ateno ao caso. Bastava-lhe saber que ele estava vivo e que, mais tarde ou mais cedo, a 
desembaraaria da irm. 
- No 'no disse nada... Ento possu um armazm? Excelente ideia a sua! 
Frank ficou um tanto magoado por saber que Suellen no se referira  sua actividade comercial. 
Todavia, o louvor de Scarlett consolou-o disso. 
- n verdade, tenho um armazm, e creio que  dos melhores. Classificam-me de comerciante nato... 
Satisfeito consigo mesmo, soltou uma daquelas suas risadinhas, com que Scarlett embirrava tanto. 
"Velho presumido", pensou ela. 
- Sai-se sempre bem daquilo que empreende, senhor Kennedy. Mas como se lembrou de montar um 
armazm? Quando nos falmos, no penltimo Natal, disse-me que no tinha um cntimo de seu... 
Frank pigarreou, puxou a barba e sorriu com o seu ar tmido. = Contos largos, menina Scarlett... 
"Graas a Deus!" pensou esta. "0 assunto vai durar at casa". E em voz alta: 
126 
.w@@ 
- Conte, conte! 
- Lembra-se da ltima vez que fomos a Tara, para requisitar mantimentos? Pouco tempo depois 
#
entrei para o servio activo, isto  tomei realmente parte na guerra. Deixei a Administrao Militar. 
Achei que eu era ali preciso, visto que pouco ou nada se conseguia arranjar para o Exrcito e pensei 
que o lugar pr6prio para um homem bem constitudo era no campo de batalha. Combati como 
soldado de cavalaria at que uma bala me feriu no ombro. 
Interrompeu-se, orgulhoso, e Scarlett comentou: 
- Coitado! -No foi nada de grave, apenas uma ferida superficial 
- continuou Frank em tom de condescendncia. - Mandaram-me para um hospital do Sul e estava 
prestes a ter alta quando os yankees invadiram a@uelas bandas. Foi uma coisa tremenda. Assim que 
soubemos da sua aproximao todos os que estavam a p ajudaram a esv4ziar os entrepostos 
militares e o hospital. Levou-se tudo para a estao. Acabvamos de carregar um comboio quando 
os yankees entraram por um extremo da cidade. No nos restava outra soluo seno fugirmos o 
mais depressa possvel pelo outro lado. No era agradvel ver-se uma pessoa sentada no tejadilho 
dum comboio e contemplar os yankees a incendiarem o que havamos sido forados a abandonar na 
estao. Queimaram tudo. Ns escapmos por um triz. 
-Que horror! 
- Sim, que horror. Quando os nossos retomaram Atlanta, mandaram para aqui o nosso comboio. 
Isto passou-se um pouco antes do fim da guerra, e havia uma quantidade de loias, camas, colches, 
cobertores que ningum reclamava. Suponho que tudo isso pertencia aos yankees. Penso ter 
sido nesta base que se fizeram os termos de rendio. No lhe parece? 
- Hum... - resmungou Scarlett, distrada. Aquecera e comeava a sentir-se sonolenta. 
- Ainda no sei se tive razo - prosseguiu ele - com certa arimnia - mas pensei que os yankees no 
precisavam de toda aquela fancaria. Eram capazes de lhe pr fogo, e os nossos tinham feito 
pagamento com bom metal sonante. Cheguei pois,  concluso de que isso pertencia por direito , 
Coniederao e aos coi@federados. Compreende a minha lgica? 
- Hum... 
127 
-Ainda bem que concorda comigo. De certo modo, no tenho a conscincia muito tranquila. H 
quem me diga: "No pense nisso, Frank". Mas  mais forte do que eu. Acha aue Lz bem? 
- Com certeza - respondeu Scarlett 'sem fazer a menor ideia do que o velhote lhe contava. Um 
conflito com a sua conscincia? Quando se chega  idade de Frank sabe-se como se deve proceder. 
Ele  que era um confuso, um indeciso. - Ainda bem que a oio falar assim. Depois da rendio eu 
possua apenas dez dlares de prata. Era tudo o que t@nha neste mundo. Sabe o que os yankees 
fizeram de Jonesboro, da minha e-asa e da minha loja.* Que resoluo havia eu de tomar? Ento, 
com esses dez dlares, mandei pr um telhado novo num antigo armazm Derto do entroncamento. 
Transportei para l toda a tralha do hospital e comecei a vend-la. Nem havia ningum que no 
precisasse de camas, de loias, de colches. Vendi barato, porque me parecia que essas coisas tanto 
eram minhas como deles. Mas ganhei dinheiro e comprei outras mercadorias. 0 neg6cio prosperou. 
Creio que ainda vou lucrar bastante, se a situao no piorar. 
Ao ouvir a palavra "dinheiro", Scarlett apurou o ouvido e despertou do seu torpor. 
-Diz que ganhou dinheiro? Frank estava deveras satisfeito com o interesse que ela manifestava.  
parte Suellen 'poucas mulheres lhe tinham dado mais do que a simples ateno requerida pela 
cortesia, e ele estava lisonjeado pelo facto de ver uma pessoa como Searlett suspensa dos seus 
lbios. Abrandou o passo do cavalo, para ter tempo de contar a histria antes de chegarem a casa, e 
prosseguiu: 
-No sou milionrio, e em comparao com o que j tive, o que possuo hoje po@co . Mas o caso  
que, ainda assim, ganhei este ano uns mil dlares.  claro que metade disso  para consertar o 
armazm, pagar a renda, comprar novas mercadorias. Mas sempre apuro quinhentos dlares e, se as 
coisas continuarem assim, devo para o ano ter um lucro de dois mil dlares. Hei-de dar-lhes 
aplicao, porque tenho outros negcios em vista. 
0 rumo que tomava a dissertao despertara por completo a curiosidade de Scarlett. Pestanejou e 
aproximou-se mais de Kennedy. 
#
128 
- A que  que se refere? Ele riu-se e sacudiu ss, rdeas sobre o dorso do cavalo. 
- Aposto que estou a aborrec-la, com esta conversa sobre negcios. Uma senhora assim bonita no 
h-de querer saber destes assuntos... 
"Idiota" disse ela de si para si. E em voz alta: -Oh, @em sei que nada percebo disso. Mas 
interessou-me tanto o que esteve a contar! Peo-lhe que continue e que me explique o que eu no 
compreender. 
- Pois bem, o outro negcio que tenho em vista  uma serrao. 
- Uma qu? -Uma oficina onde se corta madeira em tbuas. Ainda no a adquiri, mas estou em 
vsperas de o fazer. Conheo um tal Johnson, que tem uma para as bandas de Peachtree e que est 
desejando vend-la. Precisa muito de dinheiro e, se fizermos o negcio 'ele continua na oficina, a 
dirigi-la, e eu pago-lhe o salrio. ]@ uma das poucas que ainda existem, porque os yankees 
destruram a maior parte delas. Quem tiver hoje uma serrao possui uma mina de oiro. Vende-se a 
madeira ao preo que se quiser. Os yankees incendiaram tantas -casas que vai ser preciso construir 
outras. Toda a gente quer reconstruir. H dificuldade em conseguir tbuas. A populao de Atlanta 
aumenta a olhos vistos. A gente do campo, sem os pretos, a custo obtm a madeira necessria. os 
yankees e os Sacolas, que infestam a regio, tornam ainda mercadoria mais escassa.  o que lhe 
digo: em pouco tempo Atlanta ser uma grande cidade. De forma que vou comprar a serrao logo 
que me paguem o que me devem. Para o ano, por esta altura, devo estar mais abonado. Sabe... por 
que  que tenho tanta pressa de ganhar bastante dinheiro? 
Ruborizou-se e pigarreou outra vez. "Est a pensar em Suelleri", disse Searlett consigo mesma, 
enfadada. 
Por momentos, teve a ideia de lhe pedir trezentos dlares emprestados, mas desistiu de o fazer. 
Frank ia atrapalhar-se, gaguejaria. desculpas, e no lhe emprestaria o dinheiro. Trabalhava com 
afinco, decidido a desposar Suellen na Primavera, e 'se lhe fizesse o emprstimo, teria de deixar o 
casamento para mais tarde. Ainda que obtivesse dele uma promessa, depois de o comover com a 
declarao de que essa importncia se destinava a salvar a famlia, era mais que certo que a irm se 
oporia  transaco. 
9 - vento ievou - il 129 
W1, 
Suellen cada vez receava mais ficar solteira, e removeria cu e terra para impedir a protelao da 
boda. 
Que havia pois, naquela rapariga lamurienta que incitasse aquele @elhote pateta a lhe proporcionar 
um ninho fofo? Suellen no merecia um marido dedicado, nem os lucros dum armazm e duma 
serrao. Logo que ela estivesse de posse dum pouco de dinheiro, tomaria grandes ares e no 
contribuiria com um cntimo para a manuteno de Tara. 0 que desejava era ser tratada por senhora 
casada e andar bem vestida; quanto ao destino de Tara, que os outros se arranjassem como 
pudessem... 
Ao reflectir no que a esperava, quando a irm levasse a sua existncia tranquila Searlett indignou-se 
e tratou de desviar o rosto, no foss@ Kennedy descobrir-lhe o olhar furibundo. Iria perder tudo, 
sim ao passo que Sue... De repente tomou uma deciso. Suellen no teria nem Frank, nem o 
armazm, nem a serrao! No era merecedora de nada disso, que Scarlett aproveitaria para si 
mesma. Lembrou-se de Tara, recordou-se do espectculo de Jonas Wilkerson 'nos primeiros degraus 
da escada e agarrou-se  ltima tbua de salvao. Rhett falhara, 'mas Deus havia-lhe deparado 
Kennedy. 
Como atingir, porm, os seus fins? De olhar vago via cair a chuva e cerrava os punhos. 
"Conseguirei lev-'1o a esquecer Suellen e obter dele uma proposta de casamento? Ora, se estive a 
ponto de,a alcanar de Rhett, com mais facilidade triunfarei deste", Deteve ento o olhar no seu 
companheiro. "No  precisamente uma beleza tem maus dentes, mau hlito, e podia ser meu pai. 
Dem@is a mais, com aquela tiinidez e com to boas intenes... No conheo nada pior para um 
homem. Em todo o caso,  um senhor e eu espero que nos entendamos bem, melhor do que com 
#
Butler. Hei-de o manejar com pequeno esforo. Na situao em que me encontro, no tenho o 
direito de escolher". 
Nenhuns remorsos causava a Scarlett o facto de ser Frank noivo de Sue. Depois da derrocada moral 
que a obrigara a avistar-se com Rhett, parecia-lhe secundrio apropriar-se do futuro cunhado e 
quase um crime no se aproveitar da ocasio. 
Enclcu-se 'de esperana, com esta perspectiva, e at se esqueceu de que tinha os ps frios. Frank, 
vendo-se assim observado com tanta insistncia ficou um tanto comovido; mas Scarlett, lembrandose 
do @onselho de Rhett, baixou 
130 
imediatamente os olhos. "J vi, um olhar igual ao seu, num duelo, a vinte passos de mim... 
Expresses dessas no despertam nenhum ardor no peito dum macho ... " 
-Que tem, menina Scarlett? Sente frio? -Sinto -respondeu ela ao acaso. E acrescentou:Importa-se... 
importa-se que meta a mo na algibeira do seu casaco? Est realmente muito frio e -tenho o regalo 
molhado... 
-Pois no! Ora essa! E no trouxe luvas? Que desastrado que eu sou: sempre a tagarelar quando vai 
a enregelada, com pressa de se aquecer a ui@ bom lume! Galopa, SaIly! A propsito: ando to 
preocupado com as minhas coisas, que no lhe perguntei donde vinha, com este tempo e em 
semelhante bairro! 
-Fui ao Quartel General yankee-declarou ela, sem reflectir. 
Frank, intrigado, ergueu as sobrancelhas claras. 
Mas ... os soldados... No pensou... "Virgem Maria, deparai-me uma boa mentira!" implorou ela 
mentalmente. No convinha de modo nenhum que ele suspeitasse da verdade. Frank achava que 
Rhett era um infame e consideraria perijoso que uma mulher sria lhe dirigisse a palavra. 
- Fui... fui saber se os oficiais me comprariam trabalhos de costura... para oferecerem s respectivas 
esposas. Bordo regularmente. 
Frank enterrou-se mais no assento. Estava pasmado. A perplexidade e a indignao quase lhe 
tiravam a fala. 
- Foi ter com os yankees! Desculpe, no devia ter feito isso... 0 seu pai com certeza que no sabe... 
E a sua tia... 
-Ah ' peo-lhe que no lhe diga nada! - volveu Scarlett, que desatou a chorar, em parte com 
sinceridade, porque se sentia inquieta. 0 efeito foi surpreendente. Frank no ficaria mais atrapalhado 
se ela comeasse ali mesmo a despir-se diante dele. Fazia gestos inteis dava estalos com a lnoua. 
Atravessou-lhe o esprito um@ ideia audaciosa: teve 'desejos de puxar a cabea da sua 
companheira, de a encostar no ombro 'de a acariciar; mas nunca fizera isso a nenhuma mulher e 
no sabia como se principiava. Scarlett O'Hara to linda to alegre, a chorar acol na sua .'Searlett 
O;Hara, a mais orgulhosa entre todas carruagem1 as orgulhosas, tentando vender aos yankees 
trabalhos de costura! Era de comover o corao mais duro. 
131 
Ela no cessava de soluar. De vez em quando deixava escapar algumas palavras e Frank comeou 
a pensar que as coisas no deviam correr bem em Tara. Faltaria dinheiro para dar de comer a tanta 
gente, e a rapariga teria vindo a Atlanta ver se ganhava qualquer coisa para si e para o f ilho... Frank 
deu novo estalo com a lngua e percebeu de repente que Scarlett apoiava a cabea no ombro dele. 
No se lembrava como  que semelhante coisa sucedera. No fora ele, com certeza, que a forara a 
isso, mas a verdade  que a cabea l repousava e que a rapariga chorava de encontro ao peito do 
homem, nova e perturbante sensao para este! De comeo Kennedy contentou-se em passar-lhe a 
mo pelo ombro, @m seguida tomou coragem e premiu com fora. Que encanto, essa mulherzinha 
desamparada! E que loucura, alis herica, tentar ganhar um pouco de dinheiro graas s suas 
prendas de agulha! Mas, dirigir-se aos yankees... ento j era demais. 
-No direi nada  sua tia, mas tem de me prometer que no torna a fazer tal coisa. Pensar que a filha 
do senhor O'Hara... 
Os olhos verdes de Scarlett no se desviavam dos de Frank. 
#
- Ora, senhor Kennedy tenho de lanar mo seja ao que for. Como hei-de alime@tar o meu filho? 
No temos j ningum que nos possa valer... 
- P, uma rapariga cora]osa, mas no deve fazer isso. A sua famlia morreria de desgosto. 
- Ento, que me aconselha? Os olhos verdes, marejados de lgrimas, procuraram de novo os de 
Frank como se ela estivesse persuadida de que ele sabia qual o @emdio para todos os males. 
- No sei ainda... mas com certeza que lhe hei-de arranjar qualquer coisa... 
-Tenho a certeza de que  capaz de me ajudar.  to bondoso, Frank! 
Nunca at a Scarlett o tratara pelo primeiro nome. Para ele foi uma surpresa deliciosa. Coitada, 
impressionara-se tanto que nem sabia talvez o que estava a dizer. Frank, sentindo-se obrigado a 
proteg-la, redobrou de amabilidade. Faria tudo quanto estivesse ao seu alcance em favor da irm 
de Suellen O'Hara. Tirou do bolso um leno encarnado e apresentou-o a Scarlett, que o levou aos 
olhos e sorriu, de lbios trmulos. 
132 
- Sou tonta - disse ela em tom de desculpa. - Queira perdoar-me. 
- No  nenhuma tontice. 1@ uma pessoa corajosa, que procura aligeirar o fardo que lhe pesa nos 
ombros. Desconfio que a sua tia no lhe ser de grande prstimo: ouvi dizer que ela perdeu a maior 
parte dos bens. Tambm o senhor Henry Hamilton no est em situao desafogada. Quem me dera 
ter um lar para lhe dar hospitalidade! Mas oia: Quando a sua irm @ eu formos casados, haver 
sempre um tecto para si e para o seu filho. 
Era o momento propicio. Os siantos e os anjos deviam -com certeza proteg-la'porque lhe davam 
to bela oportunidade. Scarlett fingiu-se ao mesmo tempo admirada e constrangida, abriu a boca 
para dizer qualquer coisa, e. fechou-a logo a seguir: 
-No me diga ignorar que vamos ser cunhados, na prxima Primavera -observou Frank com um 
desembarao que mal lhe escondia o nervosismo. Vendo ento os olhos dela encherem-se de 
lgrimas, perguntou ansioso: -Que foi? A Sue no est doente, pois no? 
-Noz no est... -Ento que aconteceu? Diga-me! 
- No posso... no posso... Eu julgava que ela lhe tivesse escrito... Oh, meu Deus! 
-De que se trata? Por favor! 
- Oh, Frank, no tencionava contar-lhe... Esperava que soubesse... Julguei que ela lhe tinha escrito... 
Kennedy tremia. -Fazer isso a um homem... como o senhor! -Que  que ela fez? 
- No lhe escreveu, realmente? Ah, compreendo teve vergonha! E com razo. Lastimo ter uma irm 
to i@. 
Frank deixava-a falar. Nem tinha foras de lhe fazer perguntas. Mas olhava fixamente para Scarlett, 
com expresso angustiada. Das mos pendiam-lhe as rdeas, inertes. 
- Vai casar com Tony Fontaine no ms que vem. Lamento muito! Desola-me ter de lhe contar a 
verdade. Mas que quer? Sue estava farta de esperar e tinha tanto medo de ficar solteira! 
Bab estava  porta quando Frank ajudou Scarlett a apear-se da carruagem. Segundo parecia, 
encontrava-se ali postada h algum tempo, pois tinha o leno da cabea 
133 
encharcado e o velho xaile molhado em vrios pontos. Na sua face enrugada transparecia clera e 
apreenso, e o lbio inferior salientava-se de modo inquietante. Lanou um olhar feroz a Kennedy, 
mas, assim que o reconheceu, a fisionomia modificou-se-lhe, exprimindo espanto, prazer e algo 
semelhante a remorso. 
Dirigiu-se para Frank no seu passo bamboleante e, com um largo sorriso, apertou a mo que ele lhe 
estendia. 
- n bom v gente da terra - disse a preta. - Como tem passado, sinh Frank? Que belo parec o seu! 
Si soubesse que minina Scarlett sala co' o sinh, no afligia tanto. Quando entrei e no vi minina no 
quarto fiquei muito apoquentada, a pens nela szinha pela rua com todos esses ngo a and por a. 
Por que no disse que ia sa, frzinha? E ainda p'ro cima constipada! 
Scarlett lanou um olhar furtivo a Frank, o'qual, apesar de amargurado com a recente e triste 
notcia, sorriu e piscou o olho em sinal de cumplicidade, 
#
- Vai depressa l acima preparar-me ch e roupa enxuta -disse Searlett  ama. 
-Em bonito estado deve vi seu rico vistido - resmungou Bab. -Tenho de o sec e escov p'ra minina 
pod 
1  boda. 
Retirou-se para dentro de casa, e ScarIett, aproximando-se de Frank, murmurou-lhe: 
- Peo-lhe que jante c. Estamos to ss! Depois iremos ao casamento. V connosco, sim? Mas no 
diga nada  tia Pitty a respeito de... da Suellen. Ficaria transtornada, e eu no quero que ela saiba 
que minha irm... 
-No direi nada - apressou-se Frank a declarar. 
- Foi muito bondoso, Graas a si, recobrei coragem. Apertou-lhe a mo demoradamente e apontou 
para ele as baterias do olhar. 
Bab, que esperava atrs da porta, relanceou a vista pelo rosto de Scarlett e subiu com ela para o 
quarto de dormir. Sem dizer palavra, ajudou-a a despir a roupa molhada que estendeu sobre 
cadeiras, e meteu-a na cama. Depois & lhe trazer uma xcara de ch escaldante e um tijolo quente 
envolvido em flanela, inclinou-se para Scarlett e disse com uma humildade pouco vulgar na sua 
pessoa: 
-Por que no disse a mim o que tinha na ideia? Si dissesse, no era Bab que fazia toda esta viagem 
at 'tlanta. J s muito velha e muito gorda p'ra desloc assim. 
134 
-Que queres dizer com isso? 
- Frzinha, no pense engan a mim. J conheo bem ipinina e leio sua cara como padre l Bblia. E 
ouvi o que minina estava a diz baixinho de sua mana Sue. Si soubesse qui vinha c procur sinh 
Frank, no era a velha n,oa qui saa de Tara. 
- Sabias ento do que se tratava? - perguntou Scarlett, aninhando-se debaixo dos cobertores. 
-No sabia, minha fr, mas no gostei de v ontem sua cara. Lembrei que sinhora Pittypat escreveu 
a sinhora Melly a diz que esse patife Bufler tinha agora muito dinheiro, porque no esqueo nunca 
o que ouvi, Mas sinh Frank  outra loia. No se pode cham bonito, mas  um sinh de verdade. 
Scarlett dirigiu-lhe um olhar penetrante, que a ama suportou com tranquila omniscincia. 
- Que vais fazer? Contar tudo a Suellen? 
- Vou faz tudo que pud p'ra ajud minina Scarlett 
- respondeu a velha preta, aconchegando os cobertores em volta do pescoo da sua preferida. 
Scarlett ficou sossegada uns momentos, enquanto Bab andava c e l no quarto. Sentia-se contente 
por tudo se ter passado sem palavras inteis, sem explicaes, sem censuras. A ama compreendia e 
calava-se. Scarlett encontrara nessa velha uma realista ainda mais inflexvel do que ela prpria. Os 
seus olhos experientes descobriam tudo, e quando algum perigo ameaava Scarlett a conscincia 
no lhe obscurecia a viso. Scarlett era a sua menina, e tudo quanto a sua menina desejasse ' ainda 
que isso pertencesse a outra pessoa, Bab ajud-la-ia a obter. Os direitos de Suellen e de Frank 
Kennedy no entravam em linha de conta-. Scarlett queria salvar-se das dificuldades em que se 
eneGntrava,, e Scarlett, era filha da senhora Ellen. Sem um momento de hesitao, a ama aliava-se 
a ela. 
Scarlett adivinhou a aprovao da preta e, tal como o tijolo quente aos ps lhe comunicava calor, 
aquele refora veio transformar em magnfica chama a dbil luz de esperana que nela se acendera 
durante o trajecto de carruagem. 
Voltavam-lhe as foras acompanhadas de uma exaltao que lhe provocava de@ejo, de rir s 
gargalhadas. "No, ainda no estou vencida", pensou com alegria. 
- D-me o espelho, Bab - ordenou. 
13 5 
-No destape os ombo -recomendou a ama, apresentando-lhe o espelho. 
Scarlett mirou-se. 
- Estou com uma cara que mete medo, e o cabelo parece-me um rabo de cavalo. 
-No t to bonita como devia. 
#
- Hum... Ainda chove muito? -Bem sabe que chove a pote. -Chova ou no chova, tens de sair para 
me comprar umas coisas. 
- Com chuva no vou sal. -Vais, sim, ou ento vou eu. 
- So assim coisa to urgente? No pode esper? 
- Quero um frasco de gua-de-colnia -declarou Scarlett, continuando a mirar~se ao espelho. - Vais 
lavar-me a cabea e fazer uma frico com gua-de-colnia. E hs-de comprar tambm geleia de 
semente de marmelo, para amaciar o cabelo. 
- Lav cabea com este tempo? No no. Nem h-de p dessa gua no cabelo como rapariga e m 
nota. No, enquanto houv spo de vida neste corpo. 
-Deixa-te disso e vai buscar a minha bolsa. Toma l uma moeda de cinco dlares de oiro e compra 
c> que eu pedi, E... j que vais  rua... traze tambm um boio de... carmim. 
- Que  isso? @ indagou Bab, desconfiada. Scarlett fitou-a com uma serenidade que estava longe 
de sentir. Nunca podia saber ao certo quas as reaces da ama. 
-No te importes saber o que . Basta que peas um boio de carmim. 
- S compro depois de sab. 
- 1@ uma coisa para pintar a cara, j que s to curiosa' Agora no fiques a a inchar como um sapo. 
Vai-te embora. 
- Pint cara! -exclamou, a preta no auge da indignao. - T maluca? Olhe que minina inda t em 
boa idade de apanh aoite de mimf Pint cara! Sinhora Ellen at deve t estremecido em sua 
campa. Pint cara como fazem as... 
-Como fazia a av Robillard, que eu bem sei. -Sim, e s usava saia muito justa p'ra mostr forma de 
perna, mas isso no qu diz que minina faa o mesmo. Quando sua av era nova toda a gente 
levava vida de escndalo, mas os tempo mudaram. 
136 
-Deus me d pacincia! -bradou Scarlett, repelindo os cobertores. -Vais direitinha para Tara. 
-No pode obrig a mim a faz coisa qui no quero. Sou livre - volveu Bab com veemncia. - No 
quero i para Tara. Fico aqui. Meta j em sua cama! Qu apanh pneumonia? Deixe quieto esse 
espartio. Vai sa com este tempo? P, tal qual sinh seu pai. Volte p'r cama, minina! No posso i 
compr... pintura. Morria di vergonha. Toda a gente ficava a sab que era p'ra minha frzinha. 1@ 
to bonita assim, no precisa de se pnt. S pinta cara mui de m nota. 
- E elas obtm bons resultados 'no achas? -Jesus! Que t minina a diz?! No diga dessas coisa. 
Largue a meia, minha linda. No consinto v l p'ra compr pintura. Sinhora Ellen era capaz de 
aparec esta noite e ralh comigo. No fim de conta, talvez encontre loja onde ningum conhea a 
mim. 
Nessa noite, em casa da senhora Elsing, depois de ter sido bem celebrado o casamento de Fanny, e 
de o velho Levi e outros msicos haverem afinado os instrumentos, Scarlett relanceou  sua volta 
um olhar alegre. Era to agradvel assistir de novo a uma festa! E, para mais, tinham-na recebido 
com tantas demonstraes de simpatia! Ao v-la entrar pelo brao de Frank toda a gente correra 
para ela a fim de a beijar, de lhe apertar a mo, de lhe dizer que tinham sentido muito a sua falta e 
que ela no devia voltar mais para Tara. Os homens pareciam ter esquecido de que Scarlett noutros 
tempos tentara despedaar-lhes o corao e as raparigas no mostravam lembrar-se de que ela fizera 
todo o possvel para lhes furtar os namorados. At a senhora Merriwether, a senhora Whiting e a 
senhora Meade assim como outras vivas que a tinham tratado com fri@za nos fins da guerra, j se 
no recordavam de quanto a haviam censurado pelo seu comportamento leviano e s se lembravam 
de que era sobrinha de Pitty e viva de Charles. Beijaram-na, falaram de Ellen com lgrimas nos 
olhos, perguntaram pelo pai e pelas irms... Cada qual pedia notcias de Melanie e de Asliley e 
queria saber o motivo por que no a tinham acompanhado a Atlanta. 
Apesar do prazer causado por tal acolhimento, Scarlett no se sentia  vontade, e tudo por causa do 
aspecto do 
137 
@r 
#
vestido de veludo. Estava ainda hmido na altura dos joelhos e a orla conservava algumas ndoas 
que haviam resistido aos esforos frenticos da, ama, e da cozinheira, ambas armadas de escova e 
de caarola de gua quent, em frente do fogo aceso. Scarlett receava que algum notasse as 
manchas e conclusse da ser aquele o seu nico vestido elegante. No entanto consolava-a de certa 
maneira o facto de as outras mulh@ms, se apresentarem ali com traje em pior estado. Todos esses 
vestidos eram velhos, minuciosamente passajados. Ao menos, o seu era novo - o nico novo 
naquela assembleia, com excepo do vestido de cetim branco de Fanny. 
Veio-lhe ao esprito o que a tia Pitty lhe contara a respeito da situao financeira dos Elsings. Onde 
teriam ido eles buscar dinheiro para pagar o vestido de cetim, os refrescos, a decorao da sala e os 
msicos? Aquilo tudo no devia custar pouco. Dinheiro emprestado provavelmente ou ento toda a 
tribo dos Elsings contribura para essa festa dispendiosa. Atendendo aos tempos que iam correndo, 
Scarlett considerava semelhante boda uma extravagncia, s comparvel quela da pedra sepulcral 
dos Tarletons e sentia irritao anloga  que a invadira quando da su visita a Joli Coteau. Que 
disparate, fazer despesas daquela ordem! Por que  que toda essa gente teimava em proceder como 
no tempo das vacas gordas? 
No entanto, Scarlett reagiu contra o seu aborrecimento. 
0 dinheiro no era dela e no ia estragar o prazer do baile s porque os outros faziam tolices. 
Descobriu que conhecia muito bem Tom.my Wellburn, o-marido de Fanny. Nascera em Sparta e 
Searlett tratara-o em 1863, quando fora ferido no ombro. Era ento um rapaz desempenado, com um 
metro e noventa e tal de altura, e abandonara os estudos de Medicina para entrar na cavalaria. Agora 
parecia um velhinho, de tal maneira o dobrara a ferida no quadril. Andava com dificuldade e 'como 
dizia a tia Pitty, no fazia bonita figura. Contudo, no parecia preocupar-se com isso e comportavase 
como quem nada tem a invejar aos outros. Desistindo de seguir os estudos de Medicina, tornarase 
empreiteiro e dirigia agora os operrios irlandeses que estavam a construir o novo hotel. 
Tommy WelIburn, Hugh Elsing--e Ren Picard, que tanto se assemelhava a um macaco vieram 
conversar com Scarlett, enquanto afastavam as cadeiras e encostavam 00 
138 
"NTI 
mveis  parede a fim de dar espao aos danarinos. Hugh no mudara desde que ela o vira pela 
ltima vez, em 1862. Era sempre o mesmo rapaz franzino e sensvel, de mos plidas e melena 
cada na testa. Em compensao, Ren modificara-se depois do seu casamento com Maybelle 
Merriw,ether. No lhe desaparecera a chamazinha gaulesa dos olhos pretos, conservava ainda o 
bom-humor crioulo mas notava-se-lhe na fisionomia qualquer coisa de duro que no existia no 
princpio da guerra. E perdera tambm o ar de janota que o caracterizava quando vestido com o 
brilhante uniforme dos zuavos. 
- Faces de rosa, olhos de esmeralda - disse ele, beijando a mo de Scarlett e pagando tributo ao 
carmim a que ela recorrera. - Est to bonita como quando a conheci, no bazar de caridade. 
Recorda-se? Nunca esquecerei a maneira como atirou a- sua aliana para o meu cesto. Foi um rasgo 
corajoso! 0 que no supus  que ficasse tanto tempo sem usar outra... 
-E eu nunca julguei que voc andasse a vender pastis num carro - ripostou Scarlett. 
m vez de corar envergonhado perante essa aluso ao seu mister pouco elegante, Ren desatou s 
gargalhadas e bateu uma palmada nas costas de Hugh. 
- Touch! - exclamou. - Minha sogra, a senhora Merriwether, obriga-me a trabalhar pela primeira 
vez na minha vida, a mim, Ren Picard que s devia entreter-me a criar cavalos e a tocar violino! 
gora conduzo a minha carripana cheia de pastis, e isso no me desagrada. Minha sogra faz o que 
quer dos homens, Se a tivessem nomeado general ganhvamos a guerra, no achas, Tommy? 
"Custa a crer que ele goste de semelhante trabalho, quando os pais tinfiam uma propriedade de dez 
milhas de extenso  beira do Mississipi e uma casa to grande em Nova Orlees"_, pensou 
Scarlett. 
- Se as nossas sogras estivessem nas fileiras, vencamos os yankees em oito dias - concordou 
Tommy , olhando na direco da sua nova sogra. -0 nico motivo por que a guerra se arrastou 
#
tanto foi o facto de as senhoras no quererem confessar-se derrotadas. 
- No quererem nunca confessar-se derrotadas - emendou Hugh com um sorriso um tanto amargo. - 
No h aqui uma s dama que se d por vencida, apesar do que sucedeu 
139 
em Appomatox. Foi pior para elas do que para ns. Ns, ao menos, batalhmos... 
- E elas ficaram com o seu dio - concluiu Tommy. - 
No  verdade, Scarlett, que as senhoras sofrem muito mais do que ns ver-nos reduzidos a estas 
condies? Hugh devia ser magistrado, Ren estava destinado a tocar violino na presena das 
cabeas coroadas da Europa... - e Tommy, nesta altura, desviou-se dum safano de Ren -...eu era 
para ser mdico, e afinal... 
- Deixemos passar o tempo - exclamou. Ren. - Ainda me hei-de transformar no rei dos pastis do 
Sul. 0 Hugh ser o rei da lenha e tu, meu caro Tommy, ters escravos irlandeses em vez de escravos 
pretos. Vers o que a gente ainda vai gozar... E voc, Scarlett, que faz? Munge vacas? Apanha 
algodo? 
- Que ideia! - protestou Scarlett, incapaz de compreender o bom-humor com que Ren aceitava a 
sua sorte. -Os pretos  que tratam disso. 
Depois das preliminares afinaes os msicos comearam a tocar 0 Velho Dan Twker, e rI@ommy 
voltou-se para Scarlett: 
-Quer danar? No posso convid-la, mas o Ren e o Hugh... 
- No, obrigada. Ainda estou de luto por minha me. Mas no se prendam por minha causa - 
apressou-se Scarlett a ajuntar. 
Quando os trs homens se afastavam, descobriu Frank Kennedy ao p da senhora Elsing e chamouo 
com um aceno de mo. 
- Se quisesse trazer-me refrescos ' ia sentar-me naquela espcie de alcova ao fundo da sala -disse 
ela. - Podemos, conversar ali  vontade. 
Enquanto Frank ia buscar um copo de vinho e uma fatia de bolo envolta em papel fino, Scarlett foi 
para a sleta a que se referira e a se instalou, tendo o cuidado de compor as pregas da saia de modo 
a esconder as ndoas mais visveis. 0 prazer de ver gente e ouvir msica fizera-a quase esquecer a 
cena vexatria com Rhett. No dia seguinte pensaria no procedimento de Rhett e na vergonha por 
que passara. S no dia seguinte trataria tambm de averiguar a impresso causada no corao 
amargurado de Frank. Nessa noite no queria preocupaes. Sentia-se reviver, a 
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esperana aguava-lhe as faculdades, os olhos luziam-lhe de contentamento. 
Do seu canto, ps-se a observar a sala e os danarinos, e lembrou-se ento da magnificncia daquela 
casa quando pela primeira vez ela viera a Atlanta, durante a guerra. Nessa poca, o soalho brilhava 
como um espelho. 0 lustre monumental, como os seus pingentes de cristal facetado, tinha 
cintilaes de safira e diamante. Nos retratos antigos suspensos das paredes viam-se personagens de 
aspecto respeitvel e damas que pareciam sorrir aos convidados. Os canaps de pau-rosa, com os 
seus coxins confortveis, incitavam ao repouso; um deles, o maior, ocupara o lugar de honra nessa 
mesma saleta onde ela se encontrava agora. Muitas vezes Scarlett se sentara ali na companhia de 
um belo oficial para escutar violino e violoncelo, ou simplesmente para ouvir o rumor excitante dos 
danarinos a deslizar no cho encerado. Daquele ponto abrangia-se com a vista todo o salo e a casa 
de jantar, com a sua mesa oval de mogno que comportava mais de vinte convivas 'as duas dzias 
de cadeiras graciosas enfileiradas junto da parede, os aparadores carregados de prata macia e de 
cristais. 
Agora o lustre estava apagado. Pendia de esguelha, com os pingentes quase todos partidos 'tal se os 
yankees, quando ali pernoitavam, se entretivessem a atingi-lo com as botas. Apenas um candeeiro e 
algumas velas iluminavam a sala. A maiorelaridade provinha do lume aceso no fogo enorme, e o 
reflexo das chamas permitia ver os estragos no soalho. No papel desdobrado da parede destacavamse 
rectngulos escuros que indicavam o stio onde outrora estavam os quadros, e, no tecto, vrias 
fendas faziam recordar que ' durante o cerco, uma bomba arrancara o telhado e destrura o segundo 
#
andar. A pesada mesa de mogno, onde tinham improvisado o bufete, continuava no centro da sala 
de jantar, mas estava toda esfolada e os ps haviam sido consertados com bocados doutra madeira. 
Os aparadores 'as pratas e as cadeiras de pernas fuseladas tinham desaparecido. J no existiam os 
reposteiros de damasco que enquadravam as portas de vidraa, e s permaneciam os restos das 
cortinas de renda, lavadas e engomadas, mas com ponteados visveis. 
Um banco desconfortvel substitura o canap predilecto de Scarlett. Era a que estava sentada com 
a maior graa possvel, lastimando no ter o vestido @m condies de poder danar. Seria to 
bom danar outra vez! Mas a ver- 
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dade  que tinha mais probabilidades de obter bons resultados naquele canto retirado onde podia 
manejar Frank mais  vontade, do que dan@ndo com ele uma quadrilha desenfreada. 
No entanto, a msica era tentadora. Com a ponta do sapato, Scarlett batia o compasso como o velho 
Levi que anunciava as marcas da quadrilha enquanto tocava um banjo estridente. Em duas filas, os 
danarinos aproximavam-se ' recuavam, redopiavam e faziam arcos com os braos erguidos. Os ps 
ora deslizavam com suave rumor, ora martelavam no soalho. 
Dan Tucker bebeu de mais (Faam rodar as suas damas!) Caiu num campo e soltou ais (Pulem. 
ligeiras, as damas!) 
Depois dos meses sombrios e extenuantes de Tara, era agradvel ouvir outra vez msica e o som de 
ps a danar, agradvel ver sorrir rostos familiares,  luz fraca das velas, presenciar as brincadeiras 
dos amigos. Dir-se-ia um retorno  vida, como se a existncia de h cinco anos atrs recomeasse 
agora. Se fechasse os olhos para no reparar nos vestids usados e no calado gasto, se tentasse no 
recordar a fisionomia da gente moa que ali faltava, Scarlett seria capaz de se convencer que nada, 
afinal, se modificara. Mas quando olhava para os homens de certa idade reunidos  volta da mesa da 
casa de jantar, ou para as senhoras que, alinhadas ao comprido da parede, tagarelavam, agitando as 
mos sem leque, ou seguiam as evolues dos pares danantes, sentia um calafrio e dizia ento que, 
pelo contrrio, estava em presena de fantasmas. 
Eram todos os mesmos e 'no entanto, pareciam muito diferentes. Porqu? Por terem cinco anos 
mais? No, isso devia-se apenas  marcha do tempo. Tinham perdido qualquer coisa ou qualquer 
coisa fugira do seu mundo. Cinco anos antes, moviam-se numa atmosfera de segurana; desaparecera 
esse ambiente e com ele fora-se todo o encanto da vida, a impresso de que algo de 
agradvel nos espera ao voltar da esquina. 
Scarlett sabia que tambm se modificara mas no no mesmo sentido que os outros e isso 1ntriga@aa. 
Observava-os do seu lugar e considerava-se uma estranha entre 
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eles, to deslocada e s, como se tivesse vindo doutro pais e no lhes compreendesse o idioma. Era 
uma sensao anloga quela que a dominava quando se via junto de AshIey. Com ele ecom os que 
se lhe assemelhavam (a.maioria afinal, dos do seu mundo) ela sentia-se  parte, afastada de qualquer 
coisa que lhe era vedado entender. 
0 rosto dos seus antigos companheiros no se havia modificado, muito menos as suas maneiras, e 
isso talvez fosse apenas o que ficara. Possuam dignidade mantinham a elegncia que ostentariam 
at  morte, porm, levariam igualmente para o tmulo certa amargura inextinguvel, difcil de 
exprimir por palavras. Aquela gente representava um povo generoso que a derrota esgotara, mas 
que no queria confessar-se vencido: habitantes de provncias conquistadas' agora reduzidos  
impotncia. Viam a terra querida calcada pelo inimigo, viam a malta desfeitear a lei, os antigos 
escravos tornarem-se ameaadores insultando-os a eles e s mulheres. Lembravam-se, finalmente, 
dos seus mortos. 
Tudo se transformara no seu universo, excepto os usos, que prosseguiam: era tudo o que lhes ficara. 
Continuavam aferrados s coisas que to bem conheceram e tanto amaram noutro tempo: os modos 
insolentes a cortesia, o -vontade nas suas relaes e sobretudo a atitude protectora dos homens para 
com o sexo fraco. Fiis  tradio em que haviam sido educados, mostravam~se galantes e 
afectuosos e chegavam a criar uma atmosfera de segurana para nela abrigarem as mulheres. 
#
Segundo Searlett. aquilo constitua o cmulo do absurdo, pois nesses ltimos cinco anos elas 
haviam passado por todas as provaes: suportaram a guerra, incndios, devastaes, trataram dos 
feridos e fecharam os olhos dos mortos, conheceram o terror, o xodo, as torturas da fome. 
No entanto, apesar do que tinham presenceado, dos trabalhos servis que haviam feito e 
continuariam a fazer, continuvam a ser cavalheiros e senhoras da sociedade, reis e rainhas no 
exlio-amargos, sempre na defensiva, gienerosos para com os outros, brilhantes, frgeis e 
destroados como os cristais do lustre suspenso do tecto. Fora-se o bom tempo, e aquela gente 
teimava em viver na mesma forma, decidida a no correr atrs do dinheiro como os y,ankees, 
decidida a no alterar um s dos seus hbitos. 
Scarlett sabia que tambm mudara muito. Doutra ma- 
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neira, no faria o que tinha feito desde a sua ltima estadia em Atlanta nem elaboraria o plano de 
que tanto desejava 
0 exito, Existia 'porm, qualquer diferena entre o seu endurecimento e o dos outros, embora no 
soubesse dizer c.m que consistia. Talvez no facto de estar disposta a efectuar aces que essas 
pessoas no efectuariam nem sob a ameaa de morte. Talvez elas tivessem perdido todas as iluses, 
mas sorriam sempre  vida, faziam-lhe uma vnia graciosa e passavam adiante. Isso  que Scarlett 
no entendia nem podia imitar. 
Tinha de encarar a realidade. A vida mostrava-se-lhe muito brutal muito hostil para que ela sequer 
tentasse sorrir-lhe. S6rlett no compreendia a doura a coragem e o orgulho indomvel dos seus 
amigos. Via @eles apenas seres intransigentes que se limitavam a contemplar os factos e a sorrir, 
recusando-se a enfrent-los. 
Seguindo com a vista os danarinos entusiastas, Scarlett perguntou a si mesma se os acontecimentos 
os teriam marcado como ela fora. A morte dum noivo, um marido invlido, filhos esfomeados, 
propriedades destroadas, lares profanos pelos invasores nada disto os atingira? Com certeza, pois 
tinham suportado a lei geral. As suas perdas, privaes e problemas eram mais ou menos iguais aos 
dela. Contudo, reagiam de modo diferente. As caras que Scarlett ali via no passavam de mscaras 
bem afiveladas, 
Mas se esses indivduos sofriam como, ela o rigor dos tempos, como conseguiam mostrar-se 
satisfeitos, despreocupados? Eis o que Scarlett no compreendia e a irritava um tanto. Ser-lhe-ia 
impossvel imit-los, presenciar a runa do mundo com ar desenvolto. Ela era tal uma raposa 
perseguida a correr arquejante em busca dum buraco onde se meter, para que os caadores no a 
apanhassem. 
De sbito Scarlett odiou todas aquelas pessoas, porque eram diferen@es dela, porque assumiam na 
adversidade uns ares que jamais poderia assumir. Como detestava essas mulheres sorridentes e 
pretensiosas que pareciam orgulhar-se dos prejuzos sofridos! Embora se rebaixassem a fazer 
trabalhos servis e no soubessem como substituir as suas roupas velhas, sentiam-se sempre 
grandes damas. Scarlett  que no se considerava grande dama, apesar do vestido de veludo, do 
cabelo perfumado e de se lembrar da abastana em que vivera. Ao rude contacto do solo de Tara 
perdera as boas maneiras... -Sabia que no tornaria a 
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sentir-se senhora da sociedade enquanto no visse brilhar cristais e pratas sobre a sua mesa, 
enquanto no possusse cavalos e carruagens, enquanto no tivesse homens brancos em vez de 
pretos a cultivar algodo em Tara. 
"Estas idiotas no percebem que, sem dinheiro  ridculo darem-se aqueles ares?" pensou Scarlett, 
inignada. 
No entanto, compreendia vagamente que, por muito absurda que lhe parecesse, a atitude dessas 
mulheres era a melhor. Ellen teria procedido assim; manter-se-ia senhoril, ainda que ficasse na 
misria. De semelhante ideia, porm, Scarlett no se compenetrava. 
Toda a vida ouvira falar com sarcasmo dos yar@kees, porque todas as suas pretenses de distino 
se baseavam na riqueza e no na origem do indivduo. Contudo, Scarlett dava-lhes agora razo 
#
nesse ponto. Para ser uma verdadeira dama de sociedade era necessrio dinheiro. Se Ellen ouvisse 
tal opinio da boca da filha desmaiaria com certeza. Ellen jamais se envergonharia de'ser pobre, ao 
passo que ela... Sim, tinha vergonha da penria em que vivia, dos expedientes a que se via obrigada 
a recorrer, de trabalhar como 
uma negra. 
Scarlett encolheu os ombros num gesto de ira. Talvez os outros tivessem razo, mas o caso  que 
no enfrentavam o futuro, como ela fazia, de nervos tensos, esforando-se por radquirir o que 
perdera at em sacrifcio da sua honra e reputa. Os preconceitos de dignidade impediam muita 
gente de se misturar a esses que s tinham em mira obter dinheiro. Ganhar dinheiro abertamente, ou 
at falar de dinheiro, era o cmulo da vulgaridade. Havia excepes,  claro. A senhora 
Merriwether fazia pastis que Ren ia vender; Hugh Elsing negociava com lenha; Tommy era 
empreiteiro; Frank tivera a esperteza de abrir um armazm. Mas os outros a maioria? Os 
plantadores contentavam-se com um pal@no de terra e viviam na pobreza. Os mdicos e os 
advogados esperavam clientes hipotticos. E o resto? Como se governariam aqueles que noutros 
tempos viviam de rendimentos? 
Ela  que no queria ser pobre toda a vida. No tencionava deixar-se ficar  espera dum milagre. 
Havia de lutar at conseguir o que pretendia. 0 pai comeara por ser um emigrante sem eira nem 
beira e acabara por adquirir a vasta quinta de Tara. 0 que ele fizera, a filha faria tam- 
10 - Vento Uvou - 11 145 
bm. Era muito diferente dessas criaturas a quem bastava o orgulho de se ter sacrificado por uma 
causa. Viviam de olhos postos no passado. Ela olhava para o futuro e o futuro estava agora 
personificado em Frank Kenned@. Se conseguisse despos-lo e apanhar-lhe o dinheiro, Tara estava 
garantida at ao ano seguinte. Depois... seria necessrio que Frank comprasse a tal serrao, 
Ela prpria verificara o ritmo com que reconstruram prdios na cidade. Naquela altura, enquanto 
no havia concorrncia, uma estncia de madeira representava uma mina de oiro, 
Dos recessos do seu esprito surgiu ento uma frase que Rhett proferira no comeo da guerra, a 
respeito do que ele lucrava com o bloqueio. Nessa poca, Scarlett no procurara compreender mas 
agora aquelas palavras eram-lhe perfeitamente elara@ e ela perguntava a si mesma se fora a sua 
mocidade ou a estupidez que a impedira de lhes aprender o sentido: "A construo dos imprios d 
dinheiro, mas ainda d mais a runa dos imprios". 
"Eis a runa que ele previa", pensou Scarlett. "E tinha razo, No falta dinheiro para quem no teme 
o trabalho... nem a voz da conscincia". 
Viu Frank a atravessar a sala com um copo de vinho de amoras numa das mos e um prato com uma 
fatia de bolo na outra e tratou logo de mostrar uma -expresso sorridente. Nem sequer se lembrou 
de perguntar a si mesma se Tara valeria o sacrifcio de casar com Frank. Quanto a isso, no tinha 
dvidas, 
Sorriu a Frank enquanto bebia o vinho, sabendo que as suas faces estavam mais rosadas do que 
todas as outras que ali se encontravam. Comps as pregas da saia para que ele se sentasse a seu lado 
e agitou o leno num gesto lnguido a fim de lhe fazer sentir o cheiro a gua-de-colnia. 
Envaldecia-o@ o perfume porque nenhuma outra das mulheres presentes o usava e Frank j dera 
por isso. Num momento de audcia, segredara-lhe que ela tinha a cor e o aroma duma rosa. 
Se ao menos no fosse to tmido! Fazia-lhe lembrar um coelho assustadio. Era de lastimar que 
no tivesse a elegncia e o ardor dos gmeos Tarletons ou at o descaramento de Rhett Butler. Mas, 
se Frank @ossusse essas qualidades, seria suficientemente esperto para notar a angstia que 
transparecia no olhar dela. Sendo assim como era, no 
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conhecia bem as mulheres para desconfiar do que Searlett tramava contra ele. Esta s tinha a 
regozijar-se com isso, mas no era coisa que fizesse aumentar o seu apreo por Frank Kennedy. 
30 
CAsou com Frank depois de duas semanas de rpido namoro, durante o qual Scarlett, ruborizada, 
declarou no ter j foras de resistir quela paixo. 
#
0 que Frank no sabia era que Scarlett passara as noites a passear no quarto, furiosa com a demora 
que ele pusera em dQcidir-se temendo a todo o instante que viesse uma carta de Suellen arruinar-lhe 
os planos. Agradecia ao Cu a irm ser a pior das correspondentes: ficava radiante quando lhe 
escreviam e detestava escrever. Mas bastaria um acaso, pensava Scarlett andando c e l sobre o 
soalho ,frio, com o xaile de Ellen'por cima da camisa de noite. Frank tambm ignorava que ela 
recebera uma carta de Will em que este a informava de que Jonas Wilkerson fora segunda vez a 
Tara e fizera tal escarcu ao saber da ausncia de Scarlett que Will e Ashley o tinham posto na rua, 
sem contemplao nenhuma. Essa carta s viera relembrar o que Scarlett j sabia: que o tempo 
corria e se aproximava o prazo para o pagamento do novo adicional. Conforme os dias passavam, 
aumentava o seu desespero. No entanto, dissimulava to bem os sentimentos, representava to ao 
vivo o seu papel que Frank no chegou a suspeitar de nada. S via nela a linda viva de Charles 
Hamilton, que o recebia todas as noites na sala da senhora Pittypat @, boquiaberta de admirao, o 
ouvia falar dos seus projectos respeitantes ao armazem e dos lucros que esperava obter quando 
negociasse com madeiras. A terna compreenso de Scarlett e o interesse que lhe iluminava o olhar, 
enquanto escutava o que ele dizia, era como um blsamo na feridacausada pelo suposto abandono 
de Suellen. Frank sofria, espantava-se com o procedimento de Suellen; e o seu amor-prprio de 
solteiro, que tinha conscincia de no agradar s mulheres, estava profundamente ulcerado. Eraimpossvel 
escrever a Suellen a censurar-lhe a falta de 
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lealdade, S esta ideia o fazia estremecer. Mas aliviava o corao falando dela com Scarlett. Sem 
proferir uma palavra ofensiva para a irm, Scarlett conseguia mostrar a Frank quanto Suellen o 
tratara mal e como ele merecia uma mulher que o apreciasse. 
Era realmente encantadora a senhora Hamilton com as suas faces rosadas. Dum momento para 
outro ' c6nforme pensava na sua triste sorte ou se divertia com os tmidos gracejos de Frank, 
passava de melancolia ao riso alegre e musical, como o badalar de sinos de prata. 0 seu vestido 
verde, agora impecvel devido aos cuidados de Bab, realava-lhe a esbelteza do corpo e a forma 
dos seios pequeninos. E que inebriante o leve perfume do leno e dos cabelos! Causava d ver uma 
rapariga to adorvel sbzinha e indefesa num mundo rude de que ele nem compreendia a rudeza. 
Nem marido, nem irmo, nem sequer um pai que.a protegesse! Frank achava a vida muito penosa 
para uma mulher sem ningum, e, nesse ponto, Scarlett partilhava da sua opinio. 
Frank aparecia todas as noites porque o ambiente da casa da tia Pitty era agradvel @ reconfortante. 
Logo  entrada, Bab acolhia-o com o sorriso reservado s pessoas de categoria. Pitty servia-lhe 
caf e conhaque, rodeava-o de atenes. Scarlett ficava suspensa dos seus lbios... s vezes, 
durante a tarde, quando tinha negcios a tratar nos arredores, Frank levava-a de carruagem. Esses 
passeios eram para ela um verdadeiro divertimento, porque Scarlett o cumulava de perguntas tolas. 
"So, mesmo coisas de mulher", dizia ele consigo. No podia deixar de rir de tanta ignorncia, e 
Scarlett fazia coro com ele e redarguia: - 
Como quer que uma pateta como eu perceba, de negcios? 
Em suma, Frank comeava a convencer-se de que era um ente excepcional, que Deus o formara de 
matria mais nobre do que os outros homens, para que ele protegesse as mulheres indefesas. 
Quando por fim chegou a hora do casamento e Scarlett, de olhos baixos, lhe abandonou a mozinha 
confiante, ele no sabia ainda como tudo aquilo sucedera. Sabia apenas que, pela primeira vez na 
vida ' fazia qualquer coisa de romanesco, de sentimental. Ele, Frank Kennedy, agarrar com os seus 
braos fortes aquela criatura deliciosa! Era uma sensao embriagadora. 
Nem amigos nem parentes assistiram ao casamento. As 
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testemunhas foram pessoas desconhecidas, encontradas na rua. Scarlett mostrou-se inflexvel neste 
ponto e Frank tivera de ceder se bem que gostasse de ver a seu lado a irm e o cunhado de 
Jonesboro. Dar~lhe-ia tambm satisfao oferecer um copo-de-gua em casa de Pitty e, rodeado de 
amigos, ouvir os brindes  noiva. Scarlett, porm, nem quisera que a tia os acompanhasse. 
- S ns, ambos, Frank - suplicou. - Corno se fosse um rapto. Sempre tive vontade de fugir e de 
#
casar logo. Faze * que te peo meu querido. 
Foi esta palavra terna, ainda to nova aos ouvidos dele, * as lgrimas a marejarem os olhos verdes 
de Scarlett que triunfaram da sua resistncia. No fim de contas, um homem deve fazer algumas 
concesses  noiva, em especial tratando-se do casamento. As mulheres ligam tanta importncia a 
questes de ordem sentimental! 
Assim ele se viu casado, antes mesmo de saber o que lhe acontecia. 
Cedendo s ternas instncias de Scarlett, Frank deu-lhe os trezentos dlares. A princpio mostrou-se 
relutante, pois custava-lhe renunciar  compra imediata da serrao, mas, por outro lado, custavalhe 
tambm ver pr fora de casa a famlia da mulher. 0 caso, porm,  que se sentiu compensado 
perante a alegria de Searlett e a ternura que ela lhe manifestou como agradecimento da sua 
generosidade. Frank, que nunca se vira alvo de atenes femininas, deu, afinal, por bem empregado 
o dinheiro. 
Scarlett despachou Bab imediatamente para Tara com o triplo fim de entregar a Will os trezentos 
dlares, de anunciar o seu casamento e de lhe trazer Wade. Dois dias depois recebia de Will um 
bilhete, que ela leu e releu com alegria crescente. Informava ele que as contribuies j estavam 
pagas e que, ao saber disso, Jonas Wilkerson "fizera uma linda cena", mas que no voltara a haver 
ameaas. Will finalizava desejarido muitas felicidades a Scarlett, frmula lacnica que em nada o 
comprometia. Will devia compreender as razes que a tinham levado ao casamento e, embora no a 
felicitasse, tambm no a censurava. "Mas que pensar Asliley", perguntava ela a si mesma, 
angustiada. "Que ideia far de mim, depois daquilo que eu lhe,disse h to pouco tempo no pomar 
de Tara?" 
149 
Tambm recebeu uma carta de Suellen, com vrios erros de ortografila, violenta, injuriosa maculada 
de lgrimas, carta to cheia de veneno e de observaes exactas acerca do carcter da irm que esta 
jamais poderia esquecer ou perdoar. No entanto, a epstola de Suellen no velo sombrear-lhe a 
alegria de ter salvado Tara pelo menos durante algum tempo. 
No se afazia  ideia de viver da em diante em Atlanta. No seu desespero, s tinha em mente pagar 
os impostos, e nunca se havia lembrado de que, salvando Tara se condenava ao exlio. Agora' 
depois do facto consumado, assediavam-na as saudades. Mas aquilo fora como um negcio e tinha 
de respeitar os termos em que o fizera. E estava to grata a Frank por lhe haver proporcionado o 
dinheiro, que sentia por ele viva afeio e prometia a si mesma nunca lhe dar motivo para se 
arrepender de a haver desposado. 
As senhoras de Atlanta, que no perdiam pitada da vida dos vizinhos, estavam interessadssimas no 
caso. Todas sabiam que, durante anos, houvera "entendimento" entre Suellen O'Hara e Frank 
Kennedy. Este, alis, fora o primeiro a anunciar que tencionava casar na Primavera. No foi, pois, 
de admirar o espanto geral causado pelo inesperado enlace de Frank e Scarlett. E ao espanto 
sucederam a desconflana e as murmuraes. A senhora Merriwether, que nunca deixava de 
satisfazer a curiosidade, foi ter com Frank e perguntou-lhe  queima-roupa o que significava aquilo 
de casar com uma irm depois de namorar outra. Contou ela depois  senhora Elsing que como 
resposta, s obteve um olhar de parvo. Quanto a S@arlett, nem a prpria senhora Merriwether to 
destemida se atreveu a interrogar sobre aquele assunto. Embora mostrasse ento um ar de doura e 
de modstia, via-se-lhe nos olhos uma expresso de complacncia de que ningum gostava e, alm 
disso, no dava a impresso de pessoa que se deixasse insultar. 
Scarlett sabia que toda a cidade falava dela'mas no se importava. E havia alguma coisa de imortal 
no facto de casar com um homem? Conseguira salvar Tara. Pouco se ralava que o povo falasse. 
Tinha outras preocupaes. Primeiro que tudo, precisava de convencer Frank, de maneira muito 
diplomtica, que o armazm lhe devia dar mais lucro. Depois do susto que apanhara com ionas 
Wilkerson, s se sentiria tranquila quando ela, e Frank, tivessem algum dinheiro de lado. E ainda, 
que no surgissem casos 
150 
de emergencia, convinha que Frank aumentasse os seus benefcios para ela poder pagar os impostos 
#
do ano seguinte. Para mais, Scarlett no esquecera o que o marido lhe dissera a respeito da serrao. 
Frank podia arranjar muito dinheiro com o referido negcio. Qualquer pessoa o podia com o preo 
actual das madeiras de construo. No funo, Scarlett sentia-se furiosa por Frank no possuir 
dinheiro suficiente para os impostos e para tudo mais. De qualquer maneira, ele tinha de conseguir 
maiores lucros no armazm, e isso devia ser depressa, antes que outro se adiantasse e comprasse a 
serrao, Como a prpria Scarlett verificava, aquilo era uma pechincha. 
Se ela fosse homem, compraria j a serrao, nem que para isso tivesse de hipotecar o armazm. 
Quando, porm, com muito tacto, sugeriu isso a Frank, no dia seguinte ao casamento o marido 
sorriu e disse que no afligisse a sua linda cabe'cinha com questes comerciais. Surpreendeu-o o 
facto de a mulher perceber de hipotecas e, naquele momento, o caso divertiu-o. Mas em breve se 
desvaneceu essa impresso, para dar lugar a uma espcie de receio, que nunca mais o largou. Uma 
vez sem pensar, contou a Searlett que vrios indivduos (t@ve o cuidado de no citar nomes) lhe 
deviam dinheiro, mas que, como era natural, no ia importunar velhos amigos e gente de boas 
famlias. Mais tarde, lastimou haver dito isso, quando se viu, por diversas vezes, assediado de 
perguntas. Searlett interrogava-o com ar inocente, fingindo querer saber apenas quanto lhe deviam e 
quem eram os devedores. Frank respondia com evasivas, pigarreava nervosamente, agitava as mos 
e repetia as fastidiosas observaes a respeito da linda cabecinha da mulher. 
No tardou Frank a descobrir que essa "linda cabecinha" era mais dotada para clculo do que a dele, 
descoberta muito pouco tranquilizadora. Ficou abismado ao ver como ela era capaz de fazer 
mentalmente somas de muitas par celas, ao passo que ele tinha de recorrer sempre a lpis e papel 
quando havia mais de trs algarismos a somar. Quanto  diviso, tambm nenhuma dificuldade 
apresentava parc Scarlett, e Frank conclua ser inconveniente o facto de uma mulher perceber assim 
de contas e de neg6cios. Quando se possua um dom to pouco feminino, mais valeria ocult-lo, 
Agora chegava a ter medo de falar desses assuntos a Scarlett, tanto quanto antes do casamento apre- 
151 
ciava tais conversas. Nesse tempo achava que esses prld' blemas eram muito transcendentes para 
ela, e no desgostava de lhos fazer compreender. Mas depois, percebendo que, pelo contrrio, os 
entendia muito bem, indignava-se como to-dos os homens com a duplicidade das mulheres. 
Tambm, como todos os homens, sofrera urna desiluso ao verificar que a mulher era inteligente. 
Nunca ningum soube ao certo em que altura da sua vida conjugal, Frank desconfiou da partida que 
Scarlett lhe pregara para casar com ele. Talvez a verdade lhe surgisse quando Tony Fontaine veio 
tratar de negcios a Atlanta. Ou talvez Frank tivesse os olhos mais abertos pelas cartas que a irm, 
estarrecida com esse casamento, lhe enviara de Jonesboro. Com certeza que no foi a prpria 
Suellen quem o informou. Esta nunca lhe escrevia e,  claro ele poupara-se ao trabalho de lhe dar 
explicaes. E para qu, se j estava casado? Tremia s  ideia de que Suellen nunca chegasse a 
saber o que o levara quele casamento e o acusasse sempre de a haver trado sem motivo plausvel. 
Provavelmente toda a, gente o criticava e isso colocava-o numa situao deplorvel. No dispunh@ 
de nenhum meio para provar a sua boa f, pois no ia proclamar alto e bom som que perdera a 
cabea por uma mulher. Nem, como cavalheiro, lhe ficaria bem confessar que Scarlett o apanhara 
com o engodo duma mentira. 
Scarlett era sua esposa e tinha o direito de contar com a lealdade do marido. Alm disso, no queria 
convencer-se de que ela se lhe unira friamente, sem sentir a mais pequena afeio. No lhe permitia 
a vaidade masculina fazer fincap nesta hiptese, Era-lhe mais agradvel pensar que Scarlett se 
apaixonara por ele to bruscamente que mentira de modo deliberado s para atingir os seus fins. 
Nada disso, porm, deixava de ser inquietante. Sabia no ser uma grande conquista para uma 
mulher bonita e muito mais nova que ele,* mas Frank era bem educado e no revelou a sua 
preocupao. No queria ofender a mulher com perguntas insidiosas, que alis no remediariam 
nada. 
Tambm no fazia empenho em remediar as coisas, pois o seu casamento afigurava-se-lhe feliz. 
Scarlett era a mais encantadora, a mais adorvel das esposas e ele considerava-a perfeita em tudo ' 
excepto quando s@ mostrava obstinada. Se lhe faziam as vontades tudo ia bem, mas se lhe 
#
resistiam... Quando no a contrariavam, era alegre como 
152 
um passarinho, ria s gargalhadas brincava sentava-se nos joelhos do marido, puxava-lhe pelas 
barbas, e tal modo que ele se sentia remoado. Mostrava-se terna, atenciosa; punha-lhe as chinelas 
a aquecer diante do lume quando ele regressava  noite, procurava evitar-lhe resfriamentos, no se 
esquecia de que o marido gostava de moela de galinha e de que preferia ocaf bem adoado. Sim, a 
vida era suave e confortvel ao lado de Scarlett... contanto que deixassem a esta o pulso livre. 
Duas semanas depois de casar, Frank apanhou gripe e o Dr. Meade mandou-o ficar de cama. No 
primeiro ano da guerra, Frank estivera dois meses no hospital com uma pneumonia, e desde ento 
vivera com o permanente receio de ter outra vez aquela doena. Sentiu-se portanto contente por 
transpirar debaixo de trs cob@rtores e @cber as tisanas escaldantes que Bab e a tia Pitty lhe 
traziam a toda a hora. 
Prolongou-se a gripe e, conforme passavam os dias, mais Frank se enchia de preocupaes por 
causa do armazm. Confiara a direco da loja ao caixeiro que todas as noites, lhe vinha prestar 
contas dos negcios efe@tuados durante o dia, mas isso no lhe bastava. To apoquentado se 
mostrou uma vez que Scarlett, aproveitando a ocasio, lhe ps a mo fresca na testa e declarou: 
-Acabo por me zangar se continuas a afligir-te dessa maneira. Vou eu mesma ver o que se passa no 
armazm. 
E foi. Nas primeiras trs semanas do casamento ardera em desejos de meter o nariz nos livros 
comerciais do marido e verificar a quantas andavam de finanas. Que sorte Frank .@er adoecido! 
0 armazm ficava prximo do entroncamento. 0 telhado novo cintilava contrastando com as paredes 
enegrecidas pelo fumo. A@anando at ao meio da rua, protegiam o passeio vrias tbuas, assentes 
sobre pilares, que se ligavam entre si por barras de ferro, s quais amarraram cavalos e mulas. Os 
animais, para melhor se defenderem da chuva gelada, baixavam a cabea; tapavam-lhe o dorso 
colchas e cobertores rasgados. 
0 interior do armazm assemelhava-se muito ao de Bullard, em Jonesboro, com a diferena apenas 
de que no havia ociosos diante do fogo nem jactos de saliva suja de tabaco nos escarradores de 
areia. Era, porm, maior do 
153 
que o de Bullard, e mais sombrio. 0 toldo de madeira ocultava grande parte da claridade nos dias 
invernosos, a qual s entrava, e a custo, pelas janelas estreitas das paredes laterais, conspurcadas 
pelas moscas. No soalho havia serradura espalhada e, por aqui e ali, notava-se p e sujidade. 
Reinava, todavia, certa ordem nas largas prateleiras onde se guardavam peas de fazenda vistosa 
'loias utenslios de cozinha e bagatelas; mas ao fundo, atrs o tabique, a confuso era evidente. 
Nesta parte no existiam prateleiras. Ao acaso, no cho de terra batida, empilhavam-se objectos 
heterogneos. No meio da obscuridade, Scarlett distinguiu caixotes e trouxas de mercadorias, 
arados e arreios, selas e atades de pinho. Acumulavam-se ao-scantos mveis de segunda mo, uns 
de madeira barata e outros de mogno e pau-santo; no era raro descobrir-se uma poltrona revestida 
de brocado ou outra pea mais rica. Juncavam o cho bacios, jarros, alguidares... Junto. das paredes 
abrigavam-se arcas enormes, mas o escuro era to denso que Scarlett teve de aproximar um 
candeeiro para verificar que elas continham sementes, pregos, ferrolhos e ferramentas de 
carpinteiro. 
"Sempre julguei que Frank fosse mais arrumado - pensou Scarlett limpandocom o leno as mos 
cheias de p. 
- Isto  um@ pocilga, no  um armazm. Seria melhor que ele espanejasse tudo o que tem aqui 
armazenado e expusesse os objectos l fora, de modo a que os pudessem ver e comprar". 
A avaliar pelo que via, como no estariam as contas! "Vou j deitar uma vista de olhos aos livros" 
decidiu Scarlett. E, pegando no, candeeiro, encaminhou-s@ para o outro lado do armazm. No foi 
de boa vontade que Willie, o caixeiro, lhe deu o livro-mestre. Decerto que, apesar de muito novo 
'partilhava da opinio de Frank e achava que as mulheres no se deviam intrometer em negcios. 
Searlett, porm. f-lo calar com uma frase rspida e mandou-o ir almoar. Sentiu-se mais  vontade 
#
sem aquela presena incomodativa e instalou-se numa poltrona junto do fogo aceso, com o livro no 
regao. Eram horas de almoo e as ruas estavam desertas. No havia perigo de ser importinada por 
clientes. 
Voltou as pginas lentamente, observando as filas de nomes e as colunas de nmeros escritas pela 
mo minuciosa de Frank. Era tal qual a que ela esperava, e franziu 
154 
as sobrancelhas ao descobrir mais esta falta de jeito para negcio manifestada pelo marido. Em 
frente de nomes seus conhecidos entre outros o dos Merriwethers e dos Elsings, figuraVam 
importncias cujo montante atingia pelo menos quinhentos dlares. Quinhentos dlares em 
prestados dvidas antigas, talvez de vrios meses! Depois do que F@ank lhe dissera acerca do 
dinheiro que "vrios indivduos" lhe deviam, Scarlett julgara tratar-se de somas insignificantes. Mas 
qual! 
"Se no podem pagar, para que continuam a comprar coisas?" pensou Scarlett, indignada. "E se ele 
sabe que no lhe pagam, por que continua a fornec-los? E muitos deles podiam reembols-lo, se 
Frank quisesse. Os Elsings, por exemplo, visto que tiveram posses para oferecer um vestido de 
cetim a Fanny e dar uma festa dispendiosa. Frank tem um corao bom demais, e os outros 
aproveitam e vo-no explorando. Se ele conseguisse reaver metade deste dinheiro, j podia comprar 
a serrao... e no se faria rogado para me dar o preciso para os impostos". 
"Quando penso que ele pretende dirigir uma serrao!" murmurou Scarlett. "Se transformou esta 
loja numa instituio de caridade, como se pode esperar que obtenha lucros com o comrcio de 
madeira? Ao fim de um ms o xerife vendia-lhe a serrao em hasta pblica... Sou capaz de dirigir 
esta loja melhor do que ele. E at uma serrao, embora no perceba nada de madeiras ... " 
Uma mulher mais competente em negcios do que um homem! Que ideia revo-lucionria para 
Scarlett, que fora embalada na tradio de que os homens so omniscientes e as mulheres mais ou 
menos estpidas!  claro, ela j vira que isso no, era verdade mas conservava ainda no esprito 
aquela agradvel fico. t a, nunca exprimira com palavras essa ideia notvel. Ficou imvel com 
o grosso volume sobre o regao, um tanto boquiaberta de surpresa, a pensar que, durante aqueles 
meses de privao em Tara, exercera trabalhos de homem e se sara muito bem. Fora educada na 
crena de que uma mulher szinha nada pode fazer, e no entanto, at  chegada de WilI, dirigira a 
plantao sem auxlio mascufino. 
"Conveno-me de que as mulheres podem fazer seja o que for sem a ajuda dos homens... excepto ter 
filhos, e Deus sabe que nenhuma mulher de juzo os deseja ter". 
 lembrana de que era to competente como um 
155 
homem, dominou-a sbito orgulho e violento desejo de pr  prova a sua capacidade de ganhar 
dinheiro, dinheiro que lhe pertenceria e do qual no tinha de prestar contas a ningum. 
"Queria ganhar bastante, para eu mesma comprar a serrao", disse ela em voz alta, e soltou um 
suspiro. "Tenho a certeza de que o negcio prospera comigo ali... De mim  que no apanhavam 
nem uma tbua a crdito". 
Tornou a suspirar. No via possibilidade de arranjar o dinheiro; portanta, devia pr de parte aquela 
ideia. 0 que havia a fazer era Frank tentar reaver o que lhe deviam e comprar a serrao. Depois ela 
teria de descobrir maneira de lhe incutir mais jeito para o comrcio do que ele patenteara na 
gerncia do armazm. 
Scarlett rasgou uma pgina em branco do livro e comeou a copiar a lista dos devedores que no 
tinham pagado nada nos ltimos meses. Quando chegasse a casa conversaria com Frank do assunto. 
Far-lhe-ia compreender que essas pessoas deviam liquidar as suas contas, embora fossem amig<>s 
dele e o incomodasse o facto de lhes exigir o dinheiro. Frank ia ficar sobressaltado, porque era 
tmido e queria a todo o custo, a estima dos vizinhos. Com a sua susceptibilidade, preferia perder 
dinheiro a reclamar o pagamento. 
Diria certamente que ningum se encontrava em situao de o reembolsar. No fim de contas, talvez 
fosse verdade. 
#
0, que imperava era a pobreza. Mas quase toda a gente possua ainda pratas e jias, ou at uni palmo 
de terra. Frank podia-se contentar com, isso,  falta de pagamento em dinheiro, 
Scarlett imaginava sem dificuldade as lamentaes do marido quando lhe expusesse tal ideia. Ficar 
com as jias e prdios dos amigos! "Pois que se lastime  vontade", pensou ela encolhendo os 
ombros. "Dir-lhe-ei que, se quiser; empob@ea para agradar -aos amigos, mas eu  que no vou 
nisso. Frank nunca alcanar nada se no tiver um pouco de energia, e  foroso que a tenha. 
Preciso de ganhar -dinheiro, nem que eu me arvore em homem da casa". 
De rosto contrado e lngua presa entre os dentes, estava ela muito ocupada a copiar a lista quando 
se abriu a porta da rua e uma corrente de ar frio varreu o armazm. Com a ligeireza dum ndio, 
atravessou c> compartimento um homem de elevada estatura, e Scarlett, erguendo os olhos, viu 
Rhett Butler. 
156 
Elegantssimo no seu fato novo, trazia um capote sobre os ombros macios. Tirou o chapu, num 
cumprimento rasgado, quando ela c> olhou cheia de espanto e levou a mo ao peito onde brilhava 
uma camisa imacuiada. 
-Minha cara senhora Kennedy! -exclamou, avanando para Scarlett e soltando uma gargalhada. 
De comeo ela teve tanto medo como se um fantasma lhe houvesse surgido no armazm. Depois, 
desembaraando a perna sobre que se tinha sentado, endireitou-se e lanou a Rhett um olhar glacial. 
- Que faz aqui? -Fui visitar a senhora Pittypat. Soube do seu casamento e apressei-me a vir 
apresentar as minhas felicitaes. 
A lembrana da humilhao por que passara quando Rhett lhe havia examinado as mos f-la 
corar de vergonha. 
- Parece incrvel que ainda tenha o descaramento de se mostrar diante de mim! - exclamou. 
- Pelo contrrio! Eu  que admiro o seu descaramento. 
- Oh! Voc  o maior... -Se tocssemos a cessar fogo? -sugeriu ele com um 
largo sorriso. 
Sem querer, _Scarlett sorriu tambm, mas com um sorriso forado e pouco seguro. 
-Que pena no o terem enforcado! -Nem todas as pessoas so da sua opinio. Vamos, Scarlett, no 
faa carrancas, que no lhe ficam bem. J teve tempo de se restabelecer da minha... brincadeira. 
-Brincadeira? Nunca a esquecerei. -Isso passa. Mostra-me esse ar carrancudo s porque julga ser da 
sua obrigao e porque lhe d um aspecto respeitvel. Posso sentar-me? 
- No. Rhett deixou-se cair numa cadeira junto de Scarlett e riu-se. 
-Soube que nem foi capaz de esperar por mim duas semanas - observou ' simulando um suspiro. - 
As mulheres so muito inconstantes! - No obteve resposta e prosseguiu: - Aqui entre ns, velhos e 
ntimos amigos ' diga-me uma coisa: no, teria sido mais sensato esperar que eu sasse da cadeia? 
Ou.considerou a vida conjugal com Frank Kennedy mais atraente que as relaes ilcitas comigo? 
Como sempre que Rhett troava dela, Scarlett sentiu 
157 
uma onda de indignao, mas, ao mesmo tempo, velo-lhe grande vontade de rir por tamanha 
impudncia. _ No diga disparates. 
-n capaz de satisfazer a minha curiosidade sobre um ponto que me atormentou durante certo tempo? 
No experimentou certa repugnncia feminina, a sua delicadeza no se impressionou com o facto de 
casar no com um mas com dois homens a quem no dedicava amor nem afeio? Ou fui mal 
informado com respeito  sensibilidade das mulheres sulistas? 
- Rhett! -Pronto, j respondeu, Sempre desconfiei que as mulheres possuam energia e resistncia 
que os homens desconhecem, embora me inculcassem desde a infnca que eram criaturas frgeis, 
ternas e sensveis. Mas pensando bem, e consoante a moda seguida na Europa, n@  de bom tom 
haver amor entre marido e mulher. P, mesmo de muito mau gosto. Sempre achei que os Europeus 
tinham razo neste ponto. Casa-se por interesse e ama-se por prazer. Sistema inteligente, no  
verdade? Voc est mais perto da me-ptria do que eu julgava. 
Quanto. lhe agradaria ripostar: No me casei por interesse! Inteligente, 11hett sabia o que dizia e 
#
qualquer protesto de inocncia s faria desencadear nova revoada de sarcasmos. 
- Que bem voc discorre! - limitou-se a comentar. E ansiosa por mudar de assunto, perguntou: - 
Como cons@guiu sair da priso? 
- Isso no foi difcil - replicou ele, com um leve gesto desdenhoso.-Puseram-me em liberdade esta 
manh. Devo-o ao facto de ter manejado um delicado sistema de ameaa de revelaes contra um 
dos meus amigos de Washington, que desempenha altas funes nos conselhos do Governo Federal. 
Esplndido tipo... um dos pilares da Unio, a quem comprei muitos arcabuzes para os confederados. 
Ao saber da minha situao trgica apressou-se a interceder em meu favor, usando a sua influncia, 
e assim me deram a liberdade. A influncia  tudo Scarlett. Se um dia for presa, lembre-se de que 
s a influncia  que conta; a culpa ou a inocncia no passam de uma simples questo de 
formaldade. 
-Era capaz de jurar que voc no est inocente. 
- Agora que j me soltaram, posso confessar que sou 
158 
to culpado como Caim. Matei realmente o preto. Faltou ao respeito a uma senhora. Podia proceder 
doutra forma um cavalheiro sulista? E, j que entrei no domnio das confisses, quero dizer-lhe que 
tambm dei cabo de um yankee, depois duma discusso numa taberna. No me acusaram desse 
pecadilho, e  possvel que qualquer outro pobre diabo fosse h muito tempo enforcado em meu 
lugar. 
Falava com tanta desenvoltura dos seus crimes que Scar~ lett ficou arrepiada. Ia manifestar a sua 
indignao quando, de repente, se lembrou do yankee que jazia sob o solo de Tara. A sua morte 
pesava-lhe tanto na conscincia como a dum verme que ela houvesse pisado. No tinha o direito de 
censurar Rhett, visto ser to culpada como ele. 
- E finalmente, como estou em mar de desabafos, dig(>-lhe muito em segredo (isto significa que 
no deve falar do caso  sua tia Pitty) que o dinheiro se encontra em segu@rana num Banco de 
Liverpool. 
-0 dinheiro? 
- Sim, aquele que despertava tanta curiosidade aos yankees. Scarlett, no foi por mesquinhez que 
no lhe emprestei a importncia que me pediu. Se eu lhe passasse, um cheque, eles seguiam-lhe o 
rasto e voc no recebia um cntimo. A minha nica possibilidade era conservar~me mudo e quedo. 
No entanto eu sabia que o dinheiro no corria grande risco, pois, na pior das hipteses isto  se 
descobrissem o seu paradeiro eu denunciari@, todos' os patriotas yankees que me ven'deram armas 
e munies durante a guerra. Ora isso causaria um escndalo dos dia, bos, porque alguns deles so 
hoje grandes individualidades em Washington. Em suma, foi unicamente o receio de que eu falasse 
que me valeu sair da priso. Eu... 
- Quer dizer... que tem de facto o oiro da Confederao? 
- No todo. Deve haver pelo menos cinquenta tipos que transferiram boas somas para Nassau, 
Inglaterra e Canad. No somos muito bem vistos pelos confederados que foram menos espertos 
que ns. Eu tenho cerca de meio milho. Imagine Scarlett meio milho de dlares! Ah, se tivesse 
dominado o seu 'feitio impetuoso, se no se atirasse de cabea a novo casamento ... ! 
Meio milho de dlares!  !dela de tal soma ' Scarlett, sentiu como que uma dor fsica. J nem 
ouvia as frases trocistas de Rhett. Custava-lhe a crer que existisse tanto dinheiro neste vale de 
lgrimas onde reinava a misria. 
159 
Tanta riqueza nac mos de quem no precisava! E pensar que ela s conseguira um marido velho e 
doente, aquela lojeca imunda e a hostilidade geral! No era justo que Rhett Butler, um pria, 
dispusesse de tanto dinheiro e ela, que to pesado fardo carregava, possusse to pouco. Sentiu uma 
onda de dio ao v-lo alicom. aquele ar de janota a dirigir-lhe motejos.' A verdade  que ela 
tambm no, merecia felicitaes pela sua habilidade. Scarlett tentou vingar-se com palavras que o 
ferissem. 
-Acha bonito ficar com o dinheiro da Confederao? Eu no acho. n um roubo., bem o sabe. No 
#
queria ter isso na conscinc@a. 
--Ah! Esto verdes no prestam!-volveu Rhett, fazendo uma, careta. -Querer explicar quem so OS 
roubados? 
Searlett ficou calada. No, fim de contas, ele s fizera o que Frank tinha feito em pequena escala. 
- Metade desse dinheiro  muito meu - continuou Rhett. - Ganhei-o honestamente com o auxlio de 
bons patriotas da Unio que estavam dispostos a vender  ptria com lucro de cem por cento. Parte 
desse dinheiro  o resultado da maneira como empreguei os meus capitais. No princpio da guerra 
comprei algodo por matuta e meia e revendi-o a dois dlares ao quilo, quando as fbricas inglesas 
de fiao o queriam por qualquer preo. Outra parte provm das minha& especulaes com 
mantimentos. Por que havia de deixar os yankees aproveitarem o fruto do meu trabalho? Mas o 
resto pertence  Confederao. Deriva do alg(>do confederado que consegui mandar para fora do 
pais e que vendi a preos fabulosos no mercado de Liverpool. Deram-me esse algodo, de boa f 
para que eu em troca os fornecesse de cabedais, armas e mquinas. E eu tambm de boa f 
tencionava cumprir a minha misso. Recebi ordem para depositar o oiro em meu nome nos Bancos 
ingleses, a fim de que o, meu crdito, fosse bom. Quando apertaram o cerco, vi-me na 
impossibilidade de fazer com que sasse ou entrasse no porto confederado. Que resoluo tomar? 
Levantar todo esse oiro dos Bancos ingleses, como um palerma, e esforar-me por envi-lo por 
Wilmington, para que os yankees lhe deitassem a mo? Foi culpa minha se a Causa no triunfou? 0 
dinheiro pertencia  Confederao. Ora a Confederao deixou de existir... embora se duvide 
quando se ouve falar certas pessoas. A quem entregar o dinheiro? Ao 
160 
Governo yankee? Custa-me tanto pensar que me tomam por gatuno que ainda me vou agarrar a esta 
soluo. 
Olhando para Scarlett como se estivesse ansioso de saber a opinio dela, tirou'da algibeira um estojo 
de cabedal, serviu-se dum charuto de grandes dimenses e cheirou-o como fumador entendido. 
"Diabos o levem", pensou Scarlett. "Corta-me sempre as vazas. H qualquer coisa que falta na 
argumentao deste homem Mas qual , ao certo? Gostava de descobrir". 
- evia distribuir esse dinheiro pelos mais necessitados -disse ela em voz alta, num tom cheio de 
dignidade. - 
A Confederao j no existe, mas h ainda muitos confe-@ derados que morrem de fome, eles e as 
respectivas famlias. 
Rhett lanou a cabea para trs e soltou uma gargalhada. 
-Quando diz hipocrisias dessas voc fica mais encantadora do que nunca. Profira sempre a verdade, 
Scarlett. No deve mentir. Os irlandeses no tm jeito nenhum para mentirosos. A si, pouco importa 
a Confederao e pouco importa que os confederados morram de fome. Se eu comeasse a distribuir 
este dinheiro sem lhe dar, a voc, a parte do leo... quantos protestos no sairiam da sua boca? 
- No preciso do seu dinheiro - replicou ela, procurando conservar-se calma. 
-Ora, ora... J est de mo estendida. Bastava que eu mostrasse uma das moedas... Voc saltava-lhe 
logo em cima! 
- Se veio. aqui para me ofender e rir da minha pobreza, peo-lhe que se retire j -declarou Scarlett, 
tentando desenvencilhar-se do pesado livro para poder levantar-se e dar mais fora s s-uas 
palavras. 
Num abrir e fechar de olhos, Rliett precedeu-a e, inclinando-se risonho, obrigou-a a sentar-se outra 
vez. 
- Quando  que deixa de se enfurecer ao ouvir dizerem-lhe a verdade? Voc que no tem papas na 
lngua, por que se incomoda ao @scutar o que pensam de si? No a insultei. Considero at a 
ganncia uma bela qualidade. Alis, no vim c para me regozijar com a sua pobreza, mas sim para 
lhe desejar muitos anos de felicidade conjugal. A propsito, qual foi a reaco da mana Suellen ao 
ver-se esbulhada? 
- Ver-se qu? 
- Esbulhada. Voc palmou-lhe o Frank. il - Vento I~OU - 11 161 
#
- Eu no... 
- Vamos no se ponha com evasivas. Que disse ela? -Nada,-' declarou Scarlett. Os olhos de Rhett 
brilharam de malcia. 
- V-se que a mana no  egosta. Agora falemos de si, da sua penria. Julgo que tenho o direito de 
saber depois da visita que me fez na priso, no h muito tempo@. Frank no  to rico como voc 
calculava? 
No havia forma de escapar quele impudente. Ou tinha de o ouvir, ou ento expuls-lo quanto 
antes. E o pior  que ela no sentia vontade de o mandar embora. Rliett falava-lhe com dureza, mas 
o que dizia era justo: sabia o que Scarlett fizera, as razes que a haviam levado a isso e parecia no 
a ter, afinal, em muito m conta. Embora aquelas perguntas a magoassem, denotavam no fim de 
contas interesse de amigo. Ali estava uma pessoa a quem se podia contar tudo. Esta ideia dava-lhe 
certo alvio, pois ultimamente Scarlett no encontrara ningum com quem desabafar. Sempre que 
procurava exprimir os seus sentimentos, os outros mostravam-se melindrados. Falar com Rhett s 
se comparava a uma coisa:  impresso de bem-estar que se sente quando se descala um par de 
sapatos apertados para enfiar umas chinelas confortveis. 
-No conseguiu o dinheiro para as contribuies? - 
insistiu ele, num tom de voz diferente. -No me diga que Tara ainda corre perigo de se perder. 
Scarlett ergueu a cabea, fitou-o e surpreendeu-lhe uma expresso que de comeo a intrigou e 
depois a levou a sorrir, sorriso calmo e confiante que j no. lhe era habitual. Aquele homem era um 
perverso mas .como, s vezes, se tornava simptico! Compreende@ que ele no viera procurla 
para a arreliar, mas para saber se conseguira o dinheiro por que tanto ansiava. E compreendeu 
tambm que, sem o dar a entender, Rhett correra logo, ao sair da priso para lhe emprestar a soma 
de que lhe falara anteriorm@nte. Contudo, seria capaz de a atormentar e de negar at qual fora o 
seu intento. Chegava a ser incompreensvel! Querer-lhe-ia assim tanto, mais do que a prpria 
Scarlett poderia supor? Ou haveria outro motivo para a visita? Sim, isto devia ser o mais natural. 
Mas nunca se podia saber, porque esse homem fazia s vezes coisas bastante estranhas. 
- No - respondeu por fim. - Tara j no corre perigo. Obtive o dinheiro. 
162 
- Mas no sem esforo, com certeza. Apanhou-o mesmo antes do... casamento? 
Scarlett diligenciou ficar sria perante aquela exposio exacta das suas manobras; mas no pde 
evitar que um sorriso lhe aflorasse aos lbios. Rhett voltou a sentar-se e estirou as pernas, sem 
constrangimento. 
- Conte-me coisas da sua vida. Esse idiota do Frank desiludiu-a? Merecia uma, boa lio se por 
acaso abusou duma mulher abandonada. Vamos Scarlett conte-me tudo. Para mim no deve ter 
segredos. Eu j sei o pior... 
-0h., Rliett pois atreve-se!... No, ele no me desiludiu, mas... - D@ sbito, sentiu grande prazer em 
pr a nu o corao. - Rliett, se Frank quisesse reembolsar-se do que lhe devem, as minhas 
preocupaes acabavam. Mas que quer? H cinquenta pessoas que lhe so devedoras e ele no se 
resolve a exigir o dinheiro! No tem jeito para o negcio. Diz que um cavalheiro no pode pedir a 
outro cavalheiro o pagamento duma dvida... Vai ser preciso esperar meses... ou a vida inteira... para 
realizar os crditos. 
- E daqui at l? Vocs tm com que se governem? 
- Temos  verdade mas... se eu pudesse conseguir certa soma, alvez que...'- Pensando na serrao, 
os olhos de Scarlett cintilaram. 
- Para qu? Mais impostos? 
- No,  da sua conta... 
- n sim, porque voc est vai no vai a pedir-me um emprsimo. Conheo os preliminares. E o que 
tem graa  que estou disposto a aceder... sem a tal garantia que me ofereceu em tempos. A no ser 
que voc torne a insistir... 
- Nunca vi um homem to ordinrio! 
- Nem por isso. Quis apenas p-la  vontade. Sabia que o caso a apoquentava... no muito ' mas 
#
enfim alguma coisa. Pois eu empresto-lhe o dinheiro. Qu@ro ape@as saber a que o destina. Julgo 
que no  grande exigncia. Se vai comprar vestidos ou carruagem, tome-o l com todo o gosto; 
agora, se for para umas calas nGvas: a oferecer a Asliley Wilkes... apetecia-me recusar. 
Sufocada por uma repentina clera, Scarlett gaguejou at que pde articular a resposta: 
-Ashley Wilkes nunca recebeu um cntimo que me pertencesse. Nem o aceitaria, ainda que 
estivesse a morrer de fome. Nem faz ideia de quanto ele  orgulhoso e honesto. 
163 
P, claro que voc, com a sua vida, dificilmente compreender... 
- No recomece a. chamar-me nomes, Eu seria capaz de retribuir com outros, no mesmo gnero. 
Lembre-se de que, atravs da senhora Pittypat fiquei ao corrente da sua situao. Ela no se fez 
roga6 para contar tudo o que sabia. AshIey no saiu de Tara, depois que voltou de Rock Island, e 
voc teve de dar hospedagem  mulher dele, por iriais que isso lhe custasse. 
- AshIey ... 
- Bem sei - atalhou Rhett, fazendo um gesto indolente com a mo. - AshIey  um ente sublime, que 
os pobres terrqueos mal compreendem. No esquea, de que fui testemunha (e muito interessada) 
da cena to terna que teve com ele nos Doze Carvalhos. Desconfio que o homem no mudou da 
para c. Voc tambm  a mesma. Naquele dia, ele no fez bonita figura se bem me recordo. No 
tinha nada de sublime! Calculo que 'ho@e seja igual ao que era ento. Por que no leva ele a 
famlia para outro lado? Por que no procura trabalho? Por que se meteu em Tara? Entre homens, 
h uma palavra para definir os que se deixam sustentar pelas mulheres... 
- Atreve-se a falar desse modo? AshIey trabalha na quinta! - Recordava-se da ocasio em que o vira 
a talhar estacas, e o corao enterneceu-se-lhe. 
-Vale quanto pesa, o cavalheiro! Com que delicadeza h-de ele lanar o estrume  terra... 
- Ashley... 
- Bem sei. Admitamos que faz o melhor que pode. Mas no creio que seja de grande ajuda. Nunca 
voc conseguir transformar um Wilkes num lavrador. ]@ uma raa puramente ornamental. No se 
exalte e oia as minhas consideraes sinceras acerca do orgulhoso e honesto AshIey. P, esquisito 
como persistem iluses desta ordem, mesmo em mulheres que tm, como voc a cabea no seu 
lugar. Ento diga l: de quanto precisa?  que vai fazercom esse. dinheiro? - Scarlett no respondeu 
e ele continuou: - 
Para que ? Faa o possvel de me ialar com toda a franqueza, Se mentir, eu acabarei por saber a 
verdade, e pense quanto isso seria desagradvel para si. Lembre-se sempre, Scarlett, de que aceito 
tudo menos uma mentira. Suporto a sua antipatia, as suas zangas as suas manhas, mas uma peta, 
no! Ento: para que  @ dinheiro? 
164 
Indignada pelo ataque feito a AshIey ela desejaria recusar-lhe a oferta, sem mais explicae@. 
Durante uns segundos, esteve tentada a faz-la, mas o bom-senso acabou por vir  tona, Dominou a 
custo o seu furor e diligenciou aparentar uma expresso de calma dignidade. Rhett, entretanto, 
recostara-se na cadeira, espetando as pernas na direco do lume. 
-No h nada no mundo que me divirta mais - confessou ele -do que v-Ia lutar consigo mesma, 
quando os princpios morais combatem as questes de ordem prtica que pretendem impor os seus 
direitos. P, claro que estas vencem sempre aqueles... mas tenho curiosidade de observar se, algum 
dia, se d o contrrio. H multas mulheres em quem geralmente triunfam os sentimentos. Se lhe 
acontecer uma coisa dessas, eu fao as malas e vou-me embora de Atlanta. Voltemos, porm,  vaca 
fria: quanto e para qu? 
-Ao certo, no sei de - quanto necessito -respondeu ela astuciosamente. - P, para comprar uma 
serrao... e suponho que a alcanarei por pouco dinheiro. Se a comprar, preciso tambm de duas 
mulas. Quero mulas que sejam boas. E tambm um cavalo e um trem para meu uso pessoal. 
- Uma serrao? 
- Sim, se me emprestar o dinheiro. Dar-lhe-ei cinquenta por cento dos lucros. 
-Que diabo faria eu duma serrao? 
#
- Podia transform-la numa mina de oiro. Ganharamos fabulosamente. Mas, se prefere, pago-lhe s 
os juros do emprstimo. Qual  a, taxa? 
- Cinquenta por cento  razovel... 
- Ah, deixe-se de brincar! Falo a srio. 
- n por isso que eu rio. Gostava de saber se mais algum percebe, como eu, o que se passa por trs 
dessa carinha enganadora, 
-E isso que importa? Escute-me, Rhett e digame se o negcio  bom ou no. Frank ' h dias 
f`alou-me desse sujeito que tem uma serrao, para os laos de Peachtree Road, e que a deseja 
vender. 0 homem precisa de dinheiro a todo o custo e desfaz-se da fbrica por um preo barato. H 
poucas serraes por aqui, e com esta mania da reconstruo... Podamos vender a madeira a como 
quisssemos! Ele continuaria  frente do negcio, a troco de ordenado. 
165 
 
Se Frank tivesse dinheiro era ele quem comprava a fbrica.' Desconfio que destin@va a isso a 
importncia que me cedeu para eu pagar as contribuies. 
-Coitado do Frank! Que ir ele pensar, quando lhe disser que voc mesma se adiantou ao seu 
projecto? E como lhe explicar que lhe emprestei a quantia necessria, sem comprometer a sua 
reputao? 
Scarlett no se lembrara disso, to interessada. estava nos lucros que ia obter. 
-Ora, no se lhe diz nada! 
- Em todo o caso, ele sabe que voc no dispunha dessa importncia... 
- Digo-lhe ento... Espere, digo-lhe que vendi os brincos de diamantes. Demais a mais, tencionava 
dar-lhos * voc... como garantia... 
- No aceito. 
- E eu no quero ficar com eles. No os aprecio muito, * no fim de contas, no so bem meus. -De 
quem so? Scarlett evocou aquele dia quente de Tara e o morto estendido no vestbulo, de uniforme 
azul. 
- Foram-me deixados... por algum que morreu. Sim, so meus. Tome-os, no os quero. Prefiro 
reduzi-los a dinheiro. 
- Santo Deus! -exclamou Rhett. - Voc no pensa noutra coisa! 
-P, verdade- replicou ela ' com toda a franqueza, olhando-o de frente. - Se passasse pelo que eu 
passei, diria igualmente que o dinheiro  a coisa mais importante do mundo. Deus  testemunha de 
que estou resolvida a nunca mais voltar  penria. 
Velo-lhe  memria o sol ardente, a terra mole e vermelha que lhe servira de cama, o cheiro da 
gente negra que se evolava das cubatas, por trs das runas dos Doze Carvalhos. "Nunca mais 
passarei fome! Nunca, mais!" 
- Mais dia menos dia - continuou em voz alta - terei dinheiro suficiente para comer tudo o que for 
do meu agra o. Ho-de acabar as papas de milho e as peras assadas. E terei vestidos bonitos, todos 
de seda... 
- Todos? 
- Todos - repetiu Scarlett, sem sequer pestanejar. - 
Hei-de ter bastante dinheiro para que os yankees no possam nunca tirar-me Tara. Mandarei mudar 
o telhado 
166 
da casa, reconstruir o celeiro, e, com as boas mulas que tenciono comprar para lavrar a terra, a 
colheita de algodo ser coisa nunca vista. Wade ter enfim tudo o que precisa. Dar-lhe-ei tudo o 
que se pode imaginar. E a minha famlia no tornar a passar fome. Ver. Hei-de cumprir o que 
estou a dizer. Voc,  claro, no pode compreender-me.  to egosta! Alm disso'nunca se viu na 
iminncia de ser posto fora de casa pelos Sacolas. Nunca teve frio, nunca andou coberto de andrajos 
nem se viu obrigado a trabalhar como um negro para no morrer de fome. 
- Passei oito meses no Exrcito da Confederao - 
#
observou Rhett em tom plcido. - No conheo melhor sitio para se morrer de fome. 
- 0 Exrcito! Ora, ora! Voc nunca apanhou algodo, nem semeou milho... No esteja a rir-se de 
mim! 
Rhett pegou-lhe nas mos. 
- No me rio de si. Rio-me da diferena que existe entre o que voc parece e o que  realmente. No 
me esqueo da primeira vez que a vi, na festa dos W11kes. Estava de vestido verde e sapatinhos da 
mesma cor. Todos os homens a rodeavam e voc mostrava-se muito cheia da sua pessoa... Aposto 
que nesse tempo nem sabia quantos cntimos tem um dlar. Nesse dia, voc s pensava numa coisa: 
seduzir AshIey. 
Scarlett desprendeu as mos com gesto, violento. 
- Rhett 'se quer que continuemos bons amigos, no volte a falar-me de AshIey Wilkes. Ser sempre 
para ns o pomo de discrdia, porque no o compreende, no o pode compreender. 
-Ao passo que voc l nele como um livro -volveu Rhett com malcia. - No, Scarlett ' se tu lhe 
empresto o dinheiro tambm tenho o direito de falar de AshIey Wilkes nos termos em que me 
apetecer. Renuncio ao direito de reclamar os juros do eml)rstimo, mas no a esse. Alis, h certo 
nmero de coisas que eu gostaria de saber acerca desse sujeito. 
-Nada direi a respeito de AshIey. -Est enganada, Lembre-se de que eu  que seguro os cordes da 
bolsa. Quando voc for rica ter o poder de fazer o mesmo aos outros.  claro como gua que o 
amaainda ' 
l@o o amo. Basta ver a maneira como o defende. 
167 
-No admito que meta a ridculo os meus amigos. 
- Trataremos depois desse assunto. Ora diga-me c: ele ama-a sempre ou a priso f-lo esquecer o 
amor que lhe dedicava? Talvez acabasse por compreender a jia de esposa que tem... 
Esta aluso a Melanie deixou Searlett ofegante. A sua vontade seria contar tudo a Rhett, explicarlhe 
que s a. honra retinha Ashley ao p da mulher. Abriu a boca para falar, mas fechou-a logo. 
-Oh, percebo! Ainda no lhe chegou a sensatez para apreciar a senhora Wilkes. Os rigores da priso 
no lhe apagaram o fogo que voc lhe ateou? 
-No vejo necessidade de prolongarmos esta conversa. -Pois eu veio, e espero que me responda - 
redarguiu Rhett num tom de voz que desagradou a Scarlett e a deixou intrigada. - Continua 
apaixonado por si? - insistiu ele. 
- E se assim for, que tem com isso? - repl'icou Scarlett, irritada. -No quero falar~lhe de AshIey. 
Voc  incapaz de o compreender, a ele e ao seu modo de amar. 0 gnero de amor que voc conhece 
 s aquele que sente por criaturas como a Watling. 
- Oh, oh! - exclamou Rhett, em voz branda. - Com que ento s me considera susceptvel de amor 
carnal. 
- Sabe perfeitamente que  assim. 
- Compreendo agora a sua repugnncia em tratar comigo do assunto. As minhas mos e os meus 
lbios impuros maculariam a pureza do vosso amor. 
- Sim... mais ou menos. -Estou interessadssimo por esse amor to inocente. -No se ponha com 
insinuaes. Se  to vil para imaginar que existe alguma coisa de mau entre nos... 
-Nunca tal ideia me passou i)ela cabea. Eis porque tudo isso me interessa tanto. Gostaria bastante 
de saber porque  que nunca houve nada de mau entre ambos. 
-Julga que AshIey faria... 
- Ah foi AshIey e no voc quem desencadeou a luta pela pur@za! Francamente, Scarlett, no 
esperava que se 
trasse com tanta facilidade. 
Confusa e revoltada, Scarlett lanou um olhar furibundo a Rhett, que se manteve sereno e 
impenetrvel. 
- Basta! No quero o seu dinheiro. Portanto, v-se embora. 
-Quer, sim, no diga o contrrio. E j que chegmos 
#
168 
at aqui, por que havemos de parar a meio do caminho? No prejudica ningum continuarmoG a 
falar de to casto idilio. Ento AshIey ama-a pelo seu esprito, pela sua alma, pela sua nobreza de 
carcter? 
Scarlett estremeceu ao ouvir estas palavras. Sim era s por isso que AshIey a amava. Esta certeza  
que l@e permitia suportar a existncia, a certeza de que AshIey' sub,jugado pela honra, a amava e 
respeitava por todas as belas qualidades que ela possua e s ele era capaz de ver. Todavia, essas 
qualidades perdiam toda a sua beleza assim expressa naquele tom de voz melfluo e sarcstico, 
- Faz-me voltar aos meus tempos de menino e moo saber que ainda existe semelhante amor nesta 
era de imo,-' ralidade - prosseguiu Rhett. - Visto isso, a carne no intervm no amor que ele lhe 
dedica? 0 seu amor seria o mesmo se voc fosse feia e no possusse essa ctis de camlia? Se no 
tivesse esses olhos verdes que incitam uni homem a ficar na dvida do que voc faria se ele a 
abraasse e a beijasse? Se no meneasse as ancas duma maneira que  urna tentao para qualquer 
homem com menos de oitenta anos? Se esses lbios--- Mas no intrometamos nesta conversa a 
minha luxria da carne. Ento AshIey no v nada disso? Ou, ainda que veja, fica indiferente? 
Searlett no pde deixar de evocar aquele dia em que, no pomar de Tara, AshIey a @ipertara nos 
braos trmulos e a beijara prolongadamente, como que sequioso dos lbios dela. Esta recordao 
f-la corar, e o seu rubor no passou despercebido a Rhett. 
-No me queira convencer de que ele a ama pela sua alma! -exclamou Rhett, em cuja voz vibrou 
uma nota prxima da clera. 
Corno se atrevia esse homem a tocar com os dedos sujos na nica coisa bela e sagrada da sua vida? 
Fria ' dliberadamente, ia demolindo a reserva de Scarlett e a Informao que ele queria no a 
tardaria a obter. 
-Sim! -exclamou ela, procurando banir da memria a lembrana dos lbios de AshIey unidos aos 
seus. -  s pela m@nha alma que me ama. 
-Mas se ele nem sabe se voc a tem' Se fosse a sua alma, o seu esprito que o atrasse ,AshIey no 
precisaria de lutar contra si, corno deve ter feito, para conservar a... pureza do seu amor. Podia 
dormir descansado porque, no fim de contas, o facto de um homem admirar a alma e o 
169 
carcter duma mulher no implica desonra nem infidelidade  esposa. Mas muito difcil lhe deve ser 
conciliar a honra dos Wilkes com o desejo que o seu corpo lhe inspira. 
- Julga os outros por si, e como  um ente vil... -Nunca neguei que a desejasse, se  isso que est a 
insinuar. Mas, graas a Deus as questes de honra nunca me embaraaram, Aquilo q@e eu desejo 
tenho logo que posso. Por isso no preciso de sustentar combates contra anjos nem contra 
demnios. Voc transformou num lindo inferno a existncia de Asliley. Quase chego a ter pena 
dele. 
-Eu... transformei-lhe a existncia num inferno? 
S, 
- =, voc. ]@ uma tentao permanente, mas ele no cede, pois, como todos os da sua espcie, 
sacrifica o amor  chamada honra. E tenho c a impresso de que o pobre diabo no tem honra nem 
amor a anim-lo... 
-Amor, tem... Isto , ama-me. -Ali, sim?! Nesse caso, responda-me  pergunta que lhe vou fazer e 
ficaremos hoje por aqui. Depois entrego-lhe o dinheiro. Atire-o para a valeta, se quiser. Pouco me 
importa com isso. 
Rhett ps-se de p e lanou ao escarrador o charuto meio consumido. Os seus gestos evocavam 
aquela liberdade pag'aquela fora contida que impressionara Scarlett na noite da queda de Atlanta. 
Havia nele qualquer coisa de sinistro e um tanto assustador. 
- Se ele a ama, por que diabo a deixou vir a Atlanta procurar dinheiro para os impostos? Antes de 
consentir que uma mulher que eu amasse fizesse semelhante coisa, eu... 
- Ele no sabia! No fazia ideia que eu. .'. 
- E a voc mesma no ocorreu que ele devia saber? -A voz de Rhett tomou um tom de ferocidade 
#
mal disfarada. - Amando-a como voc pretende, tinha a obrigao de adivinhar a que expediente o 
desespero a levaria. Era, prefervel mat-la a deix-la vir c... e sobretudo deix-la vir ter comigo. 
-Mas ele no sabia! 
- Se no adivinhou  porque no a conhece nem  sua preciosa alma. 
Que injustia a de Rhett! Como se Asliley tivesse o dom de ler nas almas! Como se ele a pudesse 
deter, caso sou- ,besse o que se passava! Sim, poderia t-la detido, pensou de repente Searlett. 
Nesse dia, no pomar bastaria uma palavra sua a respeito duma possvel alterao das coisas, e 
jamais 
170 
ela se haveria resolvido a procurar Rhett Butler. Urna palavra apenas, de ternura um simples gesto 
de adeus, ao subir para a comboio- @ Scarlett voltaria para trs. Ele, porm s falara da 1;onra. 
Contudo... Rhett teria razo? Ashle@ saberia das suas intenes? Imediatamente ps de lado esse 
pensamento desleal. Com certeza que ele nada sabia. Asliley no podia acreditar que ela albergasse 
pensamentos to imorais: era em demasia generoso para imaginar semelhante soluo. 0 que Rhett 
pretendia era conspurcar aquele amor. "Qualquer dia - disse de si para si - 
quando o armazm e a serra<> estiverem a dar lucro, obrigarei Rhett a pagar-me todos os 
sofrimentos e humilhaes a que me sujeita agora". 
Ele estava de p, dominando-a com a sua estatura, e observava-a com um ar de riso divertido. 
Desaparecera-lhe a comoo, que um instante o agitara. 
-E que lhe importa tudo isso?-perguntou ela.l@ comigo e com Ashley, no  consigo. 
Rhett encolheu os ombros. 
- Oia ainda: admiro, com a maior imparcialidade e desinteresse, a energia de que voc d provas. 
Desagrada-me, pois, ver as dificuldades por que passa. Tara, por exemplo... 12 um encargo j de si 
grande para um homem. Depois a doena do seu pai ' que no poder nunca mais ajud-la seja no 
que for. As suas irms, os pretos... E agora, ainda por cima, tem de cuidar dum marido e decerto 
tambm da senhora Pittypat. Mesmo sem Asliley e a famlia dele, j voc tomou aos ombros uma 
carga pesadssima. 
-Ele no me faz peso. Pelo contrrio. auxilia-me... 
- Ora por amor de Deus! - atalhou Rhe@t, impaciente. -Esse l@omem no lhe serve de nada. Est 
agora a seu cargo, amanh estar a cargo doutra pessoa, mas nunca de si mesmo. Mas parece-me 
que ele no merece tanta conversa. De quanto precisa? 
Scarlett sentiu que lhe subiam aos lbios palavras de indignao. Depois de tantos insultos, depois 
de haver escarnecido de tudo o que ela mais amava, atrevia-se ainda a supor que lhe aceitaria o 
dinheiro! Mas essas palavras no as chegou a proferir. Seria to bom recusar~lhe a oferta, com 
desprezo, seria to bom ordenar-lhe que sasse! Infelizmente s os ricos se podem permitir esse 
luxo. Enquanto ela fosse pobre, teria de suportar cenas como aquela. Mas, quando dispusesse de 
muito dinheiro, no admitiria nada 
171 
I@k 
que lhe desagradasse, no prescindiria daquilo que lhe apetecesse: e quanto a delicadeza 's a havia 
de usar para com as pessoas que lhe fossem simpticas. "Aos outros -pensou - mand-los-ei bugiar. 
Rliett Butler ser o pri~ meiro!" 
0 prazer que esta ideia lhe causou fez cintilar um claro nos@ seus olhos verdes e entreabriu-lhe os 
lbios num meio sorriso. Rhett sorriu por seu turno. , 
-Voc  deliciosa, Scarlett, em especial quando medita em qualquer diabrura. S para a ver sorrir eu 
compraria uma dzia de mulas, se mas quisesse aceitar! 
Abriu-se a porta da rua e entrou o empregado, de palito nos dentes. Scarlett levantou-se, 
aconchegou o xaile nos ombros e deu um lao sob o queixo, s fitas do chapu. Tinha tomado uma 
de@iso. 
-Est ocupado esta tarde? -perguntou a Rhett.Pode acompanhar-me neste momento? 
-Aonde? - serrao, de carruagem. Prometi a Frank no sair da cidade szinha. 
#
-Mas irmos  serrao, com esta chuva? -Sim, senhor, quero comprar a fbrica, antes que voc 
mude de ideias. 
Rliett deu uma gargalhada to estrepitosa que o caixeiro estremeceu l no balco e olhou espantado 
para aquele senhor que ele no conhecia. 
- -Esqueceu-se de que  casada? A senhora Kennedy no vai passear de carruagem, ao campo, em 
companhia dum tipo como. eu. Lembre-se da sua reputao. 
- Reputao? Ora adeus! Vou comprar a fbrica antes que voc se arrependa ou que Frank desconfie 
do meu plano. No seja teimoso, Rhett. Que lhe importa um pouco de chuva? V, despache-se! 
A serrao... Sempre que pensava nela, Frank resmungava maldizendo o dia em que fizera 
confidncias  mulher.'No bastava Scarlett a haver comprado, vendendo os brii@cos de diamantes 
ao capito Butler; o pior era querer agora dirigir sozinha o negcio! Aquilo parecia-lhe mau sinal. 
Dir-se-ia que no confiava no marido, nem nas suas capacidades. 
Frank, como todos os homens da sua classe, achava que as mulheres deviam ser guiadas em tudo 
pelos respectivos 
172 
maridos: aceitarem as suas opinies e no terem nenhumas de sua prpria conta. Quando elas 
patenteavam pequeninos caprichos no havia inconveniente em satisfaz-los. Dotado, de boa indole, 
Frank no recusaria muitas coisas  mulher: gostaria at de lhe perdoar certas loucuras sem 
consequncias, desculpando-lhe ao mesmo tempo a tontice e a extravagncia. Mas as ideias que 
Scarlett metia na cabea ultrapassavam as raias do bom-senso. 
Por exemplo, essa histria da serrao. Fora a maior surpresa da sua vida ouvir-lhe dizer com um 
sorriso nos lbios, em resposta a certas perguntas, que tencionava ocupar-se sozinha do negcio. 
"Tratarei eu mesma da venda das madeiras". Frank jamais esqueceria c> horror daquele instante. 
Tratar ela mesma da venda das madeiras! Custava a conceber semelhante coisa! Em Atlanta, no 
havia nenhUMa mulher que se dedicasse ao comrcio; nem ele jamais ouvira falar de outra que tal 
desejasse, ali ou noutra parte qualquer. Se havia algumas a quem as circunstncias foravam a 
procurar o. seu estipndio ou da famlia, essas faziam-no discretamente, quer trabalhando em 
doaria, como a senhora Merriwether, quer pintando pratos ou costurando e recebendo pensionistas, 
como as senhoras Elsing e Fanny, ou ensinando a ler ou a tocar piano, como as senhoras Meade e 
Bonnell. Essas damas ganhavam dinheiro porm no saam das respectivas casas como competi@ a 
mulheres. Agora, deixar a proteco  lar e aventurar-se fora, no mundo dos homens, competindo 
com eles nos negcios acotovelando-os, expondo-se a ofensas e murmuraes... 'E ento, no sendo 
obrigada a isso, por ter um marido muitssimo capaz de a sustentar! 
Frank pensara que a mulher o queria simplesmente arreliar, pregando-lhe urna partida alis de mau 
gosto. Mas qu! 0 caso era muito a srio. @carlett dirigia a serrao. Levantava-se mais cedo do 
que ele, metia-se no trem, ia at Peachtree Road, e muitas vezes s voltava depois de o marido ter 
fechado o armazm e voltado para casa da tia Pitty, a fim de jantar. Todos os dias fazia o longo 
trajecto de vrias milhas, acompanhada de Peter. 0 velho cocheiro estava encarregado de a proteger, 
pois, espalhados pelas matas, havia muitos escravos forros e salteadores yankees. Por causa do 
armazm, Frank no podia ir com ela e, quando protestava, Scarlett retorquia friamente, 
- Se perco de vista aquele patife do Johnson, ele  capaz 
173 
de me furtar madeira e vend-la por sua conta. Quando eu descobrir o homem de que necessito um 
bom empre- ,-ado deix-lo-ei dirigir a serrao e no serei obrigada g a a ir 
l tantas vezes. Nessa altura, ocupar-me~ei da venda de madeira na cidade, 
Vender madeira na cidade! Isso ainda era pior! Scarlett consagrava um dia da semana a ir a casa dos 
clientes com a sua madeira e, nessas ocasies, Frank s desejava esconder-se no fundo da loja e no 
ver ningum. 
Scarlett era muito censurada pelos outros. E naturalmente tambm o censuravam por consentir que 
ela se portasse de modo to pouco feminino. Frank sentia-se envergonhado quando os seus prprios 
clientes lhe diziam, do outro lado do balco: 
#
- Vi, h instantes 'a senhora Kennedy entrar em casa de Fulano e Cicrano... 
Todos pareciam ter maligno prazer em inform-lo das idas e vindas da mulher. Era assunto de 
conversa o que sucedera no local onde construam o novo hotel. Scarlett chegara ali no momento 
exacto em que Tominy Wellburn encomendava madeira a outro negociante. Saltara logo da 
carruagem e na presena dos pedreiros irlandeses que estavam a zer os alicerces declarou 
redondamente a Tommy que o queriam expl@rar. Depois demonstrou-lhe que as suas tbuas eram 
melhores e mais baratas e, a corroborar a afirmao, desfiou de memria uma extensa coluna de 
algarismos o que lhe permitiu estabelecer um oramento rigoroso. be modo que, no contente de se 
exibir no me!o de operrios estrangeiros, Scarlett fora ao ponto de dar prova, em pblico dos seus 
conhecimentos algbricos. Era coisa inadmissv@1 numa mulher. Tommy aceitara o oramento e 
fizera-lhe a encomenda e ela, em vez de se retirar logo, tivera a imprudncia de ficar  conversa 
com Johnnie Gallegher, capataz dos pedreiros, homem de m reputao. Durante semanas, a cidade 
comentou este caso. 
Para cmulo, Scarlett ganhava bastante dinheiro com a estncia e serrao, e qual seria o marido 
que visse com bons olhos a mulher triunfar num campo to pouco feminino? Mais aborrecido ficava 
ainda Frank pela circunstncia de ela no ceder os proventos, a fim de os aplicar no negcio do 
armazm; pelo contrrio, consagrava todos os seus lucros  manuteno de Tara e escrevia cartas 
174 
interminveis a Will Benteen a fim de lhe explicar o emprego a dar s somas enviadas, Alm disso, 
participou a Frank que, uma vez feitas as reparaes em Tara tenconava emprestar dinheiro com 
garantia hipotecria. 
Frank gemia s de pensar em tudo isto. Em sua opinio, as mulheres nem deviam saber o cue era 
uma hipoteca. 
Searlett tinha'por essa poca, a cabea cheia de planos, considerados pelo marido ainda mais 
temerrios que os anteriores. Falava at em construir um botequim no local onde existira o 
entreposto incendiado pelos soldados de Sherman. Frank no era abstmio, mas, apesar disso 
indignou-se contra aquela ideia. Ser proprietrio dum botequim parecia-lhe quase to imoral como 
ser dono duma casa de prostituio, Mas no sabia explicar ac, certo o motivo por que achava to 
ruim aquela espcie de negcio, e, perante os seus dbeis argumentos, Scarlett limitava-se a 
encolher os ombros com desdm. 
- No h melhores locatrios que os gerentes dum botequim - declarou uma vez a mulher. - ]@, o 
que diz o tio Henry. Pagam a renda com regularidade e 'alm disso, no gastarei muito na 
construo do estabelecimento. Posso utilizar um lote de madeira de m qualidade que no consigo 
vender e, depois disso, peo uma renda elevada. Com o dinheiro do aluguer, juntamente com o da 
serraCo e das hipotecas, ficarei apta a comprar mais serraes. 
- Mais serraes? - exclamou Frank, sobressaltado. - 
Para qu? Se tivesses juzo desfazias-te desta. No s esse trabalho te esgota como te vs 
atrapalhada para conseguir manter ali esses pretos forros. 
-Bem sei que os pretos no valem nada -concordou Searlett, evitando responder  aluso do marido 
quanto  venda da fbrica. - 0 Johnson nunca sabe de manh se os ter todos a trabalhar nesse dia. 
No com os pretos no se pode contar. Comparecem uma ou duas vezes e depois vo gastar tudo o 
que ganharam. Quanto mais verifico os efeitos da emancipao, mais me conveno de que se 
cometeu um verdadeiro crime. Para eles foi o descalabro! Andam por a aos milhares, de braos 
cruzados, e os que temos l na fbrica so to preguiosos to faltos de iniciativa, que apetece 
dspens-los de todo. , se para seu bem, nos lembramos de lhes dar uma boa chicotada, a Agncia 
dos Forros cai-nor, logo em cima! 
175 
L_ 
-Minha querida, no devias consentir que o Johnson lhes batesse... 
-Bem sei. Acabo at de te dizer que os yankees nos caem em cima -replicou ela, impaciente. 
- Sou capaz de apostar que o teu pai jamais bateu num preto. 
#
-S uma vez. Foi um arrieiro que no tratou como devia do cavalo, no regresso duma caada. Mas 
nesse tempo era tudo diferente Frank! Com os forros a coisa daria mais resultado, que aluns 
realmente esto a precisar de chicote... 
Frank estava no s perplexo pelas ideias e projectos da mulher, como tambm pela mudana que 
nela se operara a seguir ao casamento. Scarlett j no era a criaturinha meiga que ele tomara por 
esposa. Quando lhe andava a fazer a corte, pensava que nunca vira uma pessoa to adorvel nas 
suas reaces, mais ignorante, mais tmida, mais desamparada. Agora todas as suas reaces eram 
muito varonis. Apesar das 'faces rosadas 'das covinhas, dos lindos sorrisos, Scarlett falava e agia 
como um homem. A voz era brusca, decisiva, e deliberava de improviso, sem as costumadas 
indecises femininas. Sabia o que queria e ia direita ao fim pelo caminho mais curto. 
n claro que Frank j havia encontrado mulheres autoritrias, antes da sua. Como todas as cidades do 
Sul, Atlanta possua um contingente de vivas que no se deixavam manejar por ningum. Ningum 
mais desptico do que a senhora Merriwether, mais imperioso do que a frgil senhora Elsing, mais 
astuciosa em conseguir os seus pro@psitos do que a senhora Whiting, de voz suave e cabelos 
brancos. Mas, fossem quas fossem os meios suasrios empregados por estas damas, esses meios 
nunca deixavam de ser prprios duma senhora. Faziam gala em acatar as opinies dos homens, 
embora sem disposio de as seguir: tinham, ao menos, o tacto de fingirem submisso, e isso era o 
que contava. Searlett, porm, s se guiava por si mesma, como se fosse macho, e da a indignao 
da cidade. 
"Se calhar tambm dizem mal de mim, por a deixar  solta", pensava Frank no meio da sua tristeza. 
Depois, a estava aquele Butler. As frequentes visitas que fazia a casa da tia Pitty constituam 
grande humilhao para todos. Frank sempre embirrara com ele, mesmo quando tinham sociedade 
nos negcios, antes da guerra. 
176 
Maldizia muitas vezes a hora em que o levara aos Doze Carvalhos e o apresentara s Pessoas das 
suas relaes. Desprezava-o pela maneira cnica como especulara durante as hostilidades e 
censurava-o por no se haver batido, como toda a gente, (Os oito meses que Rhett passara nas 
fileiras dos confederados eram s conhecidos de Scarlett, e ele suplicara-lhe que no revelasse a 
ningum essa "vergonha"). Enfim, Frank levava a mal, acima de tudo, que o homem tivesse 
conservado para si o oro da Confederao, ao passo que outros em idnticas circunstncias, como o 
almirante Bulloch, o haviam restitudo ao tesouro federal. No entanto Rhett ignorava esta averso 
de Kennedy e continuava 'a fazer as suas visitas  senhora Pittypat. 
Aparentemente 'era Pitty que ele visitava e a solteirona no tinha outro remdio seno fingir que 
cria nisso. Frank, porm, nutria a suspeita desagradvel que no era a tia quem o chamava ali. 0 
pequeno Wade gostava muito de Rhett, se bem que se mostrasse arsco com a maior parte das 
pessoas, e chegava ao cmulo de o tratar por "to Rhett", com grande fria do padrasto. Este no se 
esquecia de que o capito cortejara Scarlett durante a guerra coisa de que se falara muito na cidade. 
E agora, com ela casada, o que no diria essa gente! Nenhum dos amigos de Frank tivera coragem 
de lhe tocar no assunto, embora no fizessem cerimnia de dizer o que pensavam a respeito do 
negcio da serrao. Ele, contudo, no deixava de notar que j no convidavam tanto o casal para 
jantares e festas e que os visitavam rada vez menos. Scarlett, detestava a maior parte dos habitantes 
de Atlanta e tinha muito que fazer para se dar com aqueles com quem abria excepo; de modo que 
a atitude dos outros no a incomodavam mesmo nada. Em compensao, Frank mostrava-se muito 
ressentido. 
Toda a sua vida Frank fora dominado por este pensamento: "Que diro os vizinhos?" e ficava 
desarmado pelas brechas que a mulher fazia de contnuo neste seu preconceto. Compreendia que a 
censuravam e desconsolava-se por no saber impedi-lo, Scarlett procedia de modo que um marido 
no podia deixar de se ofender; mas coitado dele se se atrevia a dizer-lhe qualquer cisa! 
Desencadeava logo uma tempestade. 
"Que resoluo hei-de tomar?" pensava ele. "Enfurece-se mais do que outra qualquer, e a zanga 
dura tambm muito mais tempo do que nas outras". 
#
12 - Vento Levou - 11 177 
h` 
Mesmo quando tudo corria bem ' causava espanto ver com que rapidez a esposa afectuosa, que 
andava a cantarolar pela casa, se transformava num ser totalmente diverso. Bastava que o marido 
dissesse: "Minha querida, eu no teu lugar ... " E a borrasca desencadeava-se imediatamente. 
As sobrancelhas pretas uniam-se em ngulo agudo sobre o nariz e Frank no tardava a acobardar-se. 
Ela tinha o temperamento dum trtaro os acessos dum gato bravo; nessas ocas-ies, nao se 
importava com o que dizia ou com o mal que as suas palavras provocavam. Pesavam negras nuvens 
no ambiente, em semelhantes momentos. Frank tratava de se escapar para o armazm, donde s 
voltava tarde. Pitty ia esconder-se no quarto como um coelho no fundo da toca. Wade e Peter 
enfia@am para a cocheira * a criada no saa da cozinha, evitando erguer muito alto * voz nas suas 
loas ao Senhor. S Bab suportava o gnio da menina, habituada como estava s exploses do velho 
Gerald O'Hara. 
Contudo, Scarlett no fazia isso por mal e desejava tornar o marido feliz, pois gostava dele e 
est@va-lhe grata por haver salvado Tara. Moa-lhe, porm, a pacincia com to repetidas e 
enervantes cenas. 
Scarlett achava impossvel ter respeito a um homem que se deixasse dominar pela mulher, e a 
atitude receosa que ele assumia, em tais ocasies, acirrava-a ao mais alto grau, Entretanto 
considerar-se-ia satisfeita e at feliz, agora que resolvera os problemas econmi@os, se Frank no a 
exasperasse continuamente com a prova de que era mau comerciante e com a teimosia de no lhe 
dar carta branca nos negcios. 
Conforme ela j esperava ele recusara-se a empreender a cobrana das dvidas. Inst@do 'fizera tudo 
para se esquivar a isso. Aquilo era a demonstrao niludvel de que 
* famlia Kennedy nunca sairia da cepa torta enquanto 
* prpria Scarlett se no encarregasse de aumentar os proventos do casal, Compreendeu que Frank 
se contentaria sempre com uma existncia medocre, no seu armazm de terceira ordem: dir-se-ia 
no se compenetrar de quanto era precria a segurana do lar nem quanto era foroso ganhar mais 
naqueles tempos difceis em que o dinheiro representava a melhor garantia contra novas 
calamidades. 
Frank podia ter sido esplndido negociante nos dias venturosos que precederam a guerra, mas ao 
presente afi- 
178 
A Mai, 
gurava-se  mulher que ele estava j muito velho e que s empregava mtodos antiquados. Faltavalhe 
de todo esse esprito de iniciativa necessrio nas pocas de perturbao social. Ela, todavia, 
tinha essa qualidade e estava disposta a utiliz-la' quer o marido quisesse ou no. Precisavam de 
dinheiro. Scarlett ganh-lo-ia a todo o custo, e a Frank no assistia o direito de interferir em planos 
destinados a conseguirem to bons resultados. 
Com a sua inexperincia, no era fcil dirigir a serrao. Alm disso, a concQr@ncia intensficarase 
e Scarlett regressava a casa fatigada aborrecida, ansiosa. Frank notava-o e dizia: "Minha querida, 
eu c no faria assim ou assado" e ela ento destemperava a valer. Porque havia ele de a censurar 
constantemente, ele que no era capaz de fazer melhor? Aquelas lamentaes pareciam-lhe to 
estpidas! Que importava, nos tempos decorrentes, que ela se no comportasse como pessoa do seu 
sexo? Pois se a serrao proporcionava lucros de que todos precisavam, sem exceptuar o prprio 
Frank! 
Este, no entanto, aspirava ao repouso e  tranquilidade. A guerra, em que ele se batera com tanta 
devoo, arruinara-lhe a sade, destrura-lhe os haveres e envelhecera-o prematuramente. No se 
lastimava de nada disto, mas depois de quatro anos de desassossego tudo quanto ele pedia  vida era 
a paz e as suas vantagens convvio de gente simptica e a aprovao dos seus ami@os. Percebeu 
por fim que essa paz tinha um preo e que este consistia em deixar a mulher agir como entendesse. 
Assim, cansado como estava, comprou cara a tranquilidade. s vezes pensava que fora um ajuste 
#
compensador quando voltando para casa  noite Searlett o recebia so@ridente, o beijava e o enchia 
de carinhos. A vida familiar no deixava de ser agradvel quando a mulher se sentia  vontade. 
Todavia essa paz era ilusria, pois que ele a adquirira  custa de tudo quanto achava ser mais 
legtimo num lar bem constitudo. 
"A mulher devia antes ocupar-se da casa e da famlia em vez de se portar como um homem", 
pensava ele. "Se ao menos ela me desse um filho ... " 
Sorria a esta ideia. Gostava tanto de ter um filho! Scarlett j lhe participara que no queria, mas a 
verdade  que os filhos no esperam por convite para virem ao mundo. Frank sabia que muitas 
mulheres declaravam o mesmo 
179 
e que afinal acabavam por transigir. Se Scarlett tivesse uma criana, ficaria em casa para se ocupar 
dela como faziam as outras mulheres; e, nessa hiptese, seria obrigada a vender a fbrica, com o 
que terminariam de vez as dissenses domsticas. Para serem realmente felizes, as mulheres 
precisavam de ter filhos, e Frank sabia que Scarlett no era feliz. De tempos a tempos, ele 
despertava de noite e surpreendia um choro sufocado pelo travesseirG. Chegou at a acordar com o 
abalo dos soluos e nesse momento perguntara alarmado: "Que tens, minha querida?" A resposta 
fora esta, dita numa exploso de clera: "Deixa-me em paz!" 
Sim, uma criana f-la-ia feliz e tirar-lhe-ia da cabea muitas coisas que a apoquentavam. No era 
raro Frank suspirar, pensando que capturara um pssaro extico, de plumagem e cores 
maravilhosas, quando lhe bastaria uma simples carria. De facto, ficaria muito mais bem servido. 
37 
Foi numa noite tempestuosa de Abril que Tony Fontaine, chegado de Jonesboro, sobre um cavalo 
escumante e semi-morto de fadiga, lhes veio bater  porta, acordando Frank e a mulher em 
sobressalto. Pela segunda vez em quatro meses, Scarlett pde ento avaliar as consequncias da 
Reconstruo e compreender bem aquilo a que Will se referira quando dissera: "Os nossos 
aborrecimentos esto ainda no comeo". E quanta verdade havia nas palavras proferidas por Asliley 
no pomar de Tara varrido pelo vento: "0 que nos espera a todos  pior que a guerra, pior que a 
priso, pior que a morte". 
0 seu primeiro contacto com a Reconstruo datava do dia em que Scarlett soubera que Jonas 
Vilkerson podia expuls-la de Tara com o auxlio dos yankees. Mas desta vez, a vinda de Tony 
abriu-lhe os olhos de inaneira ainda mais aterradora. Era noite, chovia a cntaros. Tony bateu  
porta e, momentos depois, mergulhava para sempre na escurido. No entanto, nesse breve intervalo, 
houve tempo de levantar o pano para nova cena de horror. 
Nessa noite tempestuosa, quando as pancadas abalaram a porta com desusado fragor Scarlett vestiu 
 pressa o roupo e, debruando-se no @atamar da escada, entreviu 
180 
a cara transtornada de Tony antes de ele soprar a vela que Frank empunhava. Ao descer a escada s 
apalpadelas a fim de apertar a mo ao recm-vindo, ouviu murmurar quase num sussurro: 
-Eles vm atrs de mim... Vou para'o Texas... o meu cavalo j no aguenta... morro de fome... 
Ashley disse que voc... No acenda a vela! Nem acorde os pretos ... No quero que arranjem 
complicaes por minha causa ... 
Depois de fechados os postigos da cozinha e corridos at abaixo todos os estores consentiu uma luz 
acesa e ps-se a falar a Frank en@ frases rpidas e nervosas, enquanto Scarlett lhe improvisava uma 
refeio. 
Estava sem capote, molhado at aos ossos. Tambm viera sem chapu, e os cabelos negros 
colavam-se-lhe ao crnio estreito. Contudo nos seus olhos vivos, os olhos dos Fontaines, brilhava 
um@ centelha de alegria, uma pequenina centelha que, naquelas circunstncias, causava arrepios a 
quem a notava. Scarlett, enquanto o via beber em longos tragos o whisky que ela lhe trouxera, 
agradeceu ao Cu o facto de a tia Pitty continuar a ressonar no seu quarto, pois com certeza 
desmaiaria quela apario. 
-Um Renegado de menos -disse Tony, estendendo o 
#
copo para que o tornassem a encher. -Foi uma corrida desenfreada, mas, se no fugisse to depressa 
ficava-me l a pele. Valeu a pena. Vou tentar chegar @o Texas e fazer-me esquecer. Ashley estava 
comigo em Jonesboro, e foi ele que me aconselhou a vir ter com vocs. Veja se me consegue algum 
dinheiro, Frank 'e outro cavalo. 0 que me trouxe no aguenta nova corrida... Fiz todo o caminho 
debaixo de chuva e... como um palerma, sa de casa sem sobretudo, sem chapu e sem dinheiro. 
No  que a gente nade em oiro mas... 
Riu-se e a6rou-se vorazmente a uma broa de milho e a um prato de nabos frios. 
- Leve o meu cavalo - disse Frank com a maior calma. -Quanto ao dinheiro 's tenho dez dlares 
comigo, mas, se quiser esperar at amanh... 
- Posso l esperar! - exclamou Tony em tom enftico mas sempre jovial. - 1@@ mais que certo que 
vm atrs de mim. Apesar de tudo, o meu avano no foi grande. Ao Ashley devo no estar agora a 
baloiar na ponta duma corda. Ele  que me agarrou pelo brao e me obrigou a saltar para cima do 
cavalo. 2 um camarado, o AshIey. 
181 
AshIey tomara parte naquele caso enigmtico e assustador! Scarlett teve um calafrio e levou as 
mos  garganta. Seria Ashley preso pelos yankees? Por que diabo Frank no pedia explicaes? 
Por que ouvia tudo aquilo com tanta serenidade? Tentou ela -ento interrogar Tony, mas as palavras 
atropelaram-se-lhe nos lbios. 
- Que... quem... - conseguiu balbuciar. 
- 0 antigo feitor de seu pai... o malvado, Jonas Wilkerson. 
-E foi voc que... Ele morreu? -Santo Deus Scarlett O'Hara! -exclamou Tony mal humorado. - Jula 
que me limitava, a acariciar com o lado rombo da faca um sujeit<> com quem eu queria ajustar 
contas? No, no, dei cabo dele. 
- Ainda bem - comentou Frank. - Nunca simpatizei com aquele indivduo. 
Scarlett olhou para o marido Estava a desconhec~lo. Frank, que era to assustadio, que andava 
sempre nervoso a puxar as barbas e que se intimidava com tanta facilidade, mostrava-se agora 
calmo, firme, resoluto, enfrentando a situao sem palavras inteis. Era um homem. Tony tambm 
o era e, nessa histria em que intervinha a violncia, uma mulher no tinha voz activa. 
-E o AshIey... Ele... -No. Queria mat-lo mas eu disse-lhe que isso competia a mim, porque Sall@ 
 minha cunhada, e acabou por concordar comigo. Acompanhou-me a Jonesboro para estar presente 
se Wilkerson. me apanhasse primeiro. Mas no creio que vo incomodar o velho AshIey por causa 
disto. Pelo menos espero que no. No tem a um pouco de- doce que se ponha nesta broa? E 
poder arranjar qualquer coisa para eu levar comigo? 
-Se no me conta tudo, desato aos gritos. 
- Deixe-me ir embora e depois grite se lhe apetecer. J conto tudo, enquanto Frank sela o cavalo. 
Aquele canalha do Wilkerson bastante mal fez neste mundo. Sabe como ele procedeu consigo 
naquela questo dos impostos. Pois isso foi apenas uma das suas muitas patifarias. Mas o que tinha 
de pior era a maneira como exaltava os pretos. Se algum me tivesse dito que um dia havia de odiar 
os pretos, eu no acreditaria. Que o diabo leve as suas almas negras! Acreditam em tudo o que 
4izem aqueles velhacos e esquecem tudo o que fazemos eni, seu benefcio. Hoje, os yankees 
182 
falam em conceder-lhes di-reito de voto e a ns no nos deixam votar. Em toda a comarca s h 
um punhado de democratas que no esto riscados das listas eleitorais, porque os yankees afastaram 
todos os que combateram nas fileiras do exrcito confederado. Se deixam votar os pretos,  o fim de 
todos ns. E, afinal,  o nosso Estado! No per~ tence aos yankees. No podemos admitir isto, nem 
admitiremos. Temos de pr cobro a esta situao, nem que haja outra guerra! Daqui a pouco vemos 
juzes pretos, legisladores pretos... macacos negros sados da selva... 
- Despache-se... diga o que  que fez. -D-me mais um bocadinho dessa broa antes de a embrulhar. 
Ora comeou a espalhar-se a opinio de que o Wilkerson estava a exceder-se com os seus princpios 
de igualdade. Sim, porque ele a toda hora falava. nisso queles cretinos. Teve at o descoco... 
aquele es... - Tony deteve-se a tempo -de dizer que os pretos tinham c> direito de... de se aproximar 
#
de mulheres brancas. 
-Oh, Tony, isso no  verdade! -Palavra que . No me admira o seu espanto. Mas julguei que no 
fosse novidade para si. Os yankees repetem o mesmo aos negros de Atlanta. 
-No sabia. 
- 0 Frank no lhe quis dizer, decerto. Fosse como fosse, em consequnc4a daquilo delibermos ir de 
noite fazer uma visita ao senhor Wilkerson, mas antes de pr em execuo o nosso projecto... 
Lembra-se daquele pretalho, Eustis, que foi nosso maioral? 
- Lembro-me. 
- Pois bem. Hoje mesmo entrou-nos l na cozinha quando Sally fazia o jantar. No sei o que lhe 
disse, nem jamais o saberei. Mas o caso  que lhe disse qualquer coisa, porque ouvi Sally dar um 
grito. Precipitei-me para a cozinha e encontrei Eustis bbado como um cacho. Deitei~o a terra com 
um tiro e quando a me correu por sua vez para se ocupar de Sally montei a cavalo e parti para 
Jonesboro, em busca de Wiikerson. Este  que era o culpado. Sem W11kerson, o diabo do preto no 
teria tido semelhante ideia. Por alturas de Tara encontrei Ashley, que se prontificou a acompanharme. 
Declarou que, atendendo ao que Wilkerson fizera em Tara, ele mesmo queria ajustar contas 
com o homem. Repliquei que o assunto me dizia respeito, porque Sally era a mulher de meu irmo, 
que morreu na 
183 
wWI')4y1@ @II 1 
guerra'e fomos a discutir todo o caminho. Quando chegmos  cidade, descubro que no tinha 
trazido a pistola. Deixara-a na cavalaria. To doido estava que a esqueci. 
Deteve-se e trincou o pedao de broa. Scarlett estremeceu. A fria homicida dos Fontaines tornarase 
lendria no pas. 
-Via-me, pois, reduzido a utilizar uma faca trazida da taberna. Apanhei-o numa esquina enquanto 
Ashley mantinha os outros em respeito, e, a@tes de lhe furar a pele, tive tempo de lhe explicar a 
razo por que o queria suprimir. Tudo se passou num instante - declarou Tony com ar pensativo. - 
No me lembro bem do que se seguiu, a no ser que Asliley me obrigou a montar, dizendo que 
viesse ter com vocs. Ashley  precioso nestes casos. Conserva o sangue-frio. 
Frank voltou, com o seu sobretudo no brao, e entregou-o a Tony. Era o nico abafo quente que ele 
possua, mas Scarlett no protestou. Parecia alheada deste episdio estritamente masculino. 
- Mas voc vai ser preciso em casa, Tony. Estou certa de que se voltasse e explicasse... 
- rank casou com uma ingnua -disse Tony, diligenciando e@fiar o sobretudo. - Ela imagina que 
os yan, ke,es vo recompensar algum por haver defendido um dos seus parentes contra o ataque de 
um negro. A recompensa  uma corda ao pescoo. Deixe@me beij-la, Scarlett, que Frank no se 
importa, P, possvel que eu no torne a v~la. 
0 Txas fica longe. No quero arriscar-me a escrever. Diga aos meus que tudo ia bem quando parti. 
Scarlett deixou Tony beij-la. Os dois homens saram e ficaram um momento a falar sob a varanda 
das traseiras. Depois, ouviu-se um cavalo a correr a galope. Tony fora-se embora. Scarlett, 
entreabriu a porta e lobrigou Frank, que conduzia  estrebaria um cavalo ofegante. Tornou a fechar 
a porta e sentou-se. Os joelhos tremiam-lhe. Agora j sabia sob que aspecto se apresentava a 
Reconstruo. Sabia-o to bem como se visse a casa cercada por um bando de selvagens seminus. 
Assaltou-a uma chusma de recordaes. Lembrou-se de muitas coisas que mal tinha reparado nesses 
ltimos tempos, conversas que ouvira sem prestar ateno, discusses de homens, interrompidas  
sua chegada, pequenos incidentes nos quais no vira nenhum significado, as prevenes 
184 
de Frank para a ter de sobreaviso contra os perigos de ir s na companhia do velho Peter... Agora, 
todas essas recordaes se ajustavam num quadro horripilante. 
Os negros  que mandavam, sustidos pelas baionetas yankees, Podiam mat-la, viol-la, e ficariam 
impunes. E quem se lembrasse de a vingar seria enforcado pelos yankees, sem sequer comparecer 
perante o juiz. Os oficiais yankees importavam-se tanto respeitar a lei como conhecer as 
@cIrcunstnc!as dum crime, e at sentiriam prazer em enforcar um sulista... 
#
"Que podemos fazer?" pensava Scarlett, torcendo as mos de desespero. "Que podemos fazercom 
demnios que no hesitariam em enforcar um rapazcorajoso como Tony Fontaine, que nada mais 
fez do que defender mulheres da sua famlia contra um brio?" 
"No, devemos admitir isto", exclamara Tony, e tinha razo. Mas-que havia de fazer a gente do Sul, 
seno tolerar tudo? Searlett tremeu de medo e pela primeira vez comfora 
preendeu que as pessoas e os acontecimentos existiam dela prpria e que a Scarlett O'Hara 
'trmula e assustada, no era a nica coisa que importava. Em todo o Sul havia milhares de 
mulheres como ela, aterradas e indefesas. E milhares de homens que, aps terem deposto as armas 
em Appomattox, voltavam a pegar nelas, prontos a arriscar a vida para correr em socorro dessas 
mulheres, 
Searlett surpreendera na fisionomia de Tony qualquer coisa que se reflectira na de Frank 'uma 
expresso que ela j notara na caradoutros. homens em Atlanta, mas que no se dera ao trabalho de 
analisar. No era o ar triste e desanimado que vira nos que tinham regressado  sua terra depois da 
rendio. Esses s pensavam ento em voltar para casa, nada mais. Agora tinham de novo um 
objectivo, os nervos despertavam do entorpecimento, reanimava-se a antiga chama, Frios e 
resolutos, pensavam como Tony: "No podemos admitir isto". 
Searlett viera desses homens do Sul simpticos e perigosos antes da guerra, intrpidos e rud@s nos 
ltimos tempos de luta desesperada. No entanto, na cara de Tony e de Frank nos olhares que eles 
tinham trocado  luz vacilante da vela, notara algo diferente algo que a reconfortara e ao mesmo 
tempo lhe causara @iedo: um furor que nenhumas palavras podiam exprimir, uma deliberao que 
nada podia deter. 
185 
Pela primeira vez, sentiu-se ligada por urna espcie de parentesco s pessoas que a rodeavam, 
partilhando dos seus temores, da sua amargura da sua determinao. No, no se podia admitir 
aquilo!  Sul era muito belo para que o deixassem desaparecer sem combate, muito querido para 
consentir que os yankees o calcassem para que o aban~ donassem a pretos boais, brios de l@ooI 
e de liberdade. 
Ao pensar na sbita vinda de Tony e na sua partida precipitada, Scarlett sentiu que tambm havia 
parentesco. entre ambos, porque se lembrou da maneira como o pai fugira da Irlanda, durante a 
noite, por causa duma morte que nem ele nem a famlia consideravam assassnio. Corria-lhe nas 
veias o sangue ardente de Gerald. Sarlett, no se esquecia da alegria que experimentara ao matar o 
desertor yankee. E esse sangue ardente corria nas veias de todos aqueles seres que, sob a aparente 
cortesia, escondiam a violncia. Todos os homens todos os que ela conhecia se, assemelhavam, at 
o sonhador Ashley, at o tmido Frank, at o prprio Rhett, que apesar de ser um patife sem 
escrpulos matara um negro por este "ter faltado ao respeito a um@ senhora". 
Quando Frank, encharcado pela chuva e a tossir, entrou em casa ' Searlett levantou-se num pulo. 
- Oh, Frank, quanto tempo vai isto durar?! 
- Enquanto os yankees nos tiverem dio, minha filha. -Ento no h nada que se possa fazer? Frank 
passou a mo nas barbas molhadas. -H, sim, e estamos a tratar disso, -De que esto a tratar? -Para 
qu falar do assunto? Ainda no conseguimos nada. Pode levar anos... E talvez que o Sul fique 
sempre assim... 
- No, no! 
- Vai deitar-te. Deves ter frio, ests a tremer. 
- Quando acabar tudo isto? 
- Quando nos tornarem a conceder direito de voto, quando todos os que se bateram pelo Sul 
puderem votar por um sulista e por um democrata. 
- Votar! - bradou Scarlett. - Para qu votar, se os pretos andam loucos e os yankees os revoltaram 
contra ns? 
Frank tentou fornecer-lhe explicaes com a sua habitual pacincia, mas era muito complicada para 
Scarlett a ideia de que a origem de todos os males residia nas urnas 
186 
#
,l,f N1 , , ' , @ 3,M! i 
eleitorais. S numa coisa ela pensava nesse momento: que Jonas Wilkerson deixara de ser uma 
ameaa para Tara e para Tony. 
- Pobres Fontaines! - exclamou. - S resta Alex, e h tanto trabalho em Mimosa! Por que  que 
Tony no teve a esperteza de... fazer aquilo durante a noite para que ningum o reconhecesse? Seria 
muito melhor q@e estivesse em casa para tratar da lavra do que ir para o Texas. 
Frank enlaou a mulher pela cintura. Em geral, nunca a abraava sem certa apreenso, pois esperava 
sempre ser repelido, mas desta vez o seu brao era firme. 
- Nesta ocasio, h coisas mais importantes do que lavrar a terra - declarou. - n preciso inspirar aos 
negros um terror salutar e dar uma ensinadela aos Renegados. Enquanto existirem rapazes da 
tmpera do Tony, no temos que nos alarmar por causa do Sul. Vem deitar-te, anda. 
-Mas, Frank... -Se nos reunirmos todos num bloco e no cedermos uma polegada aos yankees, 
venceremos mais tarde ou mais cedo. Os yankees acabaro por se cansar de nos perseguir quando se 
convencerem de que no nos fazem mossa. Tudo entrar na ordem -e poderemos viver descansados 
e educar os nossos filhos como deve ser. 
Searlett pensou em Wade e no segredo que ela guardava h vrios dias. No no queria criar os 
filhos naquele inferno de dio, de violncia e de incerteza. Por nada deste mundo queria que os 
filhos passassem pelo que ela passara. E Frank ainda imaginava que o direito de voto solucionaria 
tudo! 0 direito de voto evitaria a misria, o frio? Por acaso proporcionaria boas roupas boa 
alimentao? S uma coisa permitia emcerta medida r@sistir s calamidades que o destino lhes 
pudesse trazer: o dinheiro. Era preciso dinheiro, muito dinheiro, para se precaverem contra as 
fatalidades da vida. 
Bruscamente, Searlett declarou ao marido que later um f ilho. 
Nas semanas seguintes  fuga de Tony ' a casa da tia Pitty foi vrias vezes revistada por 
destacamentos de soldados yankees. Apareciam sem prevenir e, fosse a que hora fosse, entravam 
nos quartos, faziam perguntas interminveis, abriam os armrios, espreitavam para debaixo das 
camas. Tinham as autoridades militares sido informadas 
187 
de que Tony se refugiara em casa de Pitty e estavam persuadidos de que ele se encontrava l 
escondido, ou em qualquer parte da vizinhana. 
Sem nunca saber se dum instante para outro lhe ia entrar no quarto um oficial e um peloto de 
soldados, a tia Pitty estava sempre na minncia dum demaio. Como nem Frank nem Scarlett lhe 
tinham falado da visita de Tony, ela nada podia revelar; era realmente sincera quando declarava 
que, em toda a sua vida, s vira uma vez Tony Fontaine, em 1862, no dia de Natal. 
- E nessa altura estava completamente embriagado - 
acrescentava ofegante de comoo. 
Scarlett que andava infeliz e enjoada com o comeo da gravidez, o@a sentia dio feroz pelas fardas 
azuis, ora se via dominada pelo receio de que Tony fosse apanhado e comprometesse os amigos. Os 
calaboos regurgitavam de pessoas que tinham sido presas Dor motivos mais fteis. Sabia que se 
chegassem a descobrir a verdade, ela e Frank iriam parar  cadeia, assim como a inocente Pitty. 
Durante certo tempo debatera-se em Washington a hiptese de confiscar todo@ os bens dos 
"rebeldes" para pagar as dividas de guerra dos Estados Unidos, e Scarlett vivia sob o receio de que o 
projecto voltasse de novo  discusso. Entretanto, corria em Atlanta o boato de que iam apoderar-se 
dos haveres de todos que tivessem infringido a lei marcial. Scarlett tremia  ideia de que ela e Frank 
perdessem no s a liberdade como ainda a casa, o armazm e a serrao. 
No perdoava a Tony haver-lhe sus:citad@> todas essas preocupaes, Como podia ele ter feito 
semelhante coisa aos seus amigos? Como  que Asliley o aconselhara a vir a casa dela? Jamais 
prestaria auxlio fosse a quem fosse. No lhe agradava nada ver outra vez os yankees assalt-la 
como um enxame de vesoas. No! Trancaria fortemente a porta e no a abriria a ningum, excepto  
claro, a Asliley. Durante semanas, Searlett mal dormiu. Ao mnimo barulho na rua ' temia que fosse 
Asliley, vindo tambm a caminho dum refgio no Texas; mas, com medo de que lhe interceptassem 
#
a correspondncia, nas suas cartas para Tara nada dizia a respeito da visita nocturna de Tony. Assim 
se passavam semanas, sem que as coisas se agravassem, e Scarlett pensou que Ashley conseguira 
livrar-se de apuros. Por fim, os yankees deixaram de os incomodar. 
188 
Mas este regresso  normalidade no livrou Scarlett do estado de alarme que principiara com a 
chegada de Tony, alarme que era pior do que o horror do bombardeamento durante o cerco ' pior do 
que o pavor que lhe inspiravam os soldados de Sherman nos ltimos tempos da guerra. Dir~se-ia 
que o aparecimento de Tony' naquela noite chuvosa lhe abrira misericordiosamente os olhos, 
forando-a a ve@ificar quanto a sua vida era precria. 
Olhando em torno de si, nessa fria Primavera de 1866, Searlett compreendeu os perigos que a 
ameaavam, a ela e a todo o Sul. Bem poderia fazer e desfazer planos, trabalhar mais do que todos 
os seus antigos escravos, triunfar de certos obstculos e resolver 'graas  sua energia, os problemas 
para os quais a sua educao no a fadara: estava sempre arriscada a que, dum momento para outro, 
a despojassem de tudo quanto lhe pertencia. Se isso acontecesse, no teria direito a nenhum recurso 
legal, a nenhuma indemnizao; os tribunais eram aqueles de que falara. Tony, em que o poder se 
exercia arbitrariamente. Os ycnkees inantinham o Sul dominado e assim pretendiam conserv-lo. 0 
Sul parecia vergar-se s a mo dum gigante maldoso, e quem noutros tempos fora autoridade estava 
agora em situao inferior  dos antigos escravos. 
Gergia achava-se pejada de foras militares, e Atlanta fora bemcontemp.lada. Os comandantes das 
tropas yankees exerciam poder absoluto sobre a populao civil. Podiam prender os cidados por 
qualquer motivo, ou mesmo sem motivo; podiam confiscar-lhe os bens, enforc-los, tornar-lhes a 
vida num inferno, com regulamentos contraditrios respeitantes ao comrcio, ao salrio dos criados 
ao que se devia dizer em pblico e em particular ' ao qu@ era lcito escrever nos jornais. 
Regulamentavam o lugar e a hora para o, degpejo do lixo e decidiam qual o gnero de canes que 
as esposas e as filhas dos ex-confederados poderiam entoar. Quem cantasse Di,@ie ou Bannie Blue 
Flag tornava-se ru de crime quase to grave como o de traio. Ningum levantava urna carta do 
correio sem prestar previamente o "juramento de ferro", e isto tambm deviam fazer os nubentes, 
sem o que se no. se realizava o casamento. 
Os jornais estavam to aamados que lhes era impossvel protestar contra as injustias e 
degredaes dos soldados; os protestos individuais originavam pena de priso. As cadeias 
regurgitavam de pessoas importantes, que debalde espera- 
189 
vam pelo julgamento. A instituio do jri e o habeas corpus encontravam-se praticamente 
suspensos. Os tribunais civis funcionavam ainda, embora submetidos  vontade das autoridades 
militares, que no faziam cerimnia em alterar as sentenas; uma vez presos, os infelizes cidados 
caiam sob a alada marcial, Proceda-se a detenes em massa. Bastava ser suspeito, de opinies 
desfavorveis ao governo ou de filiado da Ku Klux Klan para ser metido entre as grades; da mesma 
forma sofria quem fosse acusado por um preto. No se exigiam provas. nem testemunhas, bastava 
apenas a denncia. E, graas  Agncia dos Forros, havia sempre negros que se prestavam a 
queixar-se dos brancos. 
Aqueles ainda no tinham obtido o direito de voto, mas o Norte estava decidido a conceder-lho, na 
esperana de que os votos lhes fossem favorveis. Com esta perspectiva, que mais desejavam os 
homens de cor? Os -yankees profi-giam-nos escandalosamente e o meio mais seguro para uni 
branco de se meter em complicaes graves era ter a ingenuidade de se queixar dum liberto. 
Estavam, pois, os antigos escravos senhores da situao; com a ajuda dos yankees, os mais 
ordinrios os mais ignorantes atingiam as culminncias. Os melhor@s, porm, por no levarem a 
srio a emancipao, sofriam quase tanto como os seus despojados senhores, Milhares de servos 
pretos, que formavam entre os escravos a camada superior, continuavam fiis aos patres de 
outrora, fazendo trabalhos que antes considerariam demasiadamente baixos; outros, empregados em 
fainas agrcolas, recusavam tambm aproveitar-se da liberdade; era, todavia, nesta classe que se 
recrutavam os bandos dos "libertos desprezveis". 
#
No tempo da escravido, estes pretos inferiores eram desdenhados pelos criados das casas e pelos 
que eram artifices. Como fizera Ellen muitas mulheres de plantadores do Sul haviam submetid@ os 
negros, desde pequenos, a uma srie de provas a fim de selecconar os melhores e de lhes confiar as 
funes para que se exigia certa responsabilidade. Os outros, que se destinavam aos trabalhos do 
campo, eram os menos zelosos e incapazes de aperfeioamento, os mais desonestos viciosos e 
abrutalhados. Agora, estava esta ltima camada, a mais baixa da hirerarquia servil, a tornar 
insuportvel a existncia no Sul. 
Auxiliados por aventureiros sem escrpulos colocados  frente da Agncia dos Forros, instigados 
pela gente do 
190 
Norte (cujo dio atingia as ralas do fanatismo religioso) os antigos escravos agrcolas viam-se de 
sbito elevados ao nvel dos poderosos. ]@ claro que se comportavam como seria de esperar, isto , 
como criaturas boais, Tal se fossem macacos ou crianas a quem se confiam tesouros, incapazes de 
compreenderem o valor do que tm entre mos, esses pretos entregavam-se a todos os excessos ' 
quer por simples ignorncia quer pelo gosto da destruio. 
A seu favor, todavia deve-se reconhecer que, mesmo entre os mais estpidos,' poucos obedeciam 
aos maus instintos, e esses j noutro tempo eram considerados de m raa. Mas a @erdade  que 
@oos possuam mentalidade infantil e se deixavam manejar fcilmente. Habituados como estavam 
a obedecer, cumpriam as ordens que os novos senhores lhes davam. Algumas eram deste teor: "s 
to, bom como qualquer branco; podes fazer o que os brancos fazem. Logo que tiveres votado nos 
republicanos, ficas com direito s propriedades dos brancos. Elas at j so tuas, toma-as quando te 
apetecer". 
Com to estonteadoras promessas, os emancipados perdiam a cabea e no havia dia da semana em 
que eles no cometessem desatinos. Os do campo invadiam a cidade, deixando os distritos rurais 
sem pessoal para, as colheitas. Atlanta regurgitava dessa horda de cor, Em consequncia de tais 
ensinamentos, os libertos- chegavam s centenas para se tornarem em elementos inteis ou 
perigosos. Como viviam em habitaes sem higiene, entre eles imperavam as doenas, varola, 
febre tifide, tuberculose. Por se haverem habituado a serem tratados pelos donos em caso de 
enfermidade, no sabiam como fugir aos flageos e sofriam-lhes todas as consequncias. E a 
Agncia tambm no lhes acudia de nenhuma forma, interessada como estava no aspecto poltico da 
emancipao. 
Corriam pelas ruas como animais assustados ' crianas que os pais abandonav@m, at que os 
brancos se condoam delas e se encarregavam de as recolher e alimentar.  beira dos passeios viamse 
pretos e pretas de idade, abandonados pelos filhos, e dali impetravam dos transeuntes remdio 
para a sua desventura. 
Os funcionrios da Agncia, perseguidos pelo nmero crescente destes negros vadios, comearam a 
considerar no erro cometido e procuravam recambi-los para casa dos antigos donos. Diziam-lhes 
ento que, se quisessem voltar 
191 
 terra seriam tratados como trabalhadores livres e protegidos'por contratos escritos que lhes 
garantiriam o salrio. Os velhos obedeciam de bom grado e iam assim complicar a vida dos 
plantadores que cheios de compaixo no tinham coragem de lhes res@sar acolhida. Os mais 
novos, porm, ficavam em Atlanta, e ningum lhes falasse de trabalho. Para qu trabalhar, se 
tinham a barriga cheia? 
Pela primeira vez na sua vida, os pretos podiam beber quanto whisk-y lhes apetecesse, ntigamente 
s o provavam pelo Natal, quando cada um deles recebia o seu quinho, juntamente com a oferta 
dos patres. Agora tinham no s os agitadores da Agncia para lhes esquentar a Cabea, mas 
tambm o lcool que quisessem. Deste modo nada ficava em segurana, nem os haveres nem as 
vidas dos brancos, a quem a lei, por outro lado, retirara a proteco. Em plena rua, os homens viamse 
insultados pelos brios, que  noite incendiavam casas e celeiros roubavam gado e criao. 
Crimes de toda a espcie, co6ertos pela impunidade. 
#
Contudo, estas ignomnias no eram nada em comparao com o perigo que corriam as brancas. 
Privadas em grande parte dos seus naturais protectores, elas viviam isoladas no campo ou  beira 
das estradas desertas. Foi a frequncia dos atentados cometidos contra estas vtimas que originou, 
como represlia, a fundao da sociedade denominada Ku Klux Man. Os seus componentes agiam 
de noite e a sua trgica necessidade no foi compreendida pelos jornais do Norte, que contra ela 
tanto verberaram. 
0 Norte exigia que se perseguissem todos os membros da organizao secreta, e esses homens 
pagavam na forca (> atrevimento de quererem punir por suas mos numa poca em que a lei e a 
ordem eram escarnecidas pelos intrusos. 
Assistia-se ao espectculo surpreendente duma nao Icuja metade diligenciava impor-se  outra 
pela fora das baionetas; que pretendia fazer aceitar o domnio dos negros muitos deles filhos de 
selvagens trazidos anos antes d@ selva africana: o voto devia ser-lhes concedido, mas recusado aos 
seus antigos donos. 0 Sul ficava assim dominado e, tolhido dos seus direitos no podia erguer a 
cabea. Na maioria, os homens que tinham combatido nas fileiras confederadas ou que haviam 
ocupado funes pblicas na Confederao no possuam a faculdade de escolher os seus 
representantes. Alguns deles, seguindo o exemplo do gene- 
192 
ral Lee, desejariam prestar o juramento tornarem-se cidados, esquecer o passado; mas no lho 
6nsentiam. Outros, a quem de boa vontade permitiam que jurassem, recusavam-se a isso com 
energia, declarando no quererem prometer fidelidade a um governo que deliberadamente os 
sujeitava a crueldadese humilhaes. 
Scarlett, ouvindo incessantemente o que se passava, podia ter dito por fim: "Se eles procedessem 
com decncia, aps a rendio, no haveria dvida em prestar o jura~ mento! Agora  tarde". Cada 
vez mais o medo e a ansiedade se apoderavam dela. A ameaa constante dos pretos insubmissos, o 
medo de ver os soldados yankees despoj-la do que possua, o receio das confiscaes tudo isso lhe 
tornava a existncia um pesadelo. Desani'mada, pela sua situao, pela dos amigos, pela de todo o 
Sul, no era de admirar que se lembrasse das palavras que Tony Fontaine proferira corajosamente: 
"No podemos admitir isto, no admitiremos". 
A despeito da guerra, do incndio e da Reconstruo, Atlanta voltara a ser uma cidade trepidante. 
Sob muitos aspectos, assemelhava-se ao que fora nos primeiros dias da Confederao: moderna e 
activa, 0 pior era que os soldados que atulhavam as ruas no usavam o uniforme que se desejaria 
ver, que o dinheiro no estava nas mos de quem devia estar, e que os pretos viviam  grande 
enquanto os seus antigos donos lutavam e emagreciam. . 
Observando de perto, descobria-se medo e misra: mas as aparncias exteriores eram as duma 
cidade prspera que rpidamente se levanta das runas. Atlanta dava sempre uma impresso de 
actividade, o que no acontecia com Savannah, Charleston, Augusta 'Richmond, 'Nova Orlees. 
Consideravam, porm, ordinria e muito yankee, aquela agitao permanente, e Atlanta era ento 
muito ordinria e bastante yankee como nunca fora e jamais tornaria a ser. As "pessoas 
desconhecidas" afluam de toda a parte e, de manh  noite, acotovelavam-se nas ruas ' no meio 
de grande burburinho. As carruagens brilhantes das mulheres dos oficiais e dos Sacolas novos-ricos 
lanavam chapadas de lama  cara dos cidados. Ao lado das casas discretas dos antigos habitantes 
elevavam-se os palacetes dos forasteiros endinheirados. - 
A guerra estabelecera definitivamente a importncia de 
13 - Vento Levou - H 193 
Atlanta no Sul e a fama da cidade outrora obscura alastrava-se cada vez mais. As vias frreas pelas 
quais Sherman lutara um Vero inteiro traziam de novo a animao ao burgo. Atlanta tornara-se o 
centro econmico duma regio vasta para onde convergia muita gente, boa e m. 
Os Sacolas tinham feito de Atlanta o seu quartel general, e, nas ruas, empurravam os representantes 
das mais antigas famlias do Sul, que pareciam pessoas estranhas na sua prpria cidade. Os 
plantadores, cujas propriedades tinham sido incendiadas quando da campanha de Sherman, 
abandonavam os campos de algodo que eles j no podiam cultivar sem escravos e vinham 
#
instalar-se em Atlanta. Todos os dias embarcavam emigrantes fugidos de Tennessee e das Carolinas 
onde a ReconstruG se fazia sentir mais duramente do que na Gergia. Depois da sua 
desmobilizao, tinham-se fixado em Atlanta inmeros irlandeses e alemes, antigos mercenrios 
dos exrcitos da Unio. As mulheres e filhos dos yankees ali aquartelados, cheias de curiosidade 
por conhecer o Sul depois de quatro anos de guerra vinham ainda aumentar a cifra da populao. 
Afluam @ centenas aventureiros de vria espcie, na mira da riqueza, assim como gente de cor, 
procedente do campo. 
Aberta para todos -como povoao fronteiria, a cidade barulhenta no procurava dissimular os seus 
vcios e pecados. As tabernas prosperavam. Haviam duas ou trs em cada quarteiro, e,  noite, as 
ruas estavam cheias de bbados a ziguezaguear ao longo dos passeios. Nas vielas escuras e pelas 
ruas mal iluminadas, vagueavam rufiles, carteiristas, prostitutas. Jogava-se forte nas casas de jogo. 
No se passava uma noite sem tiros nem navalhadas. Os cidados respeitveis sentiam-se 
escandalizados com o facto de Atlanta ter um bairro interdito, mais extenso e mais desenvolvido 
que durante as hostilidades. Toda a noite, por trs das persianas corridas, ouviam tocar piano, rir e 
entoar canes grosseiras, muitas vezes acompanhadas de berros e tiros. As inquilinas desses 
prdios mostravam-se ainda mais descaradas do que as meretrizes nos tempos de guerra e, 
debruadas  janela sem o mnimo pejo chamavam pelos transeuntes. Nas tardes de domingo 
ciran6vam pelas ruas principais as carruagens fechadas das "patroas" do bairro com o seu 
carregamento de raparigas que, aparamentadas com os mais belos atavios, tomavam fresco meio 
escondidas por um estore de seda. 
194 
Belle Watling era a mais clebre dessas damas, Mandara -construir uma casa de dois andares que 
eclipsava todas as do gnero. Em baixo, abrira um amplo botequim, de paredes elegantemente 
decoradas com pinturas a leo. Todas as noites tocava ali uma orquestra de pretos. Os dois andares 
de cima compunham-se de quartos que, segundo era voz pblica estavam equipados dos mais 
elegantes mveis, poltronas forradas de veludo, pesadas cortinas de renda, inmeros espelhos em 
molduras doiradas... Eram muito bonitas as doze raparigas da casa, todas bem pintadas e empoadas, 
e comportavam-se mais decentemente do que as dos estabelecimentos congneres. Pelo menos, a 
polcia raras vezes intervinha na actividade de Belle Watling. 
Daquele prdio, as matrorias de Atlanta falavam em segredo., e os ministros do culte, referiam-selhe 
em termos velados, embora o descrevessem como um lugar de perdio. Todos pensavam que 
uma mulher comc> Bellen no podia ter ganhado dinheiro suficiente para montar to luxuoso 
estabelecimento,: devia ter um comanditrio, evidentemente pessoa rica. Como Rhett Butler nunca 
tivera a prudncia de ocultar as suas relaes com essa mulher, era natural que lhe atribussem o 
papel de capitalista. Bastava v-la passar na sua carruagem, puxada por belos cavalos baios e guiada 
por um preto arrogante, para se ficar convencido de que nadava em dinheiro. Os garotos 
precipitavam-se para a rua, naquelas ocasies, e depois cochichavam impressionados: "Sim sim, era 
ela. Vi-lhe os cabelos ruivos..." 
1 Ao lado das casas bombardeadas e consertadas fosse como fosse, com madeiras velhas e tijolos 
encardidos, ostentavam-se as sumptuosas morad,*as dos Sacolas e dos que haviam lucrado com a 
guerra: tinham abundnciade guas-furtadas, empenas, torrees, vitrais, platibandas. Todas as noites 
se iluminavam as janelas. e ouvia-se danar ao som de msicas cujos acordes chegavam at longe. 
Trajadas de seda, passeavam senhoras nas varandas, em companhia de homens vestidos a rigor. 
Saltavam rolhas de garrafas de champanhe, serviam-se ceias de sete pratos em 
toalha de rendas, e os convidados fartavam-se de presunto, de pato assado, de fgado de ganso, de 
frutas raras. 
Mas, no interior das outras residncias, eram a pobreza e a fome que imperavam. A vida era a 
bastante difcil, tanto mais que os seus moradores se esforavam por con- 
195 
servar a dignidade e afectar orgulhosa ;ndiferena perante as exigncias de ordem material. 0 Dr. 
Meade podia contar muita coisa a respeito dessas famlias, que iam sucessiva~ mente passando das 
#
prprias moradias para as penses e das penses para quartos alugados em ruas miserveis. Tinha 
muitos dos seus doentes atacados de fraqueza cardaca e de enfermidades consumptivas. Sabia ele 
(e os infe~ Lzes no duvidavam desse facto) que a origem dos males estava na alimentao 
deficiente. Aquele mdico conhecia casos de famlia inteiras atingidas pela tsica. A pelagra, que 
antes da guerra se manifestava apenas nos brancos mais pobres, fazia agora a sua apario nas 
melhores famlias de Atlanta. Havia nens raquticos e mes que os no podiam amamentar. 
Outrora, o velho facultativo costumava agradecer a Deus sempre que punha mais uma criana neste 
mundo; mas j no considerava a vida como tamanha pechincha: a existncia era dura para as 
crianas, e muitas delas morriam logo nos primeiros meses. 
Enfim, luzes vinho msica, dana, brocados e sedas nas casas gran@es e p@mposas. E em volta, 
nas residncias modestas, frio e lenta inanio. A arrogncia e a dureza para os vencedores, o 
sofrimento e a animosidade para os vencidos. 
38 - 
SCARLETT assistia a tudo isso e, quer de dia quer de noite. no pensava noutra coisa. Vivia no 
terror -do que lhe iria acontecer. Sabia que ela e Frank figuravam na lista negra dos yankees por 
causa de Tony e que, dum momento para outro, a desgraa lhes pod.a bater  porta. No entanto, e 
agora menos que nunca, no se deixaria despojar dos seus haveres. Esperava outro filho comeava 
justamente a obter lucros com o negcio da mad@ira e tinha de prover s des pesas de Tara at  
prxima colheita do algodo. Imagine-se que perdia tudo! Que precisaria de recomear com as 
pobres armas de que dispunha para se defender daquele mundo de doidos varridos! Preferia matarse 
a tornar a passar pelo que passara. 
No meio das ruinas e do caos que reinava nessa Primavera de 1866, Scarlett consagrou toda a sua 
energia em aumentar. o rendimento da serrao. Havia dinheiro em 
196 
Atlanta. A vaga de reconstruo fornecia-lhe a oportunidade com que ela sonhara. Sabia que 
poderia vir a arrecadar muita moeda, 0 principal era no a T)renclerem, e, para isso, tinha de 
proceder com 'muita diplomac,'a: no fazer caso de insultos, sofrer injustias, no ofender ningum, 
fosse de que raa fosse ' submeter-se a tudo... Embora odiasse os escravos forros, embora sentisse 
percorr-la uma onda de clera quando um desses negros insolentes lhe dirigia qualquer gracejo, 
mostrava-se imperturbvel, sem sequer lanar um olhar de desprezo. Ainda que detestasse os 
Sacolas e os Renegados, que enriqueciam com tanta facilidade quando ela pouco conseguia com o 
seu esforo, nunca deixava escapar a mnima aluso desagradvel a respeito dessa gente, Ningum 
em Atlanta sentia maior averso pelos yankees, mas nem em casa falava deles. 
"No estou para me comprometer" pensava ela, com ar taciturno. "Os outros que se entrentenham a 
chorar os bons tempos. Os outros que se enfuream contra o domnio dos yankees, que gemam por 
lhes recusarem o direito de voto, que vo parar  cadeia por falarem a torto e a direito, que sejam 
enforcados por serem partidrios da Ku Klux Klan". Este nome inspirava quase tanto terror a 
Scarlett como aos pretos, "As outras mulheres que se sintam muito orgulhosas com o facto de os 
maridos pertencerem a essa seita". Graas a Deus, Frank nunca se imiscura em tal coisa. "Sim, os 
outros que se revoltem, que conspirem  vontade. Para qu agarrar-se ao passado, quando o presente 
 to angustiante e o futuro to incerto? Para qu preocupaes de voto, quando, acima de tudo,  
necessrio po, um tecto e conservar-se a liberdade? Oh, meu Deus, faze! com que no me acontea 
mal nenhum at ao ms de Junho!" 
Era em Junho que Scarlett se veria obrigada a ficar em casa da tia Pitty at nascer o filho. J a 
censuravam por aparecer em pblico naquele estado. Nenhuma mulher decente se atrevia a sair 
quando grvida. Frank e Ztty suplicavam que lhes poupasse essa vergonha, e Scarlett prometera 
deixar de trabalhar em Junho. Nessa altura, a serrao passaria bem sem ela e j haveria d'nheiro 
suficiente para encarar os factos com maior confiana. Mas ainda tinha tanta coisa a fazer e 
dispunha de to pouco tempo! Desejaria que os dias fossem mais comnridos e contava os minutos 
febrilmente, na sua nsia de c>l@ter dinheiro, cada vez mais dinheiro. 
197 
#
 fora de incitamentos, Frank perdera um pouco da Sua timidez. No s conseguira ver liquidadas 
algumas contas como tambm tirava mais lucros do seu estabelecimento. No entanto, na serrao  
que Searlett depunha todas as suas esperanas, Nessa poca Atlanta era como uma rvore 
gigantesca que tivessem d@cepado pelo tronco e que depois refilhasse com redobrado vigor. Os 
comerciantes de materiais de construo no conseguiam satisfazer todos os pedidos. A madeira, o 
tijolo e a pedra de cantaria subiam de preo, e a serrao funcionava sem descanso desde o romper 
da manh at ao cair da noite. 
Scarlett comparecia l todos os dias, persuadida de que a roubavam e querendo pr cobro a isso. 
Contudo ' passava na cidade a maior parte do tempo, a falar com mestres-de-obras e carpinteiros, 
a abordar indivduos que tencionavam fazer prdios ou que ela suspeitava terem essa ideia em 
mente. Cumulava-os de palavras amveis e s os deixava depois de obter uma encomenda ou a 
promessa de s a ela comprarem madeira. 
Depressa se tornou figura familiar das ruas de Atlanta. Envolta numa vestimenta ampla, com as 
mos enluvadas sobre o regao, passava de carruagem, ao lado de Peter, muito digno e muito 
descontente com o seu papel. A tia Pitty oferecera  sobrinha um lindo mantelete verde, para lhe 
dissimular a espessura do corpo ' e um chapelinho redondo do mesmo tom. Esse conjunto ia-lhe a 
matar, e ela usava-o sempre nas visitas aos clientes. Com um pouco de carmim nas faces, um leve 
perfume de gua-de-colnia, Scarlett era uma figurinha deliciosa enquanto no punha o p no cho 
e lhe viam o ventre deformado. Mas raras vezes se apeava da carruagem. Bastava um sorriso e um 
gesto amigvel para que os homens acorressem para junto dela e at, de cabea descoberta, 
ficassem largo tempo  chuva a discutir o negcio. 
No fora ela a nica pessoa que entrevira a possibilidade de ganhar dinheiro com as madeiras de 
constrlio, mas Scarlett, no temia os concorrentes. Com legtimo orgulho, sabia que valia tanto ou 
mais que eles. Era digna filha de Gerald e, as circunstncias s lhe 'apuravam o instinto comercial 
que herdara do pai. 
Ao princpio, os outros negociantes de madeira haviam-se rido  ideia de uma mulher se meter 
numa empresa daquelas, mas agora j no riam. De cada vez que viam 
198 
passar Scarlett'praguejavam entre dentes. 0 prprio facto de ser mulher a beneficiava, porque 
assumia uns ares to desamparados, to suplicantes que eram poucos os coraes que dela se no 
condoam. Podia, sem nenhuma dificuldade' dar a, impresso duma pobre senhora tmida que se 
vira obrigada a recorrer a um trabalho desagradvel, duma infeliz que morreria de fome se no lhe 
comprassem madeira. Mas quando es-se gnero no dava resultado, mostrava-se verdadeira mulher 
de negcios e no hesitava em vender com perca s para arranjar novos clientes. No tinha pejo de 
vender madeira de m qualidade pelo, preo da boa, quando estava certa de que no chegariam a 
descobrir a burla nem sentia escrpulos em dizer mal dos concorrentes. ingia custar-lhe a revelar a 
verdade, suspirava, e acabava por declarar aos futuros clientes que a madeira dos outros negociantes 
no s era mais cara como tambm hmida, cheia de ns, em suma, de pssima qualidade. 
A primeira vez que Scarlett mentiu desta forma sentiu-se culpada e admirada ao mesmo tempo. 
Adn@irada consigo mesma pela espontaneidade e naturalidade com que mentira, culpada porque se 
lembrou da me. Que diria a me perante aquilo? 
No havia sombra de dvida quanto ao que Ellen diria se visse uma filha sua usar mtodos desleais. 
Espantada e triste empregaria termos brandos mas severos, falaria da honr,;, da honestidade, do 
dever com os outros. Num breve momento, Searlett tremeu ao evocar o rosto da me, mas logo a 
imagem se desvaneceu, apagada por essa avidez sem 
escrpulos que nela se desenvolvera na poca trgica de Tara, E assim Scarlett ultrapassou esse 
marco milirio como j ultrapassara outros, suspirando duma maneira que Ellen no teria aprovado, 
encolhendo os ombros e repetindo a velha e inevitvel frase: "Pensarei nisso mais tarde". 
Como nunca mais tornou a associar a lembrana de Ellen s suas operaes comerciais no voltou a 
sentir remorsos quando recorria a mentiras`para afastar os clientes-dos outros negociantes de 
madeira. Sabia, alis, que podia dizer quanta peta quisesse a respeito deles. Servia-lhe de garantia o 
#
esprito cavalheiresco dos sulistas. Uma senhoraestava 
no seu direito de proferir o que lhe apetecesse acerca dum homem, ao passo que ao 
cavalheiro no era per- 
199 
tmitido 
falar mal duma mulher e muito menos cham-la mentirosa. A nica coisa que os outros 
donos de estncias podiam fazer era amaldioar intimamente Scarlett e desabafar em famlia "que 
s queriam que Deus transforma~ em homem a senhora Kennedy, nem que fosse por cinco 
minutGs". 
Um branco de origem humilde, que possua uma serrao prxima da estrada de Decatur tentou 
combater Scarlett com as suas prprias armas @ declarou abertamente q Jue ela era uma intrujona e 
uma grande mentirosa. Isso, 
r por m, mais o prejudicou de que o beneficiou pois todos se horrorizavam ao ouvir um branco 
dizer tais @oisas duma senhora ainda que esta se comportasse de modo to pouco feminin6. 
Scarlett no respondeu quelas insinuaes, manteve sempre um silncio cheio de dignidade, mas, a 
pouco e pouco tirou toda a cientela ao homem. Fez preos nferiores @os dele e, embora gemendo 
no ntimo entregou madeira to boa para provar a sua probidade'comercial, que no tardou a 
arruinar o infeliz. Ento, com grande escndalo de Frank, comprou-lhe a serrao pelo preo que ela 
quis. 
Uma vez de posse doutra estncia tratou de resolver o problema de encontrar algum de co@fiana 
para gerente. No queria outro Johnson. Sabia perfeitamente que, apesar de toda a vigilncia, ele 
continuaria a vender madeira s escondidas. Seria assim to, difcil descobrir a pessoa que ela 
pretendia? No era quase toda a gente pobre como Job, no estavam as ruas cheias de 
desempregados? No se passava um dia que Frank no desse esmola, a qualquer ex-soldado na 
misria ou que a tia Pitty no. matasse a fome a um mendigo. 
Mas Scarlett no queria dirigir-se a esses. "No me con~ vm homens que andem sem trabalho h 
mais dum ano", dizia consigo. "Se no conseguiram emprego em todo esse tempo, tambm no 
sero capazes de tomar conta duma fbrica. Alm disso, tm uma aparncia to desprezvel, to 
famlica! No me agrada o genero. Queria uma pessoa enrgica, da laia do Ren, do Tommy 
Wellburn, do KelIs Whiting ou dos Sinimons. Ao menos estes no tm aquele ar de vai-te se queres 
ir, que tinham os soldados depois da rendio; v~se que alguma coisa lhes anima o esprito". 
Mas, com grande surpresa --de Scarlett, os Sinimons, que tinham agora um forno de- tijolos, e 
Kells- Whiting, que vendia uma loo capilar fabricada pela me, agradeceram 
200 
muito penhorados e recusaram a proposta. 0 mesmo aconteceu com mais de uma dzia de homens a 
quem ela fez igual oferta. J desesperada, aumentou o salrio que tencionava dar, mas o resultado 
foi o mesmo. Um dos sobrinhos de Merriwether chegou a dizer-lhe com certa impertinncia que 
antes queria fazer transportes por sua conta numa carroa do que trabalhar para um patro. 
Uma tarde, Scarlett deteve a sua carruagem ao lado da carripana de Ren Picard e interpelou este 
ltimo, que levava a casa o seu amigo Tommy Wellburn. 
-Oia, Ren, por que no vem dirigir a minha serrao? Tem de reconhecer que  um trabalho mais 
digno do, que vender pastis em semelhante veiculo. Se fosse a si, tinha vergonha! 
-J perdi a vergonha -replicou o rapaz sorrindo.Pode falar  vontade de dignidade que fic@ na 
mesma. Levei uma vida muito digna at que a guerra me tornouto livre como os pretos. Quero l 
agora saber de dignidade! Gosto desta minha traquitana. Gosto da minha pileca. Gosto dos yanlkees 
que me compram os pastelinhos feitos por minha me. No, querida Scarlett agradeo-lhe, mas 
quero vir a ser o rei dos pastis.  esse o meu destino. Como Napoleo, sigo a minha estrela. 
E, com a ponta do chicote, Ren desenhou um arabesco, num gesto teatral. 
-Mas voc no foi feito para vender pastis assim como o Tommy no foi feito para discutir com 
un@ bando de operrios irlandeses. 0 meu trabalho  mais... 
- E voc foi feita para dirigir serraes hem? - interrompeu Tommy, com um leve sorriso. - stou a 
#
ver daqui a Scarlett, pequenina, a balbuciar a lio sobre os joelhos da me: "Nunca vender madeira 
boa quando puder vender m por preo superior". 
Ren torceu-se com riso ao ouvir isto. Com os olhinhos simiescos a reluzirem de malcia, deu uma 
palmada nas costas do amigo. 
- No seja malcriado - disse Scarlett friamente, sem achar graa nenhuma  observao de Tommy. 
- P, claro que no nasci para dirigir serraes. 
- A minha inteno no era ofend-la. Voc est  frente duma serrao e desempenha muito bem o 
seu papel. Nenhum de ns, tanto quanto se me afigura, faz aquilo que devia fazer, mas enfim, c 
nos vamos aguen- 
201 
tando. Seria triste que a gente cruzasse os braos e chorasse s porque as coisas no corriam como 
deviam. Por que no contrata um destes Sacolas, que abundam por a? 
- No os quero. So mandries e gatunos. Se fossem espertos, ficavam onde estavam em vez de 
virem espoliar-nos. Quem eu pretendo arranjar  um homem capaz, de boa gente, hbil e enrgico... 
- No se chama exigir muito, mas creio que lhe vai ser difcil com o salrio- que oferece. Todos os 
que havia nessas condies encontram-se j a trabalhar excepto os que ficaram mutilados. Talvez 
no fossem tal@ados para os lugares que exercem... Enfim 'conseguiram emprego e l se mantm. 
Sempre lhes parece melhor do que dependerem duma 
- Quando esto muito necessitados, a inteligncia no os ajuda. No acha? 
- n possvel. Em todo o caso, no perdem o seu orgulho -declarou Tommy, com certa arrogncia. 
- Orgulho! - repetiu Scarlett. - P, muito bonito proclam-lo, em especial para esconder as mazelas. 
Os dois homens riram-se contrafeitos e Scarlett teve a impresso de que faziam causa comum na 
sua reprovao aos comentrios dela. 0 que Tommy dissera no deixava de ser verdade, reflectiu a 
mulher de Frank, passando em revista os homens a quem oferecera o lugar na serrao. Mas estes 
todos j tinham emprego, e s vezes trabalhavam duramente, muito mais do que o imaginariam 
antes da guerra. No se ocupavam daquilo que desejariam ou que lhes pareceria mais fcil; no 
entanto, a se conservavam. A vida no estava para cada qual escolher o que mais lhe apetecesse. 
No entanto, ningum saberia se lamentavam a existncia perdida, saudosos dos seus bens de 
outrora... Lutavam numa guerra diferente 'talvez mais cruel do que a primeira. Precisavam viver, 
e punham nesse combate a mesma energia que os animava antes da malfadada derrota. 
- Searlett - disse Tommy, com ar constrangido - 
custa-me pedir-lhe um favor 'principalmente depoiE de me ter mostrado pouco amvel... Quem 
sabe se lhe ser de alguma utilidade 'no fim de contas? 0 meu cunhado Hugh Elsing no tem sido 
feliz no comrcio de combustveis. Tirando os yankees, toda a gente se fornece directamente nos 
bosques. E a famlia dele bem precisa... Eu c fao o que posso... contudo... compreende, tenho a 
Fanny, e ainda 
202 
h minha me, e duas irms viuvas, que vivem em Sparta. Hugh  pessoa capaz, exactamente o que 
voc queria. n srio, de bom meio... 
- Sim, no quero contrari-lo, mas quanto a perspiccia... Se a tivesse, ele havia de conseguir 
melhor situao. 
Tominy encolheu os ombros. -Voc, Scarlett, v as coisas duma forma que desconcerta, Acha que 
Hugh no tem prstimo nenhum. Olhe que h piores. Eu julgo que a falta de senso prtico  bastante 
compensada pelas qualidades que ele mostra possuir, honestidade e desejo de acertar. 
Scarlett no respondeu, receando ser desagradvel; mas pensou que nenhumas qualidades seriam 
bastantes para suprirem o senso prtico. 
Depois de ter rebuscado inutilmente por toda a cidade e recusado as propostas de vrios SacoIas que 
pretendiam dirigir-lhe a fbrica, acabou por aceitar a sugesto de Tommy e optou por Hugh Elsing. 
Durante a guerra, fora ele oficial corajoso e atilado. mas a energia esgotara-se-lhe toda com as duas 
feridas graves que recebera e com a durao da campanha. Da lhe ficara aquele aspecto de co 
enxotado, que apresentava no seu negcio de lenhas. No era nada o homem que Scarlett procurava. 
#
"P, estpido", pensou ela. "No percebe nada de comrcio e aposto que no sabe que dois e dois so 
quatro. Nem jamais h-de saber. Mas@, enfim,  pessoa sria e no me intrujar". 
Por essa altura Scarlett no dava grande apreo  honestidade; todavia, quanto menos a valorizava 
para si prpria, mais a exigia nos outros. 
"P, pena que Johnnie Gallegher esteja amarrado a Tommy Wellburn. Esse  que me convinha. P, 
duro com<:> ao, fino como um coral e ser-me-ia fiel se eu lhe pagasse bem. Entendemo-nos s mil 
maravilhas e podamos fazer boas transaces. Talvez o apanhe quando o hotel ficar concludo. 
Entretanto, contentar-me~ei com o Hugh e o Johnson. Se confiar a nova serrao ao Hugh e deixar 
na antiga o Johnson, poderei estar na cidade a tratar das vendas. Enquanto no conseguir o 
Gallegher, tenho de me contentar com o Johnson. Arrisco-me  verdade, a que este me roube ' 
durante a minha ausncia. Se no fosse to matreiro! 0 melhor ser eu construir um depsito de 
material na metade do terreno que Charles me deixou, 
203 
e, ria outra o que ficava bem era uma taberna, se Frank no fizesse'tanto escarcu por causa disso. 
No importa, constru-la-ei logo que tiver o dinheiro suficiente. Que pena o Frank ser to esquisito! 
M ocasio escolhi eu para ter uma criana. Qualquer dia nem poderei sair de casa. Se ao menos 
estes malditos yankees me deixassem em paz! Se ... " 
Se, se... A vida  to contingente. Nunca h a certeza de nada. Sempre o pavor de perder tudo! E, 
ainda por cima, o frio e a fome... n verdade que Frank estava a ganhar um pouco mais 'mas 
constipava-se com tanta frequncia que tinha de se meter na cama de vez em quando. Se ficasse 
doente para o resto da vida? No, no podia contar muito -com ele. Nem com ele nem com mais 
ningum; s consigo mesma. Que faria, se os yankees viessem despoj-la de tudo? 
Todos os meses, Scarlett enviava para Tara metade dos seus ganhos. Com a outra metade, 
amortizava a sua dvida para com Rhett e guardava o resto. Nenhum avarentocontava o seu oiro 
mais vezes que ela, nenhum avarento, receava mais perd-lo. No queria depositar c> dinheiro no 
Banco com medo das falncias ou de que os yankees confiscassem as somas depositadas. Trazia 
sempre consigo quanto podia, metido no corpete. Escondia maos de notas em todos os cantos da 
casa, debaixo dum ladrilho solto, no saco dos trapos, entre as pginas da Bblia.  medida que 
decorriam as semanas mais irascvel se tornava, porque cada dlar que ela e6nornizava seria mais 
um dlar a perder se a catstrofe sobreviesse. 
Frank, Pitty e os criados suportavam com incrvel benevolncia aqueles excessos de clera, 
atribuindo  gravidez tanta m disposio e sem jamais adivinhar a verdadeira causa. Frank, 
sabendo que no se deve contrariar as mulheres grvidas, deixara de a censurar por dirigir duas 
serraes e andar na rua naquele estado. A atitude da esposa representava para ele constante 
embarao 'mas animava-o a ideia de que no se prolongaria muito tal situao. Depois de a 
criana nascer, Scarlett voltaria a ser a criatura meiga e encantadora que ele cortejara. No entanto, 
apesar de tudo quanto Frank fazia para a apaziguar, Scarlett continuava com os seus ataques de 
fria, a ponto de o marido pensar s vezes que ela estava doida varrida. 
Ningum mostrava' perceber o que a compelia a agir dessa maneira. Era o desejo de pr em *ordem 
os seus negcios, antes de se enclausurar de portas adentro, de ter tanto 
204 
dinheiro quanto fosse possvel para o caso de nova catstrofe, de poder construir uma barreira que a 
protegesse do dio crescente dos yankees. Obcecava-a o dinheiro. Ao pensar na criana que ia 
nascer no escondia um sentimento de clera contra a inoport@nidade do facto. 
"Mortes, impostos, filhos... Acontecem sempre estas coisas nas ocasies menos prprias!" 
Atlanta escandalizara-se bastante quando Scarlett, uma senhora, se pusera  frente da serrao; mas, 
com o decorrer do tempo, a cidade compreendeu que as inconvenincias no iam ficar por ali. 0 seu 
procedimento nos negcios era coisa indecorosa em especial se se reparasse que a me dela fora 
uma Robblard; mais indecente se tornava agora a sua audcia de aparecer na rua naquele estado 
adiantado da gravidez. Nenhuma mulher branca e poucas negras saam de casa logo aos primeiros 
sintomas da maternidade. Indignada a senhora Merriwether declarou que, do modo como S@arlett 
#
se portava, no admiraria que tivesse a criana em plena via pblica. 
Em comparao, porm, com o que se dizia ultimamente, nenhuma importncia tinham as crticas 
anteriores. Scarlett estava no s a traficar com os yankees como dava a impresso de que se 
regozijava com isso. 
A senhora Merriwether e outras damas sulistas tambm faziam negcios com esses recm-chegados 
do Norte; mas a diferena estava em que se metiam naquilo de m-von~ tade e no ocultavam o seu 
desagrado a ningum; ao passo que Scarlett fora ao ponto de tomar ch com as esposas desses 
oficiais nas prprias casas delas! S lhe faltava receb-las na s@a, por seu turno e a cidade 
acreditava que tal coisa se verificaria se no exi@tissem Frank e a tia Ptty. 
Scarlett no ignorava estas murmuraes, as quais em nada a preocupavam ' nem poderia dar-se 
ao luxo de se preocupar: od,,ava da mesma forma os yankees (como no dia em que eles 
pretenderam incendiar Tara) mas convinha-lhe dissimular a averso. Sabia que, para ganhar 
dinheiro, precisava de se voltar para os yankees e aprendera que o melhor modo de obter clientela 
era lisonje-los com sorrisos e palavrinhas doces. 
Algum dia, quando fosse bastante rica e tivesse o dinheiro longe do alcance deles, diria ento tudo o 
que pensava. Que alegria para ela, quando isso pudesse ser! 
205 
Entretanto, enquanto esperava era necessrio pactuar. Se a sua atitude significava hip&risia 'muito 
bem, Atlanta que a imitasse para seu proveito! 
Descobrira que relacionar-se com oficiais nortistas era to fcil como matar pardais no quintal. 
Exilados numa terra hostil sentiam-se ss e ansiavam por conhecer de perto aquel@s senhoras que, 
na rua, lhes lanavam olhares desdenhosos. S das prostitutas e das pretas  que eles recebiam 
palavras amveis. Ora Scarlett era evidentemente uma dama, e de boa famlia mau grado a sua 
actividade comercial: por isso tanto d@sejavam encontrar o fulgor sorridente daquelas pupilas 
verdes. 
Muitas vezes, quando parava a carruagem para lhes falar, sentia crescer dentro de si a antipatia que 
lhe inspiravam, apesar do ar prazentPiro que exibia. Coibia-se, porm, e achava por fim que os 
sabia manejar com a mesma facilidade com que outrora manobrara os sulistas: a diferena residia 
agora em que o no fazia para se divertir, mas sim pela presso dos negcios. 0 papel que ela se 
impunha era o de uma senhora distinta e encantadora, crivada de apoquentaes. Graas ao seu ar 
digno e reservado, mantinha as suas vtimas a respeitosa distncia, sem deixar contudo de mostrar 
uma afabilidade que consolava os oficiais yankeles quando se lembravam da senhora Kennedy. 
Essa afabilidade era bastante proveitosa, e Scarlett contava com ela. Muitos daqueles militares, por 
no saberem quanto tempo se demorariam em Atlanta, haviam mandado buscar a famlia, Como os 
hotis e as penses estavam a abarrotar, construam vivendas para seu uso pessoal; e assim tinham a 
agradvel oportunidade de comprar madeira  graciosa senhora Kennedy, que os tratava com mais 
atenes do que ningum na cidade. Tambm os Sacolas 
e os Renegados, que edificavam prdios para moradia e comrcio, preferiam dirigir-se a Scarlett em 
vez de se entenderem com os antigos soldados da Confederao, muito corteses sem dvida, mas 
duma cortesia to cerimoniosa e gelada que redundava em franca hostilidade. 
Assim, porque era bonita e simptica, ' e porque sabia mostrar-se s vezes infeliz e melanclica. 
com muito gosto a escolhiam para lhes resolver o problema do fornecimento de tbuas; da mesma 
forma lucrava o armazm de Frank, por este ser o marido de to adorvel criatura. Searlett, vendo 
prosperar os negcios, dizia que no s garantia o 
206 
presente com o dinheiro recebido dos yankees, como tam bm salvaguardava o futuro com a criao 
de novas amizades. 
Era, afinal, mais fcil do que pensara isso de conservar relaes com oficiais nortistas, embora estes 
tivessem grande receio das damas do Sul; todavia, com as mulheres deles  que surgiam problemas 
que Scarlett no havia previsto. No fora ela -que procurara relacionar-se, e at gostaria de o ter 
evitado; mas a coisa tornara-se impossvel, pois as esposas dos oficiais no prescindiam de a 
#
conhecer. Tinham vida curiosidade pelas mulheres do Sul, e Searlett dava-lhes assim a Drimeira 
oportunidade de a satisfazerem. As outras damas de tIanta no queriam saber delas e at se 
recusavam a cumpriment-las na igreja. Indo, pois, aos seus lares tratar de negcios, Scarlett era 
acolhida de braos abertos. Quando parava o trem diante duma residncia de yankee, e do alto 
assento gabava as qualidades do seu tabuado, ao dono da casa, a mulher deste surgia e juntava-se  
conversa e insistia por que entrasse, a fim de tomar uma xcara de ch..Searlett geralmente aceitava, 
por mais que a ideia lhe repugnasse, porque via nisso uma ocasio de lhes sugerir que visitassem o 
armazm de Frank. Todavia, precisava dominar-se bem, por causa da atitude condescendente e das 
suas perguntas indiscretas, o que tudo lhe fazia referver o sangue. 
Como a Cabana do Pai Toms era o nico livro para elas digno de crdito, depois da Bblia, todas 
desejavam saber como  que os sulistas treinavam os ces que deviam caar os escravos fugitivos. 
Ficavam incrdulas quando Searlett lhes respondia que, em matria de ces de caa, na sua vida s 
conhecera mansssimos cachorros em lugar de ferozes mastins. Queriam depois saber como  que 
os plantadores mareavam os escravos na cara, a fogo; como lhes aplicavam o castigo dochicote de 
nove pontas, que os punha tantas vezes s portas da morte; e o que era na realidade a concubinagem 
das escravas. Este ltimo assunto irritava-a bastante, porque ela no ignorava o aumento recente dos 
nens mulatos desde que os soldados yankees estavam aquartelados em Atlanta. 
Outra qualquer senhora da cidade rebentaria de fria perante aquelas provas de partidarismo e de 
ignorncia, mas Scarlett conseguia manter-se calma, pensando, e com razo, que semelhantes 
diglates eram mais para desprezar 
207 
do que para enfurecer. No fim de contas eram yankees, e dos yankees no se podia esperar coisa 
melhor. Os insultos ao seu pas no a atingiam, nem a ela nem aos seus conterrneos, e s lhes 
provocavam um acrscimo de desdm. Isto durou at que um incidente veio reavivar todos os 
rancores de Scarlett e lhe permitiu medir o abismo que separava o Norte e o Sul e que era to difcil 
de transpor. 
Certa tarde em que regressava a casa, na carruagem guiada por Peter, passou defronte dum prdio 
onde moravam trs oficiais e respectiva famlia, pois as casas que estavam a construir ainda no se 
encontravam prontas. A madeira para elas era fornecida por Scarlett, que as damas yankees 
lobrigaram nesse momento e a quem fizeram sinal para parar. Aproximando-se da carruagem, disse 
uma das trs, mulher alta e magra oriunda do Maine: 
- Gostava que me desse umas i ormaes acerca desta cidade to atrasada. 
Scarlett engoliu em seco esta ofensa feita a Atlanta e esforou-se por sorrir. 
-Em que lhe posso ser til? 
- A minha criada Bridget voltou para o Norte, alegando que no podia continuar a viver entre estes 
pretos. Ora eu no posso ocupar-me dos pequenos. Diga-me por favor onde posso encontrar outra 
rapariga. No tenho mais ningum a quem me dirija. 
- No ser difcil - volveu Searlett, rindo. - Se conseguir uma preta do campo que a Agncia dos 
Forros ainda no tenha estragado, ficar& com uma esplndida criada para as crianas.  pr-se aqui 
 porta.,  espera que passem as negras. Estou certa de que... 
As trs mulheres soltaram gritos de indignao. -Ento julga que vou confiar os meus filhos a uma 
preta? - bradou a da-ma do Maine. - 0 que eu pretendo - uma rapariga irlandesa. 
- Bem parece que no descobrir criadas irlandesas em Altanta - respondeu friamente Scarlett. - 
Nunca vi nenhuma, e para mim no desejaria. Alm disso - acrescentou, com uma pontinha de 
sarcasmo - garanto-lhe que as pretas no so canibais e que se pode ter absoluta conf iana nelas. 
- Isso  que no! Debaixo do meu tecto no as quero! 
- exclamou a senhora do Maine. 
E outra delas ajuntou: 
208 
- Permtir que ponham a mo sobre os nossos filhos? Nunca! 
Scarlett lembrou-se das mos grossas e afectuosas de Bab, que tanto se haviam cansado ao servio 
#
dela, de Ellen e de Wade. Que sabiam aquelas mulheres acerca de mos de pretas? Ignoravam 
quanto eram dignas de estima, corno eram feitas para apaziguar e consolar. Rindo-se retorquiu: 
- Admira-me que pensem assim. Pois no foram os do Norte quem emancipou os negros? 
- Eu no! - acudiu a do Maine. - Jamais na minha vida tinha visto um, antes de chegar aqui no ms 
passado, e passaria muito bem sem os ver. Fazem-me arrepios. No me inspiram confiana. 
Havia j certo tempo que Scarlett notava inquietao no velho Peter, que se pusera a fitar com ar 
desesperado as orelhas do cavala. 
- Reparem no preto, como est fulo! -bradou a senhora do Maine 'indicando o cocheiro s outras 
duas. Ao mesmo tempo desataram a rir. 
Peter no se deu por achado, mas a testa enrugou-se-lhe mais. Ver-se tratado daquela forma! Ele 
que, havia anos, era o melhor esteio da famlia Hamilton! 
Scarlett no ousou olh-lo de frente, mas percebeu que o homem tremia, digerindo o insulto 
recebido. Aquilo era demais. Escutara com toda a calma as mulheres yankees troar do exrcito 
confederado, conspurcarem a reputao de Jeff Davis, acusar os sulistas de torturarem e 
assassinarem os escravos; teria at consentido que pusessem em dvida a sua virtude e honestidade, 
se isso lhe trouxesse alguma vantagem; mas a ideia de que essas criaturas magoavam com os seus 
ditos o velho e fiel servidor, isso era o mesmo que lanarem fogo a uma barrica de plvora. Por 
momentos poisou a vista na pistola que o criado tinha no cinto e as mos quase avanaram para a 
tirar. Mereciam ser abatidas a tiro, aquelas nortistas estpidas e arrogantes. Conteve-se, porm, a 
tempo: no era ainda altura de dizer aos yankees o que pensava deles. Um dia lhes poria a calva  
mostra. No agora. 
- Peter  da nossa famlia - declarou com voz trmula. 
- Boa tarde. Vamos andando, Peter. 
0 cocheiro chicoteou to s@Lbitamente o animal que este se empinou e o carr<> deu um solavanco. 
Scarlett ouviu 
14 - Vento Levou - 11 209 
j i@ 
ainda a dama do Maine observar em tom de perplexidade: "n da famlia? Com aquela cor?" 
Que diabo os levasse a todos! Deviam ser expulsos da face da terra,  chicotada. "Quando eu tiver 
dinheiro, cuspo-lhes na cara. Quando ... " 
Relancebu Peter e viu-lhe uma lgrima descendo pela face. Logo a invadiu uma onda de ternura, de 
compaixo por aquele ente, como se se tratasse duma criana a quem houvessem feito mal. Essas 
mulheres tinham humilhado Peter! Peter, que estivera na guerra do Mxico com o -velho coronel 
Hamilton e segurara o dono nos braos, quando este morrera; que havia educado Melly e Charles e 
olhava pela inocente Pittypat, que a protegera durante a debandada e lhe proporcionara um cavalo 
para a trazer de Macon atravs dum pas alterado pela rendio. E as damas do Norte a declararem 
que os negros no eram de confiana! 
- Peter - disse ela, pondo-lhe a mo no brao. - Aflige-me tanto que estejas a chorar! No ds 
importncia  conversa daquelas malditas yankees. 
- Falaram diante de mim como se eu era mula que no podia compreend - respondeu ele 
suspirando. - Chamaram preto a mim e disseram no c6nfi em ngo. Quando sinh coronel morreu 
me pediu: "Peter toma cuidado de mininos. Vigia minina Pittypat, que  @ma cabecinha de 
borboleta". E depois disso sempre vigiei nela. 
- S. Gabriel Arcanjo no faria melhor-redarguiu Scarlett, para o sossegar. - Sem ti o que seria de 
ns? 
- Obrigado, minha sinhora' Sei muito bem e sinhora tambm sabe. Os yankees  que no qu sab. 
Pra qu que eles se mete nestes negcio? Eles no compreende a gente. 
Scarlett calou-se, porque estava ainda a contas com a clera que a assaltara e que no deixara 
explodir diante das trs mulheres. Assim se mantiveram em silncio. Peter j no resmungava, mas 
o lbio inferior ainda lhe tremia. Tambm nele perdurava a indignao. 
"Estes yankees so muito esquistos", pensava Scarlett. "As senhoras julgam que os pretos, por 
#
serem pretos, no tm ouvidos. Ignoram que eles so como crianas a quem S, deve falar com 
doura e dar mimos de vez em quando. Tambm no compreendem a natureza das relaes entre 
dono? e escravos o que alis no os impediu de se baterem para liberta@ estes ltimos. E agora, j 
no querem 
210 
ouvir falar deles seno para aterrorizar os sulistas. No os estimam, no os entendem, no confiam 
neles, e todavia gritam aos quatro ventos que ns no sabemos lidar com os negros". 
No confiar nos pretos! Pois Searlett confiava mais neles do que na maior parte dos brancos, e pelo 
menos do que nos yankees. Possuam qualidades raras de lealdade, eram infatigveis e carinhosos e 
no se deixavam tentar pelo dinheiro. Pensou nos que tinham ficado em Tara quando da invaso: 
bem podiam ter fugido, se quisessem e juntar-se s tropas nortistas, e levar vida regalada. Mas 
ficaram. Umbrou-se de Dilcey, apanhando algodo a seu lado; de Pork arriscando a vida na 
vizinhana, onde despovoava os galinheiros para que os seus senhores no morressem de fome; 
evocou Bab, vindo a Atlanta para a proteger. Recordou-se tambm dos servos de outras casas, que 
permaneceram fiis aos seus donos ' defendendo a vida e honra das senhoras enquanto os homens 
estavam nas fileiras, ajudando-as a esconder-se atravs das vicissitudes da guerra, tratando dos 
feridos, enterrando os mortos, confortando os aflitos, trabalhando pedindo, furtando para que  
mesa, no faltasse po. E @nesmo agora, com a respectiva Agncia a prometer-lhes mundos e 
fundos, eles permaneciam ao lado dos brancos e labutavam mais afincadamente do que tinham feito 
no tempo da escravatura. Mas os yankees no percebiam estas coisas nem as perceberiam jamais. 
-No entanto, deram-te a liberdade -disse ela em voz alta. 
- No, sinhora. Se dessem liberdade no me insultavam nem tratavam como uma mula. Mas minha 
sinhora no defendeu a mim. 
-Ora essa! At disse que fazias parte da famlia. 
- Isso no se chama defend, porque  verdade. Sinhora no precisa negoci com yankees. As outras 
sinhora no faz isso. Sinhora Pitty nem quer molh seu p na lama de yankees. No vai fic 
contente, quando soub o que passou. Ui, que tanta d tenho nas costas... Se no melhor no volto 
a sal. 
A@ queixas de Peter eram muito mais mortificadoras do que tudo o que pudessem dizer Frank, a tia 
e os vizinhos, e Searlett sentiu tentaes de sacudir o cocheiro at lhe chocalharem as gengivas sem 
dentes. Era verdadeiro o que Peter dissera, mas desagradava-lhe ouvi-lo da boca dum 
211 
@L" , ,k 
negro, e dum negro da casa. Para um sulista no havia nada de mais humilhante do que receber 
censuras dum criado. 
Tinha ela, decerto, a aprovao dos vencedores yankees, mas faltava-lhe a dos parentes e amigos. 
No ignorava nenhuma das crticas que lhe endereavam. Eis agora o velho Peter a atear o dio que 
ela nutria contra os conterrneos to forte como aquele que votava aos nortistas. 
"Q@e tm eles com o que eu fao? - pensou Scarlett. - 
Julgam talvez que acho divertido frequentar os yankees e trabalhar como uma escrava! Deste modo 
tornam ainda mais ingrata a minha tarefa. Pensem o que quiserem, eu no me importo. Agora no 
posso ocupar-me dessas coisas. Um d@a, ento ... " 
Um dia! Quando tornasse a haver segurana no mundo, Scarlett recostar-se-ia numa poltrona, de 
mos cruzadas, como uma grande senhora... como Ellen. Estaria sossegada e protegida., todos lhe 
dariam razo. Ah, o que ela faria, quando tivesse muito dinheiro! Dar-se-ia ao luxo de ser boa e 
amvel, como fora a me, pensaria nos outros respeitaria os usos e costumes. No se deixaria 
arrastar peo medo, dia e noite, a sua existncia seria plcida, sem solavancos. Teria tempo para 
brincar com os filhos e assistir s lies deles. Nas tardes clidas, quando as amigas a visitassem, 
entre um sussurro de tafets e o abanar dos leques serviria ch, sanduches e bolos e as horas 
passariam em animada conversa. Mostrar-se-la caritativa para com o5 infelizes, levaria esmolas aos 
pobres, remdios aos doentes, e passearia na carruagem os que no tivessem menos sorte do que 
#
ela. Seria' enfim, uma dama a valer,  moda do Sul, como a me, e toda a gente a estimaria como 
fez com Ellen, todos lhe gabariam a generosidade, chamando-lhe a "senhora caritativa". 
Nada alterava o prazer destas vises do futuro. Scarlett no julgava sinceramente que quisesse ser 
desinteressada e caridosa; tudo o que pretendia era que lhe atribussem aquelas qualidades. Mas as 
malhas do seu esprito estavam to lassas que deixavam passar essas pequeninas diferenas. 
Bastava-lhe pensar, que um dia, quando fosse bastante rica, os outros lhe dariam considerao... 
Um dia- Mas no ainda, No j, a despeito do que pudessem dizer acerca dela. Por agora no tinha 
tempo de ser uma grande dama. 
2.12 
Peter havia acertado nos seus prenncios. A tia Pitty ficou indisposta com o sucedido, o preto 
adoeceu de tal modo que no pde mais guiar o trem. Scarlett foi obrigada a conduzi-lo e viu 
reaparecerem-lhe os calos na palma das mos. 
Assim decorreram os meses da Primavera; as frias chuvas de Abril cederam o lugar  verdura e aos 
aromas do temperado Maio. Cada semana trazia mais trabalhos e canseiras e avanava a gravidez de 
Scarlett. Os velhos amigos pareciam indiferentes, mas a famlia prodigalizava-lhe carinhos, sem 
todavia compreender o que impelia a agir. Durante aqueles dias de lutas e de angstias ' s uma 
pessoa no mundo a entendia bem, e essa pessoa era Rhett Butler. Causava admirao que assim 
fosse, porque ele sempre fora pessoa instvel e perversa como um demnio; mas condoa-se de 
Scarlett, coisa que ela no esperara de ningum e muito menos de Butler. 
Com frequncia saa Rhett de Atlanta para aquelas misteriosas viagens a Nova Orlees, cujo motivo 
ele nunca explicava, mas que Scarlett, com uma pontinha de cime, desconfiava relacionarem~se 
com histrias de mulher... ou de mulheres. Agora, porm, que Peter se recusava a conduzir a 
senhora no trem, Rhett dernorava-se muito mais tempo em Atlanta. 
Quando estava na cidade, passava a maior parte do tempo quer a jogar numa sala por cima do 
botequim "Girl of the Period" ou na taberna da Belle Watling, onde bebia com os yankees e Sacolas 
mais ricos, na perspectiva de bons negcios, que o tornavam mais antiptico aos habitantes do 
burgo do que os seus companheiros de copo. Comparecia menos em casa da tia Pitty,decerto por 
considerao para com Frank, e para com aquela, que se escandalizaria com a visita dum homem, 
atendendo ao estado de Scarlett; mas encontrava-a multas vezes por acaso. Rhett vinha a cavalo e 
ela seguia pelas ruas desertas que levavam a uma ou outra das serraes, Ele parava, e ficavam a 
conversar. Por essa altura, Scarlett fatigava-a muito e bendizia a amabilidade do. seu amigo, que se 
prontificava a guiar o trem, ao qual amarrava as rdeas do seu cavalo; mas tinha o cuidado de se 
apear e despedir-se, antes de reentrarem na cidade. Contudo, Atlanta estava ao corrente desses 
encon- 
213 
tros, e as ms linguas no poupavam novo ultraje aos costumes de Scarlett. 
De vez em quando, perguntava esta a si mesma se aqueles encontros seriam de facto ocasionais. 
Iam-se tornando mais frequentes de semana para semana, conforme aumentavam os atentados 
cometidos pelos negros. Mas por que razo Butler procurava a sua companhia justamente na altura 
em que Scarlett parecia pior? No era, com certeza, em busca duma aventura, agora que ela se 
encontrava naquele estado. E, mesmo antes, Rhett teria alguma vez essa ideia em mente? Scarlett 
comeava a duvidar. Havia j meses que ele no proferia o mnimo gracejo a respeito da lamentvel 
cena passada entre ambos na priso yankee. No voltara a falar de AshIey e do seu amor platnico, 
nem repetira as frases grosseiras sobre "o desejo que ela inspirava". Achando preferivel no dar azo 
a esse gnero de conversas, Searlett no tentava esclarecer o motivo dos frequentes encontros. 
Alis, chegara j  concluso de que Rhett, como tinha pouco com que se entreter, alm do jogo, e 
no tinha muitos amigos em Atlanta, procurava a sua companhia apenas com o intuito de conversar 
com uma pessoa simptica. 
Fossem quais fossem os motivos, Scarlett estava contente por ver Rhett tantas vezes. Rhett escutava 
as suas lamentaes sobre a perca dum cliente, sobre as fraudes de Johnson ou sobre a 
incompetncia de Hugh. Aplaudia-lhe os xitos, ao passo que Frank se limitava a esboar um 
#
sorriso indulgente e a tia Pitty a exclamar, aterrada: "Credo!" Embora Rhett negasse sempre ter-lhe 
prestado qualquer servio, Scarlett estava convencida de que lhe devia boas transaces, pois ele 
conhecia intimamente todos os yan, kees e Sacolas. E, se bem que no lhe merecesse inteira 
confiana, gostava de o ver surgir no seu cavalo preto, ao dobrar duma esquina. Rhett subia para o 
trem e tomava as rdeas, fazendo-lhe ao mesmo tempo uma ou outra observao impertinente; mas 
Scarlett sentia@se reconfortada, chegando, a convencer-se de que era outra vez uma pessoa 
sedutora, apesar dos seus aborrecimentos e da disformidade do corpo. Dizia-lhe ento tudo quanto 
lhe vinha  ideia, sem o cuidado sequer de dissimular a sua verdadeira opinio; nem evitava certos 
assuntos, como fazia, ao falar com Frank e com AshIey. Era bom ter um amigo como Rhett, que 
parecia, fosse qual fosse a razo, estar disposto a enten- 
214 
der-se com ela. Havia agora to poucas pessoas a quem pudesse dar' esse nome! 
-Por que ser que os habitantes desta cidade me tratam assim? Eu sirvo-lhes tanto de motivo de 
murmuraes como os prprios Sacolas. Que eu saiba, Rhett, no lhe fiz nenhum mal... 
-Se no lhes fez mal, foi porque no teve oportunidade.  o que eles devem suspeitar. 
-Deixe-se de brincadeiras! Tudo isto me enfurece. Limitei-me a ganhar um pouco de dinheiro, e... 
-E procurou ganh-lo de forma diferente da das outras mulheres. Com grande vantagem, penso eu, 
Ora isto  que ningum perdoa. Ser diferente  um pecado. 0 simples facto de haver obtido xito na 
serrao constitui ofensa para os homens que o no obtiveram nos negcios. Lembre-se de que o 
lugar duma senhora  em casa, alheia ao que se passa no mundo da gente que trabalha. 
- Pois sim, mas se eu tivesse ficado em casa, h muito tempo que me veria sem ela... 
-Em todo o caso, dev4a ficar e deixar-se morrer de fome com a maior dignidade. 
-Ora, ora! Repare na senhora Merriwether, por exemplo. Vende pastis aos yankees, o que  muito 
pior que ter uma serrao. E h mais. A senhora Elsing trabalha em costura e tem hspedes em casa. 
A Fanny faz umas pinturas horrorosas em loia que ningum quer, mas que todos compram,para a 
ajudar... 
-Os argumentos no servem. Essas senhoras no conseguem nada; por consequncia, no ferem o 
orgulho sulista dos homens e daqueles que os rodeiam. Pelo contrrio provocam frases deste teor: 
"Coitadinhas'quanto se esfo@am! Ao menos tm a iluso de que so teis neste mundG!" Alm 
disso, as damas de quem voc citou o nome no sentem prazer nenhum em trabalhar. Empenham-se 
em dar a impresso de que s6 fazem aquilo enquanto no aparece um homem que as alivie de carga 
to pesada para ombros femninos. Por estas e por outras, todos se condoem da sua sorte. Voc, ao 
inverso delas, adora o trabalho e no se mostra disposta a que um homem se ccupe dos seus 
negcios; por isso ningum tem pena de si. E Atlanta nunca lhe h-de perdoar. n to agradvel 
sentir compaixo pelos outros! 
215 
- Quem me dera que voc fal ~ a srio de vez em quando! 
- Conhece este provrbio oriental: "Os ces ladram, mas a caravana passa"? Deixe-os ladrar, 
Searlett, no se importe. 
- E par que me ho-de censurar pelo facto de eu ganhar algum dinheiro? 
- Dois- proveitos no cabem num saco. Ou voc continua a portar-se corno os homens e s v  sua, 
volta caras de poucos amigos, ou ento deixa-se ficar pobre, cem- por cento feminina e todos se 
desfazem em amabilidades para consigo. ]@ questo de escolher. 
- No quero ser pobre - declarou Scarlett. - Creio ser acertada a minha escolha no acha? 
-Sim se  o dinheir@ que prefere acima de tudo. 
- Prehro-o acima de tudo. -Nessas condies, escolheu bem. Mas, como em quase tudo o que 
deseja, h uma coisa desfavorvel: a solido. 
Searlett manteve-se calada uns momentos, a reflectir. Rhett tinha razo. Ela sentia-se um pouco 
isolada, faltava-lhe companhia feminina. Durante a guerra, quando estava triste ia, ter com Ellen, 
Depois da morte da me, ficara-lhe Melanie, se bem que entre esta e Searlett nada houvesse de 
comum seno o rude trabalho de Tara. Agora no tinha ningum, porque a tia Ptty no fazia ideia 
#
nenhuma da vida para alm do seu restrito crculo de m-lngua, 
- Tenho a - impresso - comeou Scarlett, hesitante - 
de que nunca tive amigas. No so as minhas ocupaes que me atraem a antipatia das senhoras de 
Atlanta. Nunca gostaram de mim. Exceptuando minha me ' nenhuma mulher me teve afeio. 
Nem sequer minhas irms. No sei porqu, mas j antes da giierra, ainda eu era solteira, no havia 
uma mulher que achasse bem o que eu fazia... 
- Esquece-se da senhora Wilkes-atalhou Rhett, com olhar malicio-so. -Ela sempre aprovou os seus 
feitos, e h-de continuar a apoi-la, a no ser que voc cometa algum assassnio. 
"At um assassnio aprovou!" disse Scarlett consigo mesma, E, com um sorriso desdenhoso, 
retorquiu em voz alta:, 
- Ora, a MeIly! Essa no conta.  uma cabea de alho chocho, Se tivesse alguma esperteza... 
Scarlett calou-se de repente. -Se tivesse alguma esperteza, veria certo nmero de 
216 
coisas que no podia aprovar - concluiu Rhett. - Voc sabe isso muito melhor que eu. 
-Lastimo que tenha to boa memria e to m edu~ cao! 
-Como essa sua observao no merece resposta, volto ao assunto de que estvamos a falar. 
Compenetre-se do que lhe digo. Se se mantm diferente das outras, ser posta  parte no s pelas 
pessoas da sua gerao como pelas da gerao de seus pais e pelas da gerao de seus filhos. Nunca 
a compreendero e tudo quanto voc fizer as h-de escandalizar. Os seus avs  que diriam com 
orgulho: "Bom rebento deu a rvore". Quanto aos seus netos, ho-de comentar com um suspiro de 
inveja: "Que bem apanhada devia ser esta nossa av!" E,  claro, querero imit-la. 
Scarlett ru-se divertida. 
- Tem cada urna! Olhe a minha av Robillard. Quando eu fazia maldades, Bab falava-me dela, 
para me assustar. Era f ria como gelo, rigorosa, nas suas maneiras e quanto s dos outros, mas casou 
trs vezes e muitos homens se bateram por ela em duelo. Usava carmim e vestidos 
escandalosamente decotados. Debaixo dos vestidos no havia... sim, no havia muita coisa. 
- E vocs admiravam-na a valer desejosas de se lhe parecerem em tudo! Eu tive um av l@utler, 
que era pirata. 
- Palavra? E torturava as vtimas? 
- Com certeza ' se fosse necessrio para lhes apanhar dinheiro. E teve~o  farta, porque deixou a 
meu pai um belo p"e-meia. Em famlia, houve sempre o cuidado de o tratar por... comandante, Foi 
morto numa desordem de taberna, muito antes de eu ter nascido. J se sabe que a sua morte 
constituiu grande alvio para os filhos, pois ele estava quase sempre bbado e ento punha-se a 
recordar as suas aventuras martimas... No entanto admiro muito a sua memria e sempre procurei 
imit-lo@. A meu pai  que nunca desejei imitar... meu pai que era um perfeito cavalheiro 
respeitador da religio e de tudo mais! Estou convenci6, Scarlett de que os seus filhos no 
concordaro com a sua atitue, come, no concordaram com ela a senhora Merriwether, a senhora 
Elsing e suas vergnteas. Os seus filhos sero naturalmente pessoas calmas, meigas, como o so em 
geral os filhos dos que tiveram gno, ousado. 
0 que h de pior para eles  voc estar decerto resolvida, como as outras mes, a evitar-lhes as 
prova5es por que 
217 
passou.  pena. As provaes, a adversidade, so coisas que enrijecem os indivduos... ou rebentam 
com eles. Tem de esperar pela aprovao dos netos. 
-Gostava de saber com que se parecero os nossos netos! 
- Quer dizer com esse plural que esses netos, sero de ns ambos, senhora Kennedy? 
Scarlett, percebendo de sbito o seu erro de linguagem, ficou vermelha como um tomate. Aquele 
gracejo de Rhett chamou-a repentinamente  realidade do seu estado. Nunca nenhum deles fizera 
aluso a isso. Em sua companhia, tivera sempre o cuidado de se tapar com- a manta at nos dias 
mais quentes persuadida de que assim nada @e percebia da gravidez. gora indignava-se com a 
ideia de ir ser me e de que Rhett naturalmente o sabia. 
#
-Desa do trem, seu perverso -ordenou ela com voz trmula. 
- Isso  que no fao - retorquiu ele, sem perder a linha. - Vai ser noite antes que chegue a casa, e 
consta-me que se instalou por estes stios uma nova colnia de pretos, em tendas e cubatas. No 
quero que os filiados da Ku Klux Klan tenham oportunidade de vestir a sua camisa de noite, e 
cavalguem para estas bandas... 
- Apeie-se - insistiu Scarlett, tentando tirar-lhe as rdeas. 
Sentiu-se, porm, com nuseas, e Rhett parou o cavalo; enquanto procurava lenos limpos para a 
sua companheira, segurava-lhe a cabea, que ela pendera fora do veculo. Durante momentos, ela 
teve a impresso de que o Sol, declinando, girava, em rodopio e lanava raios verdes e doirados 
atravs das folhas novas das rvores. Depois de lhe ter passado o mal-estar, escondeu o rosto nas 
mos e chorou. No s acabava de vomitar diante dum homem, o que para uma mulher era a pior 
das humilhaes como fora obrigada a demonstrar a sua prenhez. Julg@u que nunca mais poderia 
olhar Rhett cara a cara. E acontecer-lhe aquilo quando estava s com ele, com esse homem to 
irreverente para com as senhoras! Sem deixar de soluar, pensava que no vinha longe a ocasio em 
que ele lhe diria uma daquelas suas inconvenincias, que no mais se esquecem. 
-No seja tonta, Searlett.  tolice chorar, se o faz por 
218 
vergonha. Deve compreender que eu no sou cego, e que portanto sabia dessa gravidez. 
- Oli! - respondeu ela, como que alarmada, escondendo nas mos o rosto purpureado. Aquela 
palavra horrorizava-a. Frank tinha sempre constrangimento em lhe falar do seu estado. Gerald 
repetia uma frmula eufemistica para definir a situao' e aludia ao "estado interessante". As outras 
damas,  claro, tambm inventavam expresses adequadas. 
-  criancice supor que basta disfarar com a manta para que a gente no saiba - continuou Rhett. - 
Sim, Scarlett, para mim no foi novidade. Como  que ento... 
Deteve-se bruscamente retomou as rdeas, e, com um estalinho de lngua, pos o cavalo em 
movimento. Depois comeou a falar e aquela voz lenta, que no desagradava aos ouvidos, 
ducificou Scarlett e restituiu-lhe s faces a cor natural. 
- No pensava que se escandalizasse a esse ponto. Supus que fosse pessoa sensata e fiquei 
desiludido. Ser possvel que o pudor ainda exista no seu corao? Receio ter sido incorrecto. Bem 
sei que no sou um cavalheiro ' pois que no me constrange o espectculo das senhoras grvidas. 
Mas no vejo razo para que as no tratemos como criaturas normais. Se eu contemplo o cu e a 
terra, ou qualquer outro ponto do universo, por que no hei-de poisar os olhos no ventre das 
mulheres? 0 que acho indecente  lanar-lhes olhadelas furtivas. Neste aspecto os Europeus so 
mais inteligentes do que ns, pois dirig@m felicitaes s futuras mes. No aconselho a que se v 
to longe, mas  mais racional do que fingir ignorncia. Repito que  um estado normal, de que as 
mulheres deviam orgulhar-se, em vez@de se fecharem em casa, como se tivessem cometido um 
crime. 
- Orgulhar-se! - exclamou ela com voz sufocada. - 
Oli! Rhett! 
-No est vaidosa pela sua prxima maternidade? -No, no! Detesto crianas. 
- Quer dizer... quando so filhas de Frank? 
- No, seja quem for o pai. Por instantes Scarlett lastimou aquele outro lapso de linguagem, mas 
@le continuou como se, nada fosse: 
- Pois nisto no nos parecemas. Eu adoro as crianas. 
- Gosta? - repetiu Scarlett, olhando-o to espantada que se esqueceu do seu constrangimento. - 
Mentiroso! 
219 
1,on 
UBI@I 
5I'., 
-Gosto de crianas at ao dia em que, j crescidas, comeam a pensar e adquirem os hbitos dos 
#
adultos, isto , as suas manhas e mentiras. No estou a dizer-lhe novidades. Sabe muito bem que 
adoro Wade Hampton, embora ele no seja como devia ser. 
"n verdade - pensou Searlett tornando-se sonhadora. 
- Brinca com Wade, traz-lhe bri@quedos ... " 
- Agora que esclarecemos este ponto escabrosp, e que voc confessou no estar longe o dia de ser 
outra vez me, vou-lhe dizer uma coisa que j devia ter-lhe dito h semanas. Ou melhor, duas 
coisas. A primeira  que  perigoso para si andar s no trem. Alis voc no o ignora, j a 
preveniram por mais duma vez.' Se lhe  indiferente ser violada, ao menos pense nas consequncias. 
A sua teimosia coloca-a numa situao que obriga os seus concidados a ving-la, enforcando 
vrios pretos.- P, claro que os yankees interviro e por seu turno os seus vingadores sero 
enforcados. No se lembrou de que o motivo por que as damas de Atlanta no gostam de si possa 
ser o facto de voc constituir ameaa constante para os filhos e maridos delas! Por outro lado, a Ku 
Klux Klan continua a ocupar-se dos negros, os yankees exercero tanta violncia que o teinpo de 
Sherman passar por uma poca paradisaca. Sei o que digo, porque sou tu c tu l com os nortistas. 
Por mais triste que isto seja, a verdade  que me consideram um dos seus e no, fazem cerimnia 
para falar livremente diante ,de mim. Esto decididos a acabar com a Ku Klux Klan, ainda que seja 
preciso incendiar a cidade e enforcar um homem em cada dez. Voc, Scarlett, arriscar-se-ia a perder 
dinheiro' e talvez alguma coisa mais: confiscao de propriedades 'elevao de impostos, multas 
para as mulheres suspeitas... Tenho-os ouvido sugerir todas estas providncias. A Ku Klux Klan... 
-Conhece algum que faa parte dessa sociedade? Tommy WelIburn, ou Hugh ou... 
Rhett, impaciente, encolheu os ombros. -Como havia de conhecer? Sou um renegado, um viracasacas. 
Mas sei de homens de quem eles desconfiam.  menor coisa que faam, podem ser 
executados. Calculo que voc no se importe com isto,'mas importar-se- que lhe tirem as duas 
serrarias. Vejo no seu olhar que est incrdula. Pois bem: contentar-me-ei dizendo-lhe apenas que 
tenha a sua pistola sempre  mo. Enquanto eu estiver 
220 
em Atlanta, procurarei acompanh-la sempre nestas deslocaes. 
- Rhett,  realmente verdade... que para me proteger... 
- Sim, minha querida,  o meu esprito cavalheiresco. 
- Nos olhos cintilou-lhe a chamazinha irnica. - E porqu? Pelo profundo -amor que lhe dedico, 
senhora Kennedy. Sim, adoro-a, por sua causa perdi o apetite, mas nada lhe dizia por ser homem 
srio 'como o senhor Wilkes. Mas, assim como a serenidade do senhor Wilkes vacila s vezes, a 
minha est. a, cambalear neste momento e eu revelo-lhe a paixo solapada que--- 
- Cale-se, por amor de Deus! - atalhou Scarlett vexada, como sempre que ele se referia a Ashley e  
sua probidade. -Que mais tem a dizer-me? 
- 0 qu? Muda de conversa quando eu precisamente lhe fazia uma declarao de amor? Pois esta era 
a segunda colsa... - A chama irnica extinguiu-se e o rosto de Butler tornou-se grave. Prosseguiu 
ento noutro tom: - Devia ter cuidado com este cavalo. P, teimoso, e tem uma boca muito rija. Se 
lhe der na gana correr, voc no ser capaz de o parar. Suponhamos que caem por uma ribanceira l 
se vai o nen, e a me provavelmente. Ponha-lhe um freio mais seguro. A no ser que me consinta 
troc-IG por um cavalo mais dcil, de boca mais sensvel. 
Scarlett olhou para o rosto do seu companheiro, e vendo-o calmo e franco, perdeu de sbito a 
indignao que ainda conservava por causa da referncia feita  gravidez. Momentos antes fora to 
amvel, socorrendo-a, quando o desejo dela era morrer! E agora continuava a sua dedicao 
pensando nos defeitos do cavalo. Scarlett sentiu-se grata e teve pena de que Rhett no fosse sempre 
assim. 
- Tem razo, este cavalo  difcil de manejar. s vezes sinto o brao a doer, de tanto puxar as 
rdeas. Faa como entender, Rhett. 
0 olhar dele cintilou. -Ora a est uma resposta feminina, encantadora, senhora Kennedy, muito 
diferente dos seus ares autoritrios. n preciso conhec-la, para a,tornar mansa como um cordeiro. 
Estas palavras renovaram a clera de Scarlett. 
#
- Desta vez tem de se apear, ou ento dou-lhe uma chicotada. No sei por que o tolero, por que tento 
ser dedi- 
221 
k@ 
cada para consigo. n um malcriado, sem moral nenhuma. No passa dum... V, apeie-se, no estou 
a brincar. 
No entanto, depois de ele descer, desprender o cavalo, postar-se no meio da rua e arvorar o seu 
melhcr sorriso, Scarlett no pde deixar de sorrir tambm, enquanto a carruagem se afastava. 
Sim 'Rhett era malcriado, manhoso, ningum devia meter~se com ele, mas tambm era deveras 
estimulante, to estimulante como um copo de conhaque bebido  socapa. 
Nesses ltimos meses Scarlett comeara a apreciar conhaque. Quando ao fi@i da tarde regressava a 
casa, molhada da chuva, dorida pelos longos percursos de carruagem, s a animava a ideia da 
garrafa escondida na gaveta da sua secretria. Nunca o Dr. Meade se lembrava de a prevenir que 
uma mulher grvida no deve beber, pois jamais lhe passara pela cabea que uma senhora decente 
tomasse qualquer bebida mais forte que o vinho de mesa. Excepto,  claro, uma taa de champanhe 
em festa de casamento, ou um ponche quente para curar constipaes. Evidentemente que existiam 
desgraadas com o vcio do lcool como havia loucas que se divorciavam ou que pensavam: como a 
senhora Susan B. Anthony, que as mulheres deviam votar. Mas apesar da m opinio que o mdico 
tinha de Scarlett, nunca a julgou capaz de se entregar  bebida. 
Scarlett notara que uma boa golada de conhaque antes do jantar a reconfortava de modo 
extraordinrio, e tinha sempre o recurso de mastigar uns gros de caf ou de gargarejar gua-decolnia 
para disfarar o cheiro. Por que razo eram to censuradas as mulheres que bebiam, se os 
homens podiam embriagar-se  vontade? s vezes, quando a seu lado, Frank ressonava e ela tinha 
insnias, quando se voltava na cama, para a esquerda e para a direita, cheia de medo dos yankees, 
saudosa de Tara, ansiando por Astiley, Scarlett pensava que j estaria louca h muito tempo se no 
fosse aquela garrafa de conhaque. Bastava que a invadisse o calor benfico do lcool para que 
principiassem a dissipar-se as suas obcesses. Ao fim do terceiro clice j podia dizer: "Amanh 
considerarei essas coisas. Suport-las-ei melhor". 
Em certas noites porm, a bebida no chegava para acalmar a dor que lh@ feria o corao, dor que 
era mais forte ainda do que o medo de perder as fbricas e do que a saudade de Tara. Atlanta, com 
os seus rudos, os seus prdios 
222 
novos, os rostos desconhecidos, as ruas estreitas cheias de cavalo,s, carroas e gente apressada, 
parecia muita vez sufoc-Ia. Gostava de Atlanta, mas... ah, reencontrar a paz campestre de Tara, os 
campos rubros, os pinheiros sombrios derredor! Voltar l fosse qual fosse a dura existncia que a 
esperasse! Estar @erto de-Ashley, v&1o ouvi-lo falar, ser amparada pela certeza do seu amor! Tudo 
lhe reavivava o desejo de regressar: as cartas de Melanie, a dizer que estavam todos bem, os 
relatrios breves de Will acerca da cultura do algodo... 
"Irei em Junho, Depois dessa data no posso fazer nada aqui. Passarei l dois meses". A esta ideia 
sentia grande alvio no corao. Realmente partiu em Junho, mas no da maneira que esperava, pois 
no princpio desse ms recebeu de Will a notcia de que Gerald tinha morrido. 
39 
0 COMBOIO ia atrasado e j o crepsculo envolvia os campos com a sua tonalidade azul quando 
Scarlett chegou  estao de Jonesboro. Aqui e ali, brilhavam luzes amarelas nas casas que a guerra 
poupara. De cada lado da rua principal, espaos vazios indicavam o local dos prdios destruidos 
pelo fogo e pelos obuses. Silenciosas e escuras moradias sem telhado e de paredes arruinadas 
pareciam fixar a viajante. Amarrados em frente do armazm Bullard, viam-se alguns cavalos 
melanclicos. Estava deserta a rua poeirenta e avermelhada. Por vezes, duma taberna situada no 
extremo da povoao saiam risadas de bbado e esse era o nico som que vinl@a perturbar a 
serenidade do crepsculo. 
No tinham reconstruido a estao depois que fora ncendiada durante o combate e, no seu lugar, 
#
haviam-se limitado a fazer um tosco alpendre de madeira, o mais desabrigado possvel. Scarlett 
dirigiu-se para a e seniou-se num barril vazio, aparentemente destinado quele fim. Por vrias 
vezes percorreu a rua com a vista, na esperana de descobrir Will Benteen. Devia vir ao seu 
encontro. Decerto calculara que, depois de receber a notcia da morte de Gerald ela tomaria o 
primeiro comboio. 
Sca@lett partira de Atlanta to precipitadamente que s trouxera no saco de viagem uma camisa de 
noite e uma escova de dentes. Sentia@se pouco  vontade no vestido 
223 
preto que tivera de. pedir emprestado  senhora Meade, pois nem dispusera de tempo para comprar 
fato de luto. A senhora Meade emagrecera muito e, corno a gravidez de Scarlett j estava bastante 
avanada, o vestido ficava-lhe apertadssimo, desconfortvel, Embora desgotosa com a morte do 
pai, Scarlett no deixava de se preocupar com o seu aspecto, e mais triste se sentiu quando se 
observava. Perdera toda a esbelteza, a rosto e os tornozelos es,,tavam inchados. At a no se 
afligira muito com a sua aparncia, mas agora, que se ia encontrar com Asliley o caso era diferente. 
Tremia  ideia de lhe aparecer assim', grvida doutro homem. Amava-o, e ele amava-a. Essa criana 
indesejvel parecia-lhe uma prova de traio quele amor, Todavia, por muito que lhe custasse 
apresentar-se a Asliley decorpo deformado, no podia evitar tal coisa. 
J impaciente Scarlett bateu com o p no cho. Will devia ter vindo esper-la. l, claro que ela tinha 
sempre o recurso de ir ao estabelecimento, de Bullard e perguntar se sabiam dele ou pedir a algum 
que a levasse a Tara. Mas no queri@ ir. Era domingo com certeza estariam l muitos homens 
reunidos. No fa@ia empenho nenhum em se exibir com aquele vestido mal talhado que a tornava 
ainda mais volumosa. Nem lhe interessava ouvir as frases de condolncia que lhe haviam de dirigir 
pela morte de Gerald. No queria a compaixo de ningum. Temia comear a chorar quando 
ouvisse pronunciar o nome do pai, porque, se comeasse, seria como naquela noite terrvel em que 
Rliett a abandonara na estrada escura, essa noite atroz em que inundara as crinas do cavalo com 
lgrimas que ela no podia conter e lhe dilaceravam o corao. 
brao, no queria chorar! Sentia um n na garganta, como j sentira tantas vezes desde que recebera 
a notcia, mas para qu chorar? 0 pranto s lhe reavivar 'ia a dor e a deixaria sucumbida. Oli, por 
que  que Will, ou Melanie, ou as irms no a haviam informado da. doena de Gerald9 Ela tomaria 
o primeiro comboio para Tara, levariaconsigo um mdico de Atlanta. Que imbecis... todos eles! 
No eram, pois, capazes de fazer nada sem a sua presena? No podia estar em dois lugares ao 
mesmo tempo, e s Deus sabia quanto ela trabalhava e se preocupava com os que deixara na quinta. 
A espera prolongava-se e Scarlett; ia ficando cada vez mais nervosa. Por que seria que Will no 
vinha? A certa 
224 
altura . ranger o cascalho que cobria as,chulipas da via fr'rOeuave'u voltand<>-se, viu Alex 
Fontaine a atravessar a linha, em ireco a uma carroa, com um saco de aveia aos ombros. 
- 0 qu?  a Scarlett? - exclamou ele, poisando o saco e correndo a apertar-lhe a mo, com a face 
resplandecente de alegria. - Muito prazer em v-la! Encontrei Will no ferreiro, onde ia ferrar o 
cavalo. 0 comboio vinha com atraso e ele julgava ter tempo. Quer que o v chamar? 
- Pois sim, Alex - respondeu Scarlett, sorrindo no meio da sua tristeza. Era to bom rever um 
conterrneo! 
- Eu... - titubeou Alex ainda a apertar-lhe a mo - 
eu sinto muito... a perda d@ seu pai. 
-Obrigada -retorquiu Searlett, que teria preferido no ouvir referncia quele facto. 
- Se isto lhe pode servir de consolo... digo-lhe que todos ns nos orgulhamos muito dele - 
prosseguiu Alex, largando-lhe por fim a mo. -Ele... sim, acho que morreu como um soldado... e 
por uma causa digna dum soldado. 
"Que significariam aquelas palavras?" pensou Scarlett, intrigada. "Como um soldado? Queria dizer 
que algum o matou? Ter-se- batido 'como Tony, contra os Renegados?" Mas no desejava ouvir 
mais. Se Alex continuasse a falar-lhe do pai, ela desataria a chorar, e isso  que no queria antes de 
#
se avistar com WlI, longe dos olhares indiscretos. Com Will o caso era diferente: considerava-o 
como um irmo. 
- No falemGs mais disso Alex. -No a censuro, Scarlett'_ declarou aquele, cujo rosto denotou 
sbita clera. - Se fosse minha irm... Olhe, Scarlett' eu nunca disse mal duma mulher, mas penso 
que algum,devia dar uma boa lio a Suellen. 
"Que seria agora aquilo? A que propsito vinha o nome de Suellen?" cogitou Scarlett. > - n triste 
diz-lo - continuou Alex - mas toda a gente aqui partilha da minha opinio. Will  o nico que a 
defende; e tambm a Melanie '  claro, mas essa  uma santa, no v o mal em ningum... 
- J lhe disse que no fale mais nesse assunto-atalhou Scarlett num -tom de secura que, no entanto, 
no melindrou Alex. Este, pelo contrrio 'pareceu compreender a sua rudeza o que ainda mais a 
intrigou. Scarlett no queria ter ms notcias da famlia atravs dum estranho, :L5 - vento Levou - ri 
225 
w11 
nem to-pouco desejava mostrar que no estava ao corrente do que se passara. Porque  que Will 
no lhe dera pormenores? 
Gostaria que Alex no a olhasse com tanta insistncia. Calculava que ele reparasse no seu estado e 
isso incomodava-a. Contudo, no--era esse o motivo qu@ levara Alex a observ-la. Achava-a to 
diferente que se admirava de a ter reconhecido. Talvez fosse por estar  espera dum nen. As 
mulheres ficam com as feies to alteradas quando @sto -grvidas! E tambm a morte do pai 
devia t-la impressionado muito. Sempre era a filha preferida... Mas no, a mudana no devia 
provir da gravidez ou do desgosto. Scarlett estava at com melhor aspecto do que da ltima vez que 
a vira. Ao menos dava a impresso de comer  farta quatro vezes por dia.'E perdera aquele ar de 
animal assustado. J no se lhe via a expresso de terror e desespero no olhar; pelo contrrio, os 
olhos exprimiam dureza autoridade, confiana em si mesma. Ah, o velho Frank @o devia levar 
uma vida muito alegre! Sim, Scarlett mudara muito. Era ainda uma bonita mulher, mas 
desvanecera-se-lhe toda a graa e doura da fisionomia. 
No tinham eles, no entanto mudado todos tambm? Alex deitou uma olhadela  ro4a grosseira que 
trajava e na cara vincou-se~lhe a costumada prega de amargura. De noite, quando jazia acordado a 
pensar como proporcionaria  me o tratamento necessrio e ao filho a educao conveniente, e 
como obteria o dinh@iro preciso para comprar outra mula Alex chegava a lamentar que a guerra 
houvesse acabado. Nesse tempo, ningum se compenetrara da sorte que tinha! No faltava com que 
encher a barrigat nem que fosse de broa; existia sempre algum a quem dar ordens; no era foroso 
magicar em problemas insolveis: no, no Exrcito no havia preocupaes, seno a de apanhar um 
tiro. E ento, l estava Dimty Monroe com quem desejava casar, embora ele tivesse tanta gente  
sua conta. Amava-a de longa data... Agora a frescura fanava-se no rosto dela, e a alegria apagavase- 
lhe dos olhos. Se ao menos Tony no tivesse sido obrigado a escapar-se para o Texas... Com 
mais um homem em casa, as coisas ter-se-iam composto. Mas o irmo, assim desvairado como 
era... L estava no Oeste, sem um cntimo no bolso. Haviam todos mudado no restava dvida. Era 
muito natural, pensando bem. Al@x suspirou profundamente. 
226 
Ainda no, agradeci tudo o que fizeram pelo Tony, voc e Frank. Foram vocs que o ajudaram a 
fugir, no  verdade? Consta-me que est so e salvo, no Texas. No me atrevi a.escrever-lhes, para 
perguntar... se lhe emprestaram dinheiro. Preciso reembols-los. 
-No  pressa, Alex. H tempo! - exIamou ela. Dir-se-ia que no lhe interessava o dinheiro, pela 
primeira vez na vida. 
-Vou procurar o Will. E amanh ver-nos-emos no enterro. 
Agarrou no saco e deu meia volta, mas nesse instante surgia duma rua lateral uma carroa meio 
desconjuntada. L do alto do assento Will gritou: 
-Desculpe o atra@o, Scarlett! Depois de se haver apeado, com certa dificuldade, Will aproximou-se 
pesadamente e inclinandc@-se, beijou Scarlett na face. Nunca antes a hav@Ia beijado, nem deixara 
de a tratar por "senhora". Embora isto a surpreendesse ' no deixou contudo de lhe agradar e o 
#
corao sentiu-se reconfortado. Ele ajudou-a a pr o p na roda, depois a iar-se para a carroa - 
aquela mesma, conforme logo notou, que a levara na fuga, para Atlanta. Como pudera resistir at 
a?  custa, evidentemente de muitos consertos. Ao recordar-se dessa noite trgica, carlett 
experimentou uma vaga nusea. "Nem que eu -tenha de andar descala e de passar muita fome, 
hei@de queimar esta carroa e arranjar uma nova!" 
Will, a princpio no falou, com o que a sua companheira se sentia reconhecida. 0 homem atirou 
para o fundo do carro o velho chapu de palha, incitou o cavalo e este comeou a andar. Will no 
mudara, sempre magro, resignado, de cabelo ruivo e olhar terno. 
Saram da aldeia e enveredaram pela estrada de terra vermelha que conduzia a Tara. No horizonte 
ainda havia uns laivos rseos; e algumas nuvens grossas conservavam restos de oiro e de verde 
plido. A calma do poente campesino descia sobre eles apaziguadora como uma orao. Como - 
pudera, perguntava Scarlett a si mesma, passar tantos meses sem respirar aquele ar fresco, sem ver 
aquelas terras lavradas sem gozar a doura das noites de Vero? A terra hmida e vermelha 
cheirava to bem, evolava um aroma to familiar e amigo que Scarlett at sentia desejo de descer do 
carro e apanhar uma mancheia dela. Das sebes 
227 
de madressilva que ladeavam o caminho desprendia-se o perfume mais delicado deste mundo. 
Bandos de andorinhas cortavam os ares e, de vez em quando atravessava a estrada um coelho veloz, 
agitando a cau6 branca como uma bola de arminho. 
Quando seguiam entre campos lavrados onde se qlinhavam arbustos vigorosos, Scarlett notou com 
alegria que o algodo se desenvolvia lindamente. Como tudo aquilo era belo! A nvoa por cima dos 
brejos, a terra vermelha, o algodo, os pinheiros escuros que se erguiam ao fundo como uma 
muralha... Como pudera estar em Atlanta tanto tempo? 
- Scarlett, antes de lhe falar do senhor O'Hara... e tenciono falar enquanto no chegamos a casa... 
gostava de pedir a sua opinio sobre determinado assunto. Considero-a agora o chefe da famlia. 
-De que se trata, Will? Por um momento, pousou nela o olhar calmo e terno. -Desejo saber se acha 
bem que eu case com Suellen. Scarlett ficou to espantada que teve de se agarrar ao assento para 
no cair. Will casar com Suellen! Depois de lhe ter roubado Frank Kennedy, nunca julgara que 
algum quisesse desposar a irm. 
-Que me diz, Will? -No tem objeces a fazer? 
- Objeces no... mas... estou pasmada! Voc, casar com a Suellen!'Sempre imaginei que gostava 
de Carreen! 
Will sacudiu as rdeas sem deixar de olhar para o cavalo. Continuou impass@el, mas Scarlett teve 
a impresso de que ele soltara um leve suspiro. 
-Sim, talvez gostasse -concordou. -E ela no no quis? No lhe tem amor? -Nunca lhe perguntei. - 
Oh, WilI, voc  louco! Pergunte-lhe quanto antes. Ela vale muito mais do que Suellen. 
- Searlett, bem v que no est ao facto do que se passa em -Tara. No nos tem prestado muita 
ateno nestes ltimos meses. 
-Ai, no?-retorquiu Scarlett fula de repente.- 
0 que julga que tenho feito em Ailanta? S passear de carruagem e ir todas as noites ao baile? No 
vos enviei dinheiro todos os meses? No fui eu quem pagou os impos- 
228 
'os quem mandou consertar o telhado, quem comprou a ch@rrua nova e as muares? E eu no... 
- Vamos no se zangue - interrompeu WilI, imperturbvel. - Mefhor do que ningum sei o que fez, 
Scarlett: fez o que dois homens no fariam. 
- Nesse caso, por que veio com essas insinuaes? - 
volveu Scarlett, um pouco mais branda. 
- No nego que nos tem conservado o lar, que nos proporciona com qu,- viver... mas refiro-me ao 
que se passa dentro de ns. No a censuro, Scarlett,  c> seu feitio. Sempre se interessou pouco pelo 
ntimo de cada um de ns. 
0 que eu quero explicar  que no perguntei  Carreen se gostava de mim, porque isso no servia de 
#
nada. Portou-se sempre como uma irm mais nova e talvez no contasse 
* mais ningum o que me contou. Nunca seconformou com 
* morte daquele rapaz, nem se h-de conformar. At lhe posso dizer que est disposta a entrar no 
convento de Charleston. 
- Isso  srio, Will? 
- Realmente custa a acreditar, mas  verdade. Peo-lhe que no- discuta com ela, e em especial, no 
faa troa. Deixe-a agir como entender.' o nico desejo que mostra. Tem o corao despedaado. 
- Quantas pessoas no o tm igualmente, sem que vo meter-se em conventos! Veja o meu caso; 
perdi o marido. 
- Bem sei, mas no ficou com o corao despedaado 
- respondeu placidamente WilI, apanhando do cho um bocadinho de palha, que levou  boca para 
trincar. 
Aquela observao f-la reflectir. Como sempre que escutava uma verdade, por mais desagradvel 
que fosse, a sua honestidade obrigava-a a aceit-la. Calou-se um instante, diligenciando imaginar 
Carreen no papel de freira. 
- Prometa no fazer questo por causa disto. 
- Est bem, prometo - concordou ela, olhando para Will com certo espanto, como se o visse 
diferente. Esse homem amara Carreen, e amava-a ainda bastante para consentir na separao e 
favorecer o seu projecto. Todavia, pensava em casar com Suellen. 
-Que significa isso, Will? Voc no gosta de Suellen, suponho eu. 
- Gosto, de certa maneira - respondeu ele, tirando a palhinha da boca e observando-a como se aquilo 
oferecesse extraordinrio interesse. - Suellen no  to m como 
229 
julga, Scarlett. Tenho a impresso de que nos entenderemos bem. 0 que ela precisa  de marido e de 
filhos, como todas as mulheres. 
Will e Scarlett calaram-se de novo enquanto a carroa seguia aos solavancos pelo caminho ch@io 
de trilhos e covas. Scarlett reflectia. Devia haver uma razo mais profunda, mais importante, para o 
calmo e sensato Will querer desposar uma tola como Suellen, que passava a vida a lastimar-se. 
-No me disse ainda o verdadeiro motivo, Will. Sou o chefe da famlia. Tenho o direito de saber. 
-De facto, tem o direito de saber-concordou Will. -E estou certo de que me compreender. No 
quero sair de Tara. P, o meu lar Scarlett, o nico lar que jamais tive, e tenho-lhe afeio. L 
trabalhei sempre como se a propriedade fosse minha, e quando a gente se esfora por alguma coisa 
acaba por lhe ter amizade. Compreende o que eu quero dizer? 
- Sim, compreendia, e sentia uma onda de ternura por aquele homem que compartilhava o seu amor 
por Tara. 
- E ento fiz o seguinte raciocnio - continuou Will. 
- Tendo morrido o seu pai e indo Carreen para o convento, s restar Suellen em casa. Ora eu no 
poderei ficar a viver em Tara seno casando com a Suellen. Conhece a m-lngua desta gente... 
-Mas, oia, Will. A Melanie e o AshIey tambm l vivem. 
Ao nome de AshIey, voltou-se para ela e fitou-a com os seus olhos plidos e insondveis. Tal como 
outrora Scarlett teve a intuio de que Will sabia tudo a respeio dela e de AshIey e que no a 
censurava nem a aprovava. 
- Vo-se embora muito breve. -Vo-se embora? Para onde? Tara tambm  o lar deles. 
- No, no consideram o seu lar. 1@ isso justamente o que ri o AshIey. No se sente em sua casa e 
tem a sen~ sao de que no trabalha o bastante para compensar o que ele e a mulher comem. 
Sabem muito bem que  fraco lavrador, Faz o que pode, mas no nasceu para se ocupar de trabalhos 
do campo. Quando racha lenha, arrisca-se sempre a ficar com um p cortado em dois. No  capaz 
de conduzir a charrua mais direita que o pequeno Beau, e o que ele ignora da cultura dava para 
encher um livro. 
230 
No tem culpa. No nasceu para aquilo. 0 caso  que se aborrece por viver em Tara  custa duma 
#
mulher, sem lhe dar grandes compensaes. 
- custa ... ? Por acaso falou-lhe nisso? -No, nunca falou. Conhece o feitio de Ashley. Mas eu bem 
no percebo. Ontem  noite, quando estvamos a velar a seu pai, participei-lheque pedira Suellen em 
casamento e que ela me aceitara. Ento o Asliley disse que isso o aliviava, porque o atormentava a 
ideia de ter de ficar em Tara. Isto , sabia que ele e a senhora Melly se veriam obrigados a 
permanecer ali para evitar que o povo murmurasse de Suellen e de mim. Nessa altura  que me 
informou das suas tenes de sair da quinta e arranjar trabalho. 
-Trabalho? De que gnero? E onde? -Isso no sei ao certo, mas disse-me que ia para o Norte. Tem 
em Nova Iorque um amigo que lhe escreveu a propor-lhe um emprego num Banco... 
- Oli no! - exclamou Scarlett. Ao ouvir esse grito de alma: Will dirigiu-lhe o mesmo olhar sereno. 
- Pensando bem, talvez seja melhor ele ir para o Norte. -No no acho! 
0 cre@ro de Scarlett ps-se a trabalhar febrilmente. Asliley no devia partir. Ela podia no tornar 
a v-lo. Embora longe dele h muitos meses, no se passara um dia que no se lembrasse de Ashley 
e se regozijasse por t-lo, abrigado sob o seu tecto. Nem um s dlar enviara a Will sem que a 
alegrasse a ideia de que esse dinheiro ia contribuir para o bem-estar de Ashley. De facto, no era 
dotado para trabalhos rurais. "Nasceu para outras coisas" pensou Scarlett com orgulho. Nascera para 
viver em palcios, montar belos cavalos, ler poemas e ordenar aos escravos o que era preciso que 
eles fizessem. 0 facto de j no haver cavalos ' nem escravos, nem livros, no alterava o destino. 
Asliley no nascera para empurrar o arado nem para rachar lenha. No admirava, pois, que quisesse 
sair de Tara. 
Contudo no podia consentir que ele partisse de Gergia,. Se Ashiey insistisse, ela obrigaria Frank a 
arranjar-lhe emprego no seu armazm, nem que fosse preciso despedir o caixeiro. No, o lugar de 
Ashley no era atrs dum balco, como no era atrs da charrua. Um Wilkes num armazm! Oli 
nunca! Contudo, devia haver uma soluo para o caso... @Vejamos, talvez na serrao". Esta ideia 
deu-lhe 
231 
tanto alvio que Scarlett, chegou a sorrir. Mas aceitaria ele qualquer proposta que emanasse dela? 
Iria consider-la como uma esmola? Pelo contrrio, arranjar-se-iam as coisas de modo a ele julgar 
que at prestava um favor... Scarlett mandaria embora o Johnson, Ashley substitu-lo-ia, e Hugh 
ficaria a dirigir a serrao nova. Explicaria a Ashley que a sade precria de Frank e as suas 
ocupaes no armazm o impediam de a ajudar, e invocaria o seu prprio estado como uma razo a 
mais para a aceitao do convite. Incutir-lhe-ia a ideia de que no podia passar sem o seu concurso. 
Se ele anusse, dar-lhe-ia at sociedade na fbrica... Dar-lhe-ia fosse o que, fosse, contantc> que lhe 
visse outra vez o sorriso radioso que lhe iluminava o rosto 'que lhe surpreendesse no olhar aquele 
brilho comprovativo de que a amava sempre. Tomou, porm 'a resoluo de no o forar a dizer 
palavras de amor, de no o pr na contingncia de rejeitar o estpido conceito de honra que ele, 
mais do que o amor, prezava tanto. Convinha, pois, achar o meio de lhe participar, com tacto, a 
deliberao tomada. Seno, Ashley seria capaz de recusar a oferta, receoso de ver repetir-se uma 
cena parecida com a ltima que tivera. 
-Talvez lhe arranje colocao em Atlanta -disse em voz alt. 
-isso  consigo e com ele -respondeu WilI, voltando a trincar o bocadinho de palha. -Depressa, 
Shermnn, Agora escute, Scarlett: ainda tenho uma coisa a pedir-lhe, antes de falar do seu pai. No 
caia a fundo sobre Suellen. 
0 que fez, est feito, e nada poder ressuscitar o senhor O'Hara, Ela julgou honestamente que fazia 
pelo melhor. 
- Eu  que desejo pedir-lhe esclarecimentos a esse respeito. Que fez Suellen? Alex falou por 
enigmas e declarou por fim que ela merecia ser castigada. 
-Bem sei que h gente que a censura. Os que hoje encontrei em Jonesboro disseram estar dispostos 
a no lhe falar, quando a tornassem a ver. Mas espero que isso lhes passe. Por agora, prometa-me 
no levantar a questo. No gostaria que brigassem quando ainda est em casa o cadver do senhor 
O'Hara. 
#
"Ah, no quer brigas!" pensou Searlett, indignada. "Fala como se Tara lhe pertencesse j". Ento 
pensou em Gerald, que jazia morto na sala e, de s'bito, desatou, a soluar. Will envolveu-a com o 
brao e chegou-a para si, sem dizer nada. 
232 
ipA 
Enquanto a carroa avanava lentamente na estrada envolta em sombras, Scarlett, reclinada no 
ombro de WiU e com o chapu de travs, esquecia-se do Gerald dos dois ltimos anos, do velho 
que olhava fixamente para as portas na esperana de ver surgir uma mulher desaparecida para 
sempre; de quem se lembrava era do homem enrgico, cheio de vida, de cabelo branco, mas ainda 
viril, espalhando entusiasmo, batendo fortemente com os ps no cho, proferindo gracejos 
inconvenientes, e todavia generoso. Scarlett recordava-se muito bem de que, sendo pequena, 
admirava esse pai que a levava consigo adiante da sela quando saltava os valados, a pegava nos 
braos e lhe dava palmadas, para a castigar das maldades feitas, e que depois a ensurdecia com a 
sua voz grossa para acabar perdoano. Revia-o,  volta de Charleston e de Atlanta, carregado de 
presentes em geral mal escolhidos. Evocava-o ainda no regresso das sesses do tribunal de 
Jonesboro, pela manh, cavalgando, bbado, as sebes, e cantando The Whearin' o' the Green. E 
depois como aparecia humilde, perante a mulher... Pois agora j se lhe havia reunido,  sua Ellen! 
- Por que no me escreveu a dizer que ele estava doente? Teria vindo logo... 
- No esteve doente, nem um minuto. Aqui tem o meu leno, Vou contar-lhe tudo. 
Scarlett aceitou a oferta, pois no trouxera lenos consigo, e encostou-se mais ao ombro de Will. 
Era to corajoso, aquele homem-' Nada o inquietava. 
- Foi assim - comeou ele. - Com o dinheiro que nos mandou, AshIey e eu pagmos as 
contribuies e comprmos o muar, sementes, porcos, galinhas... A senhora Melly faz milagres com 
as galinhas. ],' estupenda! Enfim, depois de termos comprado tudo o que era preciso para Tara, 
no ficou nada para brindes, de que ningum se queixou, excepto Suellen. 
"A senhora Melanie e Carreen no saem de casa, e usam com muito orgulho as coisas velhas que 
possuem. Mas bem sabe como  a Suellen. No admite privaes. Quando eu a levava a Jonesboro 
ou a Fayetteville, o que ela se afligia por vestir o que no considerava decente! Tanto mais que, por 
ali as mulheres dos Sacolas andam no brinco... As daquel@s malditos yankees que dirigem a 
Agncia dos Forros! Ora as senhoras da nossa comarca tm multa honra em trajar com modstia, 
para mostrar que no ligam a 
233 
isso. Suellen.  qe no. E ainda por cima queria ter carruagem e cavalo, alegando que a Scarlett 
tambm era dona dum trem. 
- Em bonito estado, nem haja dvida! - comentou Scarlett. 
- Seja o que for, desejo preveni-Ia. Suellen nunca lhe perdoou esse seu casamento com Frank 
Kennedy e eu no sei se a devo censurar. Uma partida dessas no se fazia a uma irm. 
Scarlett afastou-se do ombro dele, como uma vbora pronta a morder. 
-No se fazia? Veja como fala, Will Benteen. No tenho culpa que ele me preferisse a mim. -  
pessoa inteligente Scarlett, e creio que o ajudou a dar esse passo. Obtm t@do o que pretende, mas, 
enfim, sempre era o noivo de Suellen. Olhe que, uma semana antes da sua partida para Atlanta, ela 
recebeu uma carta dele, por sinal muito amvel. Dizia-lhe que se casariam logo que o Frank 
conseguisse economizar certo dinheiro. Eu vi a carta. 
Scarlett no respondeu logo. Sabia que Will estava dentro da verdade, e aquilo parecia-lhe difcil de 
contestar. Jamais se lembrara de que ' um dia, Will arvorasse em juiz das suas aces, e, por outro 
lado'nunca lhe pesara na conscincia a mentira que pregara a Frank. Quando uma rapariga no sabia 
prender o noivo, era justo que o perdesse. 
-No venha agora com essas coisas, Will -protestou Scarlett. -:- Se minha irm chegasse a casar 
com ele, pensa que gastaria uma nica moeda a favor de Tara ou de qualquer de ns? 
-Repito que obtm tudo quanto quer -replicou WilI, voltando-se com um sorriso Para a sua 
interlocutora. - 
#
No penso que nem chegaramos a ver a cor do dinheiro d ' lho Frank. Mas nem por isso deixo de 
dizer que preo 
ve gou uma feia partida  sua irm. Desde esse tempo ' Suellen anda como uma fria. No creio 
que estimasse muito o velhote, mas aquilo feriu-lhe a vaidade e da para c no faz seno lastimarse 
que vive aqui enterrada enquanto a Searlett tem lindos vestidos, uma bela carruagem e se diverte 
 grande em Atlanta. Ela adora usar vestidos bonitos e ir a festas, como sabe. No a posso censurar. 
As mulheres so assim... 
"Pois bem. H cerca dum ms, levei-a a Jonesboro. 
234 
Como tinha que fazer, deixei-a szinha, e entretanto, ela foi visitar umas pessoas suas conhecidas.' 
 volta, vinha calada como um rato, e to enervada que nem quis interrog-1a. Calculei que a 
tivessem informado de que algum ia ter um... em suma, que ouvira qualquer conversa que a 
interessava, e no me preocupei muito com o caso. Durante uma semana, andou sempre assim. Mal 
falava. Depois, deu-lhe para ir visitar a senhora Cathleen Calvert... Se a Scarlett visse a pobre 
senhora, no podia conter as lgrimas. Coitada, mais valera ter morrido do que casar com Hilton, 
esse yankee sem brio nenhum. Sabe que ele hipotecou a plantao? Perderam-na, e agora tm de 
sair de l. 
- No, no sabia, nem me interessa. 0 que eu quero  que me diga o que se passou em casa. 
-J lho conto -retorquiu Will com a maior calma. 
- Quando Suellen regressou da visita  senhora Calvert, declarou-nos que tnhamos opinio errada 
acerca do Hilton. Deu-lhe roda de "senhor", disse-nos que era muito simptico, mas todos nos 
rimos. Depois disso, levou o pai a dar grande passeios de tarde, e por vrias vezes, quando vol tava 
do campo, vi-os ambos sentados no murinho do cemitrio. Suellen flava animadamente, 
gesticulava, e o pai olhava-a espantado e meneava a cabea. Sabe bem como ele era, Scarlett. Pois 
nos ltimos tempos parecia que ainda andava mais na lua. Dava a impresso de que no nos 
conhecia nem sabia onde'estava. Uma vez, vi Suellen apontar para a sepultura da sua me, e ele 
desatou a chorar. Nesse dia, quando Suellen entrou em casa, vinha muito excitada e satisfeita. 
Chamei-a  parte e preguei-lhe um sermo: "Por que diabo atormenta o seu pai e lhe fala de sua 
me? Ele j nem se lembra de que ficou sem a mulher, e vai a menina fazer-lhe recordar coisas 
tristes!" Ela ento levantou a cabea com ar petulante e respondeu: "Meta-se na sua vida! Ainda um 
dia h-de ficar contente com o que eu penso fazer". A senhora Melanie disse-me ontem  noite que 
a Suellen a pusera ao corrente dos seus projectos, mas que no imaginara que ela falasse a srio. E 
se no nos contou foi porque s a ideia a deixou transtornada. 
- Qual ideia? P, capaz de se explicar melhor? J vamos a meio caminho de casa, e eu quero saber o 
que se passou com o pai. 
- Estou a fazer o possvel por me explicar bem - retor- 
235 
quiu Will. -E como receio no poder contar tudo antes de chegarmos a casa, paramos aqui um 
bocadinho. 
Puxou as rdeas, e <> cavalo estacou. Haviam-se detido junto duma sebe que mareava a 
propriedade dos Mac Intoshes. Scarlett lanou uma olhadela por baixo das rvores sombrias e, 
avistando as chamins que, semelhantes a fantasmas, dominavam as runas silenciosas lastimou que 
Will no tivesse escolhido outro stio par@ acabar o seu relato. 
-Ora a ideia de Suellen era nem mais nem menos do que obrigar os yankees a pagar tudo. o que eles 
prprios levaram ou destruram: algodo, celeiros, animais... 
-Os yankees... pagarem. -No ouviu falar dissc>? 0 governo yankee tem indemnizado todos os 
proprietrios sulistas simpatizantes com a Unio. 
-J sabia-disse Scarlett.-Mas em que  que isso nos interessa? 
-Na opinio, de Suellen, interessa-nos muito. Naquele dia em que a levei a Jonesboro, encontrou-ge 
com a senhora Mae lntosh, e,  claro,, no deixou de reparar quanto ela estava bem vestida. Aquilo 
fez grande confuso a Suellen, at que acabou por perguntar a que era devida tanta elegncia. A 
#
outra ento informou-a com ares de importncia que o marido apresentara queixa ao Governo 
Federal por destrurem a propriedade dum leal partidrio da Unio, que nunca apoiara nem auxiliara 
os confederados de qualquer forma. 
- Eles nunca auxiliaram ningum! - comentou Seglett. - Sempre  gente que tem sangue irlands e 
escocs . mistura. 
-Talvez. No os conheo. 0 certo  que o governo lhes deu... no sei quantos mil dlares. 0 que sei  
que foi boa soma. Suellen nunca mais pensou noutra coisa. Durante toda a semana ruminou a sua 
ideia, sem nos dizer nada, porque sabia que nos riramos. Mas, como no podia passar sem falar 
com algum, foi a casa da senhora Cathleen e aquele traste do Hilton meteu-lhe na cabea novas 
ideias. Fez-lhe notar que o senhor O'Hara no nascera neste pas, que no se batera durante a guerra, 
que no tivera filhos a combater e que nunca exercera funes pblicas sob a Confederao. Dsselhe 
que podia servir de testemunha das simpatias do senhor O'Hara. pela Unio. Em suma, encheu 
236 
@ 0@@ , , 
a cabea da rapariga com estas asneiras e, assim que, chegou a casa, Suellen tratou de convencer o 
pai. Scarlett, sou capaz de jurar que a maior parte do tempo ele nem percebeu o que lhe dizia a filha. 
E era com isto mesmo que ela contava, que o pai prestasse o "juramento de ferro" sem saber o que 
fazia. 
- Meu pai prestar o "juramento de ferro"! 
- Ele enfraquecera, bastante de esprito nos ltimos tempos e era nisso que se firmavam as 
esperanas de Suellen@ Ns, entretanto, no suspeitmos de nada. Sabamos que ela magicava em 
qualquer coisa, mas estvamos muito longe de pensar que Suellen s evocava a memria da me 
pa-ra o censurar pelo facto de consentir que as filhas andassem andrajosas quando podia apanhar 
cento e cinquenta mil dlares. dos yankees. 
-Cento e cinquenta, mil dlares-repetiu Scarlett. Imediatamente se lhe atenuou a repulsa que sentia 
pelo "juramento de ferro". 
0 que isso representava! Um dinheiro! E, para o receber, bastava prestar fidelidade ao governo dos 
Estados Unidos, juramento em que se declarava que o abaixo assinado, jamais auxiliara os inimigos 
e sempre apoiara os governamentais. Cento e cinquenta mil dlares! Tanto dinheiro por uma 
pequenina mentira! No no podia censurar a irm. Era ento por isso que lex achava ser 
merecedora de castigo? Era por isso que os conterrneos, a evitavam? Que scia de imbecis! 0 que 
no fariam com aquela quantia? E que importava uma mentira? Se a nica coisa que se podia obter 
dos y"ke-es era dinheiro., todos os processos seriam bons para o apanhar, 
-Ontem, pelo mei"ia, quando Ashley e eu partamos lenha, Suellen meteu o senhor O'Hara nesta 
carroa e e!4:o,9 a caminho da cidade, sem dizerem nada a ningum. A senhora Melly desconfiava 
vagamente do propsito da v1a@_ gern, mas sempre pensou que Suellen no fosse at ao extremo e 
no nos quis dar o alarme. Custava-lhe a crer que ela fosse capaz disso. 
"Hoje eu soube, afinal tudo quanto se passou. Aquele pulha do Hilton anda bem' relacionado comos 
Renegados e com os Republicanos, e Suellen concordava dar-lhes no sei quanto para que eles 
certificassem que o senhor O'Hara fora sempre partidrio da Unio, que era irlands de nasciniento 
que no estivera na guerra, etc., ete. Em resumo, 
237 
o seu pai s tinha que assinar o papel, e a docurnentao seguiria logo para Washington. 
"Quando ele chegou leram-lhe  pressa a frmula do juramento. 0 senhor O'ara no disse nada, e 
tudo correu muito bem at que lhe vediram que assinasse. Nessa altura, o seu pai pareceu cair em si 
e abanou a cabea. Suponha que no sabia ao certo do que se tratava, mas aquilo no lhe agradou e, 
para mais, Suellen nunca teve jeito para o levar. P, bem de ver que, depois de tanto trabalho, pouco 
faltou para ela ter um ataque de nervos, Agarrou no pai pelo brao e f&lo sair do escritrio. 
Meteram-se no carro e Suellen convenceu-o de que a me lhe gritava da sepultura que no deixasse 
as filhas sofrer inutilmente. Contaram-me que o senhor O'Hara chorava como uma criana. Toda a 
gente os viu, e Alex Fontaine aproximou-se -para saber o que se passava; mas Suellen dsse-lhe que 
#
no se intrometesse na vida dos outros, e ele voltou para trs, de orelha murcha. 
"No sei quem lhe deu a ideia, mas o certo  que ela nessa mesma tarde comprou uma garrafa de 
aguardente, tornou a conduzir o senhor O'Hara ao escritrio e l lhe deu de beber. Ora, h mais dum 
ano que no temos lcool em Tara, alm do vinho de amoras que Asliley fez e o senhor O'Hara j se 
desabituara. Embriagou-se a valer e, depois de duas horas de discusso com Suellen, acabou por 
dizer que assinaria tudo o que quisessem. Os yankees tornaram a puxar do papel e, no momento em 
que ele j estava de caneta na mo, Suellen estragou tudo. Disse assim: "Agora, nem os Slatterys 
nem os Mae Intoshes podero rir-se de ns". Compreende, Searlett, os Slatterys tinham exigido uma 
quantia formidvel pelo pardieiro que os ya7i,kees incendiaram, e, graas ao marido de Enimie, 
conseguiram que lha dessem. 
"Contaram-me que, ao ouvir aquelas palavras, o seu pai se endireitou e deitou um olhar terrivel a 
Suellen. J sem aquele ar alheado disse: "Os Slatterys e os Mac Intoshes assinaram alguni@ coisa 
neste gnero?" Suellen ficou to atrapalhada que nem respondeu. Ento o pai insistiu em grandes 
berros: "Esse maldito irlands protestante e esse miservel tambm assinaram?" Hilton  que 
respondeu, a ver se conciliava as coisas: "Sim ' senhor, assinaram e receberam somas fabulosas, 
como o senhor h-de receber". 
"Ao ouvir isto, o seu pai soltou um grito que parecia 
238 
o mugido dum toiro. Depois, disse com pronunciado sota~ que irlands: "Julga, que um O'Ha vai 
seguir as pisadas dum orangista ordinrio e dum reles p~descalo?" Rasgou o papel em dois e 
atirou-o  cara de Suellen, bradando: "No s minha filha!" E fugiu do escritrio antes que tivessem 
tempo`para mais nada. 
"Alex disse-me que o viu sair do prdio furioso como um toiro. Pela primeira vez depois da mor@e 
de sua me, Scarlett, ele voltou a ser o que fora. Caminhava aos ziguezagues, praguejando em voz 
alta. 0 cavalo de Alex estava ali, e o seu pai pulou para cima dele e partiu  desfilada no meio duma 
nuvem de poeira. 
"Ao fim do dia, Ashley e eu, estvamos sentados nos degraus da porta e olhvamos para a estrada 
deveras inquietos, A senhora Melly encontrava-se na cama, a chorar quanto mais podia, mas no 
queria dizer-nos nada. De repente, ouvimos galopar um cavalo e algum gritar como se estivesse na 
caa s raposas. Astiley disse-me: "1@ curioso! Isto lembra-me o senhor O'Hara quando nos vinha 
visitar antes da guerra". 
"E logo o vimos aparecer no extremo do prado. Devia ter saltado a barreira. Subia a colina numa 
corrida desenfreada, cantando em voz alta como se estivesse muito contente. No sabia que seu pai 
tinha aquela voz. Cantava peg in a Low-backed Car, e com o chapu incitava o cavalo, que parecia 
doido. Ao chegar ao alto da colina no abrandou o galope, e compreendemos que ele ia saltar o 
valado. Levantmo-nos num pulo aterrorizados, e ouvimo-lo gritar: "Repara, Ellen! V-me 61tar 
isto!" Mas por desgraa, o cavalo estacou, e o senhor O'Hara passo@-lhe por cima da cabea. No 
devia ter sofrido. Estava morto quando l chegmos. 
Will esperou um minuto por que Scarlett falasse, e, como ela no dissesse nada, brandiu as rdeas. 
-Vamos, Sherman! -exclamou, e o cavalo prosseguiu o caminho de casa. 
40 
SCMU.ETT pouco dormiu nessa noite. Assim que amanheceu e que o Sol comeou a surgir por trs 
dos pinheiros das colinas da banda oriental saltou da cama arrastou um banco para junto da janel@ 
e a se sentou. escansando no 
239 
wLA'_ 
brao a cabea fatigada, contemplou a granja, o pomar e por fim os campos de algodo. Tudo estava 
hmido de orvalho, verde e silencioso, e aquela vista foi como um blsamo para o corao magoado 
de Searlett. Ao nascer do Sol, Tara dava a impresso duma quinta tratada com 
* maior carinho,_duma terra onde reinava a paz embora 
* seu dono jazesse morto. As tbuas do galinheir@ ' consolidadas com argamassa para evitar a 
#
entrada de ratos e doninhas, apresentavam-se caiadas de fresco, assim como o estbulo. Com os 
seus renques de milho, de favas, de nabos, dava gosto ver a horta desprovida de ervas ruing e bem 
delineada por uma cercadura de estacas de carvalho. Sob as rvores do pomar s cresciam 
margaridas. 0 sol acariciava as mas e os pssegos meio escondidos entre a folhagem verde, Mais 
adiante os algodoeiros dispostos em semicrculo recebiam, imvei@, a luz dourada da manh. 
Corriam em direco aos campos bandos de patos e de galinhas, na mira de encontrar boas lesmas e 
minhocas na terra amolecida pela charrua. 
0 corao de Searlett encheu-se de ternura e gratido para com WilI,_que fizera aquilo tudo. Apesar 
do seu culto por Ashley, no podia acreditar que este houvesse concorrido muito para aquela 
prosperidade; o esplendor de Tara no era obra dum plantador-aristocrata, mas do lavrador 
infatigvel e perseverante que se ocupava da sua terra.  claro que estava agora em presena duma 
simples herdade em vez da plantao grandiosa doutros tempos, quan o havia numerosos muares e 
cavalos de raa e campos de milho e de algodo estendendo-se a perder ae vista. Mas o que existia 
ao presente era bom e para o futuro poderiam fazer melhor. 
Will no se limitaria a tratar de meia dzia de acres de terra, dera tambm rijo combate a esses dois 
inimigos dos plantadores georgianos os pinheirinhos novos e o silvado. No os deixara invadir o 
jardim, nem o prado, nem os campos de algodo, nem a relva; impedira que os ramos de silva 
assaltassem as varandas, como tantas vezes sucede noutras propriedades. 
Searlett arrepiou-se  ideia de que Tara podia ter recado no estado selvagem. Ela e Will haviam 
feito bom trabalho, quer desviando a sanha dos yankees e dos Sacolas, quer a da prpria natureza. E 
Will fora mais alm: dissera-lhe que, no Outono, depois da colheita do algodo, ela no teria 
240 
necessidade de lhe enviar dinheiro, a no ser que mais algum Sacola cobiasse Tara e conseguisse 
novo aumento de contribuies. Scarlett sabia que Will a custo passaria sem a sua ajuda, mas 
admirava-o e venerava-lhe a independncia. Enquanto estivera na situao de fazer servio 
remunerado ele aceitara dinheiro; agora, que ia tornar-se cunhado e @er o homem da famlia, 
somente contaria com o seu trabalho. Sim, Will era na verdade um dom da Providncia. 
Na vspera  noite, Pork havia cavado a sepultura, ao lado da de Ellen. Ali estava ele de enxada na 
mo em frente do montculo de terra, pronto a rep-lo no seu lugar. Scarlett achava-se mais atrs '  
sombra dos ramos baixos e nodosos dum cedro que o sol quente da manh de Junho salpicava de 
oiro, e fazia o possvel de no olhar a cova aberta. Jim Tarleton, o pequeno Hugh Munroe, Alex 
Fontaine e o filho mais novo do velho MeRae avanavam lentamente e a custo pela alameda que 
descia da casa, conduzindo o esquife de Gerald sobre paus de carvalho atravessados, A respeitosa 
distncia, acompanhava-o a multido dos vizinhos, mal entrouxados e silenciosos. Enquanto eles 
atravessavam o jardim inundado de sol, Pork apoiou a cabea ao cabo da enxada e ps-se a chorar, e 
Scarlett notou que a carapinha dele, ainda negra de azeviche quando ela partira para Atlanta, meses 
antes, se encontrava j toda cheia de cs. 
"Ainda bem", pensava a filha de Gerald, "que chorei toda a noite, o que me permite ter agora os 
olhos enxutos". 
0 rudo que fazia a outra, Suellen, no seu pranto irritou a tal ponto a irm que a obrigou a fechar os 
punh@s. a fim de no se voltar de sbito para lhe encher a cara de bofetadas. Suellen fora a causa 
da morte do pai, voluntria ou involuntria, e devia ter a decncia de se dominar na presena dos 
vizinhos hostis. Ningum lhe falara, naquela manh, ou sequer lhe endereara um olhar de 
compuno. Tinham beijado Searlett em silncio, ou apertado a mo, tinham murmurado pal@vras 
de conforto a Carreen e at a Pork, mas fingiram ignorar que a outra rf se encontrava ali tambm. 
Para eles, Suellen fizera pior do que assassinar o pai: tentara lev-lo a trair o Sul. E, para esta 
comunidade to unida e to intransigente, aquilo significava o mesmo que 
16 - vento Uvou - 11 241 
atentar contra a honra de todos. Abrira uma brecha na slida frente que eles aDres-entavam ao 
inimigo. Com o propsito de obter dinheiro do governo yankee, pusera-se ao nvel dos Sacolas e 
Renegados 'mais odiados ainda do que os soldados nortistas. Ela, membro duma fiel e antiga 
#
famlia confederada, famlia de plantadores correra de braos abertos para o adversrio e lanara o 
o@rbrio, sobre todas as outras famlias da comarca. 
Os que acompanhavam o enterro estavam ao mesmo tempo entristecidos e indignados, em especial 
trs deles: o velho MeRae, amigo de Gerald desde que se instalara na regio vindo de Savannali, 
muitos anos antes;-a av Fontaine,'que estimava deveras o defunto porque fora marido de ElIen e a 
senhora Tarleton, que tivera por ele mais amizade & que ningum, pois O'Hara sabia muito bem 
distinguir um garanho dum castrado. 
0 aspecto daquelas trs faces carrancudas, na sala sombria em que repousava o cadver, provocara 
certa apreenso em Will e em Asliley que logo se retiraram para a saleta de Ellen, a fim de trocarem 
impresses. 
-H-de haver quem faa comentrios a respeito de Suellen-disse W111, trincando o bocadinho de 
palha que tinha na boca.-Julgam que lhes assiste a obrigao de falar do caso. A mim no compete 
ser juiz. Mas, quer tenham ou no direito, eu entendo Asliley que devemos tomar a defesa dela, 
visto sermos os'homens ka casa. E isso  que  o pior. Como discutir com MeRae, que  surdo como 
uma porta e nunca atende aqueles que o aconselham a calar-se? Por outro lado, voc, sabe que 
nunca ningum conseguiu deter a senhora Fontaine quando ela se resolve a dar sentenas. E, quanto 
 senhora Tarleton... viu a cara que fazia sempre que olhava para Suellen?  pessoa incapaz de se 
conter. Se falarem, havemos de intervir, e j temos bastantes aborrecimentos em Tara, para que 
surjam agora outros com os vizinhos, 
Ashley suspirou, aborrecido. Conhecia melhor do que Will o feitio dessa gente, e lembrava-se de 
muitas disputas antes da guerra, algumas das quais acabadas a tiro e originadas em frases proferidas 
por ocasio de enterros, conforme o costume local. Geralmente essas frases eram em extremo 
elogiosas, mas no deixava s vezes de aparecer uma ou outra cheia de veneno. Acontecia tambm 
serem 
242 
mal interpretadas palavras ditas com a melhor das intenes ainda mesmo antes de o morto baixar  
sepultura. 
D@a ausncia do sacerdote catlico e dos ministros meto.distas e baptistas, que habilmente a 
famlia recusou, competia a Asliley dirigir o servio religioso ' auxiliando-se com o livro de 
oraes de Carreen. Esta, catlica mais fervorosa do que as irms, ficara aflita ao saber que Scarlett 
se no lembrara de trazer um sacerdote de Atlanta, mas consolara-se um pouco  ideia de que 
poderia mais tarde ler o ofcio de defuntos, no tmulo, de Gerald, aquele que viesse casar Will e 
Suellen. Fora ela quem sugerira a recusa dos protestantes e indicara Asliley para oficiar. Asliley 
compreendeu que lhe impendia a responsabilidade de assegurar o respeito da cerimnia e procurava 
em vo imaginar qual o melhor meio de se impor quela gente to pouco dcil. 
-No vejo remdio WiII-declarou ele, passando a mo pela cabea. - S s@ me fosse permitido 
abater a soco a av Fontaine ou o velho MeRae, e tapar a boca da senhora Tarleton. Vero, que eles 
ho-de pelo menos dizer que Suellen cometeu homicdio ou traio e que sem ela, o senhor O'Hara 
estaria ainda vivo. Maldito 6stume este, de falar diante dos cadveres! n uma coisa brbara. 
- Escute, Astiley - volveu Will lentamente. - No tenciono deixar ningum pronunciar-se sobre a 
Suellen, seja qual for a opinio. Conte comigo. Quando voc acabar de ler o ofcio e de recitar as 
oraes, perguntar: "Algum deseja falar?" e nesse momento volta-se para mim para que eu seja o 
primeiro a responder. 
Scarlett, entretanto, vendo os esforos que os homens faziam para entrarem com o caixo atravs da 
porta estreita do cemitrio, estava longe de pensar no temporal que se avizinhava. De corao 
opresso, reflectia que, enterrando o pai, enterrara um dos ltimos elos da cadeia que a ligava aos 
dias felizes. 
Finalmente depuseram o caixo junto da cova, e ficaram a desentorpecer os dedos. Astiley, Melanie 
e Will penetraram no recinto e colocaram-se atrs das O'Haras. Todos os acompanhantes, que 
haviam podido entrar, comprimiram-se ao fundo e o resto da multido deteve-se no exterior, fora do 
muro de tijolos. Searlett admirou-se e comoveu-se ao mesmo tempo quando verificou a quantidade 
#
de gente que 
243 
ali estava. Os meios de transporte no eram fceis e cada qual deu prova de abnegao com a sua 
vinda ao cemitrio. Contavam-se umas cinquenta a sessenta pessoas, algumas delas procedentes de 
to longe que era caso para perguntarcomo souberam a tempo de comparecerem. Viam-se famlias 
inteiras de Jonesboro, Fayetteville e Lovejoy, e com elas bom nmero de servos pretos. 
Apresentaram-se tambm pequenos lavradores e um punhado de homens da regio florestal e da 
pantanosa. Estes ltimos muito altos, magros e barbudos, usavam fato de tecido, g@osseiro, feito 
em casa, espingarda no brao e gorro de pele de coati. Acompanhavam-nos as respectivas mulheres 
descalas, com o lbio inferior ainda cheio de rap. 0 rosto delas, sob o chapu com que se 
protegiam do sol, era lvido, em consequncia das febres palustres mas brilhava de limpeza, e o 
vestido, recentemente passao a ferro, vinha rgido da goma. 
Os vizinhos mais prximos encontravam-se ali todos reunidos. A av Fontaine, seca, enrugada e 
amarela como um canrio, apoiava-se  bengala. Atrs dela, as duas Fontaines mais novas 
chamavam-na em voz baixa e puxavam-lhe pelo vestido para a obrigar a sentar-se no murinho de 
tijolos. 0 marido da av, o velho mdico,  que no estava presente. Falecera dois meses antes, e 
com a sua morte fora-se quase toda a alegria dos olhos da mulher. Cathleen Calvert Hilton 
mantinha-se  parte, como convinha a uma criatura cujo marido representara papel importante no 
drama. Conservava-se de cabea baixa com o rosto meio escondido pela aba do chapu. 
Scarlett'notou com espanto que ela tinha o vestido de chita cheio de ndoas de gordura, e que as 
mos, cobertas de sardas se apresentavam sujas, assim como as unhas. Cathleen riajo s perdera 
toda a distino como tinha um ar porco, desalinhado ' miservel. 
"No tarda muito que no tome rap, se  que j no o fez", pensou Scarlett, horrorizada. "Que 
decadncia, meu Deus!" 
Estremeceu, ao compreender quo pequena era a distncia que separava as pessoas de categoria das 
de baixa condio. 
"Se eu fosse desprovida de iniciativa, talvez estivesse reduzida quilo", disse consigo. E, 
lembrando-se de que, depois da rendio, ela e Cathleen se encontravam nas mesmas 
circunstncias, sentiu uma onda de orgulho. "No 
244 
me sa mal", pensou, erguendo a cabea e esboando um sorriso que logo se lhe desvaneceu dos 
lbios. A senhora Tarlet@n fitava-a com ar escandalizado. Atrs dela e do marido estavam 
alinhadas as quatro filhas, cujos caracis ruivos eram uma nota discordante naquele ambiente solene 
e cujos olhos castanhos brilhavam como de animaizinhos bravios. 
De sbito, todos se endireitaram nos seus lugares, apaziguou-se o sussurro de saias, os homens 
tiraram o chapu, juntaram-se mos para rezar e Ashley avanou trazendo o velho livro de oraes 
pertencentes a Carreen. P@rou e ficou um momento de cabea baixa, com os cabelos loiros a 
reluzirem ao sol. Fez-se silncio na assistncia, silncio to profundo que se ouvia o suspiro do 
vento a acariciar as magn&lias. Ao longe, um tordo emitia uma nota grave e triste, sempre a 
mesma. Ashley comeou a ler as oraes e todas as frontes se curvaram enquanto a sua voz quente 
e bem timbrada fazia realar as palavras breves e dignas. 
"Oh!" pensou Scarlett ' com um n na garganta. "Que bela voz a sua! J que  preciso que algum 
faa isto por meu pai, estou contente que seja o Ashley. Antes ele que um padre. Antes o pai 
enterrado por algum da famlia do que por um estranho". 
Quando Ashley chegou  parte das oraes relativas s almas do Purgatrio texto que Carreen tivera 
o cuidado de sublinhar, fechou bruscamente o livro. S Carreen notou aquela omisso e olhou 
intrigada para AshIey que principiou a rezaro Padre Nosso. Ele sabia que metade da assistncia 
nunca ouvira falar do Purgatrio, e que outra metade se indignaria de ouvir insinuar embora numa 
orao, que um homem to perfeito como Hara no tinha ido direito para o Cu. Assim, por 
considerao pela opinio pblica, passou por alto todas as aluses ao Purgatrio. Todos 
acompanharam com fervor o Padre-Nosso, mas as vozes esmoreceram quando AshIey comeou a 
#
Ave-Maria. Ningum conhecia essa orao e toda a gente se entreolhava, enquanto os O'Haras 
'Melanie e os criados de Tara diziam em coro: "Rogai por ns, agora e na hora da nossa morte, 
men". 
Ento Ashley ergueu a cabea e, por um momento, pareceu hesitante. A assistncia em peso tinha 
os olhos fixos nele. Todos esperavam que continuasse, e arranjavam posies mais confortveis, na 
expectativa duma longa locuo. 
245 
A ningum ocorria que as oraes catlicas se limitassem quilo. Naquela regio os enterros eram 
sempre muito prolongados. Os ministros baptistas e os metodistas no tinham oraes precisas mas 
falavam de improviso conforme exigiam as circunstncias e em geral, no se calavam antes que os 
auditores se debulhassem em lgrimas e a famlia do defunto se lamentasse em altos brados. Se o 
servio religioso no fosse alm daquelas breves oraes pronunciadas sobre o cadver do seu 
querido amigo, os vizinhos ficariam indignadssimos. Asliley sabia-o melhor que ningum. Durante 
semanas, comentariam o caso ao almoo e ao jantar, e toda a comarca diria que as filhas do senhor 
O'Hara no tinham testemunhado ao pai o respeito que lhe deviam. 
Depois de lanar um olhar rpido a Carreen como a pedir-lhe perdo, Ashley baixou de novo a 
cabe@ e ps-se a recitar de cor as oraes episcopais pelos defuntos que ele muitas vezes lera nos 
enterros de escravos quando @ivia nos Doze Carvalhos. 
"Eu sou a Ressurreio e a Vida... e todo aquele que cr em mim... no morrer". 
No se lembrava bem das palavras e falava lentamente, detendo--se por vezes para rebuscar na 
memria as frases esquecidas. Mas a prpria lentido com que se exprimia tornava mais 
impressionantes os seus dizeres, e o pblico, que at a se conservara de olhos secos, comeou a 
puxar dos repectivos lenos. Como todos eram baptistas ou metodistas, supuseram que Ashley 
seguia escrupulosamente o rito catlico e chegaram  concluso de que este afinal, era muito menos 
frio do que tinham julgado a pknelpio. Scarlett e Suellen, to ignorantes como os outros acharam 
aquela orao muito bela e -reconfortante. S6 kelanie e Carreen perceberam que estavam a sepultar 
um catlico praticante segundo o rito anglicano. E Carreen andava muito sucumbida pela dor e 
muito magoada com a traio de Asliley para poder intervir. 
Quando acabou, Asliley reabriu os olhos cinzentos e tristes e relanceou a vista pela assistncia, at 
que pousou o olhar em Will e disse: 
-Alguma das pessoas presentes deseja falar? A senhora Tarleton deu logo sinais de agitao, mas, 
antes que ela pudesse agir, Will avanou no seu passo claudicante e veio postar-se em frente do 
caixo. 
- Meus amigos - comeou ele por dizer no seu tom de 
246 
,-77 '71` 
voz sereno. - Talvez considereis um abuso ser eu o yrimeiro a falar, eu que, h um ano, ainda no 
conhecia o senhor O'Hara, quando todos vs o conhecieis pelo menos h vinte. A minha justificao 
 esta: se ele vivesse mais um ms, eu teria o direito de o chamar pai. , 
Percorreu a assembleia um frmito de espanto. Eram todos muito bem educados para trocarem 
impresses em voz baixa, mas houve certa agitao e cada qual olhou para Carreen, que se 
mantinha de cabea baixa. Ningum ignorava a afeio que ele lhe tinha. Will bem viu para que 
lado se dirigiam todos os olhares, mas continuou como se nada notasse: 
-Como vou casar com a menina Suellen assim que venha um sacerdote de Atlanta, achei que isso 
me concedia o direito de ser o primeiro a falar. 
A ltima parte do discurso perdeu-se num murmrio confuso semelhante ao zumbido dum enxame 
de abelhas. Toda a gente simpatizava com Will. Toda a gente o respelta,va pelo que fizera por Tara. 
Sabiam que ele gostava de Carreen, e o anncio do seu prximo casamento- com Suellen, posta  
margem da sociedade, causou espanto e indignao. 0 bondoso Will casar com a vibora da Suellen 
O'Hara! 
Por alguns instantes, pairou no ambiente o maior nervosismo. A senhora Tarleton pestanejava 
#
furiosamente e os lbios tremiam-lhe como se falasse consigo mesma. No meio daquele silncio, 
ouviu-se o velho MeRae pedir ao neto que lhe explicasse o que se passava. Enfrentando a 
assistncia, Will conservava o seu ar calmo mas via-se-lhe nos olhos azuis uma expresso que 
impedi@ fosse quem fosse de proferir uma nica palavra contra a futura mulher. Durante uns 
segufidos a balana oscilou entre a geral simpatia por Will e o des@rezo por Suellen. E foi Will 
quem venceu. Como se a, pausa fosse voluntria ele prosseguiu: 
- No conheci como vs o senhor O'Hara na plenitude do seu vigor. Quando o conheci, era j velho, 
um velho sempre digno no meio das suas perturbaes. Houve, porm, quem me dissesse o que ele 
foi noutros tempos. Era um irlands corajoso um verdadeiro senhor, e toda a vida procedeu como 
leal 6nfederado. Talvez no torne a haver uma personalidade como a sua, porque a poca em, que 
existiam homens daquela tmpera j desapareceu deste mundo, tal como ele. Nasceu no, 
estrangeiro, mas era mais georgiano 
247 
do que qualquer de ns, que lhe pranteamos a morte. Partilhou da nossa existncia, amava a nossa 
terra e para falar sem restries morreu pela nossa Causa, tal coi@@o um soldado. Era um'dos 
nossos ' possua os nossos defeitos e as nossas qualidades, a nossa forae a nossa fraqueza. E digo 
a nossa fora, porque nada o detinha quando decidia alguma coisa e porque nada o assustava. Nada 
do que viesse do exterior o podia abater. 
"No se amedrontou quando o governo ingls queria enforc-lo. Agarrou tranquilamente na trouxa e 
veio-se embora. Tambm no teve medo de desembarcar nesta terra sem uma moeda no bolso. 
Meteu mos ao trabalho e ganhou dinheiro. No receou instalar-se nesta regio donde tinham 
acabado de expulsar os ndios e que era quase um matagal cerrado. Desbastou ervas e arbustos e 
conseguiu fazer uma grande plantao. Quando veio a guerra e o dinheiro comeou a desaparecer, 
no teve medo de ficar pobre. E quando os yankees passaram por Tara, ele no se acobardou. Eis 
porque alirmo que possua as nossas qualidades. Nada do que vem do exterior nos pode abater. 
"Contudo tinha tambm a nossa fraqueza, porque era vulnervel @uanto ao interior. Isto , quando 
o mundo inteiro nada podia contra ele o seu corao foi atingido. Com a morte da, senhora O'Aara, 
o seu corao morreu tambm, e foi o fim. J no era ele quem vamos nos ltimos tempos". 
Will fez uma pausa e relanceou o olhar calmo pelo crculo de pessoas. A assistncia conservava-se 
imvel debaixo dum sol ardente e esquecera a sua clera contra Suellen. Os olhos de Will pousaram 
um momento em Scarlett e pareceram sorrir-lhe, como para lhe dar coragem. E Scarlett, que se 
esforava, por conter as lgrimas, sentiu-se de facto reanimar. Em vez de proferir uma poro de 
tolices a respeito de reunies noutro mundo melhor e da submisso  vontade de Deus, Will dizia 
coisas sensatas, e a sensatez fora sempre fonte de energia e consolao para Scarlett. 
- No queria que diminusse o vosso bom conceito sobre ele, s porque se deixou abater. Qualquer 
de ns est sujeito a isso, s mesmas fraquezas, aos mesmos desvarios. Nada daquilo porque 
passmos nos conseguiu derrotar: nem os yankees, nem os Sacolas, nem as dificuldades da vida, 
nem as contribuies muito elevadas, nem a falta 
248 
de alimentos. Contudo, podemos dum momento para outro ser liquidados por essa fraqueza que 
existe em ns. E nem sempre  a perda dum ente querido a causa disso, como aconteceu ao senhor 
O'Hara. Cada qual sente  sua maneira. . digo-vos: ai daquele que j no sente, que tem quebrada a 
mola real; mais lhe valera morrer. Por isso, no tenhamos pena do senhor O'Hara. Quando veio 
Sherman e a senhora O'Hara faleceu,  que devamos lastim-lo. Agora, que ele 
6e vai encontrar com aquela a quem sempre amou, no h razo para o chorarmos, a menos que 
sejamos grandes egostas, e sou eu que vo-lo afirmo, eu que o estimava como a um pai... Se no 
levais a mal, ficamos por aqui. Os membros da famlia esto muito desgostosos para suportar mais 
di.%cursos, e seria maldade afligi-los mais ainda. 
Will deteve-se e, inclinando-se para a senhora Tarleton, disse-lhe em voz baixa: 
- Poderia fazer o favor de acompanhar Scarlett at casa? No lhe serve de nada estar aqui a p 
quedo, a apanhar este sol. E a senhora Fontaine mais velha tambm j no est em idade para isto, 
#
salvo o devido respeito... 
Sobressaltada pela brusca transio do elogio fnebre do pai para uma conversa que a ela referia 
Scarlett corou at  raiz dos cabelos e mais atrapalhada 'ficou ao ver-se alvo de todos os olhares. Por 
que motivo Will chamava a ateno daquela gente para o seu estado de gravidez? lFitou~o com 
expresso indignada, mas Will com a calma de sempre, fitou-a tambm e obrigou-a a @aixar a 
vista. 
"Sei o que estou a fazer", parecia ele dizer-lhe. Era j o homem da e-asa, e Scarlett, 'para evitar 
cenas, voltou-se para a senhora Tarleton. Tal como Will esperara, esta esqueceu-se de Suellen com 
aquela nova distraco e, pegando no brao de Searlett, disse-lhe em tom de bondade: 
-Vamos para casa, filha. Scarlett deixou-se conduzir entre a chusma de gente, enquanto se elevava 
um murmrio de simpatia e vrias pessoas lhe estendiam a mo  passagem. Quando chegou ao p 
da av Fontaine, a velha dama enfiou o brao no dela e, dirigindo um olhar altivo a SaIly, disse com 
ar feroz: 
-No venhas. No preciso de ti. As trs mulheres abriram caminho atravs da assistncia e seguiram 
pela alameda sombreada em direco a casa. A senhora Tarleton sustinha Scarlett com mo to 
firme 
249 
IV 
sob o cotovelo que ela quase se sentia elevada no cho a cada passo. 
- Por que  que Will se lembrou daquilo? - exclamou Scarlett quando se certificou de que ningum a 
podia ouvir. 
- Foi exactamente como se dissesse: "Olhem para ela! Vai ter um filho!" 
-Ora, ora! No morreu por causa, disso, pois no?retorquiu a senhora Tarleton.-Will teve razo no 
que disse. Era loucura ficar ali debaixo de sol. Podia desmaiar e ter um mau sucesso. 
- No foi essa a razo que inspirou Will - disse a velha Fontaine, ofegante com a subida. - Will 
conhece-nos bem, e no queria que ns, eu e voc, Beatrice, nos aproxim.<.@semos da sepultura. 
Receava que falssemos e arranjou este meio de nos pr a andar... Havia ainda outra coisa. No 
desejava que Scarlett ouvisse as pazadas de terra sobre o caixo. Nesse ponto concordo com ele. 
Lembre-se bem disto, Scarlett. Enquanto no escutamos esse rudo, supomos que as pessoas no 
morreram para sempre; mas, uma vez que ele nos chega. aos ouvidos... No h rumor mais horrvel 
neste mundo... Pronto j chegmos. Ajude-me a subir a escada, minha filha. D@-me a sua mo, 
Beatrice. Scarlett j no precisa do seu brao, e, como Will notou, eu estou muito velha... Will sabe 
que era a preferida do seu pai e no quis que se expusesse a maiores provaes. Quanto s suas 
irms, achou que no seria to doloroso. Suellen tem a sua desonra para a distrair, e Carreen tem... o 
seu Deus. Mas a Scarlett no tem ningum, no  assim? 
- No tenho respondeu a interpelada, ajudando a anci a subir os degraus. - Nunca tive ningum 
a, ampa@rar-me, salvo minha me. 
- Mas, quando a perdeu, descobriu que era suficientemente forte para poder viver sem apoio, no  
verdade? Olhe, h pessoas que no podem. 0 seu pai era desse nmero. Will tem razo. O'Hara no 
passava sem Ellen, -e agora  mais feliz l onde se encontra, assim como eu o serei quando for 
reunir-me ao meu doutor. 
Falava sem nenhum propsito de despertar a compaxao, e Scarlett e a senhora Tarleton abstiveramse 
de fazer qualquer comentrio. A velha Fontaine exprimia-se num tom natural e indiferente como 
se o marido houvesse partido para Jonesboro e bastasse uma viagem de trem para 
250 
ir ter com ele. Era- j muito idosa e vira excessivas coisas para que a morte a assustasse! 
- Mas... em qualquer cas<>... pde dispensar um apoio 
- observou Searlett. 
A velha deitou-lhe um olhar fulgurante. -De acordo. No entanto, s vezes,  deveras desagradvel. 
- Escute-me - atalhou a senhora Tarleton - no devia dizer nada desse gnero a Scarlett. - Bem lhe 
chegam os desgostos sofridos! A viagem, o vestido apertado, a morte do pai, o calor, tudo isso,  
#
bastante para deprimir uma pessoa. Se, ainda por cima, lhe vem meter ideias na, cabea, o que 
poder suceder? 
- Ora - replicou Searlett, irritada - no estou assim to em baixo como julgam, e no sou dessas que 
tm maus sucessos com facilidade. 
- Nunca se sabe - profetizou a senhora Tarleton, com ar doutoral. -A primeira vez que estive 
grvida, sobreveio-me um desmancho ao ver um toiro arremeter contra um dos nossw escravos. 
Lembra-se da nossa gua baia? No havia animal mais saudvel, mas era excessivamente nervosa e 
se eu no tomasse cuidado ela.... 
- C@le@se, Beatrice - ordenou a s@nhora Fontaine. - 
Searlett no vai ter nenhum mau sucesso, nem que seja para lhe fazer a vontade. Sentemo-nos aqui, 
no vestbulo. Est mais fresco, com esta corrente de ar, nada desagrar dvel. Se fosse  cozinha, 
Beatrice buscar-me um copo de leite... No' veja antes se h vin@o na copa.'No desgostava, duma 
gota dele. Ficaremos aqui at que os outros venham despedir-se. 
- Seria melhor a Scarlett deitar-se - insistiu a senhora Tarleton, depois de a ter observado como 
pessoa entendida em partos. 
-V, v -tornou a Fontaine, tocando na outra com a bengala. A senhora Tarleton dirigiu-se  
cozinha, atirando ao acaso o chapu para uma mesa e passando a mo no cabelo ruivo, molhado de 
suor. 
Scarlett reclinou-se na cadeira e desabotoou os dois primeiros botes do corpete. Estava agradvel 
ali no vestibulo, naquela meia luz 'e a corrente de ar que o atravessava trazia urna frescura 
repousante depois dos ardores do sol. De sbito lanou uma olhadela  sala onde tivera o cadver do 
pai, mas resolveu logo no pensar nele e contemplou o 
251 
retrato da av Robillard que as baionetas yankees no haviam respeitado, apesar de o terem 
pendurado muito alto, sobre o fogo. A imagem da suaantepassada, com o seu carrapito, pescoo 
decotado e arzinho insolente, produzia sempre em Scarlett o efeito dum tnico. 
- No sei o que afectou mais Beatrice Tarleton - disse a velha Fontaine. - Se foi a perda dos filhos, 
se a dos cava, los. Nunca foi grande amiga nem de Jim nem das raparigas. Perten@ce a essa. 
categoria de pessoas de que falou Will. A mola real rebentou-lhe. Quem sabe se ela seguir as 
pisadas do seu pai, Scarlett? 0 seu nico prazer era ver os cavalos e os rapazes crescerem e 
multiplicar-se  sua volta. Ora as filhas continuam solteiras, sem probabilidades de encontrar 
marido no pas. Com que h-de ento ocupar o esprito?  verdade o que declarou Will quanto ao 
seu casamento com Suellen? 
- P,, sim, senhora -respondeu Scarlett, olhando a outra cara a cara. E pensar que. noutro tempo 
aquela av Fontaine lhe metia tanto medo! Crescera muito depois disso@ sentia-se  -altura de pr 
a velha no seu lugar, caso viesse intrometer-se nos negcios de Tara. _ Podia ter arranjado melhor - 
observou pacIficamente, a Fontaine. 
-Acha que sim? -inquiriu Searlett elevando a voz. -No se amofine ' minha filha - ac@nselhou a 
outra, sem se ofender. -No vou atacar a sua preciosa mana, embora o tivesse feito de boa vontade 
se ficasse mais tempo no cemitrio. 0 que quero dizer  que, atendendo  falta de homens na regio, 
ele poderia ter casado com quem quisesse. H as quatro gatinhas bravas de Beatrice, h as pequenas 
Munroes, as MeRaes... 
- Pois vai casar com Suellen. 
- Suellen teve sorte. 
- Tara tambm. 
- Gosta muito da sua propriedade, pois no? 
- Gosto, 
- Tanto que no se importa ver a sua irm casar abaixo da sua condio, uma vez que tenha um 
homem para tomar conta de Tara... 
- Abaixo da nossa condio? - repetiu Scarlett, espantada com aquela ideia. -Que importncia tem a 
condio, se  um marido que pode ocupar-se da mulher? 
#
-So opinies. H quem concorde, h quem discorde. 
252 
No faltar quem diga que desceram a um ponto que nunca antes fora atingido. Will no  de boas 
famlias, e na ascendncia das meninas conta-se gente da melhor. 
Assim falando, relanceou o retrato da Robillard. Scarlett evocou WilI, magro compassivo um tanto 
gri> tesco, sempre a mastigar bocainhos de palha, com o seu Ar aparentemente -falho de energia, 
como todos os georgianos. Decerto que no tinha ascendncia, brilhante, quanto a sangue ou a 
riqueza. 0 primeiro dos seus que viera para aquele Estado pertencia  colnia de indigentes do 
general Oglethorpe, se no era antes, um "resgatado". Will no frequentara nenhum coigio, 
limitando-se -a seguir durante quatro anos as lies do niestre-escola rural. Nisso consistia toda a 
sua instruo. Era honesto e leal, paciente e duro no trabalho mas no tinha pergaminhos, e os 
Robillards bem podan@ acusar Searlett de ter casado numa classe inferior  sua. 
- Vejo, portanto, que se alegra com a ideia de Will entrar na famlia! 
- Com certeza - respondeu orgulhosamente Scarlett, pronta a atacar a velha Fontaine s primeirais 
palavras de condenao. 
-D-me um beijo-disse esta de forma inesperada, e sorrindo. -At hoje, Scarlett, eu no a tinha em 
grande ,conta. Foi sempre uma rapariga rspida, coisa que eu no @i-precio. Mas admiro a coragem 
com que enfrenta os acontecimentos. 0 que no tem remdio, remediado est. 
Scarlett sorriu indecisa, mas sempre beijou a face encarquilhada que a outra lhe oferecia. Era 
agradvel ouvir frases de aprovao, ainda que elas pouco significassem. 
- H muita gente que est disposta a censur-la por consentir que sua irm case com uni plebeu, por 
mais que gostem de WiII. Por um lado faro o elogio dele, por outro lamentaro que uma O'Hara se 
una a quem  de condio dnferior. Mas deix-los falar... 
- Nunca me importo com o que os outros dizem. 
- 2 o que me consta-volveu a Fontaine, no sem uma pontinha de veneno. -Faz bem em no, se 
importar. Os noivos h"e ser felizes. n claro que ele no deixar de parecer G que , o casamento 
no ensina gramtica a ningum. Ainda que ele ganhe muito dinheiro, no dar  sua quinta o brilho 
que ela teve no tempo do, senhor O'Hara. Os plebeus no conseguem coisas dessas. Todavia, Will 
tem 
253 
,""; 
um corao de fidalgo, os seus impulsos so, generosos. S um fidalgo seria capaz de apontar os 
nossos defeitos da maneira como ele fez depois do enterro. Ningum poder abater-nos, mas,  
fora de chorar e de evocar o passado, acabaremos por cavar a nossa prpria runa. Sim, senhora, 
Will foi uma boa aquisio para Suellen e para Tara. 
- Ento aprova-me por eu no me opor? 
- No aprovo nada! - exclamou a velha dama em voz @cansada mas ainda forte. - Posso l aprovar 
que um campons entre numa das mais antigas famlias! Julga que eu acharia bem o cruzamento 
dum puro sangue com um cavalo de tiro? Bem sei que os camponeses de Gergia so boas pessoas, 
slidas e honestas... 
-Mas ainda h instantes me disse que fo,1 uma boa aquisio! - replicou Scarlett, j desorientada. 
- Considero um bem para Suellen casar com Will... com ele ou com qualquer outro porque a 
rapariga precisa de marido. Onde  que ela o ria descobrir? E onde  que a menina ia encontrar 
pessoa mais competente para dirigir Tara? Mas no quero dizer com isto que semelhante 
casamento, me agrade mais do que a si. 
"Mas o casamento agrada-me", pensou Scarlett, esforando-se por compreender a que concluso 
queria a velha chegar. "Estou at satisfeitssima por Will casar com SuelJen. Por que  que ela 
supe que, eu no gost<>? Mete-se-lhe cada coisa na cabea!" 
Scarlett estava intrigada, e tambm um tanto envergonhada, como sempre -acontecia quando os 
outros imaginavam erradamente que ela partilhava das suas reaces e maneiras de ver. 
A av Fontaine abanou-se com o seu leque de palma e continuou com vivacidade: 
#
-No aprovo mais essa unio do que a menina, mas ambas ns temos senso prtico. Perante um 
acontecimento desagradvel que no se pode evitar, no sou mulher para desatar aos gritos e aos 
pontaps. No  assim que se aceitam os baixos e os altos da vida. Falo com conhecimento de causa 
porque a minha famlia e a do doutor os teve em grande escala. Se fssemos pessoas para divisas, 
devamos usar esta: "No se impressionar, sorrir e esperar a sua hora". Foi graas a isto que 
atravessmos uma srie de provaes com um sorriso nos lbios e nos tornmos peritos na arte de 
cair sempre de p. Tinha de ser, pois tive- 
254 
mos sempre pouca sorte. Expulsos de Frana com os Huguenotes, de Inglaterra com os partidrios 
do Rei, da Esccia com o Prncipe Carlos, do Haiti pelos negros; e agora os yankees venceram-nos! 
Mas sempre, ao fim duns anos, erguemos a cabea. Sabe porqu? 
A av Fontaine empertigou-@se e Scarlett, mais do que nunca., achou-a parecida com um papagaio 
velho e sbio. 
-No, no sei-respondeu por delicadeza, embora altamente aborrecida com aquela conversa. @Ora 
aqui tem a raz<>. Curvamo,-nos ao inevitvel. No somos espigas de trigo mas sim de moirisco. 
Quando vem o temporal, derruba o trigo maduro que est seco e no pode curvar-se ao vento. Mas o 
moirisco, est cheio de seiva e inclina a cabea, Quando o vento abranda, as espigas, erguem-se 
mais direitas e fortes do que antes. Se o .inimigo se apresenta ' aceitamo-lo sem nos queixarmos, 
pomos mos ao trabalho, sorrimos e esperamos a nossa Ilora. Servimo-nos de pessoas de menos 
categoria do que ns e delas aproveitamos tudo que for possvel. Quando nossentimos mais fortes, 
mandamos embora aqueles que pos ajudaram a trepar. Eis o segredo da sobrevivncia, minha filha.- 
Fez uma pausa e acrescentou: -Comunico-lho, para seu proveito. 
A velha riu-se ' tal se as suas palavras a divertissem, apesar de todo o veneno que continham. E 
olhou para Searlett, como se esperasse resposta; mas a outra no se impressionara muito com o 
discurso e parecia no ter nada a dizer. 
- Repito, minha, filha - prosseguiu a senhora Fontaine 
- que nos vergamos sob a ventania e que em seguida erguem<>s a cabea. No direi o mesmo de 
certas pessoas que vivem no muito longe daqui. Veja Catleen Calvert. No  difcil adivinhar em 
que se tomou. Desceu ainda mais abaixo do nvel em que estava o marido. Veja as McRaes. 
Aniquilados, incapazes de se levantarem. No sabem fazer nada, nem sabem que ho-de fazer. Nem 
tentam um simples esforo. Passam o tempo a curtir saudades das pocas que no voltam. Veja... 
veja essa gente toda da comarca, excepto Alex, e a minha neta SaIly, e Jim Tarleton, e as filhas 
deste, e outros; e a menina tambm, Scarlett. Que faz essa gente? Foi-se abaixo, por falta de seiva, e 
no pde tornar a erguer-se. Tirando-lhes os negros e o 
255 
.@ 
dinheiro, ficam desmoralizados. Mais uma gerao, e tornam-se camponeses. 
-Esqueceu-se dos Wilkes. -No, no me esqueci. Se os no citei, foi por delicadeza, pois sei que 
Ashley  seu hspede. Mas, visto que os trouxe para a conversa... Repare bem neles! Segundo me 
consta, India faz de viva inconsolvel porque Stu Tarleton morreu e ela no, procura esquec-lo a 
fim de arranjar outro. P, claro que j no  nova mas se se esforasse, podia descobrir um vivo 
com filh@s... @ a Honey, coitada, sempre encontraria um homem, se quisesse, apesar daquela 
cabecinha de vento! Quanto a Asliley... 
- Asliley  pessoa digna, - acudiu Scarlett. -Nunca disse o contrrio, mas tem um ar to 
desamparado... Se os Wilkes conseguirem sair da penria, ser devido a Melly. No a, Asliley. 
- MeIly, meu Deus! Conheo-a muito bem para saber que ela no se aguenta, de p e que tem medo 
de tudo. 
-Pode ser tudo isso, masse algum perigo ameaasse o marido ou o filho, ningum, nem os yankees, 
a faria recuar. Ela  diferente de si, Scarlett, e de mim quanto  maneira de agir. Lembra-me -a, 
Ellen quando era nova. H-de fazer sair os Wilkes da m situa@o em que se encontram. 
- Oh, Melly... Tem boas intenes ' sem dvida, mas no passa duma gatinha.. Agora, quanto a 
#
Ashley, foi injusta para com ele. J@... 
- P um-a, pessoa que nasceu para ler livros e nada mais. Isso no ajuda ningum a sair do lameiro 
em que nos atolmos todos. Segundo oio dizer, no tem jeito nenhum para a lavoura. Compare-o 
agora com o meu Alex. Este, antes da guerra, era um intil. S percebia de janotice, de lcool de 
mulheres. E vejao ao presente! Aprendeu a -cultivar, porque achou necessrio. Doutra@ maneira, 
morreria de fome, e ns tambm. Actualmente  ele quem colhe o melhor algodo da comarca. Sim, 
senhora, muito melhor do que o de Tara. Aprendeu da mesma forma a tratar de porcos e galinhas. 
Um belo rapaz, apesar do seu carcter. Sabe que a hora dele h-de chegar e entretanto adapta-se s 
circunstncias. Quando acabar @sta maldita Reconstruo, ver que o meu Alex  to rico como o 
foram o pai e o av, Mas Asliley... 
Scarlett estava furiosa com aquela falta de considerao por Ashley. 
256 
- Nada disso me interessa - observou em tom glacial. -Lastimo -retorquiu a av Fontaine, lanandolhe 
um olhar perscrutante. -Lastimo e admiro muito, porque foi exactamente o que fez depois da sua 
ida para Atlanta. Sim, sim, constou-nos, aqui neste buraco onde estamos enterrados, que a menina, 
se axranjou de maneira a arrancar dinheiro aos yankees, aos Sacolas aos novos-ricos. Soube 
aproveitar~se da situao. Continu@, continue assim. Arranque-lhes tudo o que puder. Mas quando 
estiver cheia de dinheiro, mande-os passear. Rela@es, desse gnero so mais tarde prejudiciais. 
Scarlett olhava para a velha e diligenciava lobrigar a inteno daquelas palavras. No lhes percebia 
bem o sentido e continuava escandalizada com o que a outra dissera, 
* respeito de Ashley. 
-Creio que se engana quanto -a Ashley -insistiu da 
* pouco. -Est obtusa,, minha filha. 
- n uma opinio* -redarguiu Scarlett, desejosa de esbofetear a Fontaine. 
- Esperta, sim quando se trata de dlares e cntimos. Inteligncia semelante  dos homens mas no 
 das mulheres. Escapa-lhe o que se relacion 1a com o feitio das pessoas, 
Scarlett, remexia-se na cadeira, cada vez mais furiosa. -Est indignada, bem vejo- prosseguiu a 
Fontaine, esboando um sorriso.-Ora era isso mesmo que eu queria... 
-Queria? E porqu? -Por multas e boas razes. A velha reclinou-se e Scarlett notou que ela parecia 
fatigada. Nos dedos muito magros segurava o leque, e -aquela mo cerosa dir-se-ia a dum cadver. 
A clera de Scarlett di@sipou-se. 
- Sabe mentir to bem... -disse ela, inclinando-se para a av Fontaine e afagando-lhe uma das 
mos.-Nada do que me disse era a srio. 0 que quis foi que no pensasse mais na morte de meu pai. 
Por isso me contou essa-s, coisas todas... 
- No perca tem@o comigo - aconselhou a velha dama, retirando a mo. - im, em parte, foi por isso 
que eu lhe preguei este sermo; em parte, tambm, porque desejava dizer-lhe certas verdades... que 
a menina no compreende. 
Sorriu, entretanto, e pronunciou as ltimas palavraS 
17 - Verito Uvou - II 
257 
sem azedume. Scarlett perdoou-lhe a forma como lhe falara de Ashley, pois sabia que a outra fora 
sincera nas suas observaes. 
- Seja como for, muito obrigada. Foi amabilidade da sua parte... e sensibilizou-me saber que era da 
minha opinio quanto ao caso de Wille Suellen... ainda que as outras pessoas no pensem assim. 
A senhora Tarleton reapareceu nesse instante, com dois copos de leite. No tinha jeito nenhum para 
as pequeninas coisas caseiras: os dois copos vinham a transbordar. 
- Tive de ir busc-los  geleira. Bebam depressa. As 'pessoas no tardam do cemitrio. Scarlett, 
realment vai consentir que Suellen case com Will? No  que seja boa demais para ele, mas 
sempre se trata dum campons... 
0 olhar de Scarlett, encontrou-se com o da av Fontaine, Perpassou neles um claro malicioso, que 
serviu de resposta mtua. 
#
41 
Qummo o ltimo assistente ao funeral se despediu e esmoreceu o rudo da ltima carruagem, 
Searlett foi  saleta de Ellen e tirou do escaninho onde o metera um objecto brilhante, que estava 
escondido entre um mao de papis amarelados, na escrivaninha. Ouvindo fungar Pork na e-asa de 
jantar, onde ele andava a pr a mesa, chamou-o; e o preto veio logo, com o ar dum co que -se 
perdeu do dono. 
- Pork - disse ela, em tom severo - se continuas a chorar, acabo por chorar tambm. Acaba l com 
isso. 
- Bem quer, mas t sempre a lembr sinh, sempre a pens... . -Pois no penses mais. Suporto 
lgrimas em toda a gente menos em ti. E compreendes porqu? - acrescentou Searlett em voz suave. 
- Porque sei quanto o estimavas. Assoa esse nariz, Pork. Tenho uma coisa para te oferecer. 
- Oferec a mim? -murmurou Pork sem grande infi-resse, assoando-se ruidosamente. 
- Recordas-te daquela noite em que dispararam sobre ti quando roubavas criao dum galinheiro? 
-Credo, minina! Nunca... -No me venhas agora com mentiras, que eu bem sei que  verdade. 
Lembras-te do que te prometi nessa altura? Prometi-te um relgio como recompensa da tua 
fidelidade. 
258 
- Sim, sinhora, mas pensei que minina tinha esquecido. -No, no esqueci * Toma-o aqui o tens. E 
Searlett apresentou a Porl@ um relgio de oiro macio e a respectiva corrente com vrios 
berloques. 
- Jesus! - exclamou o preto. - Isso  de sinh Gerald! Vi sinh olh p'ra esse reloge mais de cem 
vez! 
Sim, era de meu pai, e eu dou-to, Pork. Toma l. Oh no sinhora! - protestou o criado, recusando 
assustad@. - doisa de branco no deve passa p'ra ngo; muito menos coisa de sinh Gerald. Como 
tem nimo de d isso a mim, minina Scarlett? Esse reloge deve pertenc a minino Wade. 
- Pertence a ti. Que fez o menino em favor do av? Foi ,ele que o tratou durante a doena? Que 
lhe deu banho, e o vestiu, e o barbeou? Que o acompanhou sempre, quando vieram os, yankees? Foi 
ele que o no deixou morrer de fome? No sejas tonto, Pork. Se algum merece um relgio, s tu. 
Tenho a certeza de que meu pai concordaria, se me ouvisse. 
Abriu a mo do criado e colocou-lhe o relgio. Pork olhou-o com respeito e no rosto estampou-selhe 
pouco a pouco uma expresso de alegria. 
Pa mim, verdade, minina Scarlett? Para ti. Muito obrigado. -Queres que o leve a Atlanta, para 
gravar qualquer coisa? 
Qu isso de grav? - perguntou ele, desconfiado. ]@ escrever na tampa umas palavras. Por 
exemplo: "Oferecido a Pork pela familia O'Hara, em sinal de gratido". 
- No, sinhora. No  preciso -- respondeu Pork, dando um passo atrs e apertando o relgio na 
mo. 
- 0 qu? Tens medo de que eu no to volte a dar? 
- Podia... mud de ideia. 
- Essa agora! -Podia quer vend. Deve val muito dinheiro. 
- Precisavas duns aoites, por dizeres isso. Apetecia-me tirar-te o relgio. 
-No, sinhora.-Pela primeira vez, apareceu um sorriso na cara do preto. - Conheo minina. 
-Palavra, Pork? 
259 
- Se minina fosse to amvel com branco como  com os ngo, todos gostavam de minina. 
-Gostam de mim, Pork. Agora vai procurar o senhor Ashley e dize-lhe que quero falar com ele sem 
demora. 
Asliley sentou-se na cadeira de Ellen e escutou a pro- ,posta de Scarlett. Esta oferecia-lhe cinquenta 
por cento nos lucros da serrao. Nunca a olhou cara a cara, nem a interrompeu uma s vez. De 
cabea curvada, observava as mos, que voltava lentamente, examinando primeiro a palma, depois 
as costas, como se nunca as tivesse visto antes. Apesar dos trabalhos rudes, elas eram ainda finas e 
#
pareciam cuidadas em excesso para serem dum fazendeiro. 
Aquela atitude, aquele silncio embaraavam Searlett, que redobrava de esforos para tornar a 
oferta mais tentadora. Debalde ela sorria, recorrendo aos seus encantos pessoais: Asliley no erguia 
o olhar. Sem aludir ao que Will lhe contara (o projecto de se estabelecer no Norte) Scarlett 
diligenciava falar com a segurana de quem no teme nenhum obstculo. Mas o mutismo de Ashley 
continuava e as palavras dela s encontravam silncio. No duvidava j da sua recusa definitiva. 
Mas que razes invocaria ele? 
- Astiley - recomeou Scarlett, para logo se deter. No tencionava socorrer-se do seu estado de 
futura me, mas, ao ver que os seus argumentos falhavam, decidiu servir-se disso como derradeira 
causa. - Ashley, devia vir para Atlanta. Preciso tanto de ajuda neste momento! No poderei ocuparme 
to cedo das fbricas. Tero de passar meses antes que... devido a... Compreende? 
-Por favor, Scarlett! -exclamou ele, sem contempla, o nenhuma. 
Levantou-se de sbito, aproximou-se da janela e ficou ali de costas para a sua interlocutora, a olhar 
fixamente para a fila de patos que atravessava o quintal. 
- @ por isso... que no quer olhar para mim? - perguntou ela, numa ltima tentativa. -Bem sei o que 
o meu aspecto... 
Asliley voltou-se repentinamente e os seus olhos cinzentos fitaram-na com tal intensidade que 
Scarlett levou as mos ao peitQ. 
-Que me importa o aspecto? -bradou, violento.-Bem sabe que para mim  sempre bela. 
260 
Inundou-a uma onda de felicidade. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas. 
- Gosto tanto de o ouvir falar assim! Realmente, tinha vergonha de me mostrar... 
- Vergonha? Porqu? Eu  que a devo ter, e tenho, na verdade, Sem a minha estupidez no teria 
casado com Frank. Nunca eu a devia deixar @air de Tara, o ano passado. Fui bastante imprudente! 
A minha obrigao era conhec-la melhor, era saber que estava disposta... a tudo. 
- Falando assim, mostrava uma expresso de angstia. 
0 corao de Scarlett batia com toda a, fora. AshIey arrependia-se de no ter fugido com ela! 
-Eu  que devia tentar arranjar o dinheiro para os impostos 'eu, a quem fez a esmola de recolher 
como um mendigo. Era a minha, obrigao tentar tudo, nem que tivesse de roubar ou matar algum! 
Estraguei tudo! 
No tinham sido estas as palavras que ela esperava ouvir; o corao apertou-se-lhe com a desiluso. 
- Partiria de qualquer maneira - retorquiu com ar de cansao. -Nunca consentiria que cometesse 
aces desse gnero. E para qu discutirmos agora o que j est feito? 
- Sim, o que est feito, est feito -concordou AshIey com amargura. - No consentiria que eu 
cometesse qualquer indignidade, mas vendeu-se a um homem a quem no amava... e deixou que ele 
lhe fizesse um filho... tudo para que a minha famlia e eu no morrssemos de fome. 
A sua voz era dura, dolorosa, manifestava bem que a ferida no se fechara no corao de AshIey. 
quelas palavras, perpassou uma expresso de vergonha na fisionomia de Scarlett, expresso que 
AshIey notou e lhe causou xemorsos. 
-Julga que eu a censuro? No, Scarlett! n a mulher mais corajosa que jamais conheci. Censuro-me a 
mim pr6- .prio. 
Rodou nos calcanhares, ficando de novo voltado para. a janela. Scarlett aguardou uns momentos, na 
esperana de que Ashley mudasse de proceder, tomasse a falar-lhe da sua beleza e lhe dissesse 
frases que ela guardaria como um tesouro nos arcanos da memria. Havia j tanto tempo que no 
via AshIey, tanto tempo que vivia de recordaes, e estas, a pouco e pouco, iam perdendo a 
intensidade. Sabia agora que ele a amava sempre, tudo nele o manifestava, a sua amargura, a forma 
como se condenara a si mesmo, a 
261 
,irritao que o tomara  ideia de que Scarlett teria um filho de Frank. Gostaria de v-lo continuar 
naquele teor, to @sequiosa estava de ternura, mas no se atrevia, a provocar 'uma confisso 
expressa. Lembrava@se do que lhe prometera ,o Inverno passado, no pomar: jurara nunca mais o 
#
provocar. E no ignorava que, paraconservar o amor de AshIey, foroso seria no faltar  promessa. 
 primeira palavra 'mais directa, ao primeiro olhar incisivo ' ele' debandaria para sempre. AshIey 
partiria. para Nova Iorque. 
- Oh, Ashley, no se rale! Como  que se sente culpado? Vai comigo para Atlanta, a fim de me 
ajudar, no  verdade? 
-No vou. -Mas eu contava consigo -prosseguiu ela numa voz alterada pela angstia. - Preciso tanto 
do seu a@oio! Frank no pode substituir-me, porque o armazm lhe toma o tempo todo. Se voc 
no vem, onde encontrarei outra pessoa? Todos os homens inteligentes de Atlanta j esto 
ocupados. Com certeza que no deixaro os seus lugares; quanto aos -restantes, so to incapazes 
que... ]@ intil insistir, Searlett. 
Prefere, ento, ir para, Nova Iorque, para o meio dos yankees? 
- Quem lhe disse semelhante coisa? -Foi Will. 
- Pois bem, saiba que resolvi estabelecer-me no Norte. Um amigo meu, com quem dei uma volta 
pela Europa antes da guerra, ofereceu-me um emprego no Banco do pai. : melhor assim, pois no 
lhe seria de nenhuma utilidade, Scarlett. Que percebo eu do negcio de madeiras? 
- Mas ainda percebe menos de assuntos bancrios, que so mais difceis. E, apesar da sua 
inexperincia, olhe que eu seria mais generosa do que os yankees. 
AshIey estremeceu e Searlett sentiu que proferira uma -frase infeliz. Voltou-se, e olhou outra vez 
pela janela. 
- No aceito mais a generosidade de ningum. Quero ser independente e dar a medida do meu valor. 
Que tenho feito da vida, at aqui? J  tempo de experimentar as foras, ou soobrar 
definitivamente. Vivo h muito sob a sua proteco, Scarlett. 
-Veja que estive a oferecer-lhe diviso de lucros na tserrao, Ashley! Seria independente  mesma. 
Trabalharia como em coisa sua. 
262 
- 0 caso no mudava de figura. Essa participao nos lucros constituiria um favor. Ora eu j aceitei 
muitos favores da sua parte: albergou~nos, deu-nos de comer at nos vestiu,  Melanie, a mim, ao 
pequeno, E nada lhe dei em troca! 
- Deu 'sim, Will no poderia s... -Ah, esquecia-me! Parti lenha... 
- Oli, Ashley! - gritou Scarlett, desesperada, com lgrimas nos olhos por causa do tom de zombaria. 
que ele empregava. - Que lhe aconteceu depois da minha partida? Acho~o to seco, to rgido. No 
costumava ser assim. 
- Que me aconteceu? Uma coisa extraordinria Searlett. Reflecti. Entre o meu regresso e a, sua ida 
para A:tlanta, eu nunca pensei a srio. Tinha o esprito vazio. Vivia numa espcie de prostrao: 
bastava-me comer, ter uma cama... Mas, logo que voc se foi e comeou a trabalhar como um 
homem, eu compreendi a minha ociosidade. Estes pensa- _rmentos no so agradveis e eu 
pretendo ac-abar com eles. ,Outros homens h que voltaram da guerra com menos qualidades do 
que eu, e, no entanto, ganham a sua vida. De forma que vou para Nova Iorque. 
-Desculpe mas no compreendo. Se quer trabalhar, Atlanta  to @oa para isso -como Nova lorque. 
E a minha fbrica... 
- No Scarlett. n a minha ltima oportunidade, Irei para o N@rte. Se fosse para Atlanta e 
trabalhasse para si, ticaria irremediavelmente perdido. 
"Perdido, perdido ... " A palavra soava aos ouvidos de 
8carlett como uma badalada fnebre, Ela quis ler-lhe mais qualquer coisa nos olhos, mas estes 
estavam a divagar numa regio inatingvel para os outros. - Perdido? - repetiu Searlett. - Quer 
dizer... que fez qualquer coisa que o ps de mal com os yankees de Atlanta? No foi por ter 
auxiliado a fuga de Tony? Oli, Ashley, voc no faz parte da Ku Klux Klan?! 
Asliley fitou-a, com um sorriso que no lhe passou dos lbios, 
-J me tinha esquecido de quanto  positivista. No, no so os yankees que me inspiram receio. 0 
que eu pre- .tendo dizer  que, indo para Atlanta e aceitando outra vez o seu auxlio, renuncio para 
sempre@  esperana de poder um dia manter-me sozinho. 
#
- Ah,  s, isso! - murmurou Scarlett, aliviada. 
263 
- S isto - repetiu Asliley, com um sorriso ainda mais apagado que o anterior. - Trata-se apenas do 
meu orgulho masculino, da minha dignidade- e, assim posso dizer, da minha alma imortal. 
- Mas oia - insistiu Scarlett. - A pouco e pouco pode- ,ria comprar-me a serrao, acabaria por er 
o nico dono, e depois... 
- Scarlett! - interrompeu Ashley. - Repito que no quero. H outras razes, 
- Que razes? -Conhece-as melhor do que ningum. 
- Ah... sim... compreendo! Quanto a isso, esteja descansado - apressou~se ela a afirmar. - Cumprirei 
a promessa que lhe fiz no pomar, aqui h meses. 
- Gostaria de ter essa confiana em mim prprio. Eu i@ que no sinto coragem decumprir tal 
promessa. No lhe devia 'dizer isto, mas foi preciso dar-lhe a conhecer as minhas razes. E 
ponhamos ponto final no assunto. Quando Wlill e Suellen casarem partirei para Nova lorque, 
Depois de pousar nela um instante o olhar desvairado, Ashley atravessou a sala em largas passadas. 
Tinha j a mo no puxador da porta. Scarlett no o perdia de vista, sucumbida, sem nimo para 
falar. Terminara a entrevista ,e ela nada conseguira. Esgotada, pelas comoes do dia anterior e por 
mais este desgosto ' no teve foras para dominar os nervos e, com um grito repentino, atirou-se 
para cima do sof e desatou a soluar. 
Ouviu Asliley aproximar-se e murmurar o seu nome por vrias vezes. Algum atravessou o 
vestbulo a correr, e Melanie irrompeu na sala 'com os olhos dilatados de medo. 
- Scarlett! A criana ... ? Scarlett, de cabea encafuada nas almofadas, poeirentas, isoluou ainda 
mais. 
-0 Ashley...  to mau... to teimoso! 
- Que lhe fizeste, Ashley? - Melanie ajoelhou-se diante do sof e abraou Scarlett. -Que lhe disseste 
para a transtornar assim? Parece impossvel! No -seu estado podias provocar um acidente. Descansa 
a tua cabea no ombro da Melanie, minha querida. Que foi que aconteceu? 
-Ashley  to obstinado... to antiptico! - Asliley, parece incrvel! Pr Scarlett to nervosa, no 
estado em que ela se encontra e quando o senhor O'Hara acabou de ser enterrado! 
264 
-No te metas com ele!-exclamou Scarlett, sem lgica nenhuma ' erguendo de repente a cabea e' 
mostrando a cara sulcada de lgrimas.-Ele est no direita de fazer o que lhe apetece. 
- Melanie ' deixa-me explicar - disse AshIey, muito plido. - Scarlett teve a bondade de me oferecer 
um lugar em Atlanta, como gerente da sua fbrica... 
- Sim, sim! - bradou Scarlett, indignada. - Ofereci-lhe cinquenta por cento dos lucros e ele... 
- E eu respondilhe que j @iaviamos tratado da nossa ida para Nova lorque. Ela ento... 
- Oh! - gritou Scarlett, recomeando a soluar. - Disse-lhe... disse-lhe quanto precisava dos seus 
servios... como era, difcil arranjar outra pessoa que tomasse conta da serrao... e que eu ia ter 
uma criana... E ele recusou! Agora... agora tenho de vender a fbrica, sem dvida com prejuzo... 
Vamos perder dinheiro, quem sabe se passar ame? Mas ele no se importa,  um egosta! 
Procurou o ombro frgil de Melanie a fim de apoiar a cabea, e sentiu que a angstia lhe passava e 
que nova esperana acudia. Percebia que tinha um aliado nocorao sensvel da cunhada, sabia que 
Melanie no deixaria que ningum a contrariasse, nem sequer o marido que ela adoxava. Melanie 
voltou-se ento para Ashley e, pela primeira vez, insurgiu-se contra ele. 
-Ashley, como te foi possvel recusar uma coisa dessas? Depois disto, ela vai julgar que somas 
pessoas muito ingratas. No vs como o seu estado a torna infeliz? Precisa da nossa, ajuda, e  
precisamente nesta ocaisio que tu te esquivas! 
Scarlett observava, AshIey de travs, e notou-lhe surpresa eIndignao nos olhos. A prpria 
Scarlett, no estava menos admirada com o vigor do ataque de Melanie, pois esta considerava o 
marido, como um deus e sempre se submetia s suas decises. 
- Melanie -principiou ele. Depois deteve@se, esboando com as mos um gesto de impacincia. 
-Hes'itas ainda, AshIey? -continuou a mulher.-Lembra-te do que ela tem feito por ns! Por mim em 
#
especial. Eu teria morrido do parto, de Beau, se no fosse Searlett. E cl... ela, matou um yankee, 
defendendo-nos. Antes do teu regresso e da chegada de WilI, trabalhou e sofreu como uma 
escravas para que no morrssemos de fome. Quando 
265 
a revejo a empunhar o arado e a colher o algodo eu... oh, minha querida! - Baixou a cabea e 
beijou os c@belos de Scarlett, em sinal de reconhecimento. -E agora, quando pela primeira vez nos 
pede alguma coisa para si... 
-No precisas dizer-me o que Searlett fez por nos. -Ento, reflecte bem. No  s a ajuda que lhe 
darias,  tambm o prazer que teramos em viver no meio de gente conhecida, em lugar de ir - 
conviver com yankees.  a tia Pitty,  o tio Hen,ry, so todos os nossos amigos. Beau. poder ter 
companheiros com quem brincar, pode frequentar a escola, ligar-se aos pequenos dos nortistas... Em 
Nova Iorque necessitaramos duma aia, e eu no se 
se os nossos recursos... 
- Melanie-atalhou Ashley numa voz inquietantemente calma.-Fazes assim tanto empenho em partir 
para Atlanta? Nunca mo havias declarado quando combinvamos a nossa ida para Nova Iorque. 
Nunca me deste sequer a entender... 
-Sim, mas quando se falava de Nova lorque eu no sabia da. possibilidade dum lugar em Atlanta; 
alm disso, no costumo opor dificuldade. A mulher tem obrigao de acompanhar o marido. Agora 
o caso  diferente. Searlett precisa de ns e oferece-te um emprego. Podemos regressa,r  terra.  
terra! - A comoo sufocava-a. Apertou Scarlett nos braos e continuou:-Vou tornar a ver a 
estao, e a. Peachtree Road; matar as saudades! Talvez possamos ter um lar, s para ns. No 
importa que seja pequenino... mas um lar apenas nosso! 
Os olhos brilhavam-lhe de entusiasmo e alegria. Os outros dois fitaram-na, perplexos, AshIey com 
ar espan@ tado Scarlett com uma surpresa misturada de vergonha. Jam@is lhe passara pela cabea, 
a,, esta ltima, que Melanie tivesse saudades de Atlanta ao ponto de querer Ir para l e viver numa 
casa sua. Julgava-a to contente por viver em Tara! 
-Oh, Scarlett, s to boa! Pensaste em tudo isso para nos seres agradvel. Sabias como eu gostava 
tanto...Scarlett estava um pouco irritada pelo entusiasmo da outra e desviou a vista tanto de Melanie 
como de AshIey. Mas a cunhada prosseguiu: - Poderemos ter uma casinha nossa. Somos casados h 
cinco anos e ainda no sabemos o que - o prazer de habitar uma casa s para ns... 
- Podem ficar connosco, em e-asa da tia Pitty. Tu, Melanie, tens parte no prdio - murmurou 
Scarlett, brincando 
266 
com a almofada. Continuava embaraada com o inesperado da situao, e. tinha medo de no saber 
ocultar o seu triunfo. 
- No, minha querida, seria gente a mais. Arranjaremos outra casa. Ashley, diz que sim! 
- Scarlett, olhe para mim - pediu Asliley. Sobressaltada, ela ergueu logo a cabea e vi-lhe o olhar 
triste e fatigado. - Searlett, no posso lutar contra as duas. Iremos para Atlanta. 
Deu meia volta e saiu do quarto. Apesar de triunfante, Scarlett sentia certo receio. 0 olhar dele, ao 
dar-se por vencido era c> mesmo que lhe vira no momento em que tinha decl@rado que ir para 
Atlanta significava ficar irremediavelmente perdido. 
Depois do casamento de Suellen e da ida de Carreen para um convento de Charleston, Asliley, 
Melanie e Beau vieram instalar-se em Atlanta, trazendo consigo, Dilcey para cozinhar e cuidar do 
pequeno. Prissy e Pork ficariam em Tara at Will contratar outros negros para o ajudarem nos 
campos, depois do que partiriam tambm para a cidade. 
A casita de tijolos, que Ashley alugou, era situada na Ivy Street, justamente atrs da residncia da 
tia, Pitty. Os jardins tocavam-se e estavam apenas divididos por uma sebe de ligustros mal 
tosqueados. Melanie escolhera-a especialmente por aquela razo. No dia da sua chegada a Atlanta, 
enquanto ria e chorava e cobria de beijos Scarlett, e a tia Pitty, declarara que estivera tanto tempo 
longe das suas queridas que jamais se sentiria bastante perto delas. 
Antes da guerra, a casa era de dois andares, mas o segundo fora destrudo, por um obus durante o 
#
cerco, e~o proprietrio, que regressou ali depois da rendio, no tivera dinheiro para o mandar 
reconstruir. Limitou-se a cobrir o primeiro piso com um telhado chato ' o que fez com que o 
edifcio apresentasse o aspecto atarracado duma casa de bonecas fabricada com caixas de sapatos. 
Construda por cima dum espaoso subterrneo, estava muito acima do nvel da rua, e a comprida 
escada de acesso dava-lhe uma aparncia um tanto ridcula. No entanto todos estes defeitos eram de 
certa maneira conipensado@ pelos dois belssimos carvalhos que a sombreavam e pela magnolia 
coberta de flor que se elevava junto da escada. No quintal, de tamanho razovel ' havia 
madressilvas de perfume enebriante. Aqui e ali, floria uma roseira mutilada e cres- 
267 
ciam mirtos brancos e cor-de-rosa como se os cavalos yankees no lhes tivessem rodo todos os 
ramos. 
Searlett achava horrenda aquela casa, mas para Melanie, era mais bela do que a quinta dos Doze 
darvalhos no auge do seu esplendor. Era a sua casa, e nem ela, nem Asliley Beau haviam tido 
jamais um lar verdadeiramente deles. 
India Wilkes regressou de Macon onde vivia desde 1864 com a irm Honey e foi morar com o 
irmo, apesar da falta de espao. Contudo, Astiley e Melanie receberam-na de braos abertos. Os 
tempos eram outros,, escasseava, o dinheiro, mas nada modificara a vida familiar do Sul: acolhiamse 
sempre de boa vontade as parentas pobres ou solteiras. 
Honey casara-se e, na opinio de India, rebaixara-se des@ posando um rstico de Mississipi 
estabelecido em Macon depois da rendio. Era um hom@m de cara vermelhusca, de modos joviais 
e que falava em voz muito alta. India no concordava com aquele casamento e 'como 
noconcordava, no se sentia bem na residncia do cunhado. Ficara pois, radiante ao saber que 
Ashley arranjara casa final;nente e que ela podia assim subtrair-se no s a uma convivncia 
desagradvel como tambm ao espectculo deprimente da irm tolamente feliz com um homem de 
baixa condio. 
0 resto da famlia achava no ntimo que a tonta da Honey obtivera mais do que seria de esperar e 
admirava-se de que ela tivesse conseguido arranjar marido. Este, afinal, era pessoa bem educada e 
com alguns meios; mas para India, nascida em Gergia e criada segundo as tradies de Virgnia, 
quem no fosse do litoral era um rstico, um brbaro. 0 marido de Honey devia ter ficado encantado 
com a partida da cunhada, pois no era nada fcil viver com India. 
0 vu do celibato envolvera-a definitivamente. India tinha vinte e cinco anos e mostrava to bem a 
sua idade que nem lhe valia a pena preocupar-se com questes de beleza e de elegncia. Os seus 
olhos plidos observavam o mundo inflexivelmente e os seus lbios finos apertavam-se numa linha 
dura. Tinha agora uma expresso de orgulho e dignidade que, coisa curiosa, lhe ia melhor do que 
aquele seu arzinho adocicado do tempo em que ela vivia nos Doze Carvalhos. Toda a gente a 
considerava mais ou menos como uma viva, pois sabia-se que Stuart Tarleton teria casado 
268 
com ela se no o matassem em Gettysburgo, e respeitavam-na como noiva que fora desse homem. 
Os seis quartos da casa da Ivy Street depressa ficaram sumariamente mobilados, devido ao 
fornecimento feito pelo armazm de Frank. Como AshIey estava sem dinheiro e era obrigado a 
comprar a crdito, os mveis escolhidos foram os mais baratos e os estritamente necessrios. Isto 
aborreceu Frank, que era muito amigo de AshIey e entristeceu Scarlett. Ambos teriam de boa 
vontade, keito presente da moblia, e da melho@ que houvesse no armazm, mas os Wilkes 
recusaram-se obstinadamente a aceitar. A casa apresentava-se feia e vazia, o que afligia Searlett, 
desolada por ver AshIey num interior em que no havia tapetes nem cortinas Ele todavia, era como 
se no reparasse nesses pormen@res ''e Melanie mostrava-se feliz por ter pela primeira vez depois 
de casada um lar que lhe pertencia. Scarlett morreria de vergonha se recebesse visitas numa casa 
sem objectos de luxo, mas a cunhada fazia as, honras da sua como se possusse as melhores coisas 
do mundo. 
Apesar da sua felicidade aparente, Melanie no passava bem. 0 nascimento de Beau arruinara-lhe a 
sade, e os trabalhos penosos a que se haviam sujeitado em Tara ainda a enfraqueceram muito mais. 
#
Estava to magra que os ossos pareciam quererem sair-lhe da pele muito branca. Ao v-Ia a 
distncia, entretida no jardim com o filho, facilmente qualquer pessoa a tomava por uma pequena 
' to chato estava o peito e to pouco acusadas as formas. Tal como o corpo a cara plida era muito 
seca, e as sobrancelhas finas @ delicadas como antenas de borboletas dese~ nhavam-lhe uma linha 
bem vincada naquela pele to sem @or. Os olhos, grandes de mais para serem belos, tinham 
crculos sombrios que os tornavam ainda maiores; a expresso 'contudo, no mudara desde a poca 
da sua mocidade descuidosa. A guerra, os sofrimentos repetidos, as privaes no haviam alterado a 
sua meiga serenidade. 
Scarlett, vendo-a assim, pensava com inveja: "Como se arranja ela para conservar aquele aspecto?" 
Sabia que os seus olhos se assemelhavam s vezes aos duma gata esfomeada. Que  que Rhett 
dissera um dia acerca dos olhos de Melanie? Qualquer comparao tola como duas velas, cuja 
chama brilhante e suave tudo alumiasse, protegida do vento pela felicidade domstica. 
269 
Aquela casita estava sempre cheia de gente. Todos gostavam de Melanie, muitos desde a meninice 
dela, e acorriam aos magotes para lhe dar as boas-vindas. Cada qual trazia a sua oferta: objectos 
escapados ao, saque dos homens de Sherman. 
Velhos cavalheiros que tinham estado na campanha do Mxico com o pai  Melanie, vinham 
cumpriment-la e traziam consigo um ou outro amigo--- que apresentavam  "simptica filha do 
coronel Hamilton". Velhas amigas da me passavam grande parte do tempo junto dela, pois 
Melanie sempre se mostrara respeitadora das senhoras de idade; e estas sentiam-se lisonjeadas, 
porque j eram raros os exemplos desses na juventude. Quanto s mulheres da idade dela, essas 
estimavam-na tambm, pois Melanie compartilhava dos seus sofrimentos sem mostrar enfado, 
sempre pronta a ouvi-Ias e compreend-las. Os mais novos igualmente a procuravam, sabendo que 
naquela casa ningum se aborrecia e que l encontravam amigos e conhecidos. 
Em volta de Melanie no tardou a formar-se um crculo, de pessoas velhas e novas que 
representavam a melhor sociedade de Atlanta de antes da guerra. Dir-se-ia, por outro lado, que essa 
mesma sociedade, deslocada e arruinada pela guerra, desamparada pelas revolues sociais, 
descobrira em Melanie um ponto slido de comunicao. 
Melanie era nova, mas possua todas as qualidades que esses evadidos da tormenta apreciavam. Era 
pobre, e, no entanto, conservava a sua dignidade. Corajosa, jamais se queixava. Alegre, acolhia 
todos com afabilidade, recusando-se a admitir que fosse necessrio mudar num mundo em plena 
transformao. Debaixo do seu tecto, o passado parecia renascer, eJunto dela os amigos retomavam 
a confiana e achavam meio de desprezar ainda mais o modo frentico como viviam os Sacolas e os 
republicanos novos-ricos. 
Quando lhe viam o rosto juvenil e nele descobriam um apego firme ao passado, conseguiam 
esquecer por momentos os que tinham trado a prpria classe e lhe causavam ao mesmo tempo tanto 
furor, inquietao e desgosto. Havia grande nmero de traidores. Certos homens de boa famlia, 
aulados pela misria, tinham passado para o inimigo, fazendo-se republicanos e aceitando lugares 
de vencedores, a fim de que os filhos no ficassem reduzidos  mendicidade. Antigos soldados, 
ainda novos, no tinham coragem 
270 
de esperar a sua hora de enriquecer: estes seguiam o exemplo de Rhett Butler e passeavam de mo 
dada com os Sacolas. 
As traies mais dolorosas provinham de muitas raparigas pertencentes s melhores famlias de 
Atlanta. Essas, ainda crianas no tempo da guerra, s guardavam vagas -recordaes dos anos de 
provao e no estavam animadas do mesmo dio que existia nos seus maiores. No tinham perdido 
nem marido nem noivo, mal se lembravam dos esplendores do pretrito... e os oficiais yankees eram 
to bonitos rapazes dentro dos seus uniformes! Davam lindos bailes, possuam ptimos cavalos e 
dir-se-ia adorarem as mulheres do Sul. Tratavam-nas como rainhas e procuravam no atingi-las no 
seu orgulho. Depois disto, por que no haviam de se relacionar com eles? 
Eram muito mais sedutores do q ue os rapazes da cidade, que em geral vestiam mal, mostravam ar 
#
demasiadamente srio e trabalhavam tanto que no tinham tempo para diverses. Todos estes 
raciocnios resultaram em certo nmero de raptos, que fizeram mergulhar na maior aflio as 
famlias de Atlanta. Viam-se irmos cruzarem~se na rua com as irms, sem lhes dirigir a palavra, 
mes e pais que j no pronunciavam o nome das filhas. A lembrana destes dramas gelava G 
sangue dos que tinham por divisa "No nos renderemos"; mas, diante de Melanie, to suave e to 
calma, esqueciam a sua inquietao. No parecer das prprias mes 'Melanie era o melhor exemplo 
que se podia apresentar s raparigas da cidade. E, como ela no fazia exibio das s@uas virtudes, 
aquelas no lhe queriam mal. 
Nunca Melanie imaginou que estava em vias de chefiar uma nova sociedade. Achava simplesmente 
que eram todos muito gentis em vir v-Ia e convid-la a ingressar nas suas reunies de costura e a 
prestar o seu concurso aos seres recreativos e musicais. Apesar do desdm das outras cidades do 
Sul pela falta de cultura em Atlanta 'sempre ali houvera apreciadores de boa msica, e  medida 
que a existncia ia sendo mais difcil e mais inquietante, aumentava o entusiasmo por essa forma de 
arte. Enquanto ouviam msica, esqueciam os pretos insolentes e os uniformes azuis que enchiam as 
ruas. 
Melanie sentiu-se um tanto embaraada ao ver-se feita presidente da direco do novo crculo 
musical "Concertos do Sbado". Atribuiu a sua elevao a essa presidncia 
271 
apenas ao facto de ser ela a nica pessoa capaz de acompanhar ao piano fosse quem fosse, incluindo 
as meninas McLures, que cantavam sempre desafinadas, mas se obstinavam a interpretar duetos. 
A verdade  que s Melanie conseguira, com muita diplomacia, reunir numa nica assembleia a 
"Socedade das Harpistas", o "Conjunto Vocal Masculino", as "Amadoras de Bandolim" e o "Grupo 
de Volas", de modo que da em diante houve concertos dignos deste nome. A maneira como os 
artistas do crculo executaram a Bomia foi considerada por alguns entendidos como superior a tudo 
o que se podia ouvir em Nova Iorque ou Nova Orlees. Depois de Melanie ter conseguido a adeso 
da "Sociedade das Harpistas"  que a senhora Merriwether sugeriu  senhora Meade e  senhora 
Whiting conceder a Melane a presidncia do crculo. Se ela fora capaz de se entender com aquela 
Sociedade, p(>dia muito bem entender-se com todas as outras. Essa excelente dama tocava rgo na 
igreja metodista e, porque tocava rgo, tinha pouca considerao por harpas e flarpistas. 
Tambm nomearam Melanie secretria de duas associaes: a do "Embelezamento das Campas dos 
Nossos Gloriosos Mortos" e a da "Costura para as Vivas e rfos da Confederao". Coube-lhe 
esta honra depois de movimentada reunio dessas duas associaes, a qual por um triz acabava em 
cenas de pugilato. Tratava-se de saber se deviam ou no arrancar as ervas das sepulturas dos sol-4 
dados da Unio contguas s dos confederados. 0 aspecto de abandono das campas yankees 
prejudicava os esforos das senhoras empenhadas em embelezar as dos seus defuntos. Este 
problema fez desencadear paixes que jaziam latentes e no tardou que as duas organizaes 
entrassem em conflito e lanassem uma  outra olhares fulminantes. A segunda opinava que se 
devia arrancar as ervas, as senhoras do Embelezamento eram contra isso. 
Foi a senhora Meade que exprimiu o parecer deste ltimo agrupamento, falando nestes termos: 
-Arrancar ervas das tumbas dos yankees? Antes desenterr-los e atir-los todos para o Depsito 
Municipal do Lixo. 
A estas palavras revolucionrias, levantaram-se os membros das duas associaes e cada qual se 
ps a dizer o que pensava sobre o assunto sem dar ouvidos a ningum. Fizera-se a reunio na sal@ 
da senhora Merriwether; o av 
272 
.N.--- I., 
Merriwether que fora relegado para a cozinha, contou depois que @ barulho era tanto que parecia o 
incio da batalha de Frank1in. A nica diferena, acrescentara o velho,  que ele decerto correra 
menos perigo nessa batalha do que se tivesse assistido  reunio daquelas senhoras. 
Por milagre, Melanie -conseguiu meter-se de permeio fazer-se ouvir. Assustada pela sua audcia, 
com a voz trmula de comoo, gritou vrias vezes "Por favor, minhas senhoras!" at que diminuiu 
#
a efervescncia e ela pde falar. 
- Quero dizer... que j h bastante tempo eu penso ser nossa obrigao no s arrancar as ervas das 
sepulturas yankees, como tambm plantar flores nas... Faam o conceito que quiserem de mim, mas, 
de cada vez que levo flores  campa do meu querido Charles, ponho sempre algumas na dum 
yankee desconhecido que est ao lado da de meu irmo. Tem um aspecto to desprezado! 
Voltou o tumulto, mas, desta vez, as duas organizaes estavam de acordo para protestar. 
-Flores nas sepulturas yankees! Oli, Melanie, parece impossvel! Mataram o Charles!... Quase a 
matavam tambm! E ao, seu filhinho!... Quiseram incendiar Tara! 
Agarrada s costas duma cadeira, Melanie sentia-se afundar sob o peso da hostilidade geral. 
- Minhas senhoras! - exclamou em tom suplicante. - 
Por favor, deixem-me acabar. Bem sei que no tenho voto na matria porque, alm de Charles, no 
perdi nenhum dos parentes mais prximos, e@ porque, graas a Deus, sei onde jaz meu irmo. Mas 
h tantas, entre ns, que ignoram onde esto enterrados os maridos, os filhos os irmos... 
Sufocava, e teve de se interromper.'Na sala reinava um silncio mortal. Sombreou-se o olhar 
cintilante da senhora Meade. A senhora Meade fizera o longo percurso de Gettysburgo, depois da 
batalha para trazer o cadver de Darcy, mas ningum soubera e@plicar-lhe onde ele se encontrava 
sepultado. Devia estar, s-ugerira@n,,. nalguma cova feita  pressa, algures no territrio inimigo. 
Quanto  senhora Alan, essa comeou a tremer. 0 marido e o irmo tinham acompanhado Morgan 
na sua marcha infeliz sobre Ohio, e tudo o que ela sabia a respeito deles era que haviam cado junto 
do rio no momento em que a cavalaria yankee avanara sobre os confederados. Ignorava assim, do 
mesmo modo onde jaziam os seus mortos. E o filho da senhora Aliso@? Esse morrera num campo 
de prisioneiros do Norte 
18 - Vento Levou - 11 273 
ffi,di? 
e, como ela era muito pobre, no podia mandar buscar o cadver. Havia ainda outras damas que 
tinham lido nas listas fornecidas pelo Estado-Maior: "Desaparecido... Provavelmente morto ... " e 
estas palavras constituam tudo o que sabiam acerca dos homens que tinham visto partir para a 
guerra. 
Voltaram-se todas para Melanie, e esta pde ler-lhes nos olhos. "Por que reabriu estas feridas? So 
feridas que nunca cicatrizaro ... " 
0 silncio deu novas foras a Melanie. 
- Eles encontram-se algures em pas yankee, da mesma forma que se encontram aqui 'soldados 
mortos da Unio. Como seria terrvel para ns saber que as senhoras nortistas se dispunham a 
desenterr-los! 
A senhora Meade emitiu um soluo impressionante. 
- Mas tambm seria agradvel saber que alguma senhora yankee (e deve hav-las dignas entre os 
yankees) se resolvera a arrancar as ervas das covas desses que ns ammos, saber que as cobriam de 
flores! Se Charles estivesse no Norte, seria para mim um consolo imaginar que algum... E, no 
fundo, no me importo minhas senhoras, o que possam pensar de mim - continuou Melanie, com a 
voz alterada. - Peo a minha demisso das duas associaes... e irei arrancar todas as ervas ruins das 
sepulturas yankees, e l plantarei flores... e que ningum se atreva a impedir-mo! 
Depois de ter lanado este desafia, Melanie desatou a chorar, e, com passo cambaleante dirigiu-se 
para a porta. 
Uma hora mais tarde, escondido num canto do botequim "Girl of the Period", o velho Merriwether 
contava ao tio Henry Hamilton que, a seguir quele discurso, toda a gente correra para Melanie a 
fim de a abraar. A sesso terminara festivamente, e a mulher de AshIey fora nomeada secretria 
das duas organizaes, 
- E o caso  que vo arrancar as ervas! 0 pior, contudo, reside no facto de que Dolly pretende que 
eu a ajude, com o pretexto de que no tenho mais que fazer. Por mim nada sinto contra os yankees e 
creio que sua sobrinha est na boa razo. Mas arrancar ervas, na minha idade, e com este lumbago! 
Melanie fazia parte da comisso directiva do "Lar dos rfos" e auxiliou a recolha dos livros 
#
necessrios para a formao dum fundo destinado  Biblioteca dos Rapazes. 
274 
Tambm os "Amigos de Tspis", que davam um espectculo de amadores uma vez por mes, 
exigiam o concurso de Melane. Embora muito tmida para aparecer em pblico, na ribalta 
iluminada a petrleo era no entanto capaz de talhar fatos de sacos velhos cao no tivesse outro 
material  sua disposio. Foi ela quem resolveu em definitivo a questo levantada no "Crculo de 
Leitura" sobre se deviam alterar.a recitao das obras de Shakespeare com as de Dickens e Bulwer- 
Lytton (ou at com as de Byron, como sugerira certo mancebo, que Melanie suspeitava ser um 
celibatrio folgazo). 
 noite, pelos fins do Estio a casa de Asliley estava sempre cheia de visitas. Nunc@ havia cadeiras 
que chegassem, e as senhoras sentavam-se muita vez nos degraus da entrada, ao passo que os 
homens se instalavam no corri- mo, ou no soalho, ou em cima de caixotes virados. Scarlett, ao ver 
aquela gente disposta a tomar ch, nica coisa que os Wilkes podiam oferecer pensava como era 
que Melanie se resolvia assim a fazer es'tendal da sua pobreza. Ela, por seu lado, ainda no estava 
disposta a dar recepes, e muito menos a gente importante como a que frequentava a casa de 
Melanie; s o faria quando pudessem mimosear os convidados com bons vinhos e sorvetes, 
presunto e caa - 
tudo num ambiente de moblias renovadas. 
0 general John B. Gordon, ilustre heri de Gergia, apresentava-se no raramente em casa de 
Asliley acompanhado da famlia. 0 padre Ryan, poeta da Confeerao, ali comparecia igualmente 
quando estava de passagem em Atlanta. Encantava a assistncia com o seu engenho e no era 
preciso insistir muito para o ouvir recitar a sua Es~ de Lee ou o imortal poema Bandeira 
Conquistada, que as senhoras escutavam sempre com lgrimas nos olhos. Alex Stephens, antigo 
vice-presidente da Confederao ' ia tambm visit-los, e nessas ocasies, tendo-se passado 
palavra, a residncia enchia-se por completo. Em geral, assistiam a estas reunies algumas crianas 
que era vulgar cabecear nos braos dos pais; deviam estar h muito tempo na cama, porm,aqueles 
ou as mes faziam empenho em que os filhos, mais ta@de, pudessem' orgulhar-se de haverem sido 
beijados pelo homem que ajudara a defender a Causa. Toda a gente notvel que passava por Atlanta 
conhecia o caminho da casa dos Wilkes e havia at quem l pernoitasse. Nessas ocasies a casa 
parecia mais pequena. India tinha 
275 
de dormir no compartimento exguo que servia de quarto de brinquedos a Beau, Dilcey corria a 
pedir ovos emprestados  cozinheira de Pitty, mas nada disto impedia Melanie de receber os seus 
hspedes com tanta gentileza como se morasse num palcio. 
Nunca passou pela cabea de Melanie que as pessoas se reunissem  sua volta, como em torno 
duma bandeira. Por isso ficou to estupefacta como atrapalhada quando o Dr. M@ade, depois dum 
agradvel sero em que ele se sara com galhardia da leitura do papel de Macbeth, lhe beijou a mo 
e lhe dirigiu um breve discurso no mesmo tom de voz com que noutros tempos falava da "nossa 
Causa gloriosa". 
-Minha senhora  sempre uma honra e um prazer encontrarmo-nos de6aixo do vosso tecto, porque 
vs, senhora, e as da vossa estirpe, sois o nosso esteio a nossa fora, sois tudo o que nos resta. 
Destruram a fin@ flor dos nossos rapazes, sufocaram o riso das nossas raparigasArruinaram-nos a 
sade 'arrancaram-nos da terra, alteraram-nos os costumes, empobreceram-nos. Fizeram-nos 
recuar cinquenta anos e colocaram um fardo pesado demais aos ombros de mocinhos que deviam 
estar na escola e de velhos que deviam somente aquecer-se ao sol. Mas reconstruiremos o edificio, 
porque nos ficaram ainda coraes como o vosso para assentar os alicerces. E, enquanto os 
tivermos, os yankees podem ter o resto! 
Enquanto Scarlett pde dissimular o seu estado com o amplo xaile preto da tia Pitty, ia muitas vezes 
com Frank juntar-se aos convidados de Melanie. Atravessavam o jardim e instalavam-se com os 
outros debaixo da varanda da entrada, ponto de reunio nas noites estivais. Scarlett tinha o cuidado 
de se sentar num canto sombreado, no s para no estar muito exposta aos olhares como tambm 
#
para observar AshIey  vontade, 
Era unicamente AshIey que a atraa ali, pois as conversas maavam-na e entristeciam-na. Os 
assuntos no variavam, e seguiam uma norma j sua conhecida: em primeiro lugar, as dificuldades 
de subsistncia; depois, a situao poltica; por fim, inevitavelmente a guerra. As senhoras 
lamentavam a carestia da vida'e perguntavam aos senhores se eles esperavam que voltassem os bons 
tempos. Os senhores omniscientes respondiam que sim, que era s 
276 
uma questo de pacincia. As senhoras sabiam muito bem que os senhores mentiam, e os senhores 
sabiam o que elas pensavam a seu respeito. Isso, porm, no os impedia de continuar a mentir, e 
elas fingiam sempre que os acreditavam. Ningum se iludia com a ideia de que voltariam os bons 
tempos. 
Uma vez esgotado esse assunto as senhoras falavam da crescente arrogncia dos pretos os crimes 
dos Sacolas e da humilhao que lhes causava @ vista duma farda azul em cada esquina de rua. Os 
yankees nunca acabariam com a Reconstruo em Gergia? Que diziam os senhores a esse respeito? 
E os senhores diziam que eles haviam de acabar com a Reconstruo quando aos democratas fosse 
de novo concedido o direito de voto. As senhoras eram suficientemente ajuizadas para no 
perguntarem quando seria isso. E, tendo assim encerrado o captulo da poltica, entravam no da 
guerra. 
Sempre que se encontravam dois antigos confederados, no havia outro assunto de conversa; e 
ento quando se reunia uma dzia deles, j era sabido o resultado: apareciam em cena todas as fases 
da guerra, e a palavra se representava o principal papel na discusso. 
-Se a Inglaterra nos tivesse reconhecido.. Se Jeff Davis requisitasse todo o algodo e o mandasse 
para Ingla, terra antes de apertarem o cerco... Se Longstreet executasse as ordens que lhe deram em 
Gettysburgo... Se Jeb Stuart no estivesse longe quando Marse Bob precisou dele... Se no 
perdssemos Stonewall Jackson... Se Vi~burgo no tivesse cado... Se nos aguentssemos mais um 
ano... 
E sempre esta frase: =Se no substitussem Johnston por Hood...-Ou ento:-Se em Dalton no 
pusessem Hood  frente das tropas, em vez de Johnston... 
Se... se... As vozes suaves iam subindo de tom, no entusiasmo da conversa. Os artilheiros, os 
soldados de cavalaria, os de infantaria, todos evocavam as suas memrias. 
"No tm mais nada que digam", pensava Scarlett. "S6 falam de guerra, sempre a guerra. E 
continuaro a falar do mesmo assunto, at  morte ... " 
Passeava o olhar em torno de si e via os pequenos agarrados aos pais, com o peito a arquejar, de 
olhos brilhantes. Escutavam ansiosos aqueles relatos de sortidas em 
277 
plena noite, de cargas de cavalaria, de bandeiras haste.adas no reduto inimigo.- Ouviam os tambores 
a tocar, as trombetas soando, o grito dos rebeldes. Viam marchar os soldados, de ps feridos,  
chuva, com os estandartes pendentes. 
"E estas crianas no escutam outra coisa! Ho-de imaginar que era belo e glorioso bater-se contra 
os yankees e voltar para casa cego e estropiado... ou no chegar a voltar. Gostam todos de insistir no 
mesmo tema. Eu, no. At me horroriza pensar nisso. De boa vontade esquece~ ria... ah, se 
pudesse!" 
Arrepiava-se toda quando ouvia Melanie contar histrias relativas a Tara. A cunhada descrevia-a 
como uma herona, explicava a forma como ela resistira aos invasores, salvara o sabre de Charles e 
extinguira o incndio. Mas Searlett no sentia satisfao nem orgulho. Preferia no pensar nisso. 
"Por que ser que no conseguem esquecer? Por que no olham para o futuro em vez de se 
comprazerem no passado? Fizemos mal en@ consentir nessa guerra. Quanto mais depressa a 
olvidarmos, tanto melhor". 
Todavia ningum mais desejava esquec-la. Por isso Scarlett no se importou dizer a Melanie que 
ficava constrangida de se mostrar em pblico, ainda que fosse num canto mais sombrio. Melanie 
compreendeu muito bem aquela explicao; alis, comova-a sempre tudo o que respeitasse ao facto 
#
da maternidade. Melanie desejava muito ter outro filho, mas os doutores Meade e Fontaine haviamlhe 
dito que isso lhe poderia custar a vida. Assim, mais ou menos resignada, passava a maior parte 
do tempo junto de Scarlett, interessada por uma gravidez que no era sua. Para a cunhada, que no 
quisera a vinda daquele nova ser e se irritava com a importunidade do caso, a atitude de Melanie 
parecia o cmulo, dum sentimentalismo piegas. Entretanto., a sentena dos dois mdicos sempre 
servia de consolo a Scarlett, pois tornava impossvel a verdadeira intimidade entre Melanie e 
Ashley. 
Scarlett via este no raras vezes porm nunca a ss. Ele aparecia-lhe em casa todas as @oites, de 
regresso do emprego, para lhe contar o que houvera durante o dia mas Frank e Pitty estavam quase 
sempre presentes e, o que era pior, tambm India e Melanie. A conversa, limitava-se a uma trbca de 
impresses sobre o negcio. Depois 
278 
Scarlett, fazia algumas sugestes e dizia: "Obrigada por ter passado por aqui, Boa noite". . Se ao 
menos ela no se achasse naquele estado! Seria uma boa oportunidade de irem juntos todas as 
manhs  fbrica; atravessariam szinhos a mata deserta, longe dos @olhares indiscretos, e 
poderiam julgar-se transportados de novo aos dias calmos de antes da guerra. 
No no o foraria a proferir uma nica palavra de amor. Jurara a si mesma nunca mais aflorar esse 
assunto. Mas, se se encontrassem a ss, talvez que ele deixasse cair a mscara de indiferena que 
usava desde a chegada a Atlanta. Quem sabe se tomaria a mostrar-se como fora, o AshIey que ela 
conhecera antes da festa dos Wilkes, antes de haverem revelado a natureza das suas inclinaes? Se 
no podiam ser amantes ' seriam ao menos amigos. 0 seu corao gelado e solitrio precisava de 
aquecer-se ao lume da amizade. 
"Tivesse eu j, sem demora ' esta criana!" pensava ela, impaciente. "Passearamos de carro ou a 
cavalo, todos os dias, conversando ... " 
No era s o desejo de estar s com Ashley que a fazia impacientar-se e insurgir-se contra a vida de 
recluso que levava. As fbricas precisavam da sua presena. Desde que confiara a direco delas a 
Hugh e a AshIey, as duas serraes produziam menos lucros. 
Hugh era incompetente, mau grado o esforo que despendia. Faltava-lhe o senso dos negcios e 
orientava mal os operrios, Toda a gente obtinha dele baixas de preo. Se algum empreiteiro lhe 
dizia que as tbuas eram de m qualidade e no valiam o dinheiro pedido Hugh considerava do seu 
dever pedir desculpa e fazer um abatimento. Quando soube da quantia por que foram pagos mil ps 
de madeira, Scarlett verteu lgrimas de furor. 0 seu gerente dera quase de graa o melhor tabuado 
jamais sado daquela serrao! Alm disso, no sabia lidar com o pessoal. Os negros insistiam pelo 
pagamento dirio, o que dava em resultado embebedarem-se e no aparecerem s vezes no dia 
seguinte. Hugh tinha ento de ir procurar outros operrios, o que atrasava o trabalho na fbrica. 
Com todas estas dificuldades, acontecera ficar muito tempo sem vir  cidade tratar da venda das 
tbuas prontas. 
Vendo que os lucros lhe fugiam entre os dedos de Hugh, tomava-se frentica, em luta entre a sua 
impotncia e a 
279 
estupidez do gerente. Logo que a criana nascesse e ela voltasse ao trabalho, despediria Hugh e 
arranjaria algum para o substituir. Fosse quem fosse, desempenharia o servio melhor do que ele. 
E no queria mais escravos forros. Para que se as duas por trs largavam o trabalho? _Fra@nk-disse 
ela ao marido depois de grande discusso com Hugh a respeito das ausncias dos operrios. 
- Estou meio decidida a arrendar condenados para as minhas serraes. Aqui h tempos lastimei-me 
a Johnnie Gallegher, contramestre de Tommy WelIburn, acerca da dificuldade que havia em obter 
trabalho dos pretos, e ele perguntou-me por que  que eu no metia forados na serrao. Parece-me 
boa ideia. Disse-me que a sublocao era uma ninharia e que me bastava dar-lhes qualquer coisa de 
comer. Podia exigir deles o trabalho que eu muito bem quisesse sem ter que dar satisfaes  
Agncia dos Forros. Assim que termine o contrato de Johnnie Galleglier com Tommy, vou contratlo 
para subsntituir o Hugh. Um homem que consegue trabalho proveitoso dum bando de irlandeses, 
#
tambm h-de consegui-lo dos grilhetas. 
Frank ficou mudo de espanto. Arrendar forados! Era o cmulo, pior ainda do que a ideia de ter 
uma taberna! 
Pelo menos, era esta a opinio de Frank e dos meios conservadores em que ele se movia. Aquela 
nova moda de alugar condenados surgira depois da guerra, em consequncia da pobreza do Estado. 
Por no lhe ser possvel manter os condenados, o Estado arrendava-os a quem precisasse de mode- 
obra para a construo de vias-frreas ou explorao florestal. Embora reconhecesse a 
necessidade de semelhante sistema, Frank e os seus amigos puritanos no deixavam de lamentar o 
facto; alguns destes no tinham sido sequer partidrios da escravatura, e ainda achavam que isso era 
uma violncia maior. 
E Scarlett pretendia servir-se dos forados! Frank bem sabia a vergonha que o esperava, se ela 
levasse por diante o seu projecto: era muito pior do que dirigir uma serrao, e, revoltando-se contra 
a ideia da mulher, ele repetia sempre de si para si: "Que vai pensar a cidade?" Desta vez o que 
Frank sentia era um receio ainda mais assustador do que a condenao lavrada contra eles pela 
opinio pblica. No ntimo, acreditava tratar-se dum trfico de seres humanos equivalente  
prostituio. No podia consentir em tal coisa sem que a alma se lhe sobrecarrega~ de pecados. 
280 
E tanto se compenetrou disto que teve coragem de proibir  mulher a realizao do seu intento, 
pondo tanta fora nos seus argumentos que Scarlett no soube a princpio que responder; por fim, 
declarou em tom humilde que se tra, tava apenas dum plano muito vago. No fundo, pensava 
exactamente o contrrio: Hugh e os pretos forros haviam-lhes estragado o negcio mas 
aproveitando agora os forados, conseguiria resta@elece@ o equilbrio econmico. 
Se ao menos a outra serrao desse lucros.! Mas Asliley no era, nesse ponto, mais esperto do que 
Hugh. 
De comeo, Searlett ficara desiludida ao verificar que AshIey no se enfronhava bem no assunto 
nem obtinha as vantagens financeiras que ela tirava quando  frente desse labor. Pois se ele era to 
inteli`ente, lera tantos livros! No havia razo para que no triunfasse no emprego: devia at 
proporcionar-lhe enormes proveitos materiais. Mas, infelizmente, Asliley no obteve melhores 
resultados do que Hugh. Eram iguais a este os erros de Asliley, a sua inexperincia, a sua completa 
ausncia de senso comercial. 
Apaixonada, porm, como estava, depressa encontrou desculpas no procedimento do novo gerente e 
no lhe velo  ideia colocar os dois homens em plano de igualdade. Hugh era estpido, no tinha 
soluo o seu caso; mas Ashley, pessoa de altas qualidades, s precisava de ser iniciado naquele 
ramo. Todavia foi-lhe foroso reconhecer que este jamais daria qualquer coisa no lugar: era incapaz 
de fazer oramentos rpidos, de cor, de achar sem dificuldade os preos exactos. Chegava a pensar 
se ele jamais saberia distinguir entre uma viga e uma tbua. Como a sua honestidade o tornava 
ingnuo ' AshIey ficava  merc de qualquer trapaceiro. Se simpatizava com algum (e parece que 
com muita gente!) vendia a madeira a crdito, sem averiguar se o comprador possua conta no 
Banco ou outr garantia aceitvel. Neste aspecto, no valia mais do que Frank Kennedy. 
Com certeza, pensava Scarlett, ' que ele acabaria por aprender. E, enquanto no aprendia, ela 
desculpava-o com indulgncia maternal. Cada noite, ao chegar cansado e ansioso a e-asa dela, 
Scarlett, no se poupava ao trabalho de lhe dar conselhos teis, procedendo com multa diplomacia. 
Contudo, por mais que fizesse para lhe levantar o moral, notava nos olhos dele uma expresso 
estranha, ap- 
281 
tica, que no compreendia e que a assustava bastante. Ashley estava diferente, muito diferente do 
que fora! Para saber o que se passava,, seria necessrio poder falar-lhe a ss. 
Esta situao originou em Scarlett. muitas noites de insnia. Atormentava-se no s porque Asliley 
lhe parecia infeliz, mas tambm porque essa infelicidade o impossibilitava de ser um dia bom 
comerciante de madeiras. Torturava-a o pensamento de ter as duas serraes entregues a homens 
daquele estofo. E mais a apoquentava ver que os concorrentes lhe tomavam a melhor clientela, 
#
depois do trabalho desenvolvido para os captar! A soluo estaria em retomar a direco. do 
negcio. Ensinaria a AshIey, in loco, a maneira de fazer as coisas a preceito. E, se o Johnnie 
Gallegher pudesse dirigir a outra serrao... Scarlett encarregar-se-ia em pessoa da venda das 
tbuas, e tudo iria pelo melhor. Quanto a Hugh, se quisesse continuar nalgum servio, dar-se-lhe-ia 
a conduo do carro de fornecimentos. Para isso talvez servisse. 
 claro que Gallegher no parecia pessoa muito escrupulosa, apesar (ou por causa) da sua esperteza. 
Mas a quem recorrer, no sendo a este? Por que  que os homens simultneamente srios e capazes 
se recusavam a colaborar com ela? Bastava que tivesse um desses no lugar de Hugh; j estaria 
remediada. 
Tommy WelIburn, mesmo doente como era, tornara-se o mestre-de-obras mais importante da 
cidade. Dizia-se estar a ganhar rios de dinheiro. A senhora Merriwether e Ren prosperavam 
tambm e tinham inaugurado uma padaria, que Ren manobrava com o seu econmico esprito 
francs; e o av Merriwether, cont-ente por deixar a clausura domstica'guiava agora a carroa que 
ia de porta em porta entregar a mercadoria. Os rapazes Siminons recebiam tantas encomendas que 
empregavam trs grupos de operrios por dia na sua fbrica de tijolos. E KelIs Whiting fazia 
igualmente bons lucros com o cosmtico que vendia aos pretos, dizendo-lhes que os no deixariam 
votar se eles conser, vassem o cabelo encarapinhado. 
0 mesmo se passava com a mocidade inteligente que Scarlett conhecia: mdicos, advogados, 
mercadores. A apa-! tia que deles se apoderara logo a seguir  guerra cedera o lugar ao trabalho 
frentico e todos se ocupavam a melho- 
282 
rar a sua situao. Os outros os que se mantinham inactivos, eram homens do tipo d@ Hugh... e de 
Ashley. 
Que dificuldade para ela fazer andar os negcios e estar grvida ainda por cima! 
"No terei mais nenhum filho", dizia de si para si, convencida. "Que Deus me livre de ser como as 
outras mulheres, que tm um filho por ano. Isso obrigar-me-ia a estar sempre seis meses afastada 
dos negcios. Pois nem posso dar-me ao luxo de ter um dia de ausncia! Hei-de declarar a Frank a 
minha resoluo". 
Frank desejava muitos filhos mas pacincia, ela trataria de o persuadir. Aquele seria o ltimo. As 
serraes estavam em primeiro lugar. 
42 
SCARLETT teve uma filha, um entezinho calvo, feio como um macaco pelado e que se parecia 
absurd-amente com Frank. Exceptuando o pai, ningum encontrou beleza na recm-na-seida, mas 
os vizinhos eram bastante caridosos para dizer que os nens feios se tornam s vezes muito bonitos. 
Deram-lhe o nome de Ella Lorena. Ella, porque a av se chamva Ellen, Lorena porque era um 
nome que estava muito em moda para raparigas, assim como Robert E. Lee e Stonewall Jackson. 
para rapazes e Abraham Lincoln e Emancipao para as crianas pretas. 
Nasceu a menina a meados duma semana em que na cidade reinava o medo duma catstrofe. 
Gabara-se certo negro de ter violentado uma branca; fora preso por isso, mas antes de comparecer 
no tribunal, a Ku Klux Klan invadira a cadela e enforcara-o sem mais cerimnias. Os membros da 
sociedade secreta haviam procedido assim para poupar  vtima (cujo nome ainda se ignorava) o 
oprbrio de se mostrar como declarante nas sesses do julgamento. Como o pai e o irmo dela 
preferissem mat-la a v-Ia intimada a ir  teia os sulistas acharam que liquidando o preto estava o 
pro@lema resolvido; talvez at julgassem que era a nica soluo admissivel. Mas as autoridades 
militares estavam furiosas e no compreendiam por que  que a vtima no haveria de se apresentar 
na audincia pblica. 
Os militares faziam prises a torto e a direito, jurando exterminar a Klan, nem que devessem 
encarcerar todos os 
283 
brancos de Atlanta. Os pretos amedrontados pensavam em vingar-se incendiando certo'nmero, de 
cas@s. A atmosfera sufocava de rumores pavorosos; falava-se de execues em massa, se os 
#
yankees descobrissem os culpados,e recea~ va-se uma sublevao dos homens de cor. Ningum saa 
 rua, e as portas e janelas conservavam-se fechadas. Quem tinha negcios no se atrevia a ir 
ocupar-se deles, pelo temor de deixar ao desamparo o resto da famlia. 
Scarlett jazia muito fraca na cama, e agradecia mentalmente a Deus que AshIey no fizesse parte da 
Klan e que Frank fosse to velho e to tmido. Que horror se os yankees cassem sobre eles, e os 
prendessem num abrir e fechar de olhos! Por que no se mantinham sossegados os rapazes da Ku 
Klux Klan? Quem sabe se a tal branca se deixara violar, tomada dum medo estpido? Haviam de 
arriscar a vida tantos homens por causa dessa criatura? 
Nesse ambiente tenso, em @ue se tinha a impresso de ver consumir-se pouco a pouco o rastilho 
ligado  barrica de plvora, Scarlett recuperou rapidamente as foras. 
0 vigor que lhe permitia suportar a vida difcil na quinta de Tara ajudou-a tambm a restabelecer-se; 
e, duas semanas aps o nascimento de Ella Lorena, j podia sentar-se na cama e dar largas  sua 
irritao por se ver assim inaetiva. Uma semana depois, levantou-se e declarQu que ia inspeccionar 
as serraes., onde o trabalho se suspendera porque Hugh e Ashley no queriam deixar a. famlia 
sozinha o dia inteiro. 
Foi ento que se desencadeou o temporal., Orgulhoso da sua recente paternidade, Frank teve a 
coragem de proibir a Scarlett que sasse de casa enquanto a situao estivesse assim perigosa. A 
mulher no fez caso nenhum da proibio e iria da mesma maneira tratar dos negcios se Frank no 
tivesse posto o cavalo e a carruagem numa cocheira de aluguer, com ordem de no os entregar a 
ningum seno a ele mesmo. Para cmulo de infelicidade, Frank e Bab haviam vasculhado a casa 
enquanto Scarlett se encontrava de cama e descoberto assim o seu p-de-mela. Frank depositara o 
dinheiro num Banco em seu prprio nome, de modo que a mulher nem tinha o recurso de alugar um 
trem. 
Scarlett fez uma cena ao marido e  ama, depois entrou na fase das splicas, e por fim chorou como 
uma criana 
284 
a quem tiraram os brinquedos. Como nica consolao, ouviu Frank murmurar: 
-Ento, minha querida, lembra-te que ainda ests doentinha! 
E Bab dizer-lhe: -Se minina chor assim, seu leite vai sec e nen  que h-de sofr com isso.' 
Scarlett, num mpeto de fria, atravessou o jardim e foi desabafar com Melanie. Em voz 
esganiada e com gestos violentos, declarou que iria a p at s serraes, que havia de dizer a toda 
a gente que o marido era um canalha e que no estava disposta a ser tratada como uma garota sem 
juzo, Iria e iria armada duma pistola para matar quem a ameaas@e. J matara um homem e teria 
at muito prazer em dar cabo doutro. 
Melanie, que nem  porta da rua se, aventurava a aparecer, ficou aterrada com tais declaraes. 
-No tens o direito de te arriscares! Eu morria se te acontecesse alguma coisa! Por amor de Deus, 
Scarlett... 
-Vou! Vou! E vou a p... Melanie fitou-a e percebeu que a outra no estava a contas com um desses 
ataques de nervos to vulgares nas mulheres ainda enfraquecidas pelo parto. Na fisionomia de 
Scarlett lia-se a mesma resoluo, o mesmo desprezo do perigo que Melanie tantas vezes vira na 
cara de Gerald quando este decidia fazer qualquer coisa. 
Abraando Scarlett pela cintura, puxou-a para si. 
- A culpa  minha, Devia ser mais animosa e no reter AshIey junto de mim todo este tempo, 
quando o lugar dele  na serrao. Sou uma piegas! Vou dizer a AshIey que no sinto medo 
nenhum, Passarei o dia contigo e com a tia Pitty, e assim ele pode ir descansado para o trabalho. 
-No quero nada disso-exclamou Scarlett, que, embora de mau grado, tinha de reconhecer que 
AshIey no era homem para enfrentar sozinho a situao.-Como h-de o Ashley trabalhar 
capazmente todo o dia, inquieto por tua causa? Toda a gente est contra mim. At o Peter se recusa 
a acompanhar-me! Mas no me ralo. Vou sozinha. Irei a p todo o caminho, e veremos se arranjo 
ou no uma poro de pretos para o servio da fbrica. 
- Ests doida! Imagina que te acontece algum mal! Consta que h um acampamento de pretos em 
#
Shantytown, para os ladois da estrada de Decatur, e tens forosamente 
285 
de passar por l, Deixa-me pensar... No faas hoje nada, enquanto eu procuro uma soluo, 
Promete-me que vais para casa e que ficas l sossegada, Ests com ar de quem no se aguenta nas, 
pernas, Anda, promete. 
Pbrque o acesso de fria a deixara exausta, Searlett prometeu e regressou a casa, onde repeliu com 
altivez todas as propostas de paz, 
Nessa mesma tarde, um desconhecido velo a coxear do quintal de Melanie e entrou no da tia Pitty. 
No havia dvida de que era um desses individuos a quem Bab e Dilcey se referiam quando 
falavam da "canalha que sinhora Melly apanha na rua e deixa dormi em sua loja". 
A casa de Melanie tinha trs compartimentos no subsolo, de que noutros tempos se serviam para 
adega e quarto de criados. Agora um deles era ocupado por Dilcey e os outros dois por @ma chu=a 
incessante de hspedes de passagem, miserveis e andrajosos. S Melanie sabia donde eles vinham 
e para onde se dirigiam. Toda a gente ignorava onde a mulher de Asliley os ia buscar. Talvez as 
pretas tivessem razo em dizer que ela os apanhava na rua. 
0 certo  que, assim COMO as pessoas notveis eram atradas pela sua modesta salinha, os 
desgraados iam parar  sua loja, onde lhes davam cama e comida e donde partiam com um farnel 
debaixo do brao. Em geral eram soldados da Confederao os ocupantes dos quartos o 
subterrneo, homens que no sabiam ler nem escrever, que no tinham lar nem famlia e que 
percorriam o pas em busca de trabalho. 
Multas vezes 'pernoitavam l camponeses de pele tisnada e sulcada de rugas, na companhia de 
crianas hirsutas e silenciosas, mulheres que a guerra tornara vivas e que, despojadas das suas 
herdades, procuravam parentes dispersos ou perdidos. De tempos a tempos, a vizinhana 
escandalizava-se com a presena de estrangeiros que mal falavam ingls e a quem a miragem da 
riqueza conduzira para o Sul. Uma vez, dormiu l um republicano. Pelo menos Bab assim o 
afirmou, declarando que o seu faro no a enganava: reconhecia qualquer republicano como um 
cavalo sente a presena duma cobra cascavel. Mas ningum creu no faro de Bab, porque para tudo 
devia haver limites, at para a caridade de Melanie. 
"Sim,  um dos protegidos de Melanie". pensou Scarlett 
286 
que, com a filhinha no regao estava sentada na varanda iluminada pelo dbil sol de No@embro. "E 
este  aleijado ... " 
0 homem que acabava de atravessar o jardim tinha uma perna de pau, como Will Benteen. Era 
velho, alto e magro, careca, e usava uma barba to comprida que lhe chegava  cintura. Devia ter 
mais de sessenta anos, a avaliar pela cara, mas o corpo no revelava a idade. Apesar da excessiva 
magreza e da perna de pau, movia-se corA a agilidade duma serpente. 
Subiu os degraus e 'antes at de lhe ouvir o sotaque da voz, Scarlett percebeu que ele era das 
montanhas. Apesar da roupa andrajosa, notava-se-lhe um ar de orgulho feroz, que no permitia 
liberdades nem atrevimentos, Vinha a mascar um bocado de tabaco 'que lhe sujara a barba e lhe 
entumecia uma face, 0 nariz era fino e curvo, as sobrancelhas espessas, e dos ouvidos saa-lhe um 
tufo de plos, o que fazia lembrar orelhas de lince. Uma das rbitas estava vazia e dai partia uma 
cicatriz que se ia perder na barba. 
0 olho que restava era pequeno, claro, frio um olho impiedoso. Do bolso das calas saa a coronha 
6ma pistola e no cano das botas acalcanhadas via-se-lhe o cabo dum punhal. 
0 homem olhou para Scarlett sem o menor embarao e, antes de falar 'cuspiu por cima da 
balaustrada, 0 seu nico olho exprimia desprezo, um desprezo que no s abrangia Scarlett como 
todas as mulheres em geral. 
-A senhora Wilkes mandou-me c para tomar conta dum trabalho-disse ele laconicamente. 
Exprimia-se com certa dificuldade 'como quem no tem o hbito de falar. 
- Chamo-me Archie. 
- Lastimo, mas no tenha trabalho para si, senhor Archie. 
#
-Archie  o meu primeiro nome. -Desculpe. Qual  ento o de famlia? 
0 homem tornou a cuspir. 
- Isso  comigo. Fiquemos em Archie, que j chega. 
- Quer se importe ou no revelar o seu nome de famlia, a verdade  esta: no tenho trabalho para si. 
- Pois eu julgo que tem. A senhora Wilkes estava muito inquieta por saber do seu project<> de sair 
sozinha, e ento enviou-me para a acompanhar. 
- Palavra de honra? - exclamou Searlett indignada tanto com a liberdade do homem como com a 
maneira como a cunhada se metia nos seus negcios. 
287 
w'M' 
Archie fitou-a, com o seu nico olho. 
- Sim, senhora, e as damas no tm o direito de causar preocupao  famlia quando esta a quer 
proteger. Ora, visto que tem ae sair, eu acompanh-la-ei. Detesto tanto os pretos como os. yankees. 
Passou o pedao de tabaco para o outro lado da boca e, sem esperar por convite, sentou~se no 
degrau. 
- No quero dIzer que me agrade conduzir senhoras - 
prosseguiu ele. - Mas a senhora Wilkes foi muito boa para mim, deixando-me dormir no seu 
subterrneo, e eu quero ser-lhe agradvel. 
-Mas... -ia recomear Scarlett, sem saber que resoluo tomar. Ento calou-se e olhou para Archie. 
Da a pouco sorriu: aquele velho aventureiro no a tranquilizava muito, mas simplificava um tanto 
as coisas. Graas a esse indivduo poderia atravessar a cidade, ir s duas serraes, visi@ar a 
clientela. Com tal companheiro, todos a julgariam em segurana e o seu aspecto no convidava 
ningum a falar em escndalo. 
- Est bem - declarou. - 0 que  preciso  que o meu marido consinta. 
Depois duma conversa particular com Archie, Frank deu a sua autorizao embora com relutncia, e 
ordenou ao dono da cocheira e aluguer que lhe enviasse a carruagem. No fundo, ficara desiludido 
pelo facto de a nova maternidade no haver modificado a mulher como ele esperara; mas, se estava 
assim to resolvida a voltar s suas malditas fbricas, ao menos que o fizesse na companhia desse 
Archie. 
Deste modo se deu ela a um espectculo que de princpio desconcertou Atlanta. Archie e Scarlett 
fziam um dueto muito estranho: o velho da perna de pau, sujo e grosseiro, e a dama elegante e 
sedutora, cuja testa se enrugava  fora de preocupaes. Viam-nos por toda a parte, no centro e nos 
arredores, fosse a que horas fosse. Raramente se falavam e era evidente que no tinham simpatia um 
pelo outro; mas prestavam mtuo auxlio, porque ele precisava de dinheiro e ela de quem a 
defendesse. "Em todo o caso -diziam as senhoras de Atlanta-sempre  melhor do que apresentar-se 
na companhia do tal Butler". De si para si pensavam onde estaria agora Rliett, que deixara 
bruscamente a cidade trs- meses antes, sem que ningum souesse 
(nem sequer Scarlett) para onde fora. 
Archie era um taciturno. No falava seno quando ins- 
288 
tado e mesmo assim respondia por grunhidos. Todas as manhs deixava o subterrneo de Melanie e 
vinha sentar-se na escada da tia Pitty, mascando e cuspindo at que Scarlett aparecia e Peter 
atrelava o cavalo ao trem. Peter tinha quase tanto medo dele como do diabo ou da Ku Klux Klan. A 
prpria Bab calava-se na sua presena e girava-lhe em redor com ar assustado. Archie odiava os 
negros e estes sabiam-no,. Armou-se de mais uma pistola e a sua reputao cresceu entre a 
populao de cor. P, claro que nunca lhe foi necessrio recorrer a qualquer dessas armas, nem 
sequer levar a mo  cintura. Bastava o efeito moral. Os pretos chegavam a no se atrever a rir 
quando Archie se encontrava prximo. 
Certo dia, Scarlett perguntou-lhe por que  que os odiava e ficou admirada de o ouvir responder 
coisa diversa do seu eterno "Isso  comigo". 
-Odeio-os como todos os camponeses: nunca gostmos deles e no possumos nem um s. Foram os 
#
negros que desencadearam a guerra. Por isso os odeio. 
-Mas voc entrou na guerra. 
- ]9@, que tambm detesto os yankees. E do mesmo modo as mulheres que falam muito. 
Estas declaraes indelicadas exasperavam Scarlett, que ansiava por se livrar do companheiro. Mas, 
por outro lado, como poderia passar sem ele? Era grosseiro sujo (chegava a cheirar mal) mas servia 
para os fins qu@ ela tinha em vista. Conduzia-a s serraes, levava-a a casa dos clientes, e, 
enquanto Scarlett discutia as suas transaces ' Archie ficava muito sossegado a cuspir e a 
contemplar as nuvens. Quando ela se apeava, ele embargava-lhe o passo e, se a rodeavam pretos ou 
yankees, o homem no despegava um centmetro. 
Atlanta acabou por se habituar ao espectculo de Scarlett e do seu guarda-costas. Muitas das 
senhoras, vendo como ela gozava de tanta liberdade de movimentos, comearam a sentir certa 
inveja. Desde que a Ku Klux Klan linchara o preto, essas damas viviam enclausuradas e s saam 
para irem s compras. Como gostavam de conviver, a solido j lhes pesava bastante e fazendo 
tbua rasa do seu amor-prprio, pediram a Sca@lett que lhes emprestasse Archie. Sempre que no 
precisava dele, Se-arlett amavelmente acedia ao, pedido. 
Archie no tardou a ser elevado  altura duma institui- 
19 - Vento Levou - n 289 
o e as senhoras disputavam-lhe as suag horas disponveis. No havia manh em que uma criana 
ou um criado preto no aparecesse por ocasio do primeiro almoo com um bilhete deste teor: "Se 
no tiver necessidade de Archie esta tarde, peo-lhe o favor de mo ceder. Gostava de ir ao cemitrio 
levar flores". Ou ento: "Tenho de ir hoje  modista". "Convinha-me que Archie levasse a tia Nelly 
a passeio". "1@i foroso visitar uma pessoa na Peters Street e o meu av no se sente muito bem 
para poder acompanhar-me". 
Servia, pois, de cooheiro a todas essas damas, s raparigas's senhoras de idade, s vivas, e ele 
tratava-as com igual desdm. Via-se bem que exceptuando Melanie, no gostava muito mais das 
mulhe@es do que dos pretos ou dos yankees. Impressionadas de incio pela sua descortesia, elas 
acabavam por se habituar. Se no fosse aquele modo ruidoso de cuspir, seria to silencioso que as 
senhoras no lhe dariam mais ateno do que davam ao cavalo. A senhora Merriwether, por 
exemplo contava  senhora Meade coisas Intimas respeitantes.  sob@inha, e s ento se lembrava 
da presena do cocheiro. 
Era de facto preciso que a vida se tivesse modificado muito para que tolerassem semelhantes coisas. 
Antes da guerra, aquelas senhoras nem consentiriam a Archie a entrada na cozinha. Dar-lhe-iam um 
bocado de po pela porta de servio e mand-lo-iam embora. Agora, porm, acolhiam com alegria a 
sua presena tranquilizadora. Rude, analfabeto, sujo, era a fortaleza das senhoras e o terror da 
Reconstruo. Nem amigo, nem criado. Um guarda a quem pagavam e que protegia as mulheres 
enquanto os maridos trabalhavam ou se ausentavam  noite. 
Depois da entrada em funes de Archie, pareceu a Searlett que o marido saa  noite com mais 
frequncia. Alegava que era preciso organizar o balano e que, durante o dia, a clientela o no 
deixava ocupar-se disso. Havia ainda os amigos doentes a visitar, e tambm todas as quartas-feiras a 
reunio dos Democratas, que estudavam a forma de reconquistar o direito de voto. Frank nunca 
faltava a nenhum destes encontros. Scarlett achava que o partido no fazia absolutamente nada, 
excepto discutir os mritos do general John B. Gordon sobre os outros generais (menos o general 
Lee) e contar histrias da guerra. Pelo menos, no progrediam no que respeitava ao direito de voto; 
mas Frank gos- 
290 
tava a valer dessas conferncias e, todas as noites, ficava horas e horas fora de casa. 
Ashley tambm visitava doentes e comparecia do mesmo modo nas reunies dos Democratas. 
Nessas ocasies, Archie escoltava Pitty' Scarlett, Wade e a pequena Ella atravs do ptio sombrio, 
at  casa de Melanie, onde as duas famlias passavam a noite juntas. As senhoras costuravam, 
enquanto Archie, estendido no canap da sala, ressonava de grande, agitando os bigodes grisalhos a 
cada respirao. Ningum o convidara a dispor daquele mvel, que era o mais bonito, da casa, e as 
#
damas lamentavam-se em silncio de cada vez que ele se estirava ali, com as@ botas em cima do 
estofo. Nenhuma, porm, tinha coragem de fazer observaes a esse respeito. Demais a mais, 
Archie decla-rara ser uma felicidade ele ter o sono fcil, pois doutra maneira a tagarelice das 
mulheres, semelhante ao barulho dum bando de galinhas-da-India, por certo o tornaria irritado. 
Por vezes, Scarlett perguntava a si mesma donde teria vindo Archie e que espcie de existncia 
levaria antes de vir para a casa de Melanie mas nunca tratou de averiguar esse mistrio, Havia 
qualq@er coisa nesse zarolho taciturno que impedia interrogatrios sobre o seu passado. Pelo 
sotaque, Scarlett deduziu que ele era serrano do norte de Gergia, e calculou que o homem tivesse 
estado na guerra e perdesse nessa altura o olho e a perna, durante algum combate. Foi em 
consequncia de certas frases irritadas contra Hugh Elsing que afinal veio a conhecer o passado de 
Archie. 
Um dia, cedo,o. velho conduziu Scarlett  serrao gerida por Hugh e encontrou a fbrica parada, 
No viu pretos. Hugh estava sentado 'sombra duma rvore com ar desanimado e pensativo. No 
aparecera nesse dia um s operrio e ele no sabia que resoluo tomar. Scarlett ficou fula 'e no 
teve escrpulos em descarregar a fria sobre Hugh, pois acabara de receber uma boa encomenda de 
madeira e, para mais, uma encomenda urgente. Desenvolvera toda a sua energia e seduo para 
conseguir apanhar aquele cliente, e, afinal, vinha encontrar tudo parado! 
- Leve-me  outra serrao - ordenou a Archie. - Bem sei que  muito longe e teremos de prescindir 
do almoo, mas para que  que lhe pago? Preciso de prevenir o senhor Wilkes que interrompa tudo 
o que tem entre mos para satisfazer esta encomenda. Espero que os homens estejam l. E, quer 
queiram ou no, ho-de entregar-se s a esse 
291 
trabalho. Nunca vi maior estpido que este Hugh Elsing! Vai parar  rua assim que Johnnie 
Gallegher acabe o pr& dio que est a construir. Que me importa que Gallegher estivesse no exrcito 
yankee? Ao menos, h-de fazer trabalho que se veja. n irlands e basta. Estou farta de pretos forros. 
No quero depender deles e vou pedir a Johnnie Gallegher que me arranje meia dzia de forados. 
Ele os far trabalhar... 
Archie fixou em Scarlett o olho impiedoso e interrompeu-a com uma voz rouca que traa clera 
contida: 
-No dia em que vir forados nas suas fbricas, despeo-me do seu servio. 
-Porqu?-volveu Scarlett espantada. 
- Sei o que  o aluguer de @ondenados. Chamo a isso assassnio. Compram-se homens como quem 
compra bestas de carga e tratam-nos pior do que s bestas. Chicoteiam-nos, deixam-nos passar 
fome, matam-nos. Quem se rala com isso? 0 Estado quer l saber! Recebe o dinheiro, pouco se 
importa com o resto. E os que alugam os condenados tambm se esto nas tintas. 0 que pretendem  
dar-lhes o menos possvel de comida e extrair deles o mximo do trabalho. Raios partam as 
mulheres! Nunca foram da minha simpatia, e agora ainda as desprezo mais! 
-Mas tem alguma coisa a ver com isso? -Tenho - limitou-se Archie a responder. E, depois duma 
pausa, acrescentou: -Cumpri pena de trabalhos forados durante quarenta anos. 
Se@rlett ficou sem alento e, instintivamente, encolheu-se de encontro aos coxins do trem. Ali 
estava a explicao do retraimento de Archie, da sua teimosia em no querer revelar o apelido de 
famlia, nem nada respeitante ao seu passado, da dificuldade com que se exprimia e do seu dio a 
toda a gente, Quarenta anos! Fora, portanto preso quando era muito novo. Quarenta anos! E se o 
tinl@am condenado a pena maior e trabalhos forados  porque houvera crime de morte. 
- Foi... por assassnio? -Foi -confirmou Archie, sacudindo as rdeas. - Matei minha mulher. 
Searlett pestanejou, tomada de medo, Sob a barba grisalha, a boca do homem pareceu esboar um 
sorriso, como se ele se divertisse com o terror da companheira. 
292 
- No vou darcabo de si, se  isso que receia. S existe uma razo para matar uma mulher. 
- Matou a sua ... ! -Estava deitada com meu irmo. Ele conseguiu fugir. No me arrependo de a ter 
matado. Mulheres daquelas no devem viver. A lei no tinha direito de condenar homens por esse 
#
motivo, mas eu fui condenado. 
- E como saiu da cadeia? Fugiu? Indultaram-no? -Podemos chamar indulto se quiser. - Archie 
carregou as sobrancelhas hirsutas,co@no se fizesse grande esforo para encontrar palavras com que 
exprimir-se. - Nos fins de 1864, quando Sh@rman veio, eu estava na cadeia de Milledgeville, havia 
j quarenta anos. 0 director convocou todos os prisioneiros e disse-lhes que os yankees se 
preparavam para queimar tudo e chacinar os animais. Se h quem eu mais deteste depois dos pretos 
e das mulheres, so os yankees. 
- Porqu? Conheceu algum? 
- No, senhora, mas ouvi falar. Disseram-me que eles no resistiam a meter-se com os mais, Ora eu 
detesto tipos que se metem com os outros. Que tinham eles que vir para Gergia emancipar os 
pretos, queimar as e-asas matar os animais? Ento o director participou que no ex@eito havia falta 
de soldados e que os prisioneiros que quisessem alistar-se estariam livres no fim da guerra... se 
escapassem desta. Mas, quanto aos condenados por homicdio, parece que o exrcito no nos 
queria. Declarei ento ao director que no era um assassino vulgar pois se matei minha mulher foi 
que ela o merecia e a@rescentei que desejava combater contra os yankees. d director compreendeu 
e deixou*-me sair com os outros reclusos. - Deteve-se um instante, soltou um grunhido e continuou: 
-No deixava de ser engraado! Eu tinha sio preso por matar, e agora mandavam-me sair com uma 
espingarda na mo, para tornar a matar! Ns, os de Milledgeville, batemo-nos e matmos a valer, 
como h-de calcular. Nenhum desertou que eu saiba. Quando se deu a rendio, ns estvamos li- 
@rk Perdi um olho e uma perna. Mas no lamento. 
- Oli! -murmurou Scarlett. Tentou recordar-se o que se contara ento acerca do emprego dos 
reclusos de Milledgeville como ltima barreira contra as tropas de Sherman. Frank referira-se a esse 
episdio quando fora passar o Natal a 'Tara, em 1864. Que 
293 
dissera ele? As recordaes de Scarlett eram, porm, muito caticas. Evocou, aterrorizada, essa 
poca terrvel o ribom bar dos canhes do cerco, as filas de carros militares salpicando de sangue as 
estradas, a guarda local alinhando-se para combater, com pequenos como Phil Meade e velhos 
Como o tio Henry Hamilton e o av Merriwether. E os prisioneiros tambm, marchando para a 
morte na agonia da Condeferao sob achuva e a geada, na der@adeira batalha de Tennesse. 
Por momentos, ela achou que esse velho fora louco por se ter batido por um Estado que o tivera 
preso durante quarenta anos da sua vida. Gergia prvara-o da mocidade e da idade madura para o 
castigar dum crime que em sua conscincia no existia, e ele, livremente, oferecera a Gergia um 
olho e uma perna. Soaram-lhe aos ouvidos as palavras amargas de Rhett nos primeiros tempos da 
guerra e Scarlett lembrou-se de ele haver dito que nunca se bateria para defender uma sociedade que 
o banira do seu meio. Mas quando chegou a ocasio, fora combater por essa mesma sociedade, tal 
como Archie. Parecia-lhe que todos os homens do Sul, senhores ou plebeus, davam menos valor  
prpria vida do que a frmulas abstractas. 
Scarlett olhou para as mos nodosas do velho, para as pistolas que ele trazia consigo e de novo o 
medo a invadiu. Quantos ex-forados. no andariam  solta, indultados pela Confederao? 
Qualquer pessoa honesta estava sujeita a encontrar-se com criminosos na rua. Se Frank soubesse 
quem era Archie, havia de ser bom e bonito! E a tia Pitty... essa morreria de comoo. Quanto a 
Melanie, Scarlett quase lastimava no lhe dizer a verdade. Servir-lhe-ia de lio, por albergar todos 
os que lhe aparecessem e impor os seus protegidos aos parentes e amigos. 
- Ainda bem que foi a mim que contou isso, Archie. No repetirei a ningum a sua histria. A 
senhora Wilkes sofreria um grande choque, assim como as outras senhoras... 
-Ora, ora! A senhora Wilkes sabe muito bem quem eu sou. Disse-lhe tudo, logo na primeira noite 
em que dormi l em casa. Julga que eu ia deixar uma senhora to bondosa acolher-me debaixo, do 
seu tecto sem a pr ao facto do que se passou? 
-Deus nos acuda! - exclamou Scarlett, varada de espanto. 
294 
Melanie sabia que o homem era um assassino e deixara-o ficar! Confiara-lhe o filho, a tia, a 
#
cunhada, as amigas! Ela, a mais tmida das mulheres, no receara estar sozinha em casa coin ele! 
- A senhora Wilkes  uma criatura sensata. Sabe quem eu sou, mas tambm sabe que, se um 
mentiroso mente toda * vida e um gatuno nunca deixa de roubar, quem mata s * faz uma vez. E 
tambm acha que aqueles que se bateram pela Confederao ficaram remidos de todos os pecados. 
No  que eu considere um pecado o ter matado minha mulher ... mas, enfim... Sim, a senhora 
Wilkes  muito inteligente ... mil vezes mais do que as outras criaturas do seu sexo... E agora j 
percebe porque lhe digo que me despeo do seu servio no dia em que arrendar forados. 
Scarlett no respondeu, mas pensou: "Quanto mais depressa te fores embora, melhor. Um 
assassino!" Parecia impossvel que MeIly recebesse um bandido em. sua casa e, ainda por cima, o 
impingisse aos amigos sem prevenir quem ele era! Com que ento servir no Exrcito lavava todas 
as culpas! Para Melanie, era um baptismo! Que idiotice! Em silncio, Scarlett amaldioou os 
yankees e assinalou mais um ponto contra eles. Os yankees  que eram os responsveis duma 
situao que obrigava uma mulher a deixar-se proteger por um assassino. 
Ao regressar a casa naquela tarde fria, Scarlett viu,  porta do botequim "Girl of the Period", 
nmero desusado de cavalos, de trens e de carroas. Montado no seu cavalo, Ashley mostrava um ar 
de inquietao. Os Sinimons debruados na carruagem, faziam grandes gestos. Hugh'Elsing, com a 
melena pendente na testa, agitava os. braos. A car~ roa do av Merriwether ocupava o centro do, 
grupo e, ao aproximar-se, Searlett viu que Tminy Wellbum e o tio Henry ladeavam o velho. 
"Oxal que o tio Henry no se lembre de ir para casa naquela carripana. At devia envergonhar-se 
de o verem ali. D a impresso de que no dispe de carruagem sua! Quando penso que acompanha 
o outro s para virem todas as noites ao botequim!" 
Quando chegou perto do agrupamento notou o nervosismo do ambiente e o corao apertou-se-lhe 
de medo. 
"Espero que no tenha havido outra violao", pensou. 
295 
'14L W. -t,, 
"Estamos arranjados se a Ku Mux: Man lincha outro preto!" E ' pensando assim, Scarlett ordenou a 
Archie: -Pare aqui. Deve ter acontecido qualquer coisa. 
-Vai apear-se defronte duma taberna? - observou Archie. 
- Faa o que lhe digo, Pare. Boa tarde a todos! Que sucedeu? Parecem to... 
Os homens voltaram-se para ela, descobriram-se, com um sorriso, mas nos seus olhos brilhava 
estranho claro. 
- Sucedeu uma coisa boa e m ao mesmo tempo - 
explicou o tio Henry. - Depende da maneira como a encararmos. Por mim, acho que o Parlamento 
no podia proceder doutro modo. 
Scarlett soltou um suspiro de alvio. As aces do Parlamento no a interessavam, pois que da no 
viria nada que a pudesse prejudicar. 0 que a assustava era a perspectiva de ver os soldados yankees 
cometer novas tropelias. 
-De que se trata, ao certo? -0 Parlamento recusou-se a aprovar a emenda-declarou o velho 
Merriwether 'no sem orgulho. - Isto  apenas uma amostra aos yankees do que somos capazes. 
-Sim, e vai causar um rebolio levado dos diabos... Desculpe, Searlett -disse Ashley. 
- Ah,  questo da emenda?! - indagou Scarlett, esforando-se por se dar ares de entendida no 
assunto. 
Nunca compreendera nada de poltica e, alm disso, tinha outras coisas com que se preocupar. 
Lembrava-se de que j haviam aprovado uma emenda, no sabia se a dcima terceira ou a dcima 
sexta mas no fazia ideia nenhuma do que significava enw" naquele sentido. Devia-se ter percebido 
na cara a sua ignorncia porque Ashley lhe sorriu. 
-  uma alterao na lei que concede o direito de voto aos pretos-disse ele.-Foi submetida ao 
Parlamento, mas este recusou-se a aprov-la. 
-Que tolice! Sabem perfeitamente que os yankees nos faro concordar com o voto dos pretos, nem 
que seja  fora. 
#
Por isso digo que vai haver rebolio. Orgulho-me do Parlamento orgulho-me da sensatez dos seus 
membros! - clamou o 'tio Henry. - 0 yankees no podem obrigar-nos a aceitar o que eles querem. 
- Podem, e demonstraro que podem-retrucou Ashley 
296 
em voz calma, mas de olhar sombrio. -Isto ainda velo complicar mais a nossa vida. 
- Que ideia, Ashley! A situao no vai ficar pior do que est! 
-No? Suponha que temos um Parlamento composto s de pretos. Suponha que temos um 
governador preto. Suponha que as autoridades militares aplicam um regulamento mais severo do 
que este que est em vigor. 
0 medo dilatou os olhos de Scarlett, que j comeava a encarar o problema sob o seu verdadeiro 
aspecto. 
- Pergunto agora: o que seria melhor para Gergia, paxa todos ns? - continuou AshIey, de rosto 
alterado. - 
Combater esse projecto 'como fez o Parlamento, e sublevar * Norte contra ns, ou calar o nosso 
orgulho, submeter-nos * ver se concilivamos as coisas conforme pudssemos? No fim de contas, 
vem a dar na mesma. Seremos obrigados a fazer o que eles querem. Estamos atados de ps e mos. 
Talvez seja prefervel para ns concordarmos com tudo e no repontar. 
Searlett mal o ouvia; escapava-lhe o alcance das suas palavras. Sabia que Ashley, como de costume, 
estudava os dois lados da questo. Ela  que s via um: a possvel repercusso na sua existncia 
daquela afronta infligida aos yankees. 
-Eia Ashley tornaino-nos radicais e desejamos votar nos repu@licanos@ -observou com sarcasmo o 
av Merriwether. 
Seguiu-se, um silncio de constrangimento. Searlett. viu Archie levar a mo  pistola e depois 
retir-la. 0 antigo forado pensava (e no se coibia de a dizer) que o av Merriwether era uma 
cabea de vento e que ele, Archie, no tinha inteno de lhe permitir ofensas ao marido da senhora 
Wilkes. 
A clera dissipou-se dos olhos de Asliley, depois de a haver relampejado. Antes, porm, que ele 
abrisse a boca, j o tio Henry Hamilton estava a dizer a Merriwether: 
-, seu diabo! Desculpa, Scarlett, Voc, Merriwether, @era melhor que ficasse calado. -Ashley no 
precisa que ningum o defenda-replicou secamente o velho. -Submeter-nos! Bolas! Perdo, 
IScarlett. 
-Nunca acreditei na Secesso -declarou Astiley, com voz trmula. - Mas, quando o Estado de 
Gergia se sepa- 
297 
rou da Unio, eu acompanhei-o. Tambm no acreditava na guerra e todavia combati. Agora acho 
que no se deve exasperar mais os yankees; porm, se o Parlamento tomou esse partido'eu 
igualmente... 
-Archie-disse de sbito o tio Henry.-Leva a senhora para casa. As senhoras no foram feitas para a 
poltica, e eu vejo o caso mal parado. Adeus Scarlett. 
Enquanto o trem descia Peachtree St@eet, ela sentia o e-orao bater-lhe de ansiedade. Teria algum 
efeito sobre a sua pessoa aquela deliberao insensata do Parlamento? Os yankees, enraivecidos, 
iriam sequestrar-lhe as duas serraes? 
-Pois sim, senhora -resmungou Archie.-Eu j tinha ouvidocontar a histria dos coelhos que 
cuspiram no focinho dos ces, mas nunca a tinha visto representada. Os tipos do Parlamento bem 
podiam estar sossegados. Aquilo no aquenta nem arrefenta. Os yankees trazem os pretos nas 
palminhas e esto dispostos a fazerem deles os nossos patres. A senhora devia admirar os nossos 
deputados... _ Admir-los? -retorquiu Scarlett.- Deviam fuzil-los. Por culpa deles, os yankees vose 
lanar sobre ns como gato a bofe. Porque no fizeram o que deviam em vez de acirrar os 
nortistas contra ns? Por que no ceder imediatamente, pois que, de qualquer maneira, vamos ficar 
subjugados? 
Archie lanou-lhe um olhar glacial. -E julga que ser sem resistncia? As mulheres tm menos 
#
orgulho do que as cabras. 
Depois de Scarlett haver alugado dez presidirios, cinco para cada serrao, Archie resolveu 
cumprir a sua ameaa e recusou-se a trabalhar mais tempo para ela. Em vo lhe suplicou Melanie, 
debalde lhe prometeu Frank aumento de salrio. Archie manteve-se inabalvel. Aceitava de bom 
grado o papel de acompanhar Melanie, Pitty India, ou as amigas destas pela cidade, mas no 
consenta em guiar o trem de Scarltt. Era uma situao embaraosa, essa de se ver julgada nas suas 
aces pelo antigo condenado; mas ainda achava pior saber que a famlia e os conhecidos 
compartilhavam da opinio do velho. 
Antes da resoluo definitiva, Frank tentara embargar-lhe o passo. Quanto a Ashley, comeou por 
se opor, mas acabou por consentir quando Scarlett, lavada em lgrimas, 
298 
lhe prometeu substituir os forados por negros logo que as circunstncias o permitissem. Os. amigos 
da familia escondiam to pouco a sua reprovao que Frank, Pitty e Melanie mal se atreviam a 
levantar a cara. At Peter e Bab declaravam que utilizar presidirios era de mau agoiro. Toda a 
gente estava de acordo para reconhecer que fora mal feito querer aproveitar-se da desgraa do 
prximo. 
-No entanto no acham inconveniente obrigar os escravos a trabaffiarem! - exclamou ela, 
indignada. 
Mas isso era diferente, respondiam. Os escravos no se encontravam na mesma situao dos 
forados. No tempo da escravatura'os pretos eram mais felizes do que na actualidade; se Scarlett 
quisesse convencer-se, bastar-lhe-ia olhar em torno de si. Contudo, e como de costume, a oposio 
dos seus no fez mais do que confirmar Scarlett na sua ,h (a quem opinio. Retirou a gerncia da 
fbrica a Hug confiou o encargo de conduzir a carroa dos fornecimentos) e colocou Johnnie 
Gallegher no lugar daquele. 
Johnnie era a nica pessoa que achava bem o emprego dos forados como m"e-obra. Uma vez 
firmado o contrato, o irlands declarou que se sentia satisfeito com a mudana. Scarlett olhou de 
revs o antigo jquei, bem assento no cho com as suas pernas arqueadas e pensou: "Os que lhe 
confiavam os cavalos no se impo@@vam, muito com a pele dos animais; eu  que no o deixaria 
aproximar-se dos meus". 
Todavia, no teve escrpulo em lhe entregar um grupo de grilhetas. 
- E d-me carta branca? -perguntou ele, fitando-a com 
aqueles olhos duros e frios como gatas cinzentas. 
- Sim, dou-lhe carta branca. S o que lhe peo  que mantenha a serrao em funcionamento e que 
apronte a 
madeira para quando eu quiser e tanta quanto for precisa. 
-Est combinado -respondeu Johnnie.-Tenho agora de participar ao senhor Wellburn que no 
trabalho mais 
para ele. 
Enquanto Johnnie abria caminho entre a chusma de pedreiros e de carpinteiros, Scarlett, sentiu 
renascer-lhe a 
coragem. Johnnie era bem o homem de quem precisava. Severo com os outros ' sabia o que queria 
e no era dos que se deixam enrolar. Um irlands oportunista, assim~o designara Frank com 
desdm, mas por essa mesma razo  que Scarlett o apreciava. Sabia que um irlands decidido 
299 
a tudo era uma boa aquisio, fossem quais fossem os seus defeitos. Sentia-se mais perto dele do 
que o estavam certos homens da sua classe, pois Johnnie conhecia o valor do dinheiro. 
Logo na primeira semana justificou a esperana de Scar~ lett. Com os seus cinco forados, realizou 
maior soma de trabalho do que Hugh com o seu grupo de dez negros. Alm disso, como no 
gostava da presena da patroa na fbrica (o que j lho dera a entender) Scarlett passou a dispor de 
mais tempo do que tivera desde a sua chegada a Atlanta no ano anterior. 
-A senhora encarrega-se de vender a madeira e eu de a entregar -havia ele declarado secamente. - 
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Onde esto forados no deve estar uma dama, e, se ainda ningum lhe disse isto, digo--lho eu 
agora. Entrego-lhe a madeira a tempo e horas, no  verdade? Ento no me aparea aqui todos os 
dias como faz ao senhor W"es. Ele precisa de ser estimulado, mas eu no. 
Embora contrariada, Searlett rareou as visitas  serrao de Johnnie, temendo que este a deixasse se 
ela fosse ali frequentemente. A observao acerca de AshIey erai mais verdadeira do que ela queria 
admitir, AshIey obtinha melhores resultados com os presidirios do que com os negros, ainda que 
no soubesse explicar a razo. Alis, parecia envergonhado de os ter s suas ordens. 
Searlett andava preocupada com a mudana verificada em AshIey. Os seus belos cabelos loiros 
entremeavam-se de c's' os ombros descaam-lhe, como acontece aos homens fatigados. Sorria raras 
vezes e j no se parecia nada com o rapaz sedutor que outrora conquistara o corao de Scarlett. 
Dir-se-la minado por uma dor secreta que mal podia suportar. Na boca desenhava-se-lhe uma 
expresso amarga. Searlett bem gostaria de lhe agarrar na cabea, encost-la ao seu ombro, 
acariciar-lhe os cabelos semeados de fios argnteos, e gritar: "Dize-me o que te atormenta! Confiame 
o teu desgosto! Curar-te-ei!" 
Mas faziam-na manter-se a distncia os ares cerimoniosos de AshIey. 
43 
ERA um dos raros dias de Dezembro em que o sol estava quase to quente como no Vero de S. 
Martinho. No jar- 
300 
dim da tia Pitty, o carvalho conservava ainda algumas folhas secas e vermelhas, e na relva persistia 
um tom amarelado. Com a filha ao colo, Scarlett, foi instalar-se na varanda, numa cadeira de 
baloio. Estava de vestido novo, de l verde guarnecido de galo preto 'e tinha na cabea uma coifa 
de renda feita e oferecida pela tia Pitty. 0 vestido e a coifa iam-lhe lindamente e ela bem o sabia. 
Que bom sentir-se bonita depois de parecer feia tantos meses! 
Ps-se a embalar a menina e a trautear uma cano quando, de sbito, ouviu passos de cavalo a 
subir a rua. Espreitou atravs da vinha-virgem cuja folhagem ressequida cobria a balaustrada, e viu 
Rhett Butler, montado, a dirigir-se para ali. 
Partira de Atlanta depois da morte de Gerald e muito antes do nascimento de Ella Lorena. Scarlett 
sentira a sua falta, mas agora quisera esconder-se para escapar aos seus olhares. A vista daquele 
rosto moreno causava-lhe uma impresso semelhante a vergonha e a medo. No queria falar de 
certo assunto relacionado com AshIey, e sabia que a questo viria  balha. 
Rhett parou em frente do portG e apeou-se com lgereza, Scarlett, que o observava, achou-o 
parecidissimo com a ilustrao dum livro que Wade queria constantemente que a me lhe lesse em 
voz alta. 
"S. lhe faltam brincos nas orelhas e um punhal entre os dentes", pensou. "Pirata ou no, farei todo 
o possvel para que no me ponha a faca na garganta". 
Atravessou a alameda e Scarlett, exibindo o seu mais belo sorriso, saudou-o alegremente. Ainda 
bem que envergara o vestido novo e pusera uma coifa que lhe ia a matar. Pelo olhar com que Rhett 
a envolveu, adivinhou que tambm ele a achava bonita, 
- Outro nen! Que grande surpresa! - exclamou Bufler rindo e curvando-se para afastar o xalle que 
escondia a carita de Ella Lorena. 
- No seja tolo! - disse Scarlett, corando. - Como tem passado? H muito tempo que no nos vemos. 
-  verdade. Deixe-me pegar no nen. No tenha medo, sei lidar com crianas, Aprendi as coisas 
mais variadas em toda a minha vida. Assemelha-se bastante a Frank, o maroto, P, tal qual o pai, 
menos as suas. Mas isso vir com o tempo. 
-Espero que no. n uma menina. 
301 
,Qw@ 'Q'@k 
-Uma menina? Melhor ainda. Os rapazes do muitos desgostos. Aconselho-a a no ter mais rapazes. 
Scarlett esteve para lhe responder que no queria mais filhos, de nenhum sexo, mas conteve-se e 
esboou um sorriso, dando voltas  imaginao para descobrir assunto que retardasse o momento 
#
em que Rhett iniciaria a conversa que ela receava. 
---Fez boa viagem, Rhett? At onde foi desta vez? -A Cuba... a Nova Orlees... a vrios lugares. 
Tome l a garota Scarlett. Ela est a babar-se e eu no posso tirar o leno. ]@,' uma criana 
encantadora, mas vai inundar-me o peitilho da camisa. 
Scarlett ps a filha no regao. Rhett sentou-se indolentemente na balaustrada e tirou um charuto 
dum estojo de prata. 
-Vai sempre a Nova Orlees e nunca me diz o que o atrai l-observou Scarlett fingir 
tdo-se amuada. -Sou um grande trabalhador. Talvez sejam os neg&cios que me conduzem a essa 
cidade. 
- Um grande trabalhador! Voc! - replicou Scarlett, com um riso impertinente. -Nunca o vi 
trabalhar em toda a minha vida! Um preguioso  o que . Limita-se a financiar as empresas dos 
Sacolas e embolsa metade dos lucros. E suborna os funcionrios yankees, -para que eles partilhem 
consigo os despojos dos pobres contribuintes. 
Rhett deitou a cabea para trs e soltou uma gargalhada. 
- Quanto voc gostaria de ter dinheiro suficiente para subornar funcionrios e fazer o que eu fao! 
- Que ideia! - retorquiu Scarlett, agastada. 
- Talvez um dia se veja rica e pratique o suborno em grande escala. Os presidirios que tem agora a 
trabalhar por sua conta so capazes de a fazer ganhar somas fabulosas. 
- Ah! - exclamou ela, um tanto desconcertada. - Como  que sabe que aluguei forados? 
-Cheguei ontem e estive um bocado da noite na "Girl of the Period", onde comentam tudo o que se 
passa na cidade. n o centro da m-lngua. Muito melhor do que as reunies de costura das senhoras. 
Toda a gente me disse que voc arrendou um grupo de grilhetas e que os entregou a essa besta do 
Gallegher que os mata com trabalho. 
- Mentira! - protestou Scrlett, irada. - Se ele os matasse com trabalho eu metia-o na ordem. 
302 
- Voc? 
- Eu, sim. Como se atreve a insinuar semelhante coisa? -Oh ' peo-lhe perdo, senhora Kennedy! 
Sei que as suas intenes foram sempre puras. Mas isso no impede de Johnnie Gallegher ser o 
maior bruto que eu conheo. Deve t-lo debaixo de olho, seno arrisca-se a complicaes quando os 
inspectores fizerem uma ronda pela sua fbrica. 
-Trate da sua vida que eu trato da minha. No quero ouvir falar mais dos forados. Toda a gente me 
maa por causa deles. Isso  comigo e com mais ningum... E com esta histria ainda no me 
contou o que fez em Nova Orlees. Vai l tantas vezes, que se diz por a... 
Scarlett. interrompeu-se. -0 que  que s-e diz? 
- Ora... Diz-se que tem l urna namorada, Consta que voc vai casar. n verdade, Rhett? 
Searlett estava h tanto tempo com vontade de satisfazer a sua curiosidade que no pde conter-se e 
lhe fez a pergunta  queima-roupa. A ideia de que Rhett se ia casar causava-lhe uma ponta de 
cime. 
Rhett olhou para Scarlett, com tanta insistncia que ela se ruborizou. 
-Contraria-a muito a perspectiva do meu enlace? 
- Ser-me-ia desagradvel perder a sua amizade - respondeu ela inclinando-se para compor o xaile de 
Ella Lorena, com' ar despreocupado. 
-Olhe para mim, Scarlett, -ordenou Rhett, Scarlett ergueu a cabea e mais corada ficou. -Pode 
informar as suas amigas indiscretas que, se eu um dia me casar, ser porque no pude obter doutra 
maneira a mulher que desejava. Mas, por enquanto, no me sinto apaixonado a esse ponto por 
nenhuma mulher. 
Agora  que ela se sentia confusa e embaraada, porque se lembrava da noite em que naquela 
mesma varanda e durante o cerco, Rhett lhe @issera: "No fui feito para marido" e lhe propusera 
faz-la sua amante. Recordou-se tambm da cena terrvel na priso, naquele dia em que o visitara; e 
tudo isto a envergonhava imenso, pois ele parecia adivinhar-lhe os pensamentos. 
-No entanto vou satisfazer-lhe a curiosidade, j que tanto o quer. N@  nenhuma noiva a pessoa 
#
que me atrai a Nova Orlees.  uma criana, um rapazinho. 
303 
- Um rapazinho! -A surpresa foi to grande que ela perdeu logo o constrangimento que sentia. 
- n verdade. Trata-se dum pupilo, por quem a lei me obriga a interessgr-me. Estuda em Nova 
Orlees e eu vou visit-lo com frequncia. 
-E leva-lhe presentes? - Formulando esta pergunta, Scarlett pensava estar a a explicao da 
acertada escolha que ele fazia' dos brinquedos oferecidos a Wade, 
-Levo -respondeu laconicamente. 
- Nunca imaginei uma coisa dessas! E  bonito? 
- Bonito demais para ser bonzinho. 
- Ah,  traquinas?! 
- Um verdadeiro diabrete. Mais valia que no tivesse nascido. Os rapazes so insuportveis. Quer 
sabet mais alguma coisa? 
Tinha um ar zangado, carrancudo, como se j se houvesse arrependido de ter falado tanto. 
-Se no quer dizer mais nada, no insistirei - declarou ela, embora ansiasse por mais 
esclarecimentos. -Em todo o caso, no o concebo no papel de tutor... - acrescentou, rindo, na ideia 
de o desconcertar. 
-Acredito. A sua viso  muito limitada. No disse mais, e acabou de fumar em silncio o charuto. 
Scarlett procurava uma observao que fosse to contundente como a dele. 
-Gostaria de que no contasse isto a ningum - prosseguiu Rhett, depois daquele intervalo. - Se bem 
que seja impossvel pedir a uma mulher que no abra a, boca... 
- Sei guardar segredos -declarou Scarlett, num tom de dignidade ofendida. 
- Sabe? P, sempre agradvel descobrir nos amigos qualidades que no julgvamos possurem. E 
agora basta de ironias. Lastimo ter sido incorrecto, mas voc precisava disto, por ser metedia. 
Sorria agora e seja amvel por um ou dois minutos, antes que fale de coisas aborrecidas. 
"Meu. Deus!" disse ela consigo. "Vai referir-se a Ashley e  serrao". E apressou-se a sorrir, 
tentando desviar-lhe o rumo dos pensamentos. 
- Onde esteve mais, alm de Nova Orlees? -Passei um ms em Charleston. Meu pai morreu. 
- Ah. sinto muito! 
- No  caso para isso. Tenho a certeza de que ele no 
304 
UIII, 
se importou morrer. E eu tambm no me afligi com a sua morte. 
- No diga coisas dessas, Rhett! 
- Seria pior se eu fingisse desgosto 'quando no tive nenhum. Entre ns ruinca houve estima. No 
me lembro de qualquer ocasio em que ele se mostrasse meu amigo. Eu parecia-me muito com o 
av, para que meu pai me tivesse em considerao. Com o tempo, a antipatia, cresceu, e eu 
confesso, no tratei de modificar a sua opinio a meu resp@ito. Tudo o que meu pai exigia de mim 
eram coisas bastante enfadonhas, No fim, ps-me com dono e eu vi-me s,6 no mundo, sem um 
cntimo e sem ter aprendido mais do que ser um janota de Charleston, bom atirador e excelente 
jogador de poker. E parece que tomou corno ofensa pessoal o facto de eu no ter morrido de fome e 
haver, em vez disso, aproveitado os meus 'conhecimentos de jogador para levar vida principesca. 
Ficou to furioso por ver um Butler viver do poker, que proibiu a minha me que me visitasse. 
Durante a guerra, quando eu passava por Charleston ela s s escondidas  que podia ver-me.  
claro que is'to no fez nada para aumentar a minha estima pelo pai... 
- Ignorava todas essas coisas. 
- Meu pai era o que se chamava um cavalheiro da velha guarda, o que quer dizer ignorante, limitado 
teimoso, sem nenhum pensamento original. Todos o adm@1ravam muito pela sua atitude @para - 
comigo. "Se o teu olho direito te escandalizar, lana-o fora". Eu era o seu olho direito ' o seu 
primognito 'e lanou-me fora com gesto vingador. 
Rhett esboou um sorriso  evocao dessas recordaes, mas a expresso manteve-se dura. 
#
-Ainda podia esquecer isso -continuou -mas o que no perdoo  como tratou minha me e minha 
irm depois da guerra. Por culpa dele, ficaram praticamente,na misria. Incendiaram-nos a quinta e 
os arrozais tornaram-se em pntanos. A casa de Charleston foi vendida porque o pai no pagou os 
impostos, e tiveram de ir habitar dois quartos que nem os pretos quereriam para morar. Enviei 
dinheiro a minha me, mas o pai devolveu-mo. Considerava-o dinheiro impuro... compreende? 
Diversas vezes fui a Charleston para entregar, s escondidas qualquer coisa a minha irm. Mas o 
pai, no sei como, d@scobria sempre a marosca, e fazia tais cenas que a vida da pobre pequena se 
tornou num 
20 - Vento Levou - 11 305 
inferno. E, j se sabe o dinheiro vinha outra vez parar-me s mos. Meu irmo ava-lhe o que podia, 
mas pouco tinha para dar e tambm recusava o meu auxlio... Dinheiro dum especulador acarreta 
desgraa, no ? 0 certo  que a me e minha irm tiveram de recorrer  caridade das amigas. A sua 
tia Eulalie foi muito bondosa para elas. n uma das melhores amigas de minha me, no sabia? 
Forneceu-lhe roupa e... Santo Deus! Minha me a viver de esmolas! 
-A tia Lalie! Ela pouco tem alm do que lhe mando! 
- Ah, eis donde lhe vem o dinheiro! Que m educao a sua, Scarlett, aproveitar-se da minha 
humilhao para exibir a sua generosidade! H-de permitir que eu a reembolse. 
-Com todo o gosto -respondeu Scarlett, cujos lbios se distenderam num sorriso. _ Como os seus 
olhos reluzem quando se fala em dinheiro! Tem a certeza de que no h nas suas veias uma gota de 
sangue escocs ou judeu? 
-No seja antiptico, Rhett A minha inteno no era feri-lo quando disse que ajudava a tia Lalie. 
Mas, francamente, ela pensar que nado em oiro? Escreve-me constantemente a pedir mais e mais e 
eu j tenho muita despesa para sustentar toda a cidade de Charleston. De que morreu o seu @ai? 
- e fome, suponho eu. E se no foi devia ser, para seu castigo. Quando penso nas privaes 4ue 
minha me e Rosemary sofreram por culpa dele! Mas, enfim, morreu e eu j posso auxili-las. 
Comprei-lhes uma casa na Fortaleza e arranjei-lhes criados. P, claro, no querem que se saiba donde 
lhes vem@o auxlio. 
- Porqu? 
- No conhece Charleston, minha boa amiga! A minha famlia tem o direito de ser pobre, mas deve 
manter o seu lugar. Ora no ocuparia por muito tempo es,-,e lugar se soubessem que ela aceitou 
dinheiro dum jogador, dum especulador, dum Sacola. Minha me e minha irm do a entender que 
o pai lhes deixou um bom seguro (para o no perder, tinham passado fome) e que, graas a isso, 
podiam viver agora na, abastana. Em suma, dizem tantas e to boas que, mesmo depois de morto 
' meu pai  considerado um grande senhor da velha escola. Mais do que isso ainda, consideraro-no 
um mrtir. H-de dar muito pulo na sepultura ao saber que -a me e Rosemary tm uma existncia 
306 
desafogada... apesar de todos os seus esforos. Por um lado, lastimo que haja morrido. E le tinha. 
tanta vontade de morrer! 
- Porqu? foi a rendio de Lee. 
- Na realidade, morreu quando Percebe como isso . No soube adaptar-se s novas Circunstncias; 
e passava o tempo a discorrer sobre os bons tempos idos. 
- Rhett, as pessoas de idade sero todas assim? - Pensava em Gerald e no que Will lhe dissera a seu 
respeito. 
- No graas a Deus! Olhe o seu tio Henry, e esse velho gat@ bravo do Merriwether, para s 
mencionar dois. AmbGs assinaram novo contrato de vida desde que marcharam com as tropas 
locais; d-me a impresso de que se tornaram mais novos e mais cheios de ardor. Esta manh 
encontrei o Merriwether, que conduzia a carroa dos fornecimentos de Ren e descarregava pragas 
sobre o cavalo como um autntico carroceIro. Disse-me que se sentia dez a@nos mais jovem desde 
que escapara  tutela da nora. 
uanto ao seu tio'Henry, diverte-se doutra maneira. Combate os yankees no tribunal e fora dele, e 
defende vivas e rfos contra os Sacolas. E de graa, creio eu. Se no fosse a guerra, j ele estaria 
#
em casa h muito tempo, a tratar do reumatismo. Esses homens rejuvenesceram porque sentem que 
ainda prestam para alguma, coisa e que os outros precisam deles. No amaldioam esta poca que 
proporciona aos velhos nova oportunidade. No entanto, h muitos que pensam como o meu pi e 
como o seu. No podem nem querem adaptar-se... A propsito, preciso de discutir consigo um 
assunto desagradvel. 
Esta reviravolta da conversa causou tal surpresa a 
Scarlett que ela s6 pde balbuciar: 
-Que... ?-"Pronto j est!" disse consigo. 
- Conhecendo-a como'a conheo no devia esperar de si nem lealdade, nem probidade, n@m honra. 
Mas fui to parvo que acreditei em si. 
-No percebo o que quer dizer. 
- Percebe at muito bem. Est com um arzinho culpado que no engana. H pouco, quando vinha 
pela Ivy Street em direco  sua casa, ouvi algum charnar-me por cima duma sebe. Quem podia 
ser seno a esposa de Asliley Wilkes? Como  natural, parei e pus-me a conversar com ela. 
- Ali, sini?! 
307 
-Tivemos uma conversa deveras agradvel. Disse-me a sua cunhada que h muito desejava felicitarme 
pela minha bravura; parece que me admira pelo facto de eu me ter aliado  causa da 
Confederao, embora fosse  -ltima hora. 
- Melly  louca! Esque~ que a sua bravura lhe ia custando a vida, certa noite. 
- Creio que ela daria a vida por uma boa causa. Quando lhe perguntei o que estava, a fazer em 
Atlanta, espantou-se com a minha ignorneia e informou-me que moravam agora aqui porque voc 
tivera a bondade de tomar como scio o senhor Wilkes. 
-E ento? -replicou secamente Scarlett. -Quando lhe emprestei o dinheiro para comprar a serrao, 
estipulei-uma clusula com a qual concordou: sob nenhum pretexto aquele dinheiro serviria para 
sustentar Asliley Wilkes,' 
- Est muito agressivo! Paguei-lhe o que devia. A serTao  minha e fao o que me apetece. 
- Far a fineza. de me explicar como obteve a soma necessria para a liquidao da dvida? 
-Com o negcio de madeiras,  claro! -Esse negcio foi  custa do meu emprstimo. 0 meu dinheiro 
est a ser utilizado para o sustento de Asliley. Voc  uma criatura, sem palavra e, se no me tivesse 
reembolsado, eu sentiria extraordinrio prazer em exigir-lhe pagamento imediato e em vender-lhe 
tudo em hasta pblica, se no pudesse pagar. 
Rliett falava em tom de gracejo, mas os olhos brilha, vam-lhe de clera. 
Scarlett tratou de virar a ponta ao prego. -Por que odeia Ashley a esse ponto? Sero cimes, por 
acaso? 
Assim que proferiu estas palavras, arrependeu-se do que dissera, porque Rliett desatou s 
gargalhadas. Scarlett corou at  raiz dos cabelos. 
- Sim, acrescente a vaidade  falta de palavra - observou ele. - Considera-se sempre a rainha destes 
stios? Imagina-se ainda sobre o seu pedestal e julga que todos os homens morrem de amor por si? 
- No julgo nada! - protestou ela, com veemncia. - 
Mas  a nica explicao que encontro para o seu dio contra Asliley. 
308 
-Ento procure outra, minha bela feiticeira, porque no  essa. Quanto a odiar Asliley... tenho-lhe 
tanto dio como amor. 0 nico sentimento que ele me inspira  piedade. 
- Piedade? 
- Sim, com um pouco de desprezo,  -mistura. Agora, inche para ai como um peru e afirme que 
Asliley vale mil vezes mais do que um biltre da minha laia e que nem sabe como me atrevo a ter 
piedade e desprezo por ele. E, quando -estiver mais calma, dir-lhe-ei o que entendo por isso, se lhe 
interessa. 
-No me interessa nada. 
- Dir-lho-ei da mesma maneira, porque no quero que acalente iluses sobre os meus cimes. Tenho 
#
pena dele, porque mais lhe valera morrer. Desprezo-o, porque no sabe para onde se voltar desde 
que desapareceu o mundo dos seus sonhos. 
Esta ideia no era absolutamente nova para Scarlett. Lembrava-se de ter ouvido uma reflexo 
anloga, mas no se recordava onde nem quando. Alis, no tentou averiguar, porque a clera a 
dominava. 
- Se dependesse de si, j no existia um nico homem decente no Sul. 
- E se dependesse deles, os tipos do gnero de Ashley preferiam j no existir. No lhes seria 
desagradvel estarem agora a repousar debaixo duma lousa com estas palavras gravadas: "Aqui jaz 
um soldado da Confederao, que morreu pelo pas do Sul..." Ou Dulce et decorum est... ou 
qualquer outro epitfio no mesmo gnero. 
-No vejo porqu! 
- Nunca v nada, nem mesmo o que se mete pelos olhos dentro. Se esses homens tivessem morrido 
j no estariam a contas com problemas insolveis. Mor@endo, desapareciam todas as suas 
preocupaes terrenas. Alm disso, seriam venerados pelas respectivas famlias durante vrias 
geraes. Sempre ouvi dizer que os mortos so, felizes. Acha que Asliley Wilkes  feliz? 
- Pois claro que... -comeou Scarlett, mas logo se calou ao lembrar-se daquela expresso que, havia 
pouco tempo, notara nos olhos de Asliley. 
-Acredita que ele, o Hugh Elsing ou o Dr. Meade so mais felizes do que o meu pai e o seu foram 
em vida? 
309 
&w 
- No sero tanto como deviam, porque perderam todos os seus haveres, 
-No se trata disso, minha linda -volveu Rhett, rindo-se. -0 que eles perderam foi o seu mundo... o 
mundo em que foram embalados. Sentem-se agora como peixe fora de gua.. Educaram-nos para 
desempenhar certo papel, para fazer determinadas coisas, para ocupar este e aquele nicho. E esses 
papis, essas coisas e esses nichos deixaram de existir no dia em que o general Lee chegou a 
Appomattox. No assuma esse ar aparvalhado, Scarlett! Que pode fazer Ashley W11kes agora que 
j no tem lar, que lhe confiscaram a planta@o por no pagar os impostos e que h mais de vinte 
senhores a correr atrs duma moeda de cobre?  capaz de trabalhar com as mos? Como empregar 
as suas faculdades intelectuais? Aposto que voc perdeu dinheiro desde que ele tomou conta da 
serrao. 
No perdi! Ainda bem. Autoriza-me a deitar uma vista de olhos nos seus livros comerciais quando 
no estiver muito ocupada? Num domingo, por exemplo ... ? 
-0 que eu autorizo  a retirar-se, e quanto antes. V para o diabo! 
-Conheo o diabo, e digo-lhe que  um companheiro muito sensaboro, No fao nenhum empenho 
em tornar a v-lo... Tenho muito mais empenho em fazer-lhe notar que aceitou o meu dinheiro 
quando precisou dele e que o utilizou. Chegmos a um acordo quanto  maneira como o utilizaria, e 
voc faltou  sua palavra. Mas lembre-se disto, minha rica embusteira: l chegar o tempo em que 
me vai pedir emprestado mais dinheiro. H-de querer que eu empregue capital nos seus negcios, a 
juro ridiculamente baixo, para comprar outras serraes e outros muares e mandar construir outros 
botequins. E nessa altura, pode assobiar pelo. dinheiro que ele-no ap@recer, 
- Muito obrigada. 'Quando eu precisar de capital, dirigir-me-ei ao Banco -declarou Scarlett, sem 
amenidade, com a ira a encher-lhe o peito. 
-- Ah, sim?! Ora vejamos. Eu sou um dos maiores accionistas do Banco. 
- Palavra? 
- E tenho interesses ligados a empresas honestas. 
- H outros Bancos. 
- Muitos, at. Mas sou capaz de conseguir que no lhe 
310 
emprestem um cntimo. Se precisar, v antes ter com os Sacolas, que so usurrios. 
-Com todo o gosto. -Vai desanimar quando conhecer a taxa, do juro. As intrujices pagam-se sempre 
#
no mundo dos negcios. Comigo tem de fazer jogo franco. 
- Considera-se um homem s direitas. Rico, influente... mas abusa da situao dos que se encontram 
em baixo, como Asliley e eu. 
-No se coloque na mesma, categoria que ele. Voc no est em baixo, e nada a abater. Mas ele 
ficou de ras@tos e assim permanecer, a menos que algum mais enrgico o levante e o proteja 
enquanto viver. Seja como for, no me interessa ver o meu dinheiro utilizado em benefcio de 
semelhante gente. 
-A mim, no se importou ajudar, e... 
- Fi-lo a ttulo de experincia, Porqu? Porque voc no vivia  custa dos homens da sua famlia 
nem carpia os tempos idos. Desenvencilhou-se sozinha e agora a sua riqueza estriba-se firmamente 
sobre o dinheiro roubado  carteira dum morto e sobre o dinheiro roubado  Confederao. Tem 
muitas coisas no seu activo: cometeu um assassnio'furtou um marido, tentou prostituir-s@e, mentiu 
e foi desleal. Coisas admirveis todas elas; demonstram uma personalidade enrgica e decidida, a 
quem  um tanto arriscado fazer emprstimos. Emprestaria dez mil dlares, sem recibo, quela 
matrona romana que  a senhora Merriwether. Comeou por um cesto de pastis, e veja agora! Tem 
uma dzia de empregados na pastelaria, o velho anda felicissimo na carroa de distribuio a<> 
domiclio e esse crioulo do Ren, que noutros tempos era mandrio, trabalha de manh  noite e 
mostra-se radiante... E aquele pobre diabo ' o Tommy Wellburn que, embora aleijado labora todo o 
santo dia... E... 3kas fiquemos por aqui, para no a importunar. 
- J me importunou bastante - replicou Scarlett, friamente, na esperana de que Rhett se irritasse e 
esquecesse Asliley. 
Ele, porm,, limitou-se a rir e prosseguiu na conversa: 
- Pessoas como aquelas merecem ser auxiliadas. Mas Ashley! Tipos da laia dele no servem de 
nada num mundo catico como o nosso. So os primeiros a perecer no turbilho. E por que no 
seria assim? No so dignos de sobre- 
311 
viver, porque no aceitam o combate nem sabem lutar. No  a primeira vez que o mundo est@ em 
confuso, nem ser a ltima. Quando isto acontece, cada qual perde o que possui, todos se 
encontram no mesmo p de igualdade. 
15: preciso recomear, dispondo apenas da inteligncia e da fora. Mas h indivduos, como 
Ashley, que no tm inteligncia nem fora ou, se as tm sentem repugnncia em servir-se delas. 
Es@es nunca se levantam e cada vez se afundam mais. n uma lei natural, e o mundo passa bem sem 
eles. Outros, pelo contrrio, esforam-se no combate e no tardam a conquistar a posio que 
ocupavam antes de o mundo entrar em barafunda. 
-Voc- tambm j foi pobre! Disse-me h pouco que o seu pai o expulsara de casa sem uma moeda 
no bolso! - 
exclamou Scarlett, furiosa. - Pensava que compreendesse AshIey e se condoesse da sua pouca sorte. 
-Compreendo-o perfeitamente -respondeu Rhettmas diabos me levem se me condoo da sua pouca 
sorte, ce 
omo acaba de dizer. Depois da rendio, Aslil ficou em muito melhores circunstncias do que eu 
quan17co meu pai me ps na rua. Pelo menos teve amigos que o recolheram, ao passo que eu estava 
como Ismael. Mas ele o que fez? 
- Quer compar-lo a si, seu pretensioso? Graas a Deus, Asliley no se parece consigo. No seria 
ele que sujaria a9 mos com dinheiro dos Sacolas, dos Renegados e dos yankees. .1@ um homem 
escrupuloso e honesto. 
- Mas no to escrupuloso e honesto que no aceite o auxlio e o dinheiro duma mulher. 
- Que outra coisa podia fazer? 
- Eu  que sei? S sei a que fiz desde que meu pai me expulsou e o que outros fizeram durante e 
depois da guerra. Vimos o partido que podamos tirar da runa duma civilizao e aproveitmos a 
oportunidade. Alguns recorreram a meios honestos 1outros a meios equvocos, mas todos nos 
portmos  altura das circunstncias. Os Ashleys deste mundo tiveram as mesmas probabilidades 
#
que ns, e no souberam aproveit-la. Falta-lhes esperteza, e s quem  esperto merece viver. 
S.carlett mal o ouvia, porque se lembrara daquilo que em vo procurara nos arcanos da memria 
quando Rhett comeara a falar. Revia o pomar de Tara, varrido pelo vento frio. Asliley estava de p 
junto duma pilha de estacas, e olhava-a sem ver. E diss@ra-lhe... 0 que lhe dissera 
312 
ao certo? Pro'ferira um nome arrevesado, uni nome estran~ geiro, e falara do fim do mundo. Nessa 
altura, ela no compreendera o significado das suas palavras, mas agora come. ava a compreender 
e invadia-a uma sensao de angstia. 
- AshIey disse... -0 qu? --Uma vez em Tara, disse qualquer coisa a respeito do crepsculo os 
deuses e do fim do mundo. 
- Ah ' o Gotterdarn,meruug! -exclamou Rhett, com osi olhos a cintilar de interesse. -E que mais? 
-N(> me lembro bem, No lhe prestei muita ateno. Mas parece-me que... Sim, disse que 
venceriam os que tivessem coragem e miolos 'e que os outros seriam eliminados. 
-Ento  porque se conhece a si prprio. Pior para ele! A maior parte das pessoas no se conhece, 
no compreende o que se passa nem jamais compreender. Essas levam a vida a pensar para onde 
teria ido o encantamento dos tempos pretritos. Desconhecem a sua incapacidade. Mas AshIey sabe 
que est liquidado. 
- ao, enquanto eu tiver um sopro de vida! Rhett fitou-a serenamente, j sem a expresso de dureza 
no rosto trigueiro. 
- Searlett, como conseguiu que AshIey viesse para Atlanta dirigir-lhe a serrao? No lhe ops 
resistncia? 
Scarlett recordou-se da cena que houvera a seguir ao enterro de Gerald, mas afastou de si essa 
lembrana. 
- Que ideia! - exclamou, indignada. - Bastou explicar-lhe que precisava dele porque no confiava 
naquele patife que eu tinha na serrao e porque Frank no dispunha de tempo para me ajudar. E 
disse-lhe tambm que eu... em suma, a Ella Lorena atrapalhava-me a vida, AshIey ficou at muito 
satisfeito por ter ensejo de me auxiliar. 
-Que belo uso fazem da maternidade! Foi ento assim que apanhou Ashley. Alcanou o seu 
objectivo. 0 pobre diabo est mais acorrentado pelos favores que lhe deve do que qualquer dos seus 
forados Com a grilheta. Desejo que ambos se divirtam muito. Mas, como j declarei no prin~ elpo 
da, nossa conversa, no conte mais comigo para nenhuma das suas manigncias minha cara 
intrujona. 
Scarlett no s estava fuAosa como sofrera uma desiluso. Desde algumas semanas que acalentava 
o projecto de pedir novo emprstimo a Rhett para comprar o terreno onde tencionava fazer um 
depsito de madeiras. 
313 
- No preciso do seu dinheiro! - bradou. - Estou a ganhar bastante, graas a Johnnie Gallegher. 
Alm disso, tenho capital empregado em hipotecas donde tiro bons juros, e o armazm de Frank d 
mais lucros do que nunca. 
-Sim, j ouvi falar dos seus empregos de capital. De facto, nada mais hbil do que roubar gente 
indefesa, viti vas, rfos e ignorantes! Se lhe agrada roubar, por que no se atira aos ricos e aos 
fortes, e no aos pobres e aos fracos? Depois de Robin dos Bosques, isso passou a ser altamente 
moral. 
- Porque - ripostou ela friamente -  mais fcil e mais seguro roubar os pobres... como diz. 
Rhett teve um riso sufocado, que lhe fez tremer os ombros. 
-Scarlett, voc  uma velhaca de primeira ordem! Uma velhaca! 0 nome escandalizou-a e 
surpreendeu-a ao mesmo tempo. "No, no sou", reflectiu, querendo convencer-se de que realmente 
no o era. Pelo menos, no queria s-lo. Pretendia impor-se como uma grande dama. Por momentos, 
perscrutou a memria e reviu a me, a mover-se dum lado para outro com um sussurro de salas 
levemente perfumadas, com as suas mos incansveis sempre pronta ao servio dos outros. 
Adulada, querida, respeitada! E o corao confrangeu-se-lhe. 
#
-Se procura enfurecer-me -disse por fim, com ar fatigado-olhe que est a perder o tempo. Bem sei 
que no sou to.... escrupulosa como devia ser. Nem to bondosa e afvel como me ensinaram a ser. 
Mas no o posso evitar. ]@ impossvel, acredite. Que teria sucedido, a Wade a Tara, a ns todos, se 
eu houvesse sido ... dcil quand@ aquele yankee chegou  quinta? Podia ter ... mas acho 
prefervel no pensar nisso, E quando Jonas Wilkerson nos quis fie-ar com a propriedade... que 
seria tambm de ns se eu fosse... dcil e escrupulosa? Onde estaramos agora? Se eu houvesse sido 
sincera, cndida, acomodatcia a respeito daquelas dvidas de que Frank era credor... Sim, talvez eu 
seja velhaca, mas no o serei para sempre. 0 que no pude foi deixar de o ser durante aquele tempo 
e mesmo agora. Poderia eu agir doutra forma? H ano@ que tenho a impresso, de que vou a remar 
uma barca no meio de temporal, uma barca excessivamente carregada. E para que ela no se 
afundasse, no hesitei em atirar pela borda fora tudo o que eu considerava de somenos importncia. 
314 
- Orgulho, honra, virtude e bondade - enumerou Rhett em voz melflua. - Tem razo Scarlett. Nada 
disso importa quando um barco vai a afun6r. Mas repare nos seus amigos, Ou conseguem entrar no 
porto com a carga intacta ou deixam-se ir ao fundo com todas as bandeiras desfraldadas. 
- ig@ uma scia de imbecis! -comentou Scarlett. -H tempo para tudo. Quando eu for rica serei uma 
senhora como essas que admira, uma mulher encantadora. Nessa altura poderei dar-me a esse luxo. 
-E tambm pode agora... mas no quer. E talvez no possa, pois  difcil recuperar o que se lanou 
pela borda fora, e quando se recupera est tudo em msero estado e nada se aproveita. Se chegar a 
pescar a honra, a virtude e a bondade que deitou fora, ver que a gua do mar no lhes fez bem 
nenhum. Oxal que eu me engane... 
Rhett levantou-se bruscamente e pegou no chapu. 
- Vai-se embora? 
- Vou. No fica aliviada? Deixo,-a s com o que lhe resta de conscincia. 
Deteve-se a olhar para o nen, a quem estendeu um dedo que a criana agarrou, 
Frank, j se sabe, no cabe em si de contente... ]@ de supor. E j fez uma quantidade de projectos 
para a mida... Bem sabe como os homens so pelos filhos. Ento diga-lhe -continuou Rhett, cujo 
olhar tornou uma expresso estranha - que se deixe ficar mais vezes em casa,  noite se quiser que 
esses projectos se realizem. 
- No percebo. 
- n isto mesmo. Dga-lhe que fique em casa. 
- Oh, que perversidade a sua! -Insinuar que o pobre Frank... 
- Meu Deus! - exclamou ele, desatando a rir. -Eu no quero dar a entender que ele ande atrs de 
mulheres... Essa  boa! 
Sem deixar de rir, desceu os degraus e foi-se embora. 
44 
A TARDE de Maro estava fria e ventosa, e Scarlett cobriu-se at ao peito com a manta de viagem 
no trem que a levava da Decatur Road  serrao gerida por Johnnie Gallegher. 
315 
@dK@ --- 
Bem sabia ela que essas sadas solitrias se tornavam cada vez mais perigosas, pois agora os pretos 
faziam o que queriam e ningum tinha mo neles. Como AshIey previra, a situao havia piorado 
desde que o Parlamento se opusera  emenda. 0 Norte, furioso, considerara a recusa como uma 
bofetada e a vingana no se fizera esperar: estava firmemente decidido a impor o voto dos negros 
naquele Estado e, por isso, Gergia sofria a lei marcial como consequncia da sua rebelio, Deixara 
at de existir como Estado e tornarw-se, aps Florida e Alabama, "distrito militar nmero trs" 
colocado sob o comando dum general federal. 
Se a vida fora insegura e ameaadora antes disso, agora a situao dobrara de perigos. Os 
regulamentos militares, que no ano anteror haviam parecido to rigorosos, afiguravam-se 
suavssimos comparados com os que acabava de decretar.o general Pope. Com semelhante 
perspectiva, o futuro apresentava-se sombrio e desesperado. Quanto aos homens de cor, andavam 
#
delirantes com a importncia que lhes atribuam; sabendo que tinham atrs de si o exrcito yankee, 
entregavam-se a actos de violncia cada vez maiores. Ningum estava livre dos seus ataques. 
No meio daquela inquietao geral, Scarlett no deixava de se assustar, mas resolvera defender-se 
'e dava as suas voltas szinha no trem, com a pistola de Frank sempre ao alcance da mo. 
Intimamente, ela amaldioava o Parlamento por haver concorrido para um estado de coisas to 
srio. De que servira esse rasgo que todos qualificavam de cavalheiresco? S para agravar a 
situao. 
Ao aproximar-se do caminho que, entre rvores despidas, descia at ao valezito onde ficava 
Shantytown, Scarlett deu um estalo com a lngua para incitar o cavalo. Nunca se sentia em 
segurana quando passava nas proximidades desse amontoado de velhas tendas de campanha e de 
toscas cabanas de madeira. Nenhum stio das redondezas gozava de pior fama do que esse onde 
viviam pretos expulsos de toda a parte, meretrizes de cor e brancos da mais baixa condio. 
Constava que era o refgio dos criminosos de ambas as raas e que os soldados yankees iam l em 
primeiro lugar fazer as suas buscas quando andavam em perseguio dum malfeitor. To vulgares 
eram as navalhadas e tiros de pistola naquele bairro que as autoridades raras vezes intervinham. ' 
preferindo deixar os habitantes de Shantytown saldar as suas contas entre eles. Ao fundo da 
316 
mata estava instalado um alambique que destilava aguardente de milho da pior qualidade, e,  noite 
as barracas do vale ressoavam com pragas e gritos de b16ados. 
Os prprios yankees reconheciam ser uma lcera que devia ser cauterizada, mas no tomavam 
nenhuma providncia nesse sentido. As pessoas de Atlanta e Decatur no escondiam a sua 
indignao, pois que, para irem duma cidade a outra, tinham de passar por ali. Os homens cujos 
afazeres eram para aquelas bandas iam sempre prevenidos com pistolas; e as mulheres, ainda que 
protegidas pelos maridos ou irmos receavam ser insultadas pelas prostitutas negras e 
eml@riagadas que encontravam ao longo do caminho. 
Enquanto tivera Archie a seu lado, Scarlett jamais se preocupara com Sharitytown, porque nem a 
mais desbragada das pretas se atrevia a rir-se na sua presena. Mas desde que se via obrigada a 
efectuar sozinha o trajecto, o caso era diferente, e j lhe tinham acontecido vrios incidentes to 
desagradveis como arreliadores. Sempre que a lobrigavam, as negras pareciam querer rivalizar na 
insolncia. 0 nico remdio estava em conservar-se impassvel, embora fervesse de raiva. Nem lhe 
restava o consolo de poder confiar as suas apreenses s amigas ou  famlia, pois no deixariam de 
lhe dizer com ar triunfante: "Ento que esperavas tu?" E todos tratariam de a impedir que fosse  
serrao. Ora Scarlett no estava com ideias de interromper as suas visitas. 
Graas a Deus, nesse dia no se viam mulheres andrajosas  beira da estrada. Chegando  vereda 
que ia ter ao acampamento, Scarlett lanou um olhar de repugnncia s barracas acumuladas ao 
fundo do vale, que o Sol no ocaso iluminava debilmente. 0 vento frio trazia-lhe o cheiro de lenha a 
arder, da carne de porco assada e das fossas de despejo. De nariz franzido, ela sacudiu 
energicamente as rdeas e o cavalo desatou a galopar. 
Ia j soltar um suspiro de alvio quando a garganta se lhe apertou com terror sbito: um negro 
enorme saa lentamente de trs dum carvalho. Scarlett teve medo, mas no ao ponto de perder o 
sangue-frio. Parou e agarrou na pistola. 
- Que deseja? - inquiriu no tom mais rspido que pde. 
0 preto tornou a esconder-se atrs do carvalho e respondeu em voz tmida: 
317 
- Minina Scarlett, no mate o Sam! Sam! Por um momento, Scarlett ficou muda de espanto. Sam, o 
capataz de Tara, que ela no tornara a ver depois do cerco! Como  que ... ? 
- Sai da! Mostra~te para eu ver se s realmente o Sam. Ele obedeceu constrangido. Descalo, 
vestido de farrapos, com calas de cotim e a jaqueta azul muito curta e estreita dos yankees, o 
gigante tinha um aspecto lamentvel. Logo que o reconheceu, Scarlett colocou a pistola no seu 
lugar e sorriu. 
- Oh, Sam! Que prazer tornar a ver-te! Revolvendo os olhos de satisfao, e com um riso largo que 
#
deixava ver a dentadura alva e reluzente, Sam aproximou-se a correr do trem e com as manpulas 
negras, apertou a mo que a antiga p@troa lhe estendia. Via-se-lhe a ponta da lngua cor-de-rosa e, 
na sua alegria, agtava-se e contorcia-se tal um mastim em demonstraes de contentamento. 
-Jesus! Que bom v algum da famlia! -disse ele, apertando a mo de Scarlett quase a ponto de lhe 
quebrar os ossos. -Porqu met susto a mim? Porqu and de pistola? 
- H por a tanta gente m, Sam, que me vejo obrigada a andar armada. Como  possvel que tu, um 
preto respeitvel, vivas num stio destes? Por que no foste visitar-me a Atlanta? 
-No vivo em Shantytown. S vim aqui passe. No queria viv aqui, onde h tanto ngo reles. E 
no sab que minina estava em 'tlanta. Julguei que estava em Tara. Queria, quando pudess<,, volt a 
Tara. 
-Vives em Atlanta desde o cerco? -No, sinhora, andei a viaj -declarou Sam, largando a mo de 
Scarlett, que se ps a mover os dedos para ter a certeza de que no estavam partidos. - Minina 
lembra de quando viu a mim pela ltima vez? Pois trabalh a val fazendo tri4cheira e enchendo 
sempre saco de areia, at Confederado deix 'tlanta. Meu sinh capito morreu e no ficou pessoa 
que dissesse ao Sam o que ele devia faz, ento se escond na mata. Queria volt para Tara, mas 
disseram que todo pas estava a ard, Depois no sabia caminho e tinha medo de encontr soldado 
por no ter papis. Ento vieram os yankee e um sinh que era coronel se fez amigo de mim e me 
mandou trat de seu cavalo e engrax sua 
318 
bota. Sim, sinhora'fiquei contente de s criado como Pork, porque so tinha trabalhado nos campo. E 
disse ao meu coronel, e ele me levou para Savarinali com general Sherman. Nunca vi coisa como 
aquela! Toda a gente a furt, a deit fogo... No queimaram Tara, minina Scarlett? 
-Puseram fogo, mas ns apagmo-lo, 
- Sim, sinhora, o Sam est muito contente. Tara  casa minha onde queria volt. Quando a guerra 
acabou, sinh coronel disse: "Tu, Sam, vens para o Norte comigo. Pagar-te bem". Ento, minina, 
como os outros ngo quis conhec liberdade antes de volt a casa. Fui ao Norte com meu coronel. A 
gente foi a Washington, e a Nova lorque, e a Boston onde mora sinh coronel. Sou ngo viajado. 
Minina Scarlett, nas ruas dos yankee h tanto cavalo e tanto carro que nem se pode cGnt. 
-Gostaste do Norte Sam? Sam coou a cabea'lanuda. 
- Sim e no. Sinh coronel  pessoa fina e sabe trat com ngo ' mas a mul dele j no  mesma 
coisa. No primeiro dia chamou "sinh" a mim. Minha vontade era escond por cho abaixo quando 
ouvi aquilo. Meu coronel  que mandou ela diz Sam 'e ento ela fez o que marido mandava. Mas 
todo o y-ankee chamava a mim sinho O'Hara e pedia que sentasse com eles, como se ngo e branco 
fosse igual, Nunca sentei coin branco, e j s muito velho para aprend. Mas no fundo yankee no 
gosta de ngo. E tinham medo de mim, por s muito grande. Andavam sempre a fal dos ces que 
corria atrs dos ri9o e das chicotadas que levava. Nunca ningum bateu em mim, minina Scarlett! 
Sinh Gerald no queria nunca que batessem em escravo qui custa caro! Quando souberam que 
sinhora Ellen era to boa para os ngo que at passou comigo uma semana quando tive peumonia, 
no quiseram cr. Ah, minina Scarlett, j tinha tanta saudade de sinhora Ellen e de Tara, que um dia 
vim emb e fiz todo caminho para 'tlanta num vago de mercadoria! Que alegria torn a ver sinhora 
Ellen e sinh Gerald! J no quero c sab de liberdade. Quero  algum que diga o que devo faz e 
o que no devo faz, e que d boa comida e tratamento a mim quando estiv doente, Sei l se 
peumonia volta! Sinhora yankee dizia "sinh", mas quanto a trat de doena... Sinhora Ellen, essa 
h-de quer trat do velho ngo quando ele adoec... Que  que tem, minina Scarlett? 
319 
-0 pai e a me morreram ambos, Sam. -Morreram? Est a brinc comigo, minina? No seja m para 
mim. 
o estou @@ brincar Sam. A me faleceu quando os soldados de Sherman fora@n a Tara... e o pai... 
morreu em Junho passado. No chores, Sam! Se choras, acabo tambm por chorar. No falemos 
agora mais deste assunto. Fica para outra vez, e ento contar-te-ei tudo... A menina Suellen continua 
em Tara. Casou com uma esplndida pessoa, o senhor Will Benteen. A menina Carreen foi para... - 
#
Scarlett interrompeu-se. Nunca poderia fazer compreender quele gigante lavado em lgrimas o que 
era um convento. -A menina Carreen vive agora em Charleston. 0 Pork e -a Prissy ainda esto em 
Tara... Vamos, Sam, limpa esse nariz. Queres de facto voltar para casa? 
- Sim, sinhora, mas sem sinhora Ellen j no  como era. 
- Sam, gostarias de ficar em Atlanta e trabalhar para mim? Preciso dum cocheiro. E preciso com 
urgncia, por causa desses malvados que por a andam. 
- Sim, sinhora, precisa de cocheiro. Ia mesmo diz agora que minina no devia and assim sozinha. 
Sabe como certos ngo so mau hoje em dia em especi os que vivem em Shantytown. Minina tem 
de @ cautela. S estou c desde anteontm, mas j ouvi fal de minina Scarlett. Ontem,, quando 
aquelas desavergonhadas disseram palavroes a sua passage, bem na conheci, mas minina ia muito 
depressa e ningum a apanhava. Mas chego a roupa ao plo dessas nga. Minna viu alguma hoje 
por aqui? 
- No reparei, mas agradeo-te, Sam, Ento, sempre queres entrar para o meu servio? , 
Sam baixou a cabea e, com a. ponta do p, ps-se a traar desenhos misteriosos na poeira da 
estrada. 
- Obrigado, minina, mas acho melh i para Tara. 
Por que  que no queres? Pago-te bem, contanto que fiques comigo. 
Sam ergueu a cabea, mostrando a cara assustada como a duma criana, e aproximou-se do trem, 
murmurando em voz muito baixa: 
- Minina Scarlett, tenho de sa de 'tlanta. Tenho de 1 para Tara, onde no encontram a mim. Matei 
um homem. 
-Um preto? 
320 
b 
- No, sinhora 'um branco. Um soldado yankee. Por isso, procuram a mim. Por isso estou em 
Shantytawn. 
- Como aconteceu semelhante coisa? 
- Ele estava bbado e disse palavra que no gostei. Deitei-lhe mo ao pescoo... No queria mat, 
minina Scarlett, mas tenho fora na mo e matei sem sab. Fiquei com tanto medo que nem sabia 
que faz, Ento vim escond aqui e quando a vi ontem pass disse comigo: "Louvado seja Deus1  
minina Scarlett! Ela vai trat de mim. No h-de deix os yankee prend Sam. H-de mand para 
Tara". 
- Dizes que te procuram? Sabem que foste tu quem matou o soldado? 
- Sim, sinhora. Sou to grande que  fcil reconhec em toda a parte. Acho que sou o ngo maior de 
'tlanta. Ontem  noite vieram procur, mas uma rapariga nga escond a mim numa cabana da mata, 
e eles foi emb. 
Scarlett esteve pensativa uns momentos. Pouco se importava que Sam tivesse assassinadoum 
yankee, mas ficara descorooada por no poder tom-lo como cocheiro. Um gigante como Sam 
seria to bom guarda-costas como Archie. Em todo o caso, devia arranjar maneira de o mandar para 
Tara, onde ele estaria em segurana, Era um preto valioso para ser enforcado. Nunca houvera 
melhor capataz em Tara! Scarlett nem se lembrou de que Sam era livre. Pertencia-lhe ainda como 
Pork, Bab, Peter e Prissy. Continuava a "ser da fmlia" e, como tal, ela devia proteg-lo. 
- Irs para Tara esta noite -decidiu por fim Scarlett. 
- E, agora escuta-me com ateno. Ainda tenho umas voltas a dar, mas tornarei a passar por aqui 
antes do pr-do-Sol. Espera aqui por mim. No digas a ningum para onde vais e se tens um 
chapu, esconde, a cara com. ele. 
- &o tenho chapu. 
- Toma l dinheiro para comprares um. Encontrar-nos-emos aqui. 
- Sim, sinhora. Sam estava radiante. Enfim, tinha outra vez algum que lhe dissesse o que -devia 
fazer. 
Searlett prosseguiu o seu caminho pensativa. Will ia ficar satisfeitssimo com aquele inesperadoajudante. 
#
Pork nunca percebera nada de lavoura nem jamais perceberia. Uma vez Sam em Tara 
Pork podia reunir-se a Dilcey em Atlanta conforme Scariett lhe prometera depois da morte de 
Ger@ld. 
21 - vento Uvou - n 321 
Quando chegou  fbrica, o Sol desaparecia j e ela teve receio de estar fora de casa assim to tarde. 
Johnnie Gallegher achava-se na soleira da porta da pobre cabana que servia de cozinha aos 
operrios. -Quatro dos cinco grilhetas haviam-se sentado num tronco de rvore, defronte da barraca 
em que dormiam. Os seus fatos de presidirios estavam sujos 'com manchas de suor, e as correntes 
presas ao tornozelo tilintavam a cada movimento que f-aziam. Tinham todos o mesmo ar triste e 
desesperado. Scarlett observou-os e pareceu-lhe que haviam emagrecido durante o 15ouco tempo 
em que os empregara. Nem sequer ergueram a vista quando ela desceu do trem; Johnnie  que se 
voltou na sua direco tirando vagarosamente o chapu para a saudar. 
- Nao gosto do aspecto destes homens - declarou Scarlett, sem mais prembulos. - Tm cara de 
doentes. Onde est o outro? 
- Sentia-se mal - respondeu Johnnie com indiferena. 
- Foi-se deitar. 
- Que  que tem? 
- Preguia, em especial. 
- Vou v-lo. -No faa isso. Deve estar nu. Deixe-me ocupar dele, e amanh voltar ao trabalho. 
Scarlett hesitou e viu um dos forados erguer a custo 
* cabea e lanar a Johnnie um olhar cheio de dio. 
-Quem sabe se voc os chicoteou? 
- Desculpe, senhora Kermedy, mas sou eu que estou 
* gerir esta serrao. A senhora confiou-ma e deu-me poderes para mandar. Bem sabe que tenho a 
mo leve. Mas no h razo para se queixar. Tiro duas vezes mais resultado do que o senhor Elsing. 
-Sem dvida -retorquiu Scarlett. Entretanto, ao dizer isto sentiu um calafrio. 
Hava algo de sinistro naquele acampamento, algo que no existia no tempo de Hugh Elsing: um ar 
de isolamento, de abandono, que a estarrecia, Aqueles forados estavam longe de tudo, 
completamente  merc de Johnnie Gallegher; se ele os chicoteasse, ou os tratasse mal doutra forma 
qualquer, ela talvez nunca o chegasse a saber. Os desgraados jamais se queixariam, com receio 
dum castigo pior. 
- Acho-os magros. Tem-lhes dado bastante comida? Gasto dinheiro suficiente para os ter gordos 
como cevados. No ms passado, s em farinha e, carne de porco 
322 
foram trinta dlares. Que destinou para a ceia deles, esta noite? 
Entrou na cozinha 'a fim de investigar. Ao v-la uma anafada mulata, que se debruava sobre o 
fogo v@lho e ferrugento, esboou uma espcie de mesura. Scarlett observou o gro de bico que 
estava a cozer. Sabia que Johnnie vivia com aquela mulata, mas julgava prefervel fingir que 
ignorava o facto. Alm do gro de bico e de papas de milho, no encontrou mais -nada. 
 s isto que tens para estes homens? Sim, sinhora. No puseste toucinho no gro? No, sinhora. 
Mas ' sem toucinho, o gro de bico no presta. r, comida fraca. 
- Sinh Johnne diz que no val a pena. 
- Ainda h tempo. Onde esto as coisas? A mulata lanou um olhar assustado para o cubculo que 
servia de despensa, e Scarlett escancarou a porta. No cho estava uma barrica de farinha de milho. 
Na prateleira havia um saco de farinha de trigo, cerca de meio quilo de caf, um pacote de acar, 
uma garrafa de xarope de sorgo e dois presuntos. Furiosa 'Scarlett voltou-se para Johnnie 
Gallegher, que a seguira e a fitava com ira contida. 
-Onde esto os cinco sacos de farinha que mandei a semana passada? E a saca de acar e o caf? 
Onde esto os cinco presuntos que lhe mandei entregar, e o toucinho, e o inhame, e as batatas? Para 
onde foi tudo isso? Ainda que desse de comer cinco vezes por dia a esses homens, eles no podiam 
consumir tanta coisa numa semana. Voc vendeu tudo seu ladro! Meteu o dinheiro no bolso e 
#
alimentou os h@mens com gro de bico e papas de milho! No admira que estejam assim magros. 
Deixe-me passar! 
Scarlett empurrou o irlands e saiu da cabana. -Tu... o do fundo, chega c! -disse ela a um dos 
forados. 
0 homem ergueu-se e aproximou-se com acanhamento, arrastando a grilheta. Scarlett notou-lhe os 
tornozelos em 
carne viva. 
-Quando foi a ltima vez que comeste presunto? Ele baixou a cabea e ps os olhos no cho. 
- Responde! 
0 interpelado continuou silencioso e embaraado. Por 
323 
fim, levantou a cabea 'olhou para Scarlett, com ar suplicante e baixou de novo a vista. 
-Tens medo de falar no  assim? Vai  despensa e tira o presunto da prateleira. Rebecca, d-lhe a 
faca. Leva aos teus companheiros e divide com eles. Arranja pezinhos e caf para estes homens, 
Rebecca, e d-lhes bastante sorgo. Despacha-te, que eu quero ver. 
- ]@, caf e farinha de sinh Johnnie - murmurou Rebecca, assustada. 
-Quero l saber! Talvez o presunto. tambm seja dele. Faze o que te digo e depressa. Johnnie 
Gallegher, acompanhe-me ao trem' 
Atravessou o ptio juncado de lixo, subiu para a carruagem, notando com melanclica satisfao 
que os homens estavam a cortar grossas fatias de presunto e a met-las vorazmente na boca. Dir-seia 
terem medo que lho tirassem dum momento para outro. 
- Voc  um grande patife! -exclamou ela, indignada, quando Johnnie se aproximou do carro com o 
chapu desabado sobre a testa, -Tem de me pagar o que gastou em seu proveito, De futuro, trarei os 
mantimentos dia a dia, em lugar de ser por ms, Assim no me intrujar. 
-De futuro, no estarei aqui -declarou Johnnie. -Quer dizer que se despede? Scarlett esteve quase a 
acrescentar: " melhor que parta j". Mas deteve-a a fria mo da prudncia. Se Johnnle ,se fosse 
embora, que haveria ela de fazer? Graas a este gerente, conseguia agora fornecer o dobro da 
madeira. E acabava precisamente de receber uma grande encomenda, demais a mais urgente! Tinha 
de a entregar quanto antes em Atlanta, mas, se Johnnie se fosse, quem encontraria de pronto para o 
substituir? 
- Sim, senhora, despeo-me, Ao confiar-me a gerncia desta serrao, tudo o que exigiu de mim foi 
que lhe preparasse a maior quantidade de madeira possivel. No me disse como  que eu devia 
proceder, e no me parece que seja agora altura de o aconselhar. A forma como eu consigo a 
realizao do trabalho  coisa que no lhe resDeita. No me pode acusar de haver faltado aos meus 
compromissos. Fi-la ganhar muito dinheiro. Mereo o salrio que me d... e tambm aquilo que 
posso economizar. E eis que a senhora vem meter aqui o nariz, e faz perguntas e enfraquece a 
minha autoridade perante estes homens! Como espera que 
324 
mantenha a disciplina de hoje em diante? Que lhe importa que eu, de vez em q@ando, lhes d unia 
ensinadela? So madraos, e ainda precisavam que lhes fizesse pior. Aborrece-a que no comam a 
fartar? Ora, ocupe-se do que lhe diz respeito e deixe-me com o que me compete. Seno, partirei esta 
noite mesmo. 
A cara do gerente parecia mais dura do que nunca e Searlett debatia-se na indeciso. Se ele se 
despedisse nessa mesma noite, que iria ela fazer? No podia ficar acol, a guardar os forados! 
Johnnie percebeu sem'dvida o dilema que a afligia, porque dulcificou um pouco a expresso. 
Quando tornou a falar, j a voz soou menos spera: 
-J  tarde, senhora Kennedy. P, melhor ir para casa. No nos vamos zangar por uma ninharia 
destas, no  verdade? Desconte dez dlares no meu ordenado, e no se fala mais nisto. 
0 olhar de Scarlett, poisou involuntariamente nos desgraados que acabavam de devorar o presunto, 
e o seu pensamento estendeu-se ao infeliz que jazia na barraca mal resguardada do vento. Devia pr 
a andar o gerente, que era violento e infiel. No duvidava do tratamento que ele infligia aos 
#
grilhetas, quando ela no estava presente. Mas, por outro lado, o homem era esperto e ela precisava 
de gente esperta. No podia despedir qui lhe proporcionava to bons lucros. Bastava-lhe certificarse 
de que, para o futuro, os presidirios seriam bem tratados. 
-Descontar-lhe-ei vinte dlares - declarou ela. - 
Amanh de manh voltarei c, para discutirmos @ caso 
Pegou nas rdeas. Sabia perfeitamente que no haveria nenhuma discusso depois daquela, e sabia 
tambm que Johnnie tinha a certeza de que seria assim. 
Enquanto o trem se dirigia para Decatur Road, a conscincia de Scarlett debatia-se entre a 
humanidade e o desejo de obter dinheiro. Compreendia que no tinha o direito de expor a vida 
daqueles operrios s brutalidades do gerente. Se um dele inorresse, ela seria to culpada como 
Johnnie, visto que conservara esse empregado depois de verificar a sua crueldade. Mas, por outro 
lado... que culpa tinha ela de que fossem presidirios? Haviam desrespeitado a lei, cado nas malhas 
da Justia: mereciam, pois, 
* sua sorte. Esta concluso aliviou-lhe a conscincia, mas 
* expresso desses infelizes no lhe saa do pensamento. 
325 
W ", 
"Mais tarde voltarei a reflectir nisto", disse consigo mesma, enquanto rodava pela estrada sombria. 
OSo 1 desaparecera por completo quando o trem alcanou a curva do caminho logo a cima de 
Shantytown. 
0 arvoredo envolvente me@gulhara em profunda escurido. Com o crepsculo, levantara-se um 
ventinho spero que sacudia os ramos e arrastava no cho as folhas mortas. Nunca ela se vira 
szinha quela hora, num stio como aquele, e ansiava por se encontrar em casa. 
0 gigantesco Sam no estava  vista. Parou, esperando por, ele aborrecida com a ausncia do negro 
e receosa de que os @ankees lhe houvessem deitado a mo. Ento ouviu som de passos na vereda e 
sentiu-se reanimar. Havia de dizer boas e bonitas ao Sam, pela sua demora! 
Mas no era ele quem chegava. Era um branco alto, maltrapilho, e logo a seguir um preto de 
ombros largos e peito de gorila. Searlett incitou o cavalo e agarrou na pstola. 0 animal largou a 
trote e fez um sbito desvio para se afastar do branco que avanava. 
- Minha senhora -disse este. - Pode socorrer-me com qualquer coisa? 
-Saa do caminho! - gritou ela, procurando tornar a voz o mais firme possvel. -No tenho dinheiro 
comigo. Vamos! 
Num movimento rpido, o homem deitou a mo  cabe~ ada, ordenando ao preto: 
- Procura no corpete. Ela deve ter a dinheiro. 
0 que se seguiu foi, para Scarlett, semelhante a um pesadelo. Como, o. instinto a aconselhasse a no 
disparar sobre o branco, pois o cavalo poderia ser atingido, ela voltou-se para o negro, cujo rosto 
luzia, contrado por um riso feroz, e desfechou  queima-roupa. Nunca soube se lhe acertara, mas 
da a pouco a pistola desaparecia-lhe da mo, que era dominada e torcida por um punha vigoroso. 
0 preto estava ali mesmo, to perto que ela lhe sentia o cheiro da pele. Com a mo livre, Scarlett 
lutou desvairadamente, arranhando a cara do agressor, at que a mo deste, puxand-lhe o corpete, 
o rasgou de alto a baixo. Vendo-se assim vasculhada nos selos ' ela experimentou a maior sensao 
de horror de toda a sua vida. E desatou a gritar como uma louca. 
- V se a calas! Puxa-a -para fora! - bradou o homem 
326 
branco, enquanto a mo do outro pousava na boca de Scarlett, que a mordeu furiosa, sem deixar de 
gritar de vez em quando. Nesse comenos percebeu que o branco praguejava e notou que havia 
terceiro homem na estrada. A mo do negro largou a boca da vtima e aquele deu meia volta, 
dominado j pelo gigantesco Sam. 
- Fuja, minina Scarlett! - gritava o Sam, agarrando o agressor pelo meio do corpo. Trmula soltando 
exclamaes de pavor ela apanhou as rdea@, pegou no chicote e fustigou o c@valo. 0 animal 
partiu  desfilada e as rodas do carro passaram sobre qualquer coisa ao mesmo tempo resistente e 
#
mole: era o corpo do branco que jazia no caminho, onde o. Sam a abatera com um soco. 
Louca de terror, Scarlett no cessava de chicotear o cavalo. 0 trem esbarrou numa pedra enorme e 
esteve prestes a virar. Atravs da sua aflio, ela teve ainda conscincia de passos que a seguiam e 
gritou ao animal para que este corresse mais depressa. Se o gorila a tornasse a alcanar, Searlett 
morreria mesmo antes de ele lhe pr as mos em cima. 
Mas a voz de quem a perseguia bradou com nitidez: -Pare, minina Searlett! Sem afrouxar, ela olhou 
trmula, de esguelha, e viu Sam a descer velozmente o caminho. Deteve ento o e@valo, e Sam 
saltou para o trem. 0 antigo escravo era to volumoso, que a sua dona teve de se apertar num canto 
para lhe poder dar lugar. 0 suor e o sangue escorriam pela cara do homem, que ofegava. 
- Feriram minina? - perguntou ele. Scarlett no conseguia falar. Vendo porm, que ele lhe 
observava o busto, compreendeu que @inha o corpete rasgado e o peito  mostra; e baixando a 
cabea, desatou a soluar. 
-D as rdeas a mim! V cavalo, depressa! 
0 chicote vibrou e o anim@l, partiu num galope doido, ameaando atirar com o trem para o abismo. 
-Espero t matado aquele n^go, mas no tive tempo para sab. Se feriu minina Scarlett, eu volto 
atrs. para mat ele de vez. 
- No... sempre para diante - murmurou ela. - E depressa! 
327 
45 
NESSA mesma noite, depois de levar a mulher, a tia Pitty e as crianas para casa de Melanie, Frank 
saiu de carro com Ashley, o que provocou em Scarlett a maior indignao. Como podia o marido ir 
a uma reunio poltica em seguida ao que se passara? Que falta de delicadeza, que egosmo! J 
encarara o caso com exasperante serenidade quando Sam chegara com ela nos braos, de corpete 
rasgado e a soluar. Nem uma 's vez puxara as barbas por nervosismo enquanto ouvia o relato do 
sucedido. Limitara-se a perguntar: 
- Ests ferida, amor ou apenas assustada? A raiva e os soluos Impediram-na de responder, e foi 
Sam quem esclareceu que houvera razo para susto. 
- Tomou medo, porque rasgaram seu corpete. 
- ]5',s bom rapaz, Sam, e no esquecerei o que fizeste. Se puder fazer alguma coisa por ti... 
- Sinh, sinh, mand a mim para Tara o mais depressa que pud. Os yankees procuram o Sai@. 
Frank ouviu esta declarao com o maior sangue-frio e no fez perguntas. Adoptara uma atitude 
muito semelhante  que tivera quando Tony lhe viera bater  porta a meio da noite. Dir-se-ia 
considerar aquele caso um assunto que s homens podiam resolver e que devia ser tratado com o 
mnimo de palavras e de comoes. 
- Peter levar~te- de trem esta noite a Rough-e-Ready. Chegando l escondes-te na mata at amanh 
de manh, e depois tom@s o primeiro comboio para Jonesboro. ] o que h de melhor a fazer... 
Ento 'filha, no chores mais! J passou tudo, e no ests ferida. Tia Pitty, pode emprestar ? seu 
frasquinho de sais? Bab, traz um copo de vinho a senhora. 
Scarlett teve novo acesso de choro, mas desta vez eram lgrimas de raiva. Gostaria que a 
consolassem, queria ouvir palavras de indignao e ameaas de vingana. Preferia at que Frank se 
revoltasse contra ela e dissesse que bem a prevenira... Qualquer coisa dessas seria melhor do que 
aquele ar despreocupado como se o incidente fosse dos mais banais. Frank mostrara-se afectuoso, 
sim, mas como se tivesse algo de mais importante em que pensar. 
E afinal esse assunto importante era uma reunio poltica @ue nada valia! 
328 
Scarlett nem quis acreditar no que ouvia quando o marido lhe disse que fosse mudar de vestido para 
ele a acompanhar a casa de Melanie, onde ela passaria a noite. Frank devia saber a disposio em 
que a mulher se ericontrava depois de tal aventura; devia saber que ela no desejava passar a noite 
em e-asa de Melanie, quando o corpo cansado e os nervos em exacerbao exigiam o sossego e o 
calor da cama -com um tijolo quente aos ps e um chznho para lhe dissipar o medo. Se ele 
realmente a estimava, ficaria ao seu lado em todas aquelas noites: permaneceria junto dela, 
#
pegando-lhe na mo, afirmando-lhe que morreria de desgosto se lhe houvesse sucedido qualquer 
coisa grave. Quando Frank nessa noite regressasse, seria isto mesmo que ela lhe diria. 
A saleta de Melanie parecia to calma como de costume nesses seres em que Frank e AshIey 
estavam ausentes e as senhoras se reuniam para costurar. 0 ambiente era tpido e a luz do fogo 
tornava-o at alegre. 0 candeeiro de cima da mesa espalhava um palor amarelado naquelas quatro 
cabeas inclinadas sobre os trabalhos de agulha. Ondulavam tranquilamente quatro saias, oito ps 
poisavam delicados nos respectivos coxins. Do quarto das crianas, vinha o brando respirar de 
Wade, Ella e Beau. Archie, sentado numa banqueta perto do lume, encontrava-se de costas para o 
fogo distendendo os queixos na aco de mascar e talhando @om uma faca um bocado de pau. Era 
grande o contraste entre o velho sujo e hirsuto e as quatro damas elegantes e apuradas semelhando 
aquilo uma cena de co de guarda idoso e indolente a espiar quatro gatinhas de fina raa. 
A voz suave de Melanie, perturbada pela indignao, contava a recente exploso de clera havida 
no seio das componentes da "Sociedade das Harpistas". Incapazes de concordarem com os senhores 
do "Conjunto Vocal Mas,culino" quanto ao programa da prxima rcita, elas tinham esperado nessa 
tarde por Melanie e anunciado a sua inteno de se afastarem por completo do Circulo de Msica. 
Fora precisa toda a diplomacia da mulher de Asliley para as persuadir a reconsiderar na sua deciso. 
Scarlett fervia por mandar bugiar todas as senhoras harpistas. 0 que ela queria era ocupar-se da sua 
terrivel aventura dessa tarde, relat-la com todos os pormenores, aliviar o seu susto provocando 
susto nas outras. Queria 
329 
demonstrar-lhes que fora corajosa e certificar--se, corn as prprias afirmaes, de que realmente se 
portara com bravura. Mas, sempre que aflorava o assunto, Melanie desviava a conversa para coisas 
indiferentes 'o que irritava Scarlett ao mximo. Afinal eram todos to egostas como Frank! Como 
podiam mos@rar-se calmos ' plcidos, quando ela por um triz escapara a uma morte horrorosa? 
Ao menos, deviam ter a cortesia de a deixar falar para se consolar um pouco. 
Os acontecimentos da tarde tinham-na abalado mais do que ela queria reconhecer. Tremia de cada 
vez que se lem- brava da cara selvtica do preto a espreit-la na sombra da estrada. Quando pensava 
naquela mo negra a vasculhar-lhe o peito e no que sucederia sem a interveno de Sam, baixava a 
cabea e apertava os olhos com fora. Melanie falava sem cessar. Scarlett ouvia-a em silncio e 
esforava-se por coser, mas conforme corria o tempo mais aumentava a sua tenso de nervos; 
chegou a ter a impresso de que dum momento para outro eles iam rebentar como o silvo duma 
corda de banjo que se parte. 
Irritada com o manejo de Archie, lanou a este um olhar furibundo, De repente, achou estranho que 
ele estivesse ali a cortar um bocado de pau em vez de se deitar a dormir no sof, como costumava 
fazer. E ainda mais estranho lhe pareceu que nem Melanie nem India o mandassem estender um 
papel no cho para receber ai as aparas de madeira, que j cobriam o tapete sem que ningum desse 
mostras de reparar. 
Enquanto Scarlett o observava Archie voltou-se bruscamente para o fogo e cuspiu par@ l com 
tanta violncia que India e Melanie deram um pulo como se uma bomba houvesse explodido. 
-Precisa de fazer tanto barulho? -exclamou India, com voz trmula. 
Scarlett olhou-a admirada, porque India fora sempre uma pessoa que sabia dominar-se, 
-Preciso, sim, senhora -respondeu Archie, e tomou a cuspir. 
Melanie franziu as sobrancelhas e fitou India. 
- Uma coisa que sempre me. alegrou foi o meu querido pai no ter o vcio de mascar tabaco - 
comeou a tia Pitty. 
Melanie ' porm, interrompeu-a, voltando-se de sbito na cadeira e falando-lhe num tom que 
Scarlett jamais lhe ouvira: 
330 
- Cale-se, tia! Que falta de tcto! -Meu Deus! -murmurou Pitty largando a costura com ar magoado. 
-No percebo o @ue  que vocs tm esta noite. Tu e India estais intratveis... 
Ningum lhe respondeu. Nem sequer Melanie se desculpou, voltando a coser em silncio, mas com 
#
uma fria mal contida. 
- Fazes os pontos muito grandes - notou a tia, no sem alguma satisfao. - Naturalmente, ters de 
desfazer tudo. Mas, enfim, que h hoje? P, a segunda vez que pergunto. 
Continuou o mutismo das outras. "Passar-se- realmente qualquer coisa?" pensou Scarlett. "Terei 
estado to absorvida com as minhas prprias angstIa@, para no ter reparado?" De facto, apesar 
dos esforos de Melanie para tornar aquele sero igual aos outros, a verdade  que reinava uma 
atmosfera diferente, um ar de nervosismo que no devia provir apenas da comoo causada pelos 
acontecimentos daquela tarde. Lanando uma olhadela em redor, Scarlett surpreendeu o olhar de 
India, o que a constrangeu um tanto: olhar profundo e calculado'cuja frieza exprimia mais do que 
dio e do que desprezo. "Dir-se-ia. que me quer mal pelo que sucedeu" pensou, cheia de 
indignao. 
India voltou-se ento para Archie e, sem o menor vestgio de aborrecimento no rosto, dirigiu-lhe 
uma interrogao muda e ansiosa. Archie, contudo 'parecia nada ver. Com a vista fixa em Scarlett, 
ele envolvia-a num olhar frio e duro, semelhanteao de India. 
Melanie no fazia nenhuma tentativa para reanimar a conversa. 0 silncio tornava-se cada vez mais 
pesado e Scarlett ouvia o vento arrastando l fora as folhas secas. E ento comeou a parte mais 
insuportvel da noite. A ten~ so nervosa aumentava. Archie tinha um ar inquieto, vigilante, de 
ouvido sempre alerta. Melanie e India diligenciavam disfarar a ansiedade, mas, sempre que 
escutavam os passos dum cavalo na estrada ou o gemer dos ramos das rvores, elas largavam a 
costura e erguiam a cabea. De cada vez que estalava uma acha no lume, olhavam~se como se 
tivessem ouvido rumor de passos. 
Passava-se qualquer coisa e Scarlett, magicava no que seria. Tramava-se no sabia o qu. 
Relanceando a vista pela face gorda e ingnua da tia Pitty, persuadiu-se de que laborava na mesma 
ignorncia. Mas Archie, Melanie 
331 
e India estavam ao corrente do que havia. No meio do silncio, Scarlett chegava a seguir o ritmo 
apressado dos pensamentos que lhes rodopiavam na cabea, como esquilos rodando na gaiola. 
Sabiam qualquer coisa aguardavam qualquer coisa, a despeito do esforo que faziam para se 
mostrarem indiferentes. E a sua inquietao, contagiava Scarlett, tornando-a mais nervosa do que j 
estava. Ao puxar a agulha num movimento desajeitado, enterrou-a no polegar e, aps soltar um 
gritinho que sobressaltou toda a gente, espremeu o dedo onde surgiu uma gota de sangue. 
-Estou muito nervosa para coser-declarou ela, deixando cair o trabalho. - Apetece-me gritar. 
Preferia ir para casa deitar-me. Frank bem sabia o estado em que eu me encontrava, no devia 
obrigar-me a sair. No se farta de proclamar a necessidade de proteger as mulheres dos assaltos dos 
pretos e dos Sacolas e, quando chega o momento de agir, desaparece. Onde o vemos? Junto de mim, 
a defender-me? Isso sim! Anda por a com uma scia de homens que no sabem seno falar... 
1 0 olhar poisQu-se-lhe em India e ela deteve-se logo. India ofegava. Com as suas pupilas claras 
fitava Scarlett e tinha uma expresso fria e cruel. 
- Se no achas que  perguntar muito - disse por fim 
- explica-me tu, India, o que significa essa observao constante. Que tenho eu hoje de 
extraordinrio? 
- No, no  perguntar muito - replicou a outra, cujos olhos cntilaram. - At gosto de dizer o que 
sinto. Acho odioso isso de menosprezares um homem excelente como,  o senhor Kennedy, quando, 
se soubesses... 
India! - gritou Melanie, em tom de advertncia, com as mos crispadas sobre a costura. 
-Suponho que conheo melhor o meu marido do que vocs - volveu Searlett, que sentia refluir-lhe 
toda a coragem na perspectiva duma querela com India. Melanie fitou esta ltima, que mordeu os 
lbios; mas logo a seguir comeou a falar, de modo frio e odiento. 
- Enjoa-me ouvir-te dizer, Scarlett O'Hara que precisas de protecG! Pouco te impGrtas com is@o! 
Doutra maneira, no te haverias exposto pela cidade, mostrando-te aos homens na esperana de que 
te admirassem. 0 que te aconteceu hoje foi o que merecias e, se houvesse justia, ainda devia ser 
#
pior. 
332 
- Oh, India, cala-te! -exclamou Melanie. 
- Deixa-a falar! - acudiu Scarlett por seu turno. - 
Eu j sabia que ela me detestava e que era bastante hipcrita para o confessar. Agora vou ouvir o 
que pensa a meu respeito. Se a India tivesse a ideia de provocar admiradores, no hesitaria em 
passear nua em plo de manh  noite, pelas ruas da cidade. 
India levantou-se num pulo, 0 corpo magro tremia-lhe, varado pelo, insulto. 
- Sim, detesto-te - declarou com voz clara mas vibrante de clera. - No foi por hipocrisia que me 
calei, foi porquie obedeci a um sentimento que tu no podes compreender, um sentimento que no 
se relaciona com a cortesia vulgar. Convenci-me de que, se no calssemos os nossos pequenos 
ressentimentos, unindo-nos numa frente comum, nunca conseguiramos triunfar dqs yankees. Mas 
tu... fizeste o possvel para diminuir o prestgio da nossa sociedade. Cobriste de vergonha 
umexcelente marido, deste aos yankees e  canalha o direito de rir de ns e de fazer observaes 
insultuosas acerca da nossa falta de dignidade. Os yonUes no sabem que no s como ns e que 
nunca o foste. Correndo por a de trem no s te expuseste a ser agredida, mas fizeste tambm 
correr perigo a todas as mulheres, pois incitavas os pretos e os brancos desnaturados a se atreverem 
a um assalto. Enfim, por tua culpa, os homens que ns conhecemos esto, sujeitos a perder a vida, 
visto serem obrigados a... 
- Meu Deus, India! - gritou Melanie. E 'apesar da sua clera, Scarlett ficou pasmada de a ouvir 
pronunciar o nome de Deus com tanta pa. - Fazes o favor de te calar? Ela no est ao facto, e... 
Cala-te! Prometeste... 
- Oh, meninas! - gemia Pittypat, de lbios trmulos. -No estou ao facto de qu? Furibunda, Scarlett 
levantara-se e enfrentava India e Melanie. 
-Galinhas da Guin! -comentou Archie com desdm. E, depois de erguer a cabea de repente ps-se 
de p num movimento brusco. - Vem algum a su@ir o passeio - preveniu. - No  o senhor 
Wilkes. Acabem com os cacarejos. 
Havia autoridade mscula na sua voz, e todas -as mulheres se calaram, j sem a ira estampada no 
rosto, enquanto ele atravessava a sala, a coxear. 
333 
'k~ 
- Quem est a? - indagou Archie, sem esperar que batessem  porta. 
- 0 capito Butler. Deixe-me entrar. Melanie arremessou-se com tal impetuosidade que as saias se 
lhe arregaaram, descobrindo as calas at aos joelhos, e, antes que Archie pudesse intervir, 
escancarou a porta. No limiar estava Rhett Butler, de chapu desabado para os olhos e capa a 
ondular ao vento. Desta vez  que se mostrou realmente mal educado, pois no se descobriu nem 
cumprimentou ningum. Olhou s para Melanie e perguntou sem mais prembulos: 
- Para onde foram? Diga depressa. r@, questo de vida ou de morte. 
Pitty e Scarlett entreolharam-se espantadas, enquanto India, como um gato enxotado, corria para 
junto de Melanie. 
- No lhe digas nada! - bradou. - ]@ um espio, um Renegado! 
Rhett nem se dignou olhar para ela. -Depressa, senhora Wilkes! Talvez ainda seja tempo... Melanie 
parecia paralisada de terror e fixava Rhett com olhos alucinados. 
-Que diabo... -comeou Scarlett. 
- Cale a boca! - ordenou Archie. - E a senhora Wilkes, tambm. Gire daqui, seu Renegado! 
- No, Archie, no! - gritou Melanie, pondo a mo trmula no brao de Rhett como para o defender 
do velho forado. -Que aconteceu? Como... soube? 
Na face escura de Rhett a cortesia lutava com a impacincia. 
-Oh, minha senhora, desde o princpio que suspeitam deles todos... mas at hoje no se deixaram 
apanhar! Como soube? Estava a jogar ao poker com dois oficiais yankees e, porque se encontravam 
embriagados, contaram-me tudo. Os yankees calcularam que haveria esta noite represlias, e 
#
tomaram as suas disposies. Aqueles tolos caram numa armadilha. 
Melanie cambaleou como se houvesse recebido uma pancada e Rhett teve de a segurar pela cintura. 
- No lhe digas nada! Ele quer fazer-te falar - bradou India. - No o ouviste declarar que esteve esta 
noite com oficiais yankees? 
Rhett continuou a no fazer caso dela, sempre de olhos fitos no rosto lvido de Melanie. 
334 
N@ 
- Aonde foram? Tm ponto de reunio? Scarlett pensou que nunca vira um rosto to inexpressivo 
como o de Rhett, porm Melanie soube descortinar nele mais qualquer coisa, qualquer coisa que lhe 
deu confiana. Endireitou o corpo, esquivou-se ao brao forte que a apertava e disse calmamente, 
mas com voz trmula: 
-Para as bandas de Decatur Road, perto de Shanty@ tcwn. Encontram-se no subterrneo da 
plantao do velho Sullivan, aquela que ardeu em parte... 
-Obrigado. A cavalo irei depressa. Quando os yankees chegarem c finjam no saber de nada. 
Partiu to de repente e a sua capa negra fundiu-se to bem na escurido da noite que as testemunhas 
daquela cena ficariam na dvida duma alucinao se no ouvissem um cavalo raspar o saibro do 
jardim e partir  desfilada. 
- Os yankees vm c ter? - balbuciou Pitty, caindo sobre o canap e desfazendo-se em lgrimas. 
-Que  isto? Que sucedeu? Se no me dizem eu enlouqueo? - suplicou Scarlett agarrando Melanie 
@ sacudindo-a como se dessa forma pudesse mais facilmente obter resposta. 
- Que sucedeu? - replicou India, que apesar do medo que a tomara deixava transparecer certa 
pontinha de triunfo. -Que significa? Significa que talvez sejas responsvel pela morte de Asliley e 
do senhor Kennedy. Oh, Melanie, tu vais desmaiar! 
- No - volveu esta, agarrando-se ao espaldar duma cadeira. 1 
-Meu Deus! Meu Deus! No compreendo. A morte de AshIey? Por favor, algum que me diga... 
Numa voz que parecia o som duma porta a girar em gonzos ferrugentos, Archie cortou a palavra a 
Searlett. 
- Sentem-se - ordenou. -Peguem outra vez na costura e ponham-se a trabalhar como se nada tivesse 
acontecido. P, muito provvel que os yanke,es andem a vigiar a casa desde o pr-do-Sol. Sentem-se, 
j disse e ponham-se a coser. 
As mulheres obedeceram, a treme@; a prpria tia Pitty agarrou numa pega, enquanto, de olhos 
arregalados de medo, relanceava a vista em redor, na esperana de obter uma explicao. 
- Onde est Ashley? Que lhe aconteceu, MeIly? - perguntou Searlett. 
- No te interessa saber onde est teu marido? - obser- 
335 
@ @L . 1 
vou India de olhar chamejante, amarrotando e tornando, a alisar a toalha que passajava. 
-Por amor de Deus, 1ndia! -interveio Melanie. Tentava dominar-se, mas o. rosto plido e 
atormentado mostrava o esforo que fazia para se manter serena. - Se-arlett, talvez devssemos 
prevenir-te do que se ia passar... mas j tiveras uma comoo to grande esta tarde que ns... que 
Frank no quis... E como tu sempre foste contra a Klan... 
- A KIan... Scarlett proferiu esta palavra como se nunca a tivesse ouvindo antes e no soubesse o 
que significava. Ento repetiu-a, quase num grito: 
-A Klan!... Asliley no faz parte da Klan! Nem Frank! Ele prom&eu-me... 
-Ests enganada. 0 senhor Kennedy  da Klan, e Ashley tambm. E todos os homens nossos 
conhecidosripostou India.-So homens, no  verdade? Homens brancos e sulistas, Devias ter 
orgulho ni~, em vez de o obrigar a esconder-se como se fizesse alguma coisa vergonhosa. 
- Vocs sabam e no me... 
- Recemos apoquentar-te -disse Melanie tristemente. -Nesse caso era a que iam quando falavam 
em reunies polticas.,> h'e ele que me prometeu! Agora vo os yankees apossar-se das minhas 
serraes e do armazm, e meter Frank no calaboio... Oli! Mas o que  que Rhett Butler queria 
#
dizer? 
India e Melanie trocaram um olhar de medo. Scarlett. ps-se de p, atirando ao cho, a costura, 
- Se no 'contam tudo, vou  cidade e descobrirei o que se passa. Interrogarei toda a gente at... 
- Sente-se! - ordenou Archie, f ixa@do~a com o olho nico. -J lhe dgo, o que se passa, Porque 
andou a passear esta tarde e se viu metida em sarilhos por sua prpria ' culpa, o senhor Wilkes, o 
senhor Kennedy e outros saram esta noite para dar cabo do preto e do branco que a atacaram. Para 
os apanhar devem ter que vasculhar todos os cantos de Shantytovm.'Se aquele Renegado falou 
verdade, os yankees suspeitaram, ou foram prevenidos de que alguma coisa ia acontecer, e 
mandaram tropas esper-los. Os nossos homens caram no. lao. Se o que esse Butler disse  falso, 
 porque veio aqui como espio e pensa entregar os nossos aos yankees. Se ele os entregar, espichoo. 
Ser 
336 
mais uma morte na minha vida... a ltima. No caso de eles conseguirem salvar a pele ' tero de 
fugir para o Texas, donde talvez nunca mais voltem. Tudo isto por culpa da senhora. As suas mos 
esto, manchadas de sangue. 
A pouco e pouco, a expresso de Scarlett foi-se modificando, at que o pasmo cedeu lugar ao 
horror. Melanie levantou-se num mpeto e pousou a mo no ombro da cunhada. . - Se diz mais uma 
palavra, Archie ponho-o fora desta casa! - exclamou em tom severo. - A @ulpa no  dela. Ela s 
fez... o que julgou ser seu dever. E os nossos homens fizeram o que julgaram ser dever deles. Cada 
qual procede conforme pe .nsa'e nem todos pensam da mesma forma! No podemos julgar os 
outros segundo a nossa maneira de pensar. Parece impossvel que tanto India como voc digam 
coisas to cruis quando o marido dela, e o meu tambm, talvez j... 
- Escute! - atalhou Archie em voz baixa. - A senhora sente-se. Oio cavalos. 
Melanie ocupou o seu lugar, agarrou numa camisa de Ashley e, baixando a cabea sobre o trabalho, 
ps-se inconscientemente a desfiar os folhos do peitilho, 
Aproxmaram-se da casa cavalos a trote. As barbelas chocalharam, as selas rangeram e elevou-se 
um murmrio de vozes. Diante da porta, os cavalos pararam e uma voz imperiosa dominou as 
outras. Apearam-se homens, que as pessoas dentro de casa sentiram irem-se deslocando, atravs do 
quintal, para a entrada das traseiras. Tinham, Archie e as senhoras, a sensao de que milhares de 
olhos inimigos os espiavam pelas janelas de estores erguidos. Scarlett, Melanie, India e Pitty 
baixaram a cabea, aterradas, e tornaram a pegar na agulha. 0 corao da p@imeira, batendo-lhe no 
peito, parecia dizer: "Matei AshIey! Matei-o!" E, naquele instante horrvel, ela nem sequer se 
lembrou de que podia ter matado Frank tambm. No seu esprito no havia lugar para outra imagem 
seno Ashley estendido aos ps dos cavaleiros yankees, com o cabelo loiro empastado de sangue. 
Quando na porta soou uma pancada imperiosa, ela olhou para Melanie e, viu surgir naquela face 
mida e esforada uma expresso diferente to impenetrvel como a que surpreendera no rosto de 
l@hett ButIer. 
22 -Vento Levou - n 337 
i\.@ 1. 
- Archie, abra a porta -disse tranquilamente a dona da casa. 
Insinuando a faca na bota e ajeitando a pistola no bolso, Archie avanou e abriu a porta de repente. 
Pitty soltou um guincho, como de murganho apanhado na ratoeira, ao ver entrar o capito yankee 
seguido duma escolta de fardas azuis. As outras no tugiram nem mugiram. Scarlett lembrou-se de 
que conhecia aquele oficial: era o capito Tom Jaffery, um dos amigos de Rhett, a quem ela vendera 
madeira para a construo da casa. Tratava-se dum perfeito cavalheiro e talvez como cavalheiro ele 
no as levasse para a cadela. 0 ofiial tambm a rec@nheceu e, descobrindo-se, cuniprimentou, um 
tanto embaraado. 
- Boa noite, senhora Kennedy. Qual de vs  a senhora Wilkes? 
-Sou eu -respondeu Melanie, erguendo-se com uma dignidade que ningum esperaria numa criatura 
to franzina. -A que devo esta intruso? 
0 oficial olhou em volta, relanceando a vista pelas pessoas que o rodeavam e fixando por um 
#
momento a mesa e o cabide como se procurasse descobrir sinais de presena masculina. 
1 Desejava falar ao senhor W11kes e ao senhor Kennedy. -No esto c -declarou Melanie, com um 
leve tremor na voz suave. 
-Tem a certeza? -Duvida da senhora Wilkes? -interveio Archie, de barba eriada. 
-Peo desculpa, senhora Wilkes. A minha inteno no era faltar-lhe ao respeito. Se me d a sua 
palavra de honra, no farei busca  sua casa. 
- Dou-lhe a minha palavra de honra, mas faa a busca, se quiser. Esses senhores assistem a uma 
reunio no armazm do senhor Kennedy. 
- No esto no armazm. No houve nenhuma reunio esta noite - replicou o oficial com ar 
sombrio. - Esperaremos l fora at que voltem. 
Baixou a cabea num cumprimento breve e retirou-se, fechando a porta atrs de si. Os ocupantes da 
casa ouviram-no dar uma ordem, que o vento abafou em parte: 
- Cerquem o prdio. Um em cada janela e em cada porta. 
Seguiu-se um rudo de ps no saibro. Scarlett, horror!- 
338 
zada, viu faces barbudas a espreitarem atravs das vidraas. Melanie sentou-se; e, com mo que no 
tremia, levantou um livro da mesa. Era um exemplar j muito velho de Les Miserables ' esse livro 
que fizera as delcias dos soldados da Confederao. Tinham-no lido e relido  luz do fogo dos 
combates e achavam um prazer macabro em o designar por Leels Miserabies (os miserveis de 
Lee). Abriu-o a meio e comeou a ler com voz clara e montona. 
- Cosam - ordenou Archie em tom rouco. E as trs mulheres, estimuladas pela voz fresca de 
Melanie, retomaram a costura e baixaram a cabea. 
Quanto tempo durou essa leitura, sob os olhares dos que as observavam Scarlett nunca o soube mas 
pareceu-lhe terem sido hor@s. No ouvia uma palav@a do que a outra dizia: comeara a pensar em 
Frank, como j pensava em Asliley. Ali estava, pois'a explicao da aparncia calma do marido. 
Prome era-lhe que no pertenceria jamais  Klan! Era bem o gnero de complicaes que ela mais. 
receava. Iria reduzir-se a nada todo o trabalho desse ltimo ano; tornar-se-iam inteis todas as lutas 
e angstias, suportadas  chuva e ao frio. Quem imaginaria que esse Frank, to falho de iniciativa, 
se imiscuiria na loucura da Klan? Quem gabe se, naquele momento, j estaria morto? E, se no 
estivesse morto e os yankeeS o apanhassem, por certo que o enforcariam. E Ashley tambm! 
Scarlett cravou as unhas na palma da mo e com tanta fora que deixaram marca rubra. Como  que 
Melanie podia continuar a ler com a maior calma quando Astiley corria perigo de ser enforcado? 
Quando ele talvez j estivesse morto? No entanto, era a serenidade daquela voz, que relatava as 
infelicidades de Jean Valjean, que a impedia de se erguer num pulG e desatar aos gritos. 
Lembrou-se da noite em que Tony Fontaine, perseguido e exausto, lhe viera bater  porta. Se no o 
tivessem socorrido com algum dinheiro e com um cavalo folgado, j estaria enforcado h muito 
tempo. Frank e AshIey encontravam-se em situao anloga  de Tony, ou pior ainda. E isto no 
caso de estarem vivos... Com a casa cercada por soldados, no podiam entrar ali para se fornecerem 
de roupa e de dinheiro sem serem capturados. E provavelmente todas as outras casas da rua 
estariam vigiadas pelos yankees, para que os fugitivos no pudessem recorrer ao auxlio dos 
339 
amigos. quela hora, talvez estivessem a caminho do Texas, galopando como doidos atravs da 
noite escura. 
E podia ser que Rhett os encontrasse a tempo... Rhett andava sempre com muito dinheiro nos 
bolsos. Devia emprestar-lhes o que fosse preciso. Contudo, aquilo era estranho, muito estranho. Por 
que  que Rhett se preocupava com a sorte de Astiley? Se no gostava dele e o desprezava, por que 
 que o queria salvar? Mas este assunto ficou por esclarecer, porque de novo o medo a dominou ao 
pensar em Frank e Ashley. 
"Tudo por minha culpa!" disse consigo 'sufocando um gemido. "India e Archie tm razo. Aculpa 
foi minha. Mas nunca os imaginei to loucos que se filiassem na Klan! Nem nunca imaginei que me 
acontecesse alguma coisa! E, no entanto, podia eu proceder doutra maneira? Melly disse a verdade. 
#
As pessoas agem conforme pensam que devem agir. Eu ia abandonar as serraes? Precisava de 
ganhar dinheiro! E, se calhar, vou ficar sem nada agora, por minha culpa!" 
Depois de largo tempo de leitura a voz de Melanie tornou-se trmula, balbuciante, at qu@ se 
calou. A mulher de Ashley voltou ento a cabea para a janela e ficou a olhar para l, como se no 
estivessem yankees aespi-la atravs da vidraa. As outras, impressionadas com a sua atitude, 
olharam tambm e puseram-se  escuta. 
Apesar das portas e janelas fechadas, ouvia-se ao longe o tropel de cavalos, assim como algum a 
entoar a mais odiada das canes a cano consagrada aos -homens de Sherman, Marcha ravs de 
Gergia. E era Rhett Bufler que a cantava. 
Mal acabou os dois primeiros versos elevaram-se outras duas vozes 'vozes pastosas de brios @ue o 
interpelavam com fria em frases mastigadas e confusas. Da varanda onde se encontrava, o capito 
Jaffery gritou uma ordem breve, logo seguida de rumor de passos apressados. Mas, antes mesmo 
das instrues do capito, j as senhoras se entreolhavam 'espantadas, porque as vozes de bbados 
que elas tinham ouvido eram a de Asliley e a de Hugh Elsing. 
0 jardim encheu-se de tumulto. 0 capito Jaffery fazia perguntas lacnicas Hugh soltava risadas 
agudas, Rhett falava excessivame@te alto, mas com o, tom despreocupado de sempre, Asliley 
repetia de modo estranho: 
-Que diabo ... ? Que diabo ... ? 
340 
"No pode ser Ashley!" pensou Searlett. "Ele nunca se, embriaga. E Rhett... esse quanto mais bebe 
mais calmo fica... nunca grita daquela maneira". 
Melanie levantou-se e Archie imitou-a, Ao ouvir o capito declarar "stes dois homens esto sob 
priso", Archie levou a mo  coronha da pistola. 
-Deixe o caso comigo -murmurou Melanie com fir~ meza. 
0 seu rosto patenteava a mesma expresso que Scarlett lhe vira em Tara, no dia em que ' 
empunhando um sabre pesado demais para ela, Melanie contemplara do cimo da escada o cadver 
do -yankee: a expresso dum ente meigo e tmido que as circunstncias transformavam em tigre. 
Em passo resoluto 'atravessou a sala e escancarou a porta. _Traga-o c para dentro capito Butlerdisse 
ela em voz bem timbrada, onde @e notava certo azedume, - 
Levou-o outra vez a embriagar-se, creio eu. Vamos, traga-o c para dentro. 
Do passeio sombreado e varrido pelo vento, o oficial yankee fez-se ouvir: 
-Lastimo muito, senhora Wilkes, mas o seu marido e o senhor Elsing encontram-se debaixo de 
priso, 
-Debaixo de priso? Porqu? Por embriaguez? Se f ossem a prender todos os brios, a guarnio 
yankee passaria a vida no calabouo. Vamos capito Butler, traga-o para dentro de casa... se  que 
s@ aguenta nas pernas. &arlett no podia conciliar as ideias com a rapidez devida e, nos primeiros 
momentos, no compreendeu nada daquela cena. Tinha a certeza de que nem Astiley nem Rhett 
estavam embriagados e sabia que Melanie pensava como ela. No entanto Mela@ie, em geral to 
amvel e distinta, estava ali a da@ espectculo aos yankees, vociferando como se fosse uma megera 
e a dizer que Rhett e Ashley nem podiam dar passo com a bebedeira! 
Seguiu~se curta discusso 'salpicada de palavres, e da a instantes um grupo subia a escada, 
tropeando a cada degrau. Ashley surgiu na abertura da porta, lvido, de cabea pendida para a 
banda desgrenhado e envolto na capa negra de Rhett. Hugh sing e Rhett Butler sustinham-no 
debaixo dos braos, e era evidente que, se OS outros no o segurassem, ele cairia por terra. Atrs 
vinha o oficial yankee, com ar desconfiado e divertido ao mesmo tempo. Deteve-se no limiar, com 
os soldados a espreitarem 
341 
- Io@W' 
curiosos por cima do ombro dele. Pela porta aberta, o vento frio invadia a casa. 
Assustada e intrigada, Scarlett, olhava para Melanie e para Asliley at que percebeu a verdade. 
Esteve prestes a gritar: "Ele @o est embriagado!" Mas conteve-se a tempo. Corripreendia agora 
#
que assistia a uma representao, a uma comdia de que dependia a vida de vrios homens. Nem ela 
nem a tia Ptty tinham papel a desempenhar, mas todos os outros actuavam como actores numa 
pea bem ensaiada. S isto compreendeu Scarlett, mas foi o bastante para se manter silenciosa. 
- Sente-o nessa cadeira! -ordenou Melanie com voz indignada. - E o senhor, capito Butler, saia 
daqui imediatamente! Parece incrvel que ainda se atreva a vir a esta casa depois de pr outra vez 
meu marido neste estado! 
Os dois homens encaixaram Ashley no lugar designado, e Rhett, dando meia volta e agarrando-se 
ao espaldar da cadeira para no cair comentou para o capito yankee, exprimindo-se com 
dificuldade: _ Eis uma bonita maneira de me agradecer, no acha? E isto depois de impedir que ele 
fosse parar  esquadra, de o ter levado a casa e de lhe aturar os berros e as tentativas de agresso. 
- E voc, Hugh Elsing, no tem vergonha? Que h-de dizer a sua pobre me? Embebeda-se, anda 
com... um amigo dos yankees, um Renegado como  este senhor Butler! E tu, Ashley... como 
pudeste proceder assim? 
- MeIly, no estou... to bbado como isso... - gaguejou Ashley; e logo pendeu para a frente e ficou 
com a cara escondida entre os braos apoiados na mesa. 
- Archie, leve--o para o quarto e deite-o... como de costume. Por favor, tia Pitty, v abrir~lhe a 
cama... Oli, oh!-Melanie desatou de sbito a chorar.-Oh! Como  que ele pde... depois do que 
prometeu? 
Archie j tinha o brao por cima do ombro de Ashley e Pitty j estava de p, assustadae indecisa, 
quando interveio o capito yankee. 
Quando o sargento entrava na sala, armado de espingarda, Rhett pareceu fazer um esforo sobre si 
mesmo e, aproximando-se do oficial, -agarrou-o pelo brao. 
-Por que motivo o prende Tom? Ele no est com uma bebedeira por a alm. J @ vi mais bbado. 
- Pouco me ralo com essa histria de borrachos - retor- 
342 
quiu o capito yankee. -Por mim, at podiam passar a noite na valeta. No sou polcia. 0 caso  
outro. Ele e o serhor Elsing tm ordem de priso por cumplicidade num ataque da Klan a 
Shantytown, esta noite. Mataram dois homens, um branco e um de cor. 0 senhor Wilkes foi o 
instigador de tudo isso. 
- Esta noite? Rhett desatou a rir. E to forte foi o ataque de riso que ele teve de se sentar no sof e 
tapar a cara com as mos. 
- Esta noite '  impossvel! -disse finalmente, quando conseguiu falar. - Ambos eles estiveram 
comigo toda a noite Tom! Bem sei que deviam ir a uma reunio, mas and@ios juntos desde as oito 
horas. 
- Consigo ' Rhett? Mas... -Franziu a testa e olhou para Ashley, que ressonava, e para a mulher 
deste, que continuava a chorar. - Mas onde estiveram? 
- Custa~me a dizer... -retorquiu Butler, lanando a Melanie uma olhadela de alcolico. 
-  melhor diz-lo! 
- Vamos l para fora, para se falar  vontade... -No, diga aqui mesmo. 
- No pode ser na presena das senhoras. Se as senh<>ras sassem da sal... 
-Eu no saio -declarou Melanie, enxugando os olhos num gesto furioso. - Tenho o direito de saber. 
Onde esteve meu marido? 
- Em casa de Belle WatlIng - explicou, por fim, Rhett Butler, baixando a vista. -Estavam tambm l 
Hugh e Frank Kennedy, e o Dr. Meade... e uma data deles. Foi uma festa, uma linda festa, com 
champanhe, mulheres... 
-Em casa... de Belle Watling? Melanie soltou tal grito de dor e espanto que todos se voltaram para 
ela. Levou a mo ao peito e., antes que Archie a socorresse ela tombou desmaiada. Seguiu-se 
grande confuso, Arch1 levantou-a, India correu  cozinha a buscar gua, Pitty e Sca'rlett 
abanavam-na e davam-lhe palmadinhas nos pulsos. Hugh, dirigindo-se a Rhett, exclamava: 
-Veja o que fez, veja o que fez! -0 pior  que se vai saber em toda a cidade - observou aquele. -Voc 
Tom,  que tem a culpa. Amanh no haver mulher em fianta que esteja de bem com o marido. 
#
- Rhett, eu no pensava... - Embora o vento frio, entrando pela porta, o envolvesse, o capito suava 
a bom suar. 
343 
-Oia, voc d a sua palavra de honra que estiveram em casa da... da... Belle? 
-Palavra de honra! S no acredita, v perguntar  prpria. Agora deixe-me levar a senhora W11.kes 
para o seu quarto. D-ma c,, Archie. Sim, posso com ela. Tia Pitty, v  frente com um candeeiro. 
iSem dificuldde, Butler recebeu Melanie dos braos de Archie. 
- V deitar o senhor Wilkes, Archie. No quero tocar-lhe, depois do que se passou esta noite. 
1 Pitty tremia de tal modo que o candeeiro na sua mo se tornava uma temvel ameaa para o 
prdio; mas sempre conseguiu equilibr-lo e l foi vacilando at ao quarto. Archie passou um brao 
em torno do corpo de Ashley e ergueu-o. 
- Mas... eu tenho de prender esses homens. Rliett voltou-se e disse ao capito: 
- Prenda-os amanh de manh. No estado em que esto no podem fugir. Em todo o caso, nunca 
ouvi dizer que fosse contrrio  lei uma pessoa beber um pouco mais, no botequim. H cinquenta 
testemunhas, Tom, que provam terem eles passado a noite no estabelecimento de Belle. 
-E h sempre cinquenta testemunhas -redarguiu o capito Jaffery - para declararem que tal sulista se 
encontrava precisamente onde no tinha posto os ps. Venha comigo ' senhor Elsing. Poresta noite 
deixo o senhor Wilkes em liberdade; confio na palavra a... 
- Sou a irm de W11kes - participou India. - Res pondo pela sua apresentao. Agora, peo--lhes o 
favor de se retirarem. Por hoje j basta de complicaes, 
-Lastimo deveras -murmurou o oficial,-Espero que estes senhores possam demonstrar que estiveram 
na casa de... da senhora Watling. Diga ao seu irmo que se apresente amanh cedo no 
preboste~mor, para ser interrogado. 
India curvou a cabea secamente e, pondo a mo no puxador da porta, convidou em silncio o 
capito a sair. -Este e o sargento retiraram-se, levando consigo Hugh Elsing, e India fechou ento a 
porta e sem sequer olhar para Searlett, foi descer os estores 6s janelas. Com os joelhos a tremeremlhe 
Scarlett agarrou-se  cadeira onde Ashley estivera sentad6 e, baixando a vista, descobriu no 
estofo do espaldar uma ndoa escura e hmida, mais larga 
344 
do que a sua mo. Surpreendida, passou os dedos por ela e viu que ficaram vermelhos e pegajosos. 
- India - disse ela numa voz que a dor sufocava. - 
AshIey est ferido. - 
- Que novidade! Pensavas ento que era bebedeira? A irm de Ashley correu o ltimo estore e foi 
ao quarto de dormir, seguida de Scrlett, que mal podia respirar. Com o seu corpo imponente., Rhett 
impedia a entrada, mas Scarlett ainda conseguiu ver Ashley deitado, plido e imvel, Singularmente 
esperta para quem acabava de acordar dum desmaio, Melanie cortava-lhe a camisa cheia de sangue 
com a tesoura de bordar. Archie segurava o candeeiro acima da cama e tinha um dos dedos nodosos 
apoiado no punho do ferido. 
- Est vivo? - perguntaram em unssono as duas mulheres. 
Rhett esclareceu: -Desmaiou, apenas. Apanhou uma bala no ombro e perdeu muito sangue. 
- Por que o trouxeram para aqui? - acudiu India. - 
Vieram met-lo: na boca do lobo. 
-Estava muito fraco para viajar, minha senhora. No se podia lev-lo para outra parte. Alm disso... 
queriam v-lo desterrado, como o Tony Fontaine? Preferem que os amigos todos vivam no Texas, 
sob nomes supostos, o resto da existncia? H muitas probabilidades de o livrar se a Belle... 
- Deixe-me entrar! - volveu India., que no passara da porta. 
-No, senhora. Tem outra misso`a cumprir.  preciso que v chamar um mdico... mas no o Dr. 
Meade, que est implicado neste caso e, a esta hora, anda a contas com os yankees. Veja se 
descobre outro qualquer. Tem medo de sair szinha, assim de noite? 
-No no tenho medo -declarou India Wilkes, cujog olhos cin@ilaram. 
Pegou na capa de capuz 'de Melanie, que estava no cabide da entrada, e disse em tom calmo, 
#
revelador no entanto do esforo que despendia: 
-Vou procurar o Dr. Dean. Desculpe t-lo tratado to bruscamente. Eu no tinha percebido... Estou 
muito grata pelo que fez por meu irmo... o que no impede de antipatizar consigo. 
345 
- Aprecio a franqueza... e agradeo- respondeu Bufler, em cujos lbios errou um sorriso divertido. - 
Agora apresse-se e seja prudente. Se vir soldados de roda da casa, quando voltar no entre 
Inda lan@u um olha*r angustiado ao irmo embrulhou-se na capa e, saindo pela porta das 
trasei6A, mergulhou nas trevas da noite. 
Scarlett, diligenciando ver Ashley, que o vulto. de Rhett ocultava, sentiu recomear a bater-lhe o 
corao ao notar que o ferido abrira os olhos. Melanie pegou numa toalha dobrada, que estava na 
prateleira do lavatrio, e aplicou-a no ombro do marido, que sorriu debilmente como para a 
tranquilizar. 
Scarlett reparou que Rhett a fixava com olhar penetrante, mas no se importou disfarar a angstia 
que o seu rosto exprimia. Ashley sangrava, talvez estivesse a morrer, e fora ela, que tanto o 
amava,quem lhe fizera aquele buraco no ombro. Desejaria correr para junto da cama, apert-lo n--, 
braos, mas os joelhos tremiam-lhe de tal modo que f nem podia entrar no quarto. Com a mo na 
boca viu @@ anie pegar noutra toalha e prem-la na ferida com toda a fcra, como se assim 1 
udesse impedir que o sangue con- tinuasse a verter. Num instante, a toalha ficou vermelha. 
Como era possvel uma pessoa perder tanto sangue e no morrer? Mas, graas a Deus, nenhum fio 
sangrento lhe corria dos lbios... Oli, aquela espuma rubra anunciadora da morte, aquela espuma 
que Scarlett to bem conhecia desde o dia terrvel em que depois da batalha de Peachtree Creek, ela 
vira os feridos @xpirar no jardim da tia Pitty! 
- nme-se! -disse Rhett com voz dura onde se notava certa ironia. - Ele no morre, Pegue no 
candeeiro e alumie a senhora Wilkes. Preciso de Archie. Tenha vrias coisas para ele fazer. ' 
Archie olhou para Rhett por cima do candeeiro. -No recebo ordens do senhor -declarou, passando 
o ~o de tabaco que estava a mascar para o outro lado da boca. 
-Far o que o capito Butler disser -observou Melanie, em voz severa, - Tudo o que ele disser. Pega 
no carideeiro, Scarlett. 
Scarlett avanou e agarrou no candeeiro com as duas mos, para no o deixar cair. Asliley tornara a 
fechar os olhos. 0 peito nu soerguia-se devagar e baixava rapida- 
346 
inente, e o sangue continuava a escorrer entre os dedos nervosos de Melane. Confusamente, 
Searlett ouviu Archie atravessar o quarto e Rhett proferir algumas frases em voz baixa, mas, com a 
ateno presa em Ashley, s percebeu estas palavras: 
- Monte o meu cavalo... amarrado l fora... v  desfilada 
Ar@@ie fez quaisquer perguntas, a que Rhett respondeu: 
- Na plantao do velho Sullivan. Encontrar as coguls no interior da chamin maior, Queime-as. 
- Hum - resmungou Archie. 
- Est<) dois... homens no subterrneo. Leve-os no cavalo conforme puder e coloque-os no meio do 
terreno vago que existe atrs da casa de Belle... o terreno que fica entre o prdio e a via frrea. 
Tenha cutela, Se algum o vir, ser enforcado como todos ns. Depois de os colocar nesse terreno, 
ponha duas pistolas ao lado deles... ou melhor, meta-lhes uma pistola na mo. Tome, aqui tem as 
minhas. 
Scarlett ergueu os olhos e viu Rhett vasculhar sob as abas do casaco e puxar de duas pistolas, que 
Archie enfiou no cinto. 
- Dispare um tiro de cada uma. P, necessrio que aquilo tenha um ar de duelo. Compreende? 
Archie fez que sim com a cabea e no seu olho nico brilhou uma centelha de admirao. 
Mas se Archie compreendera, Scarlett  que no percebera @ada. Aquela ltima meia hora fora to 
semelhante a um pesadelo que ela tinha a impresso de. que nada do que acontecesse podia ser 
acessvel ao seu entendimento. Contudo, Rhett parecia estar senhor da situao, e isso j era alguma 
coisa. 
#
Archie dispunha-se a partir quando se voltou e pers,=tou Rhett com o olhar, enquanto perguntava: 
n ele? 
Archie soltou um grunhido e cuspiu no cho. Esta breve troca de palavras despertou os terrores de 
Scarlett e uma suspeita foi-se-lhe desenvolvendo no peito Pomo, uma bola de sabo. Quando, essa 
bola rebentasse... 
-Onde est Frank? -bradou. Rbett aproxImou-se do leito com aquele seu andar gil e silencioso 
como o dum gato. 
347 
-D tempo ao tempo -murmurou, com um leve sorriso. - Segure o candeeiro ' Scarlett. Quer 
incendiar o senhor Wilkes? Oia, Melly... 
Melanie ergueu a cabea como uni bom soldado que espera uma ordem sem sequer reparar que, 
pela primeira vez, Rhett a tratar@ pelo nome que s a famlia e os velhos amigos empregavam. 
- Desculpe... Eu queria dizer senhora Wilkes. 
- Oh, capito Butler, no me pea perdo! Sinto-me at muito honrada por me chamar MeIly. n 
como se o senhor fosse meu irmo, ou primo, 15' muito bondoso e inteligente! Nunca lhe 
agradecerei bastante... 
-Obrigado -atalhou Rhett, e, por momentos pareceu indeciso. - Foi excessiva liberdade da minha 
part@. Demais a mais estou penalizado por ter envolvido o senhor Wilkes, e os outros, nessa 
histria da casa de Belle Watling... Mas tive de inventar qualquer coisa enquanto galopava, e s me 
ocorreu esse plano. Convenci-me de que daria resultado, porque tenho muitos amigos entre os 
oficiais yankees. Fazem o favor de acreditar na minha palavra, como se fosse deles, devido ... 
como direi?...  minha impopularidade entre os habitantes da cidade. E eu, de facto, estive 
ao,comeo da noite a jogar ao poker nesse estabelecimento. H uma dzia de soldados yankees que 
o podem testemunhar. E Belle e as raparigas tero muito prazer em mentir, dizendo que o senhor 
Wlkes e os companheiros se encontraram toda a noite no andar de cima. Os yankees no duvidaro. 
So esquisitos! Nem lhe ocorre pensar que as mulheres daquela... profisso possam ser patriotas 
abnegadas. Os yankees no acreditariam uma palavra das senhoras srias de Altanta a respeito do 
que se passou esta noite, mas so capazes de crer firmemente nessas mulheres que... Julgo, pois, que 
salvaremos os nossos amigos, utilizando o testemunho dum Renegado e de uma dzia de damas de 
vida fcil. 
Rhett proferiu as ltimas palavras com um sorriso sardnico que logo se desvaneceu quando 
Melanie ergueu para e a face radiante de gratido. 
-Capito Bufler, o senhor  uma jia. Podia at dizer que eles tinham passado a noite no Inferno que 
eu no me importaria, contanto que isso os salvasse. Eu sei perfeitamente que meu marido nunca 
ps os ps nesse antro temvel. 
348 
- Mas... - volveu Rhett, um tanto embaraado - o seu marido esteve de facto esta noite em casa de 
Belle. 
Melan'e mudou de expresso. 
- Nunca me far acreditar em semelhante peta! 
- Perdo, minha senhora, deixe-me explicar. Ao chegar a casa do Sullivan, encontrei ferido o senhor 
Wilkes. Estavam com ele Hugh Elsin.-, o Dr. Meade e o velho Merriwether... 
- 0 qu? 0 velho Merriwether?! -exclamou Scarlett, incrdula. 
- Os homens nunca so muito velhos para fazer toli-@ces. Estava l tambm o seu tio Henry... 
-Jesus! -gemeu a tia Pitty. 
ZI, 
- Os outros tinham-se dispersado depois da escaramua com os soldados, mas os que ficaram 
dirigiram-se para casa do Sullivan a fim de esconder as cogulas e verificar o estado do senhor 
Wilkes. Se ele no estivesse ferido, iriam j a caminho do Texas, mas assim no suportaria to 
longo trajecto a cavalo, e os outros no quiseram abandon-lo. Tornava-se indispensvel fornecerlhes 
um alibi, e por isso os levei por atalhos a casa de Belle Watling. - 
#
-Ah, compreendo! Peo-lhe desculpa da minha grossaria, capito Butler. Mas... no os viram 
entrar? 
-No ningum nos viu. Fomos pela entrada das traseiras qu@ d para a linha frrea. Esse lado est 
sempre s escuras e a porta conserva-se trancada. 
-Ento como ... ? 
Tenho a chave - declarou Rhett, fitando Melanie sem pestanejar, 
0 significado que esta revelao comportava causou tal embarao a Melanie que ela se ps a 
remexer desajeitadamente na toalha e acabou por deixar a ferida a descoberto. 
-No lhe fiz a pergunta com ideia de me intrometer na sua vida - disse, ruborizada, apressando-se a 
colocar a compressa no seu lugar. 
- Lastimo ter de falar destas coisas a uma senhora. "Ento  verdade o que dizem!" pensou Scarlett, 
que sentiu um estranho aperto de corao. "Vive com aquela criatura! Ele  que  o proprietrio da 
tal casa!" 
- Expliquei a Belle toda a questo. Dei-lhe uma lista dos suspeitos, para que ela e as raparigas 
confirmem que esses homens passaram a noite na sua companhia. Para tornar mais notada a nossa 
salda, Belle chamou os dois 
349 
sujeitos que l tem para manter a ordem no estabelecimento. Improvsou-se uma cena de pugilato, e 
fizeram-nos descer a escada de escantilho atravessar o botequim, e puseram-nos na rua como 
br6s barulhentos que estivessem a perturbar o sossego do local... 0 Dr. Meade no era bbado 
muito convincente -acrescentou Rhett ' sorrindo. 
- Feria-lhe a dignidade encontrar-se em semelhante lugar. Em compensao, seu tio Henry e o velho 
Merriwether foram perfeitos. 0 teatro perdeu dois grandes actores por eles nunca se lembrarem de 
se apresentar no palco... Pare- 
6am divertidissimos com o caso. Receio bem que seu tio Henry aparea amanh com um olho negro 
devido ao zelo com que Merriwether interpretou o seu papel. Ele... 
Abriu-se a porta do corredor e India entrou, seguida do velho Dr. Dean 'com a sua comprida 
cabeleira branca em desordem e a sua maleta de coiro na mo. Baixou a cabea num breve 
cumprimento e, sem proferir palavra, tirou a compressa do ombro de Ashley. 
- Muito em cima para ser no pulmo - declarou. - Se a clavicula no foi atingida, no h gravidade. 
Tragam-nos todas as toalhas que houver., e algodo, se tiverem. E um pouco de aguardente. 
Rhett desembaraou Searlett do candeeiro, que ele pousou na mesa, enquanto Melanie e India se 
apressavam a obedecer s instrues do mdico. 
-No  precisa aqui. V sentar-se junto do fogo da sala. -Meteu o brao no de Scarlett e levou-a 
para fora do quarto. Nos gestos e na voz havia uma doura que no lhe era habitual. -0 dia de hoje 
foi mau para si, no  verdade? 
Scarlett deixou-se conduzir e, embora se encontrasse defronte do fogo aceso, ps-se a gritar. A 
suspeita, aquela bola que a oprimia 'ia-se-lhe alastrando dentro do peito. J no era suspeita, era 
quase uma certeza, uma terriver certeza. 
Durante uns momentos esteve de olhos fixos na cara impenetrvel de Rhett, sem poder falar, at que 
perguntou: 
- Frank esteve em casa... de Belle Watling? 
- No. - A voz de Rhett era brusca. - Arche deve estar a lev-lo para o terreno vago que fica atrs 
da casa de Belle. Morreu. Penetrou-lhe uma'bala na cabea. 
350 
46 
POUCAS famlias do extremo norte da cidade dormiram naquela noite, porque as notcias sobre o 
desastre sucedido aos da Man assim como as relativas ao estratagema de Rhett, se espalharam pelas 
traseiras da casa, anunciadas em voz baixa por India Wilkes, que ia bater s portas das cozinhas e 
desaparecia outra vez no escuro e no vento. E atrs dela ficou a angstia e a esperana. 
Do exterior, as casas pareciam sem luz e silenciosas, mas, l dentro, conversou-se com animao 
#
at de madrugada, procurando no entanto no despertar a ateno de quem passasse na rua. Estavam 
dispostos a fugir no s os homens que haviam tomado parte no assalto como tambm os outros 
membros da Klan. Em quase todas as estrebarias da Peaclitree Street esperava um cavalo ' com 
pistolas nos coldres e mantimentos nos alforges. 0 recado transmitido por India  que evitara o 
xodo geral: "0 capito Butler recomenda que fiquem. As estradas devem ter patrulhas. Ele 
combinou com a tal Watling". Em quartos escuros, ouviam-se os homens murmurar: "Por que heide 
fiar-me nesse renegado do Butler? Talvez seja uma armadilha". E em seguida vozes de mulheres 
que suplicavam: "No partas. Se ele salvou AshIey e Hugh,  que vai salvar tambm os restantes. 
India e Melanie tm confiana nele". Deste modo ficaram, tanto mais que no havia outra soluo. 
Ao comeo da noite, os soldados tinham batido a uma dzia de portas, e os moradores que no 
souberam ou no puderam dizer onde haviam estado aquelas ltimas horas C presos e conduzidos 
debaixo de escolta. Entre os que t=ram voz de priso contavam-se Ren Picard e um dos sobrinhos 
da senhora Merriwether, e os irmos immonds, e Andy Bonnel. Embora tomassem parte na 
execuo da Man, separaram-se dos outros depois da escaramua com a tropa e dirigiram-se a toda 
a brida, para as respectivas casas, onde os foram buscar antes que soubeswn do plano de Rhett. 
Felizmente que responderam s perguntas que lhes fizeram com a declarao unnime de que no 
tinham de dar contas da sua vida a ningum. E,  espera de mais completo interrogatrio na manh 
seguinte ' l ficaram fechados na cadeia. 0 velho Merriwether e o tio Henry 
351 
disseram sem rebuo que tinham estado em casa de Belle, e, quando o capito Jaffery, revoltado, 
lhes observara que j no eram novos para aquele gnero de distraco, por um pouco chegaram a 
vias de facto com ele. 
A Watling, em--pessoa, recebeu o capito  porta do estabelecimento e, antes que o oficial 
participasse o fim da sua v1sita, ela gritou alto e bom som que j tinha fechado o expediente. Mas 
sempre contou que na sua casa houvera uma rixa de bbados, os quais puseram tudo em p de 
guerra, partindo espelhos e assustando as raparigas, de maneira que fora decidido no receber mais 
ningum nessa noite. Em todo o caso, se o capito Jaffery quisesse tomar qualquer coisa... 
0 capito compreendeu que estava a cair no ridculo, pois a ffistria emaranhava-se cada vez mais. 
E, furioso, declarou que no queria beber nem ouvir o depoimento das empregadas; bastava que lhe 
dissessem o nome dos clientes mais desordeiros. Ora Belle Watling conhecia-os muito bem. Eram 
frequentadores das quartas-feiras, e at lhes chamavam os Democratas da Quarta-Feira. Ignorava, 
porm, se isso tinha qualquer significado especial. Se no pagassem os prejuzos causados no 
primeiro andar, seriam por esse facto chamados  Justia. 0 seu estabelecimento era respeitvel, e... 
Ah, os nomes deles?! Belle, sem dificuldade, enumerou doze. Jaffery esboou um sorriso amarelo. 
-Esses malditos rebeldes esto to bem organizados como o nosso servio secreto, Voc e as suas 
raparigas tero de comparecer amanh diante do preboste-mor. 
-E ele obrigar os arruaceiros a pagarem-me os prejuzos? 
- Pea a Rhett Bufler que a reembolse. No fim de contas, ele  que  o proprietrio... 
Antes de amanhecer, todas as famlias dos ex-cc>nfederados estavam ao corrente da situao. Os 
antigos escravos, a quem nada disseram, tambm sabiam tudo graas a um sistema de comunicaao 
estabelecido ha@ilmente entre eles, Ningum ignorava os pormenores do assalto, a morte de Frank 
Kennedy e de Tommy Wellburn, e o ferimento que AshIey recebeu ao transportar o corpo de Frank. 
As mulheres j desculpavam um pouco a Scarlett ter sido a causa da tragdia, atendendo  morte do 
marido; 
352 
r-,, 
mas, enquanto no descobrissem o, cadver deste, ela devia fingir que ignorava aquele triste 
desfecho. Cada qual com um revlver preso nos dedos frios, Frank e Tommy jaziam num terreno 
desocupado coberto de ervas secas. Quando os vissem assim, os @"es declarariam que, depois de se 
terem embriagado, eles se haviam ferido mortalmente em duelo, por causa duma rapariga do 
estabelecimento de Belle. Todos lamentavam muito a sorte de Fanny, que acabava de ser me, mas 
#
ningum se atrevia a sair de noite para a ir consolar, porque a casa estava cercada por um peloto de 
soldados yankees, que esperavam o regresso de Tommy. Tambm de volta da residncia da tia Pitty 
havia militares a aguardarem que Frank voltasse. 
Logo de manh muito cedo espalhou-se o boato de que as autoridades militares procederiam nesse 
mesmo dia a um inqurito. Os habitantes da cidade, com evidentes sinais no rosto daquela noite 
passada em claro, soube ram que dependia de trs coisas a salvao dos mais eminentes dos seus 
concidados: a possibilidade de Asliley Wilkes aparecer em pblico e ir ao tribunal como pessoa 
que sofre apenas duma dor de cabea depois de copiosas libaes; a confirmao a fazer por Belle 
Watling de que os indicados haviam passado a noite em sua casa; e enfim, a afirmao a prestar 
@or ButIer de que tambm tomara parte na orgia. 
Ao reflectir nestas duas ltimas condies, a gente de Atlanta estremecia de indignao. Ficar 
devendo a Belle Watling a vida daqueles homens! Era intolervel. E muitas mulheres que se tinham 
desviado na rua ao verem aparecer aqu@la criatura, pensavam agora se ela ainda se lembraria disso, 
e s de o pensarem ficavam com suores frios. Os homens sentiam menos humilhao em deverem 
esse favor  conhecida mundana, poris que a consideravam, afinal, como uma pessoa corajosa. 
Afligiam-se mais por terem de mostrar gratido a Rhett Butler, a quem chamavamespeculador e 
renegado. Belle, a mulher mais clebre da cidade; Rhett, o homem mais odiado da mesma. Eis as 
criaturas a quem se tornava necessrio mostrarem-se agradecidos, 
Havia outro pensamento que lhes provocava uma clera impotente: era a ideia de que os yankees e 
os Sacolas se iam rir  custa dos,sulistas. Ah, que motivo de chacota saber que doze cidados 
respeitveis de Atlanta eram clien- 
25 - Vento Levou - 11 353 
tes assduos do estabelecimento de Belle, que dois de entre eles se haviam batido em duelo de morte 
por uma rapariga de vida fcil, que os outros tinham sido postos na rua por estarem 
demasiadamente bbados para que Belle os tolerasse e que alguns dos prisioneiros iriam negar a sua 
compaAicipao- na pndega, quando os outros os acusavam de seus companheiros de estrdia! 
Atlanta fazia bem em recear a troa dos y)ankees, que tinham sofrido durante muito tempo a frieza 
e o desprezo dos sulistas. Era altura de se vingarem, dando, livre curso  gargalhada! 
Os oficiais acordavam os seus camaradas e contavam-lhes pormenores do caso. Os maridos 
despertavam as mulheres e diziam-lhes o que se podia decentemente dizer-lhes. E elas, vestindo-se 
 pressa, iam bater  porta das vizinhas para relatarem por sua vez o sucedido. As senhoras yankees 
estavam encantadas com tudo isso e riam at chorar. A tinham, pois, o. cavalheirismo dos homens 
do Sul! Decerto que estas damas arrogantes que lhes voltavam a cara e evitavam toda a espcie 
de'relaes sociais, se sentiriam da por diante menos dispostas a dar mostras do seu orgulho. Toda 
a gente sabia de que espcie eram os maridos, que fingiam estar em reunies polticas, e afinal 
passavam o tempo nos botequins de m fama. 
Embora, porm, se rissem, as senhoras yanke-es condoam-se de Searlett e do seu drama. No fim de 
contas, ela era uma senhora e das poucas que evidenciara simpatia pelas nortistas. dmiravam-na 
em especial pelo facto de se entregar ao trabalho, visto que o marido no queria, ou no podia, 
sustent-la dignamente. E, ainda que ele fosse to merecedor de apreo como a mulher, no deixava 
no entanto de ser triste para esta saber ao mesmo tempo que ele a enganara e que j no pertencia ao 
nmero dos vivos. Alis' mais valia sempre ter um mau marido, do que no ter nenhum, e as 
senhoras yankees deliberaram redobrar de atenes para com a infeliz Scarlett. Quanto s outras, as 
senhoras Meade, Merriwether, Elsing, a viva de Tommy Wellburn e ' em especial, a mulher de 
AshIey Wilkes, as nortistas rir-lhes-iam na cara sempre que as encontrassem. Isto ensinar-lhes-ia a 
serem mais corteses. .A maior parte dos comentrios que se faziam nas casas do extremo norte da 
cidade, naquela noite, eram igualmente deste gnero. As senhoras de Atlanta declaravam 
354 
redondamente aos maridos que pouco lhes importava o conceito em que as tinham as yankees mas 
no Intimo diziam preferir sofrer tormentos fsicos @ terem de suportar a risota daquelas sem lhes 
poderem revelar a verdade. 
#
0 Dr. Meade, ofendido na sua dignidade e fulo com Rhett por este haver brincado com ele e com os 
outros, confessou  mulher que se no fora a circunstncia de comprometer os amigos: preferiria 
pr tudo em pratos limpos e ser enforcado. 
- 15, uma ofensa para ti - concluiu - isto de se espalhar que -estive em semelhante casa. 
-Mas todos sabem que no estavas l para... para... 
- Os yankees nunca o sabero. Se queremos salvar a pele temos de fingir o que se conta por a. E 
ho-de rir-se de @s! Esta ideia contende-me com os nervos. E  injuriosa para ti, minha querida, 
porque... porque nunca te ,enganei. 
- Sei muito bem - replicou sorrindo, a senhora Meade, pegando na mo do doutor. - Mas antes 
queria que fosse verdade a ver-te exposto ao menor perigo. 
-Compreendes o que ests a dizer? -volveu ele, surpreendido com a abnegao da mulher. 
-Sim, compreendo. Perdi Darey e Phil. Tu s a nica pessoa que me resta e por isso preferia que 
frequentasses essa casa a saber-te ameaado, de qualquer desgraa. 
- Nem sabes o que dizes! 
- Tu  que no sabes - replicou a senhora Meade, em voz suavssima, encostando a cabe@a ao 
ombro do marido. 
0 doutor acariciou-lhe a face e remordeu em silncio a sua indignao. Mas de sbito, esta rebentou 
de novo. 
-E ter de ficar re@onhecido a esse Butler! Ser enforcado no  nada em comparao com este 
suplcio. 
- Melly diz que ele se alistou depois da rendio de Atlanta. 
- P, mentira, Melly acredita em tudo. 0 que eu no compreendo so as razes que o impeliram a 
fazer o que fez. Por que se meteu neste caso? Custa-me a diz-lo, mas sempre constou por a que 
havia qualquer coisa entre ele e a senhora Kennedy. 0 ano passado, vi-o muitas vezes juntos de 
carruagem. Deve ter feito aquilo. por causa dela. 
- Por causa de Scarlett? No. Se assim fosse, Butler nem levantaria um dedo para salvar os outros... 
Ficaria 
355 
contentssimo s com a ideia de que Frank seria enforcado. C na minha, acho que foi por causa de 
Melly. 
-No venhas -insinuar que h o que quer que seja entre ambos! 
-Tens cada uma! Mas lembra-te de que ela' tomou amizade a Bufler desde que ele tentou intervir a 
favor de Astiley durante a guerra. E devo dizer em seu abono: nunca vi aquele homem sorrir com o 
-seu sorriso detestvel na presena de MeIly. Pelo contrrio, mostra-se simptico, ponderado, muito 
diferente do que costuma ser. A avaliar pela maneira como se porta com a MeIly, chega-se  
concluso de que ele, se quisesse, seria uma pessoa correcta. Tenho c a impresso de que fez 
aquilo... - 
A senhora Meade interrompeu-se.-A minha ideia no te vai agradar... 
-Nada me agrada em toda esta histria. -Tenho a impresso de que fez aquilo em parte por causa de 
MeIly, mas, sobretudo, porque quis pregar uma partida a todos ns. Nunca escondemos a nossa 
antipatia por Butler, e ele, para se vingar arranjou-nos este dilema: ou confirmar a, estadia na 
casa'dessa tal Watling e fie-ar desonrado aos olhos dos yankees, ou dizer a verdade e deixar-se 
enforcar. E sabe que, para no ficarmos a dever favores a ele e ... amante, quase achamos a forca 
prefervel. 0 que no, tem gozado com esta situao! 
- Parecia realmente muito divertido quando !amos a subir a escada do prdio- resmungou o mdico. 
- Como ... - A senhora Meade hesitou. - Como  a casa por dentro? 
-Que ests a dizer? -Como  a, casa de Watling? Tem lustres de cristal, e reposteiros de veludo 
encarnado, e uma poro de espelhos com moldura dourada? E as mulheres... andam despidas? 
- Deus do Cu! - exclamou o doutor pasniado. Nunca pensara que fosse to vida a curiosidae 
duma criatura virtuosa acerca das suas irms impuras. - Como  possvel que formules semelhantes 
perguntas? No ests em ti, com certeza. Precisas dum calmante. 
#
- No quero calmantes. Quero  saber. ]@: a nica oportunidade que tenho de ficar a fazer ideia de 
como so aquelas casas, e s to maldoso que no queres dizer nada! 
- Julgas que reparei nalguma coisa? Estava muito 
356 
aflito por me ver em semelhante lugar para que pudesse reparar no que se passava  minha voltarespondeu 
o mdico, mais sobressaltado agora pela inesperada revelao do carcter da esposa do 
que na agitada noite anterior.-Desculpa, mas vou ver se durmo. Preciso de descanso. 
- Est bem, vai dormir-disse a mulher, descorooada. Quando o mdico se baixava par-a descalar 
as botas, a voz da senhora Meade ressoou no quarto, com certa animao. 
- A Dolly deve ter arrancado muita coisa do velho Merriwether, e atravs dela saberei tudo. 
- Santo Deus! Queres dizer com isso que as senhoras decentes conversam de tais assuntos? 
- Deita-te e cala-te - respondeu a senhora Meade. 
Choveu e caiu granizo no dia seguinte; mas, ao fim da tarde, desencadeou-se uma ventania que fez 
parar o aguaceiro. Embiocada no seu casaro, Melanie, muito intrigada, desceu o passeio do jardim 
atrs dum cocheiro preto que ela no conhecia e lhe viera pedir com ar de mistrio que o 
acompanhasse a uma carruagem fechada que parara defronte da casa. 
Quando se aproximava viu abrir-se a portinhola do carro e percebeu o vulto 6ma mulher sentada l 
dentro. 
-Deseja falar comigo? - perguntou Melanie, antes mesmo de chegar junto dela. - No quer entrar em 
minha casa? Est tanto frio! 
- No, obrigada. Sente-se aqui a meu lado uns momentos, senhora Wilkes - props uma voz um 
tanto embaraada, vinda das profundezas da carruagem. 
- Ah, ... a senhora Watling! - exclamou Melanie. - 
Estava com tanto desejo de lhe falar! Tem de vir a minha casa. 
- No 'no!  impossvel! -protestou Belle Watling, como se escandalizada com o convite. - Suba e 
sente-se aqui. 
Melanie entrou na carruagem, cuja portinhola o cocheiro logo fechou, e, depois de abancar junto da 
mulher, pegou-lhe na mo. 
- Como poderei agradecer-lhe tudo o que fez hoje? Como havemos de. lhe demonstrar a nossa 
gratido? 
-A senhora no devia ter-me enviado aquele bilhete 
357 
esta manh. ginto--me muito honrada por se dignar escrever-me, mas os yankees podiam a panhar o 
bilhete, E quanto a falar em visitas de agradecimento... Oh, senhora Wilkes, no deve estar boa de 
cabea para se lembrar de me fazer uma visita! Assim que escureceu vim aqui para a dissuadir de 
semelhante Wela. Porque eu... e a, senhora... Enfim, seria inconveniente. 
- Inconveniente visitar e agradecer a uma mulher bondosa ter salvado o meu marido? 
- Oli, senhora Wlkes! Sabe muito bem o que eu quero dizer, 
Melanie calou-se uns momentos, embaraada com aquela observao. No entanto, essa bonita 
rapariga., vestida com sobriedade' no correspondia  imagem que ela fazia duma criatura de m 
vida e, para mais, dona duma casa de meretrizes. No teria um aspecto fino, mas era simptica e 
deveras cordial, 
-Portou-se hoje lindamente no preboste-mor, senhora. Watling, E as outras raparigas tambm. 
Todas concorreram para salvar a vida dos nossos homens. 
-0 senhor Wilkes  que se portou s mil maravilhas. Custa-a crer como  que ele teve foras para se 
aguentar de p e fa7er as suas, declaraes, e ainda, por cima conservar o sangue-frio. Ontem  
noite, quando o vi, sangrava que fazia d. Est melhor, no  verdade, minha senhora? 
-Est obrigada. 0 mdico diz que foi uma ferida superficial' embora deitasse muito sangue. Esta 
manh... teve de tor@ar umas bebidas fortes sem o que no poderia manter-se. Mas foi a senhora, 
re@ito, quem os salvou a todos. Quando se encolerizou, queixando-se da moblia quebrada... 
parecia que era mesmo a valer! 
#
-Obrigada, senhora Wilkes, mas creio que o capito Butler no ficou atrs de mim... 
- Ah, esse foi estu Pendo! - declarou Melanie, entusiasmada. - Os yankees no desconfiaram nem 
um instante. 
0 capito orientou tudo -to bem... No lhe agradecerei bastante, @a ele, nem a si, igualmente. Foi 
to generosa! 
-Mais uma vez obrigada. Fiz isso com o maior prazer. Espero... no se tenha zangado por eu dizer 
que o senhor Wilkies era um dos frequentadores da minha casa. Bem sabe que ele nunca l tinha 
ido... 
- Sei, sei. Como  que podia zangar-me? 0 que fiquei foi bastante grata. 
358 
- Aposta que as outras senhoras se ofenderam - observou Belle, com uma pontinha de rancor, - E 
que se ofenderam tambm com o capito Butler. H"e o detestar ainda mais! Nenhuma delas me 
agradecer, como a senhora fez. As outras, quando me encontrarem na rua com certeza que voltaro 
a cara. No me importo. Tant@ me fazia, afinal, que os maridos fossem enforcados ou no. Com o 
senhor Wilkes o caso  diferente. Nunca me esqueo do dinheiro que a senhora deu para o hospital, 
durante a guerra. Nunca houve ningum assim to amvel comigo, e eu no sou das que esquecem 
os favores. E ento, pensando que a senhora ficava viva com um lindo rpazinho rf o... Eu 
tambm tenho um filho... 
- Ah, tem?! Ele vive na... 
- No, senhora, no est em Atlanta. Nunca velo c. Interne-o.num colgio. Era ainda to 
pequenino quando o vi pela ltima vez! Mas no falemos dele. Pois, como dizia, quando o capito 
Butler me pediu que jurasse falso, eu quis saber quem eramesses senhores. Ao ouvir o nome do 
senhor Wilkes, no hesitei. Chamei as raparigas e recomendei-lhes: "Desgraada daquela de vocs 
que no afirmar que o senhor Wilkes esteve aqui toda a noite!" 
- Oh! - exclamou Melane, embaraada com o rumo da conversa. -Foi muita bondade da sua parte... 
e da parte delas. 
-A senhora merecia isso-insistiu Belle.-Mas no fazia uma coisas destas por mais ningum. Por 
exemplo, o marido da senhora Kennedy. Nem que o capito Butler me rogasse de joelhos, 
- Porqu? -Ora... as pessoas como eu ouvem muita coisa. H muitas senhoras que haviam de cair 
das nuvens se eu lhes dissesse o que sabia da vida de cada uma. No me agrada muita essa senhora 
Kennedy. Se no matou o marido nem esse,rapaz WelIburn, coitado, foi o mesmo que se o fizesse. 
Ela  que teve a culpa. Tanto se mostrou pelas ruas de Atlanta, que os preto5 perderam a cabea. Os 
pretos e alguns brancos de ma casta. Olhe, nenhuma das minhas raparigas... 
-No diga mal da minha cunhada -acudiu Melanie, em voz mais rspida. 
Belle ps a mo no brao de Melanie, mas retirou-o logo. 
- No se zangue, senhora, Wilkes. Eu ficava triste, 
359 
depois das coisas agradveis que me disse. Esqueci-me de que gostava tanto dela e arrependo-me de 
ter falado assim. Tive muita pena do senhor Kennedy, que era um homem srio. Comprei no seu 
armazm multas coisas para a minha casa e fui sempre tratada com deferncia. Agora, quanto  
mulher dele... no  como a senhora ' no. Tem outros sentimentos menos amigveis. Quando  o 
enterro do senhor Ken@edy? _ Amanh de manh. Mas olhe que se engana a respeito da senhora 
Kennedy. Nesta ocasio, ela est verdadeiramente abatida. 
-Acredito -volveu a Watling, num tom pouco convincente. - Bem, agora tenho de ir. Receio que 
algum veja aqui a carruagem, se me demorar mais tempo, Olhe, se me encontrar na rua... no  
obrigada a reconhecer-me. Eu compreendo essas coisas. 
- Terei muito, gosto em falar-lhe, -em lhe mostrar a minha gratido. Conto... conto que nos 
tornaremos a ver. 
- No, senhora - retorquiu Belle. - No seria conveniente. 
47 
SCARLETT refugiara-se no seu quarto e enquanto debicava o jantar que Bab lhe levara num 
#
ta@uleiro, escutava os uivos do vento na escurido da noite. Era assustadora a calma que reinava 
dentro de casa, calma ainda maior do que algumas horas antes, quando o cadver de Frank jazia na 
sala. Ao menos nessa altura ouvia-se andar em bicos de ps e falar em voz baixa; soavam pancadas 
discretas na porta da rua, a anunciar a chegada de vizinhos que vinham apresentar condolncias e, 
de vez em quando, um soluo lembrava a existncia da irm de Frank que abalara de Jonesboro para 
assistir ao funeral. 
Agora o silncio envolvia a casa. Se bem que tivesse deixado @ porta aberta, Scarlett no sentia o 
mnimo rumor no andar de baixo. Tinham levado Ella e Wade para a ,residncia de Melanie e 
Scarlett lastimava agora no ouvir os passos do pequeno e a garrulic-e da filha, Havia trguas na 
cozinha; pela primeira. vez Peter, Bab e a cozinheira no altercavam. A prpria tia Pitty, sentada 
no escritrio, evitava os rangidos da cadeira de baloio, por deferncia pa,ra com o desgosto da 
sobrinha. 
360 
Julgando que ela queria estar sozinha com a sua dor, ningum se atrevia a perturb-la; afinal, o que 
Scarlett queria era estar acompanhada. A solido no a afligiria se fosse s o desgosto que a 
atormentasse; suport-lo-ia como suportara tantos outros. Mas, alm do pesar pela morte de Frank, 
ela tinha medo e o despertar brutal da conscincia infligia-lhe um verdadeiro suplcio. Como nunca 
at ento lhe acontecera, arrependia-se de certas das suas aces, e os remorsos revestiam a forma 
de receio supers, ticioso que a levava a lanar a cada instante olhares furtivos ao leito que 
compartilhara com o marido. 
Fora ela a causadora da morte de Frank! Sentia-se to assassina como se lhe houvesse disparado um 
tiro na cabea. Frank suplicara-lhe que no sasse szinha, mas no o escutara, e a sua obstinao 
tivera aquele resultado. Deus havia de ia castigar por isso. Entretanto a conscincia censurava~lhe 
qualquer coisa ainda mais grave, que lhe fora revelada quando se inclinara sobre o rosto do defunto. 
Naquela face imvel, descobrira uma expresso dolorosa como que uma acusao. Deus tambm a 
punira de have@ casado com Frank quando era Suellen que ele amava. Teria um dia de comparecer 
diante do Juiz Supremo e responder pela mentira que forjara para consegui,r o casamento. 
Eram agora inteis os argumentos de que o fim justifica os meios de que a necessidade a obrigara a 
recorrer  mentira, @ que dependia dela a sorte de muita gente para que se fosse preocupar com os 
direitos de Suellen e a felicidade de Frank. A verdade evidenciava-se em letras de fogo, e ela no a 
podia suportar. Casara com Frank a sangue-frio, e a sangue-frio se aproveitara dele. Nos ltimos 
seis meses tornara a sua vida num inferno quando podia ter-lhe proporcionado uma existncia 
akradvel. Deus puni-la-ia por no se haver mostrado mais amvel com o marido; f-la-ia pagar as 
maldades, os acessos de clera, as observaes mordazes; castig-la-ia por ter indisposto Frank com 
os seus amigos, por o ter envergonhado com a sua insistncia em gerir as fbricas, fundar um 
botequim e empregar forados no trabalho. 
Tornara-o infeliz e sabia-o; ele, porm, tolerara tudo como um cavalheiro. A nica alegria que lhe 
dera Iora presente-lG com uma, filha. E no ignorava que, se depen- 
361 
desse da sua vontade, a pequena jamais teria vind<3, ao mundo. 
Aterrada com estes pensamentos, estremeceu de novo e desejou que Frank fosse ainda vivo para o 
compensar dos sofrimentos  fora de carinhoss. Ao menos se Deus no se mostrasse to 
implacvel! Se os, minutos no decorressem to lentamente, se a casa estivesse menos silenciosa! 
Se a sua solido pudesse ser menos completa! 
Melanie, se se encontrasse acol, acha-ria me!o, de lhe apaziguar a angstia. Mas Melanie estava 
em casa a tratar de AshIey. Scarlett ainda pensou chamar Pittypatt, mas a presena de Pitty s 
agravaria a situa  . o, pGis a velhota chorava profundamente a morte de Frank. Este, pela idade' 
estava mais prximo dela do que Scarlett, e entre ambos havia grande amizade. Pitty sempre 
desejara, ter "homem na casa" e ele desempenhara muito bem esse papel, 'trazendo-lhe muitos 
presentes, comunicando-lhe novidades inofensivas, contandoa-lhe histrias e lendo-lhe o jornal ao 
sero enquanto ela lhe passajava pegas. Pitty era cheia de cuidados para com ele, dedicava-lhe 
#
pratos especiais, mimava-o durante as suas inmeras constipaes. Agora carpia-o amargamente e 
no cessava de repetir, enxugando os olhos: "Se ele no tivesse sado com os da Klan ... " 
Se Scarlett, descobrisse@ algum que a pudesse consolar, acalmar-lhe os terrores, explicar~lhe 
donde provinham aquelas an~ias confusas que lhe apertavam a corao como numa prensa! Se ao 
menos AshIey... Mas este pensamento atemorizava-a. Ela quase matara AshIey tal como matara 
Frank. E se aquele algum dia soubesse c@mo Scarlett mentira ao futuro marido, se tivesse 
conhecimento de quanto fora m para cQm, ele, AshIey j no, lhe poderia ter amor. AshIey era to 
honesto to leal, to bondoso, e possua um modo to seguro de'julgar! Se conhecesse a verdade 
toda, talvez ainda a compreendesse. Sim, compreenderia, mas deixaria de a amar. Portanto, devia 
ignorar a verdade, para que continuasse a am-la. Como podia ela viver se a privassem do, seu 
amor, fonte da sua fora? E, no entanto, que alvio seria poisar-lhe a cabea nor ombro, chorar e 
abrir-lhe o corao culpado! 
0 silncio da casa oprima-a, de tal maneira que Scarlett se sentiu incapaz de suportar mais temp a 
solido sem a ajuda dum estimulante. Levantou-se cautelosamente, 
362 
encostou a porta, e ps-se a vasculhar a ltima gaveta da cmoda. De baixo duma pilha de roupa, 
tirou uma garrafa de aguardente furtada  tia Pitty, o seu "remdio para os deliquios", e ergueu-a ao 
nvel do candeeiro. Estava meio vazia, Seria possvel que tivesse bebido tudo aquilo desde a noite 
anterior? Deitou boa poro no copo dos dentes e despejou--o num trago, Teria de substituir por 
gua o que faltava na garrafa e rep-la na frasqueira antes da manh seguinte. Bab afadigara-se em 
vo a ptocur-la pouco antes do enterro para matar a sede aos gatos-pingados e, na cozinha, a 
atmosfera estava carregada de electrici6de ' pois que j pairava a desconfiana entre Bab, Peter e a 
cozinheira. 
A aguardente c-piusou-lhe uma agradvel sensao de queimadura. Nada como aquilo para 
reanimar uma pessoa. Melhor, muito. melhor do que o vinho inspido. Por que haviam de proibir 
aguardente s mulheres e permitir-lhes vinho? Na altura do enterro a senhora Merriwether e a, 
senhora Meade tinham dado bem a entender que ela cheirava a lcool, pois notara o olhar de triunfo 
que ambas haviam treado. Ora o diabo das velhas! 
Scarlett bebeu nova golada. Pouco lhe importava que ficasse um pouco tocada essa noite. Dai a 
instantes iria para a cama, e gargarejaria gua-de-colnia antes de Bab vir ajud-la a despir-se. A 
sua pena era no poder embra, gar-se como fazia Gerald, de vez em quando. Se ela se 
embebedasse, talvez conseguisse esquecer o rosto emacado, de Frank, que parecia acus-la de lhe 
ter estragado a vida e ser a causa da sua morte. 
Os outros consider-la-lam responsvel pela morte do marido? No havia dvida que a tinham 
tratado com certa frieza durante o enterro. As nicas pessoas expansivas nas condolncias foram as 
mulheres dos oficais yonke,es coni quem ela. se encontrara por via de negcios. Ora, pouco se 
ralava com o que diziam a seu respeito! Como isso era insignificante em relao s contas que-teria 
de prestar a Deus! 
Este pensamento incitou-a a. tomar terceiro capo. Sentia agora espalhar-se pelo corpo um calor 
agradvel, mas continuava sem pod(@r afastar da ideia a imagem de Frank. Que estupidez a dos 
homens afirmar que C> lcool faz esque~ cer tudo! A menos que bebesse at cair no cho, veria. 
sertipre Frank tal como o vira na ltima vez em que o mardo 
363 
lhe pedira que no sasse sozinha, um Frank tmido, desgostoso, de- olhar carregado de censura, 
Algum bateu na porta da rua, e as pancadas ecoaram na casa silenciosa., Scarlett ouviu Pitty 
atravessar o vestbulo em passos saltitantes. A porta abru-se. Depois de breves saudaes, um 
rnurrnri<) confuso de vozes. Alguma vizinha que viera para conversar e trocar impressQes sobre o 
enterro. Pitty devia ficar encantada. Descobrira especial e melanclico prazer em tagarelar nas 
visitas de psames. 
Sem eurlosdade, Scarlett perguntou a si mesma quem poderia ser, mas logo soube quando ouviu 
uma voz de homem bem timbrada cobrir o sussurro lutuoso de Pitty. Invadiram-na a alegria e o 
#
alvio. Era Rhett. No o vira desde que ele lhe anunciara brutalmente a morte de Frank, e eis que 
chegava no momento em que ela tanto necessitava de algum! Scarlett teve nesse instante a certeza 
de que s Rhett a podia ajudar a suportar aquela noite terrvel. 
-Estou convencido de que ela me receber -disse o recrn-vindo. 
- Mas est deitada, capito Butler, e no quer ver ningum. A pobre pequena encontra-se num 
estado de prostrao que mete d. 
- Creio que me receber. Faa favor de lhe dizer que parto amanh em viagem e que devo demorarme 
fora algum tempo. 1@ muito importante. 
-Mas... -volveu a tia Pitty. Scarlett correu ao patamar, notando com certo espanto que no tinha as 
pernas muito firmes, e debruou-se no corrimo. 
- J deso, Rhett -gritou de cima. Viu a tia Pitty erguer a cabea de repente e olh-la com surpresa e 
descontentamento. "Pronto", pensou Scarlett. "Toda a cidade vai saber que me portei 
escandalosamente no dia do enterro de meu marido". Entrando como um p de vento no quarto, 
alisou os cabelos abotoou a blusa preta at ao pescoo e prendeu a gola, c@m o broche de luto da 
tia Pitty. "No paneo j muito bonita", disse consigo, aproximando do espelho o rosto plido e 
angustiado. Estendeu a mo para a caixa onde guardava o carmim, mas mudou de ideias. A pobre 
Pitty seria capaz de desmaiar se a visse aparecer de faces rosadas. Scarlett agarrou ento no frasco 
de gua-de-colnia, e, depois de 
364 
bochechar uni pouco, cuspiu no balde. Feito isso, desceu a escada com um ruge-ruge de saias e 
reuniu-se a Pitty e Rhett que se conservavam a meio do vestbulo, pois a velhota ficara to 
desconcertada com a atitude da sobrinha que nem se lembrara de mandar sentar o visitante. Rhett 
estava vestido de preto conforme exigiam as circunstncias, de camisa com peit@lho de goma. 0 
seu ar cerimonioso era o dum velho amigo que vinha fazer uma visita de psames a uma pessoa de 
luto recente. Desculpou-se por vir incomodar Scarlett quela hora e lastimou que a necessidade de 
pr os seus negcios em ordem antes de partir o tivessem impedido de assistir ao enterro. 
"0 que  que o traria c?" pensava Searlett. "No  nada convincente o que ele est a dizer". 
- Bem sei que no a devia perturbar a esta hora, mas queria falar-lhe dum assunto que no pode 
esperar. Trata-se duma coisa que o senhor Kennedy e eu tnhamos projectado fazer... 
-Ignorava que o senhor Kennedy andasse metido em negcios consigo-atalhou Pitty, indignada pelo 
facto de Frank no a pr ao corrente de todas as suas actividades. 
-0 senhor Kennedy era pessoa de muitos negcios - 
observou Rhett dando mostras do mais profundo respeito. -Poderemos f@Iar na sala? 
- No! - exclamou Scarlett, lanando um olhar  porta de batentes fechados. Via ainda o caixo 
naquele quarto e desejava nunca mais tornar a entrar ali. 
Pela primeira vez na vida, Pitty compreendeu o que devia fazer, e f-lo embora de m vontade. 
-Vo para o escritrio. Eu... tenho de ir para cima... escolher a roupa que precisa de ser passajada. 
H unia semana que no me ocupo disso. Desleixei-me... 
Subiu a escada, mas voltou-se ainda para dirigir a Scarlett e a Rhett um olhar cheio de censura que 
nem um nem outro notaram. Rhett desviou-se para deixar Scarlett entrar  sua frente no escritrio. 
- Que negcios eram esses com Frank? - perguntou ela, sem mais prembulos. 
Rhett aproxmou-se e murmurou: 
- Nenhuns. Quis simplesmente desemba-raar~me da sua tia Pitty. - Calou-se e, inclinando-se para 
ela, acrescentou: - Isso no serve de nada, minha filha, 
- 0 qu? 
365 
..i.YVI . 
- A gua-de-colnia. -No percebo o que qu *er dizer. -Ora se percebe! Deve ter bebido. em 
excesso. -E se bebesse? Tem alguma coisa com isso? -'8 a personificao da delicadeza, at no auge 
da dor. No beba sozinha, Scarlett. Os outros acabam sempre por descobrir e assim se perdem -as 
boas reputaes. Alm disso,  mau sinal quando se desata a beber sozinho. 
#
0 que  que corre mal, minha jia? 
Rhett conduziu-a para o canap de pau-santo e Scarlett sentou-se sem dizer palavra. 
-Fecho a porta? Scarlett sabia que se a Bab visse a porta fechada, no s faria uma cena coi@ao 
fala-ria no caso durante dias seguidos. Por outro lado, ainda seria pior se a ama ouvisse aquela 
conversa acerca de bebida em especial depois do desaparecimento da garrafa de @guardente. 
Scarlett fez um gesto afirmativo, e Rhett, depois de fechar os dois batentes, sentou-se tambm no 
canap. Os seus olhos pretos e luzidios fixaram-se na cara dela como a perscrut-la. Perante a 
vitalidade que dele emanav@, o espectro da morte recuou, o ambiente tornou-se confortvel, as 
luzes pareceram mais claras, 
- Que h de novo jia? Ningum no mun& sabia pronunciar esta palavra estpida e afectuosa com 
mais ternura do que Rhett, mesmo quando gracejava; mas nesse moniento no parecia gracejar. 
Searlett pousou nele um olhar angustiado e, de certa maneira, encontrou consolao naquele rosto 
que nenhum sentimento exprimia. Por que seria isso? Rhett era um ente hermtico e to insensvel! 
Talvez fosse devido a serem parecidos um com o outro como Rhett multas vezes afirmara. E na 
verdade, era a 61ca pessoa com quem ela sentia afini6des, 
- No quer dizer-me o que a apoquenta? - insistiu ele, agarrand(Ahe na mo com afabilidade. - 2 
apenas a reaco pela morte do velho Frank? Precisa de dinheiro? 
- Dinheiro? N(>, no  nada disso. Oh, Rhett, tenho tanto medo! 
-No seja tola, Scariett, voc nunca teve medo na sua vida. 
-Estou cheia de medo, Rhett. As palavras acudam-lhe mais depressa do que ela as 
366 
podia proferir. Agora tinha ensejo de desabafar. Diria tudo a Rhett ' porque era to mau como ela e 
no se sentiria no direito de a censurar. Que bom conhecer algum que no possua escrpulos nem 
se preocupava com a honra, algum que no hesitava em mentir e em burlar o prximo, quando no 
mundo havia tanta gente que no diria uma mentira nem para salvar a, pele e preferia passar tome a 
cometer um-a, desonestidade! 
-Tenho medo de morrer e ir para o Inferno. Se ele se risse, ento  que ela morreria ali mesmo; mas 
no riu. 
-Voc est de perfeita sade... e, alm disso, talvez no haja Inferno! 
- Sabe muito bem que h. 
- Sei que existe um, mas  neste mundo. No  depois de morrermos. Com a morte acabou-se tudo. 
Agora  que voc est no Inferno. 
- Oli, Rhett, que blasfmia! 
- Talvez, mas deveras consoladora. E diga-me c: por que havia de ir para o Inferno? 
Nesse momento queria arreli-la, porque Scarlett bem lhe via o brilho malicioso do olhar. Mas 
pouco se importava, As mos dele eram to fortes, davam-lhe uma sensao de tanta segurana! 
-Rhett, eu nunca devia ter casado com Frank. Foi mal feito. Era noivo da Suellen. Amava a ela e 
no a mim. Mas eu menti-lhe disse-lhe que minha irm ia casar com Tony Fontaine. Oli, como tive 
coragem de proceder assim?! 
-Ali, foi ento.dessa maneira que o apanhou! No sabia como conseguira o seu objectivo. 
-E tornei-o infeliz. Compeli-o a fazer coisas contra a sua vontade. Eu  que o obriguei a apresentar 
as contas a credores que no tinham um cntimo, que fiz com que ele insistisse at lhe pagarem. 
Ficou to mortificado quando comecei com as serraes, quando mandei construir o botequim e 
quando pus forados a trabalhar na fbrica! Sentia-se to envergonhado que nem se atrevia a 
encarar ningum. E, para cmulo, matei-o. Sim, matei-o. No sabia que era filiado da Klan. Nunca 
pensei que fosse pessoa para isso. Mas devia saber. E matei-o. 
- "0 vasto oceano de Neptuno, lavar este sangue das minhas mos?" 
367 
-0 qu? 
- No tem importncL@, Continue. 
- j acabei. No acha bastante? Casei com ele fiz a sua infelicidade e tirei-lhe a vida. Oli, meu 
#
Deu@! No compreendo como pude proceder assim. Menti-lhe e desposei-o. Achei isso to natural 
naquela altura! Agora,  que reconheo o mal que fiz, Rhett, tendo a, impresso de que no fui eu 
quem se portou daquele modo. Mostrei-me m, mas no fundo no sou to perversa corno isso. A 
me educou-me... 
Calou-se e engoliu em seco. Todo o dia evitara pensar em Ellen e eis que a sua imagem @3e lhe 
apresentava no esprito. 
-No fao a mnima ideia de como seria a. sua me. Voc assemelha-se tanto a seu pai! 
- Minha me era... Oli, Rhett, pela primeira vez me regozijo que esteja morta, porque assim no 
pode ver-me! No foi ela que me ensinou a ser m. Era bondosa para toda a gente. Seria incapaz de 
fazer o que eu fiz'Eu tanto desejava parecer-me com ela, e afinal, sou to dif@rente! No queria 
assemelhar-me ao pai. EE@timava-o, mas era... to estouvado! Rhett, s vezes eu tentava mostrarme 
simptica para os outros e ser bondosa para Frank, mas voltava o pesadelo e eu ficava, to 
assustada que s tinha vontade de exigir o dinheiro que me deviam... e at o que no me deviam. 
As lgrimas corriam pelas faces de Scarlett, sem que procurasse cont~las. _ Que pesadelo? - 
indagou Rliett, serenamente, apesar de sentir as unhas dela a cravarem-se-lhe na mo. 
-Ali... esqueci-me que no sabia! Eu bem queria ser amvel para os outros e convencer-me de que o 
dinheiro no era tudo neste mundo. Mas deitava-me adormecia e sonhava que me encontrava outra 
vez em T@ra, depois da morte de minha me e da partida dos yankees. Oli, Rhett, at sinto um 
calafrio quando penso nisso!... Tudo queimado, um silncio pavoroso, e nada para comer... No 
sonho, tenho fome e no encontro nem um bocado de po. 
-Continue. E que mais? 
- Meu pai, minhas irms, ds pretos, todos @se lastimam e no param de dizer: "Tenho fome". E eu 
sinto dores no estmago, de to vazio que est, e vejo-me dominada pelo medo. Digo comigo 
mesma: "Se escapo desta, nunca mais 
368 
voltarei a passar fome", Ento o sonho transforma-se. Vou * correr no meio de nevoeiro, a correr 
to depressa que * corao parece estalar-me no peito. Quero fugir duma coisa que me persegue, 
falta-me c> flego, e penso.que se conseguir chegar l, estarei salva. Mas no sei aonde qi@ero, 
chegar. Acordo ento gelada de pavor, com tanto medo de tornar a passar fome! Uma vez desperta, 
julgo que no haver no mundo oiro bastante para garantir a alimentao. Demais a mais, Frank era 
to falho de vontade, to fraco! Enraivecia-me. Creio que no me compreendia ou que eu no 
conseguia fazer-me compreender. Alis pensava eu que um dia, quando tivesse dinheiro, suficiente, 
o haveria de indemnizar de tudo o que passara por minha causa. Agora  tarde, ele j no existe. 
Neste momento tudo parece natural, mas a verdade  que no foi assim. Se eu pudesse recomear, 
procederia de modo muito diverso, 
- Sossegue! - ordenou Rhett, desembaraando-se da mo frentica que o apertava e puxando do 
bolso um leno lavado. - Limpe a cara. No resolve nada chorando dessa maneira. ,Scarlett aceitou 
o leno e limpou o rosto molhado de lgrimas. Sentiu-se um tanto ou quanto aliviada, como se 
houvesse descarregado parte do seu fardo nos ombros largos de Rhett. Ele tinha um ar to calmo, 
to senhor de si e dos acontecimentos que at parecia reconfortante o simples mover irnico dos 
seus lbios. 
- Sente-se melhor? Liquidemos ento o assunto. Diz que, se tivesse de recomear, seria diferente. 
Mas tem a certeza? Reflicta um bocadinho. 
-Acha que... -Acho que faria exactamente o mesmo. E resta saber se tem possibilidade de optar. 
- No tenho. -Ento por que se lamenta? 
- Fui to m para com o Frank! Agora, j no pertence ao nmero dos vivos. 
-E se pertencesse , continuaria a arrel-lo. Se bem a entendo, no est aflita por ter casado com 
Frank e haver sido a causa indirecta da sua morte. Est aflita porque tem medo de ir para o Inferno. 
No  isso? 
-Faz-me a cabea tonta... -A sua moral tambm me entontece um nadnha. 
24 - Vento Uvou - 11 369 
#
Voc est exactamente na situao dum gatuno, apanhado com a boca na botija, que no se 
atormenta por ter furtado, mas sim por ir para a cadeia. 
-Um gatuno? -No tome o caso, to  letra. Por outras palavras: w no lhe surgisse essa estpida 
ideia de estar condenada s penas eternas, lembrar-se-ia antes de que se tinha livrado, do Frank. 
- Oli, Rhett! 
- Ora confesse! Sempre  melhor do que inventar essas mentiras como desculpa. A sua 
conscincia... sofreu muito... quando voc me ofereceu por trs mil dlares... uma coisa que  
mais preciosa do que a vida? 
A aguardente subira  cabea de Scarlett e ela j no sabia o que estava a dizer. Alis, de que servia 
mentir a Rhett? Ele lia-lhe sempre o pensamento. 
-Nesse momento, eu no me lembrei de Deus nem do Inferno. E, quando raciocinei no caso, achei 
que Deus devia ter compreendido... 
-E Deus tambm-compreendeu as razes que a levaram a casar com Frank? 
- Rhett como pode falar tanto de Deus... se no acredita na su@ existncia? _ Mas voc acredita no 
Deus da Ira, e  o que interessa nesta ocasio. E, pensando bem, por que no haveria Deus de 
compreender? Arrepende-se de conservar Tara e de ter corrido de l com os Sacolas? Arrepende-se 
de no ter fome e de j no andar vestida de andrajos? 
- No. 
- Tinha outra alternativa que no fosse casar com Frank? 
No. Ele no era obrigado a casar consigo, no  verdade? Os homens so livres nas suas aces. E 
tambm no era obrigado a deix-la fazer tudo o que quisesse, pois no? 
- Mas... 
- Ento, Scarlett, para que se apoquenta desse modo? Se tivesse de recomear mentir-lhe-ia da 
mesma forma para poder despos-lo. V6c expor-se-ia aos mesmos perigos e Frank seria forado a 
vingar a sua honra. Se,Frank houvesse casado com Suellen, a sua irm no seria decerto causa da 
morte do marido, mas t-lo-ia sem dvida tornado 
370 
duas vezes mais infeliz do que ele foi consigo. Tudo isto tinha de ser. 
-Ao menos, eu podia ter sido mais afvel. 
- Podia, sim, se alguma vez o houvesse sido. com algum. Voc, porm, nasceu para tiranizar os 
que lhe concedem muita liberdade. Os fortes foram feitos para mandar os fracos para obedecer. A 
culpa foi do Frank, que n@ pegou a tempo num chicote... Esses seus remorsos tardios 
surpreendem-me, Scarlett. Os oportunistas da sua laia nunca os tm. 
-0 que  um oportu ... ? Como disse? 
- P, uma pessoa que se aproveita das oportunidades. 
- P, mal feito? 
- Em geral consideram uma coisa m... aqueles que tiveram idnticas oportunidades e no souberam 
servir-se delas. 
- Oh, Ilhett, est a brincar comigo! E eu que tanto -contava com a sua opinio! 
- Mas  que dou as minhas opinies, no v? Querida Scarlett, voc est um tanto bria. A  que 
reside o mal. 
- Atreve-se... 
- Atrevo-me, sim. Voc est  beira do que se chama vulgarmente "uma crise". De forma que, para 
lhe desviar o curso dos pensamentos e levantar o moral eu vou distra-Ia com. histrias que a 
divertiro com ceAeza. Na realidade, vim aqui esta noite para lhe dizer uma coisa antes de partir. 
-Para onde vai? 
- Vou a Inglaterra. n possvel que esteja ausente durante uns meses. Esquea a sua conscincia, 
ScarletL No tenciono discutir mais a salvao da sua alma. Quer agora ouvir a tal coisa? 
- Mas... - retorquiu ela debilmente, e logo se deteve. Sob o efeito da aguardente, que lhe atenuava os 
remorsos, e das palavras de Rhett, deveras reconfortantes, o espectro plido de Frank recuava a 
pouco e pouco para a sombra. Talvez RI-ett tivesse razo. Talvez que Deus compreendesse. Searlett 
#
recorreu a toda a sua energia para decidir consigo mesma: "Amanh resolverei o caso". E dirigin- 
'do-se abertamente ao visitante, perguntou: - D@ que se trata? 
-Ora oia-comeou Rhett com o seu sorriso habitual. -Continuo a interessar-m@ por si, mais do que 
por 
371 
outra mulher. E agora que Frank morreu, pensei que gostasse de saber isto... @carlett despegou as 
mos, que tinha enclavinhadas, e pos-se imediatamente de p. 
-- Eu... voc  o homem mais grosseiro deste mundo! Escolher uma ocasio destas para fazer 
semelhante declarao! Bem me queria parecer que no tinha mudadG. Quando penso que o 
cadver de Frank nem teve tempo de arrefecer! Se lhe restasse um pouco de decncia... ia-se j 
embora desta casa! 
- Peo-lhe que sossegue... seno a sua tia vir ver o que se passa. - Sem se levantar, Rhett conseguiu 
agarr~la pelos pulsos. - Receio bem que no me tenha entendido bern - prosseguiu ele. 
-No entendi bem? Ora se entendi! - ripostou Scarlett, diLgenciando libertar-se. - Deixe-me e saia 
daqui... Nunca ouvi uma coisa destas! Eu... 
- Caludal - ordenou Rhett. - Estou a pedi-Ia em casamento. Ser preciso cair de joelhos? 
-Oh!-exclamou ela, sufocada, tombando em cima do canap. 
Olhava-o, boquiaberta, pensando se seria aquilo tudo efeito ainda da aguardente. Vinha-lhe  
memria ' de contnuo, a frase de Rhett: "No nasci para casar". Ou ela estava bbada, ou ele 
estava louco. Mas Rliett parecia no seu perfeito juzo, to calmo como se conversasse acerca do 
tempo. A sua maneira de falar, suave e lenta, no denunciava o mais pequeno nervosismo. 
- Jurei a mim prprio que havia de ser minha logo na primeira vez que a vi nos Doze Carvalhos, 
naquele dia em que atirou uma jarra ao cho, proferiu uma data de palavres e deu todas as provas 
de no, ser uma rapariga bem educada. Sim, jurei que havia de possu-Ia, fosse como fossel. _Mas, 
como voc e Frank amealharam algum dinheiro e no  natural que torne a fazer-me interessantes 
propostas de emprstimos e suas garantias, vejo-me forado a pedi-Ia em casamento. 
-Rhett Butler, isso  mais uma das suas brincadeiras de mau gosto? 
-Abro-lhe a minha alma, e voc fica cptica! No, Scarlett,  uma proposta leal de casamento, feita 
segundo todas as regras. Reconheo que o momento no  muito apropriado, mas a,minha falta de 
educao justifica tudo. 
372 
Parto amanh, demoro-me fora algum tempo e, se deixasse isto para depois, podia ter no regresso a 
desagradvel surpresa de a encontrar j casada com algum ricao. E disse ento com os meus 
botes: - "Por que no hei-de ser eu esse ricao?" Com, franqueza Scarlett, no posso passar a vida 
.espera de a apanhar @ntre dois maridos! 
Rhett falava a srio. No havia dvida. Com a boca seca e olhos fitos nele, Scarlett. tentava 
descortinar-lhe o pensamento. Via-se-lhe uma expresso de riso, mas, ao mesmo tempo, algo de 
indefinvel se espalhava no rosto. Sob o ar indolente e despreocupado Rhett parecia observ-Ia 
como um gato espreita um r@urganho. Debaixo da calma aparente, percebia-se-lhe uma fora 
prestes a manifestar-se. Searlett teve medo e recuou. 
Rhett pedia-a em,casamento! Realizava-se o inverosmil. Noutros tempos, Searlett imaginara uma 
srie de tormentos para lhos infligir no caso de ele algum dia a querer para esposa. Noutros tempos, 
dissera consigo que, se Rhett chegasse a falar em casamento, o humilharia ao mximo, fazendo 
sentir bem o seu poder. Agora que ele falara, Scarlett nem se lembrava dos seus antigos projectos. E 
como exercer poder sobre Rhett se este  que dominava a situao, de tal modo que el@ se sentia 
perturbada como uma donzela  primeira declarao de amor e s6 podia gaguejar e ruborizar-se? 
-Eu... no torno a casar. -Torna, sim. Foi feita para o casamento. E por que no hei-de ser eu o 
eleito? 
-Mas, Rhett... no o amo. -Isso no impede. Que eu saiba, o amor no representou grande papel nas 
suas duas outras aventuras. 
-No diga isso! Eu era bastante amiga de Frank! Rhett no replicou. 
#
- Sim, tinha-lhe muita amizade! 
- No discutamos esse assunto. Quer reflectir na minha proposta durante a minha ausncia? 
- Detesto que se arrastem as questes. Prefiro dizer- 
4he j o que penso. Devo ir brevemente para Tara, e India Wilkes vir morar com a tia Pitty. Tenho 
saudades da minha quinta... e no quero tornar a casar. 
- Que disparate! Porqu? 
- Porque... Que interessa a razo? No quero mais casamentos! 
373 
- Minha pobre pequena, sabe l o que  o casamento! Como  que,pode saber o que  um verdadeiro 
matrimnio? Reconheo que teve pouca sorte... Uma vez por despeito... outra por falta de 
dinheiro... Nunca pensou em casar~se... unicamente pelo prazer? 
- Prazer? No diga tolices. No h prazer no casamento. 
- Por que no? Scarlett readquirira um pouco de calma mas ao mesmo tempo, sob o efeito do lcool, 
a sua rudeza natural viera  superfcie. 
- Ser muito divertido para os homens, embora eu no perceba porqu. 0 que as mulheres ganham 
com isso  ver-se a contas com um trabalho exaustivo, com as extravagncias dum homem e com... 
um filho todos os anos. 
Rhett soltou uma gargalhada to forte que o eco repercutiu no silncio e Scarlett sentiu abrir-se a 
porta da cozinha. 
- Cale-se! A Bab tem o ouvido apurado e no  decente rir, to pouco tempo depois de... No se 
ria! Sabe perfeitamente que tenho razo. Prazer! Ora, ora! 
-Disse-lhe que teve pouca sorte, e as suas palavras provam-no bem. Desposou sucessivamente um 
rapazinho e um velho " E aposto que sua me lhe recomendou que suportasse "aquelas coisas" por 
causa das compensadoras alegrias da maternidade. Tudo errado minha amiga. Por que no 
experimenta o matrimnio com um homem novo e vigoroso, que tem m reputao e sabe lidar com 
mulheres? 
- Voc  to grosseiro corno pretensioso, e acho melhor mudar de conversa.  um asstinto... multo 
ordinrio. 
-E tambm bastante agradvel, no acha? Tenho a certeza de que nunca discutiu com um homem as 
relaes conjugais, nem sequer com Charles ou Frank. 
Scarlett ftou-o com ar ameaador. Rhett sabia demais. Onde teria aprendido tudo o que ele 
conhecia a respeito de mulheres? Era indecente. 
-Escusa de fazer essa cara. Fixe a data que quiser. No peo que case j comigo por causa da sua 
reputao. Respeitemos o prazo legal. A propsito, qual  o "prazo legal?" 
-Eu no lhe disse que casava consigo. E no acho prprio falar dessas coisas em semelhante 
ocasio. 
374 
-J lhe expliquei as razes que me obrigam a falar. Vou-me embora amanh e sou um namorado, 
muito fogoso para conter mais tempo a minha paixo. Mas talvez fosse multo precipitado no fazerlhe 
a corte... 
Com uma rapidez que assustou Scarlett, Rhett deixou-se escorregar no -I-anap e, de joelhos, com a 
mo espalmada no peito ps-se a declarar: - Perdoai, senh@ra minha, sobressaltar-vos com a 
impetuosidade dos meus sentimentos. Deveis j ter reparado que a amizade que por vs nutria o 
meu corao se transformou num sentimento mais profundo, num sentimento mais belo, mais puro, 
mais sagrado. Ousarei eu nome-lo? Ah,  o amor que me insufla coragem! 
- Levante-se, por amor de Deus! -suplicou Scarlett. 
- Imagine que entra a Bab e o surpreende nessa posio ridcula. 
- Ficaria pasmada perante estas minhas primeiras demonstraes de galantaria -volveu Rhett 
erguendo-se com ligeireza. - Vamos, Scarlett, no  nenhuma criana, nenhuma menina de escola 
para me mandar passear com argumentos todos a respeito de decncia e outras desculpas que tais. 
Diga que casa comigo quando eu voltar, seno desisto da viagem. Juro-lhe. Passarei o tempo a 
#
rondar-lhe a casa e todas as noites tocarei viola debaixo da sua janela e cantarei com toda a fora 
dos pulmes. Hei-de compromet~la de tal maneira que ter de casar comigo para salvar a sua 
reputao, 
- Rhett, tenha juzo. No tornarei a casar-me. 
- No? Diga-me qual  o verdadeiro motivo. No  nenhuma menina tmida. No se trata de 
timidez. 0 que ser ento? 
Subitamente lembrou-se de Ashley, viu-o de modo to claro como se ele estivesse ali presente com 
os seus cabelos doirados' olhos sonhadores, atitude'muito digna... Em tudo, a contrrio de Rhett. A 
residia a verdadeira razo por que ela no podia casar outra vez, embora no tivesse nada a objectar 
a Rhett e s vezes chegasse a gostar bastante dele. Scarlett pertencia a Ashley, ara sempre. Nunca se 
dera inteiramente a Charles nem a Kank, no se entregaria tambm a Rhett. Quase tudo o que 
empreendera, os esforos que fizera os resultados obtidos, tudo isso ou fora inspirado por Ashie@ 
ou lhe havia sido consagrado. Scarlett amava-o. Pertencia a Astiley de todo o seu ser: a Ashley 
375 
* a Tara. Os sorrisos e os beijos que concedera a Charles 
* a Frank eram destinados a Ashley, se bem que ele os no houvesse nunca reclamado nem 
reclamaria jamais. Algures no ntimo do corao jazia o desejo de se conservar intacta para ele, 
embora soubesse que nunca lhe pertenceria. 
Sca,rlett ignorava que a sua fisionomia se modificava nessa ocasio, que o sonho a nimbava duma 
doura antes no observada acol pelos olhos de Rhett. 0 homem contemplou-lhe os olhos verdes 
oblquos, agora enevoados; seguiu o temo mover dos lbios; viu tudo isso e bradou: 
- Scarlett O'Hara, s uma tonta! E, sem lhe deixar tempo a que regressasse do seu sonho longnquo ' 
Rhett apertou-a nos braos to atrevido e seguro de -si como no caminho sombrio'de Tara, alguns 
anos atrs. De novo Scarlett sentiu que lhe faltava a fora de resistir. Ia ceder, submergida por uma 
onda de ardor. A imagem calma de Ashley W11kes dissipava-se, perdida no vcuo. Rhett dobroulhe 
a cabea para trs, no ombro dele, e beijou-a, meigo a princpio e depois mais enrgico, numa 
graduao progressiva, forando-a a consider-lo como a nica base slida a que firmar-se, num 
mundo em rodopio. A bom dele premia-lhe os lbios, abrind~, comunicava-lhe tremuras nervosas, 
despertava nela sensaes que jamais Scarlett conhecera e de que se julgaria incapaiz. E 
compreendeu que lhe retribua os beijos antes mesmo que se acelerasse a ritmo do turbilho 'que a 
arrastava. 
- Pare... por favor... vou desmaiar -murmurava ela, tentando debilmente desviar a boca. Rhett 
apertou-lhe a cabea contra o seu prprio ombro e ela viu-lhe a cara, num relance confuso. Os olhos 
dele despediam fogo, o tremor dosbraos assustava-a. 
-Quero que desmaies. Far-te-ei desmaiar. Merecias isto, h muitos, muitos anos. Nenhum dos 
imbecis que -conheceste te beijou assim, no  verdade? Nem Charles nem Frank, to amados, nem 
o teu AshIey, to estpido... 
- Por favor... 
- Sim o estpido do - AshIey. E todos os homens do undo. Q e sabem eles de mulheres? Que sabem 
eles de ti, Scarlett? Eu conheo-te bem... 
A boca de Rhett apoderara~se da boca de Scarlett, e ela cedia sem luta, muito fraca para sequer 
desviar a cabea, sacudida pelas pancadas do corao, assustada com a fora 
376 
'y""I@ @" 
de Rhett, vencida peloe nervos que a traiam. Que ia ele fazer? Desmaiaria, se Rhett no acabasse 
com aquilo. Se ao menos ele se detivesse... 
-Diz que sim! A sua boca premia a de Scarlett, os seus olhos estavam to prximos dos dela que 
pareciam enormes e enchiam o mundo. 
- Diz que sim, ou eu... Scarlett murmurou "sim" sem sequer reflectir. Ele impusera-lhe a resposta e 
ela obedecera sem que a sua vontade interviesse. No entanto, assim que proferiu a palavra, 
readquiriu subitamente a calma, a cabea deixou de lhe andar  roda e at se atenuaram os efeitos da 
#
aguardente. Prometera casar com Rhett, quando no tencionava fazer semelhante promessa. No 
sabia como isso acontecera, mas no lastimava nada. Parecia-lhe agora natural ter dito que sim... 
quase como se, por interveno divina, algum mais poderoso que ela se encarregasse de resolver 
os problemas que se lhe apresentavam. .1 Rhett soltou um suspiro e inclinou-se como se a fosse 
beijar outra vez. Scarlett fechou os olhos e pendeu a cabea para trs, Ficou porm, desiludida 
quando ele se endireitou. Havia qual@@er coisa de inebriante em ser beijada daquela maneira, 
apesar das sensaes estranhas que lhe provocavam tais beijos... 
Por um momento, Rhett conservou-se imvel, com a cabea de Scarlett encostada ao ombro e tal se 
fizesse um esforo para se dominar, o seu brao deixou de tremer. Afastando-se um pouco, 
observou o rosto de Scarlett. Esta abriu as plpebras e notou que se desvanecera da fsonomia de 
Rhett todo o ardor que a animava. No entanto, no pde suportar o seu olhar e, confusa, de fontes 
latejantes, baixou a vista. 
Quando Rliett falou, a voz era suave. 
- P, a srio? No voltas atrs com a palavra? 
- No. 
- E no  unicamente porque... como  a frase?... porque "a ergui da terra com o meu ardor"? 
Scarlett ficou calada e de plpebras descidas, porque no sabia que responder e era-lhe impossvel 
enfrentar o olhar de Rhett. 
Ele agarrou-lhe no queixo e ergueu-lhe a cabea. 
377 
- J lhe disse uma vez que tolerava tudo menos a mentira. Exija a verdade. Por que disse que sim? 
Scarlett manteve-se silenciosa mas, como j ia readquiindo o sangue-frio, deixou-se estar de olhos 
baixos e esboou um leve sorrisc. 
- Olhe para mim! n por causa do meu dinheiro? -Oh, Rhett! Que pergunta! -Olhe para mim e no se 
ponha com intrujices. No sou o Charles nem o Frank, para me comover com o seu fremir de 
plpebras. n por causa do dinheiro? 
- Hum... em parte... -Ah! Em parte. No manifestou aborrecimento. Soltou 'um suspiro e tratou de 
fazer extinguir nas pupilas negras a chama que Scarlett provocara com as suas 'palavras e ela, na sua 
perturbao, nem sequer havia notado. ' 
- P, que o dinheiro... como bem sabe... presta-nos muito servio. Frank no me deixou muito. Em 
todo o caso... Enfim, Rhett, est a entender-me, no  verdade? Voc  o nico homem, que eu 
saiba capaz de ouvir a verdade da boca duma mulher. Ser @om ter um marido que no nos 
considere muito tola e que j est prevenido quanto s mentiras... Em resumo, simpatizo consigo. 
- Simpatiza? 
- Ento? - volveu ela, aborrecida. - Se eu lhe dissesse que estava apaixonada, pregava-lhe uma peta 
e, pior ainda, voc perceberia logo, 
- s vezes penso que leva muito longe o amor da verdade, minha jia. No acha que mesmo sendo 
@nentira, lhe convinha declarar: "Anio-te 'Rhett"? 
Cada vez mais confundida,' Scarlett no perguntou aonde  que ele queria chegar. Achava-o to 
esquisito com o seu ar trocista e ao mesmo tempo vexado! Rhett enfiou as mos nos bolsos e ela 
compreendeu que ele cerrava os punhos. 
"Est bem", pensou Scarlett, j com a mostarda a subir-lhe ao nariz, como sempre que Rhett a 
atormentava. "Ainda que me custe um marido, dir-lhe-e a pura verdade". E em voz alta: 
-Acha que  mentira, Rhett? Mas de que me serviria mentir? Disse-lhe que simpatizava consigo. 
Compreende o que isto significa. Tambm uma vez voc me participou que no me tinha amor, mas 
que achava existirem muitos 
378 
pontos de contacto entre ns. "Dois velhacos". Foi desta maneira que... 
- Meu Deus! - murmurou Rhett, voltando a cabea, rpido. -Ca no prprio lao que eu armei. 
-0 qu? 
- Nada. - Fitou-a, e riu duma forma que no tinha nada de agradvel. -Fixe uma data, minha 
#
querida. - 
Riu-se de novo, inclinou-se e beijou-lhe a mo. Scarlett, satisfeita por ver que o mau-humor lhe 
passara, correspondeu com um sorriso. 
Brincando com a mo que ela lhe abandonara, Rhett perguntou: 
- Nas suas leituras nunca encontrou a histria, to antiga, da mulher indf@rente que acaba por se 
apaixonar pelo prprio marido? 
-Bem sabe que no leio romances -respondeu Scarlett. Mas, desejando brincar tambm, 
acrescentou: - Alm disso, voc disse que era de mau gosto o amor entre casados. 
-Tenho falado demais na minha vida!-redarguiu. ele bruscamente, pondo-se ;e p.-Raios me 
partam! 
- No pragueje. 
- Convm que se habitue... e aprenda tambm. Sim, senhora, h-de ser preciso que se familiarize 
com os meus defeitos . Faz parte da sua... simpatia por mim e do seu amor ao meu dinheiro... 
-Ento, no tome a coisa to ao vivo... 0 que eu quis foi evitar lisonje-lo com mentiras. No est 
apaixonado por mim, no  verdade? Por que havia eu de estar por si? 
- No, minha querida, no estamos apaixonados um pelo outro. Se eu o estivesse, poderia diz-lo a 
toda a gente menos a si. Que Deus livre o homem que se apaixonar por voc! Minha gatinha cruel, 
to indiferente pelos outros que nem se d ao cuidado de esconder as unhas: se esse homem existir 
um dia voc destruir-lhe- o corao, 
Obrigou-a @ levantar-se e heijou-a mais uma vez mas agora os lbios pareciam querer mago-la, de 
pro@sito. Da boca ' os lbios desceram-lhe para o pescoo, baixaram-se  orla de tafet, ao nvel 
do peito, to rijos e demorados que ela sentiu a pele queixar-se com aquele ardor. Debateu-se, 
repeliu-o com as duas mos. 
-No tem o direito! Como se atreve? -0 seu corao bate como o dum coelho -disse ele, 
379 
fflW 
irnico. - Demasiadamente apressado para que se trate d@ simples simpatia... diria eu, se fosse 
vaidoso. Vamos, no erice as penas. Deixe-se desses ares de lrio virginal. Diga-me o que deseja 
que eu lhe traga de Inglaterra. Tim anel? De que gnero gosta? 
Ela hesitou urn momento, indecisa entre o interesse despertado pelas ltimas palavras e a vontade 
feminina de prolongar a cena de clera e indignao. 
-Oh... um anel com diamantes, Rhett! Compre um dos maiores. 
-Sim, para se pavonear diante das suas amigas pobres e dizer-lhes: "Vejam o que apanhei!" Mas 
est combinado, ter o seu diamante, e to grande que as tais amigas se vingaro observando que  
de mau gosto usar pedras to grandes. 
Atravessou de repente a sala eela, desnorteada, seguiu at  porta. 
-Que foi? Para onde vai? -Para casa, acabar de fazer as malas. 
- Mas... 
- Mas o qu? 
- Nada. Desejo-lhe boa viagem. 
- Obrigado. Abriu a porta e entrou no vestbulo. Scarlett acompanhou-o, um tanto desconcertada por 
aquela reviravolta. Rhett pegou na capa, nas luvas no chapu... 
- Escrever-lhe-ei. Se muda@ de ideias, previna-me. 
- No ... ? -0 qu? -Parecia impaciente por se ir embora. -No me d o. beijo de despedida? - 
murmurou ela, receosa de que a ouvissem no resto da casa. 
- No lhe parece que j nos beijmos bastante, para uma noite s? -volveu ele 'sorrindo. - 
Tratando-se duma rapariga modesta, bem educada... Bem lhe disse que havia de gostar. 
- Voc  intolervel! - exclamou Scarlett furiosa, sem se importar que a Bab. a ouvi~. - Pouco me 
importa que no volte mais. 
Rodou nos calcanhares, dirigindo-se para a escada mas com a esperana de que ele a retivesse. 
Mas Rhett limitou-se a abrir a porta da rua, por onde entrou uma corrente de ar frio. 
#
-Em todo o caso, voltarei -declarou ele. 
380 
E saiu, deixando Searlett no primeiro degrau, de olhar fito na porta que se acabava de fechar. 
Foi de facto grande o anel que Rhett trouxe de Inglaterra, to volumoso que Scarlett quase tinha 
vergonha de. o usar. Gostava de jias carase pomposas, mas experimentava a desagradvel sensao 
de que toda a gente achava aquele anel muito espalhafatoso. A pedra do centro era um brilhante de 
quatro quilates, e, a rode-lo, havia um crculo de esmeraldas, Cobria inteiramente a falange do 
anular e dava a impresso de ser pesado demais para a mo que o suportava. Scarlett ficou 
desconfiada de que Rhett passara trabalhos na escolha do modelo e, por maldade, o mandara 
executar to faustoso quanto possvel. 
Enquanto Rhett no regressou -a, Scarlett 
de Inglateri. no falou a ningum das suas intenes, nem sequer  famlia, e quando anunciou o 
noivado foi uma indignao geral. Depois do case, da Klan, Rhett e Scarlett eram as pessoas mais 
desacreditadas de Atlanta, com excepo dos yankees' e dos Sacolas, Toda a gente criticava Scarlett 
desde o dia longnquo em que ela tirara o luto por Charles Hamilton. E mais a criticaram por se 
comportar de modo to pouco feminino na questo das serraes, pela sua falta de pudor ao 
aparecer na rua, quando, estava grvida, e por multas outras coisas. Mas a morte de Frank e de 
Tommy, e os perigos a que se tinham exposto outros homens por causa dela, transformaram aquelas 
censuras 
em condenao pblica. 
Quanto a Ilhett, atrara o dio com as suas especulaes durante a guerra e, mais tarde, a sua notria 
simpatia pelos republicanos no contribura para maior estima dos atlantenses. No entanto por 
muito estranho que parea, 
foi o facto de salvar a'vida de vrias personalidades conhecidas que lhe granjeou o rancor das 
senhoras de Atlanta. 
rs claro que as senhoras no lamentavam que os parentes tivessem escal)ado  morte, mas sentiamse 
revoltadas por eles deverem a vida a semelhante homem e a um estra@ tagema que to mal 
colocados os deixara. Durante meses, suportaram o riso, de troa dos yankees e, cheias de raiva, 
diziam entre si que se Butler'se interessasse realmente pela Klan, arranjaria as coisas de maneira 
mais conveniente. Pretendiam que ele levara os fugitivos para casa 
381 
da Watling s com o propsito de comprometer as pessoas decentes da cidade. Portanto 'no 
merecia que lhe agradecessem tersalvado aqueles cavalheiros. 
As referidas senhoras to dispostas  caridade, to prontas a partilhar da t@lsteza alheia, to 
compassivas, mostravam-se implacveis para com os Renegados que infringiam o mais pequeno 
artigo do seu cdigo tcito. Era simples, esse cdigo: fidelidade  Confederao ' respeito aos 
veteranos da guerra, submisso aos velhos prin- cpios, orgulho, na pobreza, mos abertas para os 
amigos, dio eterno aos yankees. Cada qual de sua banda, Scarlett e Rhett haviam transgredido 
todos os artigos do cdigo. 
Por decncia e por um sentimento de gratido, os homens, a quem Ilhett salvara a vida, ainda 
tentaram impor silncio s mulheres, mas sem grande xito. Antes do anncio do seu prximo 
casamento j no gostavam de Rhett e Scarlett, mas 'em todo o c@so, ainda se mostravam polidos 
para com eles. Agora, nem a fria polidez era possvel. A notcia do seu noivado foi como uma 
bomba que explodisse e causasse espanto e terror. At as mulheres mais plcidas fizeram os 
comentrios mais veementes. Casar-se um ano depois da morte de Frank! Ela, que fora a causa da 
sua morte! Ligar-se a esse Butler que era proprietrio duma casa de meretrizes e que andava metido 
em negcios escuros com os yankees e com os Sacolas! Isolados um do outro, ainda os podiam 
suportar, mas os dois em conjunto, isso era intolervel! Criaturas to vis, to desprezveis como 
aquelas, deviam ser expulsas da cidade. 
Talvez toda essa gente se mostrasse mais benigna se a notcia do breve casamento no se verificasse 
numa ocasio em que os Sacolas e Renegados, companheiros de estrdia de Butler, se haviam 
#
tornado ainda mais odiosos aos respeitveis cidados. A averso aos yankees, e a todos que 
confraternizavam com eles, atingiu o paroxismo, pois acabara de cair o ltimo bastio da resistncia 
georgiana. A campanha principiada quatro anos antes, no dia em que Sherman sara de Dalton a 
caminho do Sul, produzia agora os seus efeitos, e a humilhao era completa. 
Trs anos de Reconstruo tinham passado, trs anos de terrorismo! Todos pensavam que a situao 
no podia piorar, mas Gergia descobria que a Reconstruo, sob o seu aspecto mais sombrio, 
estava ainda no comeo. 
382 
Durante trs anos, o Governo Federal tentara impor uma dominao estrangeira e leis igualmente 
estrangeiras; secundado por tropas encarregadas de aplicar as suas instrues, conseguira em parte o 
seu intento. No entanto, s a fora das armas mantinha de p o novo regime. 0 Estado submetia-se 
contra vontade ao domnio yankee. Os homens que chefiavam Gergia no tinham cessado de lutar 
por que o pas se governasse como entendesse. Haviam resistido a to-dos os ataques e no queriam 
reconhecer como leis do seu Estado as decises de Washington. 
Oficialmente, o Governo de Gergia nunca capitulara, mas fora uma luta estril, luta que sem 
terminar pela vitria fora dilatando o inevitvel. J muitos dos outros Esta- dos meridionais tinham 
negros analfabetos em altas funes pblicas, assim como assembleias dominadas por negros e 
Sacolas; porm, o de Gergia, devido  sua resistncia teimosa escapara at a a esta ltima 
degradao. Na maior pare daqueles trs anos, o Parlamento local permanecera sob a gide dos 
brancos e dos Democratas. Com a presena dos soldados yankees, os funcionrios georgianos 
pouco mais podiam fazer do que protestar e resistir. 0 poder deles era nominal, mas, ao menos, 
tinham conseguido guardar o governo, do Estado nas suas mos. Isto mesmo acabava de 
desaparecer. 
Tal como, quatro anos antes Johnson e os seus soldados haviam recuado passo a pas@o de Dalton 
para Atlanta, assim tinham os Democratas georgianos recuado pouco a pouco desde 1865. Fora-se 
tornando cada vez mais firme o poder do Governo Federal sobre os negcios deste Estado e sobre a 
vida dos seus cidados. A fora engendrara a f e os regulamentos militares, em nmero sempre 
Ma fizeram com que a autoridade civil se reduzisse  impotencia. Por fim, transf)rmando-se 
Gergia numa provncia militar, haviam concedido o voto aos pretos, contra a letra expressa das leis 
estaduais. 
Uma semana antes de Scarlett e Rhett anunciarem os seus esponsais, procedera-se  eleio do 
governador. Os Democratas apresentavam como seu candidato o General John B. Gordon uni dos 
cidados mais queridos e respeitados do Sul. Contra ele opunham um Republicano chamado 
Bullock. A eleio durara trs dias em vez de um s. Foram expedidos comboios inteiros cheios de 
pretos 
383 
para as cidades onde havia assembleias eleitorais.  claro que Bullock venceu. 
Se a tomada de Gergia por Sherman causara grande tristeza, a conquista final do Parlamento pelos 
Sacolas, y~es e homens de cor maior tristeza causou. Atlanta e Gergia estavam desoladas. 
E Rhett Butler era amigo do odiado Bullock. Scarlett, com a sua usual indiferena pelos assuntos 
que no lhe diziam directamente respeito, mal dera f da eleio. Rhett tambm no tomara parte 
nela, e as suas relar es com os yankees continuavam no mesmo p. No entanto, no deixava de 
existir o facto de Rhett ser renegado e amigo de Bullock, e se o casamento fosse avante, Scarlett 
seria tambm um@. renegada. Atlanta no estava dis-posta a ser tolerante ou caridorsa para, com as 
pessoas do campo contrrio; e, vindo a notcia do casamento nessa altura, a cidade lembTou-se de 
todo o mal que os dois tinham feito, esquecendo-se do bem que por acaso tivessem praticado. 
Scarlett, sabia que a cidade se movia contra ela, mas s compreendeu a extenso, dosentimento, 
pblico quando a senhora Merriwether, como delegada do crculo paroquial, se encarregou de lhe 
falar para interesse daquela. 
- Como a senhora sua me  j  def unta , e a sua tia Pitty, sendo solteira, no est indicada 
para tratar deste assunto, @sinto-me na, obrigao de a prevenir, Scarlett. 
#
0 capito Butler no,  hGmeni com quem possa casar uma mulher de boas famlias. Ele... 
- Salvou o av Merriwether e tambm o seu sobrinho. A senhora Merriwether empertgou-se. Uma 
hora antes, tivera uma grande discusso com o velhote. Este observara-lhe que ela decerto dava 
pouco apreo  existncia dele, visto no se mostrar grata para com Rhett Butler, ainda que se 
tratasse duro Renegado. e dum patife. 
- Se fez isso 'foi s para nos Dregar uma partida indecente, para nos envergonhar perante os 
y"kees-replicou a senhora Merriwether. - Sabe to bem como eu que ele  um velhaco. Sempre o 
foi. No  homem que uma pessoa digna. receba em sua casa. . -No , senhora Merriwether? Acho 
estranho. Vi-o na suasala muitas vezes durante a guerra. Foi ele quem ofereceu a Maybelle o seu 
vestido de noiva de cetim. branco, se  que a memria me no falha. 
384 
-Durante a, guerra, as circunstncias eram diferentes e havia muita gente boa que se associava com 
a que o no era, tudo pelo bem da Causa. Com certeza que no vai casar com,um homem que no se 
alistou no Exrcito e que troou dos que o fizeram. 
-Tambm esteve no Exrcito oito meses seguidos. Fez a. ltima campanha, combateu'em Frank1in, 
e encontrava-se com o General Johnson quando este se rendeu. 
-No sabia -murmurou a senhora Merriwether ' com ar incrdulo. E acrescentou, triunfante: - 
Mas no foi ferido, no  verdade? 
- Houve muitos que o no foram. -Os que eram algum tiveram o seu ferimento. No conheo 
nenhum que no ficasse ferido. 
Scarlett comeava, a irritar-se. 
- Tenho a impresso de que todos os homens das suas relaes so incapazes de se abrigar da chuva 
quanto mais duma saraivada de balas! Falta-lhes. esperteza. E agora deixe-me dizer-lhe uma coisa 
que pode ir meter nos ouvidos das suas amigas. Vou-me casar com o capito Butler e no me 
importaria. que ele tivesse combatido ao lado dos, Wnkees. 
Quando a digna matrona, saiu de casa, com o chapu a tremQlica,r de raiva Scarlett compreendeu 
que tinha nela uma inimiga decla@ada e no j uma amiga discordante. Mas no. se ralava. No a 
podia atingir nada do que a senhora Merriwether dissesse ou fizesse. Era-lhe indiferente a opinio 
de qualquer pessoa, excepto a de Bab. 
Searlett arrostara com o desmaio de Pitty e com 6 olhar subitamente cansado e esquivo de AshIey, 
quando ele lhe apresentou os seus votos de felicidade. Com as cartas das tias Pauline e Eulalie ficou 
ao mesmo tempo divertida e arreliada, pois estas, furiosas, proibiam-lhe o casamento, dizendo-lhe 
que no s lhe arruinava a posio social como a, delas mesmas. E riu-se ao ver a ruga na testa de 
Melanie, que lealmente lhe declarou: "]@@ claro que o capito Butler  mais simptico do que a 
maior pai-te da gente pensa. E foi to esperto e generoso na maneira como salvou Ashley! No fim 
de contas bateu-se pela Confederao. Mas no te parece melhor no decidir as coisas assim to de 
repente?" 
No, Searlett no se importava com a opinio dos 
25 - Vento Uvou - II 
385 
outros, excepto a de Bab. E as palavras de Bab foram as que mais a indignaram e a feriram. 
--@- Tenho visto minina faz muita coisa que sinhora Ellen no havia de gost de v. Mas esta  a 
pi. Cas com malando! Sim, malando! No venha diz que  de boa famlia. Isso a mim no 
importa. H malando em toda a classe de gente e ele  malanda! Vi minina furt sinh Charles a 
minin@ Honey sem gost dele, e furt sinh Frank a sua mana. Calei muita coisa que minina fez, 
como vend madeira ruim ao preo de boa e diz mentira a respeito doutros sinh que tinham 
negcio igual ao seu, e and szinha de trem quando ngo forro andava a ata mui branca, e deix 
mat sinh Frank e no d bastanie com a pobre forado. Calei muita coisa porque sinhora Ellen 
dizia a mim l da Terra de Promisso: (cBab Bab, no sabes cuid de minha filha". Suportei tudo 
@ninina Scarlett, mas isto no  de suport. No h-de cas com malando enquanto houv alento 
neste corpo. 
#
- Casarei com quem me apetecer - replicou Scarlett em tom seco. - Parece-me que te esqueces com 
quem ests a falar, Bab. 
- Escusa tom esses ar! Quem lhe havia de diz tudo isto seno sua ama? 
-Estive a reflectir e cheguei  concluso que  melhor para ti voltares para Tara. Dou-te dinheiro e... 
Bab empertigou-se com a maior dignidade. 
- Nga  livre. Minina no pode mand em mim. Quando volt para Tara h-de s consigo. No qu 
abandon filha de sinhora Ellen e ningum obriga a mim a arre-d p daqui. 
-No te quero na minha casa para seres malcriada com o capito Butler. Vou casar com ele e nada 
mais h a dizer. Acabou-se a conversa. 
- No acabou - replicou a preta, com uma chama combativa nos seus olhos cansados. -Nunca pensei 
t de fal assim a pessoa de mesmo sangue que sinhora Ellen. Mas oia bem que vou diz. Minina 
no  outra coisa seno mula com arreio de cavalo. Ainda que a gente escove plo de mula at fic a 
luzi e enfeite seu arreio com muito lato brilhante e atrele a carruage bonita ' nunca passa de mula. 
No engana ningum. Minina  mesma coisa. Tem vestido de seda, tem dinheiro, tem serrao, tem 
armazm, julga parec cavalo e parecesempre mula. 
386 
E esse Butler pode s de boa famlia e pode and enfeitado como cavalo de corrida que tambm no 
passa de mula. 
Bab lanou  patroa um olhar perfurante. Scarlett ficara sem fala e tremia quele insulto. 
-Se diz que vai cas com ele, casa com certeza, porque  to teimosa como sinh seu pai. Mas 
lembre-se disto: no deixo minina,. No vou emb daqui e hei-de v isso tambm. 
Sem esperar resposta, deu meia volta e saiu. Quando o espectro de Jlio Csar disse a Bruto que o 
tornaria a ver, no seria em tom mais ameaador que o dela ao proferir aquelas ltimas palavras. 
Durante a sua lua-di--mel em Nova Orlees, Scarlett contou a Rhett o que a ama dissera e com 
grande espanto seu, ele achou imensa graa quela l@istria de mulas com arreios de cavalo. 
- Nunca ouvi exprimir com tanta simplicidade uma verdade to profunda ---comentou Rhett. -A 
Bab  uma velha tesa e das poucas pessoas a quem eu gostaria de inspirar simpatia e respeito. Mas, 
como no passo dum triste muar, jamais obterei nada dela. Chegou ao ponto de recusar a moeda de 
cinco dlares de oiro que eu, com o meu entusiasmo de recm-casado,, quis oferecer-lhe depois da 
cerimnia nupeial. Pouca gente conheo que no abrande ao ver oiro. Ela, porm, olhou-me bem de 
frente e declareru que no era negra liberta e, portanto, no precisava de dinheiro. 
-Por que  que me fez aquela cena? Por que  que toda a gente h-de implicar comigo? Caso com 
quem quiser e as vezes que quiser. Ningum tem nada com isso. Nunca me intrometi na vida dos 
outros; por que  que se intrometem na minha? 
-0 mundo perdoa, quase tudo. 0 que no perdoa  o facto de uma pessoa s se interessar pela sua 
vida. Mas por que ficas como gata assanhada? Disseste muitas vezes que pouco te ralavas com a 
opinio dos outros. Trata de provar o que afirmaste. J foste criticada por coisas insignificantes; no 
devia ser surpresa para ti tornares-te pasto da m-lngua por um casor de muito maior importncia. 
Sabias perfeitamente que saltariam em cima de ti se casasses com um patife da minha laia. Ainda se 
fosse um patife de baixa condio, que no tivesse onde cair morto... 
387 
Mas um patife rico, em plena prosperidade, issot  que  imperdovel. 
-Quem me dera que pusesses de parte os gracejos, de vez em quando! 
-No estou a gracejar. Sempre causou engulhos aos seres piedosos verem "o mpio espalhar-se com 
grande poder como a rvore verde na terra natal". Anima-te, Scarlett. No disseste uma, vez que 
queriaG ser rica para poderes mandar toda agente  fava? Chegou a altura. 
-A ti, principalmente,  que me apetecia mandar  fava-declarou Scarlett, rindo. 
-E ainda te apetece? -No tanto como antigamente. S s vezes. 
- Se isso te d prazer, no faas cerimnia. 
- Hum... no seria um prazer por a alm -volveu Scarlett. E, inclinando-se, beijou o marido 
despreocupadamente. 
#
Rhett fitcru-a, esperando descobrir nos olhos dela algo que no encontrou, e em seguida soltou uma 
risada breve. 
- Esquece Atlanta. Esquece as velhas maldizentes. Trouxe-te a Nova Orlees para te divertires, e 
espero que te divirtas.

388

QUINTA PARTE

48

SCAnETT divertiu-se e muito mais do que deside a Primavera que precedera @ guerra. Nova
 Orlees era to original, to cativante! Assim, no admira que se aproveitasse das distraces que se
lhe ofereciam, com a voracidade dum prisioneiro que recupera a liberdade. Os Sacolas pilhavam a
cidade com todo o mtodo, e muita gente, escorraada do seu lar, nem sabia como iria comer no dia 
seguinte. 0 lugar de representante da autoridade era ocupado por um negro. Mas a Nova Orlees, 
que Rhett mostrou  mulher, era o centro de diverses mais alegre que ela at a tinha visto. As 
pessoas que ela conhecia possuam dinheiro a rodos e pareciam, por outro lado, no ter cuidado@; 
nenhuns. Rhett apresentou-a a dzias de senhoras, todas muito bem vestidas, com mos de quem 
nunca trabalhara, que riam a propsito de tudo e que no conversavam sbre problemas graves. 
Quanto aos homens... que entes to sedutores! Muito diversos -dos homens de Atlanta: disputavam 
a honra de a conduzir numa dana e dirigiam-lhe cumprimentos lisonjeiros ao mximo, como se 
Scarlett estivesse ainda no esplendor da mocidade. 
Mostravam, como Rhett, algo de duro e temerrio na expresso. Tinham o olhar sempre alerta, tal 
acontece aos que viveram muito, tempo entre perigos e se habtuaram a ser cuidadosos, Dir-se-ia 
que para eles no existia nem passado nem futuro e mudavam habilmente de assunto quando 
Scarlett lhe perguntava a que fizeram ou onde haviam estado antes de se fixarem naquela cidade. 
Isto j era para admirar, pois, ao contrrio, todos os recm-chegados a Atlanta se apressavam a 
apresentar as suas credenciais e a falar da sua terra natal e famlia. 
Os de Nova Orlees, denunciavam certo ar taciturno e mediam muito bem as palavras que 
proferiam. Quando Rhett se encontrava a ss com eles e Searlett estava perto, nalguma sala 
contgua, ela ouvia-os rir muito e surpreen- 
389 
dia bocados de frases, que se lhe afiguravam sem sentido, assim como nomes singulares: Cuba e 
Na&sau no tempo do bloqueio; a sede do oiro; o desenvolvimentor dos negrcios; o trfico de 
armas; o contrabando; Nicargua; William Walker, executado em Truxillo... Certo dia, a entrada 
repentina de Scarlett ps termo a uma conversa a respeito do bando de'guerrilheiros de Quantrill; 
mas ainda ela teve tempo de ouvir os nomes de Frank e de Jesse James, dois irmos espies sulistas, 
Contudo, todos esses homens tinham boas maneiras, vestiam com sbria elegncia e sem dvida 
nenhuma, admiravam Scarlett: a esta no m de contas, pouco importava que eles s vivesse@n para 
o presente. 0 que interessava, sobretudo,  que eram amigos de Rhett e possuam vastas 
propriedades e boas carruagens; e que a levavam, com o marido 'a dar passeios ou lhes ofereciam 
jantares, ou ainda recepes em sua onra. Por isso- ela lhes testemunhava multa simpatia., o que 
no deixava de agradar a Rhett. 
- Tinha ai certeza de que havias de gostar deles - 
disse o marida, rindo. 
- Por que no? - respondeu Searlett, desconfiada, como sempre, daquele riso. 
- Porque so todos tipos desqualificados, ovelhas ranhosas, patifeg. Grandes aventureiros a fina flor 
dos Sacolas. Ganharam dinheiro especulando sobre os mantimentos, como o teu marido adorado, 
quer assinando contratos duvidosos com o Governo, quer traficando de modo mais ou menos 
suspeito. 
-No acredito. Ests a brincar comigo. n tudo gente da melhor. 
- Nesta cidade, a gente da melhor vive na misria 
- declarou Rhett. - Essas pessoas moram com toda a dignidade em pardieiros, e duvido que me 
recebessem em sua casa. Foi aqui que durante a guerra pus em prtica, alguns dw meus tenebrosos 
#
planos e os habitantes de Nova Orlees tm uma memria leva6 da breca. Scarlett, s para. mim 
uma alegria constante! Tens o dom de gostar de pessoas que no merecem a simpatia de ningum e 
de fazeres sempre o que no devias fazer! 
-Mas so teus amigos! 
- IR@ que eu adoro os canalhas. Passei os primeiros anos da minha juventude a jogar as cartas num 
barco da 
390 
arreira Mississipi e compreendo esses sujeitos. Mas no sou cego e vejo bem o que so. ]@s 
incapaz de distinguir o fino do ordinrio. s vezes penso qile as nicas verdadeiras senhoras que 
conheceste foram tua me e a MeIly, mas parece-me que nem uma nem outra tiveram grande 
influncia em ti, Scarlett. 
A Melly! Uma parva sem graa nenhuma, que no sabe vestir-se nem diz seno banalidades! 
- Poupa-me cenas de cimes. No  a beleza nem o vesturio que fazem uma grande dama. 
-Ai, no? Espera um pouco, Rhett Butler, e vers! Agora que tenho... que temos dinheiro 'vou ser 
a maior dama que jamais conheceste, a, mais perfeita senhora de sociedade. 
-Seguirei a experincia com muito interesse. Ainda mais atraentes do que as pessoas com quem ela 
convivia eram os vestidos que Rhett lhecomprava, depois de ele prprio escolher a cor, o tecido e o 
modelo, J no se usavam crinolinas e a ltima moda era encantadora, com saias arrepanhadas atrs 
num tufo guarnecido de flores, de cascatas de fitas e de rendas. Searlett lembrava-se das modestas 
crinolinas do tempo da, guerra e sentia-se um tanto envergonhada por andar com aquelas saias mo~ 
dernas muito cingidas  frente. E os chapus, que amores!, Pequeninos, inclinados sobre um olho, 
enfeitados de flores, de frutos, de plumas e fitas que flutuavam ao vento! (Se ao, menos Rhett no 
tivesse feito a tolice de atirar para o lume os caracis postios que ela comprara para engrossar o 
carrapcho, que emergia por baixo desses, chapelinhos!) E que linda, a roupa interior executada 
num convento! Roupa bonita no lhe faltava. Camisas de dia e camisas de noite saias do, linho mais 
fino, adornadas de bordados -e de refe@os minsculos. E os, sapatos de cetim que Rheitt lhe 
oferecera! Tinham saltos com mais de sete centmetros de altura, e fivelas de pedras que cintilavam 
como diamantes. Meias de possua uma dzia de pares, e nem um s6 com a parte de cima de 
algodo., Que luxo! 
Scawlett comprou presentes para a famlia: um s(>---bernardo, pequenino de plo comprido para 
Wade, que sempre mostrara desejo de ter um'; para B;ea.u, UM gatinho persa; uma pulseira de coral 
para a, pequena Ella; um colar com pingente de pedra lunar para a tia PttY;, 
391 
as obras completas de Shakespeare para Melanie e AshIey; uma elegante libr para o velho Peter 
sem CsquOcer ocriaPu alto de cocheiro com o respeclvo penacho; cortes de fazenda para Dilcey e 
pa-ra a cozinheira, e prendas valiosas para um dos habitantes de Tara. 
- 0 que  que compraste para a Bab? - indagou Rhett contemplando aquela, confuso de coisas 
amontoadas s@bre a cama, e enxotando o co e a gato para o quarto de vestir. 
- Nada. Ela foi odiosa. Por que havia de lhe dar presentes depois de nos chamar mulas? 
- E por que hs-de ficar sempre ofendida quando, ouves uma verdade? Tens de levar uma 
lembrana  Bab. Seria uma dor de alma! se no lhe desses nada, e almas como aquela so, muito 
preciosas para. que as magoemos. 
-No lhe levo absolutamente nada. No merece. -Nesse caso, compro-lhe eu qualquer coisa. 
Recordo-me de que a @iinha ama dizia que quandc> fosse para o Cu, queria ir de saiote de tafet 
vermelho, um tafet to teso que a saia se aguentasse de, p e to farfalhante que Deus Nosso 
Senhor tivesse a iluso de que. era, o, sussurro de asas de anjo. Vou comprar ta-fet escarlate e da 
se far um lindo saiote para a tua ama. 
-Ela no aceita nada, de ti. Preferia morrer a usar salas oferecidas pela tua, pessoa. 
-No duvido, mas ofereo-lhe da mesma maneira. 
0 gesto  tudo. 
As lojas de Nova Orlees eram to luxuosas, to repletas de tentaes que se tornava um verdadeiro 
#
prazer andar a fazer compras com Rhett. Mas ainda era maior prazer ir com ele ao restaurante, pois 
Rhett sabia o que era bom e como os pratos deviam ser preparados. Os vinhos, os licores, o 
champanhe de Nova Orlees reservavam surpresas agradveis a, Scarlett, que s estava habituada, 
ao vinho de amoras feito em casa e  aguardente dos delquios, da tia Pitty. Mas quanto s ementas 
escolhidas pelo marido... oh, isso era um encanto! A cozinha de Nova Orlees talvez fosse at o 
melhor da cidade. Lembrando-se dos jejuns padecidos em Tara e da sua mais recente prenria ela 
tinha a impresso de que nunca se fartaria, ba-stant@ da<lueles pratos to bons agora  sua 
disposio. Havia, cogumelos, ostras, pombos macerados 
392 
em vinho, fgado de ganso... 0 seu apetite jamais falhava, pois quando lhe vinham  memria o gro 
de bico e as bata-tas doces de Tara, Scarlett atirava-se com mais entusiasmo s deliciosas iguarias 
de Nova Orlees. 
-Tu comes com<> se cada refeio fosse a ltima da tua vida - disse um dia, Rliett. - No rapes o 
prato, tenho a certeza de que h mais disso na cozinha. ]@', s pedir ao criado. Se continuas dessa 
maneira, ficas to gorda como as senhoras de Cuba, e eu vejo-me obrigado a pedir o divrcio. 
Mas Scarlett limitou-se a deitar-lhe a lngua de fora, e pediu logo outra dose de pudim de chocolate. 
Que engraado que era poder gastar o dinheiro que quisesse, sem ter a preocupao de economizar 
para o pagamento dos impostos! Que divertido conviver com pessoas alegres e ricas e no gente 
pobretona, como, a de Atlanta,! Que satisfao usar vestidos de brocados que realavam a cintura e 
descobriam generosamente os braos, o pescoo e at a colo! Que prazer excitar a admirao dos 
homens, e com-er tudo. o que lhe apetecer e beber champanhe at a saciedade! 
A primeira vez que se excedeu a beber, acordou no dia seguinte com uma tremenda enxaqueca e 
com a deprimente recordao de ter vindo em carruagem descoberta, a cantar a, BOnn@e Blue 
Fbag @odo o caminho de regresso ao hotel. Sabia que no era decente uma senhora embriagar-se, e 
a nica mulher que ela vira nesse estado fora, a Watling, no dia da. rendio de Atlanta. To. 
vexada se sentia que nem tinha cara de olhar para Rlie" mas este s achou graa ao caso. Alis, 
achava, graa a. tudo o que ela fazia, como se assistisse s tropelias dum gatinho. 
Envaidecia-a sair com Rhett, porque era bonito homem. At a, Scarlett, nunca prestara muita 
ateno ao aspecto dele, e em Atlanta preocupavam-se muito com os seus defeitos morais para 
repararem sequer nas suas qualidades fsics. Em Nova Orlees, porm, Scarlett via bem como as 
mulheres o olhavam e como se meneavam quando ele lhes beijava a mo. Depois de perceber que o 
marido era apreciado pelas mulheres e que estas talvez a invejasse-m, sentiu-se orgulhosa por se 
mostrar a seu lado. 
"Somos um lindo casal", pensava, com satisfao. Sim, como Rhett profetizara, o casamento podia 
ser uma coisa, muito aprazvel. Aprazvel e instrutiva, Pois 
393 
11 1 0 
Scarlett, que sempre julgara que a vida nada mais tinha a ensinar-lhe senta-se agora como uma 
criana que! todos os dias faz n:@va, descoberta. 
Em primeiro lugar, aprendeu que a vida conjugal com Rhett era muito diferente da que ela tivera 
com Charles e com Frank. Um e outro mostravam o maior respeito pela esposa e receavam os seus 
acessos de clera. No exigiam nada e ela. s lhes concedia o que lhe apetecia conceder. Rhett no 
s no a receava com(> tambm no lhe tinha grande respeito. Fazia sempre o que queria e, se 
Scarlett no estava de acordo, ria-lhe na cara. Ela no o amava, mas reconhecia que Rhett era um 
companheiro que sabia tornar a vida deveras agradvel. 0 que nele existia de mais cativante era o, 
facto de aparecer sempre senhor de si, at nos momentos mais fogosos onde por vezes se notava 
uma pontinha, de crueldade e outras vezes uma alegria irritante.- 
"I@, porque no est realmente apaixonado por mim", pensava Scarlett, sem amargura. "Tambm 
no gostaria de o ver perder a cabea por d c aquela palha". 
No entanto,  ideia, de que isso estava no domnio das possibilidades- sentia despertar em si a 
curiosidade de maneira perturbante. 
#
 fora de conviver com Rhett, descobriu muita coisa a seu respeito e sups que j o conhecia bem. 
Descobriu que a sua voz podia ser macia como a pele dum' gato e, da a momentos, spera e brutal. 
Podia narrar, com apa, rente sinceridade e admirao, histrias sucedidas nas terras por onde 
andara, em que predominava o amor, a coragem e a virtude e logo a seguir contar anedotas picantes 
ou cnicas. Sca@lett estava convencida de que nenhum marido dizia,  mulher semelhantes 
anedotas, mas aquilo entretnha-a e correspondia- de certo modo ao que nela existia de grosseiro. 
Rhett era capaz de se mostrar amante ardente, embora por breves instantes, e em seguida ser um 
demnio provocador que se divertia a irrit-la e a observar com delcia as suas reaces explosivas. 
Descobriu que os elogios de Rhett tinham. sempre segunda inteno e que se devia desconfiar dassuas 
manifestaes de ternura. Na verdade, naquela estadia de duas semanas em Nova. Orlees, 
Scarlett, ficou a conhecer muita coisa, a res.peito do marido, excepto como-ele era na realidade. 
Em certas manhs, Rhett prescindia da criada para ele 
394 
prprio levar o primeiro almoo a Scarlett, e tirava-lhe a, escova das mos e escovava-lhe os 
cabelos negros e compridos at ouvi-los crepitar, Noutras ocasies acordava a mulher bruscamente, 
arrancando a roupa da cama e fazendo ccegas nos ps de Scarlett. To depressa escutava muito 
interessado o que ela, dizia a. respeito dos negcios, aprovando com gestos de cabea a sua 
sagacidade, como declarava que aquelas transaces comerciais no passavam duma burla, de 
roubo em grande escala. Quando a levava ao teatro, toda a noite lhe murmurava ao ouvido que Deus 
no devia gostar de tais divertimentos; em compensao, iam  missa e svtt-o voce, cochichava-lhe 
toda a espcie de piadas obsce@as e depois repreendia-a por estar a rir na igreja. Animava-a, a 
contar tudo o, que lhe passava pela cabea, a ser petulante e atrevida. Scarlett aprendeu com ele a 
habilidade das rplicas prontas e das frases sarcsticas, e tratou de utilizar esse novo poder sobre as 
outras pessoas. No entanto, no tinha o sentido do humor, que temperava a malcia de Rhett, nem o 
seu sorriso que deixava todos, na, dvida de ele estar a troar de si m@smo ou a troar dos demais. 
Apesar de todas as garotices, Rhett nunca se mostrava sob aspecto infantil. Era um homem em tudo 
o que fazia. Scarlett no o olhava. das alturas da. superioridade feminina, como costumavam fazer 
as mulheres para com os adultos, que no fundo eram crianas. 
Quando pensava nisto, aborrecia-se um pouco por no se sentir superior a Rhett. Ser-lhe-ia to 
agradvel! Sempre olhara de alto para os homens que tinha conhecido, resumindo em duas palavras 
a opinio que formava deles: "Que crianas!" Assim acontecera com o pai, com os irmos Tarletons, 
to brincalhes e trocistas, como todos os que lhe haviam feito a corte durante a guerra. 
Enfim, com todos menos Ashley. S6 Ashley e Rliett a ultrapassavam, esquivando-se ao seu 
domnio, pois ambos eram verdadeiros homens, que no conservavam em si o menor elemento 
pueril. 
Scarlett no compreendeu Rhett e no se dava, ao trabalho de o compreender, embora de tempos a 
tempos, descobrisse nele pormenores que a intrigavam. Rhett, por exemplo, olhava-a de forma 
estranha, quando supunha que ela no o estava a observar. Voltando-se bruscamente, surpreendia-o 
a mir-la muito atento, tendo nos olhos uma 
395 
expresso ardente e inquieta., como se esperasse qualquer coisa... 
- Por que me olhas assim? - perguntou-lhe Scarlett, um dia, zangada. - Pareces um gato diante do 
buraco por onde h-de sair o murganho. 
Rhett limitou-se a rir, e a mulher no tardo a esquecer este incidente. At desistiu de averiguar o 
que se passava no esprito do marido. Alis, seria trabalho baldado. Rhett era em demasia 
indecifrvel e a vida continuava a ser deliciosa... salvo quando ela pensava emi AshIey. Mas estas 
vezes eram poucas visto que Rhett lhe no deixava tempo para isso. s vez@s,  noite, quando 
Scarlett, fatigada por haver danado e bebido em excesso, se embrenhava numa espcie de sono 
langoroso, -recostada nos braos de Rbett, e a Lua inundava o leito com a sua plida claridade, ela 
pensava que a vida seria, inteiramente bela se aqueles braos que a apertavam fossem os braos de 
AshIey. 
#
Certa ocasio devaneando assim, Scarlett soltou um suspiro e voltou' a cabea para o lado da janela. 
Da a pouco sentiu os msculos dele tornarem-se mais duros e ouviu-lhe a voz elevando-se no 
silncio: "Que Deus mande para o Inferno a tua alminha mpostora!" 
E, levantando-se, tornou-se a vestir e deixou o quarto, apesar do!s protestos da mulher, estupefacta 
com o caso. Reapareceu na manh seguinte,  hora do primeiro almoo, com ocabelo despenteado, 
de mau humor, decerto bbado, e no se dignou sequer explicar as razes da fuga. 
Scarlett no o interrogou. Mostrou-lhe a maior frieza, como convinha a uma pessoa ofendida, e, 
assim que acabou de almoar, vestiu-se perante os olhos -congestionados de Rhett e foi fazer 
coropras. S regressou  hora do jantar. 
Foi uma refeio silenciosa. Scarlett, furiosa no, ntimo, sentia-se defraudada. No s aquele era o 
ltimo jantar em Nova Orlees como ela queria fazer honras  belswsima lagosta que lhe 
apresentaram, e o ar soturno de Rhett estragava-lhe todo o prazer, No entanto, comeu tanto quanto 
pde e bebeu grande quantidade de champanhe. Talvez a lagosta e o champanhe  que lhe 
prov(>cassem nessa noite a reaparo do antigo pesadelo. Scarlett acordou sobressaltada, coberta 
de suores frios e a soluar perdidamente. Sonhara que se encontrava em Tara outra vez. 0 aspecto 
da quinta era desolador. A me mor- 
396 
rera, e com ela fora-se toda a fora, e equilbrio no mundo. No se podia contar com ningum. Algo 
de terrvel vinha a persegui-la, e ela corria, corria desesperada atravs de nevoeiro espesso e 
movedio. Gritava e pro=ava, s cegas aquele refgio desconhecido aquele porto de salvamento que 
devia encontrar-se algu@es no. meio do nevoeiro. 
Quando despertou, Rhett estava inclinado para ela. Sem uma palavra, ergueu-a nos braos @como 
urna criana e apertou-a de encontro a si. 0 contacto dos seus msculos fortes e as suas palavras de 
consolo foram-na acalmando at que parou d4@ soluar, 
-Oh, Rhett! Eu tinha tanto frio e tanta fome! Sen tia-me to cansada e no chegava ao fim! Corria, 
corria atravs do nevoeiro e nunca encontrava nada. 
-Que pretendias encontrar, minha jia? -No sei. Gostava de saber. -n sempre o mesmo sonho? 
- Sempre. Rhett deitou-a devagarinho na cama e acendeu uma vela, cujo claro deu s suas feies 
duras o aspecto de serem esculpidas em pedra. A camisa, aberta at  cintura, descobria o peito 
bronzeado coberto de plos negros e espess<)s, Ainda a tremer de susto Scarlett ficou to 
impressionada com a fora indomvel que emanava daquele torso, que murmurou: 
- Aperta-me contra ti, Rhett! -Querida!-disse ele em voz baixa. E, pegando@-a outra vez ao colo, 
foi sentar-se numa poltrona e ps-se a embalar Searlett cingindo-a a si. 
- Oh, Rhett, qe horror  ter fome! -De facto, deve ser horroroso sonhar que se est com fome 
depois de ingerir um jantar de sete pratos, incluindo aquela lagosta formidvel -comentou ele 
sorrindo, mas com expresso afectuosa. 
-Por mais que corresse e procurasse por todos or, lados, no conseguia encontrar o que buscava sem 
sequer saber o que era. Estava sempre oculto no nevoeiro. S sei que, se chegasse a encontrar, 
estaria salva para sempre, e nunca, nunca mais teria nem frio nem fome. 
- Era pessoa ou coisa que tu procuravas? -No fao idela. Nunca o perguntei a mim mesmaRhett, 
achas que um dia encontrarei isso que busco e que me h-de salvar? 
397 
- No - declarou ele, endireitando o cabelo despenteado. -No creio. Com os sonhos  sempre 
assim. Mas estou persuadido de que,  fora de veres que no te falta nada na vida, e que no corres 
nenhum perigo, acabars por deixar de ter esse sonho, Encarrego-me da tua segu" rana, Searlett! 
-P,s to generoso! 
- Obrigado pelo elogio. Agora, quando acordares, devers dizer todas as manhs: "Enquanto Rhett 
for vivo e existir o governo dos Estados Unidos, jamais terei estmago vazio ou sofrerei qualquer 
mal". 
- 0 governo dos Estados Unidos? -repetiu Scarlett, intrigada, erguendo o rosto ainda cheio de 
lgrimas. 
#
-0 dinheiro da Confederao segue daqui por diante novo rumo. Coloquei a maior parte em 
obrigaes do Tesouro, 
-  diabo! -exclamou ela, que j se ia sentindo tranquila. - Queres dizer que emprestaste o teu 
dinheiro aos yankees? 
- A troco durna boa percentagem, 
- Nem que fosse cem por cento! Tens de vender j essas obrigaes. S pensar que emprestaste o 
dinheiro aos yankees...  de perder a cabea! 
-E que devo fazer do capital? -volveu Rhett, sorrindo, e notando que nos olhos da mulher j no 
havia sinais de inquietao. 
- Vejamos ... Podias comprar terrenos perto do e=inho de ferro ... Mesmo todo o terreno marginal. 
- No, no me agrada isso. Agora que os Sacolas dominam no Estado de Gergia,  impossvel 
adivinhar o que pode acontecer. Prefiro conservar-me na expectativa. Como bom renegado que sou, 
lido com eles, mas no lhes confio nada de valor, Evitemos o emprego de dinheiro em bens 
imobilirios. Antes as obrigaes que se podem esconder. Os imveis  que no se escond@ com 
facilidade. 
- Parece-te que... -comeou Scarlett que empalidecera ao lembrar-se das suas estncias d@ madeira 
e do armazm do defunto Frank, 
- No sei--- Mas no tomes esse ar. 0 nosso novo governador, pessoa simpaticissima,  um dos 
meus melhores amigos. 0 que quero dizer  que a poca no oferece segurana e que eu no devo 
imobilizar o capital dessa maneira. 
- Sentou a mulher num dos joelhos e inclinou-se para trs 
398 
a fim de tirar e acender um charuto. ScaxIett, viu-lhe moverem-se os msculos do peito e sentiu-se 
segura. - E j que falamos destas coisas - prosseguiu ele - participo-te que tenciono mandar 
construir uma casa.  fora de o tira" nizar, conseguiste que Frank aceitasse a ideia de habitar com 
a tia Pitty; ora eu j te previno que no suportarei os delquios dessa -senhora, trs vezes ao dia, 
nem a de me deixar assassinar pelo teu preto Peter, quando me vir instalar sob o tecto dos 
Hamiltons. A tia Pitty que pea a India Wilkes o favor de habitar com ela, e j no estar s. De 
regresso a Atlanta, hospedar-nos-emos no Hotel Nacional at que a nossa casa fique pronta. No 
hotel ocuparemos os aposentos reservados aos noivos. Antes de vir para c, adquiri um grande 
bocado de terreno na Peachtree Road, o que fica ao lado da casa dos Leydens. Ests a compreenderme... 
- Oh, Rhett, que bom! Sempre desejei urna casa minha, na cidade! Uma casa muito grande. 
-Ao menos, estamos de acordo num ponto, Que achas? Uma casa de estuque branco, com ferros 
forjados, como as dos crioulos daqui... 
- No, Rhett. Nada dessas velharias usadas em Nova Orlees, Sei muito bem o que quero. Tudo o 
que h de mais moderno. Vi uma reproduo na... como se chama?... na HarperIs Weekly. Era um 
modelo de chal suo. 
-Um qu suo? -Um chal. 
- Dize outra vez. Scarlett obedeceu. 
- Oh! - murmurou ele, afagando o bigode. 
- Era uma coisa linda, com o tecto muito alto, em declive e, de cada lado, uma espcie de torre. As 
janelas das tor@es tinham vitrais azuis e encarnados. Via-se mesmo que era obra de estilo. 
-Devia ter tambm uma varanda com balaustradas de madeira aos recortes. 
-Nem mais! 
- E um friso de espirais de madeira a ornamentar o beiral? 
-Exactamente, J viste decerto qualquer coisa semelhante. 
- J vi, mas no na Sua. Os suos so muito inte- 
399 
WL 
ligentes e profundamente -sensveis  beleza arquitectural. Queres de facto uma casa assim? 
- Oh, se quero! -Julgava que tivesses melhorado de gosto depois de conviveres comigo.. Por que 
#
no uma casa crioula ou uma de estilo colonial, com seis colunas brancas? 
-J te disse que no quero velharias. E, no interior, havemos de ter as paredes forradas de papel 
vermelho, e reposteiros de veludo encarnado em todas as portas 'e um poro de mveis de 
nogueira, e alcatifas e... Oh ' Rhett, toda a gente vai fie-ar verde de inveja qu@ndo vir a. nossa 
cwa! 
-Ser necessrio provocar a inveja de todos? Mas se fazes empenho em que fiquem verdes... Ainda 
no te veio  ideia, Scarlett, que no  de muito bom gosto arranjar uma casa luxuosa demais, 
quando a maioria das pessoas  to pobre? 
-Quero que seja como eu disse-retorquiu Scarlett, obstinadamente. -Quero dar uma ensinadela a 
todos que foram maus para mim. E hei-de oferecer tais recepes que a, cidade em peso ficar 
arrependida das coisas que disse a meu respeito. 
-E quem ir s tuas recepes? -Toda a gente. Pois ento! -Duvido., A Velha Guarda morre, mas 
no se rende. 
- No duvides, porque quem  rico tem a simpatia de todos. 
- Menos a dos suli@stas. A quem ganhou dinheiro especulando...  mais difcil introduzir-se na boa 
sociedade do que a um camelo passar pelo fundo duma agulha. Quanto aos renegados, quero dizer 
tu e eu, podemos considerar-nos felizes se no nos cuspirem na cara. Mas, enfim, se queres tentar a 
sorte, apoiarei os teus esforos e estou c?rto que me divertirei muito no decurso da tua campanha. E, 
visto que -se falou de dinheiro, ponhamos ascoisas em pratos limpos. T-lo,-s quanto quiseres para 
a casa e vestidos; se gostas de,jias, t-las-s tambm, mas escolhidas por mim. 0 teu gosto  
detestvel, minha querida. Podes tambm comprar tudo o que te apetecer para Wade e Ella. Se Will 
Benteen deseja intensificar a produo de algodo 'posso contribuir para isso.  o que se chama 
proceder bem, no achao? 
- Sem dvida. ns muito generoso. 
400 
- Agora escuta-me bem. Nem um cntimo, para o armazm ou qualquer empreendimento 
revolucionrio. 
- Oli! - exclamou Scarlett, cujo rosto se alterou imediatamente. 
Durante a viagem de npcias, ela reflectira no meio de chamar  conversa os mil dlares de que 
precisava para comprar o, terreno destinado a aumentar a estncia de madeiras. 
- E eu que julgava tivesses vistas largas! Pensei considerasses tolice tudo, o que diziam a respeito 
do meu papel de mulher de negcios. Afinal verifico que s como os outros homens. Tens medo de 
que julguem ser eu quem manda em casa. 
- Ningum far reflexes a esse respeito, assevero-te -declarou Rliett no seu falar arrastado. -Sou 
bastantemente mal educado para ter orgulho numa mulher desempoeirada. Podes ocupar-te do 
armazm e das serraes. Essas empresas pertencero aos pequenos. Quando Wade for crescido, 
no h-de querer estar s sopas do padrasto, e nessa altura poder tomar a gerncia desses negcios. 
Seja como for, recuso-me a aplicar dinheiro em tais coisas. 
- Porqu? 
- Porque no tenciono contribuir para a alimentao de Asliley Wilkes. 
- Espero que no recomeces com essa histria. 
- No recomeo. Mas como perguntaste a razo da minha recusa, ai a tens. E ainda h mais. No 
penses que vais falsificar os teus livros de contas, fingindo que tais verbas so para vestidos ou para 
a casa. Eu perceberia muito bem que era para economizar dinheiro e comprar mulas ou outra 
serrao destinada a Ashley. Estou firmemente disposto a fiscalizar as tuas despesas e sei o preo 
das coisas. Mas no tomes es-se ar ofendido. Farias isso e 
muito mais. No que respeita a Tara e a Asliley, ficas-me debaixo de olho. 
49 
A SENHoRA Elsing ps-se  escuta. Ouvindo Melanie atravessar o vestbulo e entrar na cozinha, 
onde o. tilintar de loia e de talheres anunciavam prxima merenda, voltou-se e comeou a falar em 
voz baixa com as senhoras que esta- 
#
26 - Vento Levou - 11 401 
'k" 
vam sentadas na sala, com o cestinho de costura, pousado sobre os joelhos. 
- Eu  que no tenciono fazer uma nica visita a Scarlett -declarou, com expresso ainda mais 
glacial que de costume no rosto senhoril. 
Os outros membros do Crculo de Costura a favor das Vivas e rfos da Confederao 
descansaram as agulhas e chegaram mais as cadeiras umas para as outras. Todas aquelas damas 
ardiam em desejos de falar de Rhett e de Scarlett, mas a presena de Melanie impedia-as de aflorar 
tal assunto. 0 casal regressara na vspera a Atlanta e instalara@se nos melhores aposentos do Hotel 
Nacional. 
- 0 Hugh quer convencer-me de que devo ir visit-los, alegando que o capito lhe salvou a vidaprosseguiu 
a senhora Elsing. - E a Fanny, coitada,  da mesma opinio e diz que vai tambm. Eu 
ainda lhe observei: "Fanny, lembra-te que Tommy estaria hoje vivo se no, fosse Scarlett. n um 
insulto  sua memria fazer semelhante visita". Mas a rapariga saiu-se com esta: "A visita no  
dedicada a Scarlett, mam.  ao capito Bufler que se esforou por salvar Tommy. Se no 
conseguiu, a c@lpa no foi sua". 
- ]9@, muito pateta a gente moa! - comentou a senhora Merriwether. - Visitar criaturas daquelas! 
Ora esta! - 
0 peito opulento ergueu-se de indignao  lembrana dos maus modos de Scarlett quando lhe fora 
falar antes do casamento. -A minha Maybelle  to pateta como a -sua Fanny. Di8se-me que ia com 
o marido visit-los, porque o capito Butler evitara que Ren fosse enforcado. Tambm eu lhe fiz 
ver que ele no se teria exposto a perigos daquela ordem se Scarlett no andasse por a sozinha 
como uma maluca. E meu sogro teima em ir e diz que se sente muito grato quele velhaco. Est 
impossvel de aturar desde que entrou em casa da tal Watling. Que vo, se quiserem, eu  que no 
vou. Scarlett ficou banida da sociedade casando com semelhante homem. J no era boa firma 
quando especulava durante a guerra e ganhava dinheiro a rodos, enquanto ns quase passvamos 
fome, e ento agora, que anda tu c tu l com os Sacolas e Renegados, e que  amigo... sim, amigo 
desse sinistro Bullock ... Ai, no, no conte com visitas minhas! Eles que vo ... 
A senhora Bonnell suspirou. Era uma mulher rechonchuda, de fisionomia franca e jovial. 
402 
-Iro s uma vez, apenas por cortesia, Dolly. No devemos censur-los. Constou-me que todos os 
homens que tomaram parte no ataque da Man tencionam ir cumprim@ntar o capito Butler e acho 
que tm razo.... s vezes ate me custa a crer que'Searlett seja filha de Ellen Robillard, que eu 
conheci to bem. Andmos juntas no colgio de Savannah, Era esplndida companheira, e eu 
estimava-a muitssimo. Se o pai no se tivesse oposto ao casamento com o primo Philippe 
Robillard! E no sei porqu. No havia nada de grave acensurar ao rapaz... Na mocidade  natural 
praticar desvarios. 0 certo  que Ellen foi obrigada a sair da cidade e a casar com o velho O'Hara, 
que lhe deu uma filha como Scarlett. Em memria da me, acho de meu dever visit-la. 
-A est o que se chamam tolices sentimentais! - 
exclamou a senhora Merriwether. - Kitty Bonnell considera seu dever visitar uma, criatura que 
volveu a casar apenas um ano depois da morte do marido? 
- E que foi a causa da morte dele - acrescentou India em voz calma, mas cheia de veneno. Sempre 
que se falava de Scarlett, custava-lhe a manter a serenidade e a no dizer tudo quanto pensava, pois 
no se esquecia de Stuart Tarleton.-J antes de o senhor Kennedy morrer, eu tinha a impresso de 
que entre ela e esse Butler havia mais qualquer coisa do que simples amizade. 
Ainda, as senhoras no tinham voltado a si do espanto causado por tal insinuao na boca duma 
mulher solteira quando viram Melanie postada  porta. To interessadas estavam na conversa que 
nem os passos lhe tinham ouvido. Ficaram todas com o ar de colegiais apanhadas pelo professor a 
tagarelar na aula, mas a inquietao sucedeu ao alarme quando notaram a cara transtornada, de 
Melanie. A clera inflamava-lhe as faces, os olhos despediam centelhas, as narinas fremiam-lhe. 
At a, nunca ningum vira Melanie zangada. Nenhuma das senhoras presentes a julgara capaz de se 
#
encolerizar. Todas a estimavam, mas consideravam-na uma mulher muito meiga, muito dcil, cheia 
de respeito pelas pessoas mais velhas e -sem opinio prpria. 
- Como te atreves a dizer isso 'India? - exclamou em voz trmula de ira. - A que ponto chegam os 
teus cimes! Que vergonha! 
India empalideceu, mas conservou-se de cabea erguida. 
403 
- 4 
- No retiro uma palavra do que disse - ripostou secamente. Mas pensou, perturbada: "Ciumenta, 
eu?" A lembrana de Stuart Tarleton, de Honey e de Charles no seria motivo para ter cimes de 
Scarlett? No tinha razes para a detestar, especialmente agora que suspeitava que ela apanhara 
tambm AshIey na rede? "Muita coisa podia eu revelar-te acerca de AshIey e da tua, preciosa 
Searlett!" disse consigo. Mas tinha de se calar para no acarretar aborrecimentos ao irmo. Se 
falasse, Scarlett ver-se-ia obrigada a desistir das suas pretenses sobre Ashley, mas ainda no, era 
altura de falar. Por enquanto, no havia nada de cGnereto; apenas desconfiana da sua parte. -No 
retiro nada do que disse - repetiu. 
-Nesse caso, no continuars a viver debaixo do meu tecto -declarou Melanie em tom glacial. 
India levantou-se num pulo, de rosto. purpureado. 
- Melanie, tu... minha cunhada... queres cortar as relaes comigo por causa daquela peste! 
- Scarlett tambm  minha cunhada - replicou Melanie de olhos fitos nos de India. -E tenho4he mais 
amizade do que se fosse minha irm de sangue. Se esqueces o que ela fez por mim, eu  que no me 
esqueo. Esteve sempre a meu lado durante o bloqueio, quando podia ter-se refugiado em Tara, 
como a tia Pitty se refugiou em Macon. Assistiu ao nascimento do meu filho, na altura em que os 
yankees j estavam s portas de Atlanta. No hesitou em levar-nos para Tara a MIM e a, Beau, 
quando podia. muito bem deixar-nos no h pital, onde seramos apanhados pelos yankees. Cuidou de 
mim e alimentou-me, mesmo quando se sentia exausta e cheia de fome. Porque eu estava doente e 
no me aguentava em p, deu-me o melhor colcho de Tara. Quando pude andar, foi para mim o 
nico par de sapatos intactos que l existiam. Esqueces o que ela fez a meu favor, Inda, mas eu 
nunca esquecerei. Quando AshIey voltou da guerra, doente, desanimado, sem lar e sem dinheiro, 
recebeu-o em casa como uma irm. Apesar de nos, custar muito deixar Gergia, resolvemos ir viver 
para o Norte, mas Searlett interveio e confiou a AshIey a direco duma das serraes. Quanto ao 
capito Butler, salvou a vida de meu marido, e unicamente por bondade, porque nada lhe devia. Eu 
 que estou em dvida para com ele e para com Scarlett e at  morte ser-lhes-ei reconhe~ cida, 
Parece impossvel: India, que possas esquecer o que 
404 
Searlett fez por mim e por Ashley! Em to pouco apreo tens a vida de teu irmo que nem sentes 
pejo de conspurcar o homem que o salvou? Nem que te rojasses de joe@lhos @os ps de Scarlett e 
do capito Bufler seria bastante expiao. 
-Ento, MeIly-atalhou a senhora Merriwether, que recuperara a ousadia. - Isso no so modos de 
falar a India. 
-Ouvi tambm o que disse de Scarlett -prosseguiu Melanie, defrontando a volumosa senhora como 
um duelista que, depois de haver desarmado um dos adversrios, se volta furioso contra outro. -E' a 
si tambm a escutei, senhora Elsing. No fundo, pouco me importa o que pensam dela os espritos 
mesquinhos. Isso  convosco. Mas  comigo tambm o que se diz na minha casa. E no compreendo 
que se possa ter semelhantes pensamentos e ainda por cima exprimi-los. Em to pequena conta 
tendes os homens da vossa famlia, que vos parea prefervel v-los mortos a conserv-los vivers? 
No sentis nenhuma gratido para com aquele que os salvou e que o fez com perigo da prpria 
vida? Os yankees bem podiam t-lo considerado membro da Klan, caso descobrissem a verdade. 
Seriam capazes de o enforcar. Mas isso no o impediu de salvar os vossos parentes, de salvar o 
sogro da senhora Merriwether, e o genro e dois sobrinhos, e ainda o irmo da senhora Bonnell e o 
filho e o genro da senhora Elsing. Sois simplesmente ingratas. Exijo,-voR que me apresenteis 
desculpa. 
#
A senhora Elsing levantou-se, depois de ter encafuado  pressa a costura no saco. 
-Se algum me dissesse que era assim to mal educada, Melly... No, no apresento nenhuma 
desculpa. India tom razo Searlett  uma desaforada. No posso esquecer a forma c@mo ela se 
portou durante a guerra. Nem esqueo a maneira pouco elegante como tem procedido desde que se 
tornou rica. 
- Eu sei o que no pode esquecer - volveu Melanie, apertando os punhos delgados. - Foi ter retirado 
a Hugh a gerncia da fbrica, por no o considerar  altura da situao. 
- MeIly! - imploraram vrias vozes em coro. A senhora Elsing ergueu mais a cabea e saiu da sala. 
 porta ainda se deteve, e, voltando-se, disse com voz mais branda: 
405 
- Melly, tudo isto me desgosta muito. Fui a melhor amiga da sua. me, e ajudei o Dr. Meade a p-la 
neste mundo, Estinio-a como minha filha. Se se tratasse de qualquer coisa importante, seria menos 
doloroso ouvi-Ia falar desse modo. Ma,,@ a respeito de Scarlett O'Hara, que no hesitaria em lhe 
pregar uma partida, como a qualquer de ns... 
Desde as primeiras palavras da senhora Elsing, Melanie sentira as lgrimas subirem-lhe aos olhos; 
mas logo que a outra acabou, as feies endureceram-se~lhe de novo. 
- Gostava que se compenetrassem disto -disse ela. - 
Todas as que no forem visitar Scarlett ficam tambm dispensadas de vir a minha casa. 
Esta declarao foi acolhida por um murmrio de vozes. As senhoras presentes levantaram-se de 
tropel; e a Elsing, deixando cair o saco no cho, reentrou na sala, com a cuia de travs. 
- No, isso  demais! - bradou. - No est no seu perfeito juzo, no sabe o que diz. No admito 
mal-entendidos entre ns. 
Chorava, e Melanie, sem saber como,, achou-se nos braos dela, banhada tambm de lgrimas, mas 
declarando entre soluos que no retirava urna palavra do que dissera. Vrias outras senhoras 
desatara m- em pranto, e a senhora Merriwether, aps haver-se assoado com um estridor de 
trombeta, apertou ao seio ao mesmo tempo a senhora Elsing e Melanie. A tia Pitty, transformada em 
esttua desde o incio da cena, desmaiou a valer desta vez e caiu desamparada. No meio dos choros, 
da confuso, das idas e vindas em busca dum frasquinho de sais e duma garrafa de conhaque, s 
urna pessoa conservou serenidade e olhos enxutos: foi India Wilkes, que por fim se retirou sem que 
ningum desse, por isso. 
Mais tarde, o av Merriwether encontrou o tio Henry Hamilton no botequim da "Girl of the Period" 
e contou-lhe os pormenores dessa reunio, sabidos atravs da nora. Comentou os acontecimentos da 
tarde com evidente satis~ fao, pois estava encantado com a ideia de que houvesse algum capaz 
de fazer frente  temvel viva de seu filho. Ele jamais se atrevera a uma coisa dessas. 
-E ento, que deliberou finalmente esse rebanho de patetas? -, perguntou o tio Henry bem humorado 
tambm. 
- No sei ao certo, mas te@ho a impresso de que 
406 
Melly ganhou a, partida. Aposto que vo todas visitar o casal Butler, pelo menos uma vez. 
- MeIly  uma tonta e essas senhora-s tm razo - 
observou Henry Hamilton. - Scarlett no passa duma estouvada e eu no percebo como  que 
Charles casou com ela. Por outro lado, Melly tambm falou com acerto. Seria delicado que as 
famlias dos homens que o capito Butler salvou se dignassem dar o passo que lhes foi aconselhado. 
Eu por mim no tenho nada contra esse Butler, que se portou de maneira assombrosa na referida 
noite. Searlett  que me aborrece. n esperta em demasia. Enfim, devo ir igualmente, Seja Renegada 
ou no, Scarlett est no lugar de sobrinha. Tencionava mesmo visit-la ao anoitecer. 
- Irei contigo, I-fenry. Dolly, quando souber, vai ter um ataque de nervos. Espera um pouco, 
necessito tomar outro copo. 
-Tomaremos mais em casa do capito Butler, que  entendido em matria de bebidas boas. 
Com razo dissera Rhett que a Velha Guarda no se rendia. Sabia o pouco valor que se devia dar s 
raras visitas recebidas e no ignorava a disposio em que elas tinham sido feitas, As famlias 
#
ligadas aos membros da Man foram as primeiras a apresentar-se, mas da por diante espaaram as 
vindas ao hotel e nunca se dignaram convidar os Butlers para suas casas. 
Rhett declarou que ningum teria comparecido se no fossem as represlias anunciadas por 
Melanie. Scarlett perguntou-lhe donde  que ele inferira aquela concluso e no deu importncia 
aos comentrios do marido. Pois que influncia. podia ter Melanie sobre pessoas como a senhora 
Elsing e a senhora Merriwether? Alis, Scarlett pouco se importava que essas damas a visitassem ou 
no. E, na realidade, mal notou a ausncia delas, pois os,seus aposentos estavam sempre cheios de 
gente, e@nbora doutra espcie. Era "gente nova" como lhe chamavam as habitantes de Atlanta 
quando no lhe assacavam piores qualificativos. 
Muita dessa "gente nova" residia no Hotel Nacional, esperando como Rhett e Scarlett que a casa 
mandada construr ficasse concluda. Ricas e joviais, lembravam essas -pessoas os, amigos de 
Rhett, com quem tinham convivida em Nova Orlees: eram. elegantes, gastavam  larga e 
407 
preferiain no aludir  sua existncia precedente. Todos os homens defendiam ideias republicanas e 
estavam em Atlanta por causa de negcios que interessavam ao governo do Estado. Que poderia ser 
'ao certo, esse gnero de negcios? Scarlett no o sabia e no procurava averiguar. 
Rhett  que -seria capaz de a informar: dir-lhe-ia ento que essas criaturas desempenhavam o papel 
dos corvos em tomo dos que esto para, morrer. Farejavam a morte, de longe, e precipitavam-se de 
boca aberta. J no existiam georgianos no governo de Gergia, que tombara em poder de 
aventureiros. 
As esposas dos Sacolas e dos Renegados amigos de Rhett amontoavam-se na sala de Scarlett, assim 
como a "gente nova" a quem ela fornecera madeira de construo. Rhett demonstrara-lhe que, 
estando ele a tratar de neg&cios com os homens, a mulher ficava na obrigao de receber o 
elemento feminino da, famlia; ela assim fez e achou agradvel a companhia daquelas da-mas, que 
vinham muito bem trajadas; nunca se referiam  guerra, nem  carestia da vida, e discorriam apenas 
sobre a moda, os escndalos mundanos e o whist. Scarlett jamais jogara s cartas, mas lanou-se ao 
whist com gosto e depressa se tornou joga, dora exmia. 
Sempre que se, encontrava no hotel, a, sua sala, enchia-se de parceiros; mas era tambm frequente 
andar por fora, vista a edificao da e-asa lhe ocupar muito tempo. Nessa poca, pois, encarava com 
igual indiferena o facto de ter ou no ter visitas. 0 seu papel mundano s comearia no tempo em 
que, senhora da nova casa, se acharia de posse da mais vasta residncia de Atlanta, onde 
decorreriam as mais famosas recepes da cidade. 
Durante os longos dias quentes de Vero, Scarlett via elevar-se a pouco e pouco a sua moradia de 
pedra avermelhada, que se cobriu de telhados esguios e acabou por ultrapassar todas as outrascasas 
de Peachtree Street. Esquecida do armazm e das serraes, gastava o tempo no local a 
discutir com os carpinteiros, a. altercar com os 
d eiras, a arreliar o construtor, Terminada a obra veriK r ' aor fica ia 
com prazer que era a casa mais vistosa e m de Atlanta. Talvez at ficasse mais imponente que a 
dos James teme] eque se erguia nas imediaes, e que fora recen 
ri adquirida para residncia oficial do governador Bullock. 
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Por mais recortados que fossem os ornatos de madeira desta ltima, os da casa de Scarlett 
deixavam-rios inteiramente a perder de vista. A moradia do governador comportava urna sala de 
baile; porm, comparada com as dos Butlers, reduzia~se s dimenses duma mesa de bilhar, pois 
aquela compreendia o terceiro piso todo inteiro. Em mais parte nenhuma se poderiam admirar tantas 
cpulas, torres, torrees, varandas, pra-raios e janelas de vitrais! 
Em toda a volta do edifcio corria uma varanda, para a qualse subia por quatro escadas dispostas em 
cada uma das faces. 0 amplo jardim estava repleto de verdura e guarnecido de bancos rsticos de 
ferro. Havia l uma estufa do mais puro estilo gtico, e duas esttuas grandes, de ferro, que 
representavam uma um veado e outra um co. Para Wade e Ella, um tanto assarapantados com as 
dimenses desses animais, elas eram as nicas coisas dignas de apreo em toda a propriedade. 
#
No interior, a e-asa foi decorada segundo os desejos de Searlett. 0 cho, de parede a parede, cobriao 
uma alcatifa encarnada, espessa. Nas portas pendiam reposteiros de veludo. Os mveis, modernos, 
eram de nogueira entalhada minuciosamente e muito bem envernizada. Quanto s poltronas, tinham 
estofos to altos que as senhoras, ao sentar~se, deviam tomar precaues a fim de no escorregarem 
para o cho. Havia grande quantidade de espelhos dentro de molduras douradas, tantos que fez 
Rhett dizer uma vez que lhe parecia estar em casa da Belle Watling. Entre os espelhos viam-se 
gravuras em encaixes macios, encomendadas por Scarlett. em Nova lorque: algumas chegavam a 
atingir dois metros e cinquenta de comprimento.. 
0 papel das paredes era sombrio, o tecto muito, alto, e a casa permanecia sempre mergulhada numa 
meia obscuridade, pois das janelas desciam reposteiros de veludo dum tem de ameixa, que 
impediam entrasse ali a claridade do dia. 
Em ltima anlise, tratava-se duma residncia feita para deslumbrar. E Scarlett. 'ao pisar os tapetes 
grossos e ao abandonar-se ao colcho de penas da cama, lembrava-se do soalho nu e frio de Tara e 
dos seus catres de enxergo de palha e sentia-se verdadeiramente satisfeita. Considerava-se do@a 
da manso mais bonita e mala bem mobilada que ela conhecia; Rhett dizia-lhe ento que lhe 
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.1 
parecia, antes um pesadelo. Contudo, se a mu-lher se sentia feliz, que @om proveito lhe fizesse. 
- No  preciso conhecerem-nos - observou Rliett - 
para afirmar que este prdio foi edificado com dinheiro mal adquirido.. Bem sabes o que isso , 
Scarlett. 0 dinheiro mal adquirido nunca. d coisa boa, e a nossa casa  uma demonstrao perfeita 
do axioma. 1@ exactamente a que construiria qualquer especulador. 
Mas Scarlett, cheia de vaidade e com a cabea repleta de projectos (idealizava dar festas - 
sumptuosas quando ali se instalassem) beliscou-lhe alegremente a orelha e retorquiu: 
-Ora, ora! Que tal est o@ meco! Sabia agora que o marido gostava de a contrariar, e que, se ela 
tomasse a srio aqueles comentrios ele acharia sempre meio de lhe desmanchar os prazeres. De 
modo que no dava ouvidos aos remoques e esforava-se por levar as coisas para a brincadeira. 
Durante a lua-de-mel e na maior parte do tempo em que estiveram no Hotel Nacional, os dois 
viveram muito bem um com o outra. Mas, logo que se transferiram para a nova residncia e Scarlett 
se rodeou das suas amigas mais recentes, comearam a estalar entre eles sbitas e violentas 
disputas. Eram questes de pouca dura, porque ela no podia impor-se por muito tempo ao marido. 
Este acolhia as injrias com indiferena glacial e esperava pacientemente a ocasio oportuna para a 
atingir num ponto fraco. Era ela, pois, quem se insurgia; ele, nG. Rhett limitava-se a apresentar a 
sua opinio imparcial acerca da mulher, das suas aces, da casa e das novas amizades. E algumas 
destas opinies eram de tal natureza que Scarlett j no, podia aceit-las a brincar, como no 
princpio. 
Quando ela, por exemplo, se resolveu a dar 4os "Grandes Armazns Kerinedy" um ttulo ainda mais 
pomposo, ;solicitou do marido que lhe encontrasse um em que entrasse a palavra "Emprio". Rliett 
sugeriu "Cave-at Emptorium" e asseverou  mulher que nada conviria tanto ao gnero de 
mercadorias vendidas no armazm. Scarlett, achou que soava bem e que essa designao servia os 
seus propsitos s mil maravilhas e chegou a, encomendar a tabuleta. Foi ento que Asliey 
atrapalhado, se viu na obrigao de lhe explicar o sen@ido verdadeiro daquelas 
410 
palavras. Rhett,  claro, ru-se a bom rir do furor que o caso despertou na mulher. 
Havia tambm o modo como ele tratava Bab. Esta jamais cedera uma polegada na sua atitude e 
para ela, Rhett continuava a ser um muar com arreios'de cavalo. Sem dvida que o tratava com 
delicadeza ' porm mostrava-se sempre muito fria. No lhe agradeceu quando ele lhe fez oferta da 
sala, que nem sequer chegou a usar. Mantinha os pequenos o mais tempo possvel afastado de 
Rhett, embora Wade o estimasse deveras e ele fosse bastante amigo do rapazinho. Contudo em vez 
de a despedir, Rhett dispensava-lhe atenes, tal@ez mais do que concedia a Scarlett. Pedia-lhe 
sempre licena para levar Wade num passeio a cavalo e consultava-a antes de comprar bonecas para 
#
Ella. Searlett achava que o marido devia pr Bab no seu lugar, mas ele limitava-se a rir e a declarar 
que a preta  que era o verdadeiro chefe da famlia. 
11hett escandalizava a mulher dizendo-lhe que se preparava j para a lastimar quando os 
Republicanas deixassem o Estado de Gergia e os Democratas subissem ao poder. 
- Quando os Democratas tiverem um governador seu e um Parlamento igualmente constitudo pela 
sua gente, todos os teus novos amigos de meia tigela sero expulsos daqui e reenvi-ados para a 
crpula donde vieram, E tu ficars s, sem amigas democrticas nem republicanas. No contas com 
o dia de a-manh. 
Searlett ria-se, e com razo, porque nessa altura Bullock parecia estar de pedra e cal. Para o 
Parlamento tinham elegido vinte e sete negros, e havia milhares de Democratas pr@vados, do, 
direito de voto. 
- Os Democratas nunca mais regressaro ao poder. Ho-de passar o tempo a arreliar os yankees e a 
comprometer a sua possibilidade de reconquistar a terreno perdido. No fazem outra coisa seno 
falar e organizar -assaltos nocturnos com a Klan. 
- Voltaro, acredita. Conheo os sulistas, conheo os georgianos. So, to enrgicos como 
teimosos. No hesitaro, ainda que tenham de declarar nova guerra ou comprar os votos dos pretos, 
como os yankoes. ou que faam votar todos os mortos do cemitrio, adoptando ainda o 
processo dos yankees! As coisas comeam a tomar to mau. 
411 
- ip ,I~M --- . . . 
aspecto sob o domnio brando do nosso caro Rufus Builock que Gergia no tardar a vomitar este 
cavalheiro, 
- Rhett, no empregues semelhante linguagem! - gritou Scarlett.-E falas de forma que parece que eu 
no gostaria de ver os Democratas voltarem ao poder. Bem sabes que no  assim. Gostaria bastante 
de os ver outra vez em evidncia, Julgas que me regozijo com -o espectculo desses soldados, por 
toda a parte, a recordarem-me... Crs que eu... Mas eu tambm sou georgiana,! Ficaria 
satisfeitssima com o regresso dos Democratas. Infelizmente no voltaro. E, se voltassem, em que 
 que isso prejudicaria os nossos amigos? Eles conservariam o seu dinheiro. 
- Da. maneira coma isto vai duvido que o conservem por mais cinco -anos. Quanto i@1ais 
facilmente se ganha, mais depressa se gasta. 0 dinheiro deles no os melhorou, como o meu no 
melhorou a ti. Em todo o caso, o meu' dinheiro ainda no te transformou em cavalo, minha linda 
mula, nc>, verdade? 
A querela que esta ltima observao originou no se extinguiu seno ao fim de quatro dias. 0 
silncio que ela manteve, silncio de mulher ofendida, claramente indicava que Searlett exigia 
desculpas. Rhett partiu para Nova Orlee-s c.. levou Wade consigo, apesar dos protestos de Bab; e 
conservou-se ausente enquanto calculou que a clera da mulher ainda se no apaziguara. 0 certo  
que ela no lhe perdoou nunca a sua atitude intransigente. 
Quando ele voltou de Nova Orlees, frio e impenetrvel, Scarlett calou como pde o seu rancor, 
relegando-o para as profundezas da memria. No queria aborrecimentos, nessa altura em que 
pensava dar a primeira recepo na sua nova casa. Seria uma festa de arromba, com orquestra e ceia 
que j lhe fazia crescer gua na boca. Contava convidar toda a gente conhecida de Atlanta, desde os 
arnigos mais antigos aos mais recentes, De tal modo andava entusiasmada com os preparativos que 
poucas vezes se lembrava das alfinetadas de Ilhett. Sentia-se feliz, fel!css*,ma, 
Que prazer ser rica, dar festas e no olhar a despesas! Que prazer comprar mveis e vestidos dos 
mais caros sem a preocupao das contas! E poder mandar cheques  tia Pauline e  tia Eulale de 
Charleston, e ao Will de Tara! Ainda havia quem pretendesse que o dinheiro no era tudo 
412 
neste mundo! 0 prprio Rhett dissera que a riqueza no a melhorara, que ela continuava a ser 
mula... Pois veria! 
Searlett mandou convites a toda a gente conhecida, at s pessoas por quem no tinha simpatia 
nenhuma, No excluiu ningum, riem sequer a senhora Merriwether, que por um pouco se mostrara 
#
malcriada quandc> a fora visitar ao Hotel Nacional, nem a senhora Elsing que conservara uma 
atitude distante. Convidou a Meade e a Whiting, porque sabia que ficariam deveras arreliadas por 
no possurem vestidos capazes de aparecer em to elegante reunio. 
Na verdade 'a festa de Searlett foi a mais sumptuosa que Atlanta jamais vira at ai. Nessa noite 'a 
casa e as varandas encheram-@se de convidados que se entretiveram a beber champanhe, a comer 
pastelinhos e mariscos e a danar ao som duma orquestra cuidadosamente dis-simulada -atrs de 
palmas e mais plantas verdes. Todavia, alm de Melanie e de AshIey, da tia Pitty e do tio Henry, do 
casal Meade e do av Merriwether, no compareceu nenhum daqueles a quem Rhett chamava a 
Velha Guarda. 
Muitos dos da Velha Guarda tinham decidido, embora contra vontade, ir  recepo de Scarlett uns 
por causa de Melanie, outros porque Rhett salvara @ vida a eleis ou aos parentes. Porm, dois dias 
antes 'espalhou-se a notfeia de que o governador Bullock fora convidado, e a Velha Guarda 
manifestou logo o seu descontentamento cofn montes de cartas em que cada qual exprimia o seu 
desgosto de no poder aceitar o convite de Scarlett. E o reduzid_o grupo de amigos que aceitou 
tocou a retirada assim que chegou o governador. 
Scarlett ficou to fula que nem gozou a sua festa como devia ser. A sua recepo superelegante! 
Preparara-a com tanto entusiasmo, e, afinal, to poucos velhos amigos e nenhuns velhos inimigos 
para se embasbacarem perante tal esplendor! Quando ao romper da aurora, se retirou o ltimo 
convidado, Sca@lett desataria a chorar e desabafaria a sua ira se no receasse os comentrios de 
Rhett e as suas gargalhadas. E ainda que ele no falasse, temia ler-lhe nos olhos maliciosos: "Eu 
bem te -avisei ... " Por isso se dominou o melhor que pde e fingiu indiferena. 
Desforrou-se no dia seguinte, dando-se ao luxo de fazer uma cena a Melanie. 
Insultaste-me, Melly W11kes, e compeliste Ashley e 
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os outros a ofenderem-me tambm, Sabes perfeitamente que no deixariam a festa to cedo se no 
desses o exemplo. Vi-te muito bem! Justamente quando fui buscar o governador Bullock para to 
apresentar, escapuliste-te como um coelho. .- Nunca acreditei que ele fosse 'apesar do que toda 
* gente dizia-respondeu Melanie, apoquentada. 
-Toda a gente? Com que ento toda a gente continua 
* implicar comigo!-bradou Scarlett.-E queres dizer com isso que tambm no irias a minha casa se 
soubesses que o governador comparecia na festa? 
- No podia ir, Scarlett - balbuciou Melane, baixando os olhos. 
- Parece incrvel! Isto , fazias-me a mesma afronta que os outros fizeram! 
-No quis desgostar-te - replicou Melanie,,no cmulo da angstia, -s para mim uma irm querida, 
a viva do meu Charles, e eu... 
Pousou a mo timida no brao de Scarlett, mas esta repeliu-a, lastimando no poder dar berros 
como fazia Gerald quando estava zangado. No entanto, Melanie no se deu por vencida. Fixando a 
vista nos olhos verdes de Scarlett, endireitou-se e assumiu uma -atitude de dignidade que 
contrastava singularmente com a sua figura infantil. 
-Aflige-me aborrecer-te, mas era-me to impossvel estender a mo ao governa-dor Bullock como 
estend-la a um Republicano ou a um Sacola, Seja em tua casa ou na doutra pessoa, no quero 
conhecer essa gente, nem que eu tenha de... - Melanie fez uma breve pausa, procurando o epteto 
que melhor exprimisse o seu pensamento. - 
... Nem que tenha de ser malcriada. 
-Censuras os meus amigos? -No, Scarlett. Mas so teus amigos e no meus. 
- Achas que procedi mal em ter recebido o governador? Apesar de se ver entre a espada e a parede, 
Melanie nem pestanejou. 
-Quando fazes qualquer coisa obedeces sempre a um motivo srio. Estimo-te, tenho confiana em 
ti, e sou incapaz de te criticar seja por que for. Nem consinto que te critiquem na minha presena. 
Mas... - Bruscamente, as palavras brotaram em caudal da boca de Melanie. Palavras duras, 
violentas, proferidas numa voz baixa onde o dio transparecia. - Como podes esquecer o que essa 
#
gente 
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nos fez? Esquecer a morte do nosso Charles, a sade arruinada de AshIey o incndio dos Doze 
Carvalhos? Oh Scarlett,  impossiVel que j no te lembres daquele @omem horroroso que tu 
mataste ao v-lo -agarrado  caixa de costura de tua me! P, impossvel que j no te lembres da 
passagem dos soldados de Sherman por Tara, desses bandidos que nos roubaram toda a roupa que 
tnhamos, e tentaram incendiar-nos a casa e que se atreveram a pegar na espada de meu pai. Oh, 
Searlett so essas mesmas criaturas, que nos roubaram e nos fizeram passar fome, que tu convidaste 
para a tua casa! Essas mesmas pessoas que deixaram os pretos impor-nos a sua lei, que nos 
despojam de tudo e impedem que os nossos homens votem! Eu no posso esquecer, nem quero. 
Hei-de ensinar o meu filho e os meus netos a odiar aquela gente... e aos filhos dos meus netos, se 
Deus me der vida at l! Scarlett, como pudeste esquecer ... ? 
Melanie calou-se para tomar alento enquanto a outra a olhava estupefacta pela violncia da@ suas 
palavras. 
- Julgas-me parva? -replicou Scarlett com impacincia. - ]@ claro que no esqueci. Mas tudo isso 
pertence ao passado. Hoje o que temos a fazer  aguentar de cara ale-gre, e  isso mesmo que eu 
fao. 0 governador Bullock e certos Republicanos decentes ainda nos podem ser muito teis se 
representarmos bem o nosso papel. 
-No h Republicanos decentes! -declarou Melanie. Nem preciso deles para nada. E quanto a 
aguentar de cara alegre, no aguento nada que parta dos yankees. 
-Como tu ests, Melly! 
- Oh! - exclamou Melanie, como se tivesse sbito rebate de conscincia. - Excedi-me. No queria 
magoar-te, nem criticar-te. Nem todos pensam da mesma maneira e cada qual tem o direito de 
pensar como quiser. Sabes bem que te estimo muitoe nada do que faas modificar os meus 
sentimentos a teu respeito. Espero que no me perdesses a amizade... No fiz com que me 
detestasses, pois no? Scarlett, eu morria de desgosto se houvesse alguma coisa entre ns... depois 
de tudo o que passmos juntas. Dize-me que no me queres mal. 
1 -Isso  que se chama uma tempestade num copo de gua-retorquiu Scarlett agastada, -mas sem 
repelir o brao que lhe cingia, a cintura, 
Pronto, i  fizemos as pazes -disse Melanie radiante. 
415 
E acrescentou em voz mais baixa: - Continuaremos a visitar-nos como antes. 0 que peo  que me 
previnas com antecedncia quando vais receber Republicanos e Sacolas, e nesses dias no 
aparecerei na tua casa. 
-Pouco me importa que apareas ou no-ripostou -Scarlett, pondo o chapu e abalando furiosa. 
No entanto, sentiu de certo modo vingada a sua vaidade ferida ao ver uma expresso de mgoa na 
cara de Melanie. 
Nas primeiras semanas depois da recepo, custou a Scarlett manter o seu ar de indiferena pela 
opinio pblica. Exceptuando Melanie e Pitty, Asliley e o tio Henry, nenhuma das antigas relaes 
a foi visitar nem a convidou para as suas modestas recepes o que a desgostou deveras. No 
procurara ela, de mQt@-prprio,, pr termo s- hostilidaes e mostrar quela gente que no 
guardava rancor pela sua maledicncia? Deviam saber muito bem que ela mesma no, tolerava o 
governador Bullc>ek, mas que tinha convenincia em estar de bem com ele. No fim de contas eram 
estpidos! Se todos fossem amveis para com os hepublicanos talvez Gergia se levantasse um 
pouco mais depressa o triste estado em que jazia. 
No compreendera que, com um s golpe, cortara o elo frgil que ainda a prendia aos amigos e ao 
passado. Nem a prpria Melanie conseguiria recompor o desastre; e esta, desnorteada ' de corao 
ferido mas sempre leal, nada fazia para melhorar as coisas. Sem dvida que Scarlett tambm, por 
seu lad<>, seria incapaz da por diante de restabelecer aquela ligao com o, pretrito'apesar de todo 
o seu desejo. 
0 dio que envolvia o regime de Bullockenvolvia-a tambm a ela, e a cidade inteira acabara por lhe 
#
voltar as costas. Esse dio no se manifestava caloroso, mas antes numa frieza implacvel. Searlett 
fizera causa comum com o inimigo e, embora pertencesse, pelo nascimento e pelas relaes 
f@miliares, aos da Velha Guarda, classificavam-na agora na categoria doe que voltaram a 
casaca,,dos partidrios dos pretos, dos traidores, dosi Republicanos e dos renegados. 
Depois de haver, durante algum tempo, afectado indiferena, ela por fim revelou-se tal qual era. 
No seria mulher para se deixar abater pelas venetas das outras pessoas ou para se lamentar toda a 
vida por uma derrota 
416 
sofrida. Depressa fez tbua rasa dos Merriwethers, Elsinga, Whitings, Bonnells, Meades e quejand". 
Dissessem da sua pessoa, o que quisessem. Ao menos Melanie visitava-a, e levava consigo Ashley: 
Asliley era t@do o que interessava. Alm disso' havia muita gente em Atlanta que concorria s suas 
reunioes outra gente mais agradvel do que esse bando de galin@as peladas. De cada vez que 
desejasse encher a casa de convidados, podia faz-lo, com pessoas mais alegres e elegantes do que 
esses idiotas pretensiosos que a haviam abandonado e lhe censuravam as aces. 
Tais pessoas eram as da nova camada de Atlanta, ou conhecimentos anteriores de Rhett, ou 
associados com ele nesses negcios obscuros a que fingia no ligar grande importncia. Tambm 
havia os casais encontrados no Hotel Nacional, no tempo em que estavam em Nova Orlee-*E ' 
finalmente, alguns dos funcionrios nomeados pelo governador Bullock. 
Era, assim ' dos mais heterogneos o meio em que Scarlett se movia nessa altura. Entre as suas 
novas relaes contavam-se os Gelerts que tinham vivido sucessivamente em doze Estados, 
dos'quas saram sempre  pressa, devido aos seus processos fraudulentos; os Conningtons, cuja 
ligao com a Agncia dos Forros dum Estado distante lhes permitira aumentar os cabedais, em 
prejuzo dos negros que eles pretendiam emancipar; os Deals, que tinham fornecido solas de carto 
ao governo confederado, at ao momento em que se viram na necessidade de passar na Europa o 
ltimo ano da guerra; os Hundons, arrematadores afortunados de contratos estaduais apesar das suas 
desavenas com a polcia de diferentes ldades; os Carahans, que.comearam. com uma casa de 
tavolagem para depois arriscarem somas enormes do Estado em empresas ferrovirias inexistentes; 
os Flahertys, que em 1861 compraram sal a um cntimo a libra e enriqueceram quando o sal, dois 
anos depois, valeu cinquenta cntimos; e os Barts, donos do bordei mais bem afreguesado da 
metrpole do Norte e frequentadores, ao Presente, da melhor sociedade dos Sacolas. 
Toda esta gente era agora da intimidade de Scarlett. Mas tambm entre os convidados das suas 
festas mais importantes figuravam indivduos de certa cultura e distinl> alguns de excelentes 
famlias. Alm da aristocracia dos Scolas, tinham vindo para Atlanta pessoas respeit- 
27 - Vento Levou - 11 417 
-0--- 
k@iIPI 
veis do Norte, -atradas pela actividade mercantil da cidade naquela poca de intensa reconstruo e 
expanso. As famlias Vankees mais abonadas enviavam os seus filhos para o Sul, na mira de 
conquistar novas fronteiras, e os oficiais yankees, depois de uma luta difcil para se insinuarem ali, 
acabavam por estabelecer em Atlanta a sua definitiva residncia. A princpio, estranhos numa 
cidade estranha todos aceitaram com alvoroo os convites da hospitaleira s@nhora Butler, mas 
depressa comearam a esquivar-se. No lhes foi preciso muito tempo para compreender o que 
valiam os Sacolas, e passaram a odi-los tanto como os odiavam os verdadeiros georgianos. Muitos 
deles tomaram-se Democrticos e mais sulistas que os prprios sulistas. 
Se alguns continuaram a frequentar os sales de Scarlett foi simplesmente porque ningum alm 
dela os queria receber. Gostariam muito mais das tranquilas salas da Velha Guarda, mas a Velha 
Guarda  que no queria nada com eles. Entre esses encontravam-se os professores yankees que 
tinham vindo para o Sul com o intuito de elevar o nvel intelectual dos pretos, e os Sacolas que, 
embora educados na tradio democrtica haviam ingressado no partido republicano depois da 
re@dio. 
Seria difcil dizer quais eram os mais detestados pelos antigos cidados, se os professores yankees 
#
se os Sacolas, mas talvez a balana pendesse para o lado destes. Dos professores ainda se podia 
dizer- cQue  que se esperava de yankees com a mania de proteger os pretos? n claro, julgam que os 
negros so como eles". Mas para os georgianos que se tinham tornado republicanos  que no havia 
desculpa nenhuma. 
Muitos ex-soldados da Confederao, por j conhecerem esse medo que domina os homens quando 
vem a famlia na misria, mostravam-se mais tolerantes para com os antigos camaradas que tinham 
passado para o partido contrrio a fim de que os parentes no morressem de fome. Mas as mulheres 
da Velha Guarda mantinham-se implacveis. Ainda amavam mais a Causa depois de perdida do que 
no apogeu da sua glria. Consideravam sagrado tudo o que se relacionasse com ela: as sepulturas 
dos militares confederados, os campos de batalha, os veteranos, as bandeiras em farrapos os sabres 
em exibio nos vestbulos, as cartas j amareladas expedidas da rea de combate... 
418 
as mulheres eram impiedosas para os antigos inimigos, e Scarlett estava agora entre os inimigos. 
Nessa sociedade de elementos discordantes reunidos pelas exigncias da situao poltica, s uma 
coisa existia de comum: o dinheiro. Como a maioria nunca possura antes da guerra mais de vinte e 
cinco dlares, todos se lanavam numa orgia de despesas como Atlanta nunca vira. 
Com a subida dos Republicanos ao poder, a cidade entrou numa fase de prodigalidade e de 
ostentao cujos requintes no conseguiam esconder a vulgaridade e o vcio. Jamais o clivo dos 
muito ricos e muito, pobres fora to acen- tuado. Os que ocupavam o lugar mais alto, pouco se 
importavam com os menos af ortunados - exceptuando os pretos,  claro. Nada era bom demais para 
eles. Tinham os melhores colgios os melhores alojamentos, as roupas mais confortveis, o@ 
espectculos de maior categoria. Porque eles representavam a fora poltica e o voto de cada negro 
era contado. Em compensao, poderiam morrer de fome es, habitantes de Atlanta empobrecidos 
pela guerra que os Republicanos endinheirados no levantariam um dedo, para os auxiliar. 
Recm-casada, bonita e provocante nos seus trajes luxuosos, bem amparada pelo dinheiro de Rhett, 
Scarlett vogava na crista daquela onda de vulgaridade. Era uma poca que vinha ao encontro dos 
seus gostos: grossaria e arrogncia, mulheres aparamentadas como dolos casas luxuosas' muitas 
jias, muitos cavalos, muitas i@arias, muito whisky. Quando por acaso se detinha a reflectir, 
Scarlett chegava  concluso de que, segundo as normas de Ellen, nenhuma das suas novas amigas 
era verdadeira senhora de sociedade. Mas, desde o dia longnquo em que, na sala de Tara, decidira 
ser amante de Rbett, infringira muitas vezes as normas de Ellen para que isso agora lhe pesasse na 
conscincia. 
Talvez que os recentes conhecimentos no fossem de facto pessoas muito finas mas, tal como os 
amigos de Rhett em Nova Orlees, era@n bastante divertidas. Muito mais do que as criaturas com 
quem convivia noutro tempo em Atlanta, que passavam a vida na igreja e a ler Shakespeare. 
Exceptuando o breve intervalo da sua lua-demel, nunca Scarlett se divertira tanto. Nunca, tambm, 
experimentara tamanha impresso de segurana. Agora sentia-se ao abrigo de todos os perigos e s 
pensava em 
419 
danar, em jogar, em comer. e beber bem, em enfeitar-se com sedas e cetins, em espojar-se em 
camas e sofs estofados de penas. E tudo isso ela fazia. Animada pela tolerncia de Rhett livre de 
todos, de todas as restries da infncia, livre tambm do medo de recair na pobreza, Scarlett 
permitia-se o luxo com que sempre sonhara: s fazer aquilo que lhe apetecesse e mandar passear os 
que no lhe agradassem, 
Experimentava a agradvel intoxicao prpria desses cuja existncia  um deliberado insulto  face 
da sociedade organizada: a sensao do jogador do vigarista, do aventureiro, de todos os que 
vencem @ custa de expedientes habilidosos. Ela dizia e fazia exactamente o que era da sua vontade 
e, quase dum dia para outro, a sua insolncia no conheceu limites. 
No hesitava em tratar com arrogncia os novos amigos Republicanos e Renegados ' mas a, sua 
falta de consi- derao era ainda maior para com os oficiais yankees daguarnio de Atlanta e 
respectivas famlias. Entre as pessoas que compunham a massa heterognea que se espalhou ria 
#
cidade, s a esses militares  que ela fechou por completo as portas da sua e-asa. Melanie no era a 
nica incapaz de esquecer o que significava uma farda azul. Para Scarlett, esse uniforme e os botes 
dourados simbolizavam sempre o pavor do cerco, o terror do combate o saque e o incndio, a 
pobreza desesperada e.o trab1h@ extenuante em Tara. Agora que era rica e estava certa da 
amizade do governador e de vrios Republicanos influentes, podia insultar todas as fardas azuis que 
se lhe deparassem. E insultava. 
Rhett, uma vez 'fez-lhe notar com ar indiferente que a maior parte dos homens que ela recebia 
usara pouco tempo antes o mesmo uniforme. Scarlett, porm, retorquiu que um yankee no parecia 
yankee desde que no andasse fardado. A isto, o marido s ripostou, com um encolher de ombros: 
- "Conformidade, s uma jia preciosa!" Como detestava. a cor que eles usavam, Scarlett sentia 
prazer especial em infligir-lhes toda a espcie de afrontas, o que oc deixava admirados. E tinham 
razo em se admirar de semelhante tratamento, pois quase todos os oficiais eram rapazes tranquilos 
e bem educados que se sentiam sozinhos num pas hostil, desejavam regressar ao Norte 
420 
e tinham certa vergonha da canalha que se viam obrigados a apoiar. Enfim, pertenciam a um meio 
muito mais elevado que o das pessoas com quem Searlett se dava. As esposas dos oficiais 
espantavam-se que a elegante senhora Butler convivesse com mulheres to ordinrias, como a ruiva 
Bridget Flaherty, e a elas mostrasse o maior desprezo. 
Mas at as mulheres com quem Scarlett convivia sofriam as suas impertinncias. No entanto, tudo 
suportavam com boa disposio. Scarlett no s representava a riqueza e a elegncia, como 
tambm o antigo regime, com os seus nomes antigos as suas famlias antigas e as suas tradies. As 
damas d@ nova aristocracia ignoravam que a velha aristocracia pusera Scarlett de parte. Sabiam 
apenas que o pai de Scarlett possura muitos escravos, que a me era uma Robillard, de Savarinali, e 
que o marido se ch-amava Rhett Butler e nasceTa em Charleston. E isto bastava-lhes. Searlett era 
para elas a primeira cunha que metiam nessa sociedade em que tanto ambicionavam entrar, 
sociedade constituda por pessoas que as desprezavam, que no lhes retribuam as visitas e que mal 
as cumprimentavam na igreja. Mas Scarlett, ainda era mais do que isso. Para aquelas criaturas de 
baixa extraco, ela eraa sociedade. Senhoras feitas  pressa, no viam o que existia de falso na sua 
maneira de proceder. Mediam-na pela sua bitola e aceitavam-lhe de boa vontade os grandes axes, 
<>9 amuos, os acessos de clera a arrogncia a grossaria e a franqueza brutal com que @ssinalava 
ea& erro cometido por ignorncia. 
Tinham sado do nada havia to pouco tempo, estavam to pouco seguras de si mesmas e 
empenhavam-se tanto em parecer senhoras finas que nem ousavam ripostar, com receio de mostrar 
falta de educao. Era preciso, custasse o que custasse, que as, considerassem damas bem nascidas. 
Fingiam ser delicadas, 'modestas, inocentes. Quem as ouvisse falar julgaria que se tratava de pobres 
aleijadinhas sem pernas, que no cumpriam uma s funo natural e ignoravam tudo o que havia de 
mau neste mundo. Ningum imaginaria que Bridget Flaherty, com a sua pele de brancura imaculada 
e o seu pronunciado sotaque irlands, tivesse roubado as enonomias do pai a fim de vir como criada 
de quarto para um hotel de Nova lorque.- Ao observar Silvia Connington (outrora Sadie Belle) e 
Mamie Bart, 
421 
a ningum passaria pela cabea que aquela morara num quarto contguo  taberna do pai, no bairro 
de Bowery, e que servira os fregueses em dias de maior @afluncia; nem que a outra, segundo 
diziam, escoffiera para marido um dos clientes que frequentavam o bordel de que ela era 
proprietria. No, todas essas criaturas eram agora pessoas de modos delicados e comedidos. 
Os homens se bem que tivessem conseguido enriquecer., aprendai@ com menos facilidades as 
boas maneiras ou no se submetiam com tanta pacincia s exigncias da sua nova posio social. 
Bebiam  bruta nas, recepes de Scarlett, e quase sempre havia um ou outro que tinha de ficar ali a 
dormir. No bebiam como os homens que Scarlett conhecera em rapariga. A embriaguez torna~ vaos 
estpidos, gnbeis de ver obscenos. E por muitas escarradeiras que Scarlett manda@se pr no 
salo, os tapetes apareciam sempre sujos de euspidelas na manh seguinte. ,Scarlett desprezava toda 
#
aquela gente; mas, como a distraam, abra-lhes a porta de par em par. E, porque despre~ zava 
semelhantes entes mandava-os para o diabo sempre que a maavam. No entanto, eles continuavam a 
suportar-lhes os acessos de mau humor. 
At suportavam Rhett, o que lhes parecia muito mais difcil, pois Rhett conhecia-os  lgua e eles 
sabiam disso. No hesitava em desnud-los verbalmente, na sua prpria casa e sempre duma 
maneira que no admitia rplica. Rhett no se envergonhava da forma como enriquecera e, fingindo 
crer que os outros tambm no se sentiam vexados com as manigncias que lhes proporcionaram 
dinheiro, nunca perdia a, ocasio de aludir a coisas que, de comum acordo, cada qual achava 
prefervel deixar mais ou menos ocultas. 
Nunca ningum sabia se ele, a meio dum ponche, faria ou no qualquer observao deste gnero: 
"Muito bem, BilI, j sei que tem mais uma parelha de cavalos. Tornou a vender mais uns milhares 
de aces de caminhos de ferro inexistentes? Bom trabalho, meu rapaz!" "Ralph, se eu fosse esperto 
como voc tinha-me dedicado a explorar vivas e rfos em vez de' forar o bloqueio. Era muito 
mais seguro". "Parabns Amos, por ter apanhado aquela empreitada do Estado. Pena foi ver-se 
obrigado a untar tantas patas para a conseguir!" 
As senhoras a-chavam-no odioso e ordinrio. Os cava- 
422 
lheiros diziam, nas costas dele, que era um pulha, um velhaco. Em suma, os novos cidados de 
Atlanta no tin,ham mais simpatia por Bufler do que os antigos, @D ele importava-se tanto atrair as 
boas graas desses como se importara atrair as dos outros. Prosseguira o seu caminho; divertido, 
desdenhoso, indiferente  opinio dos que ? rodeavam, e to corts que a sua prpria cortesia era, 
insultuosa. Para Scarlett, Rhett continuava a ser um enigma, mas um enigma que ela nem se dava ao 
trabalho de decifrar. Estava convencida de que nada lhe agradava nem lhe causava prazer; ou ele 
desejara ardentemente alguma coisa que no consegdra obter, ou ento nunca desejara, nada e por 
isso tudo lhe era indiferente. Ria^se de tudo quanto a mulher fazia, animava as suas extravagncias 
e insolncias, troava. das suas pretenses... e pagava, as contas. 
50 
RHETT nunca deixava os seus modos corteses imperturbveis, nem sequer nos momentos de maior 
intimidade. Mas Scarlett, tinha a impresso de que ele continuava a observ-Ia e sabia que se 
voltasse de sbito a cabea lhe surpreenderia o olhr inquiridor e meditativo, aquele olhar de 
resignao terrvel cuja significao no atingia. 
s vezes, Rhett mostrava-se bastante acomodatcio, apesar da sua aborrecida mania de no 
conseguir que ningum na sua presena empregasse mentiras, subterfgios ou bravatas. Ouvia a 
mulher discorrer acerca do armazm, das estncias de madeira, do botequim, dos grilhetas e de 
quanto custava aliment-los 'e dava-lhe sempre conselhos judiciosos. Era infatigvel como par 
danante e acompanhava Searlett a todas as festas em cuja comparncia ela fazia empenho; mas se 
ficavam em casa, entretinha-a depois de levantarem a mesa; e quando estavam sozinhos a tomar 
caf e licores, contava-lhe histrias escabrosas. Assim, pensava ela que o marido lhe satisfazia 
todos os desejos uma vez que fossem manifestados com franqueza e que recusaria o que lhe 
sugerisse por meios astuciosos. Se tinha o mau sestro de lhe adivinhar os pensamentos e, depois 
'rir-lhe na cara! 
Magicando na suave indiferena que ele em geral lhe testemunhava, Scarlett no deixava de ficar 
intrigada, sem 
423 
ANatinar 
com o motivo que o levara ao casamento. Os homens casam ou por amor ou por dinheiro, ou 
para ter filhos e um lar! Rhett no o fizera, com certeza, por nenhuma dessas coisas. No a amava, 
referia-se  casa nova como se se tratasse dum monstro arquitectnico e at dizia achar prefervel 
viver num hotel do que em semelhante moradia. Jamais aludira a crianas, como tinham feito 
Charles e Frank. At que uma vez, em ar de brincadeira, ela lhe perguntou por que motivo a pedira 
em casamento. A resposta f-la enfurecer: "Casei contigo para ter um animalzinho de estimao". 
#
No, ele no a desposara por nenhuma das razes que levam os outros homens a dar esse passo. 
Casara com ela porque a, desejara fisicamente e era s essa a forma de a obter. Assim o confessara 
na noite em que lhe fizera a proposta. Desejara-a como tinha desejado Belle Watling, e pensar nisso 
no lisonjeava ningum: chegava at a ser ofensivo. Ela, porm, ps de lado essa ideia, como punha 
de lado todas as que no lhe agradavam disposta a aceitar apenas o lado bom dos factos. Contava, 
6mbm que Rhett; estivesse satisfeito, se bem que isso, no fundo, a no preocupasse em demasia. 
Uma tarde tendo ido consultar o Dr. Meade por causa de qualquer @erturbao gstrica, veio a 
saber uma coisa que j no era daquelas que se resolviam com um simples encolher de ombros. Foi 
at com um olhar de dio que ela entrou, ao anoitecer, no quarto e anunciou ao marido que ia ter 
uma criana. Rhett estava reclinado vestido com o seu roupo de seda e parecia meditar @o meio 
duma nuvem de fumo. Lodo que ela comeou a falar, fitou-a de maneira perscrutante, sem todavia 
dizer fosse o que fosse: observava-a em silncio cheio de ansiedade, esperando a continuao do 
discurso.' Scarlett, sem dar por isso, expandia-se em frases de indignao e desespero: 
- Bem sabes que eu no quero mais crianas! Nunca as desejei. Sempre que as coisas comeam a 
correr bem, acontece-me uma destas! No estejas a a rir, muito sossegado. Tu tambm no querias. 
Oh, Virgem Santa! 
Rhett bebia~lhe as palavras e no eram essas as que ele gostaria de sentir. 0 rost@ endureceu-se-lhe 
de leve, o olhar tornou-se estranho. 
- Ento ' por que no o entregaremos ao cuidado da MeIly? No me disseste que ela ansiava por 
outro filho? 
424 
- Apetecia-me matar-te. 0 que te digo  que no o terei. Disso podes estar certo. 
- Ah, sim?! Continua. 
- H processos... J no sou a parvinha provinciana doutro tempo, Sei agora que as mulheres que 
no desejam ter filhos no os tm! 
Ele pusera,se de p. Agarrou-a pelo pulso, com uma expresso angustiada na cara. 
- Scarlett' conta-me tudo. No fizeste nada, hem?. 
- No, mas hei-de fazer. Pensas que consentirei ver-me outra vez deformada, precisamente quando 
estou a ficar de novo com a cintura fina, e com tantos divertimentos em perspectiva... 
-Quem te meteu isso, na cabea? 
A senhora Bart. Diz ela... A que tinha um bordel! No me admira que esteja ao facto dessas 
manobras. Pois o que te afirmo  que essa dama no torna a pr os ps em minha casa. Aqui mando 
eu, no fim de contas. Nem consinto que se fale mais dessa criatura na minha presena. 
- Larga-me! Hei-de fazer o que quiser. Que tens com isso? 
- No me interessa ter um ou vinte filhos. 0 que no quero  que morras. 
- Eu? 
- Sim, tu. A senhora Bart naturalmente no te informou sobre os perigos a que se expe uma 
pessoa:- que faz isso... 
- No -confessou Scarlett, de m vontade. - D~nie s que ficaria perfeita. 
- Eu mato essa criatura! -bradou Rhett, vermelho de raiva. Baixou o olhar sobre as faces da mulher, 
onde luziam lgrimas, e a clera afrouxou. D repente pegou-a ao colo e sentGu-se, conservando-a 
muito unida a si, como se tivesse medo de que ela lhe fugisse. 
- Escuta, minha. querida no quero que brinques com a tua sade. Ouviste? Meu Deus, eu tambm 
no desejava filhos, mas, enfim, tenho dinheiro para os sustentar. Acaba-me com esses disparates, 
porque -ge te atrevesses... Ouve, Scarlett eu conheci uma rapariga que morreu dessa maneira. No 
@assava duma... enfim, mas era boa pequena. n uma coisa terrvel. Eu... 
Quem era, Rhett? Onde foi isso? - exelaniou ela. 
425 
sobressaltada, pelo tom de voz do marido. Nunca o vira to impressionado@ 
- Em Nova Orlees h muitos anos. Eu era novo e muito sensvel. - Curv@u a cabea e beijau-lhe 
os cabelos. -Ters a criana, Searlett,4nem que seja preciso algemar-te durante nove meses. 
#
Ela continuou no colo, dele, mirando-o com estranha -curiosidade. Depois do olhar esgazeado que 
lhe deitara, Rhett mostrava um sorrisr>, que se diria obtido por milagre. 
- Gostas assim tanto da tua mulher? - perguntou Scarlett, baixando as plpebras, 
Rhett ficou a contempl-la uns momentos, como se quioesse avaliar a dose de manha feminina que 
havia debaixo daquela pergunta. Depois de ter depreendido que existia sinceridade nas palavra,9 da 
mulher, respondeu com ar indiferente: 
- Sim... CDmpreendes o meu caso.--- Arrisquei em ti um bom capital e no quero que o dinheiro se 
me v por gua a-baixo. 
Melanie saiu do quarto de Scarlett 'cansada do esforo dispendido mas chorando de alegria pelo 
nascimento da filha dos iutlers. Rhett encontrava-se no vestbulo muito nervoso, rodeado de 
pontas de charuto, que j, haviam feito buracos no tapete. 
-Pode entrar agora, capito -disse ela timidamente. Rhett precpitou-se para o aposento, e antes que 
o Dr. Meade fechasse a porta, Melanie pde -@er aquele pai ansioso curvar-se sobre o corpinho nu 
da criana, que a Bab segurava ao colo E ento comovida por ter sido testemunha involuntria 
daque1 cena Intima, Melanie deixou-se afundar numa poltrona. 
"Ah! - murmurou - que bela coisal Como o ca ito, estava aflito, coitado! E no tomou uma nica 
bSida, durante todo este tempo. H pais que esto completamente bbados quando lhes nascem os 
filhos. Se eu lhe oferecesse, ou sugerisse... No, seria grande atrevimento". 
Aninhou-se mais na poltrona, com a impresso de que as costas se lhe partiam, pelos rins tantas 
eram as dores que ultimamente sentia. Que feliciade para Scarlett ter o marido ali  porta, naquele 
transe! Se, ao menos, AshIcy estivesse presente no pavor~-Oia em que Beau veio ao 
426 
mundo! No teria, decerto sofrido tanto. E se essa criancnha acabada de nascer f@sse sua em vez 
de !@er de Scarlett! "Sou to m!" pensou, sentndo-se culpada. "Estou a cobiar-lhe a filha e ela, 
tem sido to boa para mim! Perdoai-me, Senhor! Eu realmente no queria a filha de Scarlett... mas 
uma que fosse da minha carne e do meu sangue". 
Colocou um coxim. atrs das costas doridas e ficou imaginando no prazer que lhe causaria o 
nascimento duma filha. Mas o Dr. Meade mantinha a mesma opinio a esse respeito. E, embora ela 
estivesse resolvida a arriscar-se pela vinda doutra criana, Ashley recusava-se terminantemente a 
colaborar nessa infraco. Uma filha! Como Ashley gostaria duma filha, como a encheria de 
mimos! 
De repente, lembrou-se de que nem dissera a ButIer que se tratava duma menina. E decerto ele 
contava com um rapaz... Iria ter uma. decepo? 
Melanie sabia que, para as mes, tanto faz que seja rapaz ou rapariga a criana que nasce. Mas, para 
um homem, e em especial um homem autoritrio como o capito Butler, uma filha devia constituir 
um golpe, um atentado  sua virilidade. Ah, ainda bem que o seu nico filho era um rapaz! E 
pensou que ' se fosse mulher do temvel Butler, teria preferido morrer a presente-lo com uma 
menina, como pTimognito do casal. 
No entanto; Bab, saindo do quarto toda sorridente e vaidosa, veio apaziguar-lhe os receios e ao 
mesmo tempo incit-la a reflectir na espcie de homem que seria na realidade o capito Butler. 
- Quando estava a banh minina - contou Bab comecei quase a pidi desculpa a sinh de sua filha 
no s rapaz, e sabe qui  que ele disse? Disse assim: "Cala a boca, Bab. Quem qu rapaz? Rapaz 
no tem graa, d muito desgosto. Rapariga, sim,  engraado. No trocava esta filha por doze 
rap,az". Ento quis peg em minina nua como estava, e eu dei palmada em sua mo e disse: "Espere 
tempo, sinh Rhett, e h-de v quando tv filho! Vou escangalh a ri quando ouvi sinh grit de 
alegria"@ Abanou a cabea, a ri, e disse assim: "Vossemec  tonta, Bab. Rapaz no presta p'ra 
nada. No est a v a mim? Que melh prova?" Ah, sinhora Melly nisto ele foi verdadeiro sinh - 
reconheceu a ama, s; relutncia. 
427 
L(kui- 
No escapou a Melanie que o procedimento de Rhett contribura para o redimir aos olhos da velha 
#
preta. 
-Talvez tivesse enganada a respeito de sinh Rhett 
- cencluiu Bab. -Dia hoje foi feliz para mim. J liguei com faixa trs geraes de minina Robillard. 
Belo dia para mim. 
- Sim, belo dia, Bab. Os dias mais lindos so aqueles em que nascem crianas. 
Havia, contudo algum em casa para quem o dia no era muito belo. l@epreendido por toda a gente 
e depois abandonado  sua sorte, Wade vagueava tristemente na sala de jantar. De manh cedo, 
Bab acordara-o em sobressalto, vestira-o  pressa e mandara-o com a irm tomar o primeiro 
almoo em casa da tia Pitty, s suas perguntas, s lhe responderam que a me estava doente e que o 
barulho das brincadeiras podia incomod-la. Na casa da tia Pitty havia grande confuso. Ao saber o 
que acontecia a Scarlett, a velhota ficara em tal estado de nervos que tivera de recolher  cama e 
obrigara a criada a postar-se4he,  cabeceira, De modo que o primeiro almoo servido s crianas 
foi uma escassa refeio improvisada pelo velho Peter. Conforme avanava a manh, o receio 
comeou a invadir a alma de Wade. "E se a mam morre?" A outros meninos tinha morrido a me. 
Ele vira os caixes sair de casa e ouvira o choro dos seus amiguinhos. "E se a mam morre?" Wade 
gostava muito da me, quase tanto como a temia; e,  ideia de que ela podia ir-se embora num carro 
preto puxado por cavalos com penachos, sentiu tal aperto no corao que mal pde respirar. 
Quando soou meio-dia, Wade, aproveitando a ocasio em que Peter estava na cozinha,. entreabriu a 
porta da entrada e esgueirou-se para casa to depressa quanto lhe permitiam as pernitas curtas. 0 tio 
Rhett, a tia Melly ou a Bab haviam de lhe dizer a verdade. Por infelicidade, o tio Rhett e a tia 
Melly estavam invisveis. Quanto a Bab e a Dilcey, corriam 'abaixo e acima na escada de servio, 
com toalhas e bacias cheias de gua quente sem sequer reparar nele. No vestbulo onde se 
encontrav@, ouvia a voz do Dr. Meade de cada vez que se abria e fechava uma porta do primeiro 
andar. A certa altura ouvindo a me gemer, desatou a chorar, com soluos @onvulsivos. Sabia que 
ela ia morrer. Para se consolar, quis fazer festas ao gato cor de mel que dormitava ao sol no peitoril 
da janela. Mas 
428 
o Pom, que j era velho e no gostava de ser perturbado, agitou a cauda e bufou em sinal de 
protesto. 
Finalmente a Bab, ao descer a escada principal, com a trunfa  banda e o avental amarrotado e 
cheio de ndoas, viu o pequeno no vestbulo e franziu as sobrancelhas. A -ama fora sempre o 
refgio de Wade, e por isso ele tremeu quando a viu de sobrolho carregado. 
-Minino  muito desobediente -disse a velha preta. -No mandei para casa de sua tia Pitty? Por 
que voltou c? 
- A mam vai... morrer? 
- Nunca vi minino mais tonto! Morr? Qual morr!, Deus d a mim pacincia para atur rapaz. No 
sei para que Nosso Sinh d filho  gente em vez de filha. Rapaz so insuportaves. Vamos, saia de 
meu caminho. 
Mas Wade no se retirou. Meio convencido pelas palavras de Bab, refugiou-se atrs da Porta do 
vestbulo, Magoara-o deveras a observao da a-ma a respeito dos rapazes, pois sempre se esforara 
por ser o melhor possvel. Meia hora depois, Melly desceu por sua vez a escada. Estava plida, com 
ar de cansada mas vinha sorridente. Pareceu aterrada ao ver surgir entre as pregas do reposteiro a 
facezita triste do sobrinho. Em geral a tia MeIly acolhia-o de braos abertos. Nunca fazia corno a 
me, que muitas vezes lhe dizia: "No me maces agora estou com pressa". Ou ento: "Safa-te. 
Tenho que faze@". Contudo, nesse dia observou-lhe com ar zangado-. 
-Wae ests a ser muito mauzinho. Por que no ficaste em 6sa da tia Pitty? 
-A mani vai morrer? -Que ideia filho! No sejas tonto.-E acrescentou, mais meiga: -  Dr, Meade 
acaba de lhe trazer uma linda menina, uma irmzinha para ti, com quem hs-de brincar. Se fores 
bem comportado poders v-Ia esta noite. Agora, gira daqui e no faas b@rulho. 
Wade escapuliu-se para a casa de jantar, que, estava silenciosa. 0 seu 1,@niverso desmoronava-se, 
nada lhe parecia j seguro. No haveria lugar para um triste rapazinho de sete anos, naquela manh 
#
de sol em que as pessoas crescidas procediam de modo to estranho? Sentou-se no 
poial da janela e arrancou uma folha de planta que crescia num caixote, do lado de fora. Ps-se a 
mordisc-la mas aquilo soube-lhe tanto a pimenta que o pequeno 'ficou 
429 
tom lgrimas nos olhos. Tornou a lembrar-se da me, que decerto ia morrer. Ningum se importava 
com ele, todos se ocupavam da menina acabada de chegar... Wade no se interessava muito por 
crianas e muito menos do sexo feminino. A nica que conhecia li@timamente era Ella, que at 
essa ocasio nada fizera para lhe impor estima, ou res@peito. 
Depois de longo intervalo, o Dr. Meade e Rhett desc@-_ ram a escada e ficaram no vestbulo a 
conversar em voz baixa. Em seguida saiu o primeira, a porta fechou-se, e o segundo entrou 
apressado na casa de jantar e, antes que desse pela presena do enteado, encheu um copo, at a 
bordas, duma bebida que estava numa garrafa. Wade recuou, pensando que lhe iam outra vez ralhar 
e dizer-lhe que voltasse para casa da tia Pitty. Mas, em vez disso, o padrasto sorriu. Wade nunca o 
vira sorrir assim nem mostrar-se to satisfeito, e, animado, saltou do poial e correu para ele. 
-Tens mais uma irm - declarou Rhett, apertando-o de encontro ao peito. -E a mais linda, criana 
que at6 hoje vil Mas por que choras? 
- A marn... -A mam est a jantar com apetite a comer galinha com arroz e molho, c-por cima caf 
sen@ falar no sorvete de creme. Se quiseres podes tam@m refastelar-te com dois pratos de 
sorvete.'Vou-te apresentar  mana... 
Aliviado com estes informes Wade, tratou de se mo&trar amvel a respeito daquela i@m, mas no 
o conseguiu. Ningum falava noutra coisa, ningum j se importava com ele, nem sequer a tia 
Melly ou o tio Rhett. 
-As pessoas gostam mais das meninas do que dos mennos? - perguntou o pequeno. 
Rhett posou o copo, olhou aquela facezinha infantil com multa ateno e compreendeu logo o que 
se passava. 
- No, no  bem assim - respondeu com ar srio, como se se tratasse dum problema importante. - 
As meninas do mais que fazer, e  por isso que a gente se ocupa mais delas. 
-A Bab disse ainda h pouco que os rapazes eram insuportveis. 
-A Bab estava distrada. Ela no queria dizer isso. 
- Tio Rhett gostava mais de ter um menino do que urna menina?-' indagou Wade, cheio de 
esperana, 
430 
3_. 
-No.-E, vendo' o rosto desanimado do pequeno, acrescentou: -Para que quero meninas, se j tenho 
um? 
-Tem?-exclamou Wade boquiaberto. -Onde  que est? 
-Est aqui mesmo- respondeu Rhett, pegando na criana e sentando-a nos joelhos. 
Por um momento, a sensao de felicidade foi to grande que Wade quase tornava a chorar. De 
garganta contrada, encostou a cabea ao peito de Rheit. 
- ,9 o meu menino 'no s? 
- Pode-se ter... dois paps? - perguntou Wade, debatendo-se entre a fidelidade ao pai que ele no 
chegara a conhecer e a amizade pelo homem que to bem o compreendia. 
- Pode-se, sim, senhor -declarou Rhett com firmeza. Assim como s o menina da tua me e da tia 
Mellv. Wade aceitou a explicao. Achando-a plausvel, sorriu e en,(.,olheu-se de encontro ao brao 
que o cingia. 
- 0 tio Rliett. percebe os rapazes pequenos, no percebe? 
A cara morena de Rhett tomou uma expresso sombria, e no canto da boca vineGu-se-lhe uma 
prega. 
- Sim, compreendo bem os rapazinhos - confirmou em tom amargo, 
Durante uns instantes, o medo voltou a dominar Wade, medo e repentino cime.  tio Rhett no 
estava a pensar nele, mas noutro qualquer. 
#
-Tem mais meninos? Rhett ps o pequeno no cho. -Vou beber qualquer coisa, Wade, e tu tambm 
vais. Ser o teu primeiro copo de vinho, em honra da tua nova, mana. 
-Tem mais... -ia insistir Wade mas, ao ver Rhett estender a mo para a garrafa de vnfio de Bordus, 
ficou to COMOVido Dor tomar parte naquela cerimnia de adultos que se esqueceu do que 
pretendia saber. -Ai, no, no posso, tio Rhett! Prometi  tia no beber seno depois de -sair da 
Universidade, e ela d-me um relgio se,eu no faltar  promessa. 
- E eu ofereo-te a corrente para o relgio. Esta que eu trago agora, se quiseres -volveu Rhett j 
sorrlente outra vez. -A tia, Melly tem muita razo. Vas referia-se a licores, no a vinho. Precisas de 
aprender a tomar vinho 
431 
como um senhor, e agora  ptima ocasio de comeares a aprender. . Rliett misturou gua, ao 
vinho at o lquido se tornar cor-de-rosa -e apresentou o copo a Wade. Nesse mesmo momento, 
ab entrou fi@a casa de jantar. Mudara de roupa e vinha ataviada com o, seu fato domingueiro. 0 
avental e a trunfa estavam impecveig. A cada passada ouvia-se o ruge-ruge de saias de seda. 
Desaparecera-lhe o ar carrancudo da cara e um largo sorriso descobra-lhe as gengivas quase 
desdentadas. 
- sua, sade, sinh Rhett!-exclamou logo de entrada. 
Wade deteve-se, com o copo  altura dos, lbios, Sabia que Bab nunca gostara do padrasto. Nunca 
a ouvira dizer seno "capito But14--r" e a sua atitude para com ele fora sempre fria. De repent@, 
ei-la a arvorar o mais amvel dos sorrisos, a proferir gracinhas e a trat-lo por "sinh Rhett"! Que 
dia to extraordinrio! 
-Calculo que prefira rum ao, claretc-disse Rhett, abrindo a frasqueira e tirando dali uma garrafa 
atarracada. 
- n um lindo nen ' no  verdade, Bab? 
-Muito lindo-respondeu a preta, pegando no copo e dando um estlo com a lngua. 
- J viu menina mais bonta? 
- Minina Scarlett quando nasceu tambm s bonita, mas no tanto. 
-Tome outro, copo, Bab. Explique-me uma coisa, - 
acrescentou em tom severo, mas de olhos risonhos. Que  esta farfalhada que estou a ouvir? 
- Saiba snh Rhett que  meu saiote de " encar-nada. 
E a Bab ps-se a rir de tal maneira que o corpo enorme se lhe agitou. 
-0 seu saiote? No acredito. Faz tanto barulho que at parece um monte de folhas secas a rodopiar 
com o vento. Deixe c ver. Levante a saia de fora. 
- Credo, sinh Rhett, isso s^_ muito feio! Bab deu um gritinho, afastou-se cerca dum metro e, com 
gesto pudico, arregaou o vestido alguns centmetros e mostrou o folho pregueado do saiote de 
tafet escarlate. 
-Levou tempo a us-lo -resmungou Rhett, mas com os olhos pretos a reluzir de malcia. 
- Sim, sinh, muito tdmpo. 
432 - 
Ento Rhett proferiu uma, frase que Wade no compreendeu. 
-Deixou de haver mula com arreio de cavalo? -Oh, sinh Rhett! Minina Scarlett teve maldade de 
cont isso? Sinh no ficou a quer mal  velha nga? 
-No sou rancoroso. Se fiz a pergunta foi s para saber... Vai outro copo, Bab? Despeje a. garrafa 
toda. E tu, Wade, bebe! Faz um brinde. 
- sade da mana! - exclamou Wade, e tomou o vinho num trago. Engasgou-se tossiu, ficou com 
soluoe, enquanto os outros dois, s g@rgalhadas, lhe batiam nao castas. 
A partir do dia em que a filha nasceu, o procedimento de Rhett intrigou muita gente e abalou certas 
opinies a seu respeito. Quem acreditaria que um ente como ele se mostraria to contente por ser 
pai, em especial quando o primognito no era, do sexo masculino? 
E o tempo no afrouxava a sua alegria, o que provocava certa inveja nas senhoras cujos maridos se 
desinteressavam dos filhos muito tempo antes de estes serem baptizado.s. Rhett detinha todos os 
#
homens na@ rua ' agarrava-os pelas bandas do casaco e conta@va-lhes por mido os 
extraordinrios progressos da sua menina, sem sequer se dar ao trabalho de prefaciar o relato com 
uma frase de@te gnero: "Bem, sei que todos os pais acham os filhos prodigiosos, mas,..." 
Considerava a filha um ser extraordinrio, muito diferente das outras crianas, e dizia-o sem rebuo. 
Quando a, nova ama deixou a pequenita chuchar num pedao de toucinho, o que causou (> primeiro 
ataque de clicas a atitude de Rhett fez rir todos os pais e mes de Atlant@. Mandou chamar  
pressa o Dr. Meade e mais outros dois mdicos, e s com grande dificuldade o impediram de 
chicotear a pobre mulher. A ama foi despedida, e da por diante houve uma srie de amas que no 
permaneciam ali mais de uma semana. Nenhuma delas era capaz de cumprir exactamente as regras 
estabelecidas por Butler. 
Por seu lado, Bab no via com bons olhos as amas que se eucediam na casa, pois tinha cimes de 
todas as pretas estranhas  famlia e achava que podia, ocupar-se da mida assim como se ocupava 
de Wade e de Ella. Mas Bab j se ressentia dos an@s, e o reumatismo no- a deixava andar ligeira, 
Rhett no tinha coragem de explicar 
28 - Vento Levou - rI 
433 
as razes por que pretendia outra ama. Em vez disso, demonstrou-lhe que um homem da sua 
posio social no devia ter s uma aia para as crianas. A desculpa no pegou. Ento, Rhett 
anunciou que ia tomar duas criadas para os servios mais pesados e que Bab passaria a governanta. 
A ideia agradou  velha preta. Ter vrias pessoas sob as suas ordens dava-lhe certo prestgio. 
Contudo, declarou com energia que no deixaria entrar negrog forras no quarto das crianas. 
Perante isto Rhett mandou buscar Prissy a Tara, Conhecia-lhe os defeitos, mas ao menos, era da 
famlia. Para completar o pem)al Pete@ apresentou a Rhett a sobrinha, uma preta muito alt@, que 
se chamava Lou e pertencera a uma prima de Pitty Burr. 
Antes de completamente restabelecida do parto, Scarlett percebeu o interesse que Rhett dedicava  
filha e ficou um tanto constrangida pelas demonstraes de afecto paternal feitas em presena das, 
visitas. Estava bem que um pai gostasse da sua vergntea, mas Scarlett achava excessiva as, 
manifestaes de Rhett; devia fazer como, os outros homens, que fingiam sentir certa indiferena. 
-Ests a tornar-te ridculo-disse ela em tom irritado.-No compreendo realmente porqu... 
- No? Da tua parte no admira. Mas a razo a a tens;  a primeira pessoa que me pertence 
inteiramente. 
-Ela tambm  minha! -Tens dois outros filhos. Esta  minha filha. 
- Ora essa! Quem a deu  luz fui eu, no fui? E, demais, tambm eu te perteno... 
Rhett olhou por cima; da cabea escura da pequena e esboou um sorriso singular. 
- Pertences-me, minha querida Scarlett? A entrada de Melanie ps fim a uma dessas querelas breves 
e violentas que nessa poca to facilmente explodiam entre os dois @sposos. Scarlett engoliu em 
seco e Melanie pegou na criana, Tinham resolvido chamar a esta Eugenie Victoria, mas, naquela 
tarde, Melly deu-lhe, sem querer, um nome que lhe ficou para sempre e fez esquecer aquele - como 
Pittypat apagou por completo o de Sarah Jane. 
Curvado sobre a petiza, Rhett anunciara: 
- Os olhos vo-se tornar verdes dum verde ervilha. 
- Isso  que no - retorquiu Meanie, indignada, sem se lembrar que eram quase assim os da me. @ 
Vo ser 
434 
azuis, como os do senhor O'Hara,, azuis como... a linda bandeira azul ("). 
- Bbnnie Blue Butler - proclamou o pai, rindo. E, pegando por sua vez na criana, observou-lhe os 
olhos de perto. 
Deste modc> ficou a pequena conhecida por Bonnie, e os prprios pais chegaram a esquecer-se de 
que ela tinha dois outros nomes, esses verdadeiros, inspirados em duas rainhas. 
51 
QUANDO Scarlett, por fim, teve ordem de se levantar, pediu a Lou que lhe atasse o espartilho to 
#
apertado quanto pudesse. Em seguida mediu a cintura. "Vinte polegadas! -exclamou, furiosa.-C 
est a consequncia de ter filhos". Ficara, pois, to grossa como a,tia Pitty, ou como a Bab. 
-Aperta mais Lou. V se consegues que sejam s dezoito polegadas @ meia. Doutra maneira no 
posso usar os meus vestidos. 
- Vai rebent atilho - preveniu Lou. - Cintura de sinhora est mais forte no se pod faz nada. 
"H uma coisa a faz@r"I pensou Scarlett, abrindo freneticamente as costuras do vestido a fim de 
obter maior largura. "Agora  que no quero mais crianas". 
n claro que Bormie era bonita e fazia honra  me, e que Rhett a adorava,; mas Se-arlett no 
desejava mais filhos. Como consegui-lo? No podia manejar Rhett como o fizera com Frank, 0 
marido no a receava ' e ela ver-se-ia em grandes apuros se, quisesse levar por diante a sua 
resoluo, a. julgar pela forma como Rhett mimava Bonnie. Havia de querer um filho no ano 
seguinte... No, ela no lho daria. Nem raparigas, nem rapazes. Trs filhos eram suficien@es para 
uma mulher. 
Depois de Lou ter recosido as costuras e ajudado a> patroa a abotoar o vestido, Scarlett mandou 
preparar o trem e seguiu para a estncia de madeiras. Voltara-lhe o bom humor. J no, pensava na 
esbelteza de cintura e s a preocupava a ideia de que se ia encontrar com AshIey 
(1) "Bonnie Blue Plag", a bandeira da Confederao. 
435 
011 
a fim de ambos verificarem os livros de contas. Se tivesse sorte, podia falar-lhe a ss. No o via h 
muito tempo, desde que a sua gravidez se tornara evidente em demasia. No quisera aparecer-lhe 
naquele estado, mas tivera saudades do convvio dirio, com Astiley, assim como, sentira saudades 
das idas s serraes e da sua actividade comercial. ]@ claro que no precisava agora de trabalhar. 
Podia vender o negcio e depositar o dinheiro em nome de Wade e de Ella; mas, se o fizesse, ficaria 
condenada, a nunca mais ver Ashley seno em reunies mundanas. E a sua maior alegria era 
trabalhar ao lado de Ashley. 
Ao chegar  estncia, notou com satisfao a altura das rimas de madeira e a quantidade de clientes 
que estavam a falar com Hugh Elsing. Vrios pretos carregavam meia dzia de carroas, cada qual 
puxada por duas mulas. "Seis parelhas", pensou Scarlett com orgulho. "E tudo isto  obra minha!" 
De olhos brilhantes pela alegria de a tornar a ver, Ashley apareceu  porta do escritrio, ajudou-a a 
apear-se da carruagem e f-la entrar como se fosse uma rainha. 
Mas a satisfao de Scarlett diminuiu bastante quando ela percorreu com a vista os livros de Asliley 
e os comparou com os de Johnnie Gallegher. Nas contas de Ashley os lucros quase no 
compensavam as despesas, ao passo que Johnnie tinha uma bonita soma no haver. Scarlett no fez 
observaes, mas Asliley reparou-lhe na expresso de descoro oam ento. 
- Scarlett, lastimo muito. Tudo o que posso dizer  que gostava muito mais de ter sob as minhas 
ordens escravos libertos do que presidirios. Tenho a impresso de que me sairia melhor. _ Pretos! 
Mas isso seria a nossa runa! Os forados custam-nos barato. Pois se Johnnie conseguiu com eles... 
Os olhos de Asliley fitaram um ponto longnquo, j sem a alegria que os iluminava. 
- Sou incapaz de obrigar a trabalhar presidirios, como faz Johnnie Gallegher. 
-Santo Deus! 0 que tem  um corao bom demais, Astiley. Devia obter mais trabalho dessa gente. 
Disse-me Johnnie que, sempre que qualquer grilheta mandrio participa que est doente, voc lhe 
concede um dia de descanso. Assim no h possibilidade de ganhar dinheiro, 
436 
Ashley! Uma boa tareia cura a maior parte das doenas, com excepo de pernas quebradas... . - 
Scarlett! Scarlett! No posso ouvi-Ia falar nesses termos! - exclamou Asliley ' fixando nela um 
olhar to feroz que a fez calar.-No compreende que eles so seres humanos como ns... que alguns 
tm escassez de sade, que so uns entes infelizes'mal alimentados ... ? Ah quanto me custa ver em 
que ele a tomou, a si, que era ser@pre to meiga, to bondosa... 
-Quem? 0 que  que me fizeram? 
- Ainda que no tenha o direito de falar neste assunto, preciso de falar. 0 su... Rhett Butler... 
#
empeonha tudo quanto toca. Duma criatura terna generosa e boa, embora obstinada fez ele uma 
pessoa cru@l. Endureceu-lhe o corao, besti@lizou-a com o seu contacto. 
- Oh! - suspirou Scarlett que, ao mesmo tempo que se sentia culpada, estava radiante com a ideia de 
que Ashley se interessava ainda por ela e a considerava uma mulher cheia de doura e bondade. 
Ainda bem que ele atribua  influncia de Rliett, a sua avidez do dinheiro. Rhett nada tinha a, ver 
com isso, a culpa era dela, mas tambm. no fazia mal nenhum que o acusassem de mais uma coisa. 
J o acusavam de tantas! 
- Se se tratasse doutro homem, no me importaria tanto. Mas 11hett Butler! Bem vi o que ele lhe 
fez. Sem que a Scarlett desse por isso, moldou-a  sua maneira. No devia falar assim... Ele salvoume 
a vida e estou4he muito reconhecido, mas lastimo bastante que no fosse outro qualquer a 
salvar-ma... No, no tenho o direito de falar assim... 
- Sim,_Ashley tem esse direito... e ningum mais! -Digo lhe qu@ me  impossvel suportar isto... 
Ver a sua delicadeza  merc da brutalidade, saber que toda a sua beleza e encanto esto sob o 
poder desse homem... Quando me lembro que ele lhe toca... 
"Vai beijar-me", pensou Scarlett em xtase. "E aculpa no ser minha". Inclinou-se para Ashley, 
mas este recuou como se de sbito compreendesse que falara demais, que dissera coisas que nunca 
tencionara proferir. 
- Perdoe-me, Scarlett. Insinuei que seu marido no~era um cavalheiro e as minhas palavras provam 
que eu no o sou. Ningum tem o direito de dizer mal do marido a uma senhora. No tenho 
desculpa nenhuma, seno... seno... 
437 
Scarlett esperou, ofegante, de olhos fitos naquela face crispada. 
-No tenho desculpa nenhuma -concluiu AshIey. Durante todo o trajecto de regresso, Scarlett no 
cessou de reflectir. Nenhuma desculpa, seno... que ele a amava! Por isso enlouquecia de furor ao 
lembrar-se de que Rhett a possua. Nesse ponto, compreendia-o. Se no @soubesse que AshIey e 
Melanie tinham forosamente de viver como irmo e irm, a sua vida seria um tormento, Com que 
ento os abraos de Rhett bestializavam-na... Pois se esta era a opinio de Ashley, ela passaria 
muito bem sem tais abra.@ os. Como seria belo e romntico que se conservassem fisicamente fiis 
ao seu amor embora casados com outras pessoas! A Wela foi-se desvolvendo no esprito de 
Scarlett e cada vez mais lhe agradava. Porque tambm havia o lado prtico da questo. Que melhor 
meio de no ter mais filhos? 
Quando chegou a casa, esmoreceu-lhe parte da exaltao prov<>cada pelas palavras de AshIey, ao 
encarar a per"pectiva de dizer a Rhett que queria quartos separados e de dar a entender o que isso 
implicava. Seria um caso bicudo... E como informar Ashley que, conforme os seus desejos, no 
seria mais de Rhett? Para qu sacrificar-se se ningum o saberia? Se ao menos ela pudesse falar to 
abertamente a AshIey como falava a Rhett! Deix-lo! Havia de descobrir maneira de fazer conhecer 
a verdade a Ashley. 
Subiu a escada e, ao abrir a porta do quarto dos pequenos viu Rhett sentado ao lado do bero de 
Bonnie, com Efl sobre os joelhos enquanto Wade despejava diante dele o contedo dos bols@s. 
Ainda bem que Rhett gostava das crianas e no as tratava mal, como certos padrastos. 
- Preciso de falar contigo - disse Scarlett antes de entrar no quarto de- dormir. Mais valia dizer-lhe 
agora a sua resolu<> de . no ter mais filhos, enquanto o amor de AshIey lhe insuflava energia.- 
Rhett-declarou  queima-roupa, logo que o. marido fechou a porta do quarto, dos pequenos. -Decidi 
nunca mais ter filhos. 
Se ficou surpreendido com to inesperada declarao, no deixou transparecer nada. Puxou uma 
cadeira, sentou-se e ps-se a balanar-se. 
-Minha jia, j te disse antes de Bonnie nascer que tanto me importa que tenhas um ou vinte filhos. 
Que arte de evitar as discusses! 
438 
- Acho que trs j chegam. No tenciono ter um todos os anos. 
-Trs  um bom nmero. 
#
- Sabes... - comeou ela, corando - sabes o que eu qpero dizer com isto? 
-Sei. E tu sabes que posso pedir o divrcio se te 'recusares aos deveres conjugais? 
- ]5@, preciso que sejas muito vil para teres semelhantes ideias! - exclamou Scarlett furiosa pelo 
facto de a conversa no seguir os trmite@ que ela planeara. - Se fosses uma pessoa cavalheiresca... 
farias como... Olha, farias como Agliley. Melanie no pode ter filhos, e ele... 
-Isso  mesmo do senhor Ashley-comentou Rliett, cujos olhos brilharaiw de modo estranho. -Acaba 
o di&curso. 
Scarlett tossiu, pois o discurso chegara ao fim e no havia mais nada a dizer. Compreendia, agora 
quo tola fora ao supor que regularizaria amigavelmente to importante questo com um monstro de 
egosmo como Rhett. 
-Foste hoje  estncia, no  verdade? 
- Que relao tem a minha ida  estncia com esta conversa,2 
-Gostas de ces, Scarlett, no  assim? E prefere-los nos canis ou nas manjadouras, como o tal que 
no comia nem deixava comer? 
Scarlett no percebeu a aluso, to fortes eram a sua ira e o seu despeito. 
Rhett levantou-se e aproximando-se da mulher, agarrou-lhe no queixo e rgueu-lhe a cabea. 
-Que infantil que tu s! Viveste com trs homens e no conheces nada do carcter masculino. 
Julg@as decerto que somos como as senhoras de idade que j atingiram a menopausa. 
Beliscou-lhe o queixo, e baixou a mo. E, de sobrance-lha levantada, fitou-a longamente com olhar 
glacial. 
-Compenetra-te bem disto Scarlett. Se tu e a tua cama ainda tivessem algum encanto para mim, nem 
fechaduras nem ameaas impediriam de fazer o que me apete--ces-se. E no sentiria remorsos 
nenhuns, porque f1% um contrato contigo... um contrato de que respeitei os termos, e tu no. Podes 
guardar para ti o teu casto leito, minha filha. 
439 
- Queres dizer que te sou indiferente? - replicou Scarlett, indignada. 
-J ests farta da minha pessoa, no  verdade? Pois olha que os homens se fartam mais depressa do 
que as mulheres. Conserva a tua castidade, Scarlett. E no penses que ser para mim um suplcio. 
No me ralo nada. -Encolheu os ombros e sorriu., -Felizmente no faltam camas neste mundo; h 
muita cama e muita mulher... 
- Tu... vais... 
- Coitadinha da inocente! Pois claro!  de admirar que no me tenha desviado mais cedo para esses 
caminhos. Nunca considerei a fidelidade como uma virtude. 
- Todas as noites fecharei  chave o meu quarto. 
- Para qu? Se eu te quisesse -para alguma coisa, nenhuma tranca me impediria de entrar, 
Rhett voltou-lhe as costas como se desse o assunto por terminado e foi-se embora. @carlett ouviu as 
exclamaes de alegria@ com que os pequenos o acolheram. Sentou-se bruscamente. Conseguira o, 
seu objectivo. Era isso o que ela queria, o que AshIey desejara. No entanto, no se eentia contente. 
Sofria no seu amor-prprio e mortificava-a a ideia de que Rhett no se afligisse nada com a sua 
proposta, que j no a desejasse e que a pusesse ao nvel doutras mulheres, noutras camas. 
Gostaria de descobrir maneira delicada de informar AshIey que ela e Rhett j no viviam como 
marido e mulher. No entanto, sabia que no chegaria a dizer nada. Tudo se lhe afigurava 
terrivelmente confuso e quase lastimava ter falado. Ia sentir falta das longas e divertidas conversas 
antes de adormecer. No tornaria a ver na escurido, o ponto rubro do charuto aceso de Rhett, nem 
teria os braos do marido para a consolar quando ela despertasse aterrada do habitual sonho em que 
se via a correr no meio do nevoeiro. 
De repente 'sentiu-se- infeliz e apoiando a cabea no espaldar da, poltrona, desatou a cAorax. 
52 
Um ano aps o nascimen'to de Bonnie, o irmozito, numa tarde chuvosa errava pela sala e, de 
tempos a tempos, ia  janela, cont@a cuja vidraa achatava o nariz. Wade era 
440 
#
delgado, pequeno para a idade, pois ia nos oito anos, e to tranquilo que se diria ser tmido. Jamais 
falava, excepto se lhe dirigiam a palavra. Tinha o ar de quem se aborrece mortalmente, e no sabia, 
de fa-eto, corno havia de entre-ter-se pois Ella, brincava com as bmQcas, a um canto, Scarl@tt fazia 
contas sentada  secretria, e Rhett, estirado no c-ho, baloiava o relgio na, extremidade da 
corrente e retirava-o logo que Bonnie estendia a rnozinha. 
Wade juntou uns poucos de livros, rnas dexou-os cair, ao mesmo tempo que suspirava fortemente, 
Scarlett, furiosa, voltou~s-e para ele* 
- , filho, vai brincar l para fora! -No se pode. Est a chover. 
- Sim? No tinha percebido, Ento faze qualquer coisa. Enervas-me com isso de andar ce l sem 
fazer nada. Dize ao Pork que prepare o trem e que te leve a casa de Beau. 
- Ele no est em casa, marn - participou Wade, soltando novo suspiro. - Foi  festa dos anos de 
Paoul Pic-ard. 
Raoul era o filho de Maybelle e de Ren Picard, garotelho odioso, segundo Scarlett, e tambm, 
segundo ela, mais parecido com um macaco do que com um rapaz. 
-Ento vai a casa de quem quiseres. Previne o Pork. -Nenhum dos meus amigos est em sua casa. 
Foram to-dos  festa. 
Sem que Wade a tivesse proferido, a frase "todos menos eu", ficou suspensa no ar; mas Scarlett, 
ocupada com as contas, no se apercebeu disso. 
-Por que no foste tu tambm? -Inquiriu Rhett, werguendo@-se no tapete. 
Wade aproximou-se do padrasto, devagarinho, parou, ergueu ora um p ora outro, e ficou indeciso, 
com ar ba&tante inf eliz. 
- No fui convidado... Rhett abandonou o relgio  mo destruidora de Bonnie e levantou-se 
agilmeiite. 
- Interrompe essas malditas contas, Searlett. Por que  que Wade no foi convidado? 
- Por amor de Deus, Rhett! No me aborreas neste momento. AshIey fez de tal maneira, estas 
contas, que no chego a atinar... Ah, a festa do Raoul?! Wade no foi convidado, 
e, se o fosse, eu no o deixaria ir. No te esque--" que se trata do neto da senhora 
Merriwethere, que esta 
441 
R"/@ 
preferiria receber um preto forro nos seus sales a aceitar a nossa presena. 
Rhett, que observava o pequeno com ar sonhador, viu-o estremecer. 
- Anda c, meu rapaz - disse, chamando-o a si. - Gostarias de ir a essa festa? 
- No, senhor - respondeu corajosamente Wade, baixando porm, ao mesmo tempo os olhos. 
- ilum... Escuta, vais s reunies do Joe Whitng e do Frank Bonnel... Ao menos, os teus camaradas 
de escola... convidam-te alguma vez? 
-No, senhor. No me convidam. -Ests a mentir, Wade! -exclamou a me voltando-se de novo para 
ele. -A semana passada as@ististe a trs reunies, em casa dos Barts, dos Gelerts e dos Hundons. 
-Bela coleco de mulas com arreios de cavalo - 
observou Rhett, em tom voluntariamente brando. - Divertiste-te nalguma, dessa,9 festas? Vamos, 
dize a verdade. 
- No, senhor. 
- Porqu? 
- A Bab diz que so a escria dos brancos. 
- Eu hei-de pregar uma bofetada nessa Bab! - acudiu Scarlett, levaitando-se de chofre. - E a ti, 
Wade, vou ensinar-te como se fala dos amigos de teus pais. 
-0 pequeno tem razo e a Bab tanibm -declarou Rhett. - Tu  que nunca f@ste capaz de distinguir 
o verdadeiro do falso. No te aflijas, meu rapa,,P,,, no s obrigado a ir a casa de pessoas com quem 
no gostes de lidar. Toma l, vai dizer a Pork que prepare o trem. Compra bombons, compra 
quantos te apeteam... -Dizendo isto, entregou-lhe uma nota, a que o pequeno -logo lanou mo, 
deitando um olhar inquiridor  me a ver se esta concordava. 
#
gearlett, de olhar carr@ncudo, fitava o marido. Este pegara em Bonnie e, com a cara da petiza 
encost@ada  sua, embalavaa docemente. A mulher no conseguia decifrar-lhe os pensamentos mas 
nos olhos dele havia algo de semelhante a receio. Re@eio e remorso. 
Animado pela generosidade do padrasto, Wade aproximou-se dele timidamente. 
-Tio Rhett, posso fazer-lhe uma pergunta? 
- Com certeza. - Rhett parecia ansioso e distrado. Apertou Bonnie nos braos e indagou: -Que , 
Wade? 
442 
- Combateu na guerra, tio Rhett? 
- Por que me perguntas isso? - volveu aquele fitando o pequeno, mas dando  voz um acento de 
indiferena. 
- n que o Joe Whiting... diz que o tio no se bateu. E o Frankie Bonnell diz o mesmo. 
- Ah, ali! E que lhe ripostaste? Wade parecia constrangido. 
- Eu... respondi que no sabia. -E, de um flego, acrescentou: - Mas no me pus com coisas e atireime 
a eles. Esteve na guerra, tio Rhett? 
- Estive - declarou Rhett com sbita violncia, - 
Cmbat durante oito meses. Acompanhei as tropas, de L<>vejoy at Frank1in, em Tenneuce. 
Estava com Johnston quando ele se rendeu, 
Wade meneou-se de orgulho, mas Scarlett riu-se. 
- Julgava que tinhas vergonha da tua folha de servios. NcL me pediste que no falasse nisso? 
- Cala-te! - ordenou Rhett. - Ficaste contente, Wade? -Fiquei, sim, senhor. Eu bem sabia que tinha 
estado na guerra, que, no fugiu como eles dizem. Mas... por que  que no esteve com os pais dos 
outros meninos? 
-Porque os pais dos outros meninos eram azelhas e tiveram de os meter na infantaria. A mim, como 
frequentei West Point, escolheram-me para a artilharia. Artilharia regular, no a das foras 
territoriais.  preciso certo jeito para a artilharia, Wade. 
- Fao ideia! - retorquiu Wade, satisfeitissimo. - Foi ferido, tio Rhett? 
Rhett hesitou. 
- Fala-lhe da tua disenteria - mofou Scarlett. 
0 marido, ps a filha no cho com todo o cuidado e, em seguida, puxou para fora das calas a fralda 
da camisa. 
-Chega c, Wade. Vou mostrar-te onde fui ferido. 
0 pequeno avanou muito impressionado e olhou para onde Rhett apontava. Uma longa cicatriz 
sulcava-lhe o peito moreno at ao abdome fortemente musculado, Era a recordao duma ce-na de 
facadas num terreno aurfero da Califrnia, mas Wade, que no sabia disso, soltou um suspiro de 
alegria. 
- Parece-me que o tio Rhett  quase to valente como o meu pai. 
-Quase, mas no tanto-concordou Rhett, enfiando 
443 
V 
a camisa nas calas, -E agora vai gastar o teu dlar e manda ao diabo quem te disser que no estive 
na guerra. 
Wade saiu a: pular -de contentamento e a chamar pelo velho Pork 'e Rhett voltou a pegar na filha ao 
colo, 
A que propsit<> todas aquelas mentiras, meu wldado zias perguntou Scarlett, das d 
-Um filho deve ter orgulho no pai... ou no padrasto. No quero que ele se sinta envergonhado diante 
dos outros garotos. So cruis, as crianas. 
-Ora, ora! -Nunca pensei que estas coisas tivessem tanta importncia para Wade - volveu Rhett 
lentamente. - Nunca pensei que sofresse tanto por causa disso. 0 mesmo no h-de acontecer a 
Bonnie. 
- Como sabes? 
#
- Supes que vou deixar a minha Bonnie envergonhar-se do pai? Que vou consentir que a ponham 
de parte quando tiver nove ou dez anos? No quero que a vexem, como fazem ao pequeno, por 
coisas de que s eu ou tu somos culpados. 
-Ora,, trata-se apenas de festas de crianas! -Depois das festas de crianas vm aquelas em que se 
apresentam as raparigas na sociedade. Julgas que vou deixar a minha filha crescer sem frequentar as 
pessoas decentes de Atlanta? De que valeria mand-la estudar num colgio do Norte, se ningum a 
quiser receber aqui 'ou em Charleston, ou em Savannah, ou em Novai Orlees? No quero que ela 
se veja, obrigada a casar com um yanke-e ou um estrangeiro pelo facto de, no Sul, nenhuma famlia 
capaz a, receber no seu seio... visto a me se haver portado como urna louca ou o, pai como um 
patife. 
Wade, que voltara, detivera-se  porta interessado pela conversa, embora no a percebesse muito 
bem. 
-Bonnie pode casar-com Beau, tio Rhett-dsse ele. Rhett voltou-se para o enteado e logo do rosto 
lhe desa~ pareceu a expresso de clera. Ficou a cogitar nas palavras de Wade, fingindo-se muito 
srio, como sempre fazia quando se tratava de assuntos de crianas. 
- Tens razo, Wade. Bonnie poder casar com Beau Wilke,s. Mas tu, com quem casars? 
- Eu no casoco-m ningum - confessou Wade, encantado com aquela conversa, de homem a 
homem, com a nica pessoa, alm da tia Melly, que no o tratava com 
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maus modos e at o animava a falar. -Vou para flarvard, para ser advogado como o pap, e depois 
hei-de ser um militar valente como ele, 
- Lastimo muito que MeIly no esteja mais calada - 
acudiu Seariett. - Wade, tu no irs para Harvard. n uma escola yankee e eu no quero que vs para 
l. Hs-de ir  para outra Universidade, a de Gergia, e depois de te formares virs dirigir o 
armazm, em meu lugar. Quanto  valent;a de teu pai... 
-Cala-te! -ordenou Rhett em tom ainda mais seco; notara o claro que se acend@ra nos olhos de 
Wade, ao ouvir falar do pai que ele no conhecera. -Crescers e sers valente como teu pai, Wade. 
Trata de te pareceres com ele, porque foi um heri, e no deixes que ningum diga o contrrio. Pois 
no casou com tua me? J  uma prova de heroismo. Eu ajudar-te-ei a ires para Harvard, para seres 
advogado. Agora gira daqui e dize ao Pork que te leve  cidade, 
-Gostaria que me permitisses governar os meus filhos  vontade - disse Scarlett, depois de o filho se 
ter retirado. 
- Governas muito mal. Estragaste j o futuro de Wade e de Ella, mas no consinto que faas o 
mesmo a respeito de Bonnie. Esta, h-de ser uma princesinha, que toda a gente receber de braos 
abertos. Entc> julgavas que eu a deixaria lidar com a canalha que frequenta esta cas&? 
- Para ti so muito bons. 
- E ainda melhores para ti, minha jia. Mas no para Borinie. Pensas que ela vai casar com um 
desses miserveis com quem convives? Irlandeses oportunistas, yankees, brancos malandros, 
Sacolas novos-ricos... A minha Bonnie, com sangue de Butler e raa de Robillard_ 
- E de O'Hara... 
- Os UHaras pediam ter sido reis da Irlanda noutro @ foi um -tempo, que eu estou nas tintas para 
isso. 0 teu pai aventureiro e tu no s melhor prenda. A culpa tambm  minha. Tenho passado na 
vida como um morcego escaPado do Inferno, sem me importar com as niinhas aces, visto tudo 
me ser indiferente. Agora, quanto, a Borinie, digo~te que me interessa deveras. Tenho sido um 
insensato! Devemos fazer o possvel para que a nossa filha venha a ser recebi-da em toda a parte. 
-0h Rhett ests a dar tanta importncia a isso, quc chega a @er ridiculo,! Com o nosso, dinheiro... 
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-Ora, o dinheiro! Com ele todo jamais compraremos o que desejo para ela. Antes ver a minha 
Bonnie convidada a comer po seco na casa pelintra dog Picards ou na baica da senhora Elsing, do 
que v-Ia: triunfar num baile republicano. Searlett ' tens sido uma pateta. Devias ter reservado para 
os teus filhos um lugar na sociedade. Mas no, o fizeste. Nem te dekte -ao trabalho de conservar a 
#
.posio que tinhas. Receio que seja agora j muito tarde. Continuas ansiosa por ganhar dinheiro e 
por tiranizar as pessoas. 
-Tudo isto para mim,  uma tempestade num copo de gua-diss@ friamente Searlett, retomando os 
seus papis como paraIndicar que, quanto a ela, o caso estava arrumado. 
- S podemos contar com a senhora Wilkes, e s fazes tudo para a ofender e afastar. Oh, poupa-me 
as tuas observaes acerca da suai pobreza, dos seus vestidos muito usados! Ela  o fulcro de 
quanto vale ainda qualquer coisa em Atlanta. Que Deus lhe pague! Espero que me ajude nos meus 
planos. 
-E quais so eles? -Cultivar todas as damas da Velha Guarda, em, especial as senhoras Merriwether. 
Elsing, Withing e Meade. Sou capaz de rastejar atrs dessas velhas que me detestam. Humilhar-meei, 
arrependido dos meus erros passados. Hei-de contribuir para, as suas estpidas obras de 
caridade, para as suas malditas instituies pias. Alardearei os meus servios  Confederao e, se 
tanto. for ne-cessrio, irei filiar-me na nfamssima Klan ' embora espere que Deus, na sua 
misericrdia, me poupe essa ltima provao. No hesitarei tambm em recordar aos idiotas que 
salvei da, forca que eles contraram uma, dvida para comigo. Quanto. a ti, minha querida, espero 
que no me ponhas obstculos nas relaes que pretendo estabelecer com essas pessoas; no lhes 
vendas, portanto, madeira em mau estado nem as ofendas de nenhum modo. Alm disso, o 
governador Bullo-ck no. por mais os ps aqui. Percebes? Nem nenhum membro dessa elegante 
scia de ladres com quem tu lidas. Se os convidares, sentir-te-s em m posio, pois o dono da 
casa no estar presente para os receber. Apaream eles c, e eu irei logo matar o tempo no 
botequim da. Belle . Watling: como desculpa, direi que no quero estar debaixo do mesmo tecto que 
essa gente. 
446 
Scarlett, enervada com este discurso, soltou uma risadinha _be maneira que o homem que jogava, s 
cartas nos barcos do Mississipi, e especulou durante a, guerra, deseja ago,ra tornar-se respeitvel! 
Pois olha que, para comear, seria prefervel vender a casa da Belle Watling. 
Era o que se chama um golpe s cegas, porque Scaflett no tinha a certeza de que o marido fosse o 
dono daquele estabelecimento. Rhett, como se lhe houvesse lido o pensamento, soltou uma 
gargalhada estrondosa. 
-Muito obrigad, pelo conselho! 
Rhett Bufler no podia ter escolhido ocasio menos propcia  sua campanha de reabilitao. Nunca 
nem antes nem depois, foram to execrados os nomes d@ Republicar nos e Renegado.s,,. visto 
haver atingido ento c> cmulo a corrupo do regime sob a gide dos Sacolas. Ora, aps a derrota 
sulista, Rhett andava inexoravelmente ligado  sorte dos yankees e seus amigos. 
Em 1866, as pessoas de Atlanta tinham verificado com fria impotente que a lei marcial sob a. qual 
viviam no podia ser pior do que era: mas durante o domnio de Bullock, souberam que afinal 
aquil'(> ainda no fora tudo. Merc do voto concedido, aos pretos, os republicanos e seus aliados 
ficaram solidamente estabelecidos nas suas posies e_tornavam a vida difcil aos vencidos, que 
todavia no, deixavam de protestar. 
Haviam espalhado entre os negros a verso de que a Bblia s mencionava dois partidos polticos: o 
dos Republicanos e o dos Pecadores. Como nenhum dos antigos escravos queria aliar-se a um 
partido composto s de pecadores, eles no hesitavam em seguir o dos Republicanos. Os seus novos 
senhores foravam-nos a votar, obrgando-os a elegerem para os lugares de maior importncia os 
Renegados e os brancos de baixa extraco., sem falar dum ou doutro homem de cor. Estes 
passavam grande parte do dia no Parlamento, ande comiam, e se descalavam de vez em quando, 
pois no tinham ainda os ps, habituados ao uso permanente'das botas. Poucos sabiam ler ou 
escrever. Acabados de chegar das plantaes de algodo e cana de acar, viam-se logo com direito 
a votar sobre impostos e emprstimos, e a abrir grandes crditos aos Republicanos seus amigos, 
quando no a simesmos. Disso no prescin- 
447 
diam eles. 0 Estado sufocava sob o peso das contribuies, pagas de m vontade, pois os cidados 
#
sabiam que, na maior parte, as- somas destinadas ao interesse geral eram embolsadas por certo, 
nImero de indivduos. 
Em torno do Parlamento estadual apertava-se um crculo de oportunistas ' de especuladores, de 
criaturas sem moral vindas na esperana de tirar proveito da orgia louca das despesas, que a muitos 
enriquecia. No tinham dificuldade em obter subvenes do Estado para construir linhas frreas que 
nunca seriam comftrudas, para comprar carruagens e locomotivas que jamais seriam compradas, 
para construir edifcios pblicos que s se construam na imaginao desses aventureiros. 
Emitiam-se ttulos da dvida pblica, aos milhes, sempre de modo ilegal e fraudulento. 0 
funcionrio responsvel do Tesouro, homem srio embora republicano, protestava contra essas 
emiss6es e negava-lhes a assinatura; mas corno acontecia a todos que procuravam opor-se quel 
onda de abusos, os seus, esforos resultavam inteis. 
A rede dos caminhos de ferro, que outrora proporcie@nara recursos permanentes ao Estado, vivia 
em regime deficitrio, e a dvida atingia a linda soma de um milho de dlares. J no era uma rede 
de caminhos de ferro, mas uma enorme cavalaria de Augias, onde os parasitas chafurdavam  
vontade. Havia inmeros funcionrios nomeados por motivos de ordem poltica, sem que ningum 
quisesse saber da sua -competncia. Os Republicanos viajavam sem gastar um cntimo e os 
pretos circulavam gratuitamente nos dias em que aos bandos, assaltavam os, combGios de 
mercadorias e iam dum ponto a outro do territrio votar e tornar a votar nos mesmos candidatos. 
0 sistema que reinava na administrao dos caminhoa de ferro exasperava deveras os contribuintes, 
tanto mais que, em princpio os lucros da explorao, deviam ser aplicados no estabelecimento de 
escolas gratuitas. Mas, como s havia dvidas e nenhuns lucros, nenhuma escola se abria. Eram 
poucas as pessoas ricas que pudessem mandar os filhos s instituies pagas, de modo, que essa 
gerao em idade escolar crescia na ignorncia, preparando um futuro de homens e mulheres sem 
qualquer instruo. 
Mais ainda que a desordem nas finanas pblicas, enfu- ,reciam os georgianos contra as autoridades 
do Norte o desperdciG e a corrupo de que dava provas o governador. 
448 
De cada vez que eles se indignavam contra os prevaricadores, o governador partia a toda a pressa 
para o Congresso, onde, falava dos atentadGs dos brancos contra os pretos, declarando que o estado 
de Gergia preparava nova rebelio. No entanto, ningum fazia mal aos pretos dentro do prprio 
Estado; ningum desejava nova guerra, ningum pretendia levantar as massas. Todos aspiravam ao 
sossego, a fim de se erguerem das runas. Infelizmente,  fora de calnia, o governador acabou por 
convencer o Norte de que os, georgianos, eram rebeldes e que urgia manej-los com mo de ferro. E 
a mo de ferro abateu-se sobre o pas. 
0 bando. que asfixiava Gergia regozijou--se a, valer. 
0 Exrcito dos Estados Unidos apoiou com as armas a autoridade do governo local. Atlanta 
detestava o nome de BulIGck, dos Renegados e Republicanos, e de todos os que mantinham 
relaes com eles. Ora Rhett Butler pertencia a este grupo, e at se dizia que estava associado a 
todas as piores conibinaes poltico-financeiras. Foi nessa altura que o marido de Scarlett, dando 
meia volta, e nadando. com todas as suas foras, pretendeu subir a corrente, que pouco antes havia 
descido com tanta felicidade. 
Empreendeu, contudo, a sua campanha com uma, lentido bem calculada, de forma a no despertar 
suspeitas naquela sbita reviravolta. Evitou os antigos camaradas de botequim e deixou de 
acompanhar oficiais yankees, Renegados e Republicanos. Assikiu s reunies do partido 
democrtico e,  vista de toda a gente, deu a este a sua adeso. Renunciou a jogar forte e tornou-se 
relativamente abstmio. Quando queria ir a casa da Belle Watling esperava que fosse noite e 
comparecia l s ocultas, como o faziam os outros cidados respeitveis nunca deixando o cavalo 
atrelado diante da porta do boiequim. 
Os fiis da igreja episcopal caram das nuvens quando viram Rhett entrar no templo e avanar em 
bicos de ps, dando a mo a Wade. A admirao era causada, no s pela comparncia dele mas 
tambm do enteado que toda a gente supunha catlico, atendendo ao credo @rofessado pela me. 
#
Esta, porm, abandonara os princpios religiosos, como pusera de lado as normas preconizadas por 
Ellen; assim, o pblico achpu que Rhett fazia bem em inculcax no pequeno uma crena, embora no 
fosse aquela a que ele estava destinado. 
29 - Vento Levou - 11 449 
Quando se dava ao trabalho de refrear a lngua, Bufler conseguia ser amvel. E no era raro v-lo 
comportar-se em atitude grave e ser mais discreto no seu vesturio. Deste modo lhe foi fcil 
conquistar a simpatia dos individuos a quem outrora salvara a vida. Hugh Elsing, Ren, os irmos 
Simmons And Bonnell achavam-no atencioso e sentiam-se gratos pelo Lto de o outro nunca, aludir 
ao bem que lhes fizera. Se lhe tocavam no assunto, respondia: "No tem importncia. Outro 
qualquer, no meu lugar, faria o mesma". 
 Comisso encarregada de recolher donativos destinados  reparao da igreja episcopal, Rhett 
entregou uma quantia rada, e outra  Obra do Embelezamento dos Tmulos; dos Nossos Mortos 
Gloriosos. Dirigiu-se directamente  senhora Elsing e pediu-lhe, em tom humilde, que no dissesse 
a ningum donde partia aquele dinheiro, sabendo que era esse o melhor processo de obter que a 
dama a fosse apregoar por toda a parte, Ainda que a senhora Elsing quisesse recusar a ddiva, os 
fundos da instituio estavam to baixos que ela no teve coragem para o fazer. 
-No percebo- observou apenas-por que se interessa tanto pela nossa, Obra... 
Rhett declarou-lhe em tom digno que praticava esse rasgo em memria de antigos camaradas de 
guerra, mais bravos porm menos afortunados do que ele, o que deixou boquiaberta a senhora 
Elsing. Bem lhe dissera a senhora Merriwether que, segundo Scarlett ' o capito Butler havia, 
tambm combatido. Ela, todavia, no tinha acreditado, como alis ningum ento acreditara. 
-Esteve na guerra, visto isso' Qual era. a mu, companhia... o seu regimento! 
Rhett deu todas, as informaes. -Ah, sim, a artilharia! Os que eu conheci estiveram uns na 
cavalaria, outros na infantaria. Assim se explica que... 
A senhora Elsing suspendeu-se de repente, na esperana de descobrir um claro de troa nos olh 
'os do seu interlocutor. Mas Rhett baixara a vista e brincava com a corrente do relgio, 
- Gostaria, muito de ter estado na infantaria - volveu ele -mas souberam que eu fora aluno de West 
Point... embora ficasse reprovado no exame final, por causa duma. 
450 
rapaziada. De forma que me meteram na artilharia na artilharia regular, no na dos milicianos. 
Precisavam muito de tcnicos na fase final da guerra. Bem sabe como as perdas foram pesadas, em 
especial nos artilheiros. No encontrei l ningum conhecido. Creio que nem um homem de 
Atlanta... 
- Ah, sim?! -A senhora Elsing estava cada vez mais perplexa. Se Rhett entrara na guerra, ento o 
caso era diferente, Comeava, a ter remorsos do mal que havia dito dele. - Ah, sim?! Mas por que 
no disse mais cedo? Parece que tinha vergonha... 
Rhett, impassvel, fitou a senhora Elsing. 
- Minha senhora, acredite que sinto mais honra pelo servio que prestei  Confederao do que tudo 
o que jamais fiz ou podia fazer... 
- Mas... por que guardou segredo ... ? 
- Envergonha-me falar disso por causa... de certas aces que cometi no passado. 
A senhora Elsng correu a informar a senhora Merrwether que Rhett dera dinheiro para a Obra e 
relatou-lhe a sua conversa. 
-E dou-te a minha palavra, Dolly, que lhe vieram lgrima,s aos olhos quando disse que se sentia, 
envergomnhado. Sim, vieram-lhe lgriinas aos olhos! At quase chorei tambm. 
- Acho, isso muito esquisito, um disparate sem ps nem cabea-replicou a senhora Merriwether. - 
Acredito tanto nas suw, lgrimas como acredito que combatesse na guerra. Mas hei-de pr tudo em 
pratos limpos. Visto pretender que esteve na artilharia, vou escrever ao coronel Carleton, que  
casado com a filha duma das irms de meu av. Ele era o comandante de artilharia... 
ao coronel A senhora Merriwether escreveu de facto < Carleton e com grande desgosto seu, recebeu 
uma carta em que o @oronel fazia o elogio de Rhett Butier em termos que no dava margem a 
#
nenhum equvoco. Artilheiro consumado, soldado corajoso e perfeito homem de sociedade, to 
modesto, que recusara promoo quando lha, tinham oferecido... 
- Ora esta! - exclamou a senhora Merriwether, mos,trando a carta  senhora Elsing. -Estou 
pasmada,! Talvez fizssemos mal em escarnecer da sua, coragem, talvez devssemos acreditar em 
Scarlett e Melanie quando afir- 
451 
mavam que ele se alistara no dia da -rendio de Atlanta, mas o certo  que  um Renegado, um 
crpula e no gosta dele! 
- Apesar de tudo - objectou a senhora, Elsing - no creio que seja to m pessoa como dizem. Um 
homem que se bateu pela Confederao no pode ser muito mau. Scarlett  pior que ele. Queres que 
te diga uma coisa? Tenho c a impresso de que Butler se envergonha, da mulher, mas, como  bem 
educado, no G d a entender. 
- Envergonhar-se de Scarlett? Ora, ora! So ambos da mesma fora. Onde foste buscar essa ideia: 
to tola? 
- No acho. que seja. tola! -protestou a senhora Elsing. 
- Ainda ontem, sob uma carga de gua, andava, ele a baixo e a cimar na Peachtree Street, a passear 
de carruagem os trs pequenos. Deu-me uma boleia, e, quando lhe observei que a humidade podia 
fazer mal s crianas e seria melhor lev-las para casa, ficou com ar atrapalhado e no me deu 
resposta. Mas a Bab encarregou-se de me explicar "que tinham casa cheia de gente branca 
ordinria e que mais valia aos mininos and  chuva, que estar l dentro". 
-E que disse o capito Butler? 
- Que havia de dizer? Fez uma carranca  preta e mudou de assunto. Como. sabes , Scarlett 
organizou ontem uma grande partida de whist e recebeu todas essas criaturas grosseiras com quem 
se d. Aposto, que ele no quis que a filha fosse beijada, por tais mulheres. 
- Ora, ora! - murmurou a senhora Merriwether, ainda cptica. Mas na semana seguinte capitulou 
tambm. 
Rhett tinha ento uma escrivaninha no Banco. Seria difcil aos directores dizerem o que ele fazia ali, 
mas era 'dor de muitas aces para que algum se lembrasse possul de protestar contra a sua 
presena. Alis, ao fim de certo tempo esqueceram-se de qualquer objeco que tivessem chegado a 
fazer, pois 11hett era tranquilo, bem educado e percebia de operaes bancrias e de empregos de 
capital. Fosse como fosse, passava, o dia inteiro. no. Banco, e dava a todos a impresso de estar 
muito ocupado, pois tinha grande empenho em mostrar-se igual aos seus concidados mais 
respeitveis que trabalhavam a valer. 
A senhora Merriwether, que desejava aumentar a sua pastelaria, tentou que o Banco lhe emprestasse 
dois mil dlares, dando como garantia a sua casa, mas recusaram-se a isso alegando que o 
imvel.estava onerado com duas hipo- 
452 
tecas. Furiosa, ia. a sair do Banco quando Rhett a deteve, inquiriu o motivo da sua ixrItao e lhe 
disse com ar muito maado: 
- Deve ter havido qualquer equvoco 'senhora Merriwether, um equvoco muito desagradvel. 
Pessoas como a senhora no precisam de dar garantias. E a prova  que me prontificaria a 
emprestar-lhe o dinheiro sob palavra. Quem montou um negcio como o seu tem a nossa inteira 
confiana. Oxal todos os clientes do Banco fossem como a senhora! Queira sentar-se na minha, 
cadeira e esperar um pouco, que eu vou tratar do seu caso. 
Quando voltou, com um sorriso afvel nos lbios, Rhett declarou  @senhora Merriwether que, tal 
como calculara, houvera um equvoco, Os dois mil dlares estavam  sua disposio. Quanto  
casa... Faria a fineza de assinar, ali ao canto? 
Indignada, vexada, furiosssima por ter de aceitar aquele favor dum homem que ela detestava, a 
senhora MerriNvether agradeceu com a. Thaor frieza. Rhett fingiu no reparar em nada e, ao 
acompanh-la  porta, disse: 
-Sempre tive a maior admirao pelas suas capacidades, senhora Merriwether. Seria capaz de me 
#
aconselhar sobre determinado assunter? 
As plumas do chapu mal abanaram quando ela baixou a, cabea num leve gesto de aquiescncia. 
- 0 que fez quando a sua Maybelle era pequena e chuchava no dedo? 
- 0 qu? 
- A minha Bonne chucha, no polegar, e eu no sei como evit-lo. 
- Tem de lhe fazer passar essa mania -declarou, energicamente, a senhora Merriwether.- Seno, ela 
acabar por ficar com a boca deformada. 
- Pois ... E a garota tem uma boca to bonita! No sei, realmente, o que hei-de fazer quilo... 
- Scarlett tinha a obrigao de saber. Ao terceiro filho j no se  inexperiente - observou a -senhora 
Merriwether em tom seco. 
Rhett olhou para a biqueira dos sapatos e suspirou. -Lembrei-me de lhe pr sabo na unha-disse ele, 
passando por alto o comentrio acerca de Scarlett. 
- Sabo no serve de nada. Eu pus quinino no dedo de 
453 
Maybelle, e afirmo~lhe, capito Butler, que foi remdio santo. 
-Quinino! Nunca isso me ocorreu! No sei como lhe agradecer, minha senhora, Andava to 
preocupado com aquele vcio da Bonnie! 
Dirigiu-lhe um sorriso to amvel, to impregnado de gratido que a senhora, Merriwether ficou 
desconcertada. Quando se despediu de Rhett, j a sua expresso era tambm sorridente. 
Por nada deste mundo confessaria  senhora Elsing que reconhecia ter-se enganado a respeito de 
Butler, mas, como era sincera, sempre disse que um pai assim extremoso no podia ser muito m 
pessoa. Que lstima Scarlett no se interessar por uma criaturinha to adorvel como Bonnie! 
Chegava a ser comovente o esforo daquele homem para educar sozinho a filha. 
Rliett saiba muito bem o que havia de impressionante nesse espectculo e pouco se importava que a 
reputao de Searlett sofresse com isso. 
Logo que Bonnie comeou a andar, levou-a consigo para toda a- parte, ou de carruagem ou 
escarranchada  sua frente na sela do cavalo. Ao fim da tarde, depois de regressar do Banco, tornava 
a sair e descia a Peachtree Street com a filha pela mo, harmonizando o passo pelo de Bonnie e 
respondendo com a maior pacincia s suas perguntas. A essa hora, as pessoas tinham o costume de 
estar no jardim ou na varanda da entrada da sua residncia, e como Bonnie era uma criana to 
engraada, com os seus caracs pretos e olhos azuis muito vivos, pouca gente resistia ao prazer de 
lhe falar. Rliett nunca se imiscula na conversa, mas, cheio de orgulho paternal, mostravase 
reermhecido aos que davam ateno  sua filha, 
Os habitantes de Atlanta tinham boa, memria, e, sempre desconfiados, levavam seu tempo a mudar 
de opinio. A poca era m para ele@-, e no viam com bons olhos todo aquele que se desse com 
Bullock e seus partidrios. Mas Bonnie reunia o encanto de Scarlett e de Rhett sob o seu melhor 
aspecto e o pai servia-se dela. como duma ferramenta pequenina, para desmoronar o muro de frieza 
que a cidade lhe opunha. 
Bonnie crescia a olhos vistos e de dia para, dia se tornava mais not6rio que tivera 'por av Gerald 
O'Hara. 
454 
A semelhana era flagrante: pernas curtas e robustas, olhos grandes de um azul absolutamente 
irlands e queixo quadrado que indicava bem o feitio obstinado da sua possuidora. Herdara de 
Gerald os bruscos acessos de clera acompanhdos de gritos, que se apaziguavam logo que lhe 
satisfaziam os caprichos. E era. certo satisfazerem-nos quando o pai se encontrava presente. Apesar 
das objeces de Scarlett e de Bab, Rhett enchia-a de mimos e em tudo lhe achava graa, Tudo, 
menos uma coisa: o seu medo da escurdo. 
At  idade de dois anos Bonnie, dormiu, sem fazer cenas, no quarto que partilhava com Wade e 
Ella. Depois. a'pouco e pouco, sem razo aparente, habituou-se a chorar de cada vez que Bab se 
retirava com o candeeiro. Da, passou a acordar de noite, em sobressalto, aos gritos, assu&tando os 
irmos e alarmando a casa inteira. Uma vez, Rhett teve de chamar o Dr. Meade e quase foi 
#
descorts com ele quando o ouviu dIagnosticar pesadelos. Como resposta s perguntas que lhe 
faziam, a, pequena dizia apenas: "Escuro". 
Searlett, irritada com a filha, falou em dar-lhe uma tareia e no quis deixar a luz acesa no quarto das 
crianas, alegando que isso impediria Wade e Ella de dormirem. Rhett, inquieto, mas no exaltado, 
depois de interrogar em vo a filha. voltou-se. para a mulher e declarou que, no caso de quererem 
levar a efeito a soluo da tarei@a, ele prprio se encarregaria disso e seria Scarlett quem receberia 
a sova. 
0 resultado de tudo isto foi mudarem Borinie para, o quarto que Rliett ocupava sozinho. Puseram a 
cama da mida encostada ao enorme leito do pai e deixaram toda a noite acesa a lamparina. 0 caso 
transpirou e as ms-lnguas ocuparam-se dele. Havia algo de inconveniente em permitir a uma 
pequena, que dormisse no quarto do pai, ainda que essa pequena tivesse apenas dois anos. Os 
comentrios atingiram Scarlett, e de dois mo-dos difereri~ tes. Em primeiro lugar, ficava 
demonstrado que os esposos dormiam em aposentos diversos, o que j era pouco pr6prio. Em 
segundo lugar, toda a gente pensou que se a, Petiza tinha medo das trevass, o que havia a faz@r era 
Ievarem-na para oquarto da me. Scarlett no estava em situao de explicar aos linguareiros que 
considerava im- 
455 
PIpossvel 
dormir num aposento iluminado e muito menos que o marido lhe proibira conservasse a 
filha junto de si. Dissera Rhett: 
- Tu no acordarias seno se ela grita~ a bom gritar. E? nessa altura, serias capaz de lhe dar uma 
bofetada. 
Scarlett sentia-se maada pela importncia que o marido dava aos terrores nocturnos de Bonnie, 
mas, no ntimo, estava convencida de que resolveria as coisas a. seu contento e que, na primeira 
oportunidade, tornaria a pr a cama da petiza no quarto das crianas. Todas tinham medo do escuro; 
portanto, a remdio consistia na firmeza das providncias tomadas. Alis, Rliett s agia assim por 
maldade: agradava-lhe a ideia de a fazer passar por me des~ naturada para se vingar de o ter 
banido do seu quarto. 
Desde aquela vez em que ela -manifestara o desejo de no ter mais filhos, Rhett nunca mais pusera 
os ps no compartimento em que dormia a mulher. Da por diante, * at ao dia em que os pesadelos 
de Borinie comearam * ret-lo em -casa, ele passara a jantar sempre fora. Havia ocasies em que 
no voltava  noite, e Scarlett (que ficava .de atalaia atrs da sua porta fechada  chave e ouvia o 
relgio marear as horas at de manh) reflectia a, fundo no caso, desejosa de descobrir por onde  
que ele se gastava. Lembrava-se da frase "h outras camas" e tremia a, essa ideia, -mas nada podia 
fazer sob pena de provocar di&cusso, durante a qual Rhett no deixaria de a atacar pelo facto de 
lhe haver fechado a porta e pela provvel relao que isso teria com o seu interesse por AshIey. 
Realmente, pondo Bonnie no seu prprio quarto, iluminado por uma 
1 mparina, ele procurava tomar a sua desforra. Foi preciso aue se seguisse uma noite -terrvel, 
memorvel nos anos oa iamilia, para que Searlett compreendesse a importncia que ele dava aos 
terrores de Bonnie e a sua infinita dedicao  criana. 
Nesse dia, Rhett encontrara um antigo camarada do tempo do bloqueio e, corno ambos tivessem 
muito que contar, foram conversar e beber a qualquer parte. Scarlett no sabia ao certo aonde, mas 
desconfiou que ao botequim de Belle Watling. A verdade  que ele no veio, de tarde, buscar 
Bonnie para o passeio costumado, nem compareceu ao jantar. A pequena, que pretendia mostrar ao 
pai uma coleco de bonecas, passara o dia  janela, espiando-lhe 
456 
o regresso, mas Lou acabara por a meter na cama, apesar dos violentos protestos de Bonnie. . 
Se Lou se esqueceh de acender a lamparina ou se esta, se extinguiu por Gi mesma, foi coisa que 
nunca se soube. 
0 certo  que a casa estava em p de guerra quando Rhett, razoavelmente embriagado, reapareceu 
por fim. Bonnie gritava to de, rijo que se ouvia na cocheira; acordara em plena treva e tinha 
#
chamado inutilmente pelo pai. Na sua imaginao infantil or-aso tomou grande vulto, e as luzes 
trazidas por Scarlett, e pelos criados no bastavam para a sossegar. Rhett, subindo  pressa a escada, 
s@urgu com ar alucinado. 
Depois de haver pegado a filha ao colo iE@ ter distinguido -entre os soluos. a palavra "escuro", 
voltou-se lvido de raiva para a mulher e para os servos e bradou: 
- Quem apagou a lamparina? Quem deixou a pequena s escuras? Prissy eu esfolck-te viva... 
-Sinli, mim @o foi! Foi Lou! -Por amor de Deus, sinh Rhett, no... 
- Tu sabes, Lou, quais so as minhas ordens. Sai e no voltes. Surlett, paga-lhe e trata de a mandar 
embora antes que eu torne a descer. Agora girem todos. To-dos! 
Os pretos &sapareceram. A infeliz Lou chorava de grande, limpando os olhos ao avental. Mas 
Scarlett ficou. Custava-lhe ver a, sua filha predilecta tranquilizar-se nw braos de Rhett ao passo 
que nos seus berrara de maneira ensurdecedora. ra bastante triste contemplar aqueles bra- @cinhos 
a rodearem o pescoo desse homem e ouvir a pe@quena contar com voz sufocada a razo do seu 
susto -ela que no se dignara dizer uma palavra  me! 
- Ento - murmurou Rhett - ele sentou-se em cma de ti? Era rnuto, grande? 
- Muito ' muito... E tinha unhas compridas,.. 
- Descansa. Eu vou ficar acordado toda a noite, para, o matar,se ele tornar a vir. 
Falava com muita serenidade, de modo que ac, som ,daquela voz, Bonnie. foi espaando os soluos 
e' j pde explicar-se melhor. Numa linguagem que s Rhett compreendia ,entrou a descrever 
pormenorizadamente o monstro que lhe havia aparecido. Scarlett comeava a perder a 'Pacincia. 
No perdoava ao marido aquilo, de discutir com a filha como se se tratasse duma coisa real. 
-Por amor de Deus, Rhett... 
457 
0* 1 
Ele, porm, fez-lhe sinal que se calasse. Quando Bonnie adormeceu, por fim, deitou-a na caminha e 
puxou os lenis. 
- Esfolo vivo 'o diabo daquela preta -declarou. - Mas a culpa tambm  tua. Por que no vieste ver 
se a lamparina estava acesa? 
- Deixa-te de tolices, Rhett. A pequena  assim porque tu a tratas com esse, mimo. Todas as 
crianas tm medo do escuro, mas isso desaparece-lhes. Wade@ passou, por essa fase, e eu no 
transigi com ele, Se a deixasses chorar  vontade uma ou duas noites... 
- Dex-la cl@orar! - Por momentos, Scarlett teve a impresso de que ele ia bater-lhe. - ns a mulher 
mais insensata e mais inumana que tenho visto! 
-No quero que ela, mais tarde, se tome nervosa e cobarde. 
Cobarde? C'o@ diabos! Na se trata, de- cobardia. s incapaz de compreender as torturas dos que 
tm imaginao... coisa que te falta. Se viesse um monstro chavelhudo e de unhas compridas sentarse 
em cima do teu peito, tu mandava-lo passear 'j se -sabe... Pois olha que j te vi acordar aos 
gritos, s porque sonhaste que ias, a correr no meio do nevoeiro, E isto no foi h muito tempo. 
Scarlett ficou desconcertada porque no gostava de evocar aquele pesadelo, Alm disso lembrou-se 
de que Rhett, para a consolar, procedera mai,@ ou menos da mesma ma, nera que procedia agora 
com a, filha, Tratou, pois, de procurar outro meio de ataque. 
-Ds-lhe muito mimo e... -E hei-de continuar a dar-lho at que perca o hbito de acordar de noite e 
esquea os sonhos que a apoquentam. 
- Nesse caso - volveu Scarlett em voz custica - se te agrada assim tanto o papel de ama de 
meninos, ser melhor vires para, casa  noite, e no chegares bbado. 
-Regressarei cedo, sim, mas hei-de emborrachar-me -todas as vezes que me apetecer. 
Depois dessa noite, Rhett passou efectivamente a voltar cedo para caga. Chegava muito antes da 
hora de deitar Bonnie; depois, uma vez metida a pequena na cama, sen- @tava-se-lhe ao lado, 
pegava~lhe na, mo e s a largava quando o sono se apoderava da. filha e lhe faza afrouxar o 
punho. Nessa ocasio Rhett descia a escada na ponta dos ps, deixando a lamparina acesa e a porta 
entreaberta, de 
#
458 
,forma a ouvir a, pequena se esta acordasse e comeasse a cham-lo., Estava firmemente resolvido a 
no permitir que ela tivesse novos acessos de terror nocturno. A famlia inteira pensava na 
lamparina acesa, e muitas vezes Scarlett, Bab, Prissye Pork subiam para ver se por acaso no se 
teria\ apagado. 
Rhett deixara tambm de beber, masno foi por causa de Scarlett. Durante, meses ele excedeu, de 
facto, o que  permitida em matria de libaes e, sem 'vir o que se chama embriagado a verdade  
que cheirava muita vez, a whisky. Uma ve7,,'ao erguer Bonnie ao ar, perguntou-lhe: 
-Queres dar um beijo ao pap? A petiza torceu o nariz e esforou-se por voltar para o cho. 
- No - respondeu de maneira resoluta. - Mau... -Mau qu? 
- Mau cheiro. 0 tio AshIey no tem mau cheiro. 
- Est bem -retorquiu com, ar lgubre, colocando a pequena sobre o tapete. -Nunca, esperei 
encontrar em minha prpria casa quem me aconselhasse melhor a temperana. 
Aps este incidente, Rhett limitou-se a beber apenas um copo de vinho depois do jantar. Bonnie, 
que estava autorizada a escorropichar as ltimas gotas do copo no achava desagradvel c. cheiro 
do vinho. As faces, de hett, que haviam comeado a inchar retomaram o primitivo contorno e as 
olheiras principiar@m a perder o tom carregado que apresentavam, Corno Bonnie gostasse muito 
de passear a cavalo, Rhett passou grande parte do tempo aor ar livre, e o sol, quemando-lhe o rosto, 
deu-lhe um ar ainda mais moreno. Parecia haver ressuscitado o moo atrevida que outrora forara G 
bloqueio e que fizera Atlanta, falar ,tanto dele, nos primeiros tempos da guerra,. 
As -pessoas que lhe no consagravam muita simpatia no podiam, no entanto, deixar de sorrir ao 
v&1o cavalgar com a filha diante da sela,. As mulheres que at a se consideravam em perigo 
quando na -sua vizinhana, j se detinham na rua a conversar com o senhor Butler e a admirar a 
menina, Bonnie. E at as damas mais renitentes achavam que no podia ser mau um homem que 
estava, assim ao par das doenas e dos problemas das crianas. 
459 
53 
ERA o dia dos anos de Ashley, e Melanie, querendo fazer-lhe uma surpresa, organizara uma 
recepo, para essa noite. Exceptuando Ashley, todos sabiam disso; at WadLe o pequeno Beau, 
que se sentiam envaidecidos por os terem posto ao corrente dum segredo de tamanha importncia. 
Toda a gente boa de Atlanta fora convidada e pro~ metera vir. 0 general Gordon aceitara o convite 
em seu nome e no da famlia. Alexander Stepliens, tambm compareceria na festa se o seu precrio 
estado de sade o permitisse; e contavam com a presena de Bob Toombs, a procelria da 
Confederao. 
Toda a manh, Scarlett, Melanie, India e a tia Pitty andaram numa azfama, dirigindo os servos. na 
tarefa. de colocar cortinas lavadas nas. janelas, de arear as pratas, encerar o cho 'cozer bolos 
preparar refrescos. Scarlett nunca vira Melanie to entsiasmada e feliz. 
- Bem vs, minha, querida, no se festeja o aniversrio de Asliley desde que.--- lembras-te da festa 
nos, Doze Carvalhos, em que houve carne assada no espeto? No dia em que soubemos que Lincoln 
ia chamar voluntros? Pois  desde essa poca. Anda to cansado, trabalha tanto, que realmente 
no tem cabea para se recordar do -seu dia de anos, Que surpresa, quando osconvidados chegarem, 
depois ,do, jantar! 
-Como  que vai conseguir que o senhor Wilkes no d pelos bales no jardim, quando chegar? - 
perguntou Arche. 
Passara a manh a observar os preparativos da festa., sem querer mostrar que isso o interessava. 
Nunca assis~ tira, por dentro, a uma recepo oferecida pelag pessoas da cidade e aquilo, para ele, 
constitua uma aventura. No fazia cerimnia em exprimir o que sentia quanto, s correrias das 
mulheres (como se houvesse fogo em casa) mas no se dignava tomar parte no rebulio geral. 
Atraa-lhe em particular a ateno os bales venezianos pinta, dos por Fanny e pela, senhora Elsing, 
paig era coisa, que nunca tinha visto. Haviam-nos guardado no quarto que ele ocupava no 
subterrneo e Archie pudera, examin-los ,um por um. 
#
-Meu Deus! No tinha pensado nisso -exclamou Me- 
460 
lane. - Ainda bem, Archie, que o lembrou. Que hei-de fazer? Temas de os pendurar nas rvores e 
nos arbustos, colocar-lhes velinhas no interior e s acend-los quando chegarem os primeiros 
convidados. Searlett, s capaz de pedir ao Park que se encarregue disso quando estivermos  mesa? 
-A senhora Wilkes  muito mais ajuizada, que todas as outras mulheres, mas tambm com 
facilidade se atrapalha - observou Archie. - Esse palerma do Pork no tem nada que mexer nestas 
coisas. Pegava-lhes fogo dum instante para outro. E era pena, porque so, bem bonitos, os bales - 
dignou-se ele dizer. - Eu  que os vou pendurar enquanto a senhora e o senhor jantam. 
- Muita obrigado, Archie. - Melanie pousou nele um olhar conf @ante e cheio de gratido. -No sei 
o que faria sem a sua ajuda. Se quiser, ponha j as velas. i@ trabalho que fica feito. 
- Posso pr j - resmungou Archie; e l fa, coxeando, em direco  escada do subsolo. 
-  preciso saber levar a gua ao nosso, moinho - 
disse Melanie, rindo, depois de o velho desaparecer. - Eu queria que fosse Archie quem pendurasse 
os bales, mas sabes como ele . Nunca faz nada do que se lhe pede. Agora ficmos livres dele por 
algum tempo. Os pretos Um tanto medo de Archie que nem podem trabalhar quando o sentem atrs 
de si, 
-No queria ter em casa aquele -velho bandidodeclarou Searlett mal humora<5a. Ela e Archie 
detestavara-se mutuamente e quase nem dirigiam palavra, um ao outro. S em casa de Melanie ele, 
suportava a presena de Searlett, e mesmo assim olhava-a, com desconfiana e desprezo. - Esse 
homem ainda te vai causar aborrecimentos. 
-Oh, no faz mal a ffingum@ A questo toda  trat-lo bem e dar-IhQ a impresso, de que 
dependemos dele -retorquiu Melane.-E  to dedicado a Ashley e a Beau que sinto um descanso de 
esprito sab-lo presente. 
-Diz antes que te  dedicado -interveio India, esboando um sorriso e fixando na cunhada um olhar 
afectuoso. -Estou em crer que s a primeira pessoa que inspirou amizade a esse velho rufiodesde 
que a mulher... morreu. No fundo, deve andar desejoso de que algum te insulte para matar esse 
algum e provar assim a, venerao que tem, por ti. 
461 
- Santo Deus! Que poder de imaginao o teu! - exclamou Melanie, corando. - Sabes bem que me 
considera unia tonta. 
-No compreendo porque ligam tanta importncia s opinies desse velho fedorento - interrompeu 
Scarlett. No esquecera o que Archie lhe dissera acerca de presidirios a trabalhar por conta dela. - 
Tenho de me ir embora j, Melly. Vou almoar e, em seguida, devo comparecer no armazm e na 
estncia para liquidar vrios, pagamentos. 
- Ah, vais  estncia.?! - perguntou Melanie. - AshIey deve l ir esta tarde falar com Hugh Elsing. 
Poders ret-lo at s cinco horas? Se voltar cedo para casa, apanha-nos a fazer um bolo ou 
qualquer coisa assim, e l se vai a surpresa! 
Scarlett sorriu, j bem disposta. 
- Descansa., que no o deixo vir antes,das cinco - assegurou. 
Nesse momento, notou que India a observava com os seus olhos muito claros e desprovidos de 
pestanas. "Olha sempre para mim de maneira to esquisita quando falo de AshIey!" pensou Scarlett. 
- Demora-o o maior tempo que puderes. India ir bus-c-lo de trem. E tu, Scarlett vem cedo esta 
noite. No quero que percas nada da n@ssa festa. Nem uma migalhinha! 
No regresso a casa, Scarlett disse consigo mesma.: "No, quer que eu perca, nem uma migalhinha 
da festa? Ento por que  que no me convidou a ajud-la a receber os convidados, com Inda e a 
Pitty?" 
Em tempo normal, Scarlett pouco se importava ajudar Melanie a receber as pessoas que assistiam s 
suas reunies inspidas. Mas esta recepo no sera a maior que Melanie jamais oferecera como 
tambm era para festejar o aniversrio de AshIey, e Scarlett gostaria de estar ao lado dele a acolher 
os convidados. Sabia, porque no lhe tinham proposto isso. E, se no soubesse, o comentrio de 
#
Rhett abrir-lhe-ia os olhos. 
- Uma Renegada. a receber os vultos mais, eminentes da Confederao? Tens ideias to 
encantadoras como absurdas. J andas com muita sorte terem-te convidado para a festa. Agradece o 
facto  MeIly, por ser to leal contigo... 
Nessa tarde, Scarlett vestiu-se com mais apuro que de costume para ir ao armazm e  estncia de 
madeiras. 
462 
Envergou o vestidc> novo de tafet verde-escuro de cambiante lils e estreou o chapelinho verdeclaro 
guarnecido de plumas mais escuras. Se Rhett a deixasse usar uma franjinha ondulada na testa 
quanto melhor lhe ficaria o chapu! Mas ele jurara que lhe raparia a cabea  navalha se a visse de 
franja, e era muito capaz de o fazer, a avaliar ,pelo modo atroz como s-e portava actualmente. 
A tarde estava linda; soalheira sem ser muito quente, clara mas no ofuscante. A aragem tpida 
rumorejava nas folhas das rvores ao longo da Peachtree Street e fazia ballaras plumas do chapu de 
Scariett. 0 corao dela bailava tambm, como sempre lhe acontecia.  perspectiva dum encontro 
c<)m AshIey. Se assim que chegasse  estncia liquidasse o que devia a Hugh Elsing e aos 
carroceiros, talvez eles se retirassem e a deixassem sozinha com Aishley no pequenino, escritrio, 
Era to raro encontrar-se a s6.9 com Ashley! E Melanie ainda a pedir-lhe que o retivesse! Que coisa 
to pndega! ,No armazm, pagou a Willie e aos outros empregados sem sequer indagar se o 
negcio correra bem, apesar de saber que ao sbado, todos os lavradores dos arredores vinham 
fa'zer compras  cidade. 
No trajecto at  estncia encontrou vriae damas dos Sacolas que passeavam em magnficas 
carruagens (mas nenhuma, to -sumptuosa como a dela) e detev@-.se para falar com elas e com 
alguns homens que, de chapu na: mo, atravessaram a rua empoeirada, a fim.de a 
cumprimentarem. A tarde estava deliciosa. e Scarlett sentia-se feliz e bonita. Avanava, como uma. 
rainha no meio dos seus sbditos! Devido queles encontros, chegou  estncia mais tarde do que 
prev@Ira. Hugh e os carroceiros esperavam-na sentados numa pilha de tbuas. 
-Ashley j veio? -Est no escritrio, a ver se Consegue... verificar as Contas - respondeu Hugh, cujo 
rosto perdeu o costumado ar soturno  apario radiosa de Scarlett. 
-floje no devia preocupar-se com as contas - retorquiu Scarlett. E, baixando a voz, acrescentou: -A 
Melly encarregou-me de o demorar aqui at estar tudo preparado l em casa para, a festa desta 
noitf-> .Hugh sorria, pois tambm fora convidado. Gostava de reunies mundanas e, pelo jbilo que 
lia no rosto de Searlett, calculou que ela igualmente as apreciasse. -Uma vez 
463 
pagos Hugh e os carroceiros, ela deixou-os e dirigiu-se ao escritffio, -mostrando na sua atitude que 
no desejava que ningum a. acompanhasse. AshIey surgiu-lh pela frente, com os cabeloe a 
brilharem ao sol e um leve movimento de lbios que se -poderia qualificar de sorriso. 
- Ento, Searlett, que faz por aqui a estas horas? No ficou com a Melanie, ajudando-a a prepararme 
a surpresa? 
- Esta agora! - exclamou ela. -Voc no devia saber de nada. Melly vai ter uma desiluso. 
- Eu disfaro, no tenha medo. Serei o homem ma.,g surpreendido. de Atlanta -respondeu AshIey, 
rindo corri os olhos. 
- E quem foi que lhe confiou o segredo? 
- Esto convidados quase todos os meus conhecidos. 
0 general Gordon foi o primeiroa receber um bilhete. Disse-me ele que  costume as senhoras 
organizarem estas festas de, surpresa precisamente quando os homens decidem ficar em casa . 
noite, a limpar as armas... 0 av Merriwether tambm me preveniu, e at me contou que a nora 
projectara certa vez urna recepo em sua honra: mas fora ela a mais surpreendida, porque nesse dia 
ele tratara, s ocultas o seu reumatismo, com uma garrafa de whisky, e fie-ara to bbado, que no 
conseguiu levantar-se... Enfim, todos aqueles a quem j fizeram surpresas desta. ordem me vieram 
dar a entender que era a minha. 
-Que Patifes! -comentou Scarlett, que no pde no entanto deixar de sorrir tambm. 
#
Quando Ashl4ey tinha aquela expresso, assemelhava-se ao homem que ela conhecera nos Doze 
Carvalhos. Actualmente era to raro mostrar~se assim prazenteiro! 0 ar estava leve, o sol era 
suave... A fisionomia de AshIey parecia alegre, a sua conversa natural... Ah, como o corao de 
Searlett pulava de satisfao! Dir-se-ia que lhe inchava no peito e lhe chegava, a doer, tal se fosse 
rebentar sob a presso da felicidade e das lgrimas que o enchiam. Sentia@se ela outra- vez com 
dezasses, anos e contente como era nessa poca. Excitada, respirou com mais fora. Que desejo 
enorme de tirar o chapu de o agitar, gritando: Hurra! Deteve-a o pensamento d@ que AshIey 
ficaria sobressaltado, mas o que no pde foi deixar de rir com vontade, de rir a ponto de " lgrimas 
se lhe soltarem finalmente. Ele riu tanibm, lanando a cabea. para trs, 
464 
pensando que a hilaridade da sua, companheira provinha do facto de se haver divulgado o segredo 
de Melanie. 
- Entre, Scarlett, estou a examinar as conus... Scarlett entrou no qu-artinho que o sol doirava e 
smtou-se numa cadeira, diante da escrivaninha, AshIey seguiu-a e sentou-se tambm, mas a um 
Canto da mesa. 
- Hoje - disse ela - no nos vamo,% esfalfar a fazer somas, No me apetecem trabalhos fatigantes. 
Quando ponho um chapu novo, d-me a, impresso de que todos os algarismos me fogem da 
cabea. 
- Em especial quando o chapu  assim janota - re@darguiu ele. - Scarlett ' voc est cada vez mais 
bonita! - 
Aproximou-se, pegou-lhe nas mos, rindo, e afastou-" para lhe apreciar melhor o, vestido. - Sim, 
senhora est linda! Tenha a certeza de que nunca h-de envelhec@r. 1 
Logo que ele lhe to<--ou, Scarlett compreendeu (sem ter perfeita conscincia disso) que j esperava 
por aquela ocasio, Toda aquela tarde venturosa, sonhara com o calor das mos de A-.hley, com a 
ternura dos seus olhos, com uma palavra que demonstrasse interesse pela ma pessoa. Era a primeira 
vez, desde o dia glacial no pomar de Tara, que se ericontravam inteiramente ss, a primeira vez que 
lhe abandonava as mos. Durante quantos meses anstara por- aquele momento? Agora, porm... 
Era estranho, mas "se contacto dos dedoE; no a entusasmava tanto como seria de supor. Noutro 
tempo, ficaria logo a tremer. 0 que experimentava ao presente no passava duina Curiosa sensao 
de agrado, simplesmente amigvel. Das mos dele no correra nenhum fluido para as dela. 0 
corao permanecia calmo. Que coisa esquisita, desconcertante! Todavia era ainda o seu AzhIey, 
to belo e to amado... Ento por que motivo... 
Repudiou o pensamento que lhe atravessou o esprito. J era suficiente est@ar a seu lado sentir-lhe 
os dedos, v-lo sorrir, embora no sentisse ne@hum ardor. No entanto parecia facto sobrenatural: 
acontecer isto quando ela pensava nas palavras ainda no pronunciadas entre ambos, mas to 
fortemente sugeridas, Os olhos de Ashley fitaram-na sorridentes, corno ela outrora tanto gostava de 
ver -_=o se aos dois jamais sucedesse algo que no fosse uma contnua sucesso de bem-estar. No 
havia obstculos entre os olhos de um e de outro, ele no a observava j com aquela expresso 
arreliadora e distante. 
30 - Vento Levou - U 465 
Riu-se ela, dizendo: -Oh, AshIey, o que estou  a ficar velha, decrpita!... 
- Ora@ ora... No, Scarlett, quando tiver sessenta anos, ser ainda, a mesma para mim. V-la-el 
sempre como estava no dia da nossa ltima festa ao ar livre... sentada debaixo dum carvalho, com 
uma dzia de rapazes em volta. Sou capaz de lhe dizer como estava vestida: de branco com 
florinhas verdes, e um xaile de renda branca aos oi@bros. Tinha sapatos verdes com laos pretos e 
um chapu enorme de palha, cheio de fitas. Lembro-me muito bem porque, na priso, quando me 
sentia muito triste, evocava as recordaes como quem folheia um livro, detendo-me nos 
pormenores... 
Ashley interrompeu-se bruscamente, e o rosto. toldou-se-lhe. Retirou as mos e Scarlett, ansiosa, 
ficou  espera do que ele iria dizer depois disso. 
-Desde ento cada um de ns seguiu o seu caminho, no  verdade? Caminhos que nunca pensmos 
#
trilhar. Voc com desembarao, eu tardo e hesitante... 
Sentou-se outra vez ao canto da mesa, olhou para Scarlett e de novo se lhe esboou um florriso, na 
face. Mas j no era o sorriso que, pouco tempo antes, a tornara to ditosa. Era imbudo de tristeza. 
- Sim, partiu com desembarao e levou-me nas rodas da sua carruagem. Searlett s vezes penso 
cheio de curiosidade no que teria eu si& sem a sua ajuda. 
Ela quis logo, defend-lo, e tanto mais depressa quanto era certo que lhe vinham j ao esprito as 
palavras de 
ett proferidas a esse respeito. -Eu nunca fiz nada por si, Ashley! Sem mim, teria sido exactamente o 
mesmo que . Mais dia menos dia ser rico, com as suas qualidades. 
No, Scarlett, nunca as tive. E creio que, sem voc, eu teria soobrado... como. esBa infeliz 
Cathleen Calvert e tantas outras pessoas que usaram nomes ilustres, de velha cepa. 
-No diga coisas dessas! Acho-o to melanclico, to triste _-@rIste no estou. Nem o estarei 
jamais. Antigamente  que sim. Agora sou apenas... 
Parou 'e ela compreendeu logo em que  que ele pensava. Er@ a primeira. vez que podia ler nesse 
olhar que errava cristalino e distrado. No tempo em que s a ideia 
466 
-@ 
desse homem lhe fazia pulsar o corao, o pensamento dele permanecia hermtico; agora na pura. 
amizade fraternal que se esboava entre ambos Searlett conseguia ir um pouco mais alm na senda 
do i`mpenetrvel. Depois da rendio das tropas ele estava triste, e triste quando lhe pedira qu 
viesse para Atlanta. Agora, era uma pessoa resignada. 
-Detesto ouv-lo falar assim, Ashley-declarou com veemncia. - D-me a impresso de estar a ouvir 
Rhett, que passa odia a dizer-me coisas desse gnero. Chego a ter vontade de gritar. 
AshIey sorriu e volveu: 
- Nunca lhe passou pela cabea que Rhett e eu, no fundo ramos parecidos? 
-- No 'nunca! Voc  delicado, correcto, ao passo que ele... - Interrompeu-se de sbito, 
embaraada. 
-Mas  verdade. Os nossos pais assemelhavam-se, recebemos a mesma educao, habituaram-nos a 
defrontar os mesmos problemas. 0 que acontece  que, a certa altura do caminho, tommos rumos 
diferentes. Ainda somos parecidos, embora sejam diversas as nossas reaces. Por exemplo, 
nenhum de ns acreditou na guerra ' mas alistmo@-nos ambos e combatemos, eu no comeo, 
ele no fim, Sabamos que essa guerra era um erro sabamos que estava perdida de antemo. Aceitei 
lutar por' uma causa desesperada. Ele, no. Penso s vezeE,@ que Rhett  que teve razo, e, de 
novo. 
-6h, AshIey, quando deixar de encarar sempre os dois aspectos do mesmo problema?! -perguntou 
Scarlett, sem manifestar contudo aquela impacincia que lhe era peculiar.-Os que fazem isso jamais 
chegam a qualquer coiicluso. 
-1@ verdade Scarlett, mas... Ao certo a qual concluso queria chegar? Eis o que muitas 
vezes'Inquiri de mim mesmo. Afinal, nunca pretendi chegar a nenhuma. Sempre desejei ser eu 
mesmo, e nada mais. 
E ela, o que quisera alcanar? A pergunta, reflectindo bem, era tola. 0 seu propsito, no fim de 
contas fora obter dinheiro e segurana. Todavia... As Welas e@@rulharam-se-lhe. Tinha ela 
dinheiro e tanta segurana como a que se poderia desejar num mundo perturbado. Matutando, 
porm, no caso, conclua que isso no era bastante. 
0 dinheiro no a tornara particularmente feliz, embora 
467 
contribusse para a fazer menos receosa do futuro. "Se eu houvesse tido dinheiro e sossego, e se te 
tivesse tambm a ti ao mesmo tempo, ento as minhas ambies estariam realzadas". Mas no 
proferiu estas palavras temendo quebrar o encanto que -se estabelecera entre el, temendo que o 
esprito de AshIey se lhe tornasse outra vez impenetrvel, 
- Deseja ser voc. mesmo e nada mais... - repetiu Scarlett com um riso amargo. -Pois olhe, no ser 
#
eu prpria  que sempre foi difcil para mim, Os meus desejos eram outros, e parece-me que j 
obtive o que queria: ser rica, deixar de ter preocupaes... 
- Mas oia, Scarlett. Nunca lhe velo  ideia que me fosse indiferente ser rico ou pobre? 
No, nunca lhe passara pela cabea que houvesse al~ gum sem interesse pelo dinheiro. 
- Que pretende, nesse caso? 
- Agora j no sei. J soube, mas quase nem me lem~ bro. Queria,'sobretudo, que me deixassem em 
paz, que no me viessem maar pessoas de quem no gosto, que no me obrigassem a fazer coisas 
que me desagradam. Talvez deseje... sim, desejava que os bons tempos voltassem; mas no voltam 
e a sua lembrana, obceca-me... Ando -como que atordoado com o fragor do mundo a desmoronarse 
 minha volta. 
Scarlett ficou silenciosa. Compreendia o, que AshIey queria dizer. A prpria entoao da sua voz 
ajudava a evocar os tempos idos, fazia-lhe pulsar c> corao. Mas desde atluela manh em que 
doente e desamparada, dissera no jardim dos Doze Carv@lhos, que nunca mais olharia para trs 
voltara definitivamente as costas ao passado. 
- Pre!ro a poca em que vivemos -disse ela por fim, mas sem se atrever a encarar AshIey. -H 
sempre qualquer coisa de interessante a fazer. Entretenimentos no faltam. A vida hoje  
exuberante, e no soturna como antigamente. (Oh, dias ociosos de outrora, oli, serenidade do 
entardecer nos campos! Rsossonoros que enchiam as' casas! Calor doirado da existncia de ento, 
tranquila certeza do dia de amanh! Como posso eu renegar-vos?) Prefiro a poca em que vivemos - 
repetiu Scarlett; mas a sua voz tremia. 
AshIey tornou a pr-se de p e, com um sorriso de 
468 
incredulidade, agarrou no queixo de Scarlett e obrigou-a a fit~lo. 
- Que pobre mentirosa me saiu, Scarlett! Concordo que a vida actual seja exuberante, e a  que est 
o mal. Os tempm antigos seriam menos divertidos, mas possulara calma, beleza e encanto muito 
especiais. 
Com o esprito a debater-se entre dois caminhos opostos, Searlett baixou os olhos. 0 som da voz de 
AshIey e o contacto da sua mo abriam docemente portas que ela fechara para sempre. Para alm 
dessas portas estava a beleza doutros tempos. A pouco e pouco, tivadiu-a o desejo, triste  
lancinante de reentrar no passado, Mas sabia que tinha de impedir que as portas se escancarassem, 
por muito belo que fosse o panorama que elas descobrissem. Para avanar, no se - pode ir vergado 
ao peso de saudades, 
Ashley largou~lhe o queixo e tomou-lhe a mo entre as suas. 
- Lembra-se... - principiou ele. E, na memria dela ressoou a voz dum sino- "No olhes para trs, 
no olhes para trs!" 
Mas no fez caso -da preveno. Arrastava~a uma onda de felicidade. Sim, acabara por 
compreender Ashley. As suas almas entendiam-se. Aquele instante era demasiadamente precioso 
para que o perdesse, quer viesse ou no, mais tarde, a lamentar-se, 
- Lembra-se? - continuou ele. E, sob o sortilgio dessa voz, desapareceram as paredes nuas do 
escritrio o tempo desapareceu tambm; e e!-los a cavalgar lado a'lado, em plena Primavera. 
Conforme ia Ashley falando, mais lhe apertava os- dedos na mo, mais a voz se tornava duma 
tristeza mgica, tal -como nas velhas canes esquecidas. Scarlett podia escutar o tinir alegre dos 
arreios enquanto seguiam debaixo das rvores, a caminho. do piquenique dos Tarletoris; ouvia as 
suas prprias gargalhadas, via o sol brilhar nos cabelos de oiro do companheiro, apreciava a 
distino com que ele se mantinha sobre a sela. Na voz dele havia msica, msica de violinos e de 
banjos ao som dos quais danavam na casa que j no existia. o longe ladravam ces de caa, os 
charcos tomavam tons sombrios: era uma noite de Outono, ao luar, Enchia o ar o aroma dos doces 
de ovos, viam-se ramos de gilbardeira sorrisos no rosto dos brancos e dos pretos: era Natal. 
dhegavam de 
469 
k . . 
#
tropel os amigos de outrora, rindo como se no tivessem morrido h muitos anos: Stuart e Brent, 
pernaltas ruivos, brincalhes; Tom e Boyd, fogosos como poldros; Joe Fontane, com o seu olhar 
ardente; Cade e Ralford Calvert e a sua lnguida elegncia. E ainda John Wilkes; e Cerald, 
congestionado pelo lcool. Depois um murmrio, um perfume discreto: era Ellen. De tudo isto se 
evolava unia sensao de segurana, a certeza de que o amanh lhes traria uma felicidade igual  do 
dia de hoje. 
Asliley parou de falar ' e os dois fitaram-se nos olhos, por um longo momento, silenciosos e calmos. 
Entre eles flutuava a saudade da juventude perdida, que tinham vivido lado a lado sem dela, se 
darem conta. 
"Agora sei por que  que no pode ser feliz", pensou Scarlett, melanclica. "Ainda no o havia 
compreendido, Tambm no sabia o motivo pelo qual eu no conseguia igualmente gozar da 
felicidade. Mas o qu? Estamos a falar como velhos! Sim, como velhos que desfiam cinquenta anos 
de recordaes. E no o somos ainda! n que se passaram muitas coisas no, intervalo. Houve tantas 
mudanas que temos a impresso dum tempo infinito... Ah, no, no somos velhw!" 
Todavia ao olhar para Ashley notou que ele j no tinha o espiendor da mocidade. De @abea 
curvada, mirava distrado a mo de Scarlett, que conservava entre as suas, e ela pde verificar que 
esses cabelos, outrora loiros e brlhantes, se haviam tornado dum tom grisalho, como o i@eflexo do 
luar numa gua tranquila, A radiosa tarde de Abril perdera muito da sua beleza ofuscante, tal qua 
acontecia na paisagem ntima do corao; e de ambas essas recordaes ficava um sabor amargo, 
como o da noz da galha. 
"No lhe devia ter permitido que me deixasse evocar o passado" pensou ela, cheia de desnimo. "Eu 
tinha razo em querer faz-lo. Sofre-se muito e, com o corao, despedaado, tambm j no nos 
interessa olhar em frente. Nisso  que Ashley cometeu erro, J no sabe defrontar o futuro, tem 
medo, dele; mas tambm no -,r o presente e  natural que no se incline sobre o pretrito. Antes 
eu no compreendia, isto. Jamais compreendera Ashley. Oh,'Ashley, meu querido, nunca devias 
olhar para trs. De que servir? Eu fiz mal em-ceder -tentao. Para que me pus 
470 
a evocar os dias felizes? Sofre-se, o corao despedaa-se, ficamos descontentes de ns mesmos". 
1,evantou-se, ainda com a mo entre as de AshIey. Tinha de se ir embora. Desanimava-a falar do 
passado, contemplar o rosto fatigado e triste do seu companheiro. 
-Percorremos um longo caminho depois disso -disse ela, diligenciando dominar o tremor da voz e 
vencer o n que sentia na garganta. - Nesse tempo, fazamos belas projectos, no  verdade? - E 
acrescentou, num mpeto: - 
Oh, Ashley, tudo se passou ao contrrio do que prevramos? 
- Nada sucede como se deseja - respondeu ele. - 
-A vida no nos d o que esperamos dela, Aceitemos, pois, o que se nos oferece e regozijemo-noe 
pelo facto de no ser pior. 
0 corao de Scarlett, ficou subitamente cheio de dor e cansao quando ela pensou no longo 
caminho que percorrera. Na memria surgiu-lhe a imagem da jovem Scarlett O'Hara que tanto 
gostava de se ver rodeada de admiradores e de usar vestidos bonitos, e que tencionava ser um dia, 
quando tivesse tempo, uma grande senhoracomo Ellen. 
De repente, as lgrimas saltaram-lhe dos olhos e es,correram-lhe lentmente pelas faces. Incapaz de 
proferir uma palavra, Searlett ficou a olhar para AshIcy como uma criana desgostosa. Ashley no 
disse nada, mas puxou-a para si, apoiou-lhe a cabea no ombro e encostou a sua cara  dela. Scarlett 
dexou-se estar assim e abraou-o pela cintura, As lgrimas estancaram-se-lhe, 
Era to bom, to consolador, sentir-se nos seus braos, sem paixo, sem ardor, apenas como amiga 
querida! AshIey tinha recordaes iguais s dela, conhecera-a na juventude, assistira  sua entrada 
na vida e acompanhara-a sempre. S ele a podia compreender. 
Ouviu o som de passos l fora, mas no fez caso, supondo que fossem os carroceiros a sair da 
estncia. Escutava o bater compassado, do corao de AshIey. Bruscarnente, sentiu-se repelda. 
Espantada com a. violncia do gesto, Scarlett ergueu a cara e viu AshIey a olhar por cima do seu 
#
ombro, na direco da entrada. 
Voltou-se. A porta estava India, lvida, de olhos faiscantes, e Archie, malvolo, como um papagaio, 
zarolho. Atrs deles encontrava-se a senhora Elsing. 
471 
Scarlett nem soube como saiu do escritrio. Mas retirou-se logo por ordem de AshIey, a quem 
deixou a discutir com Archie no compartimento exguo e,  entrada, India e a senhora Elsing, que 
lhe voltaram costas  sua passagem. Foi direita para casa, acabrunhada de vergonha e de medo. Na 
sua imaginao, Archie, com as suas barbas patriarcais, assumia as propores dum arcanjo 
vingador sado das pginas do Testamento Velho. 
A casa estava deserta e silenciosa nessa tarde de Abril. Os criados tinham ido a um enterro e as 
crianas brincavam no jardim de Melanie. 
Melanie! Ao lembrar-se dela, Scarlett sentiu um calafrio, enquanto subia a escada para se refugiar 
no quarto de dormir. Melanie seria informada. India dissera que lhe contaria tudo. Oh, India ficaria 
muito ufana em falar! Pouco lhe importava denegrir AshIey magoar Melanie, 
anto que pudesse dizer mal de S@rlett. E a senhora Elsing tambm havia de dar  lngua, embora 
no tivesse visto nada, pois que India e Archie lhe barravam a entrada do escritrio. Mas isso no a 
impediria de falar. Toda a cidade ficaria a saber do caso nessa mesma noite. E no dia seguinte de 
manh, ao primeiro almoo, at os pretos comentariam o sucedida. Na recepo de Melanie, as 
senhotas reunir-se-iam nos cantos da sala para cochichar mais  vontade. Searlett Butler derrubada 
do seu pedestal! De boca para boca, a histria seria aumentada, deformada... Quem as faria calar? 
De facto, tinham-na encontrado lavada em lgrimas nos braos de Ashley. Mas, antes de a noite 
descer, todos afirmariam que os tinham surpreendido em flagrante adultrio. E, afinal, haviam sido 
to inocentes aqueles instantes que ela passara junto, de Ashley! Com a raiva no corao, Scarlett 
disse consigo mesma: "Ainda se nos apanhassem naquele dia de Natal, em que acabava a sua 
licena, quando o beijei... Ou no pomar de Tara, quando lhe pedi que fugisse comigo! 0h. se nos 
surpreendessem em qualquer dessas ocasies ei@ que fomos realmente culpados! 0 caso seria 
diferente. Mas agora... agora que ele me apertava num abrao puramente fraternal ... " 
Ningum, contudo, lhe aceitaria esta explicao. No encontraria uma nica amiga que tomasse a 
sua defesa. Nenhuma voz se ergueria uara dizer: "Estou convencido de que no havia nenhum mal!" 
Scarlett ofendera os seus velhos amigw, j desde longa data; quem, dentre esses, 
472 
tomaria o seu partido? As suas antigas rel@es, que em silncio lhe sofriam a arrogncia, 
aproveitariam a ocasio para a vilipendiar. Embora lastimassem ver um homem como Astiley 
Wilkes envolvido no caso ' eles no admitiriam nenhuma explicao no sentido da inocncia. E, 
como de costume, lanariam todas as culpas sobre a mulher. 
Scarlett teria ainda foras de suportar o desdm, as afrontas, os sorrisozinhos, os comentrios dos 
outros... Mas poderia enfrentar Melanie? No sabia bem por que motivo lhe era particularmente 
doloroso que Melanie soubesse, mais do que outra qualquer pessoa. Sentia-se apavorada em 
demasia, dominada em excesso pela sensao das cul~ pas passadas para que se esforasse por 
compreender. E, ao pensar no que seria o olhar de Melanie quando India lhe contasse que a 
surpreendera nos braos de Ashley, Scarlett desatou a soluar. Que faria Melanie quando o 
soubesse? Deixar o marido? Que outra resoluo tomar que no comprometesse a @;ua dignidade? 
"E que faremos, eu e Ashley?" murmurou desesperada, enquanto as lgrimas lhe inundavam o 
rost@. "Oh, Astiley vai morrer de vergonha! Deve odiar-me, pelo mal que lhe cause!" De sbito as 
lgrimas estancaram-se, e um medo mortal lhe atravessou o corao. "E Rhett? Que fatria Rhett?" 
Talvez nuncachegasse a sab-lo. Como era aquele velho provrbio, aquele provrbio cnico? Ah, 
sim: "o marido  o ltimo a saber". Decerto ningum lhe diria. Seria preciso ser muito corajoso para 
dizer tal coisa a Rhett Bufler, porque este tinha fama de disparar primeiro o revlver e pedir ento 
esclarecimentos. Oxal no houvesse ningum com coragem de o informar! Lembrou-se, porm, da 
cara de Archie no escritrio da serrao esse olhar frio impiedoso, cheio de averso por ela e 'por 
todas as m@lheres. Archie no temia Deus nem os homens e odiava as adlteras. J assassinara 
#
uma. Dissera que ia prevenir Rhett, e f-lo-la com certeza, apesar de todas as diligncias de Asliley 
para o. dissuadir. A no ser que Ashley o matasse, ,Archie contaria tudo a Rhett, pois tal julgaria ser 
o seu dever de cristo. 
Scarlett, despiu-se e estendeu-se na cama, com os pensarnentos a lhe rodopiarem loucamente na 
cabea. Se pudesse fechar a porta  chave e no tornar a, ver ningum! Sentir-se-ia ao menos, em. 
@;egurana. Era provvel que Rhett no f'Gsse informado nessa mesma noite, e ela ento 
473 
mandar-lhe-ia dizer que estava com enxaqueca e no ~a comparecer na recepo. Na manh 
seguinte arranjaria uma desculpa, comear-ia a preparar a sua defesa. 
"No quero pensar nisso agora" disse consigo, enterrando a cabea na almofada. "F@ensarei mais 
tarde, quando tiver foras ... " 
Anoitecia, e os criados j tinham voltado. Scarlett teve a impresso de que faziam menos barulho 
que de costume ao pr a mesa para o jantar. Ou seria iluso do seu esprito atormentado? Bab veio 
bater-lhe  porta mas Scarlett recambiou-a, dizendo que no queria comer' nada. Passou-se o tempo, 
at que ouviu Rhett a subir a escada. Foi-,se enchendo de toda a coragem, para o enfrentar, mas 
Rhett atravessou o corredor e entrou no quarto dele. Searlett respirou. 0 marido no sabia de nada. 
Graas a Deus, desde o dia m que ela propusera aposentos separados, Rhett respeitara sempre 
oseu. pedido e nunca pusera os ps no quarto da mulher. Ainda bem, porque se a visse nesse 
momento perceberia pela sua cara que algo de anormal acontecera, Assim, ela tinha tempo de se 
recompor. Tempo? Mas que significava isso? Parecia-lhe que o tempo parara. desde aquele terrvel 
minuto em que a haviam encontrado nos braos de Ashley, Ouviu Rhett; andar c e l nos aposentos 
dele e trocar algumas palavras com Pork. Scarlett no se sentia ainda com nimo de o chamar, a fim 
de o prevenir que no podia ir a casa de Melanie. Imvel, no escuro, continuou deitada, na cama, 
tremendo dos ps  cabea. 
Da a pouco Rhett batia-lhe  porta, 
Entra! - isse ela, esforando-se por dominar a voz. 
- Convidas-me realmente a penetrar no santurio? - 
perguntou Rhett, abrindo a porta. 
Estava escuro e Scarlett no lhe distinguia as fei~. 
0 timbre da sua voz tambm nada lhe indicava. Rhett entrou e fechou a porta. 
-J te vestiste para a recepo? 
- Tenho imensa pena, mas estou com enxaqueca. - 
Como a sua voz soava natural! E abenoada escurido que reinava no quarto! - Parece-me que no 
posso ir. Vai tu, Rhett, e desculpa-me junto de Melanie. 
Seguiu-se um silncio, at, que Rhett falou, sati-csticamente, arrastando as palavras: 
- Que desavergonhada to cobarde que tu s! 
474 
Ele sabia! Scarlett tremia toda, incapaz de proferir fosse o que tosse. Ouviu 'Rhett tactear no escuro, 
acender um fsforo, 0 quarto iluminou-se de repente. Rhett aproxiniou-se da cama e observou a 
mulher. Esta notou que ele estava -com o f ato de cerim6nia. 
-Levanta-te-ordenou ele em voz nexpressva.Vamos 1 recepo de Melanie. Trata de te arranjares 
depressa. 
- Oh, Rhett, no posso! Como vs... -Sim, estou a ver. Levanta-te. -Rhett, Archie atreveu-se... - 
Atreveu-se. Archie  um valente, -Devias mat-lo por te vir contar mentiras... -Tenho o estranho 
costume de no matar as pessoas que dizem verdades. Mas agora no  altura de discutir. Levantate. 
Scarlett sentou-se na cama e puxou para si o roupo, sem desviar os olhos- de Rhett. A sua cara 
trigueira mantinha-se impassvel. 
-No quero ir  festa, Rhett. No quero Ir a -casa de Melanie enquanto. . no se desfizer este... 
equvoco. 
- S@ hoje no apareceres em pblico, nunca mais poders mostrar-te nesta cidade. E embora eu 
tolere que minha mulher se porte mal, no tolero que seja cobarde. H"e ir a essa festa, nem que 
#
toda a gente te volte as costas e a senhora Wilkes te expulse de casa. 
- Rhett deixa-me explicar... ' -No I@ tempo, para explicaes. Veste-te, 
- India, Archie e a senhora Elsing enganaram,". .E detestam-me, todos eles. India tem-me tanto dio 
que nem hesitaria em dzer mentiras a respeito do, irmo 96 para me prejudicar, Se me deixasses 
expliear-te... - "Oh, Virgem Santa!" pensou Scarlett, aflita. "Se ele me responde "Pois explca", que 
lhe hei-de dizer?" -Devem ter -contado as maiores mentiras a toda a gente. No quero ir  reunio. 
desta, noite, 
- Hs-de ir, nem que eu te leve arrastada pelos cabelos ou te obrigue a andar  fora de pontaps no 
lindo traseiro. 
Os olhos de Rhett tinham um brilho metlico quando, com um puxo, a fez pr-se de p. Em 
seguida, apanhou do cho o espartilho e atirou-lho. 
-Pe isto. Eu me encarrego de o atar. No precisas 
475 
de chamar a Bab. 0 que tu querias era fechares-te  chave e ficares aqui acaapada corno cobarde 
que s. 
- No sou cabarde! - protestou Scarlett, esquecendo os, seus terrores. -Eu... 
- No recomeces com a histria de que mataste um yankee. e que enfrentaste as tropas de Sherman. 
s cobarde, alm doutras coisas. No  por tua causa que quero te apresentes na recepo desta 
noite. ]@ por causa de Bo`nnie, No podes comprometer-lhe o futuro, percebeste? Vamos, 
despacha-te, pe o espartilho. 
Scarlett despiu o roupo  pressa e ficou em camisa. Se Rhett reparasse como ela era bonita em 
camisa, talvez lhe desaparecesse da cara aquela expresso. assustadora. No fim de contas, desde 
muito tempo que no a via naquele traje. Mas- Rhett nem para ela olhou, Abrira o armrio onde a 
mulher pendurava os vestidas e fazia rpida inspeco. Por fim, tirou de l um vestido novo, de seda 
verdeJade, muito decotado e com um molho de rosas de veludo * arrematar as pregas que se uniam 
atrs sobre os rins. 
- Enf ia isto -disse, arremessando-o pa@a cima do leito * aproximando-se de Scarlett. -Esta noite, 
nada de cores modestas como cinzento e lils, que s convm a senhoras srias. T@ns de ir com tua 
bandeira hasteada, e bem presa ao mastro, seno ainda eras capaz de a arrear. E bastante carmim na 
cara. Estou convencido que a mulher apanhada em flagrante delito de adultrio pelos Fariseus no 
estaria to plida como tu. Volta-te. 
Agarrou nos cordes do espartilho e puxou com tanta fora que Searlett, assustada e humilhada 
soltou um grito. 
-Di? -observou Rhett, escarninho. '-]: pena que os atilhos no estejam de roda do pescoo. 
A vivenda de Melanie era um mar de luzes; j no fim da rua se ouvia o som da msica. Quando a 
carruagem parou, Rhett e Scarlett sentiram o burburinho duma multido alegre. A casa estava cheia 
de convidados. Via-se gente nas varandas e at sentadas nos bancos do jardim iluminado pelos 
bales venezianos. 
"No quero entrar... no posso", dizia Scarlett consigo mesma dentro da carruagem, amachucando o 
leno que tinha na mo. "Vou fugir para qualquer parte, para Tara... Por que  que Rhett me obrigou 
a vir? Como  que estas 
476 
pessoas me acolhero? E Melanie? Oh, nem tenho cara de me encontrar com ela! Vou fugir". 
Como se lhe adivinhasse o pensamento, Rhett. agarrou-a pelo brao, a ponto de a magoar. 
- Nunca, vi urna criatura de sangue irlands to cob&rde. Para onde foi a coragem de que tanto te 
ufanava%? 
- Por amor de Deus, Rhett, voltemos para.casa e deixa-me explicar... 
- Tens uma eternidade para dar explicaes e s uma noite para seres uma mrtir no circo. Vamas, 
apeia-te, jia. Quero ver os lees devorarem-te. 
Scarlett subiu o passeio conforme pde. 0 brao de Rhett a que ela se agarrava, tinha a firmeza, do 
granito, e esse contacto dava-lhe certa coragem. Que diabo! Pos>sua estofo para enfrentar essa 
#
gente, e enfrent-la-la. Quem temia ela, afinal? Um bando de linguareiras invejosas, Pois haviam de 
ver! 0 pior era Melanie... 
Estavam j na varanda da entrada e Rhett, de chapu na Mo, cumprimentava, para a direita e para a 
esquerda com voz suave e despreocupada. Quando entraram na sala, a inrca parou e Scarlett 
'perturbada, teve a, impresso de que essa massa. de gente@ vinha contra ela com um rugido de 
vagas encapeladas e depois recuava, recuava, e o seu barulho ia esmorecendo. Iriam todo@ voltarlhe 
costa!@? Pois que voltassem! Levantou a cabeo,& e os olhos franziram-se-lhe num %orri@so. 
Antes de Searlett ter tempo de@ cumprimentar as pessoas que se encontravam mais perto da 
entrada, algum avanou atravs da chusma de convidados. Sobre a sala desceu estranho silncio, 
que deixou Scarlett transida. Ento seguindo o estreito caminho que se abria  sua frente: Melanie 
aproximou-se a toda a pressa, a fim de ser a primeira a falar com a recm-vinda. Com o busto 
franzino empiertgado e queixo erguido, parecia indignada, e, ao v-Ia, dir-se-la que ningum seno 
%carlett a irittressava naquela sala. Ao chegar ao seu lado, passou-lhe o brao pela cintura. 
- Que lindo vestido, minha querida - proferiu ela com VOZ bem ntida. - Queres ser um anjo, 
Searlett? India no Pde vir c esta noite. Ajudas-me a fazer as honras da ca2a? 
477 
54 
DE novo refugiada. no seu quarto, Scarlett, atirou-se para cima da cama sem se preocupar com o 
vestido de seda nem com o molho de rosas que o enfeitava, e ali ficou inerte largo tempo sentindo 
ainda a angstia que a domnava-quando estivera a receber convidados entre Ashley e Melanie. Que 
horror! Antes afrontar outra vez as tropas de Sherman que tornar a ver-se naquela situao. 
Levantou-se, por fim, e ps~se a passear no quarto, seineando peas do vesturio. Os nervos 
contidos toda a noite reagiam agora, e Scarlett comeou a tremer. Os ganchos caram-lhe das mos 
quando ela desprendeu o cabelo e. ao tentar escov-lo como fazia sempre, antes de se deitar, 
magoou-se na fonte com as costas da escova, Por vrias ocasies foi em bicos de ps at  porta e 
ps-se  escuta, mas o vestbulo do andar de baixo estava silencioso como um tmulo. 
Rhett mandara-a sozinha para -casa, na carruagem, depois de terminada a recepo, e Scarlett 
agradecera a Deus esse descanso temporrio. Rhett no regressara. E ainda bem porque ela no o 
poderia encarar, humilhada, assustda, a tremer. Mas onde estaria o marido? Naturalmente em casa 
daquela criatura. Pela primeira vez ' Scarlett regozijou~se por existirem mulheres como Belle 
Watling. Que sorte Rhett ter onde ficar, enquanto no lhe passasse a disposio homicida! Searlett 
reconhecia que no era normal alegrar-se com o facto de o marido encontrar-se em casa duma 
meretriz, mas no o podia evitar. Quase se sentiria contente se o soubesse morto, pois assim no 
teria de o ver nessa noite. 
"Amanh... amanh j no ser a mesma coisa". No dia seguinte inventaria uma desculpa, um 
contra-ataque, arranjaria maneira de convencer Rhett de que ele no tinha razo. No dia seguinte, 
estaria atenuada a lembrana daquela festa angustiante e ela j no tremeria. No veria sempre  sua 
frente a, cara de Astiley, nem se acusaria constantemente de ter sido a causa da sua vergonha. E 
porque era ela a causa da vergonha de Ashley, querer-lhe-ia mal? Decerto a detestava agora... agora 
que ambos deviam a sua salvao a Melanie,  sua atitude de revolta, ao timbre afectuoso da sua 
voz, quando atravessara a sala de 
478 
soalho luzidio, para abraar Scarlett e enfrentar a assistncia curiosa, malvola e secretamente 
hostil. Como Melanie conseguira abafar o escndalo! No deixara Scarlett um s instante, e todos 
os presentes, um pouco espantados, tinham~se mostrado corteses, embora um tanto, frios. 
Oh que ignomnia, ter Melanie como escudo a defend-la daqueles que a execravam, que de boa 
vontade a poriam de rastos com os seus comentrios maledicentes! Ter-se abrigado atrs da cega 
confiana de Melanie! 
A este pensamento, Se-arlett sentiu um arrepio per-correr-lhe o corpo. 
"Se quero dormir", disse consigo, "devo tomar qualquer coisa. Preciso de beber at chegar-me o 
sono". 
#
Enfiou um roupo por cima da camisa e saiu precipitadamente para o corredor escuro, quebrando o 
silncio com o bater dos saltos das chinelas. Ia j a, meio da escada quando viu um raio de luz a 
filtrar-se sob a porta da sala de jantar. 0 corao, parou-lhe de pulsar por um momento. Estaria 
acesa aquela luz quando ela chegara e, na rua perturbao, no teria reparado? Ou seria Rhett quem 
ali se encontrava? Podia ter entrado pela porta da cozinha, sem fazer barulho... Se era Rhett ela 
voltaria. para o quarto- em bicos de ps e desistiria 6 conhaque, por muito que o desejasse. Assim, 
evitaria a presena do marido. Uma vez no quarto, estaria em segurana, porque se fe4cha@ria  
chave. 
Abaixou-se para descalar as chinelas e bater em retirada sem que ningum a ouvisse, quando a 
porta da sala de jantar se abriu com violncia e o vulto de Rhett se destacou  vaga claridade duma 
vela. Parecia enorme, grande como ela nunca o vira,, tal uma massa negra a baloiar-se levemente. 
-Venha fazer-me companhia, senhora Butler-disse ele em voz um tanto pastosa. 
Estava embriagado e mostrava bem que o estava.. At a, por muito copiosa que fossem as suas 
libaes, sempre se dominara, Searlett ficou imvel, sem saber que partido tomar. No respondeu 
nada, mas hett levantou o brao num gesto imperioso. 
-Anda c! - exclamou brutalmente. "Deve estar bbado como um cacho", pensou ela, a tremer. "Em 
geral, quanto mais bebe mais delicado ". De facto, nessas ocasies era ma-is sarcstico, mais 
custico 
479 
nas frases que proferia, mas a 'sua atitude era, sempre correcta... excessivam ente correcta. "No 
devo dar-lhe a perceber que o temo", disse Scarlett consigo mesma, E, aconchegando a gola do 
roupo ao pescoo, desceu a escada, de cabea erguida e a martelar com os saltos nos degraus. 
Rhett desvidu-se para a deixar passar e fez-lhe uma vnia de to acentuada troa que Searlett 
estremeceuEstava sem casaca e a gravata caa-lhe de cada banda do colarinho desabotoado. A 
camisa, aberta, deixava ver o tufo espesso dos cabelos pretos que lhe cobriam o peito. Estava 
desgrenhado, com os olhos injectados de sangue. Em cima da mesa ardia uma vela, pequeno foco 
luminoso que espalhava. sombras monstruosas no tecto alto do quarto e fazia os mveis macios 
assemelharem-se a animais acocorados. No meio da mesa sobre uma bandeja de prata, via-se uma 
garrafa rode@da de copos. 
- Senta-te - ordenou rspido, reentrando, atrs dela. Searlett sentia-se invadida por um medo de nova 
espH& cie, medo que tornava ridculo o alarme que ela sentira antes@ ao pensar que ia defrontar-se 
com o marido. Ele agora parecia~lhe um desconhecido. Desconcertavam-na os seus modos 
estranhos, Nunca o tinha visto, nem nos m(>mentos mais ntimos, portar-se com tanta grossaria. At 
quando estava encolerizado, Rliett mantnha-se cermo.nioso, sem abandonar o tom satrico ' e o 
whisky servia usualmente para intensificar aquelas qualidades. A princpo, a mulher sentira-se 
irritada e tratara de combater esses ares distantes, mas havia acabado por se acostumar, achando que 
isso era cmodo. Durante anos supusera que nada o interessava a valer e que no passava de 
brincadeira tudo o que a existncia lhe deparava, inclusivamente ,a mulher. Ao v~lo, porm, nesse 
instante, teve o pressentimento de que havia alguma coisa que lhe importava mUto. 
- No h razo para que no tomes o teu capito, ainda que eu no me encontre em condies de 
estar decentemente em casa - observou ele. - Queres que te sirva? 
-No quero tomar nada -respondeu ela secamente. 
- Ouvi um rudo e vim ver o que era. 
- Nada ouviste, criatura. Se soubesses que eu estava aqui, conservar-te-ias no quarto. Senti-te andar 
l em cima> 
480 
dum lado para outro. Necessitas de beber, esta  que  a verdade. 
-J disse que... Rhett apoderou-se da garrafa e, com m<> trmula, encheu um copo. 
- Rebe! - E apresentou-lhe o copo diante dos olhos. -Ests a tremer da cabea aos ps. Ah, no te 
ds esses ares!... Sei que bebes s escondidas e que no  pouco. H muito tempo que desejo 
aconselhar-te a acabar com esses fingimentos e escorropichar s claras e  vontade. Que me importa 
#
a mim que te embebedes? 
Scarlett pegou no copo, amaldioando em silncio, o marido. Ele, porm, lia-lhe os pensamentos, 
como num livro aberto, Sempre tivera essa faculdade-e, era Rhett precisamente o homem de quem 
ela desejaria mais esconder aquilo que pensava. 
-Bebe, j te disse! Ergueu ela o brao e esvaziou. o copo dum trago, como fazia Gerald, Nem se 
lembrou de que esse gesto denunciava longa prtica. Rhett notou o movimento e teve um trejeito de 
lbios. 
- Senta~te ' para trocarmos impresses acerca da elegante festa a que acabmos, de assistir. _ Ests 
embriagado -retorquiu Scarlett, friamente - 
e eu vou-me deitar. 
-Estou embriagado, e ainda estarei mais antes de findar a noite. Mas no vais para acama... por 
enquanto. Senta-te. 
Na voz havia a serenidade habitual, mas atravs das suas palavras advinhava-se uma violncia 
prestes a explodir, a fustigar como chicotadas, Searlett manteve-se de p, hesitante. Ento Rhett 
aproximou-se, agarrou-lhe no brao com tal fora que a magoou e deu-lhe um repelo, Scarlett 
sentou-se logo, soltando um gritnho de dor. Agora tinha medo, muito mais do que tivera em toda a 
sua vida. Como ele se inclinasse para a mulher, esta notou-lhe a vermelhido das faces e o fulgor 
inquietante do olhar. Algo de estranho lhe transparecia nos olhos, qualquer coisa mais Profunda do 
que ira, mais forte do que amargura, Ftou-a durante tanto tempo que Scarlett perdeu o ar de desafio 
que adoptara e teve de baixar as plpebras. Por fim, Rhett sentou-se numa cadeira em frente dela e 
tornou a encher o seu copo. Searlett aproveitou esse intervalo para reflec- 
31 - Vento Levou - 11 481 
tir e preparar a sua defesa; mas antes de o marido falar, nada podia dizer, pois no sa@ia ao certo 
que gnero de acusaes lhe faria Rhett. 
Este, entretanto tomava a, bebida aos golinhos e observava Searlett por 'cima da borda do copo, 
enervando-a assim ainda mais do que estava. Ficou uns momentos sem mudar de expresso at que, 
sempre a olhar para ela, desatou a rir. Aquele riso inesperado f-la tremer. 
- Foi uma comdia divertidssima a desta noite, no te parece? 
Ela no respondeu e, no esforo de dominar o tremor, os dedos dos ps crisparam~se-lhe dentro das 
chinelas. 
- Uma agradvel comdia a que no faltou nenhuma personagem. A aldeia reunida para lapidar a 
mulher culpada, o marido atraioado a defender a esposa como compete a umcavalheiro, a esposa 
trada, animada de esprito cristo envolvendo tudo aquilo no manto da sua reputao imaculada... E 
o amante... 
-Por favor! - exclamou Scarlett, pondo-se de p. -Queres que me cale? No. Acho muita piada ao 
caso para ficar por aqui. Quanto ao amante, estava com ar apalermado e o seu desejo era sumir-se 
pelo cho abaixo. Que efeito te produziu, minha jia, veres a mulher que odeias tomar a tua defesa e 
endossar todas as tuas culpas? Senta-te. 
Scarlett tornou a sentar-se. 
- No ficaste a gostar mais dela por isso suponho eu. No teu esprito apenas se debate a dvida: 
MIly teria sido informada de tudo? Tomaria aquela atitude para salvar as aparencias? E chegas  
concluso de que ela foi bem tola em proceder assim, embora o seu procedimento te salvasse do 
escndalo... 
-No quero ouvir mais nada. 
- Hs-de ouvir. E vou dizer-te uma coisa que trar luz ao teu crebro. Melly ser parva, mas no 
como tu julgas. n claro que algum a informou; no entanto, no acreditou no que lhe disseram. 
Ainda que visse com os seus olhos, no acreditaria. n muito honesta para crer na desonestidade das 
pessoas de quem gosta. No sei que mentira lhe contou AshIey Wilkes,... mas qualquer mentira 
servia, porque ela gosta de Ashley e de ti. No percebo porqu, mas no h dvida que tE@ 
estima. A amizade que te dedica. s-er para ti uma cruz que ters de levar at ao fim. 
482 
#
- Se no estivesses to bbado, explicar-te-la tudo - 
atalhou Scarlett, recuperando um pouco de dignidade. - 
Mas agora... 
- No me interessam as tuas explicaes. Conheo a verdade melhor que ningum. Com a breca! Se 
tornas a levantar-te dessa cadeira... Pois ainda mais engraado do que a comdia desta noite  o 
facto de me teres negado virtuosamente as delicias do, teu leito e cobiares em teu corao Ashley 
Wilkes. "Cobiares em teu corao"  uma boa frase, no achas? H muitas frases boas naquele 
Livro, no te parece? 
"Que livro? Que livro?" pensou Scarlett, desnorteada, enquanto olhava desesperadamente  sua 
volta e notava os reflexos da vela nas pratas macias e a escurido assustadora de certos cantos da 
sala. 
-E repeliste-me porque a tua delicadeza no suportava os meus ardores grosseiros... porque no 
querias ter mais filhos! Que desgosto me causaste! Que dor me infligiste! Tratei de arranjar 
consolaes agradveis e abandonei-te aos teus requintes. E, durante esse tempo, perseguiste o 
senhor Wilkes, que languescia de amor por ti. Mas, com os diabos 'o que  que esse tipo pretende? 
No pode ser moralmente fiel  esposa, nem ser-lhe infiel fisicamente. Por que no se decide? No 
te recusarias a ter filhos dele... e faz-los passar por meus, no  verdade? 
Scarlett levantou-se de repente, soltando um grito, e Rhett, pondo-se tambm de p, comeou a rir 
duma maneira que a mulher sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. Obrigou-a a sentar-se de novo e 
inclinou-se para ela. 
- Repara nas minhas mos - disse, abrindo-as e fechando-as diante da cara de Scarlett. - Sem 
esforo nenhum reduzir-te-ia a bocados, e era o que faria se com isso te arrancasse Astiley do 
es'prito. Mas no, seria trabalho intil. Portanto, vou proceder doutro modo para que no penses 
mais nele. Vou fazer o seguinte: ponho as mos de cada lado da tua cabea, assim, esmago-te o 
crniocomo quem parte uma noz, e pronto! Acaba-se de vez com o Asliley nesse crebro. 
Pousara-lhe as mos na cabea. Com os dedos mergulhados na cabeleira desfeita, acariciou-a, 
magoou-a, forou-a a erguer a cara. Scarlett teve a impresso de se encontrar na presena dum 
desconhecido, dum estranho embrutecido. pelo lcool. Nunca a ela faltara coragem fisica 
483 
e, em frente do perigo, o sangue afluiu-lhe, quente, s veias, Endireitou-se e fitou-o ameaadora. 
-Seu estpido, seu bbao! -exclamou. -Afaste de mim essas mos! 
Com surpresa sua, Rliett obedeceu e foi sentar-se na borda da mesa, onde tornou a encher o -copo. 
- Sempre admirei a tua valentia, minha jia. E agora mais do que nunca, pois que te vs entre a 
espada e a parede. 
Scarlett cingiu a si o roupo. Oh, se -ao menos pudesse ir para o quarto e fechar-se  chave! Mas 
tinha de ficar ali e obrigar esse . Rliett desconhecido a deix-la em paz. Levantou-se sem pressa, 
apesar do tremor dos joelhos, alisou o roupo nas ancas e prendeu o cabelo que lhe caa nos olhos. 
-No, me vejo entre a espada e a parede-replicou em tom glacial. -A mim no metes medo, Rliett 
Butler. No passas dum bbado, dum bruto que lidou tanto tempo com mulheres de m vida, que 
no v seno o mal por toda a parte. Ps incapaz de compreender Asliley e de me compreender. 
Viveste muitos anos na lama para que possas sair dela. Tens cimes duma coisa que s incapaz de 
compreender. Boa noite! 
Deu meia volta e dirigiu-se para a sada, porm deteve-a, uma risada; virou-se e viu Rhett 
aproximar-se, cambaleando. Aquele riso e@a terrvel. E!-lo j muito perto. Scarlett recuou, 
encostando-se  parede, e ele ento ps-lhe as mos nos ombros e conservou-a prisioneira. 
-Acaba de rir! -Rio porque me causas d. -D... eu? Antes tu! -Sim, minha jia, fazes-me pena. No 
podes suportar 
* meu riso, no  verdade? - Calou-se, e pesou tanto sobre 
* corpo de Scarlett que ela se sentiu dolorida. E estava to perto que ai mulher voltou a cabea para 
evitar o hlito do brio. 
-Sou ciumento hem? Por que no? Sim, tenho, cimes de Asliley Wikes. P, intil falar. Nada de 
#
explicaes. Sei que, fisicamente 'tu no me enganaste. Era isso que querias dizer? Ali, sei-o muito 
bem! Sei h anos. Como o consegui? Ora, pois: conheo AshIey Wilkes e os seus princpios. n um 
homem srio 'um perfeito cavalheiro. Tanto no direi de mim... E tu... Mas isto no tem impor- 
484 
tncia. Ns dois desconhecemos o que  a honra. Por isso prosperam os nossos negcios. 
- Deixa-me ir embora. No quero ficar aqui a ser insultada. 
- No te insulto, Estou at a louvar a tua virtude fsica. Mas, enfim, no me tomes por um imbecil, 
como,  teu costume julgar os homens... ]@ mau menosprezar a fora ou a inteligncia dos 
adversrios. Eu no sou imbecil. Ouve: quando estavas nos meus braos eu bem sabia que pensavas 
em AshIey Wilkes que fantasiavas ser ele quem te possua. No desconfiaste diste,? 
Scariett mostrava claramente no rosto a estupefaco que a tomara. 
- ]@ pndego, hem? At parece uma histria de fantasmas. Trs pessoas na mesma cama... quando 
s deviam estar duas. - Sacudiu-a pelos ombros, teve um soluo, e sorriu. - Ah, sim, f icaste f iel 
porque AshIey no te quis! Caramba! Eu no iria disputar-lhe o teu corpo! Sei o que valem estes 
corpinhos... Mas o que no lhe quero ceder  o teu corao e o teu esprito pouco escrupuloso. 
Posso ter todas as mulheres que desejar. Insisto, porm, em guardar a tua alma e o teu corao 
coisas que jamais cederei. P, como a alma de Ashley, que u tambm no conseguiste. Eis a, razo 
por que me causas d. 
Apesar do seu espanto e da sua angstia, Scarlett no deixou de considerar nas palavras de Rhett. 
-D... de mim? -Sim, porque s uma criana. Uma criana quechora a pedir a. Lua. Que faria ela da 
Lua, se -lha dessem? E que farias tu de Ashley se to oferecessem? Causa-me pena ver-te deitar a 
feliciade pela janela fora, s porque pretendes outra coisa... que no te far feliz. Causa-me pena 
porque s insensata. Ignoras que no h felicidade fora de dois seres que foram feitos um para or 
outro. Se eu Morresse, se Melanie morresse e ficasses enfim com o teu precioso apaixonado s para 
ti, julgas que te sentirias feliz Com ele? Pois enganas-te! Nunca chegarias a conhec-lo, no 
saberias nunca o que ele pensava e no o entenderias corno no entendes msica, poesia, literatura e 
tudo o que no tem relao com dlares e cntimos. Ao passo que ns, esposa do meu corao, 
podamos ser perfeitamente felizes se quisesses dar-nos essa, oportunidade, porque somos muito 
semelhantes. Ambos somos uns crpulas, e nada nos 
485 
@detm quando se nos mete alguma coisa em cabea. Podamos ter sido felizes'porque te amava e 
porque te conhecia, Scarlett, como jamais AshIey te conhecer. E teria o maior desprezo -por ti, se 
te conhecesse... Mas no hs-de passar a vida a suspirar por um homem que n@ compreendes. E 
eu, minha jia, continuarei a consolar-me com meretrizes. E sou capaz de jurar que nos 
entenderemos melhor que a maioria dos casais. 
Largou-a bruscamente e voltou em passo cambaleante at junto da mesa, para, beber mais uni copo. 
Por uns momentos, Searlett ficou como que enraizada ao cho. As ideias rodopiavam-lhe de tal 
maneira no esprito que nem tinha tempo de, aprofundar uma s, Rhett dissera que a amava. Falaria 
a srio ou seria apenas efeito da embriaguez? E Ashley... a L@a-... Ela queria a Lua... 
Rum mpeto, Scarlett correu para o vestbulo escuro corno se um bando de demnios a perseguisse. 
Oli, se pudesse refugiar-se no quarto! Ia torcendo um p e a chinela saiu fora do seu lugar. Parou 
para se desembaraar dela com um pontap frentico e, nesse momento, Rhett, pulando com a 
agilidade dum ndio ,juntou-se-lhe na sombra do vestbulo, 0 seu hlito quemou-lhe a face, e as 
suas mos entreabriram-lhe o roupo e enlaaramlhe o corpo brutalrhente. 
-Rejeitas-me e vais atrs dele! Pois juro que esta noite s haver duas pessoas na minha cama! 
Ergueu-a do cho tomou-a nos braos e embrenhou-se na escada, Com a cea. esmagada de 
encontro ao peito dele, Scarlett ouvia-lhe as pancadas do corao. Rhett magoava-a e de dor e de 
medo, ela gritou. A escurido era completa'. Era um, louco 'um louco desconhecido que a' 
transportava ao colo. Sentia-se perdida nas trevas, mais espessas que as da morte. Era a morte que a 
levava, que a apertava nos braos duros. Scarlett soltava urros de medo, meio sufocada. Chegado ao 
patamar Rhett parou de repente e, voltando-a nos braos, inclino@-se para ela e beijou-a com tal 
#
instinto de posse que tudo se, varreu do esprito de Scarlett e s ficaram as trevas em que se 
submergia e o,,<@ lbios que se colavam aos seus. Rhett tremia como se um tufo o agitasse. A sua 
boca abandonara a de Scarlett e percorra-lhe a garganta, o peito, tudo o que o roupo deixara a 
descoberto. Murmurava coisas que ela no compreendia, e os seus lbios despertavam-lhe sensa- 
486 
e,9 jamais experimentada5. Searlett. tentou falar, mas os beijos impediram-na. De sbito, 
invadiu-a um frmito selvtico como nunca sentira,; alegria medo, loucura, excitao, desejo de se 
abandonar qu@Ies braos possantes, queles lbios ardentes, ao destino que a arrebatava... Pela 
primeira vez na vida, encontrara algum mais forte que ela, algum a quem no podia intimidar nem 
domar e que a intimidava e domava. Passou-lhe os braos em volta do pescoo, os seus lbios 
tremeram sob os dele, e assim foram atravs da escurido, doce escurido que rodopiava e tudo, 
envolvia. 
Na manh seguinte, quando Scarlett, acordou, Rhett tinha-se ido embora e, se no fosse a almofada 
toda amarrotada a seu lado ela julgaria que tudo aquilo, no passara dum sonho louc@. Corou  
recordao dessa noite e puxando o, lenol at ao pescoo, tentou coordenar as i@elas. 
Dois factos se. lhe apresentaram em primeiro lugar no esprito, Vivera durante anos com Rhett, 
partilhara do seu leito, comera com ele, dera-lhe um filho e, afinal, no o conhecia, 0 homem que a 
transportara nos braos, no meio da escurido era uni estranho de que ela nem suspeitava a 
existncia. E agora ainda que o quisesse, no podia detest-lo. Rhett humilhara-a, ferira-a, tratara-a 
brutalmente no decorrer dessa noite de loucura, e tudo isso lhe@ fora agradvel. 
Oli, devia estar envergonhada, expulsar para longe de si a pr6pria lembrana daquele turbilho nas 
trevas! Uma senhora, uma genuna senhora, no poderia levantar a fronte aps uma noite como 
essa, Mais forte, porm, do que a vergonha era a, recordao do xtase que a vencera. Pela primeira 
vez na sua vida, sentira-se a vibrar, arrastada por urna paixo, to primitiva como o mede que ela 
conhecera na noite em que fugira de Atlanta, to perturbante e consoladora como o m~ que a levara 
a pr fim  vida dum yankee. 
Rhett amava-a! Pelo menos assim o dissera; por que havia de duvidar? Era uma coisa, estranha, 
inquietante, quase inacreditvel ser amada por esse selvagem com quem at ai vivera to. friamente, 
Ainda no sabia ao certo corno enfrentar aquela revelao, mas surgiu-lhe uma dea e Scarlett 
desatou a rir. Ele amava-a, e ela tinha-o, afinal. Quase se esquecera de que outrora desejara indu- 
487 
wNkl 
zi-lo a consagrar-lhe amor, de modo que pudesse erguer bem alto o chicote sobre a sua cabe@a 
insolente, Agora, Rhett cedera, e isto enchia-a de imensa satisfao. Por uma noite, ele tivera-a ao 
seu dispor; da por diante j Scariett conhecia o ponto fraco da couraa. Para o futuro, o marido 
deveria curvar-se submisso  vontade da mulher. Sofrera-lhe os sarcasmos durante muito tempo, 
mas agora teria ele de saltar o are-o, sempre que fosse da ma vontade for-lo a tanto. 
Mas ao pensar que se encontraria com o marido face a face,  luz do dia, Scarlett experimentou um 
constrangimento que no deixava de ser excitante. 
"Estou nervosa como uma noiva", disse de si para si. "E tudo por causa de Rhett!" A ideia, divertiua, 
provocando-lhe acesso de riso. 
Contudo Rhett no apareceu ao jantar nem noutra qualquer r@feio. Seguiu-se a noite, uma 
c6mprida noite durante a qual Scarlett no conseguiu adormecer, sempre de ouvido  escuta, no 
fosse ele meter a, chave  porta... Mas nunca chegou e, quando acabou o segundo dia sem haver 
novas de Rhett, a mulher sentiu-se enervada pelo receio e pela desiluso. Foi  casa bancria: no 
estava l. Foi ao armazm e mostrou-se indelicada com toda a gente, pois sempre que se abria a 
porta para deixar passar um fregus, ela ficava com ar de quem sofria uma grande decepo. Foi  
estncia de madeiras e tratou Hugh com tal rispidez que este acabou por se esconder atrs duma 
pilha de tbuas. Todavia Rhett no se encontrava em parte nenhuma. 
No podia descer a inquirir dos amigos se por acaso o tinham visto, Tambm no podia dirigir-se 
aos criados, embora lhe parecesse que eles sabiam alguma coisa. Os pretos sabiam sempre tudo. 0 
#
silncio de Bab no era' natural: a ama espiava Scarlett de travs e no abria a boca. Na manh do 
terceiro dia Scarlett resolveu prevenir a polcia. Talvez tivesse ha@ido um acidente, talvez o cavalo 
o deitasse por terra e ele jazesse nalgurri fosso. Talvez... oh ' que horrvel pensamento... talvez 
estivesse morto, quela hora! 
Depois de tomado o primeiro almoo, e quando se encontrava no quarto a pr o chapu, ouviu 
passos rpidos na escada. Sucumbindo ao tremor nervoso que a invadira, Scarlett tombou sobre a 
cama, precisamente na altura em 
488 
que Rhett vinha entrando. Fresco barbeado, o marido parecia no estar sob a influncia do lcool; 
mas os olhos injectados e a cara tumefacta denotavam que ele bebera nessas ltimas horas. Acenoulhe 
com a mo e disse: 
-Ora viva! Como era possvel um homem Proferir aquela saudao depois duma. ausncia de dois 
dias e sem comear por explicar-se? Como podia ser to indiferente aps aquela noite que tinham 
passado juntos? Parecia incrvel... a no ser... E uma ideia tremenda logo germinou no crebro de 
Scarlett: " ... a no ser que ele tivesse o hbito das noites daquele, gnero ... " Por momentos, 
Searlett nem pde falar, e esqueceu-se por completo dos gestos e sorrisos que tencionava usar nesse 
instante do reencontro. Rhett nem sequer se aproximou para lhe dar o costumado beijo de raspo... 
Limitou-se a olhar, escarninho, com um charuto aceso entre os dedos. 
- Onde tens estado? 
- No me digas que no sabes! Julguei que toda a cidade o soubesse... E ningum ignora, com 
certeza, seno tu. Lembra-te do velho adgio, "a esposa  sempre a ltima a descobrir ... " 
-Que queres dizer? -Julguei que, depois da rusga feita pela -policia, anteontem  noite,  casa de 
Belle... 
- Belle! Aquela criatura? Tu estiveste... 
- Pois  claro. Onde podia ter estado? Espero que no te hajas sobressaltado... 
-Com que ento deixaste-me por... -Ora, ora, Scarlett! No faas papel de esposa traida.., J devias 
saber que Belle... 
-Foste encontrar-te com ela depois de... 
- Ento? - Esboou um gesto vago e prosseguiu: - 
Prefiro no falar disso. Apresento-te as minhas desculpas pela maneira como me portei quando da 
nossa ltima entrevista. Eu estava bebedssimo, como sem dvida percebeste, e deveras perturbado 
pelos teus encantos... Ser preciso enumer-los? 
Scarlett sentiu um repentino desejo de chorar, de se estirar na cama e esconder o rosto para soluar 
perdidamente. Rhett no mudara nada havia mudado, ela  que fora estpida, ridcula, err@ supor 
que ele a amava. 0 orgulho cegara-a. Aquilo no passara duma indigna brincadeira 
489 
L@ 
de brio. Agarrara-a, servra-se dela, fizera o que podia fazer a qualquer rapariga do 
estabelecimento de Belle Watling. Ei-lo, agora de volta, trocista, pronto a ofend-la, e fora do. seu 
alcance. Scarlett engoliu as lgrimas e d<:>Minou-se. No queria, por nada do mundo, que ele 
adivinhasse es sentimentos que a mulherexperimentara. Quanto escarneceria, se o descobrisse! Pois 
bem, no o saberia nunca. Ohou-o muito calma e surpreendeu-lhe nas pupilas esse mesmo claro 
que tanto a intrigava, essa expresso de quem pretende devassar o pensamento, como se esperasse... 
mas que esperava ele? Que a mulher se rebaixasse de novo, que fizesse cenas, que lhe desse razo 
para se rir? No e no! Ps-se muito sria e fitou-o com ar glacial. 
-Decerto que eu j suspeitava o gnero de relaes que mantinhas com essa mulher. 
-Apenas suspeita?, Por que no me perguntaste mais coisas, para, eu te satisfazer a curiosidade? 
Dir-te-ia tudo. Ilenho vivido com ela desde o dia em que tu e AshIey Wilkes decidistes que 
devam<>s dormir em quartos separados. 
-Tens o, desplante de te gabares perante mim, tua mulher, que... 
-Oh, poupa-me lies de moral! Nunca te importaste com o que eu fazia, contanto que te pagasse as 
#
contas. E no ignoravas que, nos ltimos tempos, eu me permitia certas liberdades. E quanto ao teu 
papel de esposa... de pouca importncia tem sido depois do nascimento de Bonnie, no  verdade? 
No foste uma, boa colocao de capitais. Com Belle tirei mais lucros... 
- Colocao de ... ? Queres dizer que lhe deste... 
- Fiz de comanditrio, para em-pregar o termo rigoroso, Belle  uma pessoa esperta. Queria v-la 
desembaraar-se nos negcios... S lhe faltava o dinheiro para montar o estabelecimento. Bem 
sabes os milagres que uma mulher realiza quando gira com um pouco de capital. Tu, por exemplo... 
- Comparas-me com... 
- Vocs ambas tm queda para o negcio. n claro que Belle vale mais do que tu, porque  uma jia 
de rapariga e possui bom corao. 
- Peo-te que te retires deste quarto! Sem pressa, com uma sobrancelha mais erguida que 
490 
* >2N@@ 
outra, numa expresso de zombaria, Rhett drigiu-se para a porta. 
"Como pode ele insultar-me assim?" pensava Scarlett, com ira e mgoa, E maior revolta sentiu ao 
lembrar-se das horas de ansiedade que passara enquanto o marido se divertia. numa casa de 
perdio. 
- Vai-te embora e no tomes a pr aqui o& ps. J urna vez to disse, mas no foste suficientemente 
cavalheiresco para o compreender. Daqui em diante, fecharei a porta  chave, 
-Escusas de te dar a esse trabalho. -Repito que me fecharei  chave, Depois da maneira como 
procedeste na outra noite... to embriagado... to repugnante... 
-Repugnante? Hum... Tenho a certeza de que achaste divinal... 
- Retire-se! 
- No te@ exaltes. Retiro-me j e prometo nunca mais mportunar-te. Tudo acabou entre ns. E se 
consideras superior s tuas foras o meu procedimento infame, podes pedir e, divrcio. Com a 
condio de eu ficar com a Bonnie. 
- No quero lanar a desonra na famlia, com um divrcio. 
- Mas no te preocuparias com isso -se Melanie morresse, no  verdade? At sinto um arrepio na 
espinha ao pensar na rapidez com que te divorciarias, se acaso a visses morta. 
- Fazes favor de te ires embora? 
- Sim, vou-me embora. Justamente, para te prevenir disso  que te vim falar. Vou a Charleston a 
Nova Orlees... Enfim, ser uma longa viagem. Parto@ hoje mesmo. 
- Oh! 
- E levo Bonnie comigo. Manda a, tonta da Prissy emalar os trapos. Tambm ir comigo. 
- Probo-te que leves a minha filha.. 
- Tambm  minha filha. Com certeza no vais opor-te 
* que a pequena acompanhe o pai a Charleston e visite 
* av! 
-A av! Julgas que te entrego a criana, sabendo que te embbedas todas as noites e que s capaz de 
a levar para casas como a de Belle ... ? 
Rhett atirou ao cho o charuto aceso,-que ficou a fumegar sobre o tapete com um cheiro a Ia 
queimada.. Num 
491 
mpeto, atravessou o quarto e aproximou-se de Scarlett, com a fria estampada no rosto. 
-Se fosses homem torcia-te o pescoo por essas palavras. Mas como no , limito-me a dizer que 
cales essa maldita boca. Pensas que eu levaria a minha filha para... Enlouqueceste! Falas como se 
fosses a mais extremosa daq mes. Uma gata  melhor me do que tu. Que tens feito pelos teuB 
filhos? S serves para assustar Wade e Ella que sem a tia Melanie no saberiam o que  amor e 
af@io. Quanto a Bonnie, a minha querida Bonnie... julgas que no sou capaz de me ocupar dela 
melhor do que tu? Pensas que te deixarei tiraniz-la como fazes aos outros dois? No, nunca! 
Manda, preparar a roupa da, pequena e arranja as coisas de, forma que esteja pronta dentro duma 
#
hora, seno desde j te previno de que no fax> cerimnia em despegar uma bofetada ou em 
brandir um chicote. 
Deu meia volta e saiu do quarto, sem deixar  mulher tempo para responder. Scarlett ouviu 
atravessar o corredor e abrir a porta do quarto onde os pequenos brincavam. Estes acolheram-no 
com exclamaes de alegria. e Scarlett distinguiu a vozita de Borinie, que dominava a da irm. 
- Pap, onde esteve? -Andei a caar coelhos para. oferecer um abafo de peles  minha Bonnie. 
Anda, vem, dar-me um beijo. E tu tambm, Ella. 
55 
- M~ querida, no precisa de explicaes e no ouvirei nenhuma -declarou firmemente Melanie, 
pondo a mo delicada na, boca, de Scarlett e evitando-lhe palavras. - 
Ofendes-te a ti mesma, a mim e a AshIey se pensas que  necessrio haver explicaes entre ns. 
Ora v... todos trs somos como soldados que combateram juntos durante anos: seria vergonhoso 
acreditar que as ms lnguas nos pudessem agora dividir. Supes que eu dei crdito,  insinuao de 
que tu e AshIey ... ? Bem sabes que te conheo como as minhas mos, que no esqueci o que fizeste 
pelo meu marido, por mim, pelo pequeno. No s te devo a vida, como o. sustento nestes ltimos 
tempos. Ainda te vejo a caminhar nos regos da charrua, atrs do cavalo do yankee, quase descala, 
com as mos a sangrar. Fazias isso para que eu e meu filho tivssemos com que matar a fome. Que492 
rias que, depois, eu fosse acreditar nessas calnias! No dou ouvidos a nada, Scarlett O'Hara. Nem 
uma palavra escuto! 
- Mas... -balbuciou Scarlett, Rhett havia partido uma hora antes levando consigo Bonnie e Prissy, de 
modo que a desola@ se juntava tambm  vergonha e  clera que ela sentia. Considerava-se 
culpada na sua, atitude para com Ashley, e a atitude magnnima de Melanie enchiaa de remorsos. 
Se Melanie tivesse dado ouvidos a India e a Archie, se a houvesse expulsado da recepo ou sequer 
recebido com frieza, Scarlett levantaria a cabea e lutaria com todas as armas ao seu dispor. Mas, 
pelo contrrio, vendo Melanie colocar-se entre ela e o escndalo como uma, lmina fina e cintilante, 
parecia-lhe que a nica coisa digna que tinha a fazer era confessar tudo, comeando por descrever 
aquele dia longnquo em que o sol vibrava sobre a varanda de Tara. - 
A sua conscincia, embora h muito tempo adormecida, fora modelada nos preceitos da religio 
catlica e principiava a despertar, incitando-a  confisso. "Declara os teus pecados e faz penitncia 
na aflio e no arrependimento", dis"ra-lhe a me centenas de vezes; assim quando surgia uma 
crise, a educao religiosa ministrada'por Ellen fazia a sua reapario. Scarlett iria, pois, confessar... 
Sim, confessaria tudo, cada olhar, cada palavra, a mnima carcia... e Deus ento aliviaria a sua dor 
e trar-lhe-ia a paz. Como penitncia deveria assistir a um espectculo terrvel: no rosto de Melanie, 
o amor sincero e a confiana substituir-Se-iam por uma expresso incrdula e apavorada, por uma 
expresso de repulsa. E, toda a vida, ela ficaria condenada a recordar-se da cara de Melane, a 
convencer-se de que Melanie sabia o que existia de baixo, mesquinho, desleal, hipcrita na alma de 
Scarlett. 
Outrora deliciara-se  Wela de revelar tudo a Melanie e de ver desmoronar-se como um castelo de 
cartas as suas iluses. Mas agora tudo mudara e nada havia que ela menos desejasse. Porqu, no 
sabia. As ideias baralhavam-se-lhe muito no esprito para que ela pudesse coorden-lasSabia apenas 
que, assinicomo, outrora quisera passar aos olhos da me por uma criatura de boa ndole modesta e 
virtuosa, queria a todo o custo conservar a esti@na de Mela-@ nie, Sabia apenas que pouco se 
importava com a opinio 
493 
dos outros, incluindo a de Ashley e a de Rhett mas que por nada deste mundo queria perder a 
consi&rao de Melanie. Temia contar-lhe a verdade, mas, obedecendo a um dos seus raros mpetos 
de honestidade ' correu a casa da mulher de AshIey, logo aps a partida de Rhett e de Bonnie. 
- Melly, preciso de te explicar o, que se passou outro dia -comeou, com voz trmula. 
Melanie, porm, f-la calar imperiosamente. Scarlett, confusa, fitou aqueles olhos pretos cintilantes 
de amor e de clera e compreendeu, de corao opresso, que a paz e a calma provenientes da 
confisso lhe seriam para sempre negadas. Comovida como poucas vezes estivera desde a infncia, 
#
viu que no podia aliviar o seu corao torturado sem dar provas do maior egosmo. Livrava-se do 
seu fardo e carregava uma pessoa inocente e confiante. Melanie tomara a- sua defesa. Tinha, pois 
'uma dvida para com ela, e s lhe podia pagar com o silncio. Que pagamento cruel, arruinar a vida 
de Melly com a revelao de que o marido lhe era infiel e que a sua amiga mais querida cooperava 
na traio! 
"No me  possvel -contar-lhe a verdade", pensava Scarlett desesperada. "Nunca, lhe contarei, nem 
que a conscincia me atormente at eu morrer", Lembrou-se da observaao de Rhett quando estava 
embriagado: "Ela no cr na desonestdade daqueles de quem gosta... Ser para ti uma cruz que 
ters de levar at ao fim ... " 
Sim, levaria essa cruz at ao fim. Sofreria em silncio, sentiria o cilcio da vergonha a cada olhar a 
cada gesto terno de Melanie, Teria de se dominar conti@uamente para no lhe dizer: "No sejas to 
boa! No lutes por mim, que eu o no mereo". 
"Se no fosses to simplria, to meiga to confiante, seria menos duro para mim", pensou Scariett. 
"J carreguei muitos fardos, mas este ser o mais pesado de todos". 
Melanie havia-se sentado em frente, numa cadeira baixa e @com os ps apoiados numa otomana 
to. alta que os joelhos lhe sobressaam como os duma criana, posio que ela nunca tomaria se a 
clera que a dominava a no, tivesse feito esquecer a noo das convenincias. Estava a bordar, e 
manejava a agulha com a fria de um esgrimista a brandir o florete, 
494 
Se Scarlett se encontrasse, no mesmo estadcP de esprito, bateria com os ps no- cho e teria 
vociferado como fazia Gerald nos seus bons tempos quando tomava Deus por testemunha da 
duplicidade e 'IJnfmia dos homens e proferia ameaas de vingana que provocavam calafrios a 
quem as ouvia. No entanto s o rpido mover da agulha e as sobrancelhas franzidas indicavam que 
Melanie fervia interiormente. A sua voz era calma e a sua linguagem ainda maiscomedida que de - 
costume. Apesar de tudo, as frases que proferia soavam de modo estranho porque raras vezes ela 
ernitia opinies prpria% e jamais pronunciava uma palavra severa. S nessa ocasio, Scarlett, 
compreendeu que os Wilkes e os Hamltons eram capazes de se enfurecer tanto como os O'Haras ou 
mais ainda, embora se manifestassem doutra maneira., 
- J estou farta de ouvir crticas a teu respeito declarou Melane. -Estou farta, e, vou pr cobro a 
isso. Falam de ti porque te nvejani, porque s inteligente e obtns xito na vida. Conseguiste o que 
muitos homens no Ponseguiram, No te aborrew por eu te dizer isto, Scarlett. De modo nenhum 
estou a insinuar que no procedes como devem proceder as mulheres, como muita gente assevera 
sem razo alguma. No te compreendem, nem toleram que uma mulher seja inteligente, Mas a tua 
inteligncia e o teu xito no lhes daro o direito de pretender que tu e AshIey... Oli, que de%aforo, 
Santo Deus! 
Esta exclamao inofensiva, proferida com tal veemncia, seria blasfmia na boca dum homem. 
Searlett ficou a olhar para Melanie, alarmada com aquela exploso de ,clera sem precedentes. 
-E atrevem-se a vir dizer-me mentiras... o Archie, a India e a senhora Elsing! ]@ claro, a senhora 
Elsing no veio c. No teve coragem. Mas sempre te detestou por seres superior em tudo  sua 
Fanny. E no te perdoa teres retirado a Hugh a direco da serraria. Fizeste muito bem er11 
despedi-lo, l@ um imbecil que no serve para nada. Com que rapidez Melanie condenava o seu 
amigo da infnCa- 0 seu antigo apaxonado!-Agora lastimo o que fiz PG@ Archie. Nunca devia ter 
recolhido na minha casa esse velho bandido. Bastante me preveniram, mas no dei ouvidos a 
ningum... Ele no gostava de ti, por causa dos forados; mas quern  Archie Dara 2e sentir nu 
direito de te censurar? Um assassino, um homem que matou a mulher! 
495 
WM" 
W." 
E, depois dos benefcios que lhe fiz vem dizer-me.,' Afirmo-te que no verteria uma lgrim se 
Ashley o matasse. Mandei-o fazer a trouxa e foi-se embora de orelha murcha, porque esperava que 
a minha reaco fosse outra. Saiu da cidade, Quanto a India...  uma boa velhaca. Logo no primeiro 
#
dia que vi vocs ambas, juntas percebi que ela tetinha inveja e te detestava por seres mais bonita e 
porque no te faltavam pretendentes. Detestava-te especialmente por causa de Stuart Tarletan. E 
tanto pensava em Stuart que... custa-me a dizer isto. da irm de Ashley, mas tenho a impresso de 
que ficou desarranjada da cabea de tanto pensar nele. S assim se explica a sua atitude. Disse-lhe 
que no tornasse a pr aqui os ps e que, se alguma vez a ouvisse insinuar coisas do mesmo gnero, 
a chamaria mentirosa em pblico. 
Parou, e de repente espalhou-se-lhe na cara, que se ruborizara de clera, uma expresso de extrema 
doura. Melanie possua em alto grau aquela particularidade dos georgianos e que consiste em 
considerar que uma querela de famlia  coisa intolervel. Hesitou um momento antes de 
prosseguir; mas, enfim, Scarlett estava mais prxima, do que os outros, do seu corao. 
- Sim - reconheceu lealmente - India sempre foi ciumenta, porque era a ti que eu estimava mais. 
Aqui  que no torna a vir e eu nem sequer porei os ps em casa das pessoas que a receberem. 
Ashley concorda comigo neste ponto, embora lhe -custe pensar que a irm  capaz de dizer tais... 
Ouvindo pronunciar o nome de Ashle,y ' Scarlett desfez-se em lgrimas, nervosa como estava. 
0 destino exigia que ele fosse sempre ferido em pleno corao. 0 seu maior desejo era v-lo feliz, 
proteg-lo, e nor entanto, parecia que a sua misso era causar-lhe contnuos dissabores. Scarlett 
estragara-lhe a vida, quebrara-lhe a orgulho, atingra-o na sua dignidade, perturbara-lhe a paz 
interior, aquela calma que repousava sobre o sentimentoda honra. E agora, separava-o da irm, que 
lhe, era to querida! Para salvar a sua prpria reputao e a felicidade da mulher, tivera de sacri~ 
ficar India, faz-la passar por mentirosa, por solteirona ciumenta e semilouca - Inda, cujas 
suspeitas, eram fundadas, cujas acusaes eram justas! De cada vez que Asliley olhasse de frente a 
irm, veria luzir-lhe nas pupilas o claro da verdade, surpreender-lhe-ia na expresso 
496 
urna censura e aquele frio desprezo em ruja arte os W11kes eram mestres. 
Searlett sabia que Ashley colocava a honra, acima da vida e adivinhava as torturas por que ele devia 
passar. Como ela, via-se forado a abrigar-se atrs de Melanie. No entanto apesar de compreender 
que era essa a nica atitude P(;ssvel'e de reconhecer que fora em grande parte por culpa sua que 
Ashley se encontrava em falsa posio, Scarlett no deixava de ser mulher. E como tal, teria maior 
considerao por AshIey se este matasse Archie e declarasse a toda a gente serem verdadeiras as 
acusaes feitas contra a sua pessoa. Bem sabia que no era razovel pensaT assim, mas estava 
muito desamparada, para se deter com subtilezas, liembrava-se de certas palavras desdenhosas de 
Rhett e cogitava se, na realidade, AshIey se portara como um homem naquele caso. E, pela primeira 
vez, comeou a empalidecer a aurola brilhante de que ela o envolvera desde o dia em que por ele 
se apaixonara. A vergonha 
* o remorso que experimentava atingiam tambm AshIey 
* cobram-no com o seu oprbrio. Scarlett procurou afastar de si esta ideia, mas essa luta intil s a 
fez chorar mais amargamente. 
- No chores, no chores! - suplicou Melanie que, largando a costura e correndo para o sof, 
encostou a si a cabea de Scarlett.-No devia falar-te nisto, j que te causa tanta aflio. Calculo o 
estado em que te encontras. No direi mais nada a este respeito;  como se nada houvesse 
acontecido, Mas - acrescentou com fria mal contida - hei--de mostrar a India e  senhora Elsing o 
que penso acerca delas. No vo julgar que podem impunemente caluniar o meu marido e a minha 
melhoT amiga. E vou faz&1o de tal modo que nunca mais levantaro a cabea em Atlanta. Seja 
quem for que as acredite ou as receba em casa consider-lo-ei meu inimigo. &arlett, pen'sando 
tristemente no futuro, compreendeu que era a causadora dum dissdio que, por muitas geraes, 
lan@aria a desunio na --idade e na sua p-rpria. famlia. 
Melanie no faltou  sua palavra. Nunca mais tornou a falar naquele assunto, quer diante de Scarlett 
quer diante de AshIey. Recusou-se tambm a discuti-lo fosse com quem fosse, e manteve um ar de 
fria indiferena, que no tardava a transformar-se em polidez glacial se algum se 
32 - Vento UVOU - 11 497 
atrevia a mencionar o caso. Durante as semanas que seguiram  recepo, enquanto Rhett se 
#
eclipsava misteriosamente e a cidade cochichava ainda, tomando partido pr e contra, ela no deu 
trguas aos detractores de Scatlett, fossem velhos amigos ou at parentes. E, das palavras, passou 
aos actos. 
Agarrou-se a Scarlett como uma lapa e obrigou-a a ir ao armazm e  estncia, na forma do costume 
todas as 
de insisti@ com e'a manhs. At a acompanhava!  tai, 1 para dar um passeio de 
trem, embora'Searlett no gostasse de se expor aos olhares curiosos do& transeuntes. Melanie,  
claro, sentavase ao lado. Nos dias de recepo, levava-a a fazer visitas forando-a a entrar em salas 
onde j no punha off ps h@via mais de dois anos. E Melanie encetava conversa com aquelas 
donas de casa boquiabertas, dando a entender que, se no aceitassem a sua amiga, tambm a ela 
teriam por adversria. , Nesses dias, tratava de serem elas duas as primeiras a chegar e serem as 
ltimas a sair, privando assim as senhoras do gosta de fazerem rn-lingua em grupinhos. Estas 
visitas constituam um tormento para Scarlett, que se via constrangida a a-catar os desejos de 
Melanie; que horror ter de sentar-se entre damas que no seu foro ntimo, consideravam sempre o 
problema de Scarlett haver sido ou no apanhada em flagrante delito de adultrio! No fundo, ela 
bem sabia que se no fosse, por amizade para com Melanie, tais pessoas nem sequer lhe dirigiriam a 
palavra. Se, porm, a recebiam, ficavam implicitamente obrigadas a cont-la entre a nmero das 
suas relaes. 
Quer fosse ou no contra Scarlett, a verdade  que pouca gente baseava a defesa ou o ataque no 
valor da prpria pessoa interessada, e isto era sinal da considerao medocre que ela desfrutava no 
meio. "No dou muito por essa criatura" eis o comentrio geral. A mulher de Rhett criara'muito@ 
inimigos para que lograsse agora obter defensores. As expresses que proferira outrora, os actos que 
praticara tinham magoado em excesso, e assim o pbli co desinteressava-se das consequncias que 
o escndalo podia ter para a sua causadora. Pelo contrrio, ningum queria melindrar Melanie ou 
India; era, pois mais em volta destas do que em torno de Scarlett que'a tempestade girava, 
concentrada numa simples interrogativa: "Teria India mentido?" 
498 
os que aceitavam a explicao de Melanie apontavam triunfantemente o facto de que esta andava 
sempre na companhia de Scarlett; ora no seria natural que uma pessoa de princpios to rgidos, 
como Melanie, se fizesse paladina duma culpada, e culpada com o prprio marido dela. India era 
pois uma solteirona despeitada, que odiava Scarlett e que persuadira Archie e a senhora Elsing com 
as suas mentiras. 
Mas (objectavam os partidrios de India) se Scarlett no era culpada, onde estava o capito Butler? 
Por que no se encontrava ao lado da mulher, socorrendo-a com o seu apoio moral? Eis uma 
pergunta irresponsvel. E,  medida que passavam as semanas e se espalhava o boato da gravidez de 
Searlett, ia aumentando a satisfao no grupo favorvel a India. A criana no devia ser do capi~ 
to Butler, murmuravam: todos sabiam que os esposos faziam h muito tempo vida  parte. 
Assim corriam os mexericos, que dividiam a opinio pblica e a prpria sociedade, to unida 
antigamente, dos Hamiltons, Wilkes, Burrs, Whitmans e Winf ields., Qualquer membro destas 
famlias era obrigado a tomar partido, pois no havia terreno neutral. Disso se encarregavam 
Melanie com a sua fria polidez e Inda com a sua amargura corrosiva. Todavia, de qualquer lado 
que arregimentassem os parentes, todos estavam ressentidos para com Scarlett por os ter metido 
naquela, complicao. Nenhum deles achava que ela merecesse tantos sacrifcios e canseiras. E 
tambm, no importa de que lado se encontrassem, todos deploravam que India tomasse a iniciativa 
de lavar em pblico a roupa suja da famlia e envolvesse AshIey num escndalo to desonroso. 
Metade de Atlanta pretendia ter parentesco com Melanie e India: para deslindar esses laos de 
sangue ou afinidade seria preciso ser um georgano de gema. Todos possuam ao mais alto grau o 
esprito de tribo. Em ocasies difceis, apresentavam-se numa falange macia, fosse qual fosse a 
opinio que cada um tivesse a respeito dos outros componentes do grupo. Com excepo da 
guerrilha levada a cabo pela tia Pitty contra o tio Henry, e que durante anos fora assunto de troas 
na famlia, nunca houvera brecha aberta nesse quadrado to unido. Eram pessoas bem educadas, 
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tranquilas discretas, e no costumavam altercar com as outras fa M'lias de Atlanta. 
499 
Agora, porm, achavam-se divididos, es cidade teve o privilgio- de ver primos' tios e sobrinhos 
tomarem partido no mais belo escndalo, familiar. Isto ps  prova o tacto e a pacincia da outra 
metade da populao, pois a querela de Inda, e Melanie abalou a prpria estrutura social. Os grupos 
de amigos de teatro e as agremiaes de costura, crculos musicais e obras de embelezamento das 
sepulturas estavam tambm envolvidos! neste prlio assim como as quatro igrejas respectivas 
damas auxilies e sociedades missionrias. ra preciso estar atento para no meter na mesma 
comisso membros de faces opostas. 
Nas reunies vespertinas em Atlanta, as donas de casa passavam tormentos entre as quatro e as seis 
horas, receando sempre que Melanie e Searlett aparecessem ao mesmo tempo que India e os seus 
partidrios. De toda a famlia, era a pobre da tia Pitty quem sofria mais com este estado de coisas. 
Ela, que s desejava viver confortavelmente no, meio da estima, dos seus parentes, gostaria bastante 
de conservar o co e o gato no mesmo.sitio, mas nem um nem outro lho permitiam. India vivia com 
a tia Pitty e seesta se pusesse do lado de Melanie como desejaria f@zer, India, deix-la-la 
imediatamente.' Mas, neste ltimo caso, para onde iria, a, tia Pitty? No podia morar s6. Ver-se-i 
obrigada a arranjar uma pessoa estranha para a acompanhar ou acomodar-se na residncia de 
Scarlett. Quanto a este ltimo projecto desconfiava que o capito Butler no lhe faria grande 
oposio. Ainda havia outra soluo: era a de instalar-se em casa de Melanie, dormindo w cubculo 
ocupado por Beau. 
Ptty no morria de amores por India, que a intimidava, com as suas maneiras secas e as suas 
convices apaixonadas; mas, graas  sobrinha gozava de certo bem-estar, e, como obedecia 
sempre mais'9 consideraes desta ordem do que s de natureza, moral, India acabou por ficar. 
Entretanto, a presena desta na casa atraiu a ternpe,'Z!>tade sobre a cabea, de Pitty, porque tanto 
Scarlett como Melanie concluram que a tia aderira ao partido de India. Scarlett recusou 
redondamente contribuir para, o sustento de Pitty, enquanto India vivesse debaixo do seu tecto. 
Todas as semanas, Asliley mandava dinheiro  irm, mas todas as semanas India lho devolvia com 
grande desespero da velhota. A situao financeira da casa de tijolos encarnados seria lamentvel 
sem a interveno. do tio 
500 
Henry, que obrigou Pitty a aceitar o seu auxili<>, o que muito a vexava. 
Pitty gostava de Melanie mais do que a ningum neste mundo (depois de ela mesma) e agora 
Melanie portava-se como `unia estranha, cheia de fria polidez. Embora vivesse na vizinhana de 
Pitty, apenas separadas por um quintal, Melane nunca a visitava, ao passo que antigamente o fazia 
dzias de vezes diariamente. Pitty, no entanto, ia v-Ia, chorava e protestava a, sua estima e 
dedicao; Melanie, contudo, recusava-se a discutir o assunto e nunca lhe retribula as visitas. 
Sabia a tia Pitty o que devia a, Scarlett: quase a, sua existncia. Nesses dias j distantes, aps a 
guerra, quando defrontava a alternativa; de recorrer ao irmo Henry ou morrer de fome, Scarlett 
alimentara-a e vestira-a e permitira-lhe manter a sua posio na sociedade de Atlanta. Depois de 
casar e de ter casa prpria, Scarlett, mostrara-se a generosidade personificada. Se G capito Butlerto 
impressionante e sedutor-a visitava na companhia da mulher Pitty encontrava sobre a mesa uma 
carteira nova com no6s de Banco, ou lenos de renda a atarem moedas de oiro que mo habilidosa 
insinuara na sua caixa, de costura. Rhett jurava sempre no saber donde vinham esses presentes e 
acusava Pitty 'de maneira descarada, de ter um admirador clandestino - em geral o barbudo av 
Merriwether. 
Sim, Pitty devia afecto a Melanie, segurana, a Sca-rlett, Mas o que devia a India? Nada, a no ser 
que a presena de India lhe evitava renunciar aos seus hbitos de comodidade e tomar decises pela 
sua prpria cabea. Tudo isto era to desesperante e vulgar que Pitty (que jamais tomara 
deliberaes por si mesma) deixou correr o marfim e passou muito tempo a derramar lgrimas que 
ningum lhe enxugava. 
Por fim, houve pessoas que acreditaram de boa vontade na inocncia de Scarlett, no por causa das 
#
suas virtudes pessoais, mas porque Melanie depositava confiana nela. Outras fizeram reserva 
mental mostrando-se todavia corteses para com Scarlett; visitavam-na porque gostavam de Melanie 
e no, queriam perder a sua afeio. Os partidrios de India cumprimentavam Scarlett. com frieza, e 
alguns cortaram com ela abertamente. Estes ltimos enfureciam-na, embora compreendesse que, se 
no fosse a, dedi- 
501 
cao de Melanie e o geu pronto contra-ataque, toda a cidade lhe voltaria as costas e ela ficaria 
banida da sociedade. 
56 
RHETT esteve ausente trs meses e ' durante todo esse tempo, Scarlett nunca teve noticias dele. 
No sabia do seu paradeiro ' nem quando tencionava regregsar-se  que tencionava. No decurso 
desses trs meses entregou-se ela s habituais ocupaes de cabea erguia e corao amargurado. 
No se sentia bem, mas, compelida por Melanie, compareceu diariamente no armazm e tentou 
intere.war-se pelo trabalho das serraes. No entanto, ela primeira vez, o armazm aborrecia-a e, se 
bem que fnegcio, prosperasse e os lucros fossem maiores que no ano anterior, Scarlett no se 
importava com isso e tratava com dureza os empregados. A serrao de Johnnie Gallegher dava 
grandes rendimentos e o fornecimento da estncia malchegava para as encomendas mas nada do 
que Johnnie fazia ou dizia agradava a Sc@rlett. To irlands como ela,, acabou por se encolerizar 
com as suas observaes e ameaou ir-se embora depois de longa tirada, que finalizou com estas 
palavras: 
- E v a senhora para o diabo com a maldio de Cromwe11. 
Para oacalmar, Scarlett teve de -se 'rebaixar e apresentar4he, desculpas. 
Nunca ia  serrao de Asliley nem  estncia quando calculava que ele l estivesse. Na'jo podia 
esquivar-se aos convites de Melanie, e sabia 1que a sua presena. constante em casa de Asliley era 
para ele um suplcio, pois que a evitava tanto quanto possvel. Nunca se encontravam a ss, embora, 
Searlett ardesse em desejos de o interrogar. Gostaria de averiguar se ele a detestava agorac que 
explicaes dera a Melanie, mas Asliley mantinha-se a distncia e dava bem a. entender que no 
queria conversas. Atormentava-a a viso daquele rosto envelhecido e apoquentado pelo remorso, e 
o facto de a serrao queele dirigia estar a perder dinheiro todas as semanas era mais um motivo de 
amargura que ela tinha de calar. 
Custava-lhe a ver a impotncia de Astiley perante tal situao, 0 que este podia fazer, ela ignoravao; 
mas achava 
502 
que Ashley devia agir. Rhett j teria feito qualquer coisa. Nunca ficava inactivo, ainda que 
procedesse mal, e essa sua maneira de ser s inspirava a considerao de Scarlett. 
Depois que a ira esmorecera,. comeara a sentir a falta de Rhett, e cada vez sentia mais, conforme 
decorriam os dias. Daquele tumulto de xtase, de clera, de desiluso e orgulho ferido que Rhett 
provocara, emergia o desnimo, que nela se instalara tal um corvo que viesse empoleirar-se-lhe no 
ombro. Tinha saudades do marido,, do seu modo desenvolto de contar histrias que a faziam soltar 
gargalhadas, do seu sorriso trocista que reduzia  devida proporo as preocupaes da mulher, e 
at dos seus sarcasmos que a irritavam e lhe faziam perder a cabea. Lastimava, sobretudo, no o ter 
ali para lhe relatar as suas pequenas aventuras. Nesse ponto 'Rhett era perfeito. Scarlett podia-lhe 
dizer tudo sem corar. Se se gabava na sua presena de explorar os clientes em vez de se mostrar 
escandalizado ele era o primeiro a elicit-la. 
Sem Rhett e sem Borinie, sentia-se muito s. Obcecada pelas ltimas palavras do marido a respeito 
de Wade e de Ella, tentou consagrar aos filhos alguns dos seus momentos livres, Mas foi trabalho 
baldado. As recriminaes de Rhett e a reaco das crianas abriram-lhe os olhos  verdade 
exasperante. Quando os filhos eram pequeninos, Scarlett andava muito absorvida pelas questes de 
dinheiro, muito preocupada e muito irascvel para granjear a sua afeio e confiana, E agora era 
tarde demais, ou ento no tinha jeito nem pacincia para penetrar naqueles coraezinhos. 
Ainda que isso a contrariasse, Scarlett via-se forada a reconhecer que Ella, no, era inteligente. 0 
#
seu esprito no se detinha mais tempo num assunto do que um pssaro se detm num ramo de 
rvore, Se Scarlett lhe contava uma histria, no lhe prestava ateno, interrompendo-a para fazer 
perguntas que. nada tinham a ver com a narrativa e esquecendo o que perguntara muito antes de a 
me acabar de lhe responder. Quanto a Wade... talvez Rhett tivesse razo. Talvez a receasse. Era anormal, 
e Scarlett sofria com isso. Por que motivo seu filho, seu nico filho varo, teria medo dela? 
De cada vez que procurava obrig-lo a falar, Wade fitava-a com os seus olhos castanhos e meigos, 
herdados do pai, e contrafeito, remexia-se na cadeira ou se apoiava ora sobre um p, ora sobre o 
outro. No entanto, 
503 
em presena, de Melanie a pequeno no cessava de tagarelar, e tirava dos bolsos inmeras coisas 
clUC lhe mostrava, desde vermes para isca at bocados de atilhos. 
Melanie sabia tratar com midos. No se lhe podia negar este, mrito. 0 seu Beau era o petiz mais 
bem educado e o mais adorvel de Atlanta. Scarlett entendia-se melhor com ele do que com o 
prprio filho porque o pequeno Beau no se deixava intimidar pelas P@ssoas crescidas. Quando a 
apanhava a jeito, trepava-lhe para os joelhos sem esperar porconvte. E era to lindo assim 
loirinho!'0 retrato do pai em criana. Se ao meno@ Wade fosse assim... ]@ claro que Melanie, no 
tendo mais filhos,- podia ocupar-se deste  vontade. Demais a mais, no a solicitavam as 
preocupaes e os cuidados de Scarlett. Ao menos, estava a uma desculpa, que esta apresentava a 
si mesma, embora em sua conscincia tivesse de concordar que Melanie dedicava verdadeira 
afeio s crianas e que ficaria satsfetssima se fosse me duma dzia delas. Como lhe fora 
recusada essa, alegria, a ternura que a enchia trans@bordava para Wade e para,os,filhos das suas 
amigas. 
Scarlett jamais esqueceria o abalo que sentira uma vez quando, inda de trem a casa de Melanie 
buscar Wade, o surpreendera a imitar o grito dos rebeldes... ele que  frente da me era calado coma 
um, rato. Beau s-ecundava-o com a sua vozita aguda. Ao entrar na sala, vira os dois pequenos a 
atacarem o sof com sabres de pau... E eles, dando pela sua presena, logo se calaram. Melanie, 
rindo, aparecera atrs do sof, onde se havia "refugiado", a recompor os cabelos desfeitos. 
-  Gettyzburgo - explicou ela. - Eu sou os,yankees, que estavam em situao difcil. Aqui tens G 
general Lee... e o general Pickett -acrescentou, designando primeiramente o filho e pondo em 
seguida a mo no ombro de Wade. 
No havia dvida: Melanie sabia lidar com gente mida, coisa que ela jamais conseguira aprender. 
"Em todo o caso", pensou, "Bonne  minha amiga e, gosta, de brincar comigo". Mas, ainda quanto 
a esta, ela teve de reconhecer que o preferido era Rhett. Ah, no a tomaria a ver, a sua filha?! A 
avaliar pela falta de notcias, bem podia acontecer que o marido estivesse na Prsa, ou no Egipto e 
tivesse inteno de nunca mais voltar. 
Quando o Dr. Meade lhe disse que ela se encontrava de 
504 
novo grvida, Scarlett ficou perplexa, pois esperava que ele diagnosticasse um derramamento de 
bile acompanhado de depresso nervosa. Lembrou-se ento daquela noite violenta e isso bastou 
para a ruborizar. Seria pois, uma criana o resultado desses momentos de  tase! Se ao menos 
nascesse um rapaz... Um rapago valente e no uma criaturinha frgil como Wade. Quanto amor lhe 
devotara! Como seria feliz, agora que tinha tempo disponvel para consagrar a um nen e bastante 
dinheiro com que lhe facilitasse a existncia! Veio-lhe um desejo louco de esemver a Rhett a 
participar-lhe a notcia e dirigir a carta para casa da me dele, em Charleston. l@ois j no era 
tempo de o marido regressar? Se ele continuasse ausente at o filho nascer? Como explicar depois o 
ca@so? Contudo, escrevendo a Rliett no julgaria este que ela queria apenas matar saudad9 . Era 
at capaz de se rir. No, por nada deste mundo deveria Rhett supor que a- mulher estava saudosa ou 
que precisava do marido. 
E congratulou-se por ter resistido  tentao quando chegaram as primeiras novas de 11hett atravs 
duma carta da tia Paulne, enviada de Charleston onde parece que ele se achava de visita  me. Que 
alvi saber que no sara dos Estados Unidos! Embora a carta a enfurecesse, no deixou, dum 
#
modo geral, de a tranquilizar. Rhett fora a casa das tias Robilla(rd e levara-lhes Bonnie. A signatria 
no se fartava de elogiar tanto o pai como ai filha. 
"Que linda, pequena! Quando for crescida, h-de ser com certeza um 'encanto. Mas creio que tu 
tambm suspeitas de que ser difcil a qualquer homem vir um dia, a fazer-lhe a corte. Ter de avirse 
com o capito Butler, que no  pai para brincadeiras. E tenho de te confessar uma coisa: at  
altura de o conhecer pessoalmente, considerava o teu casamento como muito desigual, pois aqui 
ningum dizia bem dele, muito pelo contrrio. At nem sabamos se o devamos receber a tia 
Eulalie e eu. No fim de contas, a tua linda petiza ' nossa, sobrinha-neta e a verdade  que ficmos 
bem impressionadas com a su@, visita e compreendemos que no era cristo dar crdito a esses 
boatos. 
0 capito  um homem bastante simptico, com belo aspecto e pareceu-nos tambm srio e corts. E 
 t<> teu amigo e da, pequena! 
"Agora, minha querida, vou referir-me a qualquer coisa que nos chegou aos ouvidos... qualquer 
coisa 'que a tia 
505 
Eulalie e eu nos recusmos de comeo a acreditar.  claro que j cabamos que s vezes te ocupavas 
do armazm do teu defunto marido. Correram rumores a respeito disso, aos quais no quisemos dar 
f. Bem compreendemos que, nos dias terrveis que seseguiram  guerra, se no podia proceder 
doutro ~o, atendendo s circunstncias. Mas hoje nada, te obriga a adoptar semelhante a-titude. 
Sabemos que o capito, Butler  r" e que tem capacidade suficiente para gerir os teus negcios. Era 
necessrio que pusssemos os pontos nos i 1, que lhe falssemos sem subterfgios deste e doutros 
assuntos considerados melindrosos. 
"Informou-nos, ele, com evidente desgosto, que tu passavas as manhs no armazm e que no 
permitias a ningum mexer nos livros de contas. Confirmou tambm que tinhas interesses numa, ou 
mais serraes (no insistimos neste ponto, perturbadas, como estvamos). Contou-nos a seguir que 
os negcios te foravam a dar longas voltas de trem, sozinha, ou em companhia dum sujeito que 
(diz o capito)  mesmo um assassino, No nos foi difcil ver qua,nto isto o apoquenta e quanto, ele 
 indulgente, muitssimo indulgente. Scarlett, isso tem de acabar. Tua. me j no existe, para to 
impor, mas a mim compete substituf-1a. Pensa no que podero dizer os teus filhos, quando forem 
crescidos e te vejam a exercer semelhante profisso. Que aborrecidos ho-de ficar sabendo que te 
expes a ser insultada, por homens grosseiros; sabendo o que se diz acerca, dessas serraes...  
tudo to pouco feminino!" 
Scarlett atirou fora a carta, sem acabar de a ler, e soltou uma praga. Reviu a cena das tias Pauline e 
Eulalie, na sua casa desmantelada de Charleston, a criticarem as suas aces -elas que morreriam de 
fome se a sobrinha lheg no mandasse todos, os meses qualquer coisa,! Pouco feminino? Se Scarlett 
no houvesse tido aquelas iniciativas, quem sabe se as duas tias nessa ocasio, possuiriam um tecto, 
sob que se abrigassem? E o patife do Rhett a lhes contar toda, a. histria do armazm, dos livros de 
contas, das estncias de madeira? Falara "com evidente desgosto"... Ah, que farsante! Bem se via o 
prazer que tivera em se fazer passar aos olhos das velhotas por pai e marido amantssmo. Com que, 
volpia no descreveu a vida da mulher e as suas ocupaes mercantis! J era perversidade, essa de 
se divertir  ma custa-. 
506 
11 
Mas este acesso de raiva noi tardou a transformar-<,;,-em apatia. A vida, ultimamente, perdera 
para ela muito, do seu sabor. Se, ao, menos, pudesse reencontrar tudo , o que arnava em 
AshIey... Ou se Rhett voltasse para casa e a, fizesse rir a bom rir! 
Pai e filha regressaram sem aviso. 0 primeiro sinal da sua volta foi o barulho, da bagagem a 
descarregar no cho do vestbulo, e a voz de Bonnie a chamar: Mam! 
Scarlett saiu  pressa do quartoo e precipitou-se at ao patamar, enquanto a pequena esforava as 
pernitas curtas para atingir os ltimos degraus. Nos braos levava uma gatinha listrada. 
- Foi a av que me deu! - gritou no meio da sua excitao apresentando o animal pendurado pelo 
#
cachao. 
Sc@rlett pegou na filha ao colo e beijou-a, dando Intimamente graas pelo facto de a presena da 
pequena lhe poupar o encontro, a s6s com o, marido. Olhando por cima da cabea daquela, viu 
Rhett em baixo na, entrada, a pagar ao, cocheiro. Ele voltou-se, descobriu a mulher e cum-, 
primentou-a com uma, saudao rasgada, como era seu costume. Ao encarar-se com os seus olhos 
pretos, Scarlett sentiu pulsar-lhe o c-orao. Que importava o que ele era e o que havia, feIti@ 
Estava de regressa, e ela alegrava-se com o facto, 
- Que  da Bab? - perguntou Bonnie, esperneando de tal forma que a me teve de a pr na cho, 
No ia ser to fcil, cama julgara, receber o marido corn o conveniente -vontade e anunciar-lhe que 
esperava Vm nen. Enquanto Rhett subia a escada, Scarlett no despregou os olhos daquele rosto 
moreno, t> indiferente, to hermtico,. No, no lhe falaria por enquanto no seu: estado. No ia 
dar-lhe a noticia assim  queima-roupa. Em geral, os, maridos ficam radiantes com esse gnero de 
novi- 
4ade e gostam de ser logo informados mas Searlett tinha a impresso de que Rhett no, sentiri@ 
prazer nenhum. 
Postada no patamar e agarrada ao corrimo, pergunai 
si mesma se ele a, beijaria. Mas no. a beijou e limitou-se a dizer: 
Ests plida. Esgo-tou-se o carmim em Atlanta? Nem uma palavra que exprimisse a alegria- de a 
tornar a ver, ainda que fosse por simples; questo de delicadeza. Ao menos, podia beij-la em 
frente de Bab que, depois 
507 
de breve saudao, se apoderou de Bonnie e a levou para o quarto das crianas. Rliett detivera-se ao 
lado de Scarlett e observava-a com ar despreocupado. 
- Por acaso essa palidez significar saudades da minha pessoa? - perguntou, com um sorris(> que 
no lhe passou dos lbios. 
Eis, pois, a atitude que ele tencionava adoptar. Ia ser to, odios(> como antes. De sbito, a criana, 
que Searlett trazia dentro de si e que tanta felicidade lhe causara, transformou-se-lhe @uma carga 
indesejvel; e aquele homem, especado  sua frente, com o largo panam sobre a ilharga, tornou-se 
o seu inimigo mais cruel, a causa de todos os males. Havia algo de perverso no olhar de Scarlett 
quando ela respondeu, e um rancor to evidente que Rhett deixou de sorrir. 
-Se estou plidas a culpa  tua, e no, porque tivesse saudades da tua, valiosssima pessoa! P, 
porque... - Oh,, no era assim que, queria dar-lhe a notcia, mas as palavras vnham-lhe  boca e ela. 
proferiu-as sem se importar que os criados a ouvissem.-]@ porque vou ter urna criana! 
Rhett engoliu em seco e envolveu Scarlett num olhar rpido. Avanou como, se fosse pousar a mo, 
no brao da mulher, mas esta recuou e os seus olhos exprimiam tanto dio que a fisionoma, dele 
endureceu. 
- Ali, sim?! - volveu em tom glacial. - E quem  o feliz pai? Astiley? 
Sca,rlett agarrou-se ao corrimo e com tanta fora que as orelhas do leo esculpido na m@deira se 
lhe cravaram nas palmas dolorosamente. Embora j conhecesse o feitio de Rhett, no esperava 
semelhante insulto. Ele gracejava,  claro, mas h gracejos monstruo-sos demais para serem 
tolerados. Scarlett s queria poder enterrar-lhe nos olhos as unhas asguadas, e extinguir aquele 
estranho fulgor que neles via brilhar. 
- Vai para o inferno! - bradou com voz trmula de clera. - Sabes perfeitamente que esta criana  
tua, mas de&ejo-a tanto como tu. No h mulher nenhuma, que deseje ter filhos dum grosseiro 
como tu. Oxal... oli, meu Deus, quem me dera que esta criana no, fosse tua, que fosse de 
qualquer outro, homem! 
Scarlett viu a cara de Rhett alterar-se repentinamente ,s<yb o, efeito da ira, e de mais alguma coisa 
que ela no con- 
508 
seguiu analisar. As feies contraram-se-lhe como se o houvessem picado. 
"Atingi-o em cheio!" pensou Scarlett com maligno prazer. 
#
Mas de novo a mscara da impassibilidade cobriu a, face de Rhett que aXa-gou o bigode. 
- No tQ @flijas com is2o! - retorquiu, voltando,-lhe as costas. - ]@, possvel que tenhas um mau 
sucesso, 
Por um momento, Scarlett, sentiu a cabea, andar  roda; pensou no que @<@gnificava a 
maternidade, com o habitual enjoo, a entediante expectativa, a deformao do corpo, as hora" de 
sofrimentos -todas essas coisas que um homem no podia, avaliar, E Rhett atrevia-se, a dizer 
gracejos! Pois ela havia de lhe enterrar as garras na cara. S a vista, do sangue naquele rosto 
trigueiroi lhe acalmaria a dor que a, dominava. Lesta como uma gaita, atirou-se a Rhett> mas este, 
num movimento rpido, estend-eu. o brao, para a, repelir. Scarlett encontrava-se na borda da 
escada encerada recentemente, e, ao embater no brao do marido, perdeu o equilbrio. Tentou ainda 
segurar-se a um bala.stre, mas no o conseguiu. Caiu de costas, sentiu uma dor lancinante nas 
vrtebras e, sem que pudesse deter-se, rolou at ao. ltimo degrau. 
Era a primeira vez que Scarlett, estava doente exceptuando os seus partos - porque estes no podiam 
@er catalogados como do,ena, Um parto em forma no era enfermidade. Quando tivera ag 
crianas, nunca se sentira desamparada, no sentira medo como agora, assustada como, .:e 
encontrava, com a fraqueza e o sofrimento. Sabia que o seu estado era mais grave do que lhe diziam 
e tinha a !dela, Confusa de que poderia morrer. Sempre que respirava, a, costela partida dava-lhe 
como que uma punhalada. Doa-lhe a cabea contusa, e tambm a cara, e todo o corpo parecia 
entregue a diabinhos que lhe arrancassem a carne ,com pinas ao rubro,, lhe retalhassem os 
membros com facas rombas e a deixassem por curtos intervalos, to esgotada que, no tinha 
tem@o, de se recompor antes dei nova nvestida. No, um parto no se assemelhava em nada quela 
tortura, Duas horas depois do nascimento de Wade, de Ella, de Bonnie Scarlett comera com apetite. 
Presentemente, s a gua f@ia  que no lhe dava nuseais. 
Com<> era fcil ter uma criana -e como era doloroso 
509 
no a ter! E que estranha sensao experimentara ao saber que esta criana no chegaria a nascer! 
Ainda mais estranho era o facto de esse filho ser o nico que ela desejara dar  luz. Tentava 
compenetrar-se da razo desse desejo, mas tinha o esprito muito fatigado para poder reflectir, para 
pensar noutra coisa que no fosse o receio da, morte. A morte rondava o quarto e Scarlett estava 
cheia de medo e no tinha forcas de a repelir. Queria algum a seu lado, algum que lhe de~ a, mo 
e combatesse em seu lugar at que as foras lhe voltassem e ela pudesse continuar-a luta. contra a 
morte. 
0 sofrimento abafara a clera, e Scarlett tinha necessidade de Rhett. Mas Rhett no se encontrava ali 
e ela no conseguia perguntar pelo marido. 
A ltima recordao, que dele conservara, era a dum homem lvido, de rosto alterado pelo terror, a 
chamar pela Bab com voz estrangulada. Lembrava-se tambm de a terem transportado ao colo. E 
depois... dores e mais dores, murmrios de vozes, soluos da tia Pitty ordens bruscas do Dr. Meade, 
passos precipitados na es@ada e no corredor..-. Ento como a claridade fulgurante dum relmpago, 
ela compreen'deraque a morte andava por ali, esforara-se por gritar um nome e o seu grito no 
passara dum suspiro. 
No entanto, aquele suspiro desesperado despertou eco na obscuridade que a envolvia e a voz doce 
da pessoa por quem chamara fez-se ouvir em tom embalador: 
Estou aqui, minha querida. Tenho estado sempre aqui. 
Quando Melanie lhe pegou na mo e a encostou  face fresca, a morte e a angstia afastaram--se 
devagarinho. Scarlett quis voltar-se para a ver, mas no, pde. Melly ia ter uma criana e os 
yankees no tardavam. A cidade estava, em chamas e era necessrio apressar-se. Mas a Melly ia ter 
um filho; no se encontrava em condies de correr, Scarlett devia. ficar ao lado dela at que a 
criana nascesse e mostrar-se forte porque Melly precisava da sua for@-. Melly sofria tanto... 
Queimavam-na com ferros quentes, retalhavam-na com facas rombas, e a dor invadia-a como uma 
onda, Tinha de segurar na mo de MeIly. 
Mas, afinal, o Dr. Meade comparecera ali, a-pesar da sua presena ser reclamada na estao, onde 
#
se amontoavam os soldados feridos. Estava ali, p<>Is que o ouviu dizer: 
510 
- Ela delira. Onde est o capito Butler? Veio a noite, e em seguida o dia. E ora ela mesma  que ia 
ter a criana, <>r Melanie  que gritava. com as dores do parto; mas esta mantinha-se ali, sempre a 
seu lado. As suas mos eram frescas. E no fazia gestos inteis nem soluava como a tia, Pitty. De 
cada vez que Scarlett abria os olhos e dizia "MeIly", a sua voz respondia. Scarlett, nesses 
momentos, ia murmurar: "Rhett... quero Rliett"?mas lembrava-se, como em sonho, que Rhett no a 
queria, e reva-lhe a cara escura como a dum ndio e w alvos dentes  mostra num riso escarninho. 
Numa ocasio que chamou por Melanie, a voz de Bab respondeu-lhe: 
-Sou eu, filha. E Bab ps-lhe um pano frio na testa. Scarlett, agitando,-se no leito, chamou sem 
cessar* "Melly.,. MeIly", mas esta no acudia ao seu aj>elo porqueestava sentada na borda da cama 
de Rhett, enquanto Rhett, brio' soluante e meio estirado no cho, chorava com a cabea. apoiada 
no regao de Melanie, 
Sempre que ela saa do quarto de Scarlett, via Rhett sentado na beira da sua cama, com a porta 
escancarada e olhar fixo no corredor. 0 quarto estava em desordem, juncado de pontas de charuto e 
de pratos em que no, tocara. A e-ama, encontrava-se revolta, e Rhett, com a barba por fazer e cara 
angustiada, passava a o tempo, a fumar con&tan,tQmente. Nunca formulava perguntas quando via 
Mela, nie. Ela avanava at ao limiar e coniunicava-lhe em breves palavras o estado da doente. 
"Lastimo dizer, mas est pior". Ou ento: "No, no perguntou ainda por si, Bem v, est delirante 
... " Ou ainda: "No desespere, capito Butler. DeiY,C-me preparar-lhe uma xcara de caf e 
qualquer coisa Para comer. Assim, adoece com certeza. ]@ preciso reagir". 
Melanie tinha pena dele, embora estivesse muito extenuada e muito ensonada para sentir fosse o 
que fosse. Como podiam as pessoas dizer tanto mal de Rhett? Pretenderem que ele no tinha 
corao, que, era mau e infiel a SP-arlett, quando o via ali a emagrecer quando, lhe via urn rosto to 
atormentado! Apesar de e@gotada, esforava-se por ser o mais bondosa possvel quando lhe ia dar 
noticias da doente, Rhett parecia um ru  espera da con-@ denao.... ou uma. criana que se 
encontrasse num mundo 
511 
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hostil. Mas, para Melanie, todos se assemelhavam a crianas. 
Quando, a transbordar alegria, lhe foi anunciar que Scarlett estava melhor, nunca imaginou o que a 
esperava. Sobre a mesa de cabeceira encontrava-se uma garrafa de whisky meio despejada; o quarto 
tresandava a lcool. Rhett ergueu para Melanie um olhar vtreo e os msculos das faces comearam 
a tremer~lhe, apesar de ele querer domi~ nar-se. 
- Morreu? 
- Oh ' no! Est muito melhor. -Louvado -seja Deus! -exclamou Rhett, escondendo a cara entre as 
mos. 
Melanie viu os ombros sacudirem-se-lhe com um tremor nervoso e ficou cheia de comserao; mas 
a sua piedade transformou-se em terror quando notou que ele chorava. Nunca ela vira um homem 
chorar... E Rhett, to amvel, to gracejador, sempre to seguro de si mesmo, naquele estado! 
Chorava com fortes soluos que a, assustavam. Aterrava-a a ideia de que ele estivesse embriagado, 
porque sempre tivera medo dos bbados. No entanto, quando Rhett ergueu a cabea e Melanie viu 
a. expresso do seu olhar, entrou logo no quarto, fechou a porta e aproximou-ge dele, No, nunca 
vira um homem chorar, ma., enxugara as lgrimas de muitas crianas. Assim que Mela-nie lhe 
pousou a mo no ombro, os braos de Rhett enlaaram4he a cintura. Sem saber como, viu-se 
sentada na e-ama, enquanto Rhett, ajoelhado no cho, deitava a cabea no seu regao e a agarrava 
com tanta violncia que chegava a mago-la. 
Acariciando-lhe os cabelos negros, Melanie quis consol-lo: 
- Ento, ento -disse, suavemente. -Ela. vai ficar boa. Ao ouvir estas palavras, Rhett abraou-a 
ainda com mais fora e desatou a falar com extraordinria rapidez, Exprimia-se numa voz rouca, e 
falava, falavacomo se confiasse os seus segredos a um tmulo que jamais os revelaria a ningum. 
#
Pela primeira vez na vida mostrava-se tal como era. Impiedoso consigo, mesmo, confessou-se a 
Melanie,  maternal Mela-nie que o ouvia sem o compreender a princpio. Com a, cabea encostada 
ao seu colo, puxava-lhe as pregas da saia, enquanto discorria numa voz que ora se perdia num 
murmrio confuso, ora emitia clara- 
512 
mente frases duras, amargas. Confessou tudo, evidenciou a sua torpeza. Falou de coisas que nem 
sequer uma mulher jamais mencionara  frente dela, revelou factos secretos que a fizeram ruborizar. 
Contente por ele no lhe ver a cara, afagava-lhe a cabea coino costumava, afagar a do seu pequeno, 
Beau, e dizia-lhe: 
-Cale-se capito Butler! No deve dizer-me isso. No est em si. dale-se! 
Ele'contudo, prosseguia. Era uma verdadeira torrente de palavras. Como se fosse a sua ltima tbua 
de salvao, agarrava~se cada. vez mais  saia de Melanie, Acusava-se de actos que ela no 
compreendia,. Mencionou o nome de Belle Watling e, por fim, sacudindo-a com violncia, 
exclaMOU: 
- Matei Scarlett, matei-a! No percebe? Ela no queria ter esta criana., e... 
-J lhe disse que no est em si. Cale-se! No, queria a criana? Mas se todas as mulheres querem... 
- Isso  a Melanie, A Scarlet@ no. Pelo menos filhos meus... 
- Cale-se! -No percebe. Ela no queria e eu gerei-lhe um filho. Essa criana... foi por minha culpa. 
Havia muito tempo que no dormamos juntos... 
-No se dizem coisas dessas, Cale-se, capito Butler. 
- Eu estava bbado, desvairado. Queria fazer-lhe mal... porque ela mo fizera a mim. Queria.... e 
conseguiu-o... mas Scarlett, no queria, nunca me quis. Tentei tudo ... 
- Oh, peo-lhe! -Eu no sabia que ela estava nesse estado ... at ao dia em que caiu. Searlett 
ignorava o lugar onde me encontrava, para me escrever e contar-me... mas ainda que o soubesse, 
no me teria escrito. Pois o que lhe digo  que viria logo para casa... se o houvesse sabido... quer ela 
me desejasse quer no. 
- Sim, voltaria. No duvido,. 
- Meu Deus andei desorientado todas estas semanas, desorientado e 1>bado! Ah, quando ela. me 
disse, ali na escada... que fiz eu? Que respondi? Dei uma, gargalhada e observei: "No, te aflijas.  
possIvel que tenhas um mau sucesso". E ela... 
33 - Vento Levou - 11 513 
JW2 
De s'-bito'Melanc tornou-se. lvida arregalou os olhos apavorada, desceu a vista sobre a cabe@a de 
Rhett, poisada nos seus joelhos, essa cabea que estremecia sob o imprio da comoo. Pela janela 
aberta, o sol da tarde entrava a jorros, e Melanie, como se fosse pela primeira vez ' notou quanto 
as mos de Rhett eram grandes morenas e fortes sob o plo espessa que lhes cobria as co@tas. 
Involuntariamente, teve um movimento de recuo. Pareciam to vorazes, to impiedosas; no entanto, 
enclavinhadas nas pregas da sua saia, deram-lhe a, ideia de dois objectos quebrados e inteis. 
Seria possvel que ele houvesse sabido daquele boato relativo a Scarlett e Ashley e acreditando-o, 
ficasse ciumento? A verdade  que @@eixara a cidade logo aps o escndalo. Mas... No, no era 
possvel. 0 capto Butler partia sempre em viagens inesperadas. E no era homem para acreditar 
em maledicncias; pelo contrrio tratava-se duma pessoa muito sensata. Alis, teria matado'Ashley 
ou, pelo menos, pedido uma explicao. 
A causa residia aDenas no facto de que se achava bbado naquele dia depois de haver estado to 
inquieto nas semanas anteri@res. Aquilo no passava duma espcie de delrio que o tomara e o 
fazia dizer coisas  toa. Os homens suportavam as provaes muito menos do que as mulheres. n 
claro que sempre houvera fosse o que fosse. Naturalmente questionara com a mulher e o crebro 
fatigado ampliara os acontecimentos. Uma ou outra das suas revelaes podia ser exacta, mas no 
todas. A ltima  que no com certeza! Nenhum homem diria isso  mulher, e Butier amava Searlett 
apaixonadamente. Melanie nunca via o mal  sua roda, nem a crueldade, e agora que, pela primeira 
vez, tomava contacto com isso achava tudo iziverosimil e inacreditvel. Rhett estava @rIo. Estava 
#
doente, e no convinha contrariar as crianas doentes... 
- Ento, ento! - murmurou, num tom embalador. - 
No diga mais nada, Eu j compreendi. 
Rhett ergueu a cabea---de modo brusco, fitou-a com os olhos injectados de sangue e repeliu as 
mos de Melanie, num gesto altivo, 
- Santo Deus  l capaz de compreender!  boa demais. No me 'acreditou sequer. Mas tudo o que 
eu. disse  verdade. Sou um selvagem. Sabe por que motivo o fiz? Estava desvairado, com cimes. 
Sca,rlett nunca me 
514 
1 Ik : . 1,11 - 
teve amor e eu pensava que a levaria a amar-me. No, nunca gostou de mim. No gosta seno de... 
Aquele olhar esbraseado, de bbado, encontrou o dela, e Rhett ficou calado, de boca aberta, como 
se s ento percebesse com quem  que estava a falar. MelaniL- tinha o rosto lvido, transfigurado, 
mas o seu olhar incrdulo, repleto de lgrimas, conservava-se calmo e mantinha a sua doura. Dele 
se evolava uma serenidade luminosa; a inocncia que emergia dessas pupilas suaves impressonou-o 
de tal maneira que se lhe dissiparam em parte os fumos do lcool e se detiveram nos lbios as 
palavras inconvenientes que se aprestavam a sair. Rhett mastigou, desviou a cara, e recuperou um 
pouco o sangue-frio. 
-Sou indigno - disse por fim, descansando outra vez a cabea no regao de Melanie. - Mas no tanto 
como podia ser... Se eu continuasse, no me acreditaria.  bondosa demais para dar crdito a essas 
coisas. Antes de a conhecer, eu no havia encontrado ainda uma pessoa que fosse realmente boa. 
No me acreditaria, no  verdade? 
- No, no o acreditaria - respondeu Melanie, recomeando a acariciar-lhe os cabelos. - Scarlett vai 
restabelecer-se. Ento, capito Butler! No chore. Ela vai recuperar a sade. 
57 
ERA uma mulher plida e magra a que Rhett conduzia ao comboio de Jonesboro, um ms depois. 
Wade e Ella, que deviam acompanhar a me, calavam-se e sentam-se constrangidos perante o rosto 
lvido e parado de Scaflett. Agarravam-se a Prissy, porque, mesmo para os seus pequeninos 
crebros infantis, havia,algo de assustador na atmosfera fria e estagnada que reinava entre a me e 
o, padrasto. 
Fraca como estava, Scarlett resolvera seguir para Tara. Tinha a impresso de que sufocaria se 
ficasse mais um dia ein Atlanta. J no podia pisar e repisar os mesmos pensamentos, que a 
levavam de contnuo a considera-r na desordem da sua vida. Adoecera de corpo e alma, e tornara-se 
numa criana perdida em horrveis pesadelos, sem ter possibilidade de lhes escapar. 
Fugia de Atlanta como o fizera outrora diante do Exrcito invasor, e assim relegava par fais tarde 
as Melas que a atormentavam, graas  ve1% rmula de defesa: 
515 
"gora no quero pensar nisto. Seno, no resistirei. Amanh, em Tara, verei o que posso decidir. 
No fim de contas, a noite  boa, conselheira". Par >ecia-lhe que, se pudesse reencontrar a calma e 
os verdes campos de algodo da sua terra natal, todas as suas inquietaes se extinguiriam e 
conseguiria reatar o fio dos penwmentos dispersos. 
Rhett seguiu o comboio com o olhar, at que ele desapareceu. Ento estampou-se-lhe no rosto uma 
expresso de amargura que fazia mgoa ver. Suspirou, mandou embora ococheiro com o trem e 
saltando para o dorso do cavalo, foi em direco  Ivy S@reet, onde habitava Melanie. 
A manh estava quente e Melanie senta-ra-se na varanda, que a folhagem revestia, com um cesto, 
de costura cheio de meias para passajar. Confusa, assustada, viu Rhett apear-se e amarrar as rdeas 
do cavalo no moleque de ferro fundido do passeio. No o tornara a encontrar s, depois daquele dia, 
terrvel em que Scarlett, piorara muito e Rhett se achava... digamos, embriagado. Melanie detestava 
proferir a palavra que lhe acudira ao esprito. Durante a convalescena, de Scarlett, trocara com ele 
poucas ou nen,huma impresses e, nesses momentos,, mal se atrevera a fit-lo. Ele, contudo, 
continuara a dar provas da sua. amabilidade peculiar e nada deixava entender a cena. que entre eles 
#
se passara. AshIey contara-lhe uma vez que os homens esqueciam muitas vezes o que tinham dito 
quando brios, e Melanie desejava sinceramente que Rhett perdesse a memria daquela ocasio. 
Antes morrer do que saber que ele se lembrava, das suas efuses. 
Constrangida, intimidada, ela vu-o subir o passeio. Ta-lvez viesse apenas convidar Beau a ir 
brncarcom, Bonnie. 
0 que no vinha, com certeza, era agradecer-lhe o que fizera por ele no tal dia famoso. Levantou-se 
para ir ao &eu encontra e, como sempre, notou que Rhett andava com excessiva ligeireza para, um 
homem da sua corpulncia. 
Scarlett partiu? Partiu. Tara h-de fazer-lhe bem - respondeu sorrindo. -s vezes penso que ela  
como o gigante Anteu, cuja fora aumentava ao tocar o solo ptrio. Necessita de se aproximar de. 
vez em quando daquela lama vermelha, tanto do seu agrado. E ento a vista dos algodoeiros em 
pleno crescimento h-de ser-lhe mais salutar do que todos os remdios do Dr. Meade. 
- No quer sentar-se? - perguntou Melanie, embara- 
516 
ada. Aquele homem era to grande, to msculo! Ao p dos entes que transbordavam de vigor ela 
sentia-se sempre atarantada. Parecia desprender-se desse homem uma fora e uma vitalidade que a 
tornavam, aos seus prprios olhos, niais pequena e mais fraca ainda, E que trigueiro que ele estava! 
Qu impressionante! Os msculos espessos dos braos, moviam-se sob o casa@co de linho branco 
duma forma que intimidava. Custava-lhe a crer ter visto toda aquela fora orgulhosa rebaixar-se um 
dia  sua frente. E pensar que tivera- essa cabea. poisada nos seus joelhos! "Oh, meu Deus!" 
murmurou, e-orando de novo. 
- Escute - disse Rhett em voz suave - a minha presena aborrece-a? Prefere que me v embora? 
Diga-o francamente. 
"Oh, ele recorda-se", pensou Melanie. "E sabe como eu estou perturbada..." 
Lanou-lhe um olhar suplicante, mas, de repente, a sua confuso e embarao desapareceram. Havia 
tanta paz, bondade ecompreenso nos olhos de Rhett que ela se admirou de como fora to estpida 
para se impressionar quele ponto. 0 marido de Scarlett tinha uma expresso cansada... Melanie 
chegou a achar-lhe um ar triste. Como pudera supor que ele fosse to mal educado que viesse 
insistir em assuntos sobre os quais ambos desejavam pr uma pedra? "Coitado", disse para consigo 
' "aflige-se tanto por causa de Scarlett ... " E sorrindo acrescentou em voz alta: 
- Faa favor de se sentar, capito Btler. Rhett sentou-se pesadamente e observou Melanie, que 
tornava, a ocupar-se da costura. 
- Vim pedir-lhe um grande favor - comeou ele, sorrindo tambm. -Queria que me prometesse o seu 
concurso para levar a cabo uma ideia que a princpio talvez a horrorize. 
-Qual ideia? -Trata-se de negcios, em suma, 
- Ah, nesse caso  ao meu marido que deve dirigir-se! Disso no percebo patavina. No sou esperta 
como Scarlett. 
-Receio que Scarlett no seja suficientemente esperta para, fazer o que mais lhe convm. Por isso 
decidi falar consigo. Sabe como ela esteve... doente, Quando voltar de Tara, vai querer retomar a 
sua actividade no armazm e nas serraes... essas coisas que eu gostaria, de ver destruidas. Temo 
pela sade de minha mulher, esta  a verdade. 
517 
- Scarlett, realmente, tem trabalhado em excesso. Devia obrig-la a moderar-se. 
Butler riu-se. -Bem sabe como ela  temersa.. At fujo de encetar uma discusso. n como uma 
criana cabeuda, No quer que eu a ajude, nem eu nem ningum. Esforcei-me por conseguir que 
vendesse as serraes, mas qual! Vo l convenc-la! E agora  altura de tocar na. questo que me 
trouxe c. Scarlett seria capaz sim' de vender a sua parte nas fbricas... mas, s a<) senhor W11kes. 
Ora eu queria que o senhor Wilkes dissesse que comprava... 
-Isso seria. uma coisa admirvel. 0 pior  que... Melanie calou-se e mordeu os lbios. No podia 
falar a um estranho do estado econmico do seu lar. Apesar do que Ashley ganhava na serrao, o 
certo  que o dinheiro no abundava. Era to difcil fazer economias! Nem sabia como se escoavam 
#
as notas... Ashley dava-lhe o necessrio para os gastos, caseiros, mas o mal vinha todo das despesas 
imprevistas e de certas compras a que no resistiam.--A conta do mdico era. choruda, os livros e 
mveis que AshIey encomendava em Nova Iorque perfaziam somas importantes. Depois, os 
vagabundos que abrigavam no subterrneo... Alm de que Ashley jamais se recusava a emprestar 
dinheiro -aos velhos camaradas das fileiras da Confederao, 
- Oia. Estou disposto a emprestar a quantia necessria -acudiu ele. 
- Muito amvel da sua parte, capito. Mas arriscvamo-nos a nunca poder reembols-lo. 
- No fao empenho em ser reembolsado. Peo que no se zangue comigo e que escute at ao fim. 
Considerar-me-la bem pago se Scarlett no se fatigasse mais a fazer milhas e milhas de trajecto, 
para ir s fbricas. 0 armazm basta para a distrair. Compreende? 
- Quer dizer que... - comeou Melane, pouco convencida, 
- Quer oferecer um garrano ao seu filho, na quer? Quer tambm que ele curse a Universidade e que 
viage em seguida pela Europa... 
- J se v! - exclamou ela, cujo rosto se iluminou, como acontecia sempre que se tratava, do 
rapazinho. - 
Gosta-ria que ele tivesse tudo isso, mas-... Enfim, os meios de que dispomos... 
518 
-o senhor W11kes poder ganhar mu !to nas serraZes 
-insinuou Rhett. -E eu ficaria satisfeito se vi~ Beau aprovetar-se dos benefeios que merece, 
- Ah capito Butler, que sabido que o senhor ! Aproveita-ge 6 orgulho materno, lisonjand"... 
Estou a perceber tudo... 
-Ento, deixa-me emprestar-lhe o dinheiro? -atalhou ,Rhett, em cujos olhos brilhou pela. primeira 
vez um claro. 
- Agora combinemos as coisas como dois conspiradores. Scarlett e W11kes tm de ser iludidos. 
- Meu Deu2 nunca seria capaz... -Se Searlett desconfiar que eu tramo seja o que for, nas suas 
co,%tw; ainda, que seja para bem dela.--- enfim., conhece-a, no 'verdade? E tambm o seu marido 
no concordaria que eu lhe emprestasse dinheiro,  preciso, pois, que nenhum deles saiba, donde 
veio essa quantia. 
-Tenho a impresso de que Ashley se no importava, uma vez que lhe explicassem tudo, ]@ to 
amigo de Scarlett! 
- No duvido - comentou Rhett, com a maior doura. 
- Mas recusaria do mesmo modo. Os Wilkes so muito orgulhosos. 
- Sim... capito Bufler... mas eu no posso mentir ao meu marido. 
-Ainda que seja, para bem de Scarlett? De Scarlett, que gosta tanto de si? 
Tombaram lgrimas dos olhos de Melly. 
- Sabe que estou sempre pronta. a fazer tudo por ela.. Nunca lhe pagarei bastante o que Scarlett fez 
por mim. No o ignora, "pito. 
- De acordo - volveu ele. - Sei o que minha mulher fez por si. E se dissesse ao senhor Wilkes que 
um parente <jUalquer lhes deixou dinheiro em testamento? 
- Ah, infelizmente os nossos parentes falecidos estavam todos na penria,!... 
- E se eu enviar o dinheiro ao seu marido, pelo correio, ,sem que ele saiba, o nome do expedidor? 
Paria, com que aprovQitasse essa quantia para comprar o negcio... e que no o distribusse, em vez 
disso, pelos confederados pobres? 
Melanie sentu-se ferida com estas ltimas palavras, que pareciam dirigidas ao pr6prio AshIey. Mas 
Rhett sorriu com um ar to compreensivo que ela lhe retribuiu o wrriso. 
-Est bem, Farei o que me pede. 
519 
- Ente,  negcio arrumado? E guardamos segredo no  verdade? 
- Mas eu nunca. tenho segredos para o mu marido... 
- Acredito, minha senhora, Olhando-o n.~ momento, Melanie pensou como apreclara com justia o 
verdadeiro carcter desse homem, quando toda a gente se enganava a seu respeito. Acusavam-no de 
#
brutal, desdenhoso, mal edur-adG e desonesto, embora j alguns comeassem a formar opinio 
diferente. 'Ela, ao menos, previra desde logo que Butler era, uma, pessoa admirvel, Nunca a tratara 
seno com todo o respeito e demonstrava sempre compreend&1a muito bem. Alm disso, era doido 
por Scarlett. Melane achava, deveras- delicado o processo de que ele se queria servir para 
desembaraar a mulher dos seus trabalhos excessivos. E, num impulso de simpatia, exclamou: 
- Scarlett tem sorte em possuir um marido como o senhor! 
- Acha que gim? Se ela nos estivesse a ouvir, naturalmente no concordaria consigo. Mas tambm 
quero ser til a si e dou-lhe mais do que dou a, Scarlett. 
- A mim? - retorquiu Melly, admirada. - Quer dizer... a Beau. 
Rhett peg@o,u no chapu e levantou-se, Ficou um instante a contemplar o rosto desgracioso de 
Melanie, em forma de corao, de testa baixa e olhos escuros e srioso rosto duma mulher indefesa, 
contra os ataques da vida. 
-No, no  a Beau. Tento, oferecer-lhe qualquer coisa ainda melhor do que Beau, se  possivel 
imagin-lo. 
- De facto, -me impossvel - volveu ela, no cmulo da. surpresa. -No tenho nada no mundo mais 
precioso do que Beau... a no ser AshIey. 
Rhett no disse nada e continuou a contempl-la. - muito amvel da sua parte, capito Butler... 
mas j sou to afortunada, tenho tudo aquilo a, que uma mulher pode aspirar neste mundo... 
-ptimo - redarguiu ele, franzindo de repente o cenho. -E eu pretendo fazer com que conserve tudo 
isso que tem. 
Quando Searlett regressou de Tara mostrava j um parecer menos doentio. As f&ces haviam-se-lhe 
enchido e tinham um pouca de cor. Nos olhos via-se-lhe, 0, fulgor de 
520 
outro temPO, a costumada vivacidade, Pela primeira ve@,, depois de tantas semanas, ela riu alto ao 
ver Rhett mais a pequena, na. estaO, a, esper-la com o trem. 0 marido exibia duas penas de peru 
na aba do chapu, e Bonnie, metida num velho vestido, domingueiro, tinha a cara pintada de azul e 
uma pena, de pavo, quase do seu tamanho, espetada nos caracis. Sem dvida que pai e filha 
brinca~ vam aos ndios quando chegou a hora do comboio e pelo ar encolhido de Rhett e pelo 
aspecto indignado de hab, Scarlett compreendeu que a pequena se recusara a mudar de traje, 
apesar de ter de ir esperar a me. 
-Em que lindo, estado os encontro! -exclamou esta, beijando a, criana. e apresentando o ros;to ao 
marido. A estao estava cheia de gente que se comprimia, alis ela no se teria prestado quela 
manifestaor de ternura. Apesar do constrangimento que lhe causava. a mascarada de Bonne, 
Searlett no deixou de notar que as pessoas, em vez de troarem do pai e da filha riam com agrado 
perante o espectculo que estes daVam'e os <,,(>rlsideravam siinptos. Ningum ignorava que a 
petiza de Butler fazia dele tudo o que queria, e todos concordavam com isso e pa,reciam ficar 
agradados, 0 grande amor de Rhett pela 'mida contribura muito para o elevar na estima dos 
habitantes de Atlanta. " No trem que a levava a casa, Seariett no cessou de contar novidades da, 
comarca. 0 tempo quente e seco era favorvel ao algodo: nas&cia to depres,,@a que se diria v&lo 
surgir da terra. Infelizmente, WlI profetizava preos baixos l para o Outono, Suellen esperava 
outro filho. (Isto foi dito em voz baixa, por causa dos pequenos). Ellen -que chegava, tambm> com 
Wade - mostrara muita coragem, dando uma dentada na filha mais velha de Suellen, o que alis fora 
merecido pois a garota saa muito  me. Esta e Searlett tinham-se'zarigado, e houvera entre as duas 
uma altercao forte, que lembrara as rixas dos bons tempos, de outrora. Wade, sozinho, matara 
uma vilbora. Randa e Camlla Tarleton eram agora mestras o que tinha imensa graa, porque 
nenhuma das Tarleto@s fora at ai capaz Ce pronunciar correctamente a mais simples das 
palavrac,, @etsy Tarleton casara-se com um sujeito gordo, de LoveJOY, e el"> e Hetty, e Jim, 
Tarleton cultivavam belo algodo em Fairh111, A senhora. Tarleton possua, uma gua e um poldro 
e estava to, feliz como se dispusesse de um 
521 
@@1 
#
mil-ho de dlares. Na casa dos Calverts viviam pretos, os quais a haviam adquirido em hasta 
pblica. A propriedade encontrava-se em estado lastimoso; at dava vontade de chorar quando se 
passava por l. Ningum sabia onde estava Cathleen neni-o indesejado marido, Alex ia desposar 
SaIly, viva do irmo, Imagine-se, depois de terem vivido por muitos anos debaixo do mesmo 
tecto! Todos diziam tratar-oe dum casamento de convenincia, pois as ms-lnguas comeavam a 
ocupar-se deles depois da morte da av e da me, que habitavam no mesmo prdio. Dimty Mun,roe 
ficara inuito impressionada com o caso. Mas de quem a culpa? Se fosse mulher de mais iniciativa j 
teria descoberto outro homem h muito tempo, em vez de esperar que Alex tivesse dinheiro para lhe 
pedir a mo, 
Scarlett tagarelava alegremente. Havia,, porm, outras coisas que ela. omitia, coisas que 
entristeciam s de as evocar. Percorrera a comarca inteira em carruagem na companha de W111, e 
procurara, varrer da ideia a, @poca em que os algodoeiros reverdeciam aqueles milhares de acres de 
terreno frtil, Agora a, floresta invadia as plantaes, e as giestas, os carvalhos e os pinheiros at 
cresciam no meio das runas. Em cada cem acres, s um se achava cultivado. Dava a impresso de 
se estar atravessando uma regio morta., 
Sero precisos cinquenta anos para restabelecer a terra no que foi, se tal for possvel! Isto dissera 
WilI, que acrescentara: Graas a si, Srarlett, e a mim, Tara  ainda a melhor quinta da comarca; mas 
 apenas uma quinta que se lavracom duas mulas no chega a ser uma plantao. Depois de Tara, h 
 p@opriedade dos Fontaines, e em seguida a dos Tarletons. Ningum tira muito dinheiro, mas 
trabalha-se com energia. Quanto s restantes... 
No, Scarlett no gostava de se recordar do aspecto daquela zona deserta ' que ainda parecia mais 
lgubre quando se comparava com Atlanta, em plena prosperidade. 
-Correu tudo bem por aqui?-perguntou ela, j em casa, quando estavam sentados na varanda, 
Discorrera rpida, sem descanso, durante todo o caminho, temendo * silncio que se pudesse 
estabelecer. No tomara a falar * ss com o marido desde o dia em que -cara na escada, * agora 
pouca vontade mostrava de se encontrar junto dele, sem mais testemunhas. Ignorava ossentimentos 
que o marido nutria a seu respeito. Fora bondoso enquanto 
522 
---OL 
durara essa penosa convalescena, mas aquilo semelhava-se  bondade impessoal dum estranho. 
Adivinhara-lhe os desejos, impedira as crianas de a incomodarem superintendera no armazm e 
nas serraes. Nunca, @orm, dissera: "Coitada!" Talvez no estivesse arrependido. Talvez 
continuasse a pensar que no era seu o filho que no chegou a nascer, Quem poderia decifrar o que 
se passava sob aquela ni'seara impenetrvel? Mostrava-se, contudo, disposto  delicadeza, pela 
primeira vez na sua vida de casados e a deixar correr o marfim, como se nada de desagradvel 
houvesse ocorrido entre eles... como se, pensou Searlett sem entusiasmo, jamais entre ambos tivesse 
havido fosse o que fosse. - Correu, tudo bem? - repetiu. - 
Arranjaste o toldo novo para o armazm? Trocaste as, mulas? Por amor de Deus, Rhett tira-me 
essas penas do chapu, Pareces um tonto. s, ca@az de te esquecer e sair assim para a cidade, 
-No! -acudiu Bonnie, agarrando o chapu do pai, para o proteger. 
- Tudo correu bem - respondeu Rhett. - Bonnie e eu divertimo~nos bastante. Desde que partiste 
nenhuma s v@z a pentearam, ao que suponho, No trinques as penas, minha querlda. Pode fazer-te 
mal. Sim, o toldo est pronto e, quanto s mfflas, fiz excelente negcio. NQvidades, nenhu~ mas. 
Tudo -na mesma. - Em seguida, corno quem se lembra de qualquer, coisa, acrescentou-. -0 ilustre 
Wlkes veio c a noite passada. Queria saber o que eu pensava quanto  hipi@tese de lhe venderes 
uma das serraes e 
parte da outra, 
Searlett, que oscilava na cadeira de baloio, abanando-se com um leque, parou bruscamente. 
-Vender? Mas onde arranjou AshIey dinheiro? Bem sabes que eles nunca tm nada. Melanie gasta 
tudo o que ele ganha, 
Rhett encolheu os ombros. 
#
- Calcula va que ela fosse pessoa econ,6rnca. Mas a verdade  que no estou ao facto, como tu, do 
deve e haver da famlia W11kes. 
Este remoque, muito no velho estilo de Rhett, teve o condo de a enervar. 
- Vai-te embora, minha linda -ordenou ela  pequena. 
- A mam precisa de convemr com o papk. 
523 
,1 
@@' @' @@ 
. -No -declarou terminantemente Bonnie, que trepou para o colo de Rhett. 
Searlett carregou a cenho e a pequena, olliando-a de soslaio, assemelh.ou-se tanto @ Gerald O'Hara 
que a me esteve quase a rir. 
- Deixa-a ficar - disse Rhett. - Quanto  forma. como ele arranjou dinheiro parece que foi assim: 
mandou-lho um sujeito que Wilke@ curou de varola, em Rock Island... o que renova a minha f na 
existncia da gratido. V-se que ela ainda existe no gnero humano. 
-Que sujeito? Algum do nosso conhecimento? -A carta no estava assinada. Vinha de Washington. 
Wilkes tem matutado, o mais possvel para descobrir a identidade do remetente. Mas as pessoas 
como Wilkes espa, lham tantas aces boa-s pelp mundo que no so capazes de se recordarem de 
todas. 
Se a surpresa no a houvesse atordoado, Searlett ripostaria como de costume, embora em Tara, 
decidisse no recomear as discusses com o marido, relativas a Ashley. 
0 terreno que ela, pisava era demasiadamente incerto e, antes que soubesse como devia proceder 
com qualquer desses homens, no, lhe convinha tomar nenhuma atitude. 
-Com que ento quer comprar-me a serrao? 
- Quer. Mas eu,  claro, fui-lhe dizendo que tu no vendias. 
-Isso agora  comigo. 
- Ora, bem sabes que no podes dQsfazer-te das serra- "s. Diss@-_1he que ele conhecia tanto 
quanto eu o teu feitio... Que no admitias a ideia de no dar ordens e conselhos a respeito de 
negcios. 
- Atreveste-te a falar assim? 
- Porque no? Se  a pura verdade... Suponho que ele concordou comigo inteiramente. Mas j sabe 
que no ia diz-lo... ]@ muito bem educado para o fazer. 
- Pois enganas@-te! Vou vender! - exclamou Scarlett, furiosa. 
At essa altura no tinha nenhuma vontade de se desfazer das serraes. Vrios motivos a levavam 
a pensar assim, entre eles o do valor monetrio que elas representavam. Nos ltimos tempos poderia 
ter-se desfeito delas, e at por somas importantes, mas havia recusado sempre todas as ofertas. As 
duas serraes eram a prova real de que fora capaz de fazer sem ajuda de ningum, e  custa 
524 
de rnuitos obstculos. Alm disso, eram o 'nico cio que a )jgava a AshIey. Se elas sassem da sua 
mo significava que perdia a possibilidade de se avistar a ss com Ashley... e precisava falar-lhe 
sem testemunhas. No podia continuar mais tempo na dvida quanto aos s@entimentos dele a seu 
respeito. Perdera para sempre o seu amor depois da horrvel noite da recepo de Melanie? Na 
geto dos negcios poderia encontr-lo muitas vezes, sem dar a impresso de que o procurava. E, 
com o tempo, haveria de reconquistar o terreno que tivesse acaso perdido no seu corao. Mas, 
vendendo as serraes... 
No, no queria vend-las; mas, espicaada pela ideia de que Rhett a descrevera a AshIey sob um 
aspecto to pouco amvel embora verdadeiro, a sua resoluo firInou-&e imediamente. AshIey 
teria o negcio, e por um preo to baixo que no deixaria de uensar quanto ela era generosa, 
- Vou vender! - repetiu. - Que te parece? Nos olhos de Rhett luziu uma chama de triunfo. Para a 
esconder, ele baixou-se e atacou um dos sapatos de Bonnie. 
- Parece-me que te vais arrepender... J ela, de facto, se arrependera da sua precipitao. Se aquelas 
palavras tivessem sido ditas a outra pessoa, que no a Rhett, Scarlett no teria dvida em retir-las. 
#
Por que se no contivera? Olhou, com semblante carrancudo, para o marido e viu que ele a 
observava com o seu ar investigador. @Zotando-lhe o aspecto irado, Rhett soltou uma gargalhada, 
que lhe ps  mostra a fileira de dentes brancos, Scarlett teve a desagradvel impresso de que ele 
lhe pregara uma partida, 
- Intervieste de algum modo neste assunto? - perguntou-lhe em tom seco. 
-Eu? -volveu Rhett, erguendo as sobrancelhas num movimento de espanto. - J tinhas obrigao de 
me conhecer bem. No costumo andar por a a praticar boas aces, quando nada me obriga a isso. 
Nessa noite, ela vendeu as serraes a AshIey, No perdeu no negcio porque o comprador se 
recusou a aceitar o preo mdic6 proposto pela vendedora e insistiu em adquirir na base da oferta 
mais alta feita at ento. Depois de haver assinado o contrato, e depois de Melanie celebrar a 
transaco com o convite a Rhett e a AshIcy para toorna- 
525 
k k 
rem cada um o seu copo de vinha, Scarlett sentiu-se to despojada como se houvesse cedido um dos 
seus filhos, 
As serrarias tinham sido o seu enlevo, o seu orgulho, a obra das suas mos avaras. Comeara com 
uma, bastante modesta, quando Atlanta principiava a erguer-se das runas e das cinzas. Combatera 
por elas ' protegendo,--as nos tempos sinistros em que os yankees tudo queriam confiscar, na 
altura em que rareava o dinheiro e os homens mais espertos dificilmente se mantinham, Depois, 
quando Atlanta cicatrizara as feridas 'e por toda a parte se reconstrua, e constantemente chegavam 
bandos de estranhos  cidade, Scarlett foi dona de duas belas serraes e duma dzia de parelhas de 
mulas, e teve forados a trabalharem por sua conta, a um preo compensador. Dizer adeus a tudo 
isso era fechar para sempre uma porta sobre uma poca da sua vida, dura e amarga, sem dvida, 
mas que ela recordava com saudade e satisfao. _Montara sozinha esse negcio; e agora, que o 
vendera, sentia-se oprimida pela certeza de que sem ela a dirigi-Ia, Asliley ia perder tudo... tudo o 
que for@ to laboriosamente edificado. Asliley confiava em toda a gente e pouco sabia de contas. 
Infelizmente j no poderia ajud-lo com a sua experincia... porque I@1;ett lhe dissera que ela no 
admitia a ideia de no dar ordens e conselhos... 
"Maldito Rhett", pensou, Espiando-o, teve a certeza de que ele andava metido, no caso. Como e 
porqu, eis o que lhe restava averiguar. Nesse momento, o marido conversava com Ashley, e as 
palavras ouvidas arrancaram-na de sbito s suas reflexes. 
- Naturalmente, vai desembaraar-se dos forados, sem demora... 
Desembaraar-se dos forados? Mas por que razo? Rhett sabia muito bem que se as serrarias 
davam bons lucros, isso se devia  mo-@e~obra barata, E como  que Rhett falava com tanta 
convico acerca, do que Asliley ia fazer? Como, o sabia? 
- Sim, vou mand-los j embora - replicou o novo dono, evitando o olhar estupefacto de Scarlett. 
- EnIouque@eeu? - bradou esta. - Vai perder todo o dinheiro do depsito que fiz. E depois, que 
operrios os vo substituir? 
-Contratarei pretos- replcou Asliley. 
- Pretos! Que ideia asua! No sabe o salrio que ele9 
526 
pedem? E vai tex os yankees todo o dia a fiscalizarem, a quererem ver se lhes d galinha a todas as 
refeies e se lhes pe edredes na cama. Se der aoites a qualquer deles, para o curar da preguia, 
ouvir os yankees soltarem gritos de ( da guarda" e -voc acaba por ir parar  cadeia. Fique 
sabendo-que os forados so os nicos... 
Melanie baixGu a cabea e contemplou as mos, AshIey pare"cia infeliz e reservado; durante 
momentos no falou, mas os seus olhos, encontrando os de Rhett, neles dir-se-ia terem encontrado 
nimo. A Scarlett no passou despercebda aquela cena muda. 
-No os utilizarei Scarlett-declarou AshIey. -Essa agora! - v(&eu, ela, ofegante. -E por que no? 
Tem medo de que o pblico diga de si o que disse de mim? 
AshIey ergueu a cabea e redarguiu: -No tenho, medo do que o pblico disser ,urna vez que eu 
#
esteja no bom caminho. Alis, nunca considerei justo utilizar o trabalhe, dos grilhetas. 
-Mas... -No quero ganhar  custa. da violncia, explorando a desgraa alheia, 
-Mas teve escravos! -No eram infelizes. Alm disso, depois da morte de meu pai, ter-lhes-a dado 
liberdade se a guerra no se houvesse encarregado de o fazer, Agora, quanto aos forados, o caso.  
diferente, Seariett. 0 regimen presta-se a muitos abusos, Talvez no saiba... mas eu sei. Sei que 
Johnnie, Gallegher matou, pelo menos, um homem dos que lhe estavam confiados, Ou dois... Quem 
se importa com Um forado a mais ou a menos? Desculpou-se alegando que o homem fora atingido 
quando pretendia fugir-. Mas no  o que outros insinuam. Sei tambm que ele emprega homens 
demasiadamente fracos para trabalharem, Chame a isto o que quiser, mas no me parece que se 
possa ser feliz explorando o sofrimento dos outros. 
- 0 ra adeus! Bem se v que escutou os sermes do reverendo Wallace acerca do dinheiro impuro... 
- No precisei de os ouvir. H muito tempo que comPartilho das suas idelas, . - Ento h@-de 
acreditar que todo o meu dinheiro  IMPurG - ripostou Searlett, que comeava a revoltar-se. - 
Empreguei trabalho de forados, explorei um botequim... 
Calou-se de repente. Ambos os W11kes pareciam emba- 
527 
raados, ao paisso que, Rhett se divertia a valer. "Maldito Rhett!" pensou ela pela segunda vez. 
"No, tarda a repetir @ 
ue eu meto o nariz nos negcios dos outros, e Ashiey -de ser da mesma opinio. Quem me dera 
esmagar-lhes a cabea, uma de encontro  outra!" Disfarou a clera e tratou de assumir um ar ao 
mesmo tempo digno e distante, a que no conseguiu inteiramente. - n claro - rematou ela -que no 
tenho nada a ver com essas coisas... 
- Scarlett, no julgue que a estou a criticar. No. 0 que acontece  vermos as- coisas por um prisma 
diverso, 
0 que  bom para@ si pode no ser para mim, 
Que desejo doido e repentina de se encontrar a ss com ele! De mandar Ilhett e Melanie para os 
antpodas, a fim de,poder exclamar sem receio: "Mas quero ver as coisas exac,tamente como tu. 
Dize-me ao certo quais so as tuas ideias, para que eu me compenetre delao". 
No entanto, com Melanie presente, e assustada com esta cena, e Rhett a divertir-se  socapa, 
Scarlett no teve outro recurso seno empregar um tom frio de virtude ofendida e responder. 
-Bem sei que isto no me diz respeito e longe de mim o propm.'to de lhe dar conselhos. Ma@ 
sempre lhe quero dizer que no compreendo nem a sua atitude nem as suas, observaes. 
Ah, se estivessem s& de modo que ela, no se visse obrigada a dizer-lhe aqueas coisas rispidas, 
aquelas palavras que o entristeciam! 
-Melindrei-a, Scarlett, sem querer. Creia na minha estima e perdoe-me. QuIs apenas mostrar-lhe 
que, quanto a mim, no d felicidade o dinheiro adquirido por certos meios... 
- No, tem razo! - gritou ela, incapaz de se conter mais tempo. -Veja o meu cago, Sabe donde vem 
o meu dinheiro, sabe a situao em que me encontrava anteg de o ganhar. Lembra-se daquele 
Inverno em Tara to frio? Cortvamos bocados de tapete para fazer pan6fas, no tnhainos que 
comer e inquievamo-nos pelo futuro de Beau e de Wade... Lembra-se... 
-Sim, lembro-me de tudo isso -declarou Ashley, com ar cansado. -E prefiro esquecer. 
-No se pode dizer que fssemos felizes nessa. poca: Pois bem, repare agora em cada um de ns. 
Voc possui uma casa bonita, o futuro sorri-lhe. Conhece algum que 
528 
seja dono duma moradia melhor do que a minha? Mulher que use vestidos mais belos que d 
recepes mais sumptuosas? Os, meus filhos tm' tudo o que desejam. Corno obtive o dinheiro 
necessrio para realizar isto tudo? Esperando que ele me casse do cu, aos trambolhes? No, 
senhor. Trabalho dos grilhetas um botequim... 
-E no te esqueas do ass@ss io desse yankee - atalhou Rhett, em voz branda. -Foi ele o verdadeiro 
ponto de partida... 
Sear,lett deteve-se, boquiaberta, relanceando a vsta pelos omutros trs. Melanie quase chorava de 
#
aflio. AshIey, lvido, parecia distanciar-se'e Rhett, de charuto nos dedos, observava-a satisfeito. A 
vontade de Scarlett seria gritar: "Sim, sim, o dinheiro deu-me a telicidade!" 
Mas, fosse porque fosse, ficou silenciosa. 
DEPOIS da sua driena, Scarlett, verificou certa, mudana, era. Rhett e ficou indecisa quanto a 
eonsider-la vantajosa ou no. Rhett tornara-se calmo no bebila, mas aparentava andar 
preocupado. Muitas v@zes 'depois do jantar, deixava-se estar em casa. Mostrava-se tolerante 
com os criados, afectuoso com Wade e Ella. No, fazia a menor aluso ao passado e dir~se-ia 
querer levar Scarlett a imit-lo. Esta @calava-se, porque era mais cmodo, e, na aparncia, a vida 
prosseguia sem sobressalto. Rhett mantinha a atitude corts que in-iciara na convalescena da 
mulher, evitando agora criv-la de sarcasmos. Scarlett. achava, que, se Rhett a irritava antes com 
observaes maliciosas, forando-a a ripostar, era porque se interessava, pela sua pessoa. Ao 
presente punha em dvida que ele ainda se preocupasse Consigo. Via-o amvel, sim, mas distante. 
Quanto a rplicas 
2,cradas e disputas, tudo isSo findara. 
Portava-se to delicadamente com ela como se fosse uma estranha, e os seus olhos, que antigamente 
a seguiam Por toda a, parte, s,6 buscavain o vulto de Bonnie. Era como se o fluxG ardente da sua 
vida se fosse convergindo para um canal estreito. Scarlett achava que, se Rhett lhe houvesse dado 
metade da ateno que dispensava a Bonnie, a sua existncia teria sido muito diferente. s vezes 
custava-lhe at a sorrir quando. lhe diziam. "0 capito Butler adora 
34 - Vento i.,evou - ri 529 
Tiffil 
esta criana!" Se, porm, no sorrisse, os outros achariam esquisito, e Scarlett por nada deste mundo 
queria confessar aos outros que tinha cimes da petiza, tanto mais que se tratava da sua filha dilecta. 
Ela desejava sempre ocupar o primeiro lugar no coraG dos que a rodeavam, mas era, evidente que 
Rhett e Bonnie se aproximavam cada vez mais um do outro. 
Rhett, em certas noites, saa e voltava a desoras, mas nunca embriagado. Ao sair, passava defronte 
da porta de S.carlett, que o ouvia assobiar baixinho. Noutras ocasies trazia amigos consigo, pela 
noite adiante e ficavam todos conversando na casa de jantar, em frente duma garrafa de conhaque; 
no eram, no entanto os mesmos com quem ele costumava beber, nos primeiro@ tempos do 
casamento. J no convidava neni Sacolas, nem Renegados, nem Republicanos. Scarlett, ala,ndose 
na ponta dos ps, debruava-se no corrimo e estupefacta, reconhecia a voz de Ren Pcard ou a 
de Ru@ Elsing, ou as dos irmos Sinimons, ou a de Andy Bonne11. 0 av Merriwether e o tio 
Henry nunca faltavam a essas reunies, Uma vez, com grande espanto seu ouviu falar o Dr. Meade. 
Pensar que esses homens j tinham achado a forca boa demais para Rhett Butler! 
Este grupinho estava sempre, no seu esprito, associado  morte de Frank e as idas e vindas 
nocturnas- de Rhett mais lhe lembrava@n ainda os dias que precederam o assalto da Ku Klux Man, 
em que o segundo marido perdera a vida. Recordou-se, com terror, de que Rhett lhe dissera ser 
capaz de ir ao ponto de filiar-se na maldita sociedade secreta para se tornar respeitvel, embora 
fizesse votos para que Deus lhe no impusesse to dura penitncia. Ora se Rhett, como. acontecera 
a Frank... 
Uma noite em que ele entrou mais, tarde que de costume, Scarett, no pde resistir: ouvindo a 
chave na fechadura, envolveu~se no roupo e, saindo ao patamar do primeiro piso, que um bico de 
gs iluminava, esperou Rliett no alto da escada. Ele parecia distrado, mas a surpresa estampou-selhe 
na cara, quando descobriu a mulher. 
- Rhett, preciso saber! Preciso saber se tu... se a Man... se  por causa disso que voltas a estas horas. 
Pertences  ... ? 
 luz indecisa do gs, ele mirou-a com ar indiferente, e sorriu. 
530 
Ests atrasada - respondeu. - J no h Man em Atlanta, e provavelmente no. existe no Estado de 
Gergia. os teus amigos Sacolas e Renegados meteram-te coisas na cabea. 
-No h Klan? No dizes isso apenas para me sossegar? 
#
- Minha querida, quando  que eu tentei sossegar-te? No, no h.Klan nenhuma. Ns achmos que 
essa sociedade era mais perniciosa do que til, porque s fazia excitar os yankees e favorecer as 
calnias de Sua Excelncia o governador Bullock. 0 homem continuar no poder enquanto disser ao 
Governo Federal e aos jornais yankees que Gergia  um foco de revolta e que atrs de cada rvore 
se esconde um membro da Klan. Para se manter, ele tem atribudo a essa sociedade crimes que 
nunca foram cometidos; que enforcaram Republicanos; que lincharam negros inocentes sob o 
pretexto de que tinham violado brancas. Mas est a esgrimir contra fantasmas e j comea a cair em 
si. Agradeo o teu cuidado, mas a Klan deixou de existir pouco depois de eu, de Renegado, me ter 
feito modesto Democrtico, 
A maior parte do que ele contara do governador Bullock entrara-lhe por um ouvido e sara por 
outro, pois no pensava seno no alvio que lhe dera a notcia relativa  extino da Klan. Rhett no 
seria morto como o fora Kennedy; ela no perderia o armazm nem o dinheiro. Entretanto ficara-lhe 
gravada na memria uma palavra que ele dissera: "ns". Assim se ligava com esses que ele 
designava pela expresso de Velha Guarda. 
-Rhett, intervieste na dissoluo da Klan?-perguntou ela de sbito. 
0 marido envolveu-a num olhar demorado e nas suas pupilas surgiu um claro irnico. 
-Sim, meu amor. Asliley Wilkes e eu somos os principais responsveis desta providncia. 
Asliley... e tu? l@ estranho, mas verdadeiro. Em poltica, estamos associados. No nos une grande 
simpatia; Ashley, porm, sempre foi contra a Klan, por ser adversrio da violncia. Eu, por meu 
lado, nunca gostei dela, achando-a um sisterna de loucura furiosa: o melhor meio de termos os 
yankees  perna, at ao dia do Juzo Final. Ns ambos convencemos os mais teimosos, fazendo-lhes 
ver que observar, 
531 
esperar e trabalhar era muito melhor para tods do que andar de noite encapuzados. 
- No me digas que os rapazes da Klan deram ouvidos a quem, como tu... 
- n um especulador? Um Renegado? Um amigo dos yankees-? Esquece-se senhora Butler, de que 
sou presentemente um Democrtico sincero, devotado at  morte ao nosso Estado, que desejo 
arrancar das mos dos intrusos! 0 meu conselho. foi bom e eles seguiram-no. Tambm tenho 
aconselhado menos mal noutras matrias polticas. Temos agora, no, Parlamento, uma bela maioria. 
democrtica, no  verdade? Qualquer dia minha jia, metemos na cadeia alguns dos nossos 
amigo@ Republicanos, Nestes ltimos tempos tni sido vorazes em excesso. 
-Vais encarregar-te disso? Olha que foram teus companheiros. Meteram-te naquele negcio do 
caminho de ferro, de que tiraste milhares de dlares. 
Rhett exibiu o seu risinho de outrora, chocarreiro. 
- Oh, no lhes quero mal nenhum! Mas eu agora estou do outrG lado da barreira e, se puder 
contribuir para os mandar embora, no hesitarei um segundo. E que reforo para o meu crdito! 
Conheo-lhes to bem os podres que as minhas informaes sero preciosas quando o Parlamento 
empreender investigaes... o que no h-de tardar, avaliando pela marcha que tomam os 
acontecimentos. Ho-de tambm interrogar o governador e met-lo na cadela. Seria conveniente 
dizeres j aos teus bons amigos Gelerts e Hundons que fossem arrumando as malas, Se deitarem a 
mo ao Bullock deitam tambm a mo a eles. 
Durante muitos anos @,carlett vira os Republicanos demasiadamente apoiados' pelo. Exrcito para 
que acreditasse nas palavras de Rhett. 0 governador estava entrincheirado com a maior solidez no 
seu posto: como  que o Parlamento iria desloc-lo e, ainda por cima, fech-lo na, cadeia? 
-Como tu vais longe... 
- Pelo menos, no o reelegem. H-de seguir-se-lhe um governador democrtico, para variar. 
-Creio que no deixars de intervir nessa eleio... -observou ela em tom sarcstico. 
-Pois claro, minha jia. J estou a tratar,disso. Eis at a razo por que volto to, tarde para casa. 
Trabalho mais do que no tempo das pesquisas de oiro, com a. p na 
532 
mo... E fique sabendo, senhora Butler, (embora a coisa lhe desagrade) que no recuso o meu 
#
auxlio financeiro. Lembras-te de me teres dito h anos, no armazm de Frank que era indignidade 
eu conservar o dinheiro da Confe@erao? Aqui me tens de acordo contigo... e o oiro da 
Confederao corre em fio, estimulandoos Confederados a regressarem ao poder. 
- n o mesmo que deit-lo pela janela fora,! -0 qu? Tens essa opinio do partido democrtico? -Os 
olhos dele cintilaram de malcia. Depois retomaram a expresso de indif eren-a. - No fundo, pouco 
me importa que venam ou no. 0 que interessa  saber que trabalho com eles, que despendo 
dinheiro para as eleies... No se esquecero disto, e mais tarde o facto pode vir a beneficiar a 
nossa Bonnie. 
- A princpio receei que tivesses mudado de convices. Agora, vejo que no s mais Democrtico 
do que Republicano... 
-No, no mudei. S  superfcie. Se, apagarem as manchas da pele dum leopardo, o animal no 
deixar de serleopardo. 
Bonnie, despertada pelo som de vozes no vestibulo, chamou ainda sonolenta mas com toda a sua 
energia: 
- Pa p! Rhett ia acudir ao chamamento. -Espera ainda um minuto-disse Scarlett.-Tenho, uma coisa 
a pedir-te. No leves mais a, Bonnie a essas reunes polticas. No  lugar para uma pequena, e at 
se torna ridculo. Eu no me lembraria disto se o tio Henry no me houvesse falado. Ele supunha 
que eu estivesse ao corrente... 
0 marido deu meia volta, carrancudo. -Que mal podes achar no facto de um pai sentarr a filha nos 
joelhos enquanto conversa com os amigos? Parece-te ridculo? Est bem. Mas cr que o no , Essa 
gente h-de lembrar-se um dia que a petiza, estava ao colo do pai quando este ajudava os 
Democrticos a expulsarem de Ge' a os Republicanos. Lembrar-se-o por muito tempo... 
org 
- Desapareceu-lhe o ar taciturno e de novo fulgurou a expresso de malcia. - Sa-bes o que ela 
responde, quando lhe perguntam de quem gosta mais? "Do pap e dos Dmocatas". E sabes quem  
que eladetesta? "Os Rinig04dQs". Estas coisas, felizmente, no esquecem! 
533 
- Espero que na(> lheg tenhas dito que sou uma Rene. j@ada! -exclamou Scarlett, furiosa. 
- Pap! -repetiu a vozita, agora impaciente, de Bonnie. 
E Rhett Butler, rindo, atravessou 'o vestbulo para ir beiJar a filha. 
No ms de Outubro Builock pediu a, demisso e desapareceu de Gergia. A oncusso e o peculato 
haviam atingido tais propores -durante o seu governo que o edifcio poltico se desmoronava por 
si mesmo, Os Democrticos, tinham j maioria no Parlamento, e que significav@, para Bullock, um 
prximo inqurito aos seus actos administrativos. Temendo isso, no esperou mais, fez as malas e 
saiu s ocultas, havendo preparado as coisas para que a, demisso do cargo s fosse conhecida 
depois de ele ter chegado ao Norte. 
Quando se divulgou a notcia, na semana seguinte o jbilo dos atlantenses no conheceu limites, 
Veio tod@ a gente para, a rua, os homens apertavam-se a mo e riam, as senhoras beijavam~se e 
vertiam lgrimas. Todos davam festas comemorativas, e os bombeiros andaram numa roda viva a 
extinguir os fogos ateados pelos rapazes mais entusastas. Acabavam as provaoes, e estava quase 
terminada a poca da Reconstruo. P, claro que o governador interino tambm era Republicano; as 
eleies, porm, realizar-se-iam em Dezembro e o seu resultado a ningum deixava dvidas. Nessa 
altur@, a despeito dos esforos dos Republicanos, Gergia teria enfim um governador democrtico. 
A satisfao era grande na cidade, muito diferente do regozijo oficial exibido quando da chegada de 
Bullock. Tratava-se duma alegria sincera, duma comoo profunda. Os habitantes sentiam-se gratos 
e iam s igrejas impelidos pelo seu reconhecimento. Ao jbilo e  exaltao misturava-se tambm o 
orgulho - orgulho pela circunstncia de Gergia cair nas mos de seu povo, apesar de todas as 
diligncias contrrias empreendidas pelo governo de Washington, pelo Exrcito, pelos Sacolas e 
Renegados, e pelos Republicanos locais. 
Por sete vezes o Congresso votara leis draconianas contra o Estado a fim de o conservar na situao 
de provncia conquistada. Trs vezes fora aplicada a lei marcial. Os pretos haviam sido eleitos para 
#
o Parlamento, os estranhos 
534 
tinham ocupado, vorazes, os lugares administrativos. Gergia encontrara-se atada de ps e mos ' 
fora torturada, esmagada. Agora, apesar de tanto sofrimento, erguia de novo a cabea e encontravase 
capaz de dirigir os seus destinos, 
Nem todos, porm, receberam com satisfao a derrota dos Republicanos. Nas fileiras destes, e na 
dos Sacolas e Renegados houve  claro, consternao. Os Gelerts e os Hundons prevenidos a tempo 
saram da cidade e nunca mais nin@uni se lembrou deles. Os outros partidrios dos vencidos, que 
ficaram em Atlanta, andavam inquietos, receosos de que o inqurita aberto pelo Parlamento 
desvendasse os negcios escuros em que eles e >stavam metidos. J no se mostravam insolentes, 
mas apenas intimidados. As senhoras que visitavam Scarlett comentavam assim os acontecimentos: 
-Quem diria que as coisas enveredassem por este caminho? Julgvamos que o governador fosse 
mais influente... Parecia to slido no seu posto! Pensvamos... 
Scarlett estava tambm surpreendida, mau grado os avisos de Rhett quanto  direco que os 
sucessos iam tomar. No que se aborrecesse por Bullock ter partido e por haverem voltada os 
Democrticos. No fundo, regozijava-se com a expulso dos yankees ' embora ningum lhe 
suspeitasse tais sentimentos. Lembrava-se muito bem da sua luta no. incio. da Reconstruo, o 
medo que tivera de que os Sacolas e os soldados lhe confiscassem o dinheiro e os bens. Recordavase 
da sua impotncia, e do medo que isso lhe causara, e do dio que nutria pelos yankees que 
haviam imposto ao, Sul um sistema execrvel. Nunca deixara de os odiar; mas, fazendo das tripas 
corao, procurando fugir  derrocada, ela insenskelmente passara para o lado do vencedor, Se bem 
que os detestasse, no deixara de conviver com eles, separando-se at dos amigos velhos e 
adoptando outro gnero de vida. Findava agora o domnio dos conquistadores: Scarlett jogara na 
carta de Bullock e perdia a partida. 
Olhando em volta de si, nesse Natal de 1871, o mais feliz depois de dez anos, o que ela sentia era 
apenas ansiedade. No podia deixar de ver que Rhett, outrora o homem Mais abominado de 
Atlanta,. se tornara dos mai& populares pois abjurara humildemente das suas heresias republicanas, 
e gastara tempo, trabalho e dinheiro para ajudar a 
535 
ressurreio do Estado. Quando ele ia a cavala pelas ruas, sorridente, cumprimentador, com a filha 
Bonnie  frente da sela, toda a gente lhe retribua o sorriso e olhava com afecto para a pequenita. Ao 
passo que ela, Scarlett... 
59 
NixGum duvidava de que &mnie Bufler se estava a tornar insuportvel e que precisava de mo 
firme para a corrigir; mas como todos a adoravam no havia quem tomasse a in@iatva de a educar 
a srio' Durante essa viagem de meses, realizada na companhia do pai, a pequena s fizera o que 
muito bem lhe apetecia. Em Nova Orlees e Charlegton, permitiram~lhe que se deitasse tarde; 
levaram-na a teatros, restaurantes e casas de jogo, donde vinha em braos adormecida j. Depois 
disso, tornou-se necessrio reco@r@r  fora para a obrigar a ir para a cama ao mesmo tempo que a 
irm Ella exemplo de docilidade, Enquanto andou com, Rhtt, es@e deixou-a usar o traje que 
quisesse, o que fezcom que, mais para diante, se enfurecesse quando a Bab tentava pr-lhe 
vestidos simples, com bibe, em vez de tafets e golas de renda. 
Dir-se-ia ser impossvel readquirir o tempo perdido na dita viagem, e depois da doena de Scarlett, 
e a sua ausncia em Tara. Bonnie crescia, a me procurava dom-la, para evitaT que se 
transformasse numa criana muito mimada e teimosa. Tudo intil. Rhett dava-lhe sempre razo, por 
mais extravagantes que fossem os caprichos, da filha. Alm disso animava-a a dizer quanto lhe 
viesse  cabea e escutava-lhe as opinies como se se tratasse duma pessoa crescida. Como 
resultado, disto, Bonnie interrompia os adultos a cada passo, chegando a contradit-los; o pai 
limitava-se a rir, e nem consentia que Scarlett lhe desse uma palmadai, a fim de a repreender com 
mais vigor. 
"Se no fosse to pequenina e engraada, seria intolervel", pensava Scarlett, compreendendo no 
#
entanto que a mida nascera datada de um temperamento semelhante ao seu. "Adora o pai, mas 
este, se quisesse, poderia reprimi-la". 
Rhett, todavia, no mostrava nenhum desejo de a emetLdar. Tudo o que ela fizesse estava bem 
feito. Se lhe fosse possvel agarrar a, Lua., no hesitaria um in~te, quando 
536 
a filha lho pedisse, Tinha orgulho desmedido na beleza de Bonnie, nos seus caracis, rias covinhas 
da face, nos tre = 
deliciava-o a sua vivacidade, a, dedicao, a maneira al e meiga de lhe demonstrar a sua estima. Por 
mais auto,ritra e mimada que fosse, o pai consderava-a sernpre um amor e era incapaz de lhe 
ralhar. Para ela, Rhett tomara as propores dum deus, o centro do seu pequenino mundo, e ele 
apreciava tanto isso que temia perd-lo com uma simples repri-menda. Bonnie apegara@se-lhe 
como a sua@ prpria sombra. Acordava-o mais cedo do que ele desejaria.  mesa 'sentava-se ao 
lado do pai e tanto comia do prato deste como do seu. Se Rhett. montava a cavalo, ela subia tambm 
para a sela. S ele tinha, o direito de * despir e de a deitar na cama, que estava junto da sua. 
Divertia-a e ao mesmo tempo apoquentava Scarlett ver * modo i -mperioso come, Bonnie mandava 
no pai. Quem imaginaria que esse mesmo Rhett, levaria to a srio a sua paternidade? s vezes, 
Scarlett sentia uma ponta de cimes, pois a, pequena, aos quatro anos, compreendia Rh<-,tt melhor 
do. que ela jamais o compreendera e conseguia manej-lo como nunca a prpria mulher o 
conseguira,. 
Por essa altura, Bab comeou a dizer no ser cDnvenente andar uma menina a, cavalgar adiante 
do pap, com as saias levantadas. Rhett deu ateno a este comentrio, como fazia a todos os da, 
velha ama, e o'resultado foi adquirirem um garrano castanho, de plo sedoso, preciosamente 
arreado, Em teoria, ocavalnho era para os trs pequenos, tanto mais que Rhett comDrara uma sela 
especial para Wade. Mas c, rapaz preferia, mil vezes o seu co S. Bernardo, e Ella, por seu lado, 
tinha medo de animais. De forma que o garrano se tornou exclusivo de Bonnie, que a Principio se 
desgostou com o facto de no poder montar corno, os hornens. 0 pai, entretanto, ' explicou-Ihe o 
que devia fa%er e ela, depressa, aprendeu a ser amazona. Rhett verificou, satisfeito, que Bonnie 
tinha mo firme e boa posio. 
-Deixem-na crescer-dizia ele-e vero o que far Da Caa. Ningum lhe chegar aos calcanhares. 
Hei-de lev~la a Virgnia, que  onde se realizam verdadeiras caadas. Tambm em Kentucky . 
apreciam, os bong cavaleiros. 
Quando, foi ocasio de escolher o, traje, deixaram isso, 
537 
como habitualmente,  sua vontade, e a pequena optou pela cor azul. 
-Mas no este veludo azul, minha filha---observou Scarlett. - n bom .para mim,, para um vestido 
de cerimnia, 0 que as meninas usam e fazenda preta. - Vendo@-a ficar carrancuda, a me 
acrescentou, voltando-se para o marido: - Rhett, convence-a de que no, lhe ficaria bem... que 
sujaria depressa... 
Ele porm, replicou tranquilamente: 
- beix-la levar este veludo azul. Se sujar, arranja-se-lhe outro fato. 
Destarte Bonnie teve o seu fato de amazona, de veludo azul com uma saia. to comprida que 
chegava, quase ao ch@. Para o chapu deram-lhe uma pluma encarnada, por influncia da, 
hs@ria de Jeb Stuart que a tia Melly lhe contara e que lhe ferira a imaginao. Nw dias de bom 
tempo, viamse os dois, pai e filha, passear pela Peachtree Street; Rhett, no seu cavalo preto, 
regulava o passo pelo do garrano de Bonnie. s vezes metiam a galope pelos caminhos tranquilos, 
assustando galinhas, ces e crianas. 
Desde que Rhett se convenceu de que a pequena se aguentava bem e no tinha medo, achou ser 
oportuno ensinar a saltar obstculos adequados ao tamanho do cavalinho, Para esse efeito, @nandou 
arranjar uma estacada no jardim e pagou ao sobrinho de Peter, o pequeno Wash, vinte e cinco 
cntimos dirios para dar lies ao animal: o rapaz comeou com uma vara colocada a duas 
polegadas do solo, a qual foi gradualmente subindo at atingir um p de altura. 
#
Este conluiu desagradou as trs partes interessadas, Wash temia os cavalos, e s6 a ideia do lucro o 
convencia a obrigar o animal a dar saltos vrias vezes por dia. Este, embora consentisse que a sua 
dona lhe puxasse pela cauda e lhe examinasse os cascos, no aceitava de bom nimo o desporto a 
que o sujeitavam. E Borinie ciosa do que era seu, embirrava com o espectculo do pr@tinho 
escanchado no seu lindo garrano. 
Quando a treino foi considerado suficiente Rhett autorizou a filha a saltar e elar no coube em si'de 
contente. Gostou tanto que jA no achava prazer nenhum nos pas !os pela cidade, em companhia do 
pai. Scarlett no podia deixar de rir de orgulho manifestado pelo marido e pela, filha, mae esperava 
que Bonnie se enfastiasse 
538 
daquilo e desse a preferncia a outras distraces menos perigosas. Isto' contudo, nu sucedia, e 
todas as manhs soavam gritos de alegria na pista improvisada do quintal. 
Ao fim da primeira semana, Bonnie pediu licena para saltar uma barra mais alta, a p e meio do 
cho. 
- Quando tiveres seis anos - respondeu-lhe o pai. - 
Nessa altura at te comprarei um cavalo, maior, As pernas deste so muito curtas para isso. 
-No so, pap. J saltei por cima das roseiras da tia Melly, que so to altas! 
-Tens de esperar -sentenciou Rhett, desta vez enrgico. Mas a, sua firmeza cedeu um pouco perante 
a insistncia de Bonnie e dos seus acessos de clera. - Pois bem -disse um dia, de manh, rindo e 
colocando a barra no lugar desejado. - Se caires no te queixes. 
- Mam! -gritou Bon@le, voltando a cabea para o qua.rto de Scarlett. - Main, veja! 0 pap diz que 
posso saltar. 
Searlett, que estava@ a pentear-se, chegou  janela e sorriu vendo a filha to satisfeita no seu fato 
de amazona j todo, sujo. 
"Tenho de lhe mandar fazer outro", pensou. "Sa-be Deus quanto lhe vai custar pr aquele de lado,". 
-Veja, mam! -Estou a ver! -respondeu a me. Enquanto Rhett @ergula a pequena e a instalava no 
ga,rrano, Scarlett sentiu invali-la uma onda de vaidade. Como a. filha estava bonita! Que belo 
porte que ela tinha! 
A pequena bateu com os calcanhares na barriga do cavalo que partiu  desfilada em direco ao 
obstculo. 
- epare, mam, veja-me saltar isto! - exclamou ela, brandindo o chicote. 
Veja-me saltar isto! Scarlett ouviu badalar o sino da memria. Naquelas Palavras havia qualquer 
coisa de sinistro. 0 que era? Por que no, se lembrava? Olhou para a filha, que se equilibrava na sela 
do cavalinho a galope, e percorreu~lhe o corpo um arrepio. Bonnie atirava@-se contra o obstculo: 
saltavam-lhe os caracis escuros, os olhos azuis brilhavam-lhe. 
"So camo os olhos de meu pai" disse consigo Scarlett. "Os olhos azuis de irlandes&. l@ @ retrato 
do av". 
E, pensando em Gerald O'Hara, o que ela procurava na 
539 
m@mria surgiu,de repente, semelhanteo a um relmpago cujo, claro iluminasse o passado com 
uma luz sobrenatural. Ouviu cantar uma voz de, irlands ou o passo rpido dum cavalo subindo o 
campo de Tar@. A voz tinha urti acento ousadG, como a da, filha: Ellen ' v-ine saltaT isto! 
- No1 - bradou Scarlett. - Pra, Bonnie! No momento em que se debruava na janela ' ouviuse 
um som de madeira a estalar com grande fragor. Rhett soltou um grito tremendo e viu-,-@@e 
uma confuso de veludo azul no solo e quatro cascos agtando-se no ar. Depois,. o cavalo levantouse, 
alastando-se a trote com a sela vazia, 
Na terceira noite aps a morte de Bannie, a velha ama subiu lentamente os degraus que davam 
acesso  cozinha de Melanie. Ia vestida de preto dos ps cabea. Tinha os olhos injectados de 
sangue e hmidos de lgrimas, e todo aquele corpo enorme ressumava uma dor imensa. Hayia,, no 
entanto, algo de resoluto no queixo proeminente. Disse algumas palavras a Dilcey, que baixou a 
cabea com ar de assentimento, como se houvesse decretado um armistcio no meio da sua antiga 
#
querela. Dilcey poisou ento o prato que tinha na mo, atravessou devagar a copa e dirigiu-se  
casa, de jantar. Da a pbuco aparecia Melanie na cozinha, de guardanapo na mo, com a ansiedade 
estampada no rosto. 
-A senhora no est ... ? 
- Sinhora faz como os outro 4--la se resigna - disse Bab. - No queria incomod mj@ha sinhora 
durante seu jant. Podia 't esperando para diz uma coisa que tenho em minha cabea. 
- 0 jantar pode esperar = respondeu Melanie. - Dilcey, serve o resto. Anda comigo, Bab. 
A preta arrastou-se atrs dela, atravessou o ve@itbulo e passou diante da sala em que estava 
Asliley sentado  mesa, com Beau a seu lado e da outra banda os dois filhos de Scarlett, que 
acabavam de comer a sopa. As suas vmitas frescas enchiam o, ambiente. Para eles, estar uns dias 
em casa da tia MeIly era @como ir a um piquenique. A tia era to bondosa, e agora,ainda o era 
mais! Pouco os afectara a morte da irmzinha. Bonnie cara do garrano, a me chorara durante 
muito tempo e a tia Meily fora busc-los a casa para brincarem no quintal com o primo Beau e 
comerem os bolos que quisessem. 
540 
Melane conduziu Bab  saleta, fechou a porta e disse  velha ama que se sentasse no sof. 
-Eu estava para ir l imediatamente depois do jantar -declarou a dona da casa. -Agora que j chegou 
a me do senhor capito, julgo que o enterro no demora mais. Deve ser amanh, de manh... 
- i9@, mesmo, por via disso qui vim fal a sinhora. Tamos todos aborrecidos! Pidimos sua ajuda. 
Ah, que desgraa to grande! 
- A senhora estar doente? - atalhou Melanie. - Mal a vi desde a morte da menina. Nunca sai do 
quarto. E o senhor capito... 
De sbito as lgrimas inundaram as faces negras de Bab, Melanie sentou-se ao lado dela, e tocoulhe 
amigavelmente no brao. A preta ergueu a aba da saia e enxugou os olhos, 
-Tem que vi ajud a gente, minha sinhora. J fiz tudo que pude. 
-A senhora... Bab ergueu o busto. -Conhece minha patroa como eu conheo no  verdade? 
Q@iando tem desgosto Deus d a ela for@@ de suport. Este foi muito forte mas tambm suporta. 
Vim por causa de sinh capito. ' 
- Tanto desejei v-lo, mas ou ele estava fora ou se fechava no quarto com... Quanto  senhora 
pareceu-me um fantasma. No abriu a boca! Escuta, Bab, sabes que eu farei tudo o que puder... 
- Digo que minha patroa pode suport porque tem sofrido muitas coisa. Mas o sinh Rhett... Nunca 
vi nada assim. Tem de vi comigo. 
- Explica-te, Bab. 
- Sinhora... o sinh Rhett t maluco. No qu dex minina... 
0 qu? No  possvel! ']@ pura verdade sinhora. No qu que se interre Ininina. A mim me di@se 
no faz uma hora. 
- Mas no pode... Tem de... 
- Por isso digo que sinh t maluco. Vou cont tudo a sinhora. No devia diz a ningum, ms 
sinhora  da famlia. Sabe como ele gostava de minna. Nunca vi homem branco ou ngo gost 
tanto de seu filho. A gente pensou que ele ia enlouquec logo que Dr. Mea& lhe disse que 
541 
minina partiu cabea. Ele pegou em espingarda e foi mat4 garrano e custou no deix que se 
matasse tambm. Eu no sabia que faz com sinhora desmaiada. E quando sinhora acordou, eu 
pensei que eles dois se iam consol um ao outro. - De nova lhe correram as lgrimas pela cara 
abaixo, mas Bab j no tentou det-las. -Ento ela foi  varanda onde tava sinh com minina nos 
brao e disse: "D-me minha filha que tu mataste", 
- Oh, Scarlett no podia dizer isso!... 
- Sim, sinhora. Foi mesmo o que ela disse, E eu tive tanta pena de' sinh Rhett que comecei a 
chor. Disse-lhe ento: "D minina a sua mam". E peguei na Bonnie e levei-a para o quarto para 
lavar sua cara. Ouvi que eles falavam e fiquei sem pinga de sangue. Sinhora acusava o marido de 
assassin sua filha e sinh dizia que ela no gostava de nenhum dos mininos. 
#
-Cala-te, Bab! No me contes essas coisas-acudiu Melanie, que procurava afastar do esprito as 
imagens evocadas pelas palavras da ama, 
- Bem sei que no tenho direito de diz tudo isto, mas tou muito triste para sab que digo. Ento 
sinh foi ele mesmo a casa do homem que faz enterro e depois meteu Bonnie na caminha, que  no 
quarto dele. E quando sinhora lhe disse que devia pr minina na sala dentro de caixo, eu tive 
med(> que slnb lhe batesse, Disse assim: "No sal daqui". E voltou-se para mim t- gritou: "Bab - 
no deixes lev minina antes de eu volt". Foi ento a co@r a, cavalo e s voltou j noitinha. 
Quando entrou logo vi que tinha bebido, mas aguentava bem sua bebida como sempre. Entrou em 
casa sem fal squ  patroa ou sinhora Pitty nem s outras sinhorasque tinha vindo e subiu 
correndo ao quarto a cham por mim com toda sua fora. Quando cheguei ele estava junto da cama 
de minna, mas era to grande o escuro que no podia v nada. "Abre jancla", disse ele zangado; eu 
abri e vi que sinh tinha um ar to esquisito! "Traze a luz" mandou ele. "Bem sabes que minina tem 
medo de es6rIdo@>, 
De olhos esbugalhados, Melane contemplava Bab, que abanou a cabea e prosseguiu. 
- Quando acabei de traz uma dzia de vela, sinh disse: "Vai embora" e fechou porta  chave e 
ficou l dentro com filha e nem abriu quando minina Searlett foi l bat com toda a, fora. H dois 
dias que ele t assim. No 
542 
qu ouvi fal de enterro e de manh fecha porta  chave e sai em seu cavalo e  noite volta aos 
tombo e no come nada e no dorme.'Agora chegou a velha sinhora Butler de Charieston e minina 
Suellen e sinh Wll de Tara, mas sinh Rhett no qu fal a ningum. Que horr, sinhora Melly! E 
ainda vai ser pi... Esta noite minina Scarlett agarrou sinh no corred e entrou com ele no quarto a 
diz que o enterro deve s amanh de manh. "Se fizeres isso eu te mato!" respondeu Rhett. 
-Realmente, no deve estar bom da cabea... -Sim, snhora, no t. Falaram ambos baixo que eu no 
entendi, s que sinh^ dizia que minina tinha medo de escuro e que no caixo no havia luz, at que 
minha patroa respondeu: "P, um horr fazeres isso depois de ter matado Bonnie. Que escndalo 
para a cidade! Ts sempre bbado e se julgas que no sei onde tens passado tempo  que s idiota! 
Sei que foste a casa dessa criatura, dessa Belle Watling!" 
-Oh, Bab, ser possvel?! 
- Sim, minha sinhora. Foi o que ela disse. Os ngo sabem muitas coisa e mais depressa que branco. 
Eu sabia que se passava, mas no dizia nada. Ele no desmentia minna Scarlett. Respondeu: "Fui 
l, sim, e no precisas fic danada porque no me importa. Uma casa de tolerada  paraso depois 
desta casa que  inferno. Belle tem muito bom corao. Ela no acusa a mim de ter matado minha 
filha" 
- bli! - repetiu Melanie impressionada ao mximo. A sua vida era to pacfica to agradvel as 
pessoas que a rodeavam queriam-lhe t@nto que o relto de, Bab chegava a ultrapassar a sua 
compreenso, Custava-lhe a acreditar no que dizia a velha ama, e todavia, na sua meInria, insistia 
uma lembrana que ela tratava de repelir. Rliett falara de Belle, Watling no dia em que soluara no 
seu regao. No entanto, amava Scarlett,@ no havia dvida a esse respeito, e Scarlett, naturalmente 
retrbua-lhe esse arnor. Que se passara, pois, entre eles? domo  que marido e mulher se podiam 
dilacerar assim um ao outro? 
Bab retomou o, fio da histria: 
- Da a pouco minina Scarlett, saiu do quarto branca como cal, com os dente cerrado, e disse quando 
me viu* "0 enterro  amanh". Patroa faz sempre que qu e sinh Rhett  como ela. Disse que a 
matava! Ah, sinhora MeIly, 
543 
eu ainda tou mais triste por t uma coisa a pes na conscincia. Fui eu que meti medo da noite a 
minina Bonnie. 
- Que importncia tem isso Bab? 
- Todo o mal vem da. Pens@i dev diz a, sinh Rliett para alivi conscincia e entrei logo no 
quarto antes de ele fech a porta e disse: "Sinh Rhett, venho-me confess". Ele voltou-se como 
#
louco e respondeu: "Sai!", mas pidi para, me deix fal. Se no fal, pensei, isto vai-me mat. "Fui 
eu que meti medo do escuro a minina". Ento baixei a cabea e esperei que @inh me batesse, mas 
ele no se mexeu. E eu continuei: "No foi por mal ' sinh Rhett, minna no tinha medo de 
nada, saltava da cama quando toda pessoa. tava deitada e andava pela casa de p de."calo. Eu tinha 
medo, daquilo pod faz mal a minina e disse que havia fantasma de noite quando estava, escuro,". 
E, sabe que ele fez, sinhora Melly? Ele disse: "Era corajosa, no era? S tinha medo do escuro". E 
quando comecei a chor, sinh respondeu: "No chores, Bab" e passou sua mo; em meu brao. 
"No, te desgostes assim", disse ele. "Tou contente com tua palavra, eras amiga de Bonnie o 
corao  que vale". V, sinhora MeIly?  bom consol& nga como fez sinh Rhett. Ento atrevi a 
pergunt: "E quando  enterro?" Ele olhou como um selvage e respondeu: "Julgava. que tu ao - 
menos compreendias, mas tu no compreendes. Pensas que vou deix lev minha filha para o, 
escuro, quando ela tem tanto medo?" Ali, sinhora MeIly, ento percebi que sinh tava louco! Anda 
embriagado, precisa de com e de dormi. Ps-me fora do quarto. T maluco. Pensei ento que ele 
no qu enterr filha e vim aqui porque minina Scarlett diz que enterro  amanh, e ele diz que mata 
sua m'ui. A casa t cheia de pessoa de famlia e de vizinho e vai s um escndalo. Por isso vim fal 
 sinhora Melly para me ajud. 
Mas eu no posso meter-me nesse assunto... Se no pode, quem h-de s ento? Qije queres que 
faa, Bab? -Eu no sei, sinhora Melly mas acho que pode faz qualqu coisa. Fal ao sinh RWett, 
que ele talvez escuta. Ele dizque sinhora Melly  a nica dama que merece este nome... 
Melanie ergueu-se, sobressaltada  ideia de se defrontar com Rhett e de discutir com um homem a. 
quem o desgosto transtornara o juzo. E que podia fazer? Que havia de 
544 
dizer quele pai para lhe atenuar a dor e cham-lo  razo? Durante um momento esteve a reflectir, 
sem saber que reso,luo tomasse enquanto atravs da porta fechada lhe chegavam aos ouvidos as 
gargalhadas do pequeno Beau. ]E estreineceu  ideia de o seu filho morrer tambm, jazer inanimado 
e frio, com o riso sufocado para sempre... 
- Oh!-exclamou, assustada., apertando em pensamento o corao do pequeno contra o seu. 
Compreendia Rhett. Se Beau morresse, como, poderia ela separar-se do filho querido, deix-lo s 
nas trevas, debaixo, do vento e da chuva? 
- CQit@do. do capito Butler! - murmurou ento. - Vou j ter com ele, sem demora. 
Voltou  pressa,  casa de jantar, disse meia dzia de palavras ao ouvido de AshIey e espantou o 
filho com uma inesperada manifestao de ternura. 
Saiu de casa, -mesmo sem chapu e ainda com o guardanapo na, mo, e seguiu num passo to largo 
que Bab tinha. dificuldade em a acompanhar. Uma vez na entrada da residncia vizinha, 
cumprimentou de fugida a assustada Pittypat, a majestosa senhora Butler (me de Rhett), Will e 
Suellen e subiu a correr a escada, sempre com Bab na cola, ofegante. Por instantes, deteve-se 
defronte da porta fechada do quarto de Searlett. 
-No, no, faa isso, sinhora Melly -acudiu Bab. Melanie prosseguiu ento sempre rpida, 
atravessou o corredor e encontrou-se diante do aposento de Rhett. Hesi- tou uns segundos, mas, 
animando-se, bateu e disse com voz suave: 
- Deixe-me entrar, capito Butler. n a Melanie. Quero ver Bonne. 
A porta abriu-se logo e Bab encolhida na sombra, viu o vulto escuro e macio de Rl@ett destacar- 
@9e no reflexo cintilante das velas. Cambaleava, e Bab percebeu que o hlito. dele cheirava a 
whisky. Rhett mirou a visitante, tomou-a pelo brao, convidou-a a entrar e fechou a porta. 
A preta chegou-se sem rudo at a uma, cadeira que estava perto e deixou-se cair nela com toda a 
fora do corpo,volumoso. A ficou imvel, a verter lgrimas slenciosas. De tempos a tempos erguia 
o rebordo da saia para enxugar os olhos. Por mais que apurasse o ouvido, no sentia nenhum som 
no quarto, alm dum. murinrio, surdo e entrecortado. 
35 - Vento Levou - 11 545 
Aps um perodo interminvel, a porta abru-se e ap<-treceu o rosto lvido e angustiado de Melanie. 
-Vai buscar caf e sanduches -ordenou. Quando as circunstncias o impUnham, Bab sabia 
#
recuperar a viveza dos vinte anos e, levada pela curiosidade de entrar no quarto de Rhett, foi logo 
desempenhar-se da incumbncia. Entretanto iludiu-se a ma esperana, pois Melane lmitou-se a 
entreabrir a porta, quando ela voltou, e a receber-lhe a bandeja das mos. Bab ficou muito tempo 
ali especada, mas no distinguiu seno o bater da xcara no pires e o sussurro doce da voz de 
Melanie. Depois ouviu estalar a cama sob o peso dum corpo e o cair, uma aps outra, de duas botas 
no cho. Por fim, Melly saiu, sem que Bab tivesse oportunidade, apesar do esforo que fez, para 
deitar uma vista de olhos ao aposento. Melanie tinha um ar fatigado, mas o rosto estava serenomau 
grado as lgrimas que ae lhe desprendiam das Destanas. 
-Participa  senhora, que o senhor capito est resolvido a, deixar sair 0, enterro amanh de manh - 
disse ela em voz baixa. __ Graas a Deus! - exclamou Bab. - Como  ... ? 
-No fales to alto, Ele vai dormir. Dize tambm  oenhora que eu passo c a noite, e prepara-me 
caf. Podes traz-lo aqui. 
-A este quarto? 
- Sim. Prometi ao senhor velar a menina enquanto ele descansasse um pouco, Depressa, vai prevenir 
a senhora, para que no se aflija mais, 
Bab afastou-se fazendo ranger o soalho do corredor. 
0 corao dela, aliviado, entoava uni hino de satisfao. Diante da porta de Searlett parou para 
reflectir. A gratido e a curiosidade disputavam primazia no seu esprito. 
"0 que a sinhora Melly fez eu no percebo. Tem os anjo a seu lado,  o que . Vou diz  minina 
Scarlett que o enterro vai s amanh, mas era mi no lhe diz que sinhora Melly est velando 
Bonnie, Ela no havia de gost". 
ao 
HAviA qualquer coisa de irregular no mundo, onde reinava uma atmosfera sombria e assustadora, 
semelhante a um nevoeiro impalpvel que tudo invadisse e rodeasse lenta- 
546 
.4 
mente Scarlett dum vu cada vez mais denso. Essa impresso no vinha da morte de Borinie, pois a 
dor angustiosa do principio cedera o lugar a uma, tristeza resignada. Contudo, ela sentia que a 
ameaava um perigo, como se um capuz ffie descesse pela ca-bea abaixo ou o chi> lhe fugisse 
sob os ps, 
Nunca antes conhecera semelhante espcie de medo. Toda a -vida a orientara o bom senso, e as 
nicos receios que a tomavam eram a fome, a pobreza e a perda dG amor de Ashley. Se bem que 
destitui-da de faculdades de intro-speco, gearlett procurava analisar-se, sem resultado positivo, 
Perdera o filho predilecto; essa provao, contudo, podia-a, suportar, como suportara outras 
provaes cruis. Gozava de perfeita sade, era rica, e tinha A@shley, embora raras vezes Q Visse. 
0 constrangimento que entre eles existia desde a recepo de Melly no chegara a apequent-la 
muito, porque Scarlett sabia no ser coisa, duradoira. No, no temia o sofrimento, nem a fome, 
nem a perda do seu amor. Os pavores desta natureza nunca, alis, a tinham abatido como sucedia 
agora com esse sentimento confuso, lesse terror doentio que se assemelhava de modo curioso 
quele pesadelo de outro tempo, quando, de corao angustiado' corria no meio da nvoa movedia 
como uma criana extraviada que procura um abrigo, 
Lembrou-se de como Rhett triunfava sempre dessas aflies levando-a a rir-se de tudo, isso. 
Recordou-se do confort@ que encontrava naquele peito largo e nesses braos fortes. Foi ento que 
se voltou para ele, com olhos que realmente o viram pela primeira, vez, depois de vrias sernanas, E 
a mudana que notou mpressionou~a deveras. 
0 homem j no ria, nem seria capaz de a, consolar. 
Por algum tempo, aps a morte de Bonnie, Scarlett, andou. muito preocupada consigo para lhe 
dirigir mais do que simples palavras de cortesia, diante dos criados. Durante esses dias trataram-se 
quase, como estranhos como h&;pedes desconhecid" que compartilham de certa@ salas comuns do 
mesmo, hotel. Cada, qual guardava para, si os seus pensamentos. 
Como se sentia s e ansiosa, o seu desejo seria derrubar a barreira para se aproximar do, marido; 
#
notava, porm, que ele a mantinha a distncia, como,ec no quisesse Passar de relaes superficiais. 
E visto que o ressentimento lhe ia desaparecendo, gostaria tambm de lhe dizer 
547 
MA., 
que o no considerava responsvel da mort-e da filha. Quern lhe dera chorar nos seus braos, 
confessar-lhe que se orgulhara igualmente da desenvoltura de Bonni-e, que fora em demasia 
indulgente para com os seus caprichos! Humilhar-se-ia de bom grado, com sinceridade lhe contaria 
que, se o acusara de culpado, fora s para atenuar a prpria dor, agravando- a pena dele. Contudo, o 
momento no parecia oportuno. Ar, desculpas, quando tran@sferdaE@, mais difceis se tomavam 
de- formular, at que chegavam. a ser impossveis. 
Por que seria assim? Rh-ett era seu marido e entre eles existia o lao, que a ningum era dado 
quebrar, de dois entes que partilharam a mesmo leito, que haviam tido um filho. e que, depois de to 
mimado, o destino arrebatara perante os seus olhos. No havia outra consolo seno nos braos desse 
pai, seno a. permuta de recordaes saudasas, recordaes que a princpio seriam amargas mas, 
que ajudariam por fim a cicatrizar a, ferida, Todavia ' no estado presente das coisas, equivalia isso 
a confiar-se aos braos dum estranho. 
Ele, qias-e nunca -estava em casa. Quando jantavam juntos, Rhett j se encontrava embriagado. 
No bebia como outrora, o lcool no, tinha o efeito de o tornar malicioso e custico, No. contava 
aquelas histrias divertidas e espirituosas que a faziam rir, mesmo contra vontade. Era uma 
embriaguez sombria, silenciosa, que chegava a ser de caixo  cova, l para o fim da noite. s vezes 
s rimeiras horas da manh, Scarlett. ouvia~o entrar a c@valo@no ptio e bater  porta da casa 
dos criados para acordar Pork e es,te ajud-lo a subiT a escada. Pensar que Rhett, noutro tempo, via 
rolar os seus camaradas para debaixo da mesa, sem que ele, desse o mais pequeno indcio de 
embriaguez! Ele, que outrora andava sempre muito bem posto, no tinha j nenhum cuidado com a 
sua pessoa e Pork devia usar da sua autoridade de velho servidor para que o patro se vestisse 
decentemente quando ia para a mesa. 0 lcool alterava-lhe a fisionornia. 0 queixo duro e quadrado 
enchia-se duma papada mals, as olheiras tornavam-se balo,fas, o corpo vigoroso comeava a dar a 
impresso de coisa bamba. 
Acontecia tambm no voltar a casa, sem sequer se dar ao trabalho de prevenir. Devia nessas 
oc&sies, cozet.a bebedeira, nalgum botequim, mas', para Scarlett, ele estaria 
548 
fatalmente metido no estabelecimento de Belle Watling. Certo dia, ela encontrou-se com Belle 
numa loja.--- A cortes era j uma mulher de meia-idade, cuja beleza fenecia: conservava no 
entanto um ar amvel e maternal, e, em vez de baixar os olho,9 ou de tomar atitude provocante 
(como faziam aquelas mulheres em presena durna senhora) Belle contemplou Searlett com tal 
expresso de d, que esta se ruborizou. 
Da Por diante, ela setitiu-se to incapaz de querer mal a Rbett, de se zangar com ele ou exigir-lhe> 
fidelidade, como de lhe pedir perdo de o haver acusado da morte de BDnnie. Estava tomada duma 
apatia, inexplicvel, duma tristeza %em causa aparente, mas que a atingia mais fundo do que tudo 
quanto at ali conhecera. Encontrava-se s; e no se lembrava de te@r jamais estado s6. Talvez at 
esse momento no houvesse tido vagar de medir a sua solido. Sentia-se abandonada, sentia medo e 
no havia ningum a quem recorresse, a no ser Melanie. Bab, seu principal sustentculo essa 
mesma a deixara, regressando definitivamente a 'ara., sem sequer explicar os motivos da partida, 
Os seus olhos de velha cansada poisaram,-se com tristeza sobre Scarlett' quando lhe pediu dinheiro 
para * comboio. Por mais que a senhora chorasse e suplicasse, * ama, limitou-se a responder: 
- Parece que sinhora Ellen disse a mim: "Bab, volta para, casa. Teu trabalho acabou". 
Rbett, que assistira  cena, deu o dinheiro a Bab e fe7@- 
4he urna, festa no brao, 
-Tens razo, Bab, E a senhora Ellen tambm. 0 teu trabalho est terminado. Volta para casa. Se 
precisare-s de qualquer coisa, manda-me dizer, -Como Searlett se indig~ Ilasse, dizendo a Bab que 
tinha de ficar, ele@ exclamou: -Cala-te! Deixa-a partir. Quem  que deseja permanecer nesta casa... 
#
agora? -E acompanhou estas palavras com um olhar to desvairado, que a mulher, atemorizada, 
recuou. 
Mais tarde, Scarlett, perguntou ao Dr. Meade: -Acha que Rhett esteja desarranjado do, miolo? 
- No, senhora - replicou o mdico. - Mas bebe como uMa esponja e, a -continuar assim morrer. 
Gostava muito da pequena e procura dessa forma o esquecimento. Se quer um bom conselho, d-lhe 
um filho o mais depressa Possvel. 
5-49 
"Ah! - murmurou Scarlett, ao sair do consultrio. - 
n mais fcil dizer do que fazer". No desejava ela utra coisa: um, dois, muitos filhos, se isso 
pudesse mudar a expresso de Rhett e preencher o vazio do seu prprio corao martirizado. Sim, 
um rapaz que fosse belo como Rhett, ou ento outra pequena. Outra pequena, bonita,, alegre, cheia 
de vida, no como essa inspida da Ella. Por que no lhe levara, Deus esta filha, j que devia ser 
uma? A sobfi@vivente no lhe servia de consolao. Mas Rhett parecia no querer mais filhos. Pelo 
menos, nunca entrava no quarto da mulher, embora j no estivesse fechado  chave e at a porta 
ficasse entreaberta de propsito. Dir-se4a que ele, se no interessava por nada. S contava, para si, 
o whisky, alm daquela criatura, ordinria de cabelos ruivos. Tornara-se azedo e brutal. Depois da 
morte de Bonne, muitas senhoras, seduzidas pela forma, como ele tratara a filha diligenciaram 
demonstrar-lhe a pena que sentiam. Para-@am na rua, a, fim de lhe apresentarem psames, ou ento 
falavam-lhe, atravs da grade do jardim, declarando quanto partilhavam da sua. dor. Ele, porm, 
fugia dessas pessoas bem intencionadas chegando multas vezes a voltar-lhes as costas, sem 
cerim@nia. 
As damas contudo, no se melindravam com tais modos. Compreendim_no ou fingiam 
compreend-lo. Quando Rhett entrava em casa,  noite, demasiadamente bbado, para se equilibrar 
bem na sela, elas compadeciam-se ainda. mais e redobravam de atenes. Queixavam-se, porm, de 
no acharem melhor acolhimento junto de Scarlett. 
Toda a gente sabia como- Scarlett. era seca, insensvel. Todos se espantavam d& facilidade com 
que ela parecia ter-se conformado com a morte de Bonnie, e ningum percebia ou tentava perceber 
oesforo que representava essa resignao, aparente. Rhett desfrutava da simpatia da cidade inteira, 
sem que desse por isso ou que, sabendo-o, ficasse mais satisfeito. Quanto  mulher, quem se 
interessava por ela? No entanto, Scarlett teria acolhido com alvo-roo, a solicitude dos seus -amigos 
de outrora. 
Alm da tia Pitty, de Melane e de Ashley, no a procurou nenhuma das suas antigas visitas. S as 
amigas mais modernas compareceram, vindas nas suas belas carruagens. Estavam vidas de lhe 
demonstrarem afeio, e tratavam de a distrair contand-lhe, mexeriquices que lhe eram 
indiferentes. Tudo pessoas que mal a conheciam e 
550 
que no, a conheceriam nunca a, fundo. Ignoravam qual tinha sido a sua existncia antes de se 
instalar na esplendorosa residncia da Peachtree Street. Aquelas, mulheres evitavam tambm 
revelar-lhe o que fora a sua vida antes de usarem vestidos de brocado e de passearem em caTrua~ 
gens puxadas por cavalos que custavam um dinheiro. No sabiam quais haviQ@n sido as lutas 
travadas por Scarlett, nem quais as suas privaes, nem nada do que ela sofrera; no sabiam e pouco 
lhes importaria saber. Eram criaturas que pareciam levar sempre uma existncia superficial, sem 
nada de comum com Scarlett, com a g^uerra, com a fome, -com as mil e uma dificuldades de 
outrora. No tinham razes que mergulhassem na mesma te@rra vermelha. 
No seu isolamento., Scarlett gostaria de passar as tardes com M-aybelle, ou Fanny, ou as senhoras 
Elsing e Whiting, ou mesmo com essa temvel adversria que era a senhora Merriwether. Ou a 
senhora Bonnel, ou... qualquer dos velhos amigos ou vizinhos. Essas sabiam. Essas, conheceram a 
guerra, e o terror, e o fogo; tinham assistido  morte prematura de entes queridos; haviam sofrido, 
fome usado andrajos, vivido com todo o gnero de privaes. iSas runas, tinham conseguido. 
reerguer o seu lar. 
Seria agradvel sentar-se ao lado de Maybelle, recordar que esta perdera um filho na ocasio da, 
#
fuga precipitada diante das tropas de- Sherman. Seria consolador tornar a ver Fanny, que tambm 
ficara viva, nos tempos sombrios da lei marcial. Seria. engraado. evocar, com. a, senhora Elsing, 
a travessia que ela fizera na carroa, quando da rendio de Atlanta... levando consigo o saque, dos 
armaz" da, Manuteno Militar. Tambm no -seria desagradvel dizer  senhora, Merriwether ' 
cuja confeitaria prosperava: "Lembra,se ao certo da sua situao, depois -da queda da cidade? Nem 
sabia como consertar o seu calado velho! E agora...  v-la!" 
Sim, acharia. graa em dizer-lhe isso. Scarlett compreendia a razo por que se demoravam tanto  
conversa, quando s-e encontravam os camaradas da Confederao. Falavam da guerra. Era 'to 
desculpvel o orgulho deles.... as suas saudades... A guerra pusera-lhes  prova a coragem, mas 
haviam-se portado dignamente. Veteranos! Scarlett, tambm era veterana, mas no tinha camaradas 
com que trocasse impresses dos combates travados outrora. Ah, se Pudesse lidar de novo com essa 
gente que, passara pelas 
551 
mesmas provaes! Provae9 terrveis, sem, dvida, rnae que apesar de tudo ocupavam to grande 
espao no cora@ o de cada um. 
Mas, fosse como fosse, os outros haviam-se afastado. Scarlett percebeu que a, culpa era, sua. At a 
o facto no a preocupara - mas, desde que Bonnie morrera, ela achava-se s, cheia de medo, e via 
mover-se no extremo da mesa sumptuosa um indivduo quase estranho, embrut@-. Cdo, pelo 
lcool. 
411 
SeARLETT estava em Marietta quando lhe chegou um telegrama de Rhett. Da a, dez minutos 
havia um comboio para Atlanta, e ela conseguiu apanb-lo, embora: no levasse mais bagagem do 
que a sua, mala de mo. Wade e E" continuaram no hotel, com a Prissy. 
Atlanta ficava apenas a vinte milhas de distncia, mas o comboio arrastava-se interminavelmente 
naquela tarde hmida do comeo de, Outono e parava em todos os apea, deiros em que estava 
algum para embarcar. Assustada com o telegrama do maride, enervada com as demoras, Scarlett 
sentia desejos de gritar. Sem se apressar, aquela srie de carruagens atravessava florestas de tons de 
oiro, deixava para trs outeiros de terra vermelha, espaos vazios onde em tempos forram instalados 
peas de artilhara, restos de trincheiras, buracos produzido9 por obuses e agora invadidos pelas 
ervas. Era o caminho que haviam tomado os soldados, de Johnson na sua, retirada, combatendo 
paoso a passo. Cada estao, cada encruzilhada cujo nome o empregado do comboio apregoava 
correspondia ao nome duma batalha ou duma simples escaramua. Noutra ocasio teriam suscitado 
em Scarlett recordaes dolorosas. 169 agora os seus pensamentos eram outros. 
0 telegrama de Rhett dizia.- "Melanie doente. Volta j". 
0 crepsculo demia quando entraram em Atlanta. Sobre a cidade espalhava~se uma nvoa sombria. 
Os bicos de gs, a-marelentos, lanavam um claro confuso entre a bruma., Rhett esperava a 
mulher, com o, trem, e o ar estranho do marido apavorou-a ainda mais do que a mensagem urgente: 
nunca o vira to esquisito. 
-No me digas que... 
552 
- No. Ainda vive. - Ajudou-a a subir para o trem e ordenou ao cocheiro: - Para casa da senhora 
Wilkes. o mais depressa que puderes. 
-Que lhe aconteceu? No sabia, que estivesse doente. A semana passada tinha to bom aspecto! Foi 
algum desastre. Oh, Rhett, no h-de ser assim to grave 
- Est moribunda - retorquiu ele numa voz que emparelhava com a sua fisionomia, -E deseja v er-te. 
- Mas que se passou? -Teve um mau sucesso. 
- Oh... um... -Depois da triste notcia, aquele pormenor sufocava-lhe as palavras. 
- No sabias que estava para ter uma criana? - Searlett nem pde fazer um sinal negativo de 
cabea. - Realmente, no devias saber. Creio que ela no disse a ningum. Queria fazer surpresa... 
Mas eu sabia-o. 
-Como? No to confessou, por certo. -Nem era preciso. Percebi logo. Va, to feliz nestes dois 
#
ltimos meses... Compreendi que no podia ser outra coisa. 
-Mas o mdico tinha-a avisado de que outro filho a poderia matar. 
-E  o que sucede-concluu Rhett. Depois, vrando-se para. o cocheiro: - Por amor de Deus! No 
podes ir mais depressa? 
-Oh, Rhett... achas que est moribunda? Eu no... Eu... 
-No tem a tua fora, Scarlett. Sempre foi unia fracalhona. Nunca, teve nada seno corao. 
0 trem parou bruscamente defronte duma cancela atrs da qual estava uma, casa pequenina, Rhett 
estendeu a mo  mulher. Trmula, assustada, invadida por uma sensao repentina de isolamento, 
Scarlett, agarrou-se ao brao do marido: 
-Vens comigo, no? 
- No-lmitou-se ele a responder. E reentrou no trem. Scarlett subiu uns dgraus, atravessou unia 
varanda e abriu a porta do vestbulo. Ali,  claridade amarela dum candeeiro, estava As<hley com 
India e a tia Pitty. "Que far India aqui?" pensou a recm-chegada. "Melanie orde~ nou-lhe que no 
tornasse a pr os ps na sua casa". Os trs levantaram-se ao v&la, a tia Pitty mordendo os lbios 
trmulos, para os aquietar, India olhando com expresso 
553 
"14 @ '. 
aflita onde j no se descobriu nenhum dio. Ashley tinha um a@ de sonmbulo; adiantou-,se para 
Scarlett, pegou~lhe no brao e falou-lhe como num sonho: 
- Ela, perguntou por si... Perguntou por si... 
- Posso ir v-la? - Dizendo isto, voltou-se para a porta fechada do quarto de Melanie. 
- No, o Dr. Meade est l. Ainda bem que velo, Scarlett. 
-Vim o mais depressa qu e pude -declarou Scarlett, desembaraando-se do chapu e da capa. -0 
comboio... Realmente, a Melane ... ? Diga-,me, est melhor, no est, AshIey? Fale! No olhe 
desm maneiral Ela realmente...? 
- Tem perguntado muito por si-repeti@ AshIey, fitandc@-a- E, nesse olha-r, Scarlett leu a resposta, 
s suas perguntas..Por momentos, o corao parou de bater-lhe depois encheu4he o peito um medo 
estranho, mais fort@ que a ansiedade, mais forte do que a dor. " impossvel! -disse de s! para si, 
tentando lutar contra aquele medo.-Os mdicos enganam-se. No quero crer que seja verdade. No 
pode ser, seno grito, como uma louca. Tenho de pensar noutra, coisa". E em voz alta, olhando para 
&% trs pessoas presentes ' de semblante to aflito, bradou-lhes como se quisesse impedi-1a9 de a 
contradizerem: 
-No acredito! E por que  que Melanie me no preveniu? Se eu soubesse, nunca teria- ido para@ 
Marietta. 
AshIey parecia atormentado ao mximo. -No disse a ningum, Searlett, e sobretudo no lho diria a 
si. Tinha receio de que lhe ralhasse. Queria esperar trs meses... at que j no houvesse perigo. Era 
uma surpresa que preparava... e assim ria---;e dos mdicos. Andava to feliz! Sabe como ela 
adoracrianas... e como desejava ter uma filha, Ia tudo to bem--- e de repente, sem mais nem 
menos... 
Abriu-se a, porta devagarinho e o Dr. Meade saiu, tornando outra vez a fech-La. A sua apario 
emudeceu os circunstantes. Scarlett, para quem ele se adiantou, leu-lhe nos olhos um mista de 
tristeza e,desdm, e o corao encheu-se-lhe dum vago, sentimento de culpa,. 
-Ora at que enfim! J chegou! -disse o mdico. Antes que Scarlett, respondesse, AqhIey dirigiu-se 
 porta. da doente, mas o doutor deteve-o, explicando que era  senhora. Bufler que ela desejava 
falar, 
-Deixe-me entrar tamWm um instante- acudiu In- 
554 
dia. - Queria, dizerlhe... tenho de lhe dizer que... me enganei a respeto--- duma coisa. 
No olhara para, o irmo nem para Searlett, mas o Dr. Meade no deixou de observar esta ltima. 
-Com a condio- replicou ele-de no a fatigar. Ela sabe que voc se enganou, e isso de estar a 
ouvir, des- ,culpas pode cans-la inutilmente. 
#
Pitty interveio tambm, com timidez: 
- Peo-lhe, doutor... 
- Minha senhora, bem sabe que comeara a, chorar... se  que no desmaiava. Enfim, talvez mais 
tarde. Quanto  Sca,rlett, pode entrar agora. -Ao chegarem  porta, recomendou-lhe: - Nada, de 
crises nervosas nem de confisses da ltima hora, Vamos no tome esses ares ino-i centes, Sabe 
muito bem a, qu@ me refiro. Meily vai teT uma morte suave; acho prefervel no lhe contar 
histrias, a respeito de AshIey s para aliviar a sua prpria@ conscincia, Nunca fiz ma,1 a uma 
mulher... mas se disser, seja o que for, ter de prestar-me contas. 
Abriu, sem deixar a Scarlett tempo de responder, empurrou-a para, dentro do quarto, e fe@choa a 
porta. 0 quartnho, sumariamente mobilado de peas de nogueira escura,, estava mergulhado numa 
semiobscuridade. Um jornal %er--@ via de quebra-luz ao candeeiro, Havia ali um arranjo pobre, e 
meticuloso: a cama era estreita e baixa, as cortinas de@ tarrafa estavam seguras em ganchos, os 
tapetes tinharrk tons desbotados, e tudo fazia grande diferena. do luxuoso. quarto de dormir de 
Scarlett, com os seus mveis escul-, PdOs e imponentes, os seus brocados cor-de-rosa, a sua 
alcatifa serneada de florinhas, Sob a colcha, adivinhava-se@ o corpo franzino deMelanIe liso como 
o duma rapariguita, Enquad,ravam-lhe o rosto duas grossas tranas pretas. Os olhc>s enco-vavamse- 
lhe na,9 rbitas, envoltos num crculo violce. Perante aquele espectculo, Scarlett ficou como 
que pregada ao cho. Apesar da obscuridade, podia ver que, a doente tinha o nariz afilado, a rosto 
cor de cera. At esse Inomento, esperara que o Dr. Meade se tivesse iludido;, rnas, agora, sabia que 
era verdade, Nos hospitais durante a guerra, observara mutas faces que tinham ess@ expres-' So e 
compreendia que era, inevitvel o desfecho previsto. 
Melanie estava moribunda. No entanto, Scarlett, no queria acreditar. Melanie no podia. morrer. 
Era imposSivel. Deus no a deixaria morrer quando ela, Scarlett, 
555 
1^ 
tant necessitava da. sua presena no mundo. Nunca at a lhe ocorrera que, tinha necessidade de 
Melanie. Mas agora a verdade surga-lhe dos mais profundos recessos da alma, Sempre confiara em 
Melanie corno confiava, em si prpria, e nunca dera por isso. E neste momento, que Melane estava 
a morrer,  que Scarlett compreendia que no podia passar sem ela. Avanou em bicos de ps, 
aproximou-se do leito, de corao oprimido pelo terror. S agora se compenetrava de que Melanie 
fora a sua espada e o seu escudo, a sua consolao e a sua fora, 
"Tenho; de a reter neste mundo!" pensou, ajoelihando-se junto da cama com um farfalhar de sedas. 
Pegou na mo inerte pousada sobre a colcha e o seu pavor aumentou 
quele contacto gelado. 
-Sou eu, MeIly-disse em voz baixa, Melanie entreabriu os olhos como para se certificar de que era 
realmente Scarlett @uem ali estava, e tornou a fech-los. Passados instantes, soltou um suspiro e 
murmurou: 
- Fazes-me uma promesEW -Todas as que quiseres! 
- Peo-te... toma conta de Beau. Scarlett nem pde falar. Sentia um n na garganta. Em sinal de 
aquiescncia, apertou a mo que segurava, entre as suas. 
- Confio-to. - Nos lbios de Melanie perpassou a sombra dum sorriso, -J uma vez to confiei... 
Lembras-te? Antes de ele nascer... 
Se ela se lembrava? Podia acaso esquecer? Quase to nitidamente como nesse dia terrvel, sentiu o 
calor sufocante daquela tarde de Setembro; recordou-se do seu medo dos yankees, do barulho das 
tropas a tocar a, retirada, da voz de Melanie a pedir-lhe que te@inasse conta da -criana no cago, de 
ela morrer... E recordou-ge tambm de quanto detestara Melanio naquele dia e quanto desejara que 
ela morresse. 
"Matei-a,", pensou Sr-arlett, cheia de angstia. supersticiosa. "Tanto desejei a sua marte que Deus 
acabou por me ouvi,r@ e me castigar". 
- Oh, Melly! No digas essas coisas! Vais ficar boa, 
- No fico, no. Promete! Searlett engoliu a saliva. 
#
556 
-Bem sabes que prometo. Trat~lo-ei como se fosse rneu filho. 
- o liceu... 
- Sim, o liceu e a, Universidade. E uma viagem Europa Tudo o que ele quiser, at um garrano, e 
lies de msica. oh M-e,lly, suplico4e:!... Faze um esforo. 
De nova s@ estabeleceu ,4ilncio. 0 rosto de Melanie reflectiu c> combate em que ela se 
embreinhara para ter foras de falar. 
- Ashley - disse por f im. - Ashley e tu... Embrulhou as palavras e calou-se. ouvindo proferir o nome 
de Ashle-y, Scarlett julgou parar-lhe o corao e tornar-se frio como- um bloco de granito. Melanie 
sabia tudo. Baixou a cabea e teve um soluo. Scarlett nem expeTimentava j a simples sensao de 
vergonha. No sentia abso-lutamente nada. S o remorso a torturava, o, remorso de ter feito sofrer 
durante anos aquela criatura to delicada. Melanie sabia, e continuara a ser sua amiga leal. Ah, se 
pudesse, ao menos, tornar a viver esse tempo! Nem alharia ento para Ashley... 
"Meu Deus - disse como numa orao. - Permiti que ela viva! Portar-me-ei o melhor possvel, serei 
boa, capaz at de no dirigir mais nenhuma vez a palavra a Ashley ... " 
- Ashley-mur-murava a mribunda, e@stendendo a mo para tocar na cabea, inclinada de Scarlett. 
Entre o pol@egar e o ndex, tomou-lhe uma pord de cabelos que puxou com menos fora que a 
dum recm-nascido, 'Searlett sabia o que significava esse gesto: Melanie queriaque a amiga a 
olhasse, mascomo, suster-lhe o olhar, esse olhar onde lia que estava ao, facto de tudo? - AshIey - 
continuou Melanie. A outra acabou poT fit-la, pensando todavia qwe, no Juzo Final, quando se 
encontrasse frente a frente com Deus, a provao no seria mais angustiante, Mais atroz. ,Mw@ viu 
iguais ao que sempre foram os olhos escuros de Melane, agora apenas enlanguescdos pela morte. 
Viu-lhe a boca, sempre a mesma, a contrair-se num esforO doloroso. Nenhuma censura, nenhuma 
acusao nenhum receio nesses olhos e nessa4 boca... s a ansied@Ae de mal ter foras de ver e de 
falar. Por instantes, Scarlett ficou demasiadamente perplexa para que sequer sentisse qualquer 
alvio. Depois, enquanto apertava. cada vez mais a, mo de Melanie na sua, um fluxo de tpida 
gratido se 
557 
lhe espalhou. pela corpo, e, pela, primeira. vez desde a infncia, balbuciou uma, prece humilde sem 
a mInima sombra de pensamento egosta.. 
"Meu Deus, sei que no sou digna, mas agradeo,-vos do corao se ela no souber nada ... " 
-Que querias dizer a respeito de AshIey, MeIly? 
Que... que cuidasses dele... 
- Fica descansada. 
- Constipa-se to facilmente... Houve uma pausa. 
Ocupa--te dos seus negcios. Compreendes? Compreendo. Ocupar-me-ei deles. Melanie fez um 
esforo, maior. 
Asliley no tem--- esprito prtico. -Fora preei@,a a vizinhana da, morte para que a mulher lhe 
fizesse aquela deslealdade. -Cuida dele... mas que ele no o saiba. 
-Cuidarei de Arhley, olharei pelos seus negcios e ele jamais o saber. Dar-lhe-el apenas sugestes. 
Melanie esboou um vago sorriso, que no entanta desabrochou quando os seus olhos encontraram 
de novo os de Scarlett. E o olhar que troicaram. foi como a assinatura dum acordo entre essas duas 
mulheres: uma. encarregando a outra de defender Ashley W"es dum mundo exces&ivamente duro e 
de agir de maneira que o seu orgulha dQ homem nada sofresse com isso. 
Desaparecera toda a, ansiedade do rosto fatigado de Melanie, como se, com a promessa de ScaIrlett, 
descesse sobre ela a tranquilidade. 
- Foste to corajosa... sempre to boa, para mim... A estas, palavras, Scarlett sentiu quei os soluos 
lhe iam irromper da garganta e levou a mo  boca. Estava prestes a chorar corno uma criana e a 
gr`itar, "Fui um monstro! Tratei-te sempre mal! Nunca fiz nada por ti! Tudo o que fazia era por 
Aghley!" 
Ps-se de p bruscamente e mordeu og dedos para se dominar. E mais uma vez lhe vieram ao 
#
esprito as palavras de Rhett: "A afeio de Melly ser para ti uma cruz..." Bem pesada era essa 
cruz, e algoraj mais do que nunca. 
Arrependera-se j de ter empregado todas as manhas para afastar AshIey da mulher, mas 
aindamaiores remorsos sentia ao ver Melanie, que toda a vida confiara, nela cegamente, levar para a 
morte a mesma afeio e a mesma 
558 
confiana, No, no podia falar. Nem sequer podia repetir: "Fa-ze um esforo para, viver". Devia 
deixar Melanie- apagar-se suavemente, sem luta, sem prantos, sem desgosto. 
A porta entreabriu-se e o Dr. Meade chamou-a com gesto imperioso. Scarlett inclinou-se para o 
leito, conteve as lgrimas e, pegando na, mo de Melanie, encostou-a  face. 
-Boa noite -disse ela, e a sua voz era to firme quanto possvel, 
- Prometcs-me... -proferiu Melly, quase num sopro. -Tudo o que quiseres, minha querida. -S 
bondosa para... o capito ButIer. Ele ama-te... tanto... 
"Rliett?" pensou Scarlett, admirada. Mas as palavras de Melanie nada signifcaram para, ela. 
- Sim, prometo - respondeu maquinalmente, E, depois de beijar ao de leve a mo da moribunda, 
tornou a pous-la sobre a cama. 
-Diga s senhoras que venham j-sussurrou o m& dico quando Scarlett ia. asair. 
Atravs das lgrimas ' Searlett viu India e P!t@y entrarem no quarto, segurando nas saias com as 
duas mao@ para as impedir de rumorejar. A porta fechou-se e a casa ficou mergulhada em silncio. 
Asliley desaparecera. "riett apoiou a cabea  parede, como uma criana rabina que mandaram de 
castigo para um cainto, e esfregou a garganta dorida, 
Atrs daquela porta, Melanie morria, e, com ela, morria a fora com que Scarlett contara. durante 
anos e anos, sem o saber. Oli, porque no compreendera mais cedo quanto gostava e precisava de 
Melanie? Mas, quem toma~ ria por baluarte a franzina MeIly de rosto desgracioso? Aquela Melanie 
to timida dos, estranhos, que no formu~ lava nunca uma opinio pessoal, receosa de incQrrer no 
desagrado dos outros, aquela Melanie que tinha medo da prpria sombra... E no entanto--- 
Searlett recuou ao passado e lembrou-se de certo dia quente, l em Tara. Dum corpo fardado de azul 
subia, um fumo cinzento, em espirais. Melanie, com o sabre de Charles na mo, estava ao alto da 
escadaria. Qual fora a, sua reflexo, nesse momento? Ah, fora esta: "Que absurda! Uelly nem pode 
com a espada..." Mas agora sabia que, 
559 
se fosse preciso, ela desceria s degraus empunhando a arma--- e teria dado cabo do yankee ou 
morreria ento. 
Sim, Melly estivera nesse dia com a sabre na mo, pronta, a lutar por Scarlett, E tempos volvidos, 
ao vaguear o olhar triste pelo passado @ompreendia que essa amiga se encontrara sempre a sei@ 
lado, discreta como, uma soni-@ bra, carinhosa, combatendo por ela com apaixonada leal~ dade, 
rechaando os yankees, o incndio, a fome, a pobreza a opinio pblica, e at os parentes que tanto 
estimava' E Scarlett sentiu a coragem -e a confiana abandon-la ao pensar que a espada simblica,, 
que cintilara entre ela e Melane, rec>lhera para sempre  bainha,. 
"Melly foi a nica amiga que eu tive", disse de si para si, desesperada. "A nica mulher que me teve 
alguma, estima,  excepo de minha me. E parece-se com minha me. Todos os que a, 
conheceram procuraram imit-la.*. 
Foi corno se, de sbito, Ellen jazesse atrs daquela porta fechada @-Como -se deixwse o mundo 
pela segunda vez. Searlett achou-!se repentinamente em Tara, desolada por no poder enfrentar a 
vida sem a fora tremenda que provm da fraqueza, da bondade, da, ternur& do corao. 
Elacontinuou no vestbulo, indecisa e assustada. A ela~ ridade do fogo, aceso na, sala, lanava 
altas sombras incertas s paredes que a rodeavam. Toda a casa, recara em completo silncio, e esse 
silncio penetravak-a como uma chuva fininha e glacial. Ashley! Onde estava Ashley? 
Entrou na sala, procurando, As.hley como um animal friorento que se aprakima do lume. Ele> 
porm, no estava ali. Tinha de o encontrar, custasse o que custasse, Descobrira, sim, quo grande 
era, a fora, de Melanie, e compreendera como este apoio lhe era indispensvel - mas s no preciso 
#
momento em que essa mesma fora a abandC@I nava. Restava-lhe, contudo, ainda Ashley, Astiley 
era fortQ, assisado, seria, pois o seu socorro. Nele, no seu amor, residia um poder so@re o qual 
Scarlett apoiaria a sua fraqueza uma coragem de que havia de extr&ir a energia neces@r!a para, 
combater os seus terrores, um consolo que suavizaria o seu desgosto. 
"Deve estar no quarto", pensou e, atravessando o vestbulo nos bicers dos ps foi bater 
discretamente  porta de Ashley. No obteve r@si)osta. Empurrou ento a porta entreaberta e viu-o 
logo defronte do toucador, a contem- 
560 
plar um par de luvas velhas de Melanie, Em primeiro lugar pegava numa l@ observav&-a-, como se 
nunca a vira antes; depois poisava-a devagar, W se fosse feita de vidro, e em seguida erguia outra, 
- Ashley - chamou Scarlett,,com, voz trmula. Ele voltou-se sem press& e fitou-a. Aqueles olhos 
cinzentos tinhara, perdido o seu ar sonhador. Muito. abertos no ocultavam os sentimentos que o 
animavam. Scarlett' decifrou neles unia, inquietao igual  sua, um desespero mais profundo, um - 
espanto que ela jamais revelara. Aquilo redobrou-lhe a intensidade do medo experimentado pouca 
antes no ves-4 tbulo, Aproximou-se de Asliley e disse-lhe: - Estou assus, tada. Proteja-me. Tenha 
tanto medo! 
Sem se mexer, Ashley limitou-se a olh-la, continuando a fechar na mo a luva de Melanie. Scarlett 
tocou-lhe no brao e murmurou-. "Que tem?" 
0 olhar dele <lr-se-a buscar desesperadamente em Scariett fosse o que fosse que no conseguia 
achar. Por fim, falou num tom muito diferente do seu: 
- Quera v-Ia... Estava mesmo para ir em sua, procura,... correr como uma criana que precisasse 
de cons<>lao. E vejo outra criana mais intimidada do que eu.---. 
a correr para mim, 
-No, no deve estar assustado, AshIey. Nunca teve medo, sempre foi forte. Mas eu--- 
-Se fui forte,  que a tinha a meu lado-declarou Ashley quase num soluo, Baixando os olhos 
contemplou outra @ez a luva, cujos dedos alisou. - E... t@da a minha, fora vai com ela! 
Havia tanto desnimo nas suas palavras que Scarlett deixou escorregar a mo e recuou. E, no 
silncio, pesado que se seguiu 'ela teve pela primeira vez a certeza de que compreendia aquele 
homem, 
- Escute, Asliley - murmurou. @- Ama-a, no  verdade? 
Ashley respondeu com visvel esfora: 
- P, o @inko dos meus sonhw que viveu... e@ que ri o se desfez perante a realidade. 
"Sonhos", pensou SearJett, que sentiu renas-oer-lhe a irritao de outrora, "@Qmpre s@onhos! --k' 
incapaz de ter bom sensD" * E' cheia de- amargura, observou:-E voc. louco, no viu que ela valia 
mil vezes mais da que eu? sr, - Vento Levou - li 561 
- Scarlett por amor de Deus! Mal sabe o que tenho sofrido desde'que o mdico... 
-0 que tem, sofrido! No acha que eu...? Oh, AshIey, devia saber, h muito tempo, que era, a elaque 
amava e no a mim. Como  que no percebeu isso? Teria sido tudo to diverso, to... Devia ter 
percebido e no andar a pregar-me os seus sermes sobre a honra e o sacrifcio, Se mo tivesse dito, 
h anos, eu... Sim, a desgosto seria grande, mas sempre reM,,iria. 0 pior  que voc esperava este 
momento, esperava que Melly agonizasse para descobrir a verdade. Agora  tarde demai3 para. 
fazer seja o que for, Oh, Ashley, os homens "que deviam saberestas coisas... n as mulheres. 
Devia saber que a amava, a eIa@... e que a mim desejava, apenas... como Rhett deseja essa tal 
tlng! Ashley estremeceu a es@a explicao, mas os seus olhos continuaram suplicantes implorando 
consolo. Lia-se-lhe a confisso em cada uma as suas feies. 0 prprio vergar dos ombros 
denunciava o rebate de conscincia, mais cruel do que ela. lho poderia sugerir. Ficou, pois, 
silencioso, apertando a, luva de Melanie, como se fora uma verdadeira mo, compreensvel. A 
indignao de Searlett cedeu o lugar a um sentimento de d matizado de desprezo. Arrependeu-,se 
de haver atacado um homem indefeso... um homem por quem prometera,  moribunda, velar da por 
diante. 
"Precisamente", pensou, "quando, fao esta promessa  que lhe digo coisas to contundentes. Ele 
#
no ignora a verdade, e  isso que o mata. No  um homem;  uma criana como eu, e est 
desnorteado pela ideia de perder a mulh@r. Melly conhecia-0` melhor de que eu o conheo. Sabia, 
o que ia suceder, Por isso me encarregou de velar tanto por ele como pelo filho. Como ir AshIey 
suportar este desfecho? Eu suporto-o, porque suporto tudo. Tive de -suportar muito mais. Mas ele... 
ele no aguenta nada, sem ela!" - Perdoe-me, meu amigo - disse em voz alta, meiga e estendendolhe 
os braos. -Sei quanto vai sofrer. Mas lembre-se de que ela ignora tudo--- que riunca desconfiou 
de nada. Deus concedeu-nos esta graa, 
AshIey correu para Scarlett. e apertou-a, convulsivamente ao peito. 
-No chore - disse ela, alando-se na ponta, dos ps a fim de encostar  dele a sua face escaldante. 
Com uma das mos acariciou-lhe o cabelo, e prosseguiu: -Melly quer 
562 
que seja corajoso. Daqui a pouco vai mandar cham-lo e, nessa altura,  preciso que tenha nimo. 
No convm que ela o veja chorar. Transtorn-la-ia muito. 
Apertando-a ainda com mais fora, tanto que mal a deixava respirar, AshIey redarguiu soluando: 
- Que vai ser de mim! No posso, no posso viver sem ela! 
"Eu tambm no", pensou Scarlett, lembrando-se da possibilidade de viver muitos anos sem 
Melanie. Mas fez um esforo para se animar. Ashley dependera dela, Melanie igualmente... Como 
outrora, numa noite de luar em Tara, em que se sentira morta, de fadiga, Scarlett disse consigo: "A 
carga foi feita para os ombros que a podem suportar". Pois bem. Ela tinha ombros fortes, ao 
contrrio de Ashley, Preparou-se para aguentar o fardo, e, com uma calma que estava longe de 
sentir, beijou a face molhada de AshIey sem febre, sem paixo: um beija de puro afecto. -Havemo,s 
de conseguir- declarou. 
Abriu-se violentamente uma porta e apareceu o Dr. Meade. 
-Ashley, depressa-ch4mDu. ele, em tom imperioso. "Meu Deus, morreu! -disse de si para si 
Scarlett. - 
E AshIey no se despediu... Mas,talvez que ... "-Depressa! 
- bradou empurrando AshIey que a olhava como que petrificad6. - V a correr! - Puxou-o por um 
brao e ele, electrizado por essas palavras precipitou-se no vestbulo, seni nunca largar a luva de 
Mlanie. Scarlett ouviu-o afastar-se1e depois o som duma porta que se fecha. "Meu Deus"_repetiu, 
Aproximando-se da cama, sentou-,se e apoiou a cabea nas mos. Sentia~se novamente inerte, 
decerto tanto como nuncai o estivera. Os nervos, prontos a estalar, haviam cedido enfim. Estava 
esgotada, vazia at de toda e qualquer comoo, J no experimentava desgosto, neni remorso, nem 
angstia. Na sua lassido, distinguia vagamente o tiquetaque maquinal dos pensamentos, 
semelhante  do relgio do fogo. 
Dessa bruma, uma ideia se ergueu. AshIey no a amava, jamais a amara; esta verificao no tinha, 
porm, nada de penoso, se bem que o devesse ter, se bem que Scarlett devesse estar desolada, aflita, 
de corao despedaado. Por que no se insurgia ela contra o destino? Contara durante tanto tempo 
com o amor de Ashley ele ajudara-a a dissiPar as trevas! Todavia, a verdade estava acol. AshIey 
no 
563 
k@-' 
a amava, nunca a amara, Que importava, no fim de contas, se ela o no amava tambm? No o 
amando, nada do que ele fizesse ou dissesse a poderia magoar. 
Estendeu-se na cama e descansou a cabea no travesseiro. Era intil combater o pensamento, intil 
repetir: "Mas eu amo-o, sempre o amei. 0 amor no pode, num, instante, transforinar-,se em apatia". 
Contudo, o amor podia ter mudado. E mudara. "Nunca existiu, afinal, seno na minha imaginao,", 
disse Scarlett consigo mesma, extenuada. "Amei qualquer coisa que constru com as minhas mos, 
qualquer coisa que est to morta como M@-_IIy. Talhei um, rico traje e apaxo@nei-me por ele. E 
quando Asffiley chegou a cavalo, to sedutor e to belo, vesti-o com aquele fato e disse-lhe que o 
usasse sem reparar se lhe acertava ou no. No a queria ver doutra forma. Continuei a amar a 
roupa... e no o indivduo que a envergava". 
#
Scarlett podia ver agora, o passado, evocar a longa srie dos anos pretritos, E!-Ia na varanda cheia 
de sol em Tara. Tinha um vestido de fusto verde., semeado de dorinhas, e o seu corao pulsava 
pelo gentil cavaleiro, cuja, cabea loira cintilava, qual um capacete de oiro. Compreendia, enfim 
que Ashley no fora, para ela mais do que um capricho infantil, sem mis importncia, do que esses 
brincas de guas-marinhas que obrigara o pai a oferecer-4he,  fora de carcias. Uma vez de posse 
deles, esses brincos haviam perdido todo o seu prestgio. A,%hley teria sofrido a mesma sorte se, 
nessa. poca, distante ela houvesse tido o prazer de lhe recusar a sua mo. S@ o tivesse nessa altura 
s suas ordens, se o visse apaixonado e ciumento como os outros rapazes a paixo louca cedo lhe 
passaria., desfazendo----se como a`nvoa ao sol, Bastava que, aparecesse outro pretendente. 
"Como fui tola!" pensou com amargura. "Agara terei de pagar tudo isto muito caro. Realizou-se o 
que desejei.. Desejei a morte de MeIly para conseguir apoderar-me de Asliley. E!-Ia morta, tenho-o 
 minha disposio, e no o quero. Com a, sua maldita, preocupao da honra, h-de perguntar-me 
se desejo o divr4cio para casar com ele. Casar com AshIey? No o queria n@ma bandeja de prata! 
0 pior  que o hei-de ter s costas para o resto da minha vida: cuidar da sua sade, evitar que os 
outrog o ofendam... Ser o mesmo que andar com outra. criana agar- 
564 
rada s salas. Perdi um anjalito-, e encontrei outro. filho... Se no houvesse prometido  MellY... 
Pouco me mPOr@ taria no o tornar a ver! 
ouviu um murmrio de vozes, FOI  porta, e VIU 
o V1E@stbulo um grupo de criados pretos, todos ao fundO d tinha nos braos Beau 
adormecom ar assustado. Dilcey , hera enxugava as lgrimas cdo, Peter chorava, a cozln 
eceram. querer pergunCOM o avental. Vendo Scarlett, par 
fazer. Do lado da sala estava india tar-lhe c, que deviam pitty, ambas caladas de mo dada. na 
companhia da tia at (> seu aspecto rigido. Como Os A primeira perdera pretos, olhavam Com ar 
suplicante, esperando que Scar- ,es ao v&1a avanar, as duas senholett lhes desse instru ras 
aproximaram-se. 
- o que devemos. -comeou a tia PittY, cujOs lbios carnudos e infantis tremiam. . 
Scarlett. 
- No@ me digam nada, ou grito -preveniu 
vos falava, era tom agudo e conserDominada pelos ner e outra vez vava os, 
punhos crispad@s. A garganta dava-1h ,upar das coisas relae-i(>um n s  ideia de ter de se OC" _ 
No quero, ouvi-Ias, nadas com a morte de Melanie agora! - acrescentou. 
Havia qualquer coisa de to autoritrio na sua voz que as duas recuaram, espantadas. "No devo 
chorar diante delas", pensou Searlett. "Os pretos desatariam a chorar tambm e isto,seria uma 
confuso. PrecisO> de me conter., Tanto tenho que deliberar' primeiramente ir  agncia funerria 
tratar do enterro, depois pr a c@sa em ordem e receber as visitas. Ashiey  incapaz de fazer 
qualquer destes trabalhos, e Pitty e India muito menos. Contam comigo. Oh, que fardo' Sempre 
tive um a transportar aos ombros... e sempre, o fardo dos <)utros!" 
Observou o rosto de India e o da tia, e arrependeu-se do que lhes dissera. Melanie no teria gostado 
de a ver tratar to rudemente os que ela estimara, 
- Lastimo haver-me exaltado - confessou, f alando com 
dificuldade. -Mas, se me exalto,  por causa dos nervos. Vou at  varanda. Preeiso estar s. Depois 
voltarei, e ns ento... 
565 
@M"I - 
Passou a mo- no brao de Pitty e saiu  pressa, pois sabia que, se continuasse ali, no conseguiria 
manter-se nos justos limites. De facto, necessitava estar s, e chorar para impedir que o corao lhe 
rebentasse. 
Entrou na varanda, fechou a porta, e sentiu no rosto o ar fresco o hmido da noite. A chuva tinha 
cessado, e no se ouvia nenhum rumor seno, de tempos a tempos o cair duma gota de gua do 
beiral. A terra estava env@Ita em nvoa espessa. Todas as casas, do outro lado da rua, se esbatiam 
#
nas trevas - todas excepto uma, cuja janela iluminada luzia entre a bruma, semeando  sua volta 
partculas douradas, Dr-se-ia que o mundo inteiro dormia sob um lenol,de fumo cor de cinza. E o 
mundo inteiro conservava-se silencioso. 
Apoiou a cabea a um pilar da varanda, e quis chorar; mas as lgrimas no acorreram, 0 seu 
desgosto era grande demais para que o conseguisse fazeir. Estremeceu ento, lembrando-se do 
fragor com que se haviam desmoronado as duas cidadelas invulnerveis da sua vida, e tentou 
aplicar a si mesma a velha frmula: "Amanh pensarei nisto, quando estiver melhor". Mas tambm 
lhe no foi possvel realizar esse desejo. Da por diante teria duas coisas no primeiro plano das suas 
apoquentaes, Evocando Melanie compreendia quanta falta a sua amiga lhe fazia; evocand@ 
Ashley, acudia-lhe  mente a obstinao desse homem e a sua prpria cegueira, que a impedira de 
ver como ele era na verdade. Esses dois pensamentos ser-lhe-iam penosos amanh e depois, e em 
todos os dias que lhe faltavam para terminar a existncia. 
"No, hoje no posso tornar-lhe a falar a Asliley. Falta-me a coragem de o ver e de o consola@. 
Voltarei amanh cedo, farei tudo o que for precise, direi a cada um as palavras adequadas. Mas esta 
noite, no. No posso. Vou-me embora". 
A casa dela ficava distante dali apenas cinco quarteires. No esperaria que o lacrimoso Peter lhe 
atrelasse o cavalo ao trem, no esperaria pelo Dr. Meade para a levar em sua companhia. Scarlett 
no suportaria as lgrimas de um nem o silncio cheio de censuras do outro, Desceu  pressa os 
degraus da escada e, mesmo sem capa nem chapu, mergulhou na noite brumosa. Depois de dobrar 
a esquina, iniciou a subida do aclive que conduzia a Peachtree Street: caminhava num mundo 
calado e hmido, e os 
566 
Corno OS que se do en1 sonhos, no produzam seus passos, lgrimas que 
ni rudo. nenhu ub@a, oln o peito opresso pelas 
EnquantO's -xperimentar a sensaO de se no brotavani@ comeou a e 
stncias. "Que ., multas vezes lias mesma, eircun. te.r -Visto j s.U@ apressando o ,asso os nervos 
pregaClisparateb5 pen ; persistia e apodeVam-lhe partidas dessag! Mas a sensa< 
quieta olhou der- 
-lhe jurtivamente 111) esprito. III certo hue, todavia raIVa@sc stranha, de, 1 
redor e,si. Era unia ideia e animal que sente o perigo, 
iiliar. Como um que Me cansei em se tornava fari iada. 4, POr ela ergueu a cabea, 
desconf ailizar. "Alm disso, excesso"f disse consigo, para se tranq1 oeiro... Nunca VI 
est esquisita 1Corri tanW nev a noite ini excepto... excepto ... " sua angstia foi nenhuma 
as! te e a 
Ento a verdade surgiu elaramen 
Sabia j o que era. Por mais de cem vle's ainda maior. . no meio duma nvoa SeMetivera 
aq-aele pesadelo,-. fugIa a<:Io de 
ern brumasdensas, POVO lhante, num pas envolto mento sombras e de 
espectros. Sonhava, Pois, nesse mo 
o sonho tornara-se realidade? . sas Mais forte do ou Por instantes perdeu a noao <:Ias coi 
. , entada voltava 
s vezes exPerIm e o que nunca, a sensao tanta erar o corao. A morte 
domin-la, fazendo-lhe, acel 1 outrora em Tara. 
iviam-,a de novo, Come restwsilncio envo importava nc, inundo, s 
Desapaxecera tudo 0 que a. uni te@ror pnico, tal se, vam runas, NO corao uiva- 
frio A nvoa enlaava-lhC fossem rajadas de vento muito e @@arlett desatou a correr 
s como que a, prend-la, ; seus sonhos, fugindo as mo ,er* corno centenas de vezes noE 
ida. por UM -a corr` Lava, PersegI cegamente sem saber j onde es1 
@ ela prO @udo, entre a bruma grisalha medo estr@nho. CO-nt -se sem. perigo. 
curava o stio onde Poderia acolher 1 
seura, de cabea baixa corao Pal 
#
4ssim subia a rua e do orvalho.da noite, ASS rvores pitante, lbios hmidos @ cima 
da cabea. Sim* ,erguiam-se-lh,e ane@,@adoras Por - pas lgubre 
algures um ref9O, naquele so ao trede-via haver 1 Estugou mais o pas 
feito de silncio niolhado: -lhe geladas, COnpar 
a encosta, com as saias a baterein lhe estalavam. 
torriOz,elos. Pareca que os Pulmes ia-se-lhe pelo tra os o arnachu-cava-lhe as costelas, met 
o espartilh 
filei corao, dentro. uma r de luzes @ De repente SU'gu-lhe uni, claro, 
ra clarifoscas,e, trmulas. No seu pesadelo jamais houve 567 
dade, mas apenas nevoeiro cinzento e frio. Luzes significavam segurana gente, realidade. Scarlett 
deixou de correr, cerrou os punhos, lutou contra os terrores que a dominavam e olhou fixamente a 
fila de lampies: deste modo compreendeu que estava em Atlanta, na Peachtree Street, e no no 
reino do sonho e dos espectros. 
Ofegante, sentou-se numa pedra, diligenciando domar os nervos como qdm. puxa cordelinhos, 
com os dedos. @"Corri... corri como uma louca. Mas para onde  que fugia?" 
Principiava a respirar mais facilmente. Ps a mo no peito, para comprimir o corao e com, a 
olhar, percorreu a rua de ls a ls. L ao alto a6ava-se a sua moradia, com, todas as janelas 
iluminadas, com<> se desafiassem o, nevoeiro. A sua casa... o seu lar... Com quanta gratido a 
contemplou, essa construo macia que se elevava entre a bruma! Pouco a pouco o esprito 
acalmou-se-lhe. 
0 seu lar... Para ai  que desejava ir. Para a  que corria. Junto de Rhett! 
Bastou-lhe lembrar-se, disso para que experimentasse uma sensao de alivio. Estivera prisioneira, 
mas acabava de se libertar das grades e, ao mesmo tempo, daquele medo que lhe povoava os sonhos 
desde o, dia em que, regressando a Tara, tinha encontradoi morto o seu mundo. Em Tara no havia 
achado nem segurana, nem fora, nem juzo, nem ternura, nem compreenso-eosas que Ellen. 
representava, e que foram o baluarte da sua juventude. E emhora depois disso alcanasse bem-estar 
material, os pesadelos continuaram pelo tempo adiante. Contudo, o porto de abrigo que procurava 
nos seus sonhos e se ocultava sempre entre montanhas de nvoa,, j ela ag'ora sabia <:>nele ficava. 
No, era Ashley, no-1 Nele havia tanto calor como um fogo-ftuo, tanta estabilidade como -nas 
areias movedias; era Rhett, Rhett que possua braos fortes para a agarrar, peito largo para 
descansar a cabea, riso trocista para fazer os seus cuidados retomarem as suas devidas propores. 
Rhett parecia-se com ela, porque tambm sabia ver a verdade nua e crua, desprezando noes 
tericas da honra, do sacrifcio, da exagerada f na natureza humana. E ele arnava-a. Por que  que 
no percebera isso mais cedo, apesar do., sarcasmos com que Rliett dava, a entender o contrrio? 
Melanie vira com mais clarividncia e, no seu 
568 
ltimo suspiro, dissera que fosse boa para com ele. "0h. 
- murmurou - AshIey no  o nico a ser estupidamente ,cego! Eu tambm devia ter enxergadc> 
melhor". 
Durante anos fora amparada pelo amor forte de Rhett, e fizera tanto caso disso como o fizera da 
amizade de Mela nie, vangloriano@-se de extrair de si mesma a sua prpria energia. E assim como 
pouco antes compreendera que Melanie a no abandonara na sua spera campanha contra a vida, 
tambm agora percebia que Rhett sempre estivera por trs dela, -calado, amoroso e compreensivo, 
pronto a lhe prestar o seu auxlio. Na quermess@e, ele tinha-lhe lido nos olhos o seu desejo e 
convidara-a logo a danar; ajudara-a a fugir  escravido da viuvez acompanhara-a atravs do 
incndio e das exploses, naqu@la. poite da rendio de Atlanta, eniprestara-lhe o dinheiro, 
necessrio para entrar nos negcios, confortara-a quando acordava assustada depois dos pesadelos... 
Que homem faria isso tudo, se no estivesse loucamente apaixonadQ? 
Das rvores caam gotas de orvalho, mas Scarlett no as sentia. 0 nevoeiro girava  -sua volta, e ela 
no lhe dava ateno. Quando pensava nesse homem de rosto trigueiro, olhos vivos, e dentes 
cintilantes, era certo cornear a tremer. 
#
"Amo-o" ' pensou _ E, corno. sempre, aceitou a verdade sem grande admirao, como uma Criana 
que recebe um presente* @(No sei desde quando  este amor, mas sei que  reaL AshIey no mo 
deixava descobrir, AshIey estava sempre  minha frente". 
Amava-o. as%im velhaco tal qual era, sem escrpulos, sem honra... pelo menos sem aquela. honra 
que tanto preocuPava AshIey, "Que o diabo, a leve, essa honra de que fala Ashley! Sempre me 
prejudiquei com isso desde o princpio, quando ele me visitava e j sabia que'a famlia queria o seu 
casamento com Melanie. Rhett, pelo contrrio, nunca me deixou mal colocada, nem sequer na tal 
noite da recepo em casa ds, Wilkes... quando podia muito bem t,er-ine toreido o pescoo. 
Mesmo ao largar-me na estrada, no dia da queda de Atlanta, mesmo a ele contava que eu Me 
salvaria, fosse Como fosse. At quando fingiu querer Compensaes, na visita que lhe fiz  priso 
yankee! No me obrigaria, com certeza, a ser sua amante... Era s para Ine experimentar. Concediame 
o seu amor e eu proc-edia, Por meu lado, corn tanta mesquinhez! No deixei nunca 
-569 
de o ofender; Rhett, porm, sendo orgulhoso, jamais o deu a entender. E quando Bonnie morreu... 
ah, como  que eu pude?!" 
Levantou-se e olhou para a casa, no cimo do outeiro. Meia hbra antes, julgara, ter perdido tudo no 
mundo, excepto o dinheiro; tudo o, que tornava a existncia desejvel, Ellen, Gerald Bonnie Bab, 
Melanie e AshIey. Foi preciso perd-los re@imente 'para compreender que amava Rhett... que o 
amava porque era forte e sem escrpulos, apaixonado e materialista... como ela. 
"Dir-lhe-ei isto mesmo, e Rhett perceber. Sempre me percebeu. Dir-lhe-ei quanto fui parva e 
quanto o amo. Dir-lhe-ei que vou emendar-me". 
De repente sentiu-se feliz, cheia de fora. No tinha medo do escur6, nem da nvoa, e, com o 
corao jubiloso, pensou que nunca mais teria medo, por mais nevoeiros que a rodeassem. Sabia 
onde estava o seu refgio. A toda a pressa, retomou o caminho para casa. iEsta, no entanto, 
pareceu-lhe distante, muito distante. Mas Scarlett corria, erguendo as saias at aos joelhos. Desta 
vez no fugia apavorada: precipitava-se para a frente, porque ao fim da rua a esperavam os braos 
de Rhett. 
1 63 
A PoRTA da rua estava aberta, e Searlett, quase sem flego, penetrou no vestbulo e parou um 
instante debaixo dos prismas arco-irisados do lustre, Apesar da profusa iluminao, reinava 
silncio, na casa. No era a serenidade do sono, mas qualquer coisa lgubre, que infundia 
inquietao. Searlett percebeu logo que Rhett se no encontrava nem na sala nem na biblioteca, e 
ocorao, oprimiu-se-lhe. Havia sado... fora ter com Belle, ou ento para um desses lugares onde 
passava as noites, quando no vinha jantar. Sernelhante hiptese  que ela no previra. 
J ia subir a escada, a fim de o ir procurar-e de sbito notou que a porta da casa de jantar se 
encontrava fechada. Defronte dessa porta fechada sentiu uma espcie de vergonha porque se 
lembrou das vezes em que Rhett fi,cava sozinho a beber, at que Pork o fosse buscar para o meter 
na cama. De quem a culpa, seno sua, se o marido se embebedava assim? Ora, da por diante, tudo 
iria mudar. 
570 
"Meu Deus - murmurou - faze! com que ele n esteja hoje embriagado. Se bebeu demais, no me 
acreditar. H-de rir-se de mim, e eu morrerei de dor", 
Entreabriu devagarinho a porta e lanou um olhar a toda a volta da casa de jantar. Enterrado na 
poltrona do costume Rliett achava-se diante da mesa, sobre a qual se via um@ garrafa intacta e um 
copo ainda no servido. Graas a Deus, no tomara nada! Scarlett ia falar, quando o offiar dele a 
deteve, @c-omia que pregando-a ao limiar. 
Fitava-a com os,seus olhos escuros, cheios de fadiga, em cujas pupilas quase no havia claridade, 
Embora os cabelos da mulher lhe tombassem pelos ombros, e ela arquejasse e as saias estivessem 
enlameadas, Rliett no mostrou n nhum espanto, os "seus lbios no esboaram nenhum sorriso 
escarninho. Continuou enterrado na poltrona; o fato amarrotado fazia-lhe pregas na altura do 
estmago proeminente. Tudo no seu corpo acusava a runa do atleta, o envilecimento do vulto 
#
enrgico. 0 lcool e outros vcios tinham marcado aquele perfil de medalha; j ncr era o rosto dum 
prncipe pago cunhado em oiro, mas uma cabea de Csar decadente numa velha moeda de cobre 
muito gasta pelo, uso. Olhou Scarlett sem se mover, com a mo poi%ada no peito: um olhar calmo, 
quase amigvel, que a assustou deveras, 
- And sentar-te - disse ele. - J morreu? Scarlett fez que sim com a cabea e aproximou-se do 
marido cora passo hesitante. Desconcertava-a aquela nova expresso n face de Rhett. Sem se 
erguer, ele puxou uma cadeira com o p e Scarlett deixou-se cair nela. Teria preferido que lhe no 
falasse to, cedo de Melanie, que no a obrigasse a reviver os horrores dessa hora acabada de 
passar. Havia muito tempo para se ocupar disso. 0 que lhe parecia necessrio era declarar j que o 
amava: nessa mesma noite ' nesse momento,  que devia dizer-lhe tudo o que sentia. Mas calou-se, 
porque na cara de Rhett no sei que viu que a envergonhou de sbito falar de amor, quando- 
Melanie ainda no arrefecera de todo. 
- @nto, paz  sua alma - acrescentou melanclico. - 
Foi a unica pessoa realmente boa que eu conheci. 
- Sim, Rhett! - exclamou a mulher, desesperada, lembrando-se de tudo o que Melane fizera para 
seu bem. - 
Por que no vieste comigoi? Precisei tanto de ti! ' 
- No teria coragem - limitou-se ele a declarar. 
571 
Calou-'se um instante e ajuntou com voz suave: -Uma grande dama! 
0 seu olhar sombrio relanceoua, e ela, notQu-lhe a mesma expresso que tinha nessa nolte da 
rendio de Atlanta, quando Rhett lhe anunciara o propsito de se reunir s tropas' em retirada. Era 
o ar dum homem que se conhece a fundo mas que, descobrindo em si mesmo virtudes e comoes 
inesperadas ' se sente 'um tanto ridculo com a sua descoberta. E c> olhar continuou inquiridor, 
querendo ver por cima do ombro de Scarlett como se julgasse que MeJanie atravessava em sil^ncio 
o @uarto e se dirigia para a porta. Era um adeus; porm a fisionomia no denotou tristeza nem 
mgoa,, apenas uma. espcie de surpresa pelo regresso de sentimentos mortos desde a infncia. 
Scarlett estremeceu. Extinguia-se a bela chama interior que a incitara a voltar para casa. Adivinhou 
em parte o que se passava na alma do marido ao dizer aquele adeus'  nica pessoa que ele 
respeitara, De novo Scarlett experimentou uma sensao de perplexidade. No podia compreender 
nem analisar por completa o que Rhett sentia, mas pareceu-lhe tambm que fora tocada de leve por 
uma saia rumorejante, cujo brando contacto se assemelhara a uma derradeira carcia; e seguia nos 
olhos de Rhett no a passagem duma mulher, mas dum smbolo: o smbolo das mulheres gentis, 
apagadas e contudo indomveis, nas quais o Sul tinha haurido a sua energia durante a guerra civil e 
cujos braos dignos e fiis o acalentaram depois da derrota. 
Ao fim de certo tempo, ele baixou o olhar sobre Scar~ lett, e disse, j num tom frio e 
despreocupado: 
- Com que ento, morreu... A ti convm, no  verdade? 
-Como tens coragem de dizer semelhanteg coisas? Sabes quanto gostava dela! 
-No, no sabia. n uma surpresa, Mas fica-te muito bem esse sentimento, conhecendo-se a tua 
propenso para a canalha. Ao menos soubeste apreci-la...  ltima hora. 
-Sempre a apre6ei! Tu  que no, No a conhecias como eu. Nem podias compreender ... como 
ela era bondosa. 
-Palavra? Talvez tenhas razo ... 
572 
- Melane pensava em todos, menos em si mesma. Olha, estas derradeiras palavras foram a teu 
respeito,., 
Nos Gibos de Rhett brilhou um claro de sinceridade, quando ele inquiriu: 
-Que disse ela7 -Depois te contarei, Rhett. 
- Dize agora. Falava com frieza, mas agarrou-lhe o pulso e apertou-o com fora. Searlett no queria 
ainda falar da morte de Melanie; no era assim que desejava aflorar o, assunto ,do seu amor, Mas a 
#
mo de Rhett no a largava. 
-Disse... disse que fosse "boa para o capito Butler, que te ama tanto". 
Rhett titou-a e desprendeu-lhe o pulso. Depois fecliQu os olhos -- o rosto tornou-se-lhe 
impenetrvel. At que, levantando-se, foi  janela, afastou as cortinas e perscrutou a noite, cQmo se 
houvesse alguma coisa a ver l fora, alm do nevoeiro, 
- No disse mais nada? - perguntou, sem se virar. 
- Pediu-me que tomasse conta do pequeno Beau. Prometi ocupar-me dele como sic@ fosse meu 
filho. 
- E que mais? 
- Pediu~m@@ tambm... que olhasse por AshIey. Rhett esteve um bocado silencioso e comeou a 
rir em surdina. 
- n cmodo ter autorizao da primeira esposa. -Que significa isso? Rhett voltou-se e ela ficou 
admirada de no lhe ver nenhum trao de. sarcasmo na fisionoma. Estava com ar to indiferente 
como uma pessoa que assiste ao ltimo acto duma comdia maadora. 
- Suponho que  claro o sentido das minhas palavras. Melly morreu. Tens t<)das as provas 
necessrias para requerer o divrcio e a tua reputao no  to grande que esse facto te cause 
embaraos, Tambm no, tens sentirnentos religiosos. Ento, por que h"e esperar? Os teus sonhos 
realizam-se com a bno de MeIly. 
- Divorcar-me? - bradou Scarlett. - No e no! Sem saber ck que- fazia,, levantou-se dum pulo, 
correu ao marido e agarrou-lhe num brao. - Ah, enganas-te redondamente! No posso divorciarme, 
Eu... - Calou-se, incapaz de encontrar uma s frase com que prosseguisse. 
Rhett pegou-lhe no queixo, voltou-lhe acara para a luz, 
573 
lab@k@ 
VV@_" 
in.speccionou-lhe as Pupilas, Searlett suportou o exame dos olhos dilatados palavras no a 
Quis fala@' os lbios tremeram~lhe @ as dele unia como, udiram. Diligenciava descobrir no 
olhar de alegria @o igual  sua claro de esperana ou . Rhett devia j sai;erurnMas a sua 
vista ansiosa outra coisa no lobrigou alm frvel. dum rosto fechado, indeci--- 
Rhett largou-l,he o queixo sentou-s,e com ar fatigado Ije cabea baixa, continuaoue 
voltou Para a Poltron a observar a mulher, mas -sempre sem 17rande interesse. Ela aproximou-se e, 
unindo e desunindo dante do mari0 os dedos, postou_se 
--Enganas-te* disse por fini.-Esta noite Rhett quando mecompenetrel da verdade, corri todo o Para 
ta dizer. Oh meu querido eu... @aminh@ E - Ests canda -volveu '1@hett 
r melhor que te fosses deitar, ainda a mir-la. 
-Tenho que te dizer... -Scarlett, no quero... ouvir absolutamente nada. -Mas no sabes o que eu ia... 
- Ora, est escrito na tua cara. Qualquer coisa... algum... fez-te compreender que o infeliz Wilkes 
era uma Pilula muito amarga de engolir. Ao mesmo tempo, os meus encantos apareceram~te sob 
uni aspecto novo... - Suspirou e concluiu. -No vale a pena falar mais disto. 
Scarlett teve um sobressalto de espanto. Era certo que Rhett lia sempre nos olhos dela. At a 
Scarlett irritara~se, com o caso, mas agora depois, da primeira impresso, experimentou uma esp 
cie de alvio, de prazer. Ele sabia, ele compreendia; a sua tarefa estava grandernente facilitada. No 
valia a pena falar mais Sem dvida que o marido a acusava no intimo de o haver p r tanto tempo 
desprezado, e deste modo o que se Q 
nta era desconfiana pela brusca reviravolta. Convinha preparar-lhe melhor o terreno, provar-lhe o 
seu amor duma forma categrica. Hava de ser to bom! 
- Meu querido vou dizer-te tudo - comeou ela, pondo a mo no brao da'poltrona e inclinando-se 
para o marido. 
- Tenho, sido to estpida, to... 
- Scarlett, no continues nesse tom. Nada de humilhaes  minha frente. No suporto isso. 
Conservemos um Pouco de dignidade, POUPemo-nos este final... 
#
Ela endireitou-se de sbito, pensando: 
574 
retender dizer com essa frase? No, "Este final? Que P se trata de fim nenhum! n um comeo, pelo 
contrrio". F,, em voz alta, replicou: 
- Mas eu quero, explcar-te... - Falava precipitadarnente com medo de que ele lhe tapa ' a boca. - 
Oh, 
s" Rhett, amo-te tanto, meu querido! Devia ter-te amado durante muito tempo... mas era estpida 
demais para o saber. Acredita~me, Rhett. 
0 marido envolveu-a num olhar demorado, que a penetrou at ao ntimo. E Scarlett, percebeu que 
ele acreditara, mas que no lhe interessava saber. Iria ser descorts, como das outras vezes? 
Atorment-la? Pagar-lhe na mesma moeda? 
- Creio-te - confessou por fim. -Mas, a respeito de AshIey? 
- Asliley - repetiu Scarlett, fazendo um movimento de impacincia. - Penso... penso que no me 
inspira nenhum sentimento... que nunca mo inspirou... Era uma espcie de hbito, adquirido na 
mocidade... Se eu soubesse o que Astiley era na realidade, bem me parece que nunca me 
preocuparia com ele.  to aptico... com a mania da verdade, da honra... 
- No - interrompeu Rhett. - Se tens de o julgar exactamente como  pe as coisas nos devidos 
termos. Astiley-no passa dum cavalheiro metido  fora num mundo que no. lhe pertence e ao 
qual se esfQra por aplicar as normas doutro mundo desaparecido. 
- @@ melhor no falarmos dele, Rhett. Que nos importa agora esse homem? No ficaste satisfeito 
por saber que... isto ... - Tornou a encontrar os olhos do marido e deteve-se, intimidada, como uma 
rapariga em presena do namorado. Se ele ao menos lhe facilitasse o trabalho! Se lhe estendesse os 
braos, para que ela se precipitasse neles e se sentasse no seu colo! Os lbios de ambos, unidos, 
seriam mais eloquentes do que todas as palavras. Mas, observando-o Scarlett compreendeu que, no 
era por maldade que Rhett a repelia. Dir-se-ia que deixara de sentir fosse o que fosse. A confisso 
da mulher no despertara nada no peito do marido. 
- Satisfeito? Outrora, teria agradecido a Deus, de joelhos, a alegria de ouvir tudo isso. Agora... -me 
indiferente. 
575 
Indiferente? Que ests a dizer? Rhett, tu gostas d,@ mim, A Melly avisou-me. 
-Sim, ela tinha razo, tanto quanto podia saber. Mas escuta, Scarlett: j pensaste que ainda mesmo o 
arnor eterno... acaba por se extinguir? -Boquiaberta a Mulber olhava-o sem saber que lhe dissesse. 
Rhett coAtinuou: - 
0 meu extnguiu-se. Foi de encontro a Ashley Wlkes e  tua insensata teimosia, que te obrigava a 
agarrares-te corno uma lapa a tudo o que queria,9 imaginar... 0 meu amor morreu. 
-0 amor no pode morrer, Rhett! -0 mesmo sucedeu ao que tu sentias por A_shIey. -Mas eu, na 
realidade, nunca o amei. -Ento, fingiste-o lindamente... at esta noite. Scarlett, no te acuso. Esse 
tempo passou. Poupa~me as tuas queixas e os teus protesto,%, Seconseguires ouvir-me cinco 
minutos sem me interromperes ' eu sou capaz de te explicar o que sinto, embora no me considere 
obrigado a explicaoes, graas a Deus. A verdade salta aos olhos, 
Scarlett sentou-se. A luz crua do gs batia-lhe em cheio na cara lvida. Mergulhou depois o olhar 
naqueles olhos ,que ela conheca ao mesmo tempo, to bem e to mal, e escutou-essa voz tranquila 
dizer-lhe palavras que, de comeo, no significavam nada. Era a primeira vez que Rhett lhe falava 
assim, como toda a gente, sem ironias nem enigmas. 
-Jamais te passou pela cabea que eu te amasse tanto como, um homem pode amar uma mulher? 
Que te amei durante anos antes de seres, minha? Durante a guerra, parti para longe, na ideia de te 
esquecer; mas no deu resultado, tive de voltar. Depois da guerra deixei-me prender, porque vim em 
tua pocura. Amava-te tanto que julgo seria capaz de matar Frank Kennedy se ele no morresse de 
outra forma. Amava-te, mas no queria que o soubesses. Tu s cruel para eGin os que te amam, 
Scarlett. Pegas no amor deles, fazend-o estalar sobre as suas prprias cabeas, como um chicote. 
De'tudo isto, s lhe interessava o facto de ele a amar. Ao som da voz de Rhett, onde perpassavam 
#
um eco dbil de paixo, ela sentia-se invadida outra vez dum assomo de prazer. E ficou imvel, 
retendo a respirao, ouvindo, esperando... _ Sabia que no me dedicavas amor, quando casaste 
576 
comigo, Sabia o. que pensavas de Astiley, mas, insensato ..Mo,era, pensei conseguir um dia o que 
nQ tinha. Podes rir, se quiseres; a verdade  que pretendi tomar cuidado em tj e dar-te tudo o que 
desejasses. Quis casar contigo, proteger-te, conceder-te carta branca em tudo que te fizesse 
telizexactamente 
como fiz com Bonnie. Tinhas lutado tanto! Ningum sabia to bem como eu as 
privaes por que havias passado. Quis que deixasses de combater, porque eu combateria por ti. 
Quis que te distrasse@ como uma criana, porque eras uma criana teimosa, ao mesmo, tempo 
herica e assustadia. Creio que ainda s assim. S uma criana poderia ser-to obstinada e 
insensvel. 
Rhett exprimia-se numa voz calma e cansada, mas na sua entoao haviaqualquer coisa que 
suscitava em Scarlett o fantasma duma lembrana. Ouvira j certa voz corno aquela, em 
determinada e dolorosa poca da sua vida. Onde? A voz dum homem que se analisava a si mesmo e 
ao seu mundo, sem como,o, sem indecis&s, sem esperana. 
Onde? Quem? ETa AshIey na quinta de Tara, em certo dia invernoso. Falava do espectculo das 
sombras com resignada placidez, mais irritante do que acentos de amargura. Da mesma forma que a 
voz de AshIey a tinha geladeF, despertando@-lhe o medo das, coisas que no podia compreender, 
assim a voz de Rhett lhe enchia de angstia o corao. 0 seu tom, a atitude revelada desesperavamna 
.mais do que as pr6pras palavras, obrigando-a a verificar que era prematura a agradvel 
excitao de momentos antes, Havia algo que no estava bem, que estava, por assi@n dizer, muito 
mal. 0 que fosse no o. sabia ela, mas ouvia desalentada, ftando-o, esperando, por outras frases que 
desfizessem a impresso, das primeiras. 
-1@ evidente que fomos feitos um para o outro, To evidente... que eu era e, nico homem das tuas 
relaes capaz de te amar depois de te conhecer a fundo... de saber que eras cruel'voraz e pouco 
escrupulosa como eu. Ama, va-te e tentei a sorte. Pensei que Ashley se apagaria da tua memria. 
Todavia - acrescentou, encolhendo os ombror, eXPerimentel tudo o que estava nc> meu poder e no 
tirei resultado. Se ao menos me tivesses deixado agir, poderia ser o marido mais terno de quantos 
existem. Mas no quQria que conhecesses a minha ternura, porque ento me considerarias fraco e 
tratarias de te servir do meu amor... 
37 - Vento I--vou - n 577 
1,1 
1"iil 
@W@' 1 i o, 
contra mim. E AshIey continuava... Comecei a perder a cabea. No podia sentar-me  tua frente 
sem perceber que terias preferido fosse AshIey e no eu quem ali estivesse. No podia apertar-te 
nos braos sem desconfiar que... Isto, porm, j no interessa. Chego a perguntar agora por que  
que sofri. Eis oque me levou a, procurar Belle. Experimenta-se conforto, embora grosseiro, junto 
duma mulher que nos ama de corpo e alma e que nos respeita como cavalheiro... ainda que essa 
mulher seja uma prostituta iletrada. Isso lisonjeava-me a vaidade. Tu nunca foste muito meiga, 
Scarlett. 
-Oh, Rhett!-acudiu. ela, mais desgostosa ainda ao ouvir pronunciar o nome de Belle. Mas o marido 
interrompeu-a. 
-E ento, naquela noite em que te levei em braos... pensei... esperei... esperei tanto que tive medo 
de te enca-rar no dia seguinte. Medo de me haver enganado quanto ao teu amor. Temi que 
troasses... e sa, e embebedei-me. Quando voltei, tremia como um colegial; se fizesses o mnimo 
gesto de acolhiment<), cairia de joelhos a teus ps. Tu, contudo, no me animaste. 
-E eu que tinha tanta necessidade de ti, Rhett! Desejava-te... Creio que f<>i nessa altura que me 
compenetrei de quanto te amava. Quanto a AshIey... pouco me importava com ele, depois disso. 
Mas tu andavas to intratvel... 
#
- Ali, sim, d-me a impresso de que brincvamos s escondidas! Acabou-se, j no interessa. 
Conto-te tudo isto s para que no tenhas dvidas quanto a certos pontos. Quando adoeceste, por 
minha culpa, fiquei  tua porta  espera que me chamasses; mas no o fizeste, e ento compreendi 
como fora tolo. Compreendi tambm que estava tudo acabado. 
Parou e olhou-a sem a ver, como AshIey tantas vezes a olhara: fitando a<> longe qualquer coisa que 
ela no lobrigava. Incapaz de se exprimir, Scarlett s podia fitar aquele rosto pensativo. 
- Mas - prosseguiu Rhett - havia ainda Borinie e eu pensei que talvez nem tudo tivesse acabado. 
Entretnha-me a imaginar que Bonnie eras tu, que te tornaras outra vez criana, que a cena se 
passava antes da guerra, antes que a pobreza te houvesse marcado to profundamente. Parecia-se 
contigo autoritria, destemida, alegre, cheia de iniciativa. Eu >@dia acarici-la, mim-l... 
exactamente como 
578 
desejaria fazer a ti. Havia s uma diferena: ela gostava de mim. Foi coisa abenoada, esta de poder 
empregar na filha o amor que a mulher no queria aceitar. Quando Bonnie morreu, levou tudo 
consigo. 
De sbito, Scarlett sentu-se apiedada. Teve tanta pena, dele que no pensou na sua prpria dor nem 
nas ameaaE; que se continham nas palavras ditas pelo marido. Era, a primeira vez na sua vida que 
ela se condoa de algum, sem lhe votar ao mesmo tempo desprezo; era a primeira. vez que entendia 
um ser humano. Achava at natural, aquela teimosia orgulhosa, semelhante  sua, de no querer 
confessar o amor, com medo dum desaire. 
- Ah, meu querido - disse Scarlett, aproximando-se mais, na ideia de que ele lhe estendee os braos 
e a. sentasse nos joelhos, - Meu querido Rhett, estou to arrependida... Faamos por esquecer isso 
tudo! Podemos ser felizes, agora que conhecemos a verdade... Escuta... quem. sabe ainda se teremos 
filhos... no como Bonnie, mas.... 
-No, obrigadQ-ripostou o marido, como, quem, recusa um bocado de po. - No arriscarei o meu 
corao pela terceira vez. 
- Oh, Rhett, no digas -essas coisas! Que hei-de fazer para que me compreendas? J te confessei o 
meu arrependimento. 
- 2s uma criana, Scarlett. Julgas que, dizendo "arrependo-me" em relao a todos os erros e 
pecados, eles se apagam de vez da memria; que as- feridas ficam todas cicatrizadas. Aqui tens um 
leno. Nunca te vi usar lenos, Scarlett, nas tuas crises. 
Ela recebeu-o, assoo-u-se ' e voltou a sentar-se. No havia dvida que Rhett se desinteressava de a 
apertar nos; braos. Era bvio que o seu longo discurso sobre o amor se referia apenas ao passado. 
Dir-se-la at falar duma coisa que no acontecera com ele. Eis o que se tornava mais assustador! E 
Rhett olhava-a com bondade, e at com ar nquiridor, 
- Que idade tens, minha filha? - perguntou, vagamente sonhador, - Nunca mo disseste. 
- Vinte e oito - respondeu ela em tom abafado, com, o leno ainda na boca. 
-  pouco. - pouco para j ter empreendido a conquista do mundo e haver perdido a alma. No 
estejas preocupada. No  ao Inferno que eu aludo, pensando na tua. 
579 
aventura com Astiley. Fala metaforicamente. Desde que te conheo que te vi a desejar duas cersas, 
ter Ashley e pos@ suir bastante dinheiro para mandar os QuIros  fava. Pois s ri@a, mandaste os 
outros bugiar e podias ter AshIey se o quisesses. No entanto, i)arece que> isso j no te bast@... 
Searlett estava apavorada, mas no pela perspectiva do Inferno, Dizia consigo: "A minha alma  
Rhett e eu vou pe.rd-IQ. Se assim suceder, nada mais ter interesse para mim, nem amigos, nem 
dinheiro, nada. Consegusse--o ter, a ele, que me importaria a pobreza? Que me importaria o frio e a 
fome? Ah, no  Poss@vel que ele se v... No o no!" Limpou os alhos e, perguntou: - Ilhett, se 
me tiveste tanto amor... ainda haver um bocadinho dele um s? 
-Olha, quando reflicto em tudo isto, concluo que s restam duas coisas, justamente as duas que tu 
mais dete 
e tas: a piedade... e uma estranha sensao de berievolncia. 
#
"Piedade! Benevolncia! Oli, meu Deus!" pensou ela, desesperada. S benevolncia e piedade. 
Sempre que experimentava esses dois sentimentos por algum, era fataL, misturar-se a eles um 
terceiro: o desprezo. Rhett desprez~la-ia agora? Tudo lhe seria preferivel, at a cnica frieza do 
tempo da guerra da Secesso, a frenesi de alcolico com, que a levara nos braos, as observaes 
fustigantes sob as quais (sabia-o ao presente) se escondia um amor cheio de amargura. Tudo, menos 
essa benevolente indiferena que se estampava to claramente no rosto, 
Queres dizer... ento... que arruinei tudo... que no, me tens amor? 
Nem mais. Mas - volveu Scarlett, com a obstinao duma criana que supe suficiente formular um 
desejo, para logo o obter; -mas eu amo-te! 
Tanto pior para ti. Olhou--o bem, a ver se descortinava ironia naquelas palavras. Mas no havia 
nenhuma. Ilhett lmtava-se a. estatur um facto, porm um facto em que ela ainda no acreditava... 
nem podia acreditar. Mirou-o com esses olhos em que ardia to teim~ desespero e apertou de 
repente os lbios, mostrando o queixo duro que tanto se assemelhava ao de Gerald. 
- Rhett, no sejas estpido! Eu posso... -Ele ergueu a mo, arremedando um gesto de horror, p,-la 
diante de si, como para tapar a vista, e nas sobran--@ 
580 
celhs arqu@_adas desenhou-se a dupla curva zombeteira de outros tempos. _Scarlett, deixa esse ar 
resoluto. Assustas-me. Vejo ,que ests a querer transferir de Ashley para mim os teus ardores 
tumultuosos. Temo pela minha liberdade e paz de esprito. No, n<> quero a sortedo infeliz 
Asliley. Alm, disse vou-me embora. 
o@ lbios de Searlett tremeram. Ir-se embora? No, tudo menos isso. Como continuaria a viver sem 
ele? Todos que lhe interessavam a haviam abandonado j, todos fora Rhett. Este no poderia deixla. 
Mas como impedir que o fizesse? Scarlett no conseguiria nada contra aquela determinao fria, 
contra aquelas palavras indiferentes. 
- Vou-me embora. Tencionava prevenir-te, quando regressaste de Marietta. 
- Abandonas-me? -No faas de esposa trgica e desprezada, Scarlett. Esse papel no te vai bem. 
Parece-me ter compreendido que no desejavas nem divrcio nem separao judicial. Pois bem. De 
vez em quando virei c, para pr cobro s ms-lnguas. 
- Quero l saber de ms-lnguas! - bradou ela, furiosa. -A ti  que eu quero, Leva-me contigo. 
- No - respondeu Rhett num tom que era o mais peremptrio deste mundo. Por instantes, Scarlett 
esteve para ter uma crise >de lgrimas, como qualquer criana. Quis deitar-se no cho, injuriar, 
bater com o p... Deteve-a: um resto de orgulho e de bom senso. "Se o fizer" pensou, "ele pe~se a 
rir, limitando-se a observar-me. 1@o devo chorar, nem pedir-lhe que reconsidere; tudo isso 
aumentaria o seu desdm. H-de respeitar-me, ainda que no me tenha amor". Ergueu a cabea e 
conseguiu perguntar-lhe, muito calma: 
- Para onde vais? Ao responder, Rhett mostrou certa admirao no brilho dos seus olhos. 
- Talvez para Inglaterra... ou Paris. Talvez a Charleston, a fim de tentar fazer as pazes com a 
famlia. 
- Mas tu detestas essa gente! Ouvi~te troar tanta vez. Ilhett encolheu os ombros. 
- E ainda troo. Mas j estou farto de vida errante. Tenho quarenta e cinco anos,  idade em que se 
comea a apreciar as coisas que to levianamente se, desprezaram, 
581 
na mocidade: os laos de famlia, a honra, a paz, as razes profundamente enterradas- n solo... Oli 
no, no me arrependo de nada do que fiz! Divert-me @astante, comeo a enfastiar-me, desejo 
conhecer coisas diferentes. Apenas mudar de pele, como as cobras. Quero experimentar 0,9 
aborrecimentos da respeitabilidade... a dos outros, no, a minha. Quero encontrar a dignidade calma 
da existncia, que se leva no meio das pessoas de bom tom, rever o encanto benfico dog dias idas 
... Outrora eu nol soube apreciar-lhes a deliciosa lentido ... 
Searlett sentia-se de nov<> transportada  sua quintade Tara; embalava-a o vento, e ela discernia na 
face do marido a mesma expresso que contemplara um dia no rostoi de Ashley. As frases deste 
voltavani-lhe com tanta nitidez que Scarlett, supunha ouvi-lo, em lugar de Rhett. Lembrou-se de 
#
fragmentos delas 'e repetiu-as em voz alta, como um papagaio: -Seduo... perfeio... Simetria da 
arte grega... 
-Que ests a dizer? -inquiriu o marido, intrigado. -Era. isso precisamente a que eu ia dizer. 
-Assim falou... mais ou menos... Asliley, um dia, a propsito do passado. 
Rhiett encolheu crutra vez <>s ombros. 0 brilhQ extinguiu-se-lhe dos olhos. 
- Sempre Ashley! -exclamou. E calou-se por um momento. - Scarlett, - prosseguiu da a pouco - 
quando tiveres quarenta e cinco anos, talvez compreendas o que quero dizer; talvez estejas tambm 
fatigada das pessoas que fingem ser distintas 'que tm atitudes frustradas e sensaes baratas. 
Ainda assim, ponho em dvida. Creio, antes, que sers sempre a mesma, atrada pelo que cintila e 
no pelo oiro autntico. Seja como for, no posso esperar. tanto tempo, para ver. Nem sinto muita 
vontade nisso. Irei explorar velhas cidades, velhos pases onde deve subsistir um pouco do passado. 
Tornei-me seniimental. Para mim, Atlanta  muito brutal, muito moderna. 
-Cala-te -ordenou bruscamente a mulher. Mal escutava o que ele dizia. No percebera o sentida 
daquela divagao: vendo que no existia na voz de Rhett nada que revelasse o seu amor por ela, 
Scarlett compreendeu apenas que no tolerava mais semelhante discurso. 
Rhett calou-se, e olhou-a admirado. 
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- Hem? No percebeste o que eu disse? - indagou, levantando~se. 
Scarlett estendeu-lhe as mos, repetindo <> gesto imeInorial dos que imploram. De novo a sua 
fislonomia expressou todos os sentimentos de que o corao transbordava., 
- No! - gritou. - Tudo o que sei  que no me tens, amor e que te vais embora. Oh, meu querido, se 
te fores... o que ser de mim?! 
Rhett hesitou, como se escolhesse entre uma mentira piedosa ou a verdade pura e simples, Depois 
respondew 
- Scarlett, nunca fui homem para reunir pacientemente os bocados partidos dum objecto, a fim de 
dizer que assim consertado, valia tanto como novo. 0 que se quebrou, quebrou-se. Prefiro guardar a 
recordao do que era belo a contemplar o resto da vida os pedaos colados. Talvez, se f osse mais 
novo... - Suspirou e concluiu: - 
Mas sou muito velho j para crer que se pode recomear, Sou muito velho para trazer aos ombrosi o 
peso das mentiras perptuas que acompanham a existncia dos que se nutrem de iluses. No 
poderia viver contigo, sempre a mentir-te... e muito menos a mentir a mim prprio. Nem. consigo 
mentir-te neste instante. Desejaria interessar-me pelo que hs-de fazer ou por aquilo em que hs-de 
tornar-te, mas no posso. - Soltou um suspiro fundo e declarou em tom indiferente, mas delicado: - 
Minha querida, faze o que quiseres. 
Ela ficou silenciosa. e viu-o subir a escada. A dor apertava-lhe to, fortemente a garganta que teve a 
impresso de que ia sufocar. Com o som dos passos dele a se extinguirem no corredor do -primeiro 
andar, extinguiram-se tambm as ltimas coisas que lhe interessavam no mundo@. Sabia agora no 
haver splica ou raciocnio que pudesse levar esse crebro frio a reconsiderar na sua sentena. 
Compreendia que ele pesaria cada palavra, apesar do tom leviano com que as pronunciara. E tinha 
essa certeza Porque adivinhava confusamente em Rhett.algo de muito forte, inflexvel e 
implacvel... todas as qualidades que debalde procurara em Ashley. 
No entendera nenhum desses homens que amara; por i~ a ambos os perdia. Agora os pensamentos, 
seguindo 
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uma trajectria imprecisa, diziam-lhe que, se tivesse percebidG Asliley, decerto nunca o haveria 
amado e que se houvesse compreendido Rhett, no o teria perdido. E,'desesperada, chegava a 
perguntar a si mesma se jamais Ientendera algum neste mundo! 
Apoderava-se do seu esprito um torpor misericordioso torpor que ela sabia, por experincia, ceder 
depressa ; lugar a uma dor aguda -como o breve intervalo, de insensibilidade de que beneficiam os 
tecidos falhados pelo ope-, rador, antes de principiar o sofrimento. 
"No quero pensar nisto", decidiu com toda a sua energia' "Enlouquecerei se pensar que Rhett me 
#
abandoia. Deixarei o caso para amanh. Mas -interveio o-corao magoado, recusando aquele 
remdio passageiro _no posso deix-lo partir! H-de haver maneira de o evitar". -No, no quero 
pensar! - repetiu em voz alta. Tentava esconder o desgosto no fundo da conscincia erguendo uma 
comporta contra a mar alta da dor. - Irk... irei eu amanh para Tara!" E, com esta ideia, retomou 
um pouco de coragem. 1 
Voltara j uma vez a, Tara, cheia de desespero e sara depois dessas muralhas protectoras forte e 
armada para a. vitria. O que fizera ento... que Deus lhe permitisse tornar a fazer! Como, no 
sabia. Nes@se instante no.queria reflectir, tudo o que desejava era uma delonga, e depola .um 
refgio para a tratar das feridas e esboar os seus planos de campanha. Lembrar-se de Tara 
correspondia a um blsamo, refrigerante. Via j a casa muito branca a, dar-lhe as boas-vindas, 
atravs da folhagem avermelhada do Outono; sentia o silncio calmo do crepsculo rural descer 
como uma bno, sentia o orvalho cair sobre a verdura dos campos entremeados de tufos claros; 
contemplava o rubro violento da terra e a beleza triste e sombria@ dos pinheiros nos montes: 
ondulantes. 
A evocao desta& imagens proporcionou-lhe um pouco de consolo, reanimando-a' e refegando 
para longe as saudades que ameaavam tirar-lhe o uso da razo. Ficou um momento imvel a 
lembrar-se de simples pormenores da alameda dos cedros escuros que conduzia  quinta, 'dos 
bardos de jasmineiros apoiados  casa, das cortinas nas janelas, flutuando muito alvas. E Bab 
encontrava-se ali... De sbito, Scarlett desejou ardentemente a presena de Bab. Precisava dela 
como, no tempo -em que era criana, 
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necessitava dum peito largo para descansar a cabea e duns dedos nodosos e negros qu4-- lhe 
acariciassem os cabelos. Bab era o ltimo elo que a ligava aos dias bons de outrora.
E Scarlett, com a energia, dos da sua raa, que nunca, se confessam vencidos ainda quando sofrem a
derrota; ergueu o busto e pensou que faria com que Rhett voltasse para ela. Consegui-lo-ia, no o
duvidava. Nenhum homem jamais lhe resistira, sempre que se lhe metem na idia deitar-lhe a mo.
"Pensarei em tudo isto amanh, em Tara. Ser mais fcil. Amanh decidirei qual o melhor processo
de o fazer voltar. No fim de contas,  s mais um dia ... "



Traduo de Maria Franco e Ins Duque Ribeiro
